Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco · Capítulo 20 de 26

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Estrelas Propícias

Capítulo XVIII

—Suspeita?—atalhou este.

—Silencio!—disse imperiosamente Antonio—Vamos.

O commerciante apertou a mão do bacharel, e lançou ao irmão um olhar compassivo.

Francisco hospedou-se com Antonio. Dois dias depois, recebeu de repente a noticia da sua volta a Portugal, accrescentada d'estas palavras:

—Entrega esta carta em Lisboa. A pessoa a quem a entregas irá comtigo a casa do cambista F***, teu patrão que foi. Darás ao cambista o dinheiro em que elle se disser roubado por ti. Cobrarás recibo, que me enviarás. Feito isto, recolhe-te a Barcellos, e pede a tuas irmans que te dêem um quinhão da sua subsistencia.

Francisco, lavado em lagrimas, quiz ajoelhar aos pés de seu irmão, e contar a historia dos seus desatinos.

—Não ha historia que absolva um roubo—disse o bacharel.

E no dia seguinte, quando elle acompanhava ao navio o irmão, é que a vistosa galera Felismina se baloiçava, como odalisca, sobre a camilha azul das aguas que reverberavam o sol nascente, e se cobriam de scintillante lhama de oiro.

Olhem a felicidade de Corinna e a felicidade de Antonio de Azevedo!

 

XVIII.

Antonio de Azevedo foi abrir a reprêsa de lagrimas no seio do ancião que o esperava com as suas, unico balsamo das supremas afflicções.

—Veja a minha vida!—disse entre soluços o bacharel—Pensar eu que o muito trabalhar me daria um quieto contentamento, e que, além dos dissabores do coração, nunca teria outros!... E agora estes! os da ultima deshonra! uma vergonha irremediavel que me priva de olhar de frente para os homens que estimaram meu irmão por amor de mim!

O velho, combatendo os escrupulos do moço, teve a admiravel e inspirada eloquencia da verdade. Declinou a deshonra sobre quem a praticara, e provou ser aquella desgraça mais uma prova para aquilatar as virtudes do bacharel. Verdadeiros, mas, ainda assim, inconsolativos argumentos!

Fallaram longo tempo. Valentim não deixara sahir o amigo n'aquella manhan, receoso de que a solidão lhe amargurasse a mais as apprehensões.

Quando o moço se impunha a si mesmo o preceito da força para o trabalho, e o velho insistia nos seus dictames insinuativos de coragem, entrou no escriptorio Fernando de Athaide.

Antonio de Azevedo, como a desentorpecer-se de um glacial spasmo, estendeu-lhe machinalmente a mão e deixou-se abraçar. Valentim fazia um alarido de exclamações de espanto, que não deixavam ouvir o adventicio.

—Vejo-o triste e demudado, senhor Azevedo!—disse o primo de Corinna.

—É oiro que está ainda ardendo da ultima prova!—respondeu o velho—A desgraça cuidou que o fulminava; mas a honra venceu.

Antonio d'Azevedo fez um gesto supplicante de silencio ao doutor, e disse a Fernando:

—Ninguem o esperava no Rio, senhor Athaide.

—Foi uma partida repentina. Assim é que se fazem as coisas!

—Como ficou Corinna?—perguntou Azevedo; e logo as lagrimas lhe saltaram a quatro, e uma ancia lhe ressumou á face em suor frio.

Sentou-se quebrantado, e murmurou:

—Desculpem-me: estou-me fazendo mulher... Estas lagrimas, se as não chorasse, matavam-me.

—São de saudade?—disse Fernando.

—São de desesperança, cuido eu—respondeu Azevedo, escondendo os olhos com as mãos.

—Anime-se!—exclamou Athaide—Que descorçoamento é esse, improprio d'uma alma de bronze! Azevedo, saia d'essa lethargia! Olhe que Corinna ama-o como sempre, e espera-o com a anciedade d'um anjo consolador de todas as suas mágoas.

—Tardia virá a consolação!—balbuciou o moço—Deus me livre de a condemnar a soffrer debaixo da minha estrella... Escreveu-me ella?

—Que pergunta! Tenho em casa uma carta sem fim, que o meu amigo ha de lêr como se ella mesma a estivesse fallando! Venha comigo, e cuidará que tem entre mãos, não uma carta, mas o proprio coração da sua Corinna!

—Agora consinto que vá!—disse o velho.

—E o doutor vem tambem—acudiu Fernando.

—Vamos lá!—voltou o velho—Vossês os rapazes andam comigo d'aqui p'r'ali, como se esta gotta não merecesse respeito nenhum á geração nova! Ora esperem ahi, que eu vou vestir a dalmacia, a casaca circumspecta! Sua senhora veio?

—Veio, sim.

—Ah!—disse Azevedo—está cá a senhora D. Felismina?!

—Pois eu havia de deixar lá a alma! Então vossê não sabe que marido eu sou! Minha mulher sou eu—disse com festivo semblante o millionario.

Sahiram.

—Isto veio do ceo!—disse Valentim—Quem distrahiria o meu pobre Antonio, se lhe não chegassem os bons amigos da patria! Vai ter um dia cheio, meu amigo! Quem lhe fallaria com mais ternura da sua Corinna que a irman querida! Felismina se chama ella: hoje é que é feliz mina de consolações para o meu desterrado!

Assim, com estes dizeres affectuosos do alegre ancião, chegaram ao grandioso predio, que Fernando habitava.

Na primeira sala esperava-os Felismina. O doutor, que subia na dianteira, ao vêl-a, exclamou:

—Sim, senhores! É muito linda! Ha muito que não vi d'estes fructos da minha terra! Quero e gosto que as senhoras brazileiras vejam o que lá ha por Portugal!

Felismina sorriu-se ao galanteio do velho, e abraçou Antonio d'Azevedo.

—Como está abatido!—disse ella.

—Abatido no rosto, mas Sansão na alma!—acudiu Valentim. —Acha-me velho?—disse Azevedo—N'este paiz acaba-se depressa o homem que se não exercita muito, e endurece ao fogo do sol. A sua familia, minha senhora, ficou boa? A senhora D. Corinna?

—Como faz essa pergunta, senhor Azevedo!...—disse Felismina— Que frialdade! Dar-se-ha caso que vossa senhoria não ame já minha irman?

—Por Deus, minha senhora!—respondeu o moço—Todos os infortunios podem menos sobre mim que uma injustiça, que deixa de ser injuria por ser dita por vossa excellencia.

—Se elle ama sua irman!—atalhou o velho—Ó minha senhora, se os meus cabellos brancos inspiram confiança, creia vossa excellencia que o meu Azevedo ama tanto sua irman que, por amor d'ella, excede-se a si proprio na prática das virtudes. Grande e distincto deve ser o amor que faz o virtuoso! Vicios e crimes é o que eu tenho visto resultar dos amores vulgares...

—Está o senhor Azevedo ancioso por que lhe entreguem a carta de Corinna—disse Fernando—Vai tu buscal-a, Felismina.

Abriu-se uma porta, e appareceu Corinna, exclamando:

—Não preciso que me tragam!

E cuidam que ella impallideceu, desmaiou, ou, pelo menos, expediu um ai de procedencia dramatica?

Não, senhores. Corinna entrou de corrida, leve como um gnomo, a rir e a chorar, purpureada, com os olhos a saltar-lhe fóra da face, os braços abertos e convulsos, a respiração como tomada, e os labios crispando nervosamente, sem poderem proferir o quer que era de que só os dramaturgos acham sempre uma expressão insipida, incolor e inverosimil.

Antonio de Azevedo é que (sem desaire seja dito) deu uns ares de idiotismo, que, na scena, seriam lastimaveis! Abraçou Corinna, como a medo: era a primeira vez que a sentia nos braços. Fitou-a como quem duvída; remirou-a, como quem teme um engano dos sentidos; estava-se acordando do sonho; invocava a sua razão; e, quando a razão lhe mostrou em volta d'elle todas as faces orvalhadas de lagrimas, é que Azevedo pôde exclamar:

—Bem hajas, anjo de Deus!...

Imagine agora a minha leitora os successos indescriptiveis d'este lance. Por pouco imaginativa que seja, vossa excellencia ha de avultal-o melhor em sua fantasia do que eu poderia dar-lh'o n'esta pagina. Uma só poesia creou a natureza para taes quadros: é a poesia da pintura.

Foram cinco minutos de febre, de delirio, de silencio, de ouvir-se o bater forte e descompassado de cinco corações. Ora pintem lá isto, a não ser em expressão de olhos, de labios, de feições que só, em casos d'estes, se vos deparam em pinturas christans, onde os enlevos são ceo, bemaventurança e alegria de santos. E haveis de notar que o proprio pincel profano antes se quer a pintar expressões angustiosas, porque as visagens da afflicção mais se prestam ao relevo, como em Niobe, em Laocoonte, em Ugolino. Quer tudo isto dizer que tenho diante dos olhos aquelle espectaculo de jubilos, e desisto de descrevel-o para de todo em todo me não capacitar de minha inhabilidade.

Porque hei de eu dizer tão affoitamente «espectaculo de jubilos», se Antonio d'Azevedo, momentos depois, se deixava senhorear da lembrança do irmão, banido do numero dos honrados! A candida Corinna encarava n'elle com olhos aguados, e no lacerante silencio de sua alma perguntava a si mesma, que fizera ella para ser menos amada! De que outro modo se explicaria a tristeza do moço n'aquella primeira hora!

Não pôde ter-se que o não chamasse a um ponto mais afastado da sala onde se tinham ficado Valentim e Fernando, em quanto Felismina sahira a dar ordens.

—Tu estás melancolico, Antonio!—disse ella, tomando-lhe a mão com estremecida ternura—Viria eu contrariar a tua vontade? Estaria eu enganada comtigo?...

—Vejo-me indigno de ti...—respondeu Azevedo.

—Indigno de mim!—tornou ella crescendo no afago da expressão convulsa de lagrimas—Pois tu não tens sido mais que nobre para seres digno da mais nobre e pura mulher! Quererás que eu te recorde as tuas virtudes, meu querido amigo!?

—As minhas virtudes—replicou o moço—tão frageis eram, que talvez a esta hora tenham sido reputadas hypocrisia.

—Ó filho!—exclamou ella—desconfio da tua razão! Muito deves ter padecido para te considerares assim, quando em volta de mim os teus merecimentos são louvados com admiração de todos!...

—Escuta-me para me consolares, Corinna. Deus quiz que tu viesses á hora em que toda a esperança me ia fugindo...

Antonio d'Azevedo contou a Corinna a ignominia de seu irmão, e levantou a voz de modo que Valentim, no angulo opposto da sala, ouviu tudo. Ergueu-se o velho, caminhou para elles, e interrompeu a exposição do bacharel.

—Senhor Antonio d'Azevedo, antes do infortunio de seu irmão, vossê, no Rio de Janeiro, gosava nome de intelligente, laborioso e honesto; depois do infortunio de seu irmão, o nome de Antonio d'Azevedo é proferido com o acatamento de que homem nenhum de sua idade se tem gosado. Os velhos honrados da sociedade brazileira querem conhecel-o: os portuguezes citam o seu glorioso procedimento com orgulho. O facto é de ha tres dias, e tem corrido de bôca em bôca como raras vezes acontece a uma boa acção. Ora pois! Eu sei bem o que é dignidade; achei que a sua se manteve sempre na altura dos mais dignos homens d'outros tempos; admirei-o e louvei-o pelo que outros chamariam demasias de orgulho sob capa de independencia; agora, porém, é chegada a hora de eu lhe dizer que, assim como a suave religião se descaminha até ao fanatismo execravel, assim a briosa dignidade, se perde o rumo do bom juizo, vai dar comsigo n'uns excessos rudes, insociaveis e repellentes. A sociedade applaude os virtuosos, mas desadora os que fazem de sua virtude uma tribuna para lhe censurar as fraquezas. O excesso do bem é um mal que não me aproveita a mim, nem a outrem. Eu quero que Antonio d'Azevedo se mostre alegre para que o mundo não diga que a honra tem uns pavores interiores refractarios ao contentamento. A boa consciencia é alegre, senhor. E o melhor beneficio que vossê póde fazer aos homens é convencel-os de que vai indo seu caminho, arrancando os espinhos dos pés, e sorrindo ás novas desventuras que o impecem. Fallou o velho. Diga agora o anjo, a nossa Corinna, o que será preciso fazer-se a esta criança decrepita para a levantarmos do seu abatimento?

—Se eu pudesse...—balbuciou Corinna.

Antonio d'Azevedo levou aos labios a mão de Corinna, e murmurou:

—Emenda tu os defeitos da minha desgraçada indole... Dá-me paz, Corinna; dá-me a uncção do teu amor, e eu me salvarei de mim proprio...

—Primeiro passo a dar!—exclamou Valentim da Costa—O primeiro passo a dar é casarem-se, meus filhos!

N'este momento entrou Felismina, e disse:

—Está o almoço na mesa.

Valentim continuou:

—Visto que está o almoço na mesa, o primeiro passo a dar, meus filhos, é... almoçar!