Eu e Esse Meu Coração
Capítulo 38
Estou prestes a começar a tomar meus comprimidos quando mamãe me vê.
– Leah. – Os olhos dela estão arregalados.
Meu pai fecha o jornal. Ele não faz isso com calma e capricho, como habitualmente. Quase o amassa, como se estivesse tentando esconder alguma coisa.
Eu fico ali, olhando para eles. Parece que não se trata apenas do caso.
– O que foi? – pergunto.
38
– Nada – diz minha mãe, muito rápido. Ela não sabe mentir.
Meu pai olha para ela.
– Leah vai acabar ouvindo.
– Ouvindo o quê? – Eu me aproximo.
– Estão contando uma história sobre você – explica meu pai.
– Sobre mim? Tem a ver com a bala que foi encontrada?
Nenhum dos dois responde.
E então eu me lembro do artigo que a imprensa fez sobre o meu transplante. Odiei ter de responder a todas aquelas perguntas. Mas minha mãe me disse que era melhor eu responder, porque isso estimularia outras pessoas a doar seus órgãos, e a Antiga Leah não discutiu. Mesmo assim, imaginei todo mundo na escola lendo o artigo e descobrindo que eu estava à beira da morte.
– É um artigo sobre o transplante? – perguntei.
Minha mãe assente, mas é visível que ela está escondendo alguma coisa.
– O que mais?
Papai ergue os olhos.
– Você sabia que o irmão de Matt morreu no mesmo dia que você fez o transplante?
Prendo o fôlego.
– O que... estão dizendo?
Papai me olha preocupado.
– Que Eric era um doador. Entrevistaram um dos amigos dele. E disseram que você conseguiu um novo coração e... que ajudou a desvendar o caso dele.
– É um bom artigo – acrescenta minha mãe – sobre pessoas que doam seus órgãos. Eles não dizem que você fez o transplante no mesmo dia. Nós só...
Fico ali, balançando a cabeça. Minha mãe se aproxima.
– Querida, não suponha que Eric foi o doador. É impossível. Ele teria que ter o mesmo tipo sanguíneo que você. E você sabe quanto seu tipo é raro...
– Ninguém deveria saber! – Meu peito está cada vez mais apertado.
Sufocado.
Imagino todo mundo lendo o artigo. Todo mundo descobrindo que estou com o coração de Eric. Penso nos amigos de Matt. Como vão olhar para mim? Vão achar que Matt está comigo só por causa disso? E eu estava começando a me sentir normal na escola! Agora volto a ser uma aberração.
Uma aberração que se deu bem quando eles perderam o cara mais popular de todo o colégio, o melhor jogador do time, o amigo deles.
De repente não consigo respirar.
Agarro o encosto a cadeira.
– Leah, você está bem? – mamãe me segura.
Firmo os joelhos para não cair, digo que sim e a afasto. Consigo virar a cadeira e me sentar. Sozinha.
– Está tudo bem? – papai também pergunta.
Meus olhos se enchem de lágrimas. Eu faço que sim, para tranquilizá-lo, e respiro fundo, disfarçadamente, o que é quase impossível.
– Querida – diz papai –, seria quase impossível que você tivesse ficado com o coração de Eric.
Olho para ele. Sinto todo o meu corpo tremer por dentro. Mal consigo respirar.
Papai me olha nos olhos. Ele sempre consegue perceber o que estou sentindo.
– Merda.
Mamãe olha para ele.
– O que foi?
– Qual é o tipo sanguíneo de Matt? – pergunta papai.
– Por quê? – ela pergunta.
– Eles são gêmeos idênticos. – O olhar de papai encontra o meu novamente. Ele sabe. Sabe a verdade.
Solto o ar dos pulmões. Depois sorvo oxigênio outra vez, bombeando sangue para o meu cérebro. Meus membros. Posso me mover. Pego o jornal.
Ignorando meus pais, eu o abro. Há uma fotografia minha.
É de quando eu tinha o coração artificial. Estou usando a mochila.
Tenho círculos escuros sob os olhos. Foi tirada no dia em que saí do hospital. Parecia que eu estava morrendo.
Eu estava de fato morrendo.
O título é:
RECEPTORA DE TRANSPLANTE DE CORAÇÃO AJUDA A DESVENDAR O ASSASSINATO
DE SEU DOADOR
Lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Eles vão saber. As pessoas não são idiotas. Vão ligar uma coisa com a outra. Vão descobrir. E não vão ser como Matt. Não vão compreender. Vão me culpar.
Eu me levanto e levo o jornal comigo para o meu quarto. Mamãe me chama da cozinha. Eu a ignoro.
Visto uma roupa, pego o jornal e a bolsa, e saio.
Mamãe tenta me impedir.
Olho para ela.
– Só preciso ficar sozinha. Por favor.
Mamãe diz que não. Papai pega a mão dela e faz um gesto com a cabeça, permitindo que eu vá.
Eu saio de casa.
Não sei para onde estou indo. Mas acabo no parque onde Matt e eu passeamos com Lady. Me sento no nosso banco e leio o artigo. Não é tão ruim quanto pensei. É mais sobre como se tornar um doador do que sobre
mim ou Eric, mas eu sei que vai ser o suficiente. Suficiente para que algumas pessoas comecem a juntar as peças do quebra-cabeça.
Fiquei ali quase quinze minutos antes de pegar o celular e ligar para Matt.
Eu me pergunto o que ele vai dizer sobre isso. Provavelmente a coisa certa.
Ele sempre diz a coisa certa. Preciso ouvi-lo dizer que o artigo não significa nada. Que estou exagerando.
– Ei, linda! – ele atende ao telefone. – Seus pais deixaram você sair comigo hoje à noite?
– Hã... eu não perguntei. Matt...
– Espere, estou chegando a um cruzamento.
Faço uma pausa. Quando ele volta, eu pergunto:
– Onde você está?
– A ração acabou. Estou indo à clinica veterinária comprar mais.
– Estou no parque – digo.
– No nosso parque? – ele pergunta.
No nosso parque. Saber que ele o vê da mesma maneira que eu me deixa feliz.
– Sim.
– Acabei de passar por aí. Vou voltar. Fique onde está.
– Estou no banco – digo antes de desligar.
Em menos de cinco minutos, eu o vejo chegando. Ele olha para mim e logo pergunta:
– O que há de errado?
Só então eu percebo que não penteei o cabelo. Ou será que ele vê o tumulto em meus olhos?
– Você não leu?
Ele se senta, se inclina e me beija.
– Leu o quê?
Eu mostro o jornal para ele.
– Estão dizendo aqui que Eric era um doador.
Ele pega o jornal e o lê rapidamente. Então solta um gemido.
– Esse jornal é de hoje?
Faço que sim com a cabeça.
– Merda! – deixa escapar.
Eu mordo o lábio.
– Estou com medo que as pessoas comecem a ligar os fatos e passem a me odiar.
Ele passa a mão no cabelo.
– Quem contou que ele era um doador?
– Diz aí que foi um amigo – eu digo.
– Eu devia... – Ele se levanta. – Mamãe foi mostrar uma casa. Preciso ir antes que... – Ele se inclina para me dar um beijo de despedida.
– Ela vai me odiar, não vai? – pergunto.
– Não... Eu não... – ele solta o ar dos pulmões. – Ela não queria doar os órgãos dele. Eu... Ela está indo tão bem e não quero que... – Ele fecha os olhos por um segundo e depois volta a abri-los. – Eu ligo pra você. – Ele me beija novamente. – Vai ficar tudo bem. Você vai ver.
Mas eu não tenho tanta certeza. Não ao ver a expressão dele. Matt está com medo de que a mãe saiba. Provavelmente está com medo de que os amigos saibam também.
Quando Matt se afasta, eu me lembro de algo. Da mãe dele me chamando de Lori. Matt disse a ela que meu nome era Lori apenas por precaução... Para o caso de ela ter ouvido algo sobre uma garota chamada Leah que tinha feito um transplante de coração...
Eu puxo os joelhos até o peito e os abraço. Tudo é tão confuso...
E mesmo quando deixo meus problemas me consumirem e me sinto um pouco abandonada por Matt, percebo quanto estou sendo egoísta. Estou preocupada com o que as pessoas vão pensar de mim, mas estou viva. Eric não está. E agora ele finalmente tem uma chance de que se faça justiça. Abrir mão da minha privacidade não é um preço pequeno a se pagar?
Quando Matt chega em casa, o carro da mãe está na garagem. O jornal não está no gramado.
– Droga! – ele entra. Ela está na cozinha, sentada à mesa.
O jornal está aberto.
Ele não sabe quanto ela deduziu ao ler o artigo. Talvez nem tenha reconhecido Leah. Leah parece realmente doente na foto. Ele se senta ao lado dela, com a respiração presa.
Ela olha para ele, com os olhos cheios de lágrimas. O peito dele se aperta.
– Quando Leah fez o transplante de coração?
Ele não responde. A mãe já tinha percebido que “Lori” era na verdade
“Leah”.
– Ela fez... Você não acha que ela pode estar com o coração de Eric, acha?
– pergunta a mãe.
Ele pode dizer que não sabe. Pode mentir. Mas talvez seja a hora de dizer a verdade.
– Sim, acho que sim.
Ela engole em seco. Ele vê a dor nos olhos dela.
– Como você sabe?
– Na tarde em que assinamos os papéis, eu a vi entrando com os pais no hospital. Eu a conhecia. Ela estuda na minha escola, e eu sabia que ela estava na lista de transplantes. Eu deduzi.
A mãe volta a olhar para o jornal.
– Eu sou uma pessoa tão horrível...
Isso não é o que ele esperava que a mãe dissesse.
– Não, você não é, não.
– Sou, sim. Eu não quero sentir isso. Mas, mesmo agora, quando olho para Leah – a voz dela vacila –, só consigo pensar que ela está viva e Eric não está.
Ele descansa a mão na dela.
– Isso não faz de você uma pessoa horrível.
Matt odeia admitir, mas acaba admitindo:
– Eu senti isso também na primeira vez que a vi, no hospital. É normal.
Ela enxuga as lágrimas.
– Você o sente? Quando está com ela, você sente Eric?
Ele pensa nos sonhos, na conexão que tem com Leah.
– Percebi algumas coisas. De repente ela começou a gostar de comida indiana. Mas... não sinto Eric quando estou com ela. No começo, pensei que sentiria. Eu só sinto a pessoa que ela é. Mas estou orgulhoso. Ela só está viva por causa de Eric. Foi ideia dele ser um doador, não minha.
Essa é a primeira vez que ele diz isso em voz alta.
– Só concordei em ser doador porque ele optou por isso. Até perguntei,
“Mas você não acha que os médicos podem deixar você morrer só para vender os seus órgãos depois?”. Eric riu e me acusou de ler histórias de terror demais.
A mãe cobre a boca por um segundo.
– Ele não tinha medo de nada. Vocês dois são como seu pai.
– Eric era como papai – discorda Matt. – Acho que sou mais parecido com você, mãe. – Mais emotivo, mais cauteloso.
– Acho que você tem mais do seu pai do que pensa. Você descobriu o que realmente aconteceu a Eric. Teve coragem de ir atrás da verdade, mesmo quando ninguém acreditava em você.
Ele não teria tido essa coragem se Leah não tivesse acreditado nele e o ajudado.
– Sabe, não sinto Eric quando estou com ela, mas, em vários sentidos, acho Leah e Eric parecidos. Dei aula para ela em casa uma vez, quando ainda tinha um coração artificial. Ela também não parecia ter medo. Acho que nem sabe quanto é corajosa. Mas ela é uma boa pessoa, mãe. Merece o coração de Eric.
– Tenho certeza de que merece, filho. Só preciso de um tempo para me acostumar.
Mamãe e papai estão esperando por mim quando entro pela porta da frente.
Eu encontro os olhos deles, que estão cheios de perguntas.
Mamãe corre até mim.
– Você está bem?
– Sim. Eu só... Não quero que as pessoas saibam. Todos amavam tanto Eric... – Engulo o nó na minha garganta e novamente reprimo o sentimento de que é tudo culpa minha.
– Mas, querida – diz minha mãe –, como você pode ter certeza...?
Enquanto eu dirigia para casa, decidi não mencionar os sonhos. Ia parecer muito estranho.
– Eu vi o obituário dele antes de sair do hospital. Sabia que ele tinha morrido no dia em que fiz o transplante. E também sabia que Matt tem sangue AB, então Eric também tinha.
Papai se aproxima. Ele está com cara de quem sente o peso do mundo nas costas, a mesma expressão que carregava na maior parte do tempo, quando eu estava doente.
– Querida, se Matt disse algo desagradável...
– Não! Ele sabia. Nos viu chegando ao hospital aquele dia. Conversamos sobre isso antes mesmo de começarmos a namorar.
Papai respira fundo e solta o ar.
– Então, obviamente, isso não o incomoda. Se ele pode aceitar...
– Não é tão fácil, pai. Ele está preocupado com a mãe dele. Ela não queria que Eric fosse um doador. Ela perdeu o filho e já perdeu o marido.
Mamãe fica com lágrimas nos olhos.
– Mas não é culpa sua.
– Não, mas ela vai me odiar. Assim como os amigos dele. Para ser franca, eu quase que me odeio também. Eu me beneficiei de algo tão terrível! –
Começo a soluçar e papai me abraça e me aconchega em seu peito. Ele é meu porto seguro, mas não me sinto segura agora.
No final, mamãe e papai me dizem a mesma coisa que Matt.
– Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.
Vai ficar tudo bem. E nos próximos dias, acredito nisso. Meus pais me tiram do castigo. Mamãe, papai e Matt sobreviveram ao clima estranho quando a verdade veio à tona. Estranho porque mamãe abraça Matt e o agradece. Eu me encolho. Quero dizer, parece que ela está agradecendo a ele pelo irmão ter morrido.
De acordo com Matt, a mãe está tentando aceitar que estou com o coração de Eric. Não perguntei a ele por que ela me chamava de Lori. Mas isso ainda me incomoda.
No domingo, Matt está com os amigos. Eu me aconchego na cama com um livro. Alguns minutos depois, recebo uma mensagem de texto. É de Matt.
Jogando bola. A namorada do Ted está aqui. Quer vir assistir? Posso tirar a camisa.
Solto uma risada. Estou tentada. Mas me sinto... cansada. Mando uma mensagem.
Acabei de começar um livro.
Volto a ler.
Uma hora depois, acordo com um sobressalto.
– Leah? Você está bem?
Eu me sento na cama. Mamãe paira sobre mim. O livro está no meu peito.
– Acabei caindo no sono. Estou bem.
Mas, quando vou me levantar, sinto meu coração batendo no peito. Tum!
Tum! Tum!
Verifico minha respiração. Está tudo bem. Quando mamãe sai do quarto, verifico minha pressão sanguínea. Está boa. Estou bem, asseguro a mim mesma.
A segunda-feira chega. Adolescentes obviamente não leem jornal.
Ou é o que parece, porque ninguém diz nada. Algumas pessoas me olham fixamente, mas principalmente quando Matt e eu estamos juntos. Acho que eles ainda estão tentando descobrir por que Matt Kenner está andando com Leah McKenzie à tiracolo.
Sinceramente, ainda estou tentando descobrir isso também.
Tirando isso, nada está diferente.
Nada, exceto o fato de que estou cansada.
Talvez seja a preocupação por causa do artigo. E da mentira da semana passada. Quando vou assistir à minha última aula aquela tarde, tenho
dificuldade para percorrer o longo trajeto entre as salas de aula. Estou sem fôlego ao chegar lá. Estou bem, repito a mim mesma. E, quando a verifico outra vez, minha respiração já está normal.
Matt e eu cabulamos aula na terça-feira. Vamos a uma livraria. Cada um de nós escolhe um livro. Então escolhemos um livro um para o outro. Comemos pizza de muçarela no almoço, vamos para a minha casa e fazemos amor na minha cama cor-de-rosa.
Nos braços um do outro, eu amo a minha vida. Amo Matt. Amo cada segundo desse dia em que faltamos nas aulas. Quero anotar novos itens na minha lista de coisas para fazer antes de morrer e começar a ticá-los.
Matt está falando sobre recondicionar o motor do Mustang. A voz dele ao falar sobre isso está ligeiramente diferente. Perdeu um pouco do tom entristecido. Enquanto o ouço falar, caio no sono. Quando ele me acorda com beijos, fico constrangida.
Aquela tarde, antes de ele sair, Henderson liga para Matt. Yates fugiu e acabou confessando que atirou em Eric. Alegou legítima defesa. Disse que Eric foi atrás dele com a arma do pai, eles lutaram e a arma disparou. Matt coloca o telefone no viva-voz e eu ouço o detetive Henderson dizer:
– Não se preocupe. Vai ser muito difícil algum tribunal acreditar nele.
Principalmente porque a bala na árvore saiu da arma dele e mostra que ele provavelmente disparou primeiro. E temos o testemunho da mãe de Cassie indicando que Yates foi o agressor, então temos indícios muito fortes.
Nós nos abraçamos e dançamos ao redor do quarto. Então me deixo cair na cama. Sinto meu coração batendo. Cheio de felicidade.
Ouço aquela música do Bob Marley, da trilha de A Pequena Sereia, dizendo que tudo vai ficar bem. Parece uma promessa. Uma promessa em que é muito fácil acreditar. Mas sei que A Pequena Sereia é um conto de fadas. Nos contos de fadas as pessoas não contraem vírus capazes de matar um coração. Nos contos de fada, não existem transplantes.
E, se um transplante ocorrer, nunca será rejeitado.
Decido verificar meus sinais vitais aquela noite e pretendo fazer isso novamente pela manhã. Tudo vai acabar bem. Só que, na manhã seguinte,
quase não tenho tempo. Estou tão cansada... Mamãe tem que entrar no meu quarto para me acordar.
– Tudo bem, dorminhoca? – ela pergunta.
– Sim. – A letra da música que diz “Não se preocupe... tudo vai acabar bem” não sai da minha cabeça, mas na sexta-feira sei que isso é mentira, quando pego a mochila, vou para a última aula e não consigo recuperar o fôlego. Não é a mesma falta de ar que sinto quando Matt me beija ou quando fazemos amor. É o tipo de falta de ar que me lembra monstros. Lembra sofrimento. Não tanto o meu, mas do sofrimento de outras pessoas. Pessoas que se importam comigo.