Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco · Capítulo 22 de 26

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Estrelas Propícias

Capítulo XX

—Não deixo, não, filha. O doutor está feroz; mas aquillo passa-lhe.

—Ora, senhores—tornou o velho tregeitando espanto—O nome, que isso tem em boa hermeneutica, é fomentar o crime! A sociedade não se serve assim! É preciso que cada qual contribua com o cauterio para lhe extirpar os cancros que a corroem.

—Parece que está no tribunal, doutor!—disse Azevedo—A velha eloquencia é ainda brilhante; mas a lei nova, a lei do justo que os fariseus azorragaram, manda cahir o azorrague das mãos do offendido, e castigar moralmente o culpado.

—Moralmente!—retorquiu o doutor—Com que então vossê crê no moral dos negros?!

—Creio na alma dos negros.

—Isso é uma impiedade!

Azevedo riu-se, e, por momentos, duvidou do concerto intellectual do velho.

Mas, a esta injuriosa duvida, ergueu-se o velho, e caminhando para elles, com os braços abertos, exclamou:

—Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, —Não calumniemos a negra, meus filhos! Abraçai-me, anjos! Eu quiz experimentar a vossa caridade! Abraçai-me, santos da honra e da misericordia, que os vossos trinta contos quem os furtou fui eu!

 

XX.

Em uma tarde de maio de 1849, ao oitavo mez de ceo sem nuvens n'aquella chacara, onde á competencia os tres ditosos moradores se davam alegrias, chegou o anjo pallido da morte, e sentou-se no limiar d'aquelle éden, como para vedar o accesso ao anjo do contentamento.

A um lado do leito de Valentim da Costa estava Corinna da Soledade, com o cotovello apoiado no travesseiro e a face na palma da mão esquerda, orvalhada de lagrimas.

Do outro lado Antonio de Azevedo, com as mãos entrelaçadas debaixo do rosto que encostava á borda do leito, erguia a espaços os olhos lagrimosos, e cravava-os nas faces emaciadas e lividas do ancião.

Aos pés do leito estavam sentadas duas velhas negras soluçantes, com os rostos escondidos entre os joelhos.

Na ante-camara moviam-se pé ante pé os restantes dos antigos servos de Valentim, e cada um por sua vez, de instante em instante, vinha, por entre os cortinados de cassa, espreitar o enfermo, e retirava com as mãos postas e o coração em ancias e suspiros.

Valentim da Costa tinha sido confessado e ungido n'aquella tarde. A sciencia retirara ante a irremediavel decomposição dos oitenta annos.

Mas Corinna e Azevedo não podiam convencer-se de que o seu amigo havia de morrer assim, quando, a intervallos, o ouviam discorrer com o socego e energia moral dos mais saudaveis dias. Era a alma imperecedoira allumiada já pela claridade do empyreo: era a prova suprema que ella estava dando de sua immortalidade. A cryzalida desfazia-se, e a borboleta do ceo, n'aquelles assomos de intelligencia, ensaiava seu voejar para o alto.

O moribundo descerrara as palpebras, e dissera:

—Não devia eu esperar tão suave morrer. Homem que viveu sósinho os annos da juventude e força, morrera sósinho. Não quiz o Altissimo que eu pagasse amargosamente a minha incuria. Eis-me com filhos e amigos em volta do meu leito. Bemdito seja o Senhor!

Falleceram-lhe forças, e descahiram as palpebras transparentes, flacidas e azulejadas.

D'ahi a pouco reabriu os olhos, fez signal a Antonio d'Azevedo, e indicou-lhe o travesseiro, que forcejou por levantar.

Azevedo correu a mão por debaixo do travesseiro e tirou papeis, que offereceu ao ancião. Este não pôde erguer os braços quebrantados, e disse:

—Um é o meu testamento; o outro papel é a minha despedida de vós. Está escripto ha quinze dias: escrevi-o quando conheci o fim. Lêde-o vós, filhos; quero ouvil-o; o coração quer ainda o goso de se escutar.

Antonio d'Azevedo abriu vagarosamente a folha dobrada em oitavo, e leu com tremor de suspiros:

«Um secreto aviso me manda preparar. Não posso dizer como o santo:—O meu coração está prompto—; mas vejo o termo da viagem sem susto. A face do Juiz transluz misericordia. O meu Creador foi para si que me creou.

«É dôr deixar-vos, filhos; porém saudades haverá mais pungentes entre os vivos que se apartam. A providencia divina permitte que o aspeito da morte seja menos afflictivo, quando em verdade ella está comnosco. Ai de nós, se este desapego da terra, onde se é feliz ou se espera sel-o, não existisse! O morrer custa ruins quebrantos da materia; mas a alma como que se está despenando e alegrando para ir ao seu destino.

«Vou deixar-vos, meus amigos. Chorai-me, porque vos quiz muito, e vos fui grato ás doces horas que me déstes. Chorai-me, porque ao moribundo é consolador o pranto dos que lhe deram os risos da ventura.

«Ficaes novos e ricos. Pela vida além haveis de encontrar muita gente affligida: sêde valedores de todos, e associai sempre o meu nome á vossa beneficencia. Assim viverá comvosco uma faisca d'esta chamma, que não póde ser toda vossa, por ser de Deus.

«Dai-me sepultura, e ide depois para a patria e para os vossos. Empregai lá a vossa actividade menos em accumular, que em repartir a sobejidão de vossa riqueza. Quando houverdes filhos não lhes ensineis a honra do rico, que essa é facil: ensinai-lhes a honra do pobre, a honra de Antonio d'Azevedo e a abnegação de Corinna. Vivei de modo que a vossa descendencia se glorifique do exemplo, quando vossos nomes estiverem já esquecidos.

«Estou a dar-vos conselhos, como se carecesseis d'elles: desculpai ao velho este fraco da muita idade. É uma missão paternal que cumpro. Se eu tivesse dois filhos, exemplares em virtudes, havia de fallar-lhes assim. Deixai-me acabar n'esta abençoada illusão. Admoesto-vos, meu Antonio d'Azevedo, a que deis de mão ao grande pezo do trabalho. O que hontem era precisão, será ámanhan sêde sobre sêde de riquezas inuteis. O bastante é muito pouco. Da riqueza de vossa alma é que deveis ser grande dissipador: derramai-a em preceitos, conselhos, allivios e censuras. O solitario virtuoso é um egoista do ceo. Ide ao meio do povo e fallai. O homem sósinho póde ter muito de que alegrar-se; mas não alegra os milhares de infelizes que gemem, e a gemer se vão despedaçando.

«Sabei que eu, á custa de sessenta annos de trabalho, cheguei a esta hora podendo dizer que não tenho um ceitil. Tudo dei a uns, e perdoei a outros. Os bens de fortuna, que vos lego, deu-m'os uma herança, no ultimo quartel da vida. Ahi vol-a transmitto. Foi sempre meu intento deixal-a a pobres: sei que fica sendo vossa e d'elles.