Eu e Esse Meu Coração
Capítulo 6
O vento bagunça meu cabelo e o chicoteia em meu rosto. Prendo com as mãos os longos fios castanhos num rabo lateral e os seguro.
Nossos olhares se encontram novamente. Seus suaves olhos castanhos ainda brilham com uma emoção que não consigo decifrar. Mas encontrei a resposta que estava procurando. Eu beijei Matt Kenner. Como sei, não tenho certeza, mas aposto qualquer coisa que era ele.
O desejo de olhar para a boca de Matt bate forte, mas não fui até a casa dele para isso. Então olho para a rua outra vez.
A rajada de vento seguinte traz o perfume dele, sabonete com um picante aroma masculino. Eu me viro para ele. Está olhando para mim.
A preocupação estreita seus olhos.
– Vejo você daqui a algumas horas. – Ele enfia as mãos nos bolsos e depois as tira. Está nervoso. Por quê?
– Tudo bem.
Quase corro para o carro.
Quando olho para trás, pelo retrovisor, vejo que ele está me olhado enquanto me afasto. Sem sorrir. Sem franzir a testa. Sem piscar.
Meus pneus fritam o asfalto e, tomando carona comigo, vai a pergunta
“será que ele sabe?”. Matt sabe que fiquei com o coração de Eric?
6
Matt a observa se afastar. E quase desfalece antes de perceber que não está respirando. Será que ela sabe? Leah sabe que ficou com o coração de Eric? Foi por isso que ela veio?
Ou veio para dar uma bronca nele por não ter ligado. Mereço uma bronca...
Não ligar para Leah tinha sido um ato egoísta. Claro que Eric tinha dito para ele não ligar, mas Matt já tinha decidido fazer isso quando Eric chegou em casa aquela noite.
Sem dúvida, Matt a magoara.
Magoara uma garota que estava morrendo. Será que existe algo mais egoísta do que isso?
E provavelmente magoou outra vez agora. Fechando a porta assim tão rápido, como se sentisse vergonha por ela estar ali. Mas ele entrou em pânico.
A mãe tinha sido contra doar os órgãos de Eric. E pela primeira vez, depois de uma eternidade, ela finalmente parecia estar lutando contra a depressão.
Será que descobrir que Leah está com o coração de Eric vai devastá-la outra vez?
Matt não sabe, mas não quer arriscar.
Observa o carro de Leah até ele virar a esquina. Parado ali, sente o coração tentando se esquivar dos golpes da culpa.
É errado querer que Leah saiba que está com o coração de um cara incrível no peito? É errado que, a partir do momento em que abriu a porta, tenha
pensado sem parar no beijo que trocaram e imaginado como seria bom beijá-la novamente?
– Matt? – A voz da mãe o faz se virar.
Ela está de pé na porta, com um cachorrinho inquieto no colo.
– O que você está fazendo?
– Apenas dando instruções para alguém que estava perdido. – Numa escala de zero a dez, em que zero significa uma mentira ruim e dez significa uma mentira absurdamente ridícula, ele calcula que a dele deve estar entre 19 ou 20. Mentir nunca foi sua especialidade. Até recentemente. Agora ele está fazendo disso um hábito.
Ele não contou à mãe sobre sua campanha para provar que a morte de Eric não foi suicídio.
Começa a subir a calçada, arrastando junto sua culpa.
– Consegui ensiná-la a sentar – a mãe diz.
– Isso é muito bom! – Ele entra na casa e fecha a porta.
A mãe coloca Lady no chão. A filhotinha agacha bem na frente deles e, com orgulho, começa a fazer xixi no tapete bege.
A mãe ri. E ele pode jurar que aquele é o som mais agradável que ele já ouviu. Ele bem que queria ouvi-lo mais vezes. Seu pensamento divaga e ele pensa em Leah e no modo como ela riu no dia em que ele a ajudou a estudar.
Como uma garota que achava que ia morrer podia rir daquele jeito?
Matt pega algumas toalhas de papel, se agacha ao lado da cachorra, aponta a mancha no tapete e diz a Lady um firme “não”. Então, pega a cachorrinha e vai para o quintal.
A mãe vai atrás dele. Enquanto caminha para fora, ele levanta o queixo e tenta evitar que a cachorra lhe dê uma lambida na boca. A mãe ri.
Eles adotaram a cadelinha no Natal. Seu outro cachorro, Flops, também um labrador amarelo, morreu antes de o pai falecer.
Matt tem certeza de que adotar o filhote foi ideia da tia Karen. Ela vem visitá-los quase todos os finais de semana agora. Ele também tem certeza de que a tia está por trás da melhora da mãe. Cerca de um mês atrás ouviu as duas conversando na cozinha. Ou melhor, ouviu a tia falando e a mãe
chorando. Sei que você está sofrendo, mana. Mas o problema é que você não está vendo que não é a única. Você não perdeu tudo. Ainda tem Matt e ele precisa de você, caramba!
Ele não gostou de ouvir aquilo. Mas, se ajudou a mãe, ele poderia tolerar.
Além disso, era verdade. Ele precisava que a mãe ficasse bem.
Desde então, ele vê que aos poucos ela está mudando. Não está dormindo tanto. Está fazendo terapia. Provavelmente tomando menos comprimidos também. E começou a sair com ele para correr todas as manhãs.
– Ah! – exclama a mãe. – Ted ligou enquanto você estava lá fora. Ele disse que uns amigos vão ver os fogos de artifício. Quer que você vá com eles.
– Ele ligou no telefone aqui de casa? – Matt pergunta.
– Disse que ligou no seu celular, mas você não atendeu.
– Sim, eu ia retornar a ligação. – Na verdade, não ia.
– Por que não vai com eles? É bom começar o ano assistindo aos fogos.
– Não, prefiro ficar aqui com você.
Ela franze a testa.
– Estou pensando em sair com alguns amigos.
Uau. Seria a primeira vez.
– Você deveria ir. Vá – insiste ele.
– Eu vou se você também for.
Sabe que a mãe está falando sério. Se disser não, ela não vai sair. Ele não tem muita vontade, mas... Ah, até que seria bom. Ele precisa se encontrar com Leah, mas os fogos de artifício só começam às dez.
– Ok. Mas se você não for, vou ficar chateado.
– Eu vou. Prometo. – Ela sorri. Um sorriso de verdade. Ou ele acha que é.
Mesmo que ela esteja fingindo, ainda assim é legal. O que se costuma dizer por aí? “Finja até que seja verdade.” Talvez a mãe consiga voltar a ser feliz.
Talvez ele também consiga. Mas não até descobrir quem matou Eric e ver essa pessoa atrás das grades. E isso pode acontecer logo.
Cassie, que está com o pai na Califórnia desde o funeral de Eric, logo voltará para terminar o Ensino Médio. Ela não tinha atendido a nenhum dos
telefonemas dele. Então disseram para ele parar de ligar. Mas agora que ela estava voltando à cidade, ele ia conseguir algumas respostas.
Algo lhe diz que Cassie sabe muito mais do que disse à polícia. Ele tem certeza de que ela sabe quem é o responsável pelo assassinato do irmão.
Estou sentada na cama de Brandy, no quarto dela, que, aliás, não é rosa.
Cheguei uns dez minutos antes de contar, num tom bem casual, sobre a passadinha que dei na casa do Matt.
– Você está de brincadeira! – exclama Brandy, num tom nada casual e que só contribui para aumentar meu nervosismo.
– Só vou entrar no carro dele e conversar um pouco.
Ela sorri e esfrega as mãos tão rápido que quase vejo faíscas.
– Isso vai ser muito interessante...
– Isso não tem nada de interessante. Por favor, não dê a esse encontro mais importância do que tem.
Estou sendo sincera quando digo isso, mas preciso admitir que eu mesma estou dando mais importância do que deveria.
Estou tremendo por dentro. O que Matt vai dizer quando eu contar sobre os sonhos? Quando souber que o coração de Eric está batendo em meu peito?
A foto de Brandy e Brian na mesinha de cabeceira desvia a minha atenção e, como estou precisando de uma distração, pego o porta-retrato para olhar de perto. Eles parecem felizes. Brandy merece ser feliz.
Somos amigas desde a infância. Ela era nova na escola e eu concordei em dividir com ela as balas de goma em forma de ursinho que tinha na lancheira.
Ela comeu todas. Mas eu não podia ter amiga melhor. Embora tenha aversão a qualquer coisa relacionada a doenças e hospital, esteve a meu lado o tempo todo, mesmo depois de ter desmaiado quando viu sangue na minha camisola, depois da primeira cirugia.
Brandy soltou uma risadinha.
– Só quero ver o que Trent vai achar disso.
– Trent? – O nome dele escapa dos meus lábios como se eu estivesse me referindo a uma frieira no pé. Coloco o porta-retrato de volta na mesinha de cabeceira.
– Por que ele foi convidado?
– Porque todo mundo do clube do livro foi convidado. Porque ele ainda gosta de você e porque, como você mesma disse, ele é legal e você só terminou com ele porque achou que estava morrendo. Agora você não está mais morrendo.
É verdade, não estou mais morrendo e Trent é legal. E ele... fazia parte da minha vida de antigamente. Mas, desde que Matt apareceu na minha casa, descobri que existem caras que são mais do que... apenas legais. E que sabem beijar de um jeito que deixa nossos joelhos bambos e tiram nossos pés do chão, mesmo calçando pantufas do Pato Donald.
Embora eu queira culpar Brandy por convidar Trent, não posso. Eu mesma mandei duas mensagens para Trent pelo Facebook – só porque ele tinha me mandado uma mensagem antes, mas nunca disse que iríamos reatar.
Estava tentando recuperar a minha vida de antes. Como se estivesse experimentando a temperatura da água antes de mergulhar, por assim dizer.
Agora eu preferia manter meus pés bem secos. Mas não porque ache que Matt e eu vamos ter alguma coisa. Sei que não.
Mas... Ah! Merda! Merda! Merda! Será que Brandy tem razão? Será que Trent ainda gosta de mim? Não quero magoá-lo. Não quero magoar ninguém.
Volto a me deitar na cama de Brandy e olhar para o teto.
Fico ali durante vários segundos buscando uma saída. Não encontro nenhuma. Estou num beco sem saída. Volto a me sentar na cama, com um suspiro.
– O que vamos fazer? – pergunto à Brandy, como se também fosse problema dela. Não que ela se importe em dividir o problema comigo. Ela é esse tipo de amiga. Contamos tudo uma para a outra. Ou quase tudo.
Ela me contou que está transando com Brian. Um rito de passagem pelo qual não passei ainda, mas não vejo a hora, principalmente depois de ler
cinquenta romances descrevendo quanto o sexo pode ser maravilhoso. Com a pessoa certa, é claro.
– Você não tem que fazer nada – diz Brandy. – Não está saindo com nenhum dos dois.
– Mas vou magoar Trent.
– Tudo bem, então que tal mentir? Diga que Matt está dando aula pra você, o que não seria totalmente mentira. Porque ele está mesmo. – Ela torce a boca do jeito que faz quando acha que tem razão. – Embora você às vezes se esqueça de contar à sua melhor amiga.
– Não te contei porque... Nem sei, mas não posso mentir para Trent. Já menti para a minha mãe quando disse a ela que viria direto para cá. – Me jogo outra vez no colchão de Brandy, me sentindo sem argumentos.
– Ah, então você tem uma cota de mentiras? É só uma por dia? – O sorriso malicioso de Brandy é tão genuíno que não consigo ficar brava.
– Mais ou menos – respondo.
– Espere aí – diz ela. – Que horas você disse que Matt vai chegar?
– Ele disse daqui a duas horas, então vai ser umas cinco e meia.
– Problema resolvido. A festa só vai começar lá pelas seis ou seis e meia.
Eu me sento na cama e começo a pentear os cabelos com os dedos. Cabelo de quem acabou de levantar da cama não é algo que eu aprecie e já usei esse estilo por tempo demais. A nova Leah usa maquiagem e penteia muito bem o cabelo.
– Então é uma mentira por dia, certo? – A pergunta de Brandy é cheia de malícia.
Confirmo, com suspeita.
– Então me deixe fazer só uma perguntinha. O que aconteceu de fato entre você e Matt Kenner? E não me diga simplesmente que ainda está a fim dele, porque não é só isso. Vejo em seus olhos cada vez que fala o nome dele.
Inspiro e tento decidir quanto eu conto a ela e quanto mantenho em segredo.
– Tudo bem, mas você não pode contar a ninguém.
– Não posso contar a ninguém o quê?
Respiro fundo e coloco a mão no peito.
– Tenho certeza de que este coração é de Eric.
Com vinte minutos de atraso, Matt estaciona em frente à casa de Austin, depois atravessa a rua correndo, até a porta de Brandy.
Não há nenhum carro estacionado na frente da casa. Com exceção do carro de Leah. Que horas será que começa a festa? É quase noite quando ele põe o pé na calçada. As luzes dentro da casa estão acesas. Quando se aproxima da varanda, a porta da frente se abre.
A luz da sala incide sobre Leah e ela sai na varanda com uma aura dourada em volta do corpo que a faz parecer quase irreal. Ele para. A porta se fecha e agora está escuro outra vez. A luz da varanda se acende, iluminando Leah.
Ela continua andando na direção dele. Está tão linda que a respiração dele fica presa na garganta.
Ela para a alguns centímetros dele.
– Você disse que a gente podia conversar no carro.
– Claro. – Ele começa a voltar. – Quer ir tomar uma Coca ou coisa assim?
– Não, dentro do carro está bom – ela diz, atropelando as palavras. Isso e o jeito como ela esfrega as palmas no jeans revelam que está nervosa.
E não é a única.
– Tudo bem.
Eles se acomodam no banco da frente e olham um para o outro. Ele ensaiou uma desculpa, mas não se lembra das palavras. Não consegue mais se lembrar também por que disse a si mesmo que beijá-la tinha sido um erro.
E não consegue lembrar por que está tão deprimido, já que existe alguém tão perfeito quanto ela no mundo.
Ele resolve simplesmente despejar tudo.
– Quero pedir desculpas por não ter ligado. É que... eu estava passando por um momento difícil e...
Alguma coisa brilha nos olhos dela. Quase como se estivesse aliviada.
– Não procurei você agora para que me dê uma satisfação. – Ela esfrega as palmas nas pernas.
Ele segura a respiração e espera que ela se explique.
– Fiquei sabendo de Eric.
A luz do carro é fraca, mas ele pode ver lágrimas nos olhos dela.
– Eu sinto muito, de verdade.
– É. – Todo mundo diz a mesma coisa a ele, mas as palavras dela parecem significar algo mais. Talvez porque ela esteja com o coração de Eric. Ou talvez não seja nada disso. Talvez a empatia dela seja maior. Leah McKenzie é algo maior.
– Eu... não sei como dizer – ela continua –, mas... – Ela cruza as mãos no colo, depois entrelaça os dedos. – Eric morreu no mesmo dia em que recebi um novo coração.
Ela sabe. O peito dele de repente fica vazio, como se toda emoção fosse sugada dali. E ele está esperando que ela a coloque no lugar.
– Eu... sei que eu e você temos o mesmo tipo sanguíneo. Você comentou quando foi à minha casa. Bem, você disse que tínhamos... E gêmeos idênticos...
Ela sabe.
O peito dele volta a se encher com tantas emoções que ele não consegue distingui-las.
– Eric... doou os órgãos dele? – Ela coloca uma mão no peito, sobre o coração. Sobre o coração de Eric.
Ela sabe.
– Eu vi você. – As palavras saem antes que ele possa contê-las.
– Você me viu?
– No hospital, quando eu estava indo embora. Você estava chegando com seus pais.
Uma lágrima, quase prateada sob a luz do poste da rua, molha a bochecha dela.
– Então você sabia? – O lábio dela treme.
Ele assente. A vontade de enxugar aquela lágrima faz com que ele feche a
mão em punho.
– Você me odeia? – Ela morde o lábio inferior. Ele fita os dentes alinhados pressionando a carne rosa e delicada e tem o estranho desejo de dizer a ela para parar. Em vez disso, ele passa o dedo de leve no lábio inferior dela.
Ela entreabre a boca. O lábio dela é úmido e macio sob o seu dedo. Por um instante ele se distrai olhando para ela. Tocando-a. Querendo continuar tocando. Então, percebendo quanto aquilo pode parecer estranho, ele recolhe o braço.
– Por que eu odiaria você?
Ela descruza os dedos e enxuga o rosto.
– Porque estou viva e ele não.
Ele se lembra de ter sentido a mesma coisa aquele dia. E se sentiu envergonhado por ter esse sentimento. Mas ele sabe que era só a dor de ter perdido o irmão.
– Você ter recebido o coração dele não tem nada a ver com o fato de ele ter morrido. – A sinceridade era evidente na voz dele.
Leah assente. As mãos dela estão trêmulas.