Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 26

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Estrelas Propícias

Capítulo VI

Este dialogo, o primeiro que n'este genero talvez se travou n'um baile entre dois rapazes menores de vinte e cinco annos, foi interrompido por Gastão de Noronha, que quiz ser apresentado a Felisberto Taveira.

 

VI.

 

Quiz o fidalgo do Minho apalpar o coração do filho do millionario, pessoalmente. A sua prosapia soffria-lhe que, ageitando-se o ensejo, elle mesmo se offerecesse para sogro, e poupasse o timido moço aos embaraços de pedir-lhe a filha, e aos receios de ser mal acolhido.

Ouviu Felisberto Taveira uma longa e não falsa descripção das virtudes e prendas de Corinna da Soledade. Aqui se dá um fragmento da paternal exposição:

—Minha filha, posto que vivesse na melhor roda de Paris, e a rodeassem os mais graduados moços d'aquelle viveiro da elegancia, nunca se captivou d'algum. Não lhe direi que ella se isentasse por soberba do seu nascimento, bem que pudesse tel-a, porque meu quinto avô sahiu da casa dos marquezes de Villa-Real, por onde somos Noronhas; todavia, não era vaidade a frieza de Corinna. Bem póde saber vossa senhoria que o coração é de essencia democrata, e ao coração se deve o triumpho da democracia, em virtude de se irem a pouco e pouco amollecendo as durezas de que as antigas educações callejavam o coração da mulher de linhagem. O que minha filha tinha e tem, era um juizo prudencial á prova de todas as velleidades e pompas, que seduzem o vulgar das meninas. Os seus gostos foram sempre moderadissimos; riquezas nunca a deslumbraram; os bailes e os banquetes era preciso obrigal-a a gosal-os; tudo lhe era pesado, menos a solidão, a meditação e a obscuridade. Cuidei sempre que minha filha seria insensivel ao prazer de se ver amada, e mais ainda ao de receber satisfeita a côrte de algum moço. Em Portugal, principalmente, é que não devia esperar vel-a possuida de sentimentos amorosos; porque, sem desaire da nossa patria, devemos confessar que nós, os portuguezes, temos em amor uma certa gravidade, que toca a extrema do aborrecimento. Falta-nos um certo espirito pétillant, um não sei quê de que as mulheres se deixam seduzir. Não acha?

—Sim, senhor... nós temos isso...—respondeu Felisberto Taveira, descobrindo um grande fundo de ridiculez através do aspeito encanecido do fidalgo.

—Sem duvida nenhuma... Pois, meu caro senhor Taveira, penso poder affirmar-lhe que a minha filha está pagando o universal tributo. Descobri que ama! Só o Porto podia fazer tal milagre!

—É muita honra para o Porto, senhor Noronha! e muita mais ainda para o homem escolhido.

—Que vossa senhoria conhece perfeitamente...

—Eu?...—balbuciou Taveira, quasi convencido de que o fidalgo alludia a Antonio d'Azevedo.

—Sim, senhor: conhece-o como ás suas mãos, porque vossa senhoria e elle formam dois seres n'um só ser: são inseparaveis.

Isto acabou de persuadir Taveira, que, na mais candida boa fé, accrescentou:

—E creia vossa excellencia que a pessoa preferida pela senhora D. Corinna tem virtudes e coração dignos d'ella.

—Creio, creio, e o meu maior prazer era vel-os unidos, em quanto eu tenho vida e alegria para poder felicitar-me de tão boa união.

—Agora me convenci—acudiu Felisberto—de que vossa excellencia ama sinceramente sua filha, e viu com benignos olhos a inclinação desegual que ella manifestou.

—Inclinação desegual! Eu não sou parvo de fidalgas desegualdades, senhor Taveira! Soberania ha uma só, que é a da virtude: o resto são convenções humanas sem criterio nem fundamento real. O que eu quero é ver minha filha feliz. Se os meus appellidos valem alguma coisa, meus netos hão de chamar-se Noronhas, e a todo tempo que elles queiram humilhar arrogancias d'outros nobres, poderão sempre abrir a historia, na certeza de que encontram o nome d'um avô em cada pagina. Os tempos são outros, senhor Taveira, porque são outros os corações. Violentar a vontade de minha filha!... Deus me feche os olhos antes que eu tal faça! Respeito-lhe a inclinação, que ella manifestou, porque sei que a sua dignidade foi a primeira voz que lhe deu conselho.

—Admiro a grandeza de sua alma!—tornou Taveira com mui sizuda e admirativa satisfação—E mais me espanta que vossa excellencia, antes de acceder á vontade de sua filha, não curasse de saber se o homem escolhido é bastante rico a mantêl-a na decencia com que foi criada.

—Não, senhor, não quiz saber se era rico: o que perguntei foi se era bem comportado, se tinha grangeado a estima publica, se seria um bom marido e um bom pae. Unanimemente me disseram que sim.

—E disseram-lhe a verdade, senhor Gastão de Noronha—confirmou Taveira—A riqueza de Antonio d'Azevedo só bem lh'a podem avaliar os que mais perto vivem de sua nobre alma.

—A riqueza de quem?—atalhou Gastão de Noronha com um gesto de irrisorio espanto.

—De Antonio d'Azevedo Barbosa—tartamudeou Taveira, corrido do engano em que tinha estado.

—Não nos temos entendido!... Pois vossa senhoria cuida que eu estou fallando d'esse tal sujeito?

—Cuidava... Pois não é elle a pessoa distinguida por sua filha?!... Perdão! eu entendi mal.

—Vejo que sim; e eu peço tambem perdão de entender mal, cuidando que era outra a pessoa... Ora esta!... Pois não é o senhor Felisberto Taveira?

—Eu!

—Sim, o senhor!

—Não pensei tal... e creio que vossa excellencia entendeu mal a propensão da senhora D. Corinna, posto que a escolha me daria muita gloria.

—Muito bem: façamos de conta que estivemos a fantasiar—tornou Gastão simulando um desenfado risonho, que lá por dentro era accesso de zanga e vergonha.—Pelo que diz respeito ao senhor Antonio de... como é?

—Antonio d'Azevedo.

—Ah! sim, d'Azevedo... filhote de Barcellos?

—Justamente.

—Não sei quem são os Azevedos de Barcellos... Sejam lá quem forem, meu caro senhor Taveira... tenho a dizer-lhe...

—Os Azevedos de Barcellos—interrompeu com louvavel desabrimento Felisberto—são tão nobres como os Taveiras do Porto. Meu pae veio da lavoira de Fafe para aqui; o pae do bacharel Antonio d'Azevedo morreu na lavoira de Barcellos.

—Sim, senhor: convenho em que tão nobres são uns como outros; mas a minha filha não ha de, creio eu, illudir-me mais uma hora. Queira desculpar um engano, em que vossa senhoria nada perdeu, e rogo-lhe que diga ao senhor Antonio d'Azevedo que se preoccupe com aspirações mais rasoaveis, se não interessa em dar graves desgostos a uma familia que vive tranquilla.

Quando as ultimas linhas d'este dialogo se trocavam entre os dois, qual d'elles mais corrido do seu equivoco, outro dialogo terminava entre Corinna e Antonio d'Azevedo por estas palavras d'ella:

—Eu receio que meu pae se não demore no Porto, e Deus sabe se nos veremos mais! Olhe: se tiver precisão de queixar-se da sua má estrella, faça-o a mim, que sou, desde hontem, desde sempre, desde que nasci sua amiga, e talvez sua irman por sympathia de dores. Escreva-me: eu lhe direi de Vianna em que nome me ha de escrever. Vá visitar-me em espirito á minha soledade: lá me verá sósinha por entre as arvores, em quanto minhas irmans, quasi tão infelizes como eu, procuram ao menos entreter-se umas com as outras em volta das suas saudades de Paris... Eu nem isso trouxe de lá... Não se demore, que vejo meu pae...

Felisberto chegou diante de Antonio d'Azevedo, e disse com forçado riso:

—Estás outra vez somnambulo, Antonio? Eu estou peor, porque venho estupido de spasmo!

—Que é?

—Querem casar-me com a tua Corinna!

Azevedo ergueu a fronte avincada, e disse:

—Pois é costume offerecerem-se assim as filhas n'um baile ao homem a quem se é apresentado?!

—Não é costume: é moda agora... O Gastão vai sahir com a familia —ajuntou Felisberto—Podemos ir, e lá fóra conversaremos.

Ouviu o bacharel o dialogo em resumo; contou ao seu amigo as ultimas palavras de Corinna; e adorou a imagem da primeira mulher amada nos alvores da aurora que repontava. O que elle então disse, em arrobos de poesia, era o sublime represado n'aquelle coração em sua primeira primavera.

Perguntou-lhe Taveira se pensava ainda em ir ao Brazil.

—Hoje mais que nunca—respondeu elle.

—Como assim?! Aquella mulher não te prende á patria?

—Prende-me sobre tudo a um sacratissimo dever. Até agora pensava em ir ao Brazil para segurar o futuro de quatro irmans pobremente criadas e boas de contentar com pouco; d'hora em diante hei de ver no horisonte das minhas ambições, além de minhas irmans, Corinna da Soledade, educada com as regalias da sua condição, e só digna do homem que a não obrigar a descer de posição aos olhos da sua sociedade.

—E quem te assevera—redarguiu Felisberto—que voltas rico a Portugal? De que genero de trabalho fias tu a tua prosperidade?

—De todos os generos honestos. Se não valer como advogado, valerei como caixeiro; se não tiver aptidão para o negocio, ensinarei o que sei; se tiver de descer, descerei sem vergonha; se descer tão baixo que nunca possa erguer-me d'entre os ultimos operarios, ahi ficarei, e lá morrerei: ninguem dirá, depois, que transigi com a minha inutilidade.

—Quer-me parecer—retorquiu Taveira—que a linda Corinna está sendo ainda pouquissima coisa na tua alma! Dar-se-ha caso que, em verdade, tu sejas refractario ao amor, ou que a tua sensibilidade, como disseste, se consumisse em galantear os ministros da justiça!? Qualquer homem, que não fosse tu, forte do amor inspirado por um anjo como Corinna, e com as tuas habilitações, cuidava desde já em agenciar na patria uma mediania, que a doçura da vida intima convertesse em opulencia invejavel aos mais opulentos. Suppondo que tu não pudesses, n'um ou dois annos, alcançar emprego, ou clientela como advogado, é de crer que tivesses um amigo a quem pedisses um, dois, ou mais contos de reis para te estabeleceres aqui, em Lisboa, na tua terra, ou onde quizesses viver. Suppondo mais que tu me tivesses na conta do teu primeiro amigo, era a mim que tu pedias esse emprestimo, e eu com mil vontades te servia agora, e depois, e sempre.

Antonio d'Azevedo, após algum espaço de reflexão, respondeu:

—Meu caro amigo, se o verdadeiro amor é uma desordem da razão, esse não é o amor que eu sinto. Que a minha vida está passando por nova phase, é certo: esta excitação d'alma, que eu não sei se deva chamar alegria da juventude feliz, nunca a experimentei. Porém nenhuma das minhas faculdades, que pensam, julgam, e antevêem os successos, se escureceu: ouso até affirmar-te que o juizo se revigora, e a previdencia se aclara mais. Depois d'isto, imaginemos que tu me emprestas o cabedal necessario para eu ter uma casa, uma esposa, e a subsistencia certa de algum tempo. A esposa devia ser necessariamente a filha de um homem que cahiu da sua dignidade offerecendo-t'a porque és rico, e que se dignou recommendar-me que não perturbasse o socego de uma familia, que vive tranquilla. Não foi isto?

—Pouco mais ou menos.

—Bem: e não entendes tu que seria uma indignidade ir eu perturbar o socego do pae de Corinna, casando-lhe com a filha, por meio d'um rapto ou da intervenção da justiça?

—Não entendo assim a dignidade. Se Corinna consentir em ser raptada para o mais santo dos intentos a que o coração a pode impellir; e, se ella rasoavelmente se não quizer sacrificar á ambição do pae, nem a tua honra, nem a sua, nem a da familia illustre ou não illustre, soffrem desaire.

—Discordamos—replicou Azevedo—Gastão de Noronha quer que sua filha case rica: entende elle que sua filha só póde ser feliz sendo rica. Será absurdidade uma tal opinião? Vai tu perguntar a qualquer pessoa estranha a Corinna, se a julga feliz na pobreza: ha de responder-te que a julga mais feliz sendo rica. Pois se os estranhos pensam assim, que fará um pae?

—Convenho; mas sobejam exemplos de mulheres sacrificadas por esse erro dos paes.

—Deixal-os sobejar: ainda mesmo que todos os exemplos fossem contra os paes, nem por isso a vontade bem intencionada d'elles deixava de ser respeitavel; mas crê tu, meu amigo, que o maior numero de casos justifica o arbitrio dos paes. Eu tenho vivido muito arredado d'estes estudos da sociedade em que tu deves saber muito; assim mesmo, se tu quizeres posso recordar-te de os ter ouvido a ti e aos outros, alguns casamentos mal agourados por terem sido contra vontade das filhas, arrancadas por força a affeições de moços pobres para serem adjudicadas a homens odiados com toda a sua riqueza. Pois, com o rapido andar de alguns mezes, se não dias, as esposas violentadas apparecem radiosas de alegria nas suas carruagens, nos seus camarotes e nos seus salões; em quanto os mocinhos pobres e amantissimos, ou porque emmagrecem, ou porque engordam muito, chegam a passar por as noivas, que os poetas denominam martyres, sem ellas os conhecerem.

Felisberto riu-se do semblante grave com que o seu amigo proferiu as ultimas palavras.

Após breve pausa, Antonio d'Azevedo continuou:

—Estamos aqui a fallar de casamento, como se Corinna me tivesse dito que quer casar comigo!... O que ha entre nós é uma ligação das que se desligam no intervallo de dois bailes, meu amigo. Lembra-te que eu não sou de todo hospede n'estas materias: traduzi vinte ou mais volumes de romances, e acredito nos romances, cujas passagens a minha razão explica. Dado, porém, que a magîa é duradoura, e que este amor encerra em si um drama, que ha de fechar pelo casamento, eu só poderei ser marido de Corinna quando opae me acolher, sem equivoco, como te acolheu a ti ha poucas horas. É preciso que a justiça não interceda a favor do meu coração. Quando eu puder dizer a Corinna que sou bom, e ao pae de Corinna que sou rico, então verei se este presentimento da felicidade era mais que um sonho dos que os grandes desgraçados convertem logo em excruciante realidade da vida. Por ora, nem bom nem rico. Para a bondade falta-me ter esgotado as forças que ainda sinto em adquirir meios com que sustente uma grande porção do bem-estar, impossivel de alcançar-se sem elles. Eu não sei que merecimentos póde ter, no conceito d'uma mulher, o homem pobre que, em nome da sua desvairada paixão, a convida a ser pobre com elle, e a receber da sociedade as, talvez involuntarias, desattenções que necessariamente avexam o pobre, se elle não está santificado pela paciencia. Ora, a santificação n'estes nossos dias, meu amigo, nem o muito amor a póde dar aos casados pobres.

—Do teu arrazoado—disse Felisberto—concluo, e toda a gente ha de concluir, que amas Corinna como um inglez, estabelecido nas Antilhas, amaria a sua noiva, que elle nunca viu, estabelecida em Londres. Dentro de quinze dias estás mudado, ou então ha ahi grande aleijão na tua alma! Hei de dar-te um conselho, se não mudares.

—Então dá-m'o já, que eu fico pela minha constancia.

—Ordena-te, faz-te conego, bispo, patriarcha, cardeal, e não vás ao Brazil.