Estrelas Propícias

Camilo Castelo Branco · Capítulo 21 de 26

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Estrelas Propícias

Capítulo XIX

No decurso da conversação durante o almoço, disse Fernando de Athaide:

—Ahi vão novidades, meu caro Azevedo. O visconde da Cruz casa brevemente com Emma, e Luiz Taveira com Leonor. Eliza tem doze annos, e já é pretendida. Quem de certo nos fica solteira é a nossa Corinna! que pena!

Riram todos, e Valentim exclamou:

—Solteira! essa é boa! Não consentirei eu que a belleza assim seja ultrajada! Aqui está a minha mão, senhora D. Corinna! É um sacrificio que faço da minha isempção; mas faço-o para que suas manas se não riam de vossa excellencia.

 

XIX.

 

Tres mezes depois dos grandes successos froixamente descriptos no anterior capitulo, Fernando de Athaide e sua mulher vinham caminho de Portugal; e Corinna da Soledade e seu marido Antonio d'Azevedo habitavam, nos arrabaldes do Rio de Janeiro, uma chacara de modestas regalias.

O bacharel era ainda o mesmo laborioso jurisconsulto, associado no escriptorio de Valentim da Costa. Corinna, simplesmente ajudada d'uma negra, cuidava do lavor domestico, singelo lavor, que isso mesmo tem de bom a mediania.

Quizera Fernando que seus cunhados ficassem habitando a casa onde se hospedaram, e Azevedo, já receoso de desagradar com suas isempções, mal se atrevia a rejeitar os offerecimentos; porém Corinna, avaliadora dos secretos desejos de seu marido, simulou vontade de viver no campo, e assim o desembaraçou do desgosto de acceitar a magnifica vivenda na melhor praça da capital. Valentim, aconselhando Athaide no melhor modo de haver-se com seu cunhado, repetia o que no livro divino de frei Luiz de Sousa se lê, que o cardeal de Lorena dizia, ao embaixador de Portugal, com referencia ao santo arcebispo bracharense: «.....se o quereis ter contente, não lhe deis a comer mais que dois ovos duros.»

Corinna recebêra de Felismina a prenda dos trinta contos depositados ainda em poder do commerciante. Foi-lhe, porém, mister guardal-os como cofre de joias, sem lhe dar destino conducente a alliviar os encargos do marido. Era um dinheiro que não existia para o bacharel, nem Corinna buscava occasião de fallar d'elle.

No tocante a felicidade, alguns periodos de uma carta de Azevedo ao visconde da Cruz dizem o que basta a convencer-nos de que a possuiam, quanto ella, n'este desterro, se deixa gosar.

«

 

«Ás seis horas da tarde, quando vou do escriptorio, encontro sempre a minha Corinna sentada n'um pequenino ressaio, como se lá diz no meu Barcellos, que tenho á porta da chacara. Alli é a minha primeira paragem, em que o espirito se desfadiga do pesadello das leis: o coração toma absoluto imperio sobre as minhas outras faculdades, e todo me deixo adormecer na quietação d'um bem-estar, que só podem conhecer os operarios d'um dia inteiro, quando ao cahir da noite, se repousam ao lado da companheira, por amor da qual se cansam e recobram. Os nossos frugaes jantares são rapidos, e assazoados dos infantis gracejos da minha Corinna, que os tem sempre novos para encarecer a profusão das iguarias. Depois vamos por esses caminhos fóra, admirando tudo que nos vem ao encontro a sorrir: são as arvores e flores de todas as ricas vivendas d'este luxoso torrão: tudo é nosso, porque, meu amigo, nada ambicionamos do que vamos vendo.

«Corinna está-me sempre repetindo a historia dos nossos amores, que eu acho sempre nova. Os dois bailes do Porto em que a vi; as primeiras palavras que eu lhe disse, com destemperada lamuria; os seus pensamentos lá no Lima, dia por dia, e hora por hora. Sinto-me duplicadamente viver na sua vida passada; parece-me que estou tomando posse d'uma existencia que devia ser minha desde então.

«Deito-me cedo para me levantar com a aurora. Corinna lê até tarde: lê alto em quanto vê que eu a escuto; depois, vai diminuindo gradualmente a voz até me ver adormecido. Rirás tu d'esta miudeza de traços no quadro da felicidade domestica? Se ris, visconde, mal de ti, que os não has de saber gosar. Uma coisa magnifica, estrondosa, e apparatosa, que vai pelo mundo, chamada F , feitas as contas, sabes o que é? É isto, são os singellos

prazeres, que não valem nada descriptos, e são a bemaventurança sentidos. E não valem nada, porque a gente que os lê, pensa que pouco vai de desejal-os a tel-os. Que engano! A mais facil felicidade é a que requer mais grande coração e pura consciencia. Se estes bens fossem communs, todos eramos felizes. Nós antes queremos ser todos ricos.

»

 

Valentim da Costa foi, um domingo, jantar com os seus filhos, termo de muita amizade com que elle os acarinhava. N'esse dia se completavam os setenta e nove annos do ancião. Depois do jantar, desceram a sentarem-se debaixo das quatro palmeiras, que davam o usurpado titulo de chacara á casinha dos venturosos. Ahi fallou sempre o velho, com a perdoavel vaidade de quem sabe tudo do passado, e possue a chave dos futuros. Ora! por onde elle andou! Foi cavar na raiz da revolução franceza, contou a vida de Napoleão, a fuga de D. João VI, as anecdotas da côrte, a infancia e juventude do senhor D. Pedro IV, a mocidade estudiosa e as virtudes civicas do actual imperador do Brazil, e tudo isto para concluir que o presente era melhor que o passado, e que o futuro será melhor que o presente. E a tal proposito ajuntou:

—Vossês não façam caso do que eu disser, quando elogiar as coisas e pessoas do meu tempo. O seu tempo é a balda dos velhos, que, ao verem-se carregados de tempo, não só querem que seja seu—o que ninguem lhes contesta—; mas até querem que o tempo d'elles fosse a melhor quadra dos dezenove seculos que já lá vão. Ora eu, que sou velho e ao mesmo passo rasoavel, se duvidasse das virtudes d'este tempo, duvidaria das vossas, meus filhos. Dizem que a velhice é egoista, e morre devorada de odientos ciumes da geração nova, não só porque é boa de indole, que tambem por ser inventora das regalias que vieram tarde para ella. Deus me livre de ir á eternidade com este trambolho agarrado ás pernas: bem me basta a gotta! Eu cá de mim até folgo de acabar, quando começa uma transfiguração na face da terra, coisa nem sequer sonhada ha quarenta annos, quando eu e os meus contemporaneos motejavamos o desconfortavel viver de nossos paes. Não me dirão o que nós tinhamos mais do que elles, ha quarenta annos?! Vossês é que podem rir-se de mim e dos meus; mas nem por isso lhes quero mal de inveja. O meu amor á gente nova chega a ponto de eu me desejar morrer no meio d'ella. Querem-me os meus filhos trazer para sua casa? Eu estou por alli sósinho n'aquella rua do Ouvidor, muito rica, e muito bulhenta. Tenho lá tres pretos e tres pretas a quem quero dar a liberdade, e os diachos não a querem! Olhem que é forte mania a dos que dizem que a escravidão é o antagonismo permanente com a ideia de Jesus! Se os meus pretos fossem novos, e eu lhes désse liberdade, os pobresinhos, em vez de irem aos seus sertões respirar ar livre, assoldadavam-se a senhor que os carregava de trabalho; ora, como os meus escravos são velhos, os coitados não querem a liberdade, que para os de sua especie é uma palavra van. Pois se eu me não posso, nem devo desfazer d'elles, peço-vos que m'os deixeis trazer comigo para a vossa companhia. Verdade é que esta casa é mui estreita para tanta negraria, e commodidades d'um hospede octogenario. Aqui é que o meu Azevedo ha de mostrar-se amigo do seu velho. Está alli abaixo uma boa casa, com muito arvoredo em roda. Vai o meu filho arrendar aquella casa, e recolher-se a ella com o seu mestre de leis. Faça de conta que eu sou um pulvereo praxista que vossê tem na sua livraria... O ingrato não me responde. Vou voltar-me para a minha filha Corinna. Faz-se o que eu peço?

—Faz—disse Corinna, sorrindo ao esposo.

—Pois então—tornou o velho—já d'aqui não saio. Onde me dais agasalho esta noite? Quero já saber onde está o meu quarto.

No dia seguinte, Azevedo arrendou a chacara magnifica, mudou para ella com o ancião, e com os seis velhos escravos e amigos de Valentim. Logo ao segundo dia, o hospede chamou Azevedo, e disse-lhe:

—Eu tambem tenho a minha dignidade, a minha vaidade e o meu orgulho. Quero entrar com a minha quota parte para as despezas da casa, minhas e da minha pretaria. Arrendamento da chacara, a meias; o importante da cozinha, isso é cá com o anjo dos lares, com a nossa Corinna.

Antonio d'Azevedo ia contrariar o velho, e reteve-se ante um gesto de desagrado, e logo esta risonha exclamação:

—Vossê cuida que tem mais pundonor que eu!

Este viver continuou assim seis mezes. Corinna tinha ouvinte certo ás suas leituras em quanto o marido dormia. Valentim repousava tres horas em cada noite, e velava as outras, folheando papeis, e dando expediente a negocios attinentes aos seus haveres. Algumas vezes ia á cidade em carruagem que comprara n'este ultimo praso da vida, não tanto para elle, como para os passeios de Corinna. Valera-lhe a gotta para colorir o presente aos seus queridos commensaes.

N'este tempo as cartas vindas de Portugal davam a noticia confirmada dos casamentos de Emma e Leonor. As duas noivas tinham ido para o Porto com seus maridos, e Felismina com seu marido e o primogenito estavam nas margens do Lima, ou no palacio reconstruido de Fernão de Athaide, onde o filho natural mandara acastellar os telhados. Fernando era já visconde do Ameixial, e estava pasmado da barateza da coisa, em comparação do muito que dera por uma commenda cinco annos antes. Tinha sido logrado pelo procurador.

Gastão de Noronha, D. Mafalda e a menina mais nova tinham ido a Paris comprar mobilia para renovar a decoração do palacio de Lisboa. Esta era a razão ostensiva que o publico deve acceitar por ser melhor, se não a mais ajuizada; mas os indiscretos portuguezes que então estavam em França, disseram que o ainda robusto Gastão de Noronha fôra espairecer saudades de uma duqueza, ou duas duquezas, ou mais seriam, que, pelos modos, em Paris, isto de amar quatro duquezas é coisa mais que frequente a quantos portuguezes lá vão, como eu tenho visto nos apontamentos de pessoas que lá estiveram quinze dias. D. Mafalda é que ha de saber a verdade de tudo.

Com estas noticias chegou outra concernente a Francisco d'Azevedo. O caixeiro chegou a Lisboa, pagou a sua divida, mandou o recibo ao irmão, foi a Barcellos, vendeu a pequena legitima, abraçou suas irmans, e tornou a Lisboa, d'onde partiu para a Africa.

As quatro meninas das margens do Cávado viviam abundantemente. Seu irmão Joaquim, já estabelecido e coadjuvado pelos Taveiras, occorria-lhes a todas as necessidades, dava-lhes tudo, menos o prazer de leval-as ao Porto, porque o irmão do Brazil, em todas as cartas recommendava instantemente, que as deixasse estar em Barcellos com as arvores e flores da casa paterna. Outros dois irmãos de Azevedo, sem importancia n'esta chronica de familia, exerciam probamente a profissão do commercio.

—Todos felizes!—exclamou o velho, que ouvira attentamente lêr as cartas, como se fossem de familia sua—Todos felizes! Só o meu pobre Azevedo ainda a trafegar para o pão de cada dia! Os dois contos de reis, ganhados nos primeiros mezes, lá se foram na restituição do Francisco. Desde então para cá as economias são impossiveis! Esta Corinna é uma grande avára! Tem alli na gaveta trinta contos, que ella chama os seus alfinetes de noiva, e não os quer arriscar nas despezas da cozinha! Ora deixa-te estar, minha sovina, que te não hei de deixar em testamento as minhas tres pretas velhas!

—O Antoninho não quer o dinheiro...—disse ella, afagando o cabello do marido, que ria muito do sainete comico do velho—Ha que tempos—continuou ella—eu não vi o meu thesouro! Vou-lhe desafiar a inveja, doutor, a mostrar-lhe as minhas notas! ora espere...

Foi Corinna a uma gaveta de sua commoda, e voltou pallida, exclamando:

—Ó Antoninho! mudaste o dinheiro da gavetinha do meio?

—Eu nunca soube onde tinhas o teu dinheiro—respondeu placidamente o marido.

—Não está lá... roubaram-m'o—bradou ella.

Dias antes tinha fugido uma negra, alugada para a cozinha.

—Seria a preta?—perguntou tranquillamente o bacharel—Póde proclamar-se rainha nas suas senzalas a negrinha!

Corinna mostrava-se afflicta. O marido chamou-a a si, encostou-a ao seio, e disse-lhe com muita meiguice:

—A tua grande alma, minha filha? Então! ha ahi dinheiro que valha uma lagrima tua, Corinna? Imagina que Deus te experimentava, privando teu marido da saude de tres dias! Que farias então, minha amada?... Quantas vezes darias os teus trinta contos por uma tisana que me restaurasse?! Quero só ver-te lagrimas, quando eu as chorar.

—Tens razão!—exclamou ella—Estou alegre! perdoa á minha fraqueza de mulher, sim? Quem me visse chorar, julgaria que eu amava aquelle dinheiro inutil!

—Pois sim; tudo isso é muito admiravel—exclamou o velho—mas é necessario annunciar a fuga da ladra, agarral-a e despedaçal-a com o azorrague!

Antonio de Azevedo ergueu os hombros e sorriu. Corinna fitou os seus humidos e negros olhos em Valentim, e murmurou:

—Despedaçal-a! Coitada da infeliz!

—Essa agora é que não é piedade irreprehensivel, menina!— redarguiu o velho—Chama coitada infeliz á negra que lhe rouba uma quantia que em Portugal se chama uma fortuna!... Eu tomo a negra á minha conta! Ha de ser cortada pelo azorrague!

—Não deixes, Antoninho!—clamou Corinna, tomando-lhe o rosto entre as mãos.