Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco · Capítulo 13 de 26

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Estrelas Propícias

Capítulo XI

A parecer do visconde, os caseiros depozeram as armas e os criados voltaram ao seu trabalho. O chapeo do aguazil, em testemunho de alegria, foi arcabusado e sacudido em farrapos aos quatro ventos do ceo.

O restante do dia e noite correu tranquillo e alegre. Corinna recebeu furtivamente a segunda carta de Antonio d'Azevedo, e sentiu ancias de oscular a mão do visconde, que lh'a entregou com estas palavras:

—O nosso Antonio está n'um largo caminho de venturas. Ha de vel-o em Portugal dentro em pouco, e rico. Tenha orgulho de ser amada por tal homem.

—Tenho! Deus sabe que tenho!—murmurou ella.

 

XI.

 

O incansavel estudo, auxiliado pelo muito saber e prática do doutor Valentim da Costa, habilitou Antonio d'Azevedo a grangear renome em poucos mezes de exercicio.

O velho presava o praticante com mais que a vulgar estima captada pela probidade. Quantos ganhos podia declinar em lavor do laborioso moço todos lhe dava, não exceptuando mesmo os resultantes de seu proprio e exclusivo trabalho. Os clientes não distinguiam entre os dois, e alguns iam mais contentes da linguagem e escripta concisa e vigorosa do doutor novo.

—Já póde o senhor Azevedo, quando quizer, estabelecer-se sobre si—lhe disse o velho um dia—Ha de sobejar-lhe clientela, e está na carreira que leva á consideração e á fortuna. De mim é que já não precisa, meu caro amigo.

—E vossa senhoria assim me dispensa da sua companhia?— atalhou Azevedo—Fiz sempre quanto pude por que esta sociedade lhe não fosse onerosa.

—Ora ahi está! Eu a cuidar que o senhor desejava estar sósinho em seu escriptorio, como todos desejam, e vai agora sae-me o Azevedo o contrario de toda a gente! Pois, em sua boa verdade, o senhor quer ficar na minha companhia?

—Desejo-o; e nunca me lembrou que havia de sahir.

—Pois fique, Azevedo, fique, se o não move o interesse de mais algum punhado de oiro no fim de cada anno. Bem vê como este meu trabalho é interrompido pela gota, pelo rheumatismo e por outros achaques, contra os quaes não tenho que allegar nos nossos reinicolas. Isto está acabado, e acabada estava ha muito a minha tarefa, se não fossem velhos amigos que me tiram da cama para a cadeira, e ás vezes conseguem arrastar-me, em holocausto á amizade, aos tribunaes. Agora os novos que trabalhem, e cá se avenham com o seculo, com o qual eu já me não entendo. Tome o Azevedo conta das minhas procurações, dos meus livros, dos meus amigos, e, se quizer, do meu rheumatismo e da minha gota.

O velho doutor era mui faceto, e mettia sempre a riso a sua gota e o seu rheumatismo.

Estavam elles n'uma d'estas feriadas praticas, quando entrou um cliente de Valentim da Costa.

—Muito bem apparecido seja—disse este—o senhor Fernando de Athaide, fidalgo em Portugal e fazendeiro no Brazil. Vem-me dizer que está de posse dos seus vinculos de S. Torquato, de Alvites e de Ameixoal? Parabens!

—Quaes parabens, meu caro senhor doutor!—disse Fernando de Athaide—Aquillo tem dente de coelho! Tenho gasto o valor dos bens; tenho cinco sentenças a favor, e ainda pelo ultimo barco recebi uma carta do advogado e outra do procurador. Veja lá vossa senhoria o que por lá vai!

Leu o doutor mentalmente, e interrompeu-se em meio com esta exclamação:

—Magnifico bruto é o seu advogado, e o seu procurador outro bruto magnifico! Pois não deixam de intimar ao réo a primeira sentença! Esta, esta é das que desbancam a propria estupidez!...

—Pois olhe que tenho pago a rios de oiro essas brutalidades—disse Fernando.

—Não que ellas valem-no pela raridade!—disse o doutor limpando os oculos e proseguindo na leitura mental.

—Isto agora é que tem graça!—exclamou o velho, arfando em risadas—Está-se lá em Portugal na edade media. Recebem a justiça a fogo e ferro! Ó Azevedo, oiça lá isto, que é perdido em pouca gente.

E leu:

«A diligencia que sahiu de Vianna, retirou apupada e não fez o embargo; a outra que foi com a tropa, retirou debaixo de fogo, e recolheu com um soldado ferido. Á hora que lhe escrevo consta-me que mais de cem homens armados fazem sentinella ao palacio artilhado de Gastão de Noronha....»

—Como? de quem?—exclamou Azevedo.

—De Gastão de Noronha—disse o velho—Conhece-o?

—Conheço!—disse mui alvoroçado e pallido Antonio d'Azevedo— Mas que tiros são esses?

—É muito simples—respondeu Fernando d'Athaide, eu sou o directo successor dos vinculos que retem D. Mafalda de Athaide, mulher de Gastão de Noronha e minha prima. Ha muitos annos que tracto de senhorear-me do que é legitimamente meu. Tenho vencido em todas as instancias; obtive despacho para embargo nos fructos até á final decisão do pleito, annullado por um estupido descuido; e quando os officiaes de justiça vão cumprir a lei, o senhor Gastão dá-lhe fogo, e diz que a casa é sua. Ora vejam o que é Portugal! que civilisação aquella! Com que então o senhor doutor conhece meu primo Gastão de Noronha?

Azevedo, de abstrahido que ficou, não ouviu a pergunta. Fernando encarou em Valentim, como perguntando-lhe se era surdo o praticante.

—Diz o senhor Fernando se o meu amigo conhece Gastão de Noronha—tornou o velho.

—Conheço, creio que já disse.

Esta resposta foi dada com enfadado franzimento de sobr'olho, estranho ao velho.

Azevedo, vencido insolitamente de sua nobre paixão, fitou em cheio o rosto de Fernando, e perguntou:

—O senhor é pobre?

—Graças a Deus, não.

—É rico?

—Assim, assim.

—É muito rico—accrescentou o doutor Valentim.

—E não carece dos bens de sua prima D. Mafalda para ser feliz?— tornou Azevedo.

—Os bens são meus; não são de minha prima Mafalda—redarguiu Fernando com desabrimento.

—Convenho que são seus. Os bens que legitimamente possue sua prima são cinco filhas. Se o senhor tirar áquella familia as terras de que viviam, sua prima e seu primo e cinco meninas terão fome; ao passo que o senhor Fernando de Athaide não saberá que fazer d'essa parcella, que accrescenta á sua abundancia.

—Pode ser que assim seja—disse Fernando descommovido—mas a pobreza não é orgulhosa. Eu escrevi duas cartas a Gastão de Noronha, quando elle estava em Paris, propondo-lhe uma conciliação, e elle nem sequer desceu do seu orgulho a responder ao filho natural de Fernão de Athaide. Ora o filho natural quer desforçar-se como seu pae se desforçaria lançando fóra de sua casa os miseraveis que o não reconhecem como dono, nem sequer como parente. Colloque-se lá na minha posição, e diga-me o que faria?

—Tinha commiseração—respondeu Azevedo, e fingiu-se occupado a folhear uns autos.

—Commiseração com o senhor castellão que manda despejar balas sobre os executores do meu direito!—volveu Fernando—Olha em que postas eu era talhado se vivesse lá n'aquellas serras, em que os ladrões fidalgos se acastellam!

Antonio d'Azevedo pegou do chapeo, e disse que ia jantar e voltaria depois. Ao sahir cortejou urbanamente Fernando, como a pedir-lhe desculpa no sorriso.

—Este homem é exquisito!—disse Fernando ao doutor.

—É um modêlo de honra e virtude—tornou o velho—Não imagina que puro oiro é o d'aquella alma! Foi a commiseração que o excitou a tal estranheza de phrases. Desculpe-o, que o pobre moço, no fim de tudo, disse-lhe uma augusta verdade. Olhe que é triste coisa um homem que educou cinco filhas com todo o mimo e regalias de fidalgas, vel-as privadas de pão e de respeitos sociaes.

—Então que quer o senhor doutor?—atalhou Fernando.

—Eu de mim não quero senão absolver a compaixão de Antonio d'Azevedo, e lembrar ao senhor Fernando, que a caridade e o perdão são as virtudes fundamentaes do doutrinamento de Jesus Christo.

—E achava vossa senhoria acertado—acudiu Fernando—que eu perdesse contos de reis, que tenho gastado n'este capricho, e deixasse os meus vinculos na posse e direitos de minha prima?

—Eu não aconselho, senhor Fernando. Isto de bem fazer não se lê nem se ensina: está dentro do coração, é foro intimo, é materia de tractar com Deus. Faça o que bem quizer; mas de modo se haja que nunca venha a sentir-se mal comsigo proprio.

—A minha consciencia está tranquillissima—retorquiu Fernando.

—Quantas vezes a consciencia está quieta, e o coração inquieto? A consciencia é a inspiradora dos deveres; e o coração da piedade, da humanidade, e d'outras virtudes menos pautadas que os meros deveres e obrigações de uma recta razão. Faça o que quizer, senhor Fernando...

—Como eu me enganei!—atalhou Athaide.

—Enganou-se!? Com quê e com quem?

—Com o seu socio de escriptorio.

—Ora essa! pois...

—Eu lhe digo, senhor doutor. Disseram-me que este Antonio d'Azevedo era um advogado esperto.

—Não lhe mentiram.

—Será; não duvido. Ora, como eu queria acabar com isto á custa de mais alguns contos de reis, vinha com o fito posto em offerecer tres ou quatro contos ao doutor Azevedo para elle ir a Portugal tomar posse dos vinculos em meu nome, removendo todos os embaraços com a sua esperteza. Vinha n'esta ideia, e, quando menos o cuido, acho um prégador de caridade...

—Gratuito...—accrescentou, sorrindo, o velho.

—O que faltava era ter de lhe pagar o sermão que não lhe encommendei!

—Pois olhe que valeu dinheiro! Vossa senhoria, se for scismar no que ouviu, ámanhan está melhor de coração que hoje. Acha que não vale dinheiro um melhoramento moral? Oh! se vale! Até eu lhe devo, a elle mui salutares conselhos para a caduquez, e quando o escuto estou como pezaroso de não ter sido o que elle é. Pois que lhe disse o meu Antonio d'Azevedo? Cifra n'isto: «O senhor é muito rico: deixe essas migalhas que está disputando á familia, que não tem mais nada: faça de conta que pegou de sete pessoas pobres de sua familia, e deu a cada uma sua subsistencia.» Não lhe sôa bem isto ao animo desassombrado, senhor Fernando de Athaide? O seu bom sangue de fidalgo não se azedaria nas veias, se lhe cá viessem dizer que uma porção tão chegada de seus parentes andava lá por Portugal arrastada sobre os espinhos da pobreza, da miseria, e talvez da deshonra? Tem o senhor em Portugal cinco primas. Onde cuida vossa senhoria que as póde levar a indigencia?...

Valentim, fallando d'este theor, tinha os olhos embaciados de lagrimas. Fernando olhava-o em certa estupefacção, que umas vezes é dureza de sentimento, e muitas encendimento de renascida sensibilidade. O velho calou-se, e o primo de D. Mafalda, tomando o chapeo, sahiu sem proferir palavra, cortejando o doutor com um aceno.

—Adeus, meu amigo—disse o velho—Pense no fim da vida. Lembre-se que, no inverno d'ella, costumam os velhos lembrar-se das flores d'alma, que esmagaram na primavera.

Fernando ouviu, no patamar da escada, as ultimas palavras, e sahiu tanto ou quanto abalado.

Pouco depois entrou Antonio d'Azevedo. Viam-se-lhe nos olhos os residuos das lagrimas. É que elle acabava de escrever a seguinte lauda d'uma carta a Corinna:

«

 

«2 d'Abril de 1844—quatro horas da tarde.

 

«Acabo de saber as desventuras que vão em tua casa. Ouvi-as da boca do mesmo homem que vos quer privar d'essas arvores e do berço onde te embalaste, minha querida Corinna. Eu alcanço a profundeza das vossas amarguras, pobres meninas e pobre mãe! Que tremenda afflicção hallucinou teu pae ao ponto de resistir á justiça impiedosa, que não entende de infortunios, nem de lagrimas! Quantas vezes te voaria ao coração angustiado a imagem invalida do teu amigo! Tardias exclamações, filha! Deixa-me ver o que posso conseguir a bem de teu pae, cujas mãos eu espero beijar ainda. Talvez que á hora em que receberes esta carta, começada com tanta alegria, e tão atormentada agora, tudo esteja sanado, e teu pae olhe como suas para sempre essas reliquias de uma grande fortuna mal desbaratada. Tenho um presentimento de que hei de merecer a intervenção da providencia nas minhas intenções. Talvez que, a estas horas, estejas orando, e o anjo do nosso amor me segrede os dons que Deus te concede. Vou sahir, minha Corinna. Vou ouvir o santo varão a quem devo tudo. É tempo de eu lhe mostrar que anjo tu és para o fazer teu amigo, e bemfeitor de ambos. Até logo.»

Valentim observou o ar magoado do seu estremecido amigo, e quiz ver uma extraordinaria causa áquelle compungir-se pela familia portugueza.

—Olhe que eu cá fiquei prégando com o homem—disse o velho— As suas palavras foram o thema do sermão; mas, a fallar-lhe a verdade, não vejo lura d'onde saia coelho. Este Fernando de Athaide, cujo pae e mãe conheci, se não fosse a balda da fidalguia, havia de ser um homem muito estimavel. Está muito rico, e acha-se pobre quando veste a casaca sem o habito de cavalleiro ou official da Roza. Ha pouco arranjou em Portugal não sei que fitinha, que ellas por lá são tantas e tão bastas que não ha saber estremar os fidalgos pelas fitas. Mas o pobre homem não se contenta com ser condecorado pelo que faz (que eu, a bem dizer, não sei o que elle faz ou fez) quer tambem que a sua fidalguia lhe proceda em linha direita dos godos. Para isso precisa justificar-se tomando posse das quintas vinculadas e dos pardieiros que, pelos modos, tem ameias, adarves, barbacans e brazões com corôas e mitras. Isto é o que explica a crua insensibilidade de Fernando com os seus parentes. Ora diga lá, Azevedo, vossê conhece pessoalmente o tal Gastão de Noronha?

—Conheço-o de vista apenas; mas Gastão de Noronha está tão identificado á minha vida, que por causa d'elle estou hoje no Brazil. O senhor doutor Valentim já sabe que o meu coração tem lagrimas de saudade. Eu era na patria o que ainda sou aqui: um rapaz sem bens e sem futuro; e Gastão de Noronha era o fidalgo não rico, mas de sobra ambicioso e soberbo para me não dar sua filha. A mulher que eu amo e choro é filha de Gastão de Noronha.

—É notavel a coincidencia!—disse Valentim—Agora é que a sua mágoa me parece racional, e digna me pareceria de todo o modo. Entretanto, meu Azevedo, na sua mão está salvar essa menina, e desde já, das contingencias da pobreza. O senhor já sabe que tem bastos recursos no Brazil. Vá a Portugal, que a soberba do fidalgo deve estar amollecida. Case com a sua dama, e volte, que os seus amigos cá o ficam esperando.

Riram os olhos de Antonio d'Azevedo; mas este clarão de alegria foi instantaneo.

—Seria a felicidade perfeita para mim, mas não para ella—disse o bacharel, após instantes de reflexão.

—Como assim?—perguntou o velho—que mais póde ella desejar?!

—Que seus paes e irmans não soffram as horriveis privações tanto mais amargas, quanto a vida lhes correu abundante e respeitada. Calcule o senhor doutor que desgosto não seria o d'ella ao lembrar-se que suas quatro irmans ficaram encerradas em conventos, e dependentes da esmola de parentas! e que sua mãe, privada d'ellas, e talvez do marido... como poderia eu ser assim feliz, meu amigo?!...