Epístola de Heloísa a Abelardo

Alexander Pope · Capítulo 1 de 1

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Epístola de Heloísa a Abelardo

Assumpto.

 

Abaylard, e Heloyza viveraõ no duodecimo Seculo; merecendo neste a mais destincta Contemplaçaõ, assim pelos seus talentos, e Conhecimentos literarios, como pelas qualidades externas, de que a Natureza liberalmente os tinha dotado, nenhuma couza porem concorreo tanto para os fazer celebres, como a sua Paixaõ desgraçada: Depois de huma longa serie de infortunios, se retirou cada hum delles a Mosteiros, aonde consagraraõ o resto de seus dias a exercicios de Religiaõ, e Penitencia.

Succedeu, que alguns annos depois da sua separaçaõ, huma Carta, em que Abaylard narrava a hum de seus Amigos todas as suas desgraças, chegou por cazualidade ás maõs de Heloyza, despertou esta narraçaõ toda a sua ternura; e deu occaziaõ a esta famoza Carta, que pinta taõ vivamente os Combates da Natureza, e da Graça.

 

EPISTOLA

DE

HELOYZA A ABAYLARD.

 

Neste retiro quieto,

Onde em morna solidaõ

Levanta os olhos aos Ceos

Cançada contemplaçaõ;

No Lugar onde o Silencio

Repouza profundamente

Que movimentos perturbaõ

Minh'alma com dõr vehemente!

Porque razaõ se extraviaõ

Fòra do sancto retiro

Meus sentimentos profanos

Porque motivo eu suspiro!

E porque meu coraçaõ,

De Amor o fogo esquecido,

Inda será devorado

Ja a cinzas reduzido?

Que! Amarei ind'agora!

Eis a Carta qu'elle envia,

He o nome de Abaylard,

Que inda bejo entre agonia;

Nome fatal e querido!

Nunca mais proferirei

C'os meus labios, a que os votos.

Impoem do Silencio a lei:

He para sempre encerrada

Terna idea de Abaylar

No coraçaõ, que naõ posso

C'o a do meu Deos separar.

Que minha Maõ se suspenda,

Tal nome naõ và traçar....

Mas, oh Ceos, que tenho escripto!

Va-o meu pranto apagar.

Debalde Heloiza aflicta

Recorres ao pranto, á prece,

Determina o coraçaõ,

E sempre a maõ lhe obedece!

Muros, que encerrais sombrios

Mais de mil votos ardentes;

E que os ecchos repetis.

De Suspiros penitentes;

Rochedos, grutas de espinhos,

Por toda aparte errissados,

Penhas que o uzo amacia

Dos joelhos lacerados:

Altàres, aonde Virgens,

Com hum fervor incessante,

Vellaõ de noite, e de dia

Com palidez no semblante:

Imagens d'aquelles Sanctos,

Que aos Ceos por vencer se aprazem

Tua vista, e meu silencio

Insensivel me naõ fazem:

Sempre o Ceo em vaõ me chama,

Quando em fervente Oraçaõ,

Subjeita me a Natureza

Metade do Coraçaõ;

E as preces, jejuns, e o pranto

Naõ póde extinguir thé gora,

Nem ao menos moderar

O fogo que me devora.

Apenas tremula abri

Tua Carta, ah meu Querido!

Logo teu nome s'of'rece

A meus olhos, meu sentido;

Eis que subito rebenta

O sentimento magoado

De minhas desgraças todas,

Nome fatal, e adorado!

Que jamais eu pronuncio,

Sem que meu pranto amargozo,

Envolto em crueis suspiros,

Me lembre o trance horroroso

Tremo sempre, se o meu nome

Co'a vista infeliz acerto,

Pois sei que algum infortunio

O seguirá de bem perto,

Meus olhos nadando em pranto,

Correndo de linha em linha,

Achaõ somente desgraças

Da minha sorte mesquinha

Mil vezes de ardente amor

M'inflama a voracidade,

Outras da dor opprimida

Geme a tenra mocidade;

Em fim no retiro escuro

D'hum Mosteiro clauzurada

Manda a Religiaõ se extinga

A paixaõ mais inflamada;

Aonde deve acabar

Com impossivel victoria

As duas paixoens mais nobres

O terno Amor, e a Gloria.

Mas assim mesmo, Abaylard,

Escreve me, sim, consente

Que eu saiba os ternos transportes,

Que inda tua alma hoje sente:

Nossas dores se confundaõ,

Se temos o mesmo Fado,

Naõ escape hum só suspiro,

Que naõ seja compensado;

Se he est'unico remedio,

Illezo do Fado inhumano,

Serás dos meus inimigos

Abaylard o mais tirano!

Minhas lagrimas--saõ minhas,

Naõ as poupo á Amor saõ dadas,

Ainda as que ser deviaõ

Na oraçaõ derramadas:

Meus tristes olhos naõ tem,

Nem podem ter outra acçaõ,

Será o ler, e o chorar

Sua eterna occupaçaõ.

Huma parte em tuas penas

Tenha por triste prazer,

Ou inda mais venhaõ todas

O meu Coraçaõ encher;

O Ceo inspirou primeiro

Das letras alta invençaõ,

Para dar aos desgraçados

Suave consolaçaõ:

Para huma captiva amante

Foi hum celeste favor;

Ellas exprimem, e fallaõ

Toda a ternura de Amor;

Hum juvenil Coraçaõ,

De seu soccorro ajudado,

Puros dezejos sem susto

Explica ao seu Bem amado;

A alma se manifesta

Co'a singeleza devida,

Aos olhos do charo objecto

He longa auzencia illudida;

Juntando longiquuos Lares,

Corre hum suspiro inflamado

Por seu magico poder

Do Indo ao Polo apartado.

Bem sabes com que innocencia

Teu amor antecipava;

Que da amizade a apparencia

O nosso ardor disfarçava;

Que achei sempre em teu aspecto

Huma angelica figura;

Que emanava dos teus olhos

Huma chama etherea, e pura;

Tua Amante, sem receio

Absorta a teu lado estava,

Por isto, sim, sem remorso

Minha paixaõ fomentava:

Se erguias celeste canto

Ao Supremo Author do dia,

Me figura que o Ceo

Attentamente te ouvia;

Athé as verdades sanctas,

Reveladas com certeza,

Parecia que de teus labios

Cahiaõ com mais belleza.

Que perceitos dictarias,

Que hoje mesmo eu naõ estime,

Facilmente me ensinaste

Que o Amor naõ era hum crime:

Á seducçaõ dos sentidos

Depressa me abandonei,

Naõ vi outra Devindade

Senaõ a que em ti achei;

A posse da Gloria eterna

Com tanto prazer naõ via,

Deixei de invejar hum Ceo

Que por te amar perderia.

Ah! Quantas vezes eu dice,

Se á eleiçaõ de hum espozo

Paterna lei me obrigasse

Com laço eterno, e odiozo.

Julgara toda a uniaõ

Pelo tormento maior,

Se naõ fosse vinculada

Com os encantos de Amor;

He amor qual avezinha,

Se vê prizoens conjugaes

Estende ligeiras pennas,

Eis voa, naõ torna mais:

Embora d'honras, riquezas

Seja hymeneo coroado,

E o nome de quem o abraça

Seja sancto, e respeitado;

Mas brilhantes apparencias

De vulgar satisfaçaõ

Tornaõ se em nada ao aspecto

Da verdadeira paixaõ;

Honras, credito, riquezas

Que sois á vista de Amor?

Inspira este Deos ciozo

Com vingativo furor

Inquietas paixoens terriveis

Ao que profano dezeja

Nelle buscar outro bem

Que so o de Amor naõ seja

Se visse a meus pés prostrado

Do Mundo o amplo Senhor

Inda pelo Throno do Mundo

Desprezára o seu amor;

Thé recuzando do Cezar

O consorcio o mais brilhante

Preferira de quem amo

Ser huma fragil amante.

Se outro titulo encontrasse

Mais terno, e livre seria

Este o nome preciozo

Que para elle tomaria.

Que dita se duas almas

Com indissoluvel firmeza

No seu livre amor conhecem

Só as leis da Natureza!

Hum so objecto ocupa

O Coraçaõ que amor sente,

He possuido, e possue

Em mutua paixaõ ardente;

Em dous Amantes se encontraõ

Pensamentos sempre iguaes;

E sem que os labios se expliquem

Os olhos expressaõ mais.

Se he esta a maior ventura,

Que hum amante pode achar

Esta mesma n'outro tempo

Foi a minha, e de Abaylar....

Mas que subita mudança

Me apprezenta o impio Fado!

Ceos que vejo! O meu amante

Prezo, nû, ensanguentado!

Aonde estava Heloiza

Neste momento horroroso!...

Gritos, forças se armariaõ

Contra o lance sanguinozo.

Oh barbaros, suspendei

A feroz maõ homecida,

Ou arrojai toda a raiva

Contra a minha infausta vida!

Ao menos se ambos culpados

A mesma sorte condemna

Recaha em dous o castigo

Soframos a mesma pena...

A dôr me opprime, e perturba...

Por pejo, e piedade cesse...

Meus soluços, e vergonha

Na garganta a voz impece.

Poderás ser esquecido,

Dia solemne, e fatal

Onde quais victimas fomos,

E esp'rando o golpe mortal

Junto aos tremendos Altares,

Entre combates violentos,

Correo meu inutil pranto

Em taõ funestos momentos.

Dei ao Mundo hum adeos eterno

Á flor dos annos mingoados,

E bejo o sagrado véo

Com os meus beiços gelados.

Tremem os Altares sanctos

Quando minha voz conhecem,

E até os sagrados Lames

Arquejando se amortecem:

O Ceo acredita apenas

A Conquista que fazia;

Ouvem com espanto os Anjos

Os votos que eu proferia;

Mas com tudo ao Sanctuario

Com palidez penetrava,

E os olhos que à Cruz proponho

Em ti somente os fitava.

Graça eficaz, puro zelo

Da santa Religiaõ

Naõ compunhaõ o caracter

Desta infeliz vocaçaõ;

Era hum amor desgraçado

Essencia d'hum Ser constante,

Tudo entregava e perdia

Por ter perdido hum Amante.

Com teus olhos, teus discursos

Vem suspender meu tormento,

Este poder te deixaraõ;

Possa em teu seio hum momento

Repouzar minha cabeça:

Seja em teus labios bebido

De amor o doce veneno

De teus olhos recebido;

Ja naõ pertendo do Fado

Que outro algum bem me destine,

Da-me, sim, o que dar podes,

Deixa que o resto imagine....

Porem nao! Fujaõ de todo

Pensamentos criminozos,

Có meu dever vem mostrar-me

Eternos bens mais ditozos,

Tira a meus olhos a venda,

Pinta-me a Celeste Gloria,

Faze minh'alma te fuja

Dando ao seu Deos a Victoria.

E se a meus votos te negas

Minhas fieis companheiras

Os teus cuidados merecem

Saõ do teu gremio as primeiras,

Saõ plantas que cultivaste,

Filhas da tua piedade.

Que o Mundo vaõ desprezáraõ

Na mais tenra Mocidade,

Ao innocente Retiro

Pela Virtude guiadas

Dentro das Paredes sanctas

Por ti mesmo levantadas.

O teu zelo fervorozo

Tem ornado este Dezerto,

E n'hum Ermo dezabrido

Vio-se O Parayzo aberto;

Aqui nem orfaõ aflicto

Chora a paterna riqueza

Para os Altares roubada,

Que fas profana grandeza;

Nem bellos quadros se admiraõ,

Nem as dadivas brilhantes,

Offertas de pecadores,

Sem virtude agonizantes,

Tributo de hum vaõ dezejo

De comprar o Ceo, negado

Por cauza do meio torpe

Para alcançar empregado;

Mas singela Architetura,

Como a Piedade que a habita,

Melhor os Hymnos repete

Á Magestade Infinita.

Se ao menos te transportasses

Ao lugubre Retiro,

Que da pezada existencia

Verá meu final suspiro

Debaixo destes Zimborios,

De piramides c'roados,

Que os tectos de eterna noite

Seriaõ sempre afumados,

Mas pelas sombrias fréstas,

Somente huma luz escassa,

Com as trevas de mistura,

O Sol medrozo traspassa:

Teus olhos dessipariaõ

A escuridaõ tenebroza;

E em torno de ti brilhára

Huma gloria radioza;

Mas aqui nenhum objecto

Consolador se apprezenta,

Tudo, tudo ergue gemidos?

E do pranto se alimenta.

Vem pois meu Pay, meu Irmaõ,

Meu Espozo, meu Amante,

Tua Escrava, tua Irman,

Tua Filha nesse instante,

Possa em favor de taes nomes,

Nomes que dicta o Amor,

Tua excessiva piedade

Excitar em seu favor;

Couza alguma melhor põde

Dar me erforso a meditar

Ou meus voluveis dezejos

De huma vez determinar;

Thè vejo com indif'rença

Simples divina belleza

Do espetac'lo qu'off'rece

O quadro da Natureza;

Estes pinheiros plantados

Entre erguidas Penedias,

Donde hum vento surdo agita

As suas comas sombrias:

Os regatos serpiando

Por entre penhas fragozas

Co'murmurio, que retumba

Em as grutas cavernosas;

Estes lagos de cristal,

Onde Favonio contente

Com seu agradavel sopro

Encrespa a face dormente:

Objectos saõ, que algum dia

Eraõ por mim taõ prezados,

Naõ me daõ alivio agora

Naõ suspendem meus cuidados:

Pelos solitarios bosques

A negra Tristeza erra,

Esta abobeda sombria

Sepulcros somente encerra;

Espalha em torno hum silencio

Qual da mort' atro, e medonho,

Com seu ar afea hum quadro

N'outro tempo taõ rizonho:

Murcha o esmalte das flores;

Fas denegrida a espessura,

Thè do Mar horrido o som

Que em sequebrando murmura;

Porem devo aqui viver,

Em quanto durar o alento,

Da submissaõ a hum Amante,

Triste fatal monumento.

A morte so quebrar pode

Estas cadeas illezas,

Nas suas maõs deixarei

Todas as minhas fraquezas;

Entaõ meu ardor extincto

Minhas cinzas recolhidas

Aqui esp'rarei que sejaõ

Com as tuas confundidas.

Ah infeliz! Pois te julgaõ

De hum Deos Espoza leal....

Quando somente es escrava

Do Amor, e de hum Mortal!

Vinde, Oh Ceos, em meu socorro...

Mas vem esta imprecaçaõ

D'hum effeito de piedade?

Ou d'atroz exesp'raçaõ?

Que! No azilo o mais puro

De Castidade glorioza,

Nutro de hum profano amor

Huma chama criminoza?

Eu me devo arrepender....

Mas fazer posso o que devo?

Choro o Amante, e minha culpa

A choralla naõ me atrevo?

Eu reconheço este crime,

Subjeito a perpetua pena;

Mas o coraçaõ me arrasta

Quando o remorso o condemna;

Dos prazeres me arrependo,

Em que engolfada medito;

E por fragil contextura

Outros iguaes solecito.

Mil vezes levanto os olhos

Aos Ceos, minha ofença choro,

Outras mil o pensamento

Em contemplar te demoro,

Electrizada de Amor

Desprezo emfim a innocencia,

Que recobrar pertendia

Com austera penitencia;

De ti esquecer me posso!

Odiar minha fraqueza!

Quando a cauza do delicto

He a propria Natureza!

Se destruilla pertendo

Sinto emfim, que o seu Author

He o pranteado objecto

Do meu excessivo amor!

Como separar do crime

A minha paixaõ intento,

Se existe em confuza maça

Amor arrependimento!

Como pode hum coraçaõ,

Qual o meu taõ consternado,

Pertender hum vencimento

A esforço humano vedado!

Antes que minh'alma possa

Seus males adormecer,

Que combates se preparaõ

Entre o amor, e o dever!

Arrepender-se mil vezes,

Recahir, chorar o amante,

Repulsallo; em tudo incerta...

Sem o esquecer hum instante...

Mas naõ! Ja ethereo influxo

De todo o temor separa

Para consumar meus votos

Sacro auxilio se prepara.

Vem meu Pay, faze qu'eu possa

A Natureza enfrear,

Qu'amor renuncie, á vida,

A mim... Ao proprio Abaylar;

Enche do divino Amor

Meu coraçaõ, sim acode;

E quando delle evadires

Somente hum Deos entrar pode.

Ah! Mil vezes de huma Virgem

O destino afortunado,

Que ao seu Creador somente

Tem seus dias consagrado;

Esquece o Mundo enganozo,

Que assim esquecido a tem,

Com as doçuras do socego

Goza o mais solido bem:

Humilde resignaçaõ

Faz sua prece attendida;

Entre o trabalho, e o repouzo

Se reparte a sua vida:

Hum sono doce a dispoem

Para a Vigilia, e Oraçaõ;

Tem com serenos dezejos

Sempre a mesma inclinaçaõ;

He o pranto o seu thezouro,

Aos Ceos penetraõ seus hymnos,

Cercaõ a de graça pura

Fulgentes raios divinos;

Vellaõ-a em torno os Anjos,

Bafejando hum sono grato,

Tecem de apraziveis sonhos

Da eterna Gloria o retrato;

Para ella o Divino Espozo

O annel nupcial prepara;

Escuta o Côro das Virgens,

Que em seu louvor se entoara:

Fragantes rozas do Edén,

Que naõ podem ser murchadas,

Com mais viva côr rebentaõ

As que lhe saõ destinadas;

As azas dos Serafins,

Que os bandos rentos abalaõ,

Mil perfumes esquezitos

Benignamente lhe exhalaõ;

E su'alma emfim voando

Entre a celeste armonia

Sente o seu fim antevendo

A sempre eterna alegria

Dif'rente tropel de sonhos

Minh'alma errante extravia;

E quando em nocturnas sombras

Me retrata a fantezia

Bem como te hei conhecido;

Entaõ minha consciencia

Se immudece, e á Natureza

Deixa liberta influencia;

Meu coraçaõ todo inteiro,

Naõ tendo mais que temer,

Voa para ti a buscar

O seu unico prazer

Eu sim te escuto, e te vejo,

Com minhas maõs deligente

Vou a segurar-te ancioza

Cerro o fantasma apparente;

Desperto-me, e nada escuto,

Naõ vejo mais que o engano;

Dezaparece o fantasma,

Como tu foge tirano;

Eu o revoco, e he surdo

Á minha suplica activa,

Estendo os braços, so acho

Huma sombra fugitiva;

Outra vez os olhos fecho

Para o sonho recobrar...

Vinde outra vez illuzoens,

Vinde outra vez me encantar.

Ah que em vaõ vos torno a ver

Pois comtigo irei vagar

Pelos aridos dezertos

Nossas desgraças chorar:

Logo a huma torre te elevas

Do tempo meia escarpada

Pelos carcomidos muros

De tristes heras cercada;

Ou sobre montoens de rochas,

Cujo cimo as nuvens fende;

Que em arrogante estructura

Sobranceiro ao Mar se estende;

D'ali, qual dos Ceos me fallas;

Mas negras vagas me aterraõ,

Separaõ-nos densas nuvens,

Os ventos furiozos berraõ;

Gélo de horror, eis o sono

Foge de arranco, e me deixa

Outra vez entre os tormentos

Da minha amargoza queixa.

O destino a teu respeito

Tem seu rigor moderado,

Pois dos prazeres, e penas

Fria suspensaõ te ha dado:

He tua vida o socego,

Teu Coraçaõ sem paixoens,

Similhante ao Mar, em quanto

Naõ conheceo Aquiloens:

He igual o teu estado

Ao de hum sancto adormecido,

Que he de todos os pecados

Plenamente absolvido;

E que em seu Deos confiando

Huma certa salvaçaõ

Para alcançar naõ preciza

D'outra alguma espiaçaõ.

Vem pois, querido Abaylard,

Que receio te domina?

Amor o abrazado faxo

Para os Mortos naõ destina;

Imperio em ti ja naõ tem

O fogo que amor ordena,

A Natureza immudece,

A Religiaõ o condenã;

Mas quando fria indif'rença

Governa em teu Coraçaõ,

Por ti ainda Heloiza

Sente a mais viva paixaõ!

Oh chama em meu peito eterna

Activa chama exesp'rada!

Á alampeda sepulcral

Tristemente assemelhada;

Que dà innutil calor

Ás urnas de pedra fria,

Que para os Mortos se accende,

A quem somente alumia:

Que outras scenas se preparaõ

Por onde os meus passos seguem!

Qu'imagens ternas, p'rigozas

Com profia me perseguem!

Ou quando sobre os sepulcros,

Ou prostrada ante os Altares,

Illudindo os meus sentidos

Cauzaõ me acerbos pezares:

Sempre entre o Ceo, e Heloiza,

A imagem tua apparece;

Apenas escuta hum Hymno

A tua voz reconhece;

E quando em truncadas preces

Aos Ceos minha voz levanto,

A cada som que articulo,

Me corre alternado pranto.

Ou se entre nuvens de incenso,

Que á Imagem d'hum Deos se envìa,

E o som devoto do Orgão

Me enche toda de armonia;

Se occorre hum so pensamento,

Que a imagem tua m'offerece

Vejo Abaylar; e a meus olhos

Tudo o mais dezaparece;

Lumes, Templo, Sacerdotes

Á minha vista naõ tornaõ;

E quando aos Sanctos Altares

Mais de mil faxos adornaõ;

E aos Anjos que emtorno os cercaõ

Penetra o maior respeito

Hum mar de paixoens ardentes

Me innunda o cançado peito,

Mas se no tempo em qu'of'reço

Hum coraçaõ mais contricto

Ante o Throno do meu Deos;

E arrepender me medito;

Que invoco este Deos Piedozo

Com meu pranto penitente;

Que vai penetrar minh'Alma

Huma Graça transcendente;

Se te atreves, qual me encantas,

Abaylard es poderozo,

Vem revogar os decretos

Do mesmo Ceo rigoroso;

Disputa-lhe hum Coraçaõ

Com teus olhos, inda mais,

Aos meus escurece a imagem

Das Ditas Celestiaes;

Desvia a Graça Divina

Com hum Mando absoluto

E o meu arrependimento

Se te apraz torna-o sem fructo,

Dos Ceos me fecha o caminho,

Acharás minh'alma franca,

Dos braços do mesmo Deos

A tua Victima arranca....

Mas que digo, desgraçada!

Foge-me!... O Ceo mé depare

Entre nós altas montanhas,

Immenso Mar nos separe;

Naõ tornes mais, naõ me escrevas,

De mim algum pensamento

Naõ tenhas, nem leve parte

Do que he por ti meu tormento:

Teus juramentos disolvo,

De ti nem lembrar-me quero

Tudo o que a mim se refere

So que aborreçao espero....

Olhos cheios de ternura

Qu'inda tanto me lembrais,

Doces ideas queridas

Adeos para nunca mais....

E tu, Oh Graça Divina;

Virtude Celestial,

Esquecimento tranquillo

Do Mundo torpe, e fatal;

Continua esp'rança qu'es filha

Do Ceo, e tudo alegrais,

Fé que d'immortalidade

Nosso gozo anticipais;

Quaes Hospedes, doces, ternos

Em meu Coraçaõ entrai;

E a hum eterno repouzo

Minh'alma aflicta entregai.

Sobre o tumulo estendida

Triste Heloiza pondera

Como hum bem que ja no Mundo

Somente dezeja, e espera....

Que escuto! Que som he este!

Será dos Ventos rugido?

Ou será voz que me chama,

Que julgo ja ter ouvido?

N'huma noute, em que eu vellava:

As alampedas sombrias,

Que estendem seus frouxos raios

Em torno das Campas frias;

Os lumes quaze expirantes,

Me figura a fantezia

Profunda voz subterranea,

Que d'hum sepulcro surgia,

Exclamando--"Triste Irman,

Eis aqui o teu lugar,

Este o azilo que deves

Eternamente ocupar;

Como tu fui algum dia

Huma victima de Amor,

Tremi, orei, devorando

A mais tormentoza dôr;

So neste perpetuo sonno

Pude o repouzo encontrar;

So aqui os desgraçados

Se deixaõ de lastimar

Cessaõ dos tristes Amantes

Os dolorozos clamores,

E perde a superstiçaõ

Os seus lugubres temores;

Porque hum Deos mais indulgente,

Que o Mortal se persuade,

Benignamente perdoa

A humana fragilidade."

Eu corro, eu corro, que os Anjos

Os seus bersos rescendentes

De fino aroma preparem,

E as palmas sempre virentes;

Eu corro onde os Pecadores

Podem repouzo encontrar;

E os Justos de chamas puras

Seus Coraçoens inflamar:

Charo Abaylard, me difere

Pias honras luctuozas;

Vem adoçar-me a passagem

Ás Moradas Gloriozas;

Vê os meus labios convulsos,

Meus olhos immoveis cerra,

Recolhe o final suspiro;

Que minh'alma dezencerra...

Porem naõ... Antes pertendo

De tua maõ vacilante

Co'as sacras Vestes cingido

Huma vella agonizante:

Of'reçe a cruz a meus olhos;

Que pertendo aos Ceos volver,

Ensiname, e ao mesmo tempo

De mim aprende a morrer;

Olha entaõ esta Heloyza,

Que tanto chegaste a amar,

Quando naõ he ja hum crime

O seu rosto contemplar;

Em lividez convertidas

As rozas do meu semblante,

Ja eclipsado nos olhos

Da vida o verniz brilhante;

Toma minha maõ, e aperta

Thé que cesse o respirar,

Que extincta minha existencia,

Eu deixe emfim de te amar...

Quanto es eloquent', oh Morte,

So tu dás liçaõ preciza,

Que he louca a paixaõ profana,

Que hum mero pó diviniza.

Virá tempo, em que este objecto,

Que me vence, e me domina

Na materia organizada

Sofrerá total ruina!

Praza aos Ceos, que estas angustias

Do trance da vida á morte

Por hum Extasi Divino

Teu sofrimento conforte:

Anjos em nuvens brilhantes

Baixem do Ceo desvellados,

E sejaõ dos Ceos abertos

Raios de gloria emanados;

E os Celestes Moradores,

Saudando tu'alma pura,

Te abracem c'hum mesmo afecto

Igual á minha ternura.

Hum mesmo marmore possa

Os nossos nomes conter;

E immortal minha paixaõ,

Qual tua fama fazer;

Entaõ se em fuctura idade

Dous Amantes viajando;

E do Paraclito as fontes

Com devoçaõ procurando;

Unindo suas cabeças

Para ler nossa Inscripçaõ

Bebendo seu mutuo pranto

Co'a mais viva compaixaõ.

"Praza aos Ceos, que em nosso Amor,

Ambos diraõ transportados,

A sorte naõ imitemos

De Amantes taõ desgraçados."

Que enternecidos seriaõ!

E o que ás Aras s'of'recendo,

Inda na pompa solemne

Do sacreficio tremendo;

Que comoçaõ sentira,

Se os olhos seus dirigir

Sobre o piedozo Sepulcro

Que nossas cinzas cobrir!

Por hum instante deixando

O Ceo, do pranto assaltado,

Seo movimento de dôr

Logo será perdoado.

Se o Destino a algum Poeta

Da mesma sorte afligisse

Que hum pezar igual ao meu

Na su'alma pressentisse;

Que a chorar annos inteiros

Elle fosse condemnado

Os encantos que perdera

Auzente o seu Bem amado.

A considerar de continuo

Na imagem que o faz arder,

Aflicto sem esperança

De mais a tornar a ver.

Se ao meu excessivo Amor

O seu Amor igualar

Escreva a funesta Historia

De Heloyza, e de Abaylar.

Aquelle que mais piedozo

Nossos infortunios sente

Este o Genio, aquem he dado,

Cantallos mais dignamente.

FIM.

GUILHERME LANE, RUA DE LEADENHALL.

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*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK EPISTOLA DE HELOYSA A ABAYLARD ***

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