Eu e Esse Meu Coração

C. C. Hunter · Capítulo 4 de 46

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Eu e Esse Meu Coração

1 Um mês antes 13 de abril

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Um mês antes

13 de abril

– Mas que puta sorte! – Eu me deito na minha colcha rosa, com o celular no ouvido, sabendo que Brandy está nas nuvens, e fico feliz por ela.

Olho na direção da porta para me certificar de que minha mãe não está por perto, prestes a me dar uma bronca pelo palavrão. Mais uma vez.

Ela não está.

Ultimamente, não consigo mais controlar o meu linguajar. Mamãe culpa os programas de TV. Ela talvez tenha razão. Mas uma garota tem que ter alguma diversão, não é?

– Aonde ele vai te levar? – pergunto.

– No Plabo’s Pizza – A voz de Brandy já não tem o mesmo tom agudo de euforia. – Por que... por que você não vem conosco?

– No seu encontro? Está louca?

– Você vai ao médico, depois poderia...

– Não. Mas não mesmo! – Eu ainda odeio ir ao consultório médico. Se as pessoas olharem com atenção, podem ver o tubo que entra no meu corpo.

Mas não é nem por isso. – Eu prefiro morrer do que ficar segurando vela...

– Não diga isso nem brincando! – A bronca magoada de Brandy faz a voz dela ficar mais aguda outra vez. Mais cheia de dor.

– É só uma figura de linguagem – justifico, mas em muitos sentidos não se trata apenas disso. Eu estou de fato morrendo. Já aceitei isso. As pessoas da minha vida é que não.

Então, para elas, eu finjo. Ou tento fingir.

– Mas se você...

– Pode parar. Não vou ficar segurando vela.

O silêncio paira no ar. É então que percebo: meu comentário sobre a “puta sorte” da minha amiga faz com que ela sinta pena de mim. Brandy está preocupada com a possibilidade de eu estar com inveja. E tudo bem, talvez eu esteja um pouco mesmo. Mas minha avó costumava dizer que não há nada de errado em ver alguém com um lindo vestido vermelho e pensar: “Quero um vestido como o dela”. Só não é legal pensar: “Quero um vestido como o dela e quero que ela tenha uma verruga no nariz”.

Eu não desejo que Brandy tenha verrugas. Ela gosta de Brian há anos. Ela merece Brian.

E eu, não mereço algo melhor que as cartas ruins dadas a mim pelo destino? Pode apostar que sim. Mas o que posso fazer? Chorar? Fiz isso, mas já superei essa fase.

Agora tenho uma lista de coisas para fazer antes de morrer. E tenho meus livros.

Os livros fazem parte da lista. Quero ler uma centena. Pelo menos uma centena. Comecei depois de ter alta no hospital da primeira vez em que sobrevivi a uma infecção causada pelo meu coração artificial. Estou no décimo oitavo livro agora. Nem vou mencionar quantos eram romances água com açúcar.

– Leah – Brandy começa a falar de novo.

A campainha da porta me faz consultar o relógio cor-de-rosa sobre a mesa de cabeceira.

Hora de estudar. Álgebra. Odeio essa matéria. Mas quase gosto de odiar álgebra. Porque eu já a odiava antes de ficar doente. Odiando as mesmas coisas que odiava antes, eu me sinto mais como eu costumava ser.

– Tenho que desligar. A sra. Strong está aqui.

Bato os calcanhares na lateral da cama e os bicos de Pato Donald das minhas pantufas abrem e fecham. Ultimamente, ando com mania de usar pantufas de personagem de desenho animado. Elas dão aos meus pés um ar feliz. Mamãe comprou três pares para mim: Mickey, Pato Donald e Dumbo.

– Mas... – Brandy tenta novamente.

– Não. Mas você vai me contar tudo depois. Todos os detalhes picantes: se ele beija bem, se tem um cheiro bom, quantas vezes você o flagrou espiando seu decote.

Sim, estou com um pouco de inveja. Mas não sou uma cadela sem coração.

Bem, talvez eu seja. Eu realmente não tenho coração, mas não sou uma cadela. Carrego um coração artificial numa mochila. Ele me mantém viva.

– Eu sempre te conto tudo – garante Brandy.

Não conta, não, mas costumava contar. Olho para o ventilador de bolinhas girando no teto. Até Brandy pisa em ovos quando fala comigo, com medo de dizer algo que me lembre da minha triste sina, algo que me leve a sentir pena de mim mesma. Estou farta disso. Odeio quando as pessoas ficam fazendo rodeios em vez de falar a verdade.

– Leah! – mamãe me chama.

– Tenho que ir. – Desligo, pego a mochila onde carrego meu coração e me preparo para enfrentar a aula de álgebra.

Tenho um ódio mortal dessa matéria, mas ela é o item número um da minha lista de coisas a fazer antes de morrer. Bem, não álgebra propriamente, mas me formar no Ensino Médio. E não quero que me entreguem o diploma de bandeja. Quero conquistá-lo.

Vejo minha mãe na entrada da sala de jantar, que agora é uma sala de estudos. Ela está esfregando as palmas das mãos nos quadris. É um tique nervoso, mas não tenho ideia da razão do nervosismo dela agora. Sobrevivi à última infecção e à anterior. Ela ouve meus passos e olha para mim, franzindo a testa. Outro sinal de que a coisa é séria.

Eu paro. Por que ela está tão nervosa?

– O que foi?

– A sra. Strong não pôde vir hoje. – Ela se afasta pelo corredor com mais

rapidez do que disparou as palavras apressadas.

Ouço alguém na sala de jantar. Fico desconfiada. Hesitante, entro na sala.

Minhas pantufas de Pato Donald estancam quando vejo um garoto de cabelos castanhos sentado à mesa.

– Merda. – Mordo os lábios na esperança de que não tenha falado alto demais.

Ele sorri. Sinal de que ouviu. E o sorriso dele é tão lindo quanto aqueles dos romances água com açúcar que ando lendo. Sorrisos tortos, de deixar as pernas bambas ou a cabeça vazia. Juro que meu coração artificial bate descompassado.

Ele é um dos gêmeos Kenner, Eric ou Matt, os dois garotos mais gatos da escola. Eu costumava conseguir distinguir um do outro, mas agora já não tenho certeza de nada. Será que penteei o cabelo? Será que escovei os dentes?

Será que estou de sutiã?

Passo a língua nos dentes, tentando limpá-los discretamente.

Desvio os olhos e fito o chão, balançando para a frente e para trás sobre os calcanhares. Os bicos dos Patos Donalds balançam comigo. Eu deveria correr de volta para o quarto? Mas não iria parecer ainda mais patética aos olhos dele? E, se eu fizer isso, ele vai embora. Levanto o olhar e percebo que não sei se quero que ele vá embora. Gosto de olhar para ele.

– Oi – ele cumprimenta.

– Oi – repito e percebo que estou escondendo a mochila atrás da perna.

Puxo a bainha da minha blusa vermelha para cobrir o tubo que se estende da mochila até o lado esquerdo das minhas costelas, entrando por um orifício que mais parece um segundo umbigo. Sim, estou escondendo a coisa que me mantém viva.

– A sra. Strong não pôde vir hoje – esclarece ele, como se percebesse o que estou sentindo e se achasse no dever de justificar sua presença ali. – Ela me pediu para substituí-la.

– Por quantos pontos extras na sua nota? – Fico esperando ele me dizer que se ofereceu para vir só por gentileza. E, se for verdade, isso significa que aceitou dar aulas para mim apenas porque sente pena. Nesse caso, não sei se

quero ter aulas com ele. Prefiro ser o meio pelo qual ele pode conseguir uma nota melhor.

Brandy me disse que todo mundo na escola sabe do meu coração artificial.

– Dois pontos extras. Ando meio relaxado ultimamente e não entreguei uma lição de casa. Você vai me fazer conseguir média B.

– Você deveria ter exigido pelo menos uns três pontos a mais.

Ele sorri novamente.

– Não acho que ela concordaria...

Eu me aproximo e tento adivinhar qual dos dois gêmeos ele é. Procuro encontrar uma maneira de perguntar, mas tudo em que penso parece estranho.

Suponhamos que ele seja Matt.

Tenho uma queda por Matt desde o sétimo ano. Pode ser só ilusão, mas no primeiro ano do Ensino Médio achei que ele gostava de mim também. Não que alguma vez tenha se declarado. Ele era do time de futebol e eu, do clube do livro. Ele era popular. Eu... não era. Então comecei a namorar Trent. Um cara do clube do livro. Mas terminei o namoro assim que descobri que meu coração estava morrendo.

– São seus livros? – ele pergunta.

Não entendo a pergunta, até ele apontar para minha mochila.

Droga! Entro ligeiramente em pânico. Já tenho várias respostas prontas que inventei quando mamãe, com medo de eu estar me transformando numa agorafóbica, começou a insistir para que eu saísse um pouco de casa. Mas não consigo me lembrar de nenhuma delas. O silêncio começa a pesar.

Então resolvo falar a verdade.

– Não. É o meu... coração.

– Merda... – Ele cospe minha palavra favorita.

Eu solto uma risada.

Os olhos dele encontram os meus, e ele também sorri. Aquele sorriso meio torto. Minha mente paralisa. E eu me sinto derreter por dentro.

– Ah, você está brincando... Não está?

Concordo com a cabeça, depois nego, como se não soubesse a resposta.

O sorriso dele vai apagando como uma lâmpada ao se girar o dimmer do

interruptor.

– Sério?

– Sério. – Ando até uma escrivaninha num canto. Com uma mão, pego meu livro de matemática numa gaveta e o coloco diante da cadeira em frente a ele. Acomodo a mochila com meu coração na cadeira ao lado, de um jeito que ele não possa ver o tubo.

Quando ergo os olhos, ele está fazendo exatamente o que eu esperava: examinando os livros para não ter de olhar para mim. As pessoas têm dificuldade para me encarar, para encarar minha morte, talvez até mesmo para encarar a própria mortalidade. Eu entendo, mas isso ainda me incomoda.

Ele vira uma página. O silêncio é tão profundo que quase posso ouvir a página flutuar no ar até cair sobre as outras.

– A sra. Strong disse que deveríamos começar do Capítulo 6.

– Isso mesmo. – Desapontada, abro o livro e considero a possibilidade de dispensá-lo, alegando que já sei a matéria e posso explicar à minha mãe por que ele foi embora. Mas olho para ele e de repente me sinto egoísta.

Afinal, ele está recebendo dois pontos extras por essa aula!

Ele olha para mim e, antes que eu possa desviar os olhos, nossos olhares se encontram e se mantêm assim. Sustentamos o olhar por mais tempo do que deveríamos, porque de repente parece... tempo demais. Íntimo demais. Como se tivéssemos ultrapassado uma barreira invisível. Como acontece quando um estranho se aproxima demais numa fila.

Nós dois desviamos o olhar.

Ele fecha o livro bruscamente. E vacila.

– O que aconteceu? – pergunta, quase num susurro. Seu tom é triste, gentil e de alguma forma sexy.

Eu me admiro que tenha perguntado. A maioria das pessoas não faz isso.

– Um vírus. Ele matou meu coração. – Odeio o olhar assombrado que vejo nos olhos dele. A sensualidade desaparece. – Um vírus altamente contagioso.

O olhar de pena no rosto dele se transforma em medo. Ele merece a pegadinha.

Mas não resisto. O riso brota na minha boca e me sinto instantaneamente

mais leve.

– Muito engraçado... – Ele solta uma risadinha.

Um pensamento maluco me ocorre: é como se a risada dele estivesse...

enferrujada. E é então que me lembro. E me sinto de fato uma cadela sem coração por ter esquecido.

Não faz nem um ano que o pai dele, que era militar, morreu em combate.

Eu estava no hospital; foi logo depois que a minha doença foi diagnosticada.

O pai de Matt estava em todos os noticiários locais, que mostravam as imagens dos militares mortos e pediam a todos um minuto de silêncio.

Senti como se meu sorriso escorresse dos olhos, dos lábios e se estatelasse no chão. Sei que ele vê no meu rosto a mesma expressão de pena que vi no rosto dele segundos atrás.

– Sinto muito – digo. – Pelo seu pai. Acabei de me lembrar.

Ah, droga. Agora fiz com que o sorriso desaparecesse do rosto dele. Eu deveria ter ficado quieta.

– Pois é... – Ele volta a encarar o livro. – É um saco.

– Mais ou menos como isso – falo, indicando a mochila com a cabeça.

Ele olha de relance outra vez a cadeira onde está meu coração.

– Foi mesmo um vírus?

– Sim. O vírus causou miocardite.

O olhar dele se demora na mochila.

– Como funciona?

Taí uma pergunta que ninguém nunca fez.

– Como um coração de verdade. É uma bomba. Ela envia meu sangue, através das artérias, para o meu corpo todo. – Explico resumidamente sobre a cirurgia que conectou ao meu corpo à bomba que está na mochila e as baterias que tenho de carregar na tomada regularmente.

Ele faz uma careta, até esfrega o peito, como se sentisse a mesma dor que senti.

– Então esse tubo entra dentro de você?

Eu toco a blusa, bem abaixo das costelas, onde o tubo entra no meu corpo.

– Bizarro, né?

– É, mas está mantendo você viva, então... não é.

Concordo. Passos hesitantes no corredor desviam meu olhar do dele.

Minha mãe para na porta.

– Querem alguma coisa para comer ou beber?

Ela esfrega as palmas das mãos no jeans outra vez. Seu olhar preocupado recai em mim. Minha mãe está com receio de que eu vá brigar com ela por ele estar aqui. Por mais estranho que pareça, eu não vou.

Minha mãe sabe que a única pessoa da minha antiga vida que deixo que se aproxime da “Leah moribunda” é Brandy. E só deixo porque não adiantaria querer afastá-la. Tanto minha mãe quanto meu pai me incentivam a sair de casa. Socializar. Até mencionaram a possibilidade de eu voltar a frequentar o colégio. Detestei a ideia. Quero me formar, mas encarar os meus colegas com essa mochila nas costas... Isso não dá. Sem chance.

Tenho boas razões para isso. No sétimo ano, Shelly Black teve leucemia.

Ela ia para o colégio careca, com um lenço na cabeça. Todo mundo tentava não demonstrar quanto era difícil olhar para ela daquele jeito. E a garota não era nem minha amiga. Mas meu coração se condoía por ela. Prefiro ficar sozinha do que impor isso às pessoas. Então olho para o garoto lindo de cabelos castanhos na minha frente e me pergunto se é isso o que ele sente agora.

Mas pensando bem, foi ele quem decidiu vir à minha casa. Está me fazendo perguntas e parece interessado nas respostas. E é bom conversar com ele. Sou uma adolescente normal conversando com um amigo. Um amigo muito gato.

Já que não vou voltar para a escola, então por que não tirar vantagem da situação?

– Posso trazer refrigerante e batata frita. – A voz de minha mãe me traz de volta à realidade.

Espero ele responder. Ele agradece, mas recusa o lanche.

Minha mãe vai embora e nós dois mergulhamos na álgebra. Passamos os vinte minutos seguintes estudando cálculos; depois resolvo algumas equações e ele corrige para ver se eu entendi. Não é nenhum bicho de sete cabeças, mas

é mais difícil do que estudar com a minha mãe. Não consigo me concentrar na matéria, porque estou concentrada nele. Me perguntando qual dos gêmeos ele é. Matt? Eric? Eric? Matt?

Volto a verificar minhas respostas antes de empurrar o caderno na direção dele. Enquanto ele corrige as minhas equações, eu o analiso. A curva dos lábios. O desenho do queixo. A leve sombra da barba, que mostra que ele já se barbeia.

Para me distrair, esfrego os polegares nos indicadores e dou uma espiada nele através dos cílios.

– Você acertou tudo – pelo tom de voz, ele parece orgulhoso da aluna. Seu sorriso reflete a mesma emoção. Ele volta a colocar o caderno na minha frente. – Quer resolver mais algumas?

Quero dizer que não, mas tenho medo de que ele vá embora. E estou mais gananciosa do que nunca. Quero meus quarenta e cinco minutos completos na companhia dele.

– Pode ser.

Depois, sem pensar, despejo:

– Pode só me responder uma coisa, em vez disso?

Nossos olhares se cruzam novamente.

– Só se eu puder perguntar também.

– Tudo bem. – Esfrego a sola das pantufas no assoalho de madeira sob a mesa. – Eu primeiro. – Como vou perguntar isso? – Eu... eu costumava saber diferenciar os dois gêmeos. Mas agora...

Ele dá um sorrisinho, quase como se estivesse decepcionado.

– Agora não sabe mais? Não consegue dizer qual dos dois eu sou?

– Confesso que não... – Franzo a testa e coloco sobre a mesa minhas mãos agora escorregadias de nervoso. – Então, qual dos dois você é?

Ele apruma os ombros na cadeira. A postura dele é um pouco desleixada.

Um ombro está mais alto do que o outro. Não era Matt que costumava se sentar assim?

– Como você nos distinguia antes?

– Fisicamente ou está se referindo à personalidade? – Agora estou achando

que ganharia mais se tivesse ficado de boca fechada.

– As duas coisas. – A expectativa brilha nos olhos dele.

Como se a minha resposta fosse importante. Como se eu tivesse que ter muito cuidado com o que vou dizer.

– Bem, Eric usava o cabelo mais comprido. O cabelo do Matt era mais cacheado nas pontas. – Incapaz de me conter, olho para o cabelo dele e me lembro de quando me sentava na carteira de trás e ficava me perguntando se os fios eram tão macios quanto pareciam. Várias meninas mais ousadas do que eu brincavam com os cachos dele. Sempre me perguntei se teria coragem de fazer o mesmo. Não tive. A coisa mais corajosa que já fiz no colégio foi fundar o clube do livro.

Meus olhos se afastam do cabelo dele.

– E um de vocês tinha os ombros mais largos.

– Qual de nós dois? – Ele se senta mais ereto, o peito estufado, os ombros para trás.

Fico com receio de responder, mas seria mais esquisito ainda se ficasse quieta.

– Eric? – Tento decifrar a expressão dele, mas ele parece fazer uma cara neutra de propósito. – Não que vocês dois não... estejam em forma... – digo sem achar um jeito melhor de me expressar, mas sentindo meu rosto imediatamente arder, como se eu ficasse reparando no corpo deles.

Ele sorri.

– O que mais?

– Quanto à personalidade, Matt é mais quieto, mais reflexivo. Eric é mais falante.

Ele pega seu lápis e começa a rolá-lo entre as palmas, como se estivesse pensando nas minhas respostas.

O lápis para. Juro que meu coração parece acelerar no peito como faria o de verdade.

– Então qual dos dois eu sou? O malhado e falante ou o magro e quieto?

– Não quis dizer magro e quieto. Quis dizer menos malhado e mais quieto.

– A vontade de dizer que eu preferia Matt está na ponta da língua, mas e se

ele for Eric?

Ele solta uma risada e o som é como mágica; menos enferrujado, mais envolvente.

Tenho certeza de que é Matt. Eric não teria o mesmo efeito sobre mim.

Talvez eu tenha imaginado coisas, mas poderia jurar que Matt... reparava em mim. Não acho que isso acontecesse com Eric. Ele já tinha muitas líderes de torcida se jogando em cima dele. Não que Matt não tivesse sua cota de garotas sorrindo para ele e brincando com seus cachos. Ele só não parecia apreciar tanto essa atenção quanto Eric. Às vezes isso o deixava até meio constrangido.

Minha mochila emite um bipe, interrompendo o silêncio confortável que tínhamos finalmente encontrado.

O temido alarme me diz que tenho menos de trinta minutos de bateria.

Pânico transparece nos olhos de Matt. Ou será que é Eric?

– É normal – explico, mas, por causa daquele bipe, do maldito tubo, do meu próprio coração morto, eu me sinto tudo, menos normal.

– Então, vai ser assim para sempre? – pergunta ele.

Nego com a cabeça.

– Não, na teoria só até eu conseguir um transplante.

– Na teoria? – Seu olhar me avalia.

Olho na direção do corredor para me certificar de que minha mãe não está por perto. Até agora a verdade tem dado certo com ele, então decido não mudar a abordagem.

– Eu tenho um tipo sanguíneo raro. AB. As probabilidades de conseguir um transplante não são as melhores.

– AB? – Ele franze a testa. – Não é tão raro. Eu tenho esse tipo sanguíneo.

Se fosse um rim, eu te doaria um dos meus.

Solto uma risada, mas é forçada. Odeio pensar num transplante. Não apenas porque não acho que vá acontecer, mas porque alguém teria que morrer para eu que eu sobrevivesse, e acho isso muito errado. Mas é o que meus pais e até Brandy estão fazendo, torcendo para alguém morrer. Isso é ainda pior do que desejar que alguém tenha verrugas.

– Mas... – A pausa parece significar alguma coisa. – Você... você vai viver assim até que haja um coração disponível?

Ok . A verdade não funcionou.

– Sim – digo o que ele quer ouvir. O que todo mundo quer ouvir. Não importa que eu tenha contraído duas infecções por causa do coração artificial e cada uma delas quase tenha me matado. Não importa que ninguém tenha sobrevivido mais de quatro anos com um coração artificial. Não importa que centenas de pessoas com sangue tipo AB estejam esperando por um novo coração, uma vida nova, um milagre.

Ele franze a testa.

– A maneira como diz isso dá a impressão de que você não acredita.

Preciso me esforçar mais.

– Tenho certeza de que um dia vai acontecer – minto, e depois de repente não quero mais mentir. Não tenho que mentir. Não com ele. Eu me sento mais ereta na cadeira. – Mas, sabe, é preciso muito mais energia para ter esperança do que para aceitar a morte. Prefiro gastar minha energia aproveitando o que tenho agora.

– Isso é mesmo uma merda... – A expressão de tristeza dele se aprofunda.

– É uma merda, você tem razão. Mas estou bem com isso. – E na maior parte do tempo, estou mesmo. No começo ficava dizendo a mim mesma que tinha que ter esperança, que conseguiria um coração. Mas quanto mais leio sobre as estatísticas, mais percebo que as chances de eu conseguir um coração são praticamente nulas. E em vez de me enganar ou ficar andando por aí com cara de coitada, decidi aproveitar ao máximo o tempo que me resta. Por isso, elaborei a lista de coisas a fazer antes de morrer. E estou mais feliz agora. Mesmo.

Ele consulta o relógio.

– Acho que está na hora de eu ir.

Quero dizer que ele não precisa sair correndo. É muito triste dizer que a aula dele foi a coisa mais divertida e vibrante que aconteceu na minha vida neste último ano?

Ele se levanta. Eu faço o mesmo, depois coloco a mochila no ombro,

sempre escondendo o tubo.

Ele anda na direção do corredor. Eu o sigo. Estou olhando o cabelo dele, reparando no jeito como é cacheado nas pontas. Mais uma vez esperando que ele seja Matt. Estou tão entretida com os fios do cabelo dele que nem noto quando ele se vira para mim.

Vou com tudo na direção ele.

– Opa! – Ele pega nos meus ombros e me segura contra si. – Você está bem?

As mãos dele estão nos meus braços agora. Meus seios, contra seu peito.

Então me dou conta! Sinto algo que não sentia havia muito tempo.

Emoção. A emoção de uma garota diante de um garoto, não a emprestada dos romances que leio.

Posso sentir o cheiro dele. Sabonete masculino ou desodorante; meio picante, bem masculino. O desejo de me inclinar e enterrar o nariz no ombro dele é tão forte que tenho que segurar as mãos.

– Está tudo bem – digo. Não se afaste. Não se afaste. Por favor, não se afaste.

Ele não se afasta. Olha para mim. Tão de perto que posso ver que seus olhos castanhos têm raias douradas e verdes. Uma voz dentro de mim diz que eu deveria dar um passo para trás, mas por nada neste mundo eu me afastaria dali. Estou morrendo mesmo... É errado querer isso?

– Eu... esqueci meus livros. – As palavras saem dos lábios dele num tom incerto. Seus polegares acariciam meus braços. Apenas o menor e mais suave dos atritos, que causa uma sensação boa demais...

Corro a língua pelo lábio inferior.

– Ah, eu... pensei que fosse me beijar. – Ouço minhas próprias palavras e me pergunto onde consegui coragem para dizer isso.

Ele arregala os olhos. Não com ironia, só de surpresa.

– Quer que eu beije você?

Eu sorrio.

– Se você é Matt, quero que você me beije desde o sétimo ano.

Seu olhar desce para a minha boca e permanece ali.

– Seu coração é forte o suficiente?

Eu começo a rir.

– E você beija tão bem assim?

– Talvez. – Um sorriso franze os cantos dos olhos dele. Ele se inclina em minha direção. Seus lábios estão contra os meus, suaves e doces. Todos os meus sentidos estão em voltagem máxima. Chego mais perto, abro a boca e passo a língua entre os lábios dele. Sim, é ousado, mas não vou viver por tempo suficiente para me arrepender.

Sua língua roça na minha. Uma mão segura a minha cintura, a outra desliza até a minha nuca. Ele vira delicadamente meu rosto para aprofundar o beijo.

Sinto os lábios dele, cada contato da pele dele contra a minha. Eu me sinto incrível. Absolutamente viva!

Fico ainda mais ousada e me aproximo, correndo os dedos pelo cabelo dele. É ainda mais macio do que eu pensava.

Quando ele se afasta, olhamos um para o outro, ofegantes. A confusão em seus olhos diz que ele não me beijou por pena. Começamos a nos aproximar outra vez.

Seus lábios estão quase nos meus novamente quando o barulho da porta da frente se abrindo estraga o momento. Nos afastamos depressa e cruzamos o corredor até a sala de jantar. Ele pega os livros dele.

Meu pai entra e chama por minha mãe.

Eu ignoro.

Toda a minha atenção está no garoto parado à minha frente, os lábios ainda molhados do nosso beijo. Pego uma caneta na mesa, rabisco o número do meu celular numa folha de caderno, arranco-a e entrego a ele.

– Se você quiser conversar. Sobre todas as merdas da vida... – acrescento.

Então fico preocupada, achando que estou parecendo uma idiota.

Ele pega o papel. Nossos dedos se encontram, sinto a eletricidade e não me importo mais de parecer idiota. Prometo não me arrepender depois. Se ele ligar. Ou se não ligar. Aquilo foi bom demais para eu me arrepender.

Nós nos olhamos novamente. Quero tanto beijá-lo outra vez que estou tremendo. A voz dos meus pais na cozinha ecoa e invade nosso momento

mágico. Eu queria que estivéssemos em algum lugar diferente. Eu queria...

queria... Mas antes de me enveredar pelo caminho perigoso de querer o impossível, tiro esses pensamentos da cabeça.

Ele começa a cruzar o corredor e eu o sigo até a porta. Ele põe a mão na maçaneta e depois se vira. Não dizemos nada, mas trocamos um sorriso. Em seus olhos, vejo um leve embaraço, um toque de incerteza e a sugestão de algo mais quente. Espero que seja desejo. Ele olha por sobre o meu ombro, como se para ter certeza de que estamos sozinhos, então roça o dedo nos meus lábios. Um gesto lento. Suave. Sensual.

Quero guardar na memória essa sensação. É deliciosa.

Ele se vira e sai, muito antes de eu estar pronta para me despedir.

Corro até a janela lateral, mas não fico muito perto para o caso de ele olhar para trás, só o suficiente para poder vê-lo andando pela calçada. Eu o vejo entrar no carro. Fico olhando enquanto ele desaparece rua abaixo.

Passo a língua nos lábios, ainda sentindo o gosto do beijo. Se eu morresse agora, morreria feliz.

Os passos de mamãe e papai ecoam atrás de mim. Eles dizem alguma coisa, mas eu ignoro. Estou ainda naquele momento mágico, revivendo tudo.

A sensação do beijo. O gosto bom que ele tinha. A maciez do cabelo dele. A vida, como ela é doce... Mesmo que eu esteja morrendo.

Eu me inclino e pressiono a testa contra a vidraça. Está fria, o clima de abril ainda deixa um friozinho no ar. Então franzo a testa quando percebo: ele não chegou a me dizer quem era. Eric ou Matt? Eu me lembro do que eu disse sobre querer que Matt me beijasse desde o sétimo ano. Se ele não fosse Matt, teria me dito, não teria? Meu coração diz que era Matt, mas meu coração é artificial. Posso confiar nele? Droga, não sei quem beijei.