Eu e Esse Meu Coração
Capítulo 34
– Provavelmente vamos todos juntos ao cinema – disparo outra mentira e começo a perseguir um cogumelo solitário no meu prato. Quando consigo pegá-lo, espeto-o com o garfo.
– Parece divertido – diz minha mãe. – Seu pai e eu vamos jantar nos Benson.
Eu engulo o cogumelo, depois persigo outro e o pego com o garfo. Então empurro meu prato para longe.
– Preciso ajudar com a louça?
– Não, você lavou os pratos da última vez – diz ela. – É a vez do seu pai.
Papai sorri.
– Ela pode lavar se quiser.
– Não quero tirar essa alegria de você. – Eu forço um sorriso.
Agora com a mentira completa, posso ir para o meu quarto e começar a ter o meu ataque de pânico programado, por planejar passar a noite com Matt.
34
– Vou pescar com Ted este final de semana, em Galveston. – Matt senta-se com a mãe para conversar, sexta à noite, quando ela retorna do grupo de apoio para pessoas em luto. Mentir sempre lhe parece difícil, mesmo quando ele não pretende fazer nada errado.
Mas, pensando bem, não é apenas a mentira que o está deixando nervoso.
É o final de semana. Por mais empolgado que ele esteja, por mais excitado que esteja, ele está nervoso. Matt quer que a noite de sábado seja perfeita.
– Isso é bom. Você não tem feito isso há um bom tempo.
Isso é verdade. Ele engole em seco. Sabe que a mãe não se referiu ao que ele está pensando, mas ainda assim a frase mexe com ele. Se o ditado “a prática é amiga da perfeição” for verdadeiro, ele está em apuros. Faz dezoito meses que ele não faz sexo. E não tem certeza nem mesmo de que fez tudo certo antes. Jamie nem sempre parecia gostar tanto quanto ele.
E ele realmente quer ter certeza de que Leah vai gostar.
A mãe se levanta e abre a geladeira.
– Quer um sanduíche?
– Não, comi um hambúrguer. – Ele vira a lata de refrigerante em suas mãos. A condensação deixa as palmas das mãos úmidas. Ou será que são seus nervos?
Tentando afastar esses pensamentos, Matt olha para ela.
– Você não saiu para jantar?
– Sim, algumas pessoas do grupo de apoio se reuniram para jantar. Mas eu geralmente estou muito comovida depois da reunião e nunca como muito.
Matt a observa tirar da geladeira o vidro de maionese e o rosbife.
– Mas está ajudando, certo?
– Sim. Estou melhor do que antes. – Ela pega uma faca e começa a espalhar maionese no pão. Ela volta a olhar para ele.
– Às vezes me sinto culpada porque estou melhor.
– Sei como é – diz Matt. Ele também anda passando por isso. Uma parte dele se sente feliz quando perambula por aí pensando em Leah; mas existe a outra parte. – Eu percebo que estou feliz e depois me sinto mal por isso.
O fato de não ter tido sonhos ultimamente é bom, porque ele está dormindo melhor. Mas ainda havia aqueles momentos estranhos, como quando pega o menu de milkshakes, na lanchonete que Eric e ele frequentavam.
O detetive Henderson ligou para ele ontem com boas notícias. Confirmou que Jayden tem um registro policial. Eles não estão reabrindo oficialmente o caso ainda, mas ligaram para obter um depoimento de Jayden. Foi quando Henderson descobriu que Jayden estava com o pai na Flórida. Matt foi um pouco insolente e garantiu para o detetive que Jayden não voltaria.
Henderson assegurou a Matt que ele já tinha ligado e falado com o pai de Jayder.
Paciência.
– O terapeuta diz que é normal. Temos que continuar – diz a mãe dele. –
Ele prometeu que vai ficar cada vez mais fácil.
Matt concorda e decide ser sincero.
– Mãe, fui ver o detetive Henderson outra vez.
Ele espera ser repreendido, ouvi-la dizer que ele tem que aceitar as coisas como são. Em vez disso, ela coloca um pedaço de rosbife no pão e ele se pergunta se ela ouviu o que ele disse. Matt começa a repetir quando a mãe olha para ele.
– Eu sei. O detetive Henderson me contou.
Ele engole a surpresa. Ela também sabia a verdade sobre o olho roxo, que só agora estava começando a desaparecer?
– Por que... por que você não me contou?
– Estava tentando discernir como me sinto sobre isso. – Ela traz o sanduíche para a mesa e se senta. Seus olhos verdes estão com uma expressão indecifrável.
– E como você se sente? – Ele realmente quer saber?
– Com medo – diz ela.
– Com medo por quê? – pergunta ele.
– Com medo de acreditar. Quero tanto acreditar que o Eric não...
– Ele não fez isso, mãe. Eu sei.
– Espero que seja verdade. – Ela respira fundo. – Mas, então, quando penso que alguém fez isso com ele, fico furiosa. E percebo que não posso deixar que esse sentimento me consuma também.
– Eu sei – diz ele. Então ele se lembra do que Ted contou a respeito de Eric, aquela noite. Foi a primeira vez que Matt realmente sentiu uma dúvida.
Mas, quando ele tentou imaginar Eric puxando o gatilho, sabendo como isso afetaria a mãe e o irmão, Matt afastou a dúvida para longe. Ele sabe que Jayden Soprano matou o irmão.
Quando olha para a mãe, ela o está observando novamente. Ela se inclina e coloca a mão na dele.
– Não importa o que aconteça, vamos ter que continuar vivendo.
– Estou fazendo isso. – Ele toma um gole de refrigerante.
Ela se remexe na cadeira.
– Eu sei. Vejo você sorrindo mais. E não posso deixar de me perguntar se não é por causa da esquiva e misteriosa Lori.
– Pode ser – diz ele, mas lá no fundo ele sabe que esse é o mais ridículo eufemismo que já saiu da sua boca este ano. “Lori” é a maior razão por que ele está se sentindo tão bem.
– Quero conhecê-la – diz a mãe.
– Tudo bem. – Isso é uma preocupação para outro dia. Como será que sua mãe vai reagir quando descobrir que Leah está com o coração de Eric?
Sábado vou de carro até a casa de Brandy e estaciono na entrada para carros.
Os pais dela estão fora este fim de semana, o que torna este momento perfeito. Exceto pelo fato de que Brian está hospedado lá.
Não gosto da ideia de incomodar a privacidade dos dois. Mas Brandy insistiu que eu aparecesse ao meio-dia para que pudéssemos conversar, antes que Matt chegasse para me buscar. Ele não me disse exatamente aonde estamos indo, exceto que será em Galveston.
Estou uma pilha de nervos. Mais por causa da minha cicatriz do que pelo sexo em si, provavelmente. Continuo vendo Brandy se assustar ao ver a linha vermelha no meu peito e imagino como Matt vai reagir. Espero que não se assuste.
Agarro o volante e faço respiro profundamente para acalmar os nervos.
– Não vai entrar?
Tomo um susto e pulo no assento, depois vejo Brandy – ainda vestindo seu pijama velho –, em pé, na janela do meu carro. Eu me pergunto se é isso que ela usa quando dorme com Brian. Eu estou levando uma calça de pijama, mas também tenho um short mais sexy e justo que combina com a regata de cetim rosa que planejo vestir na hora de ir para a cama... e continuar com ela.
– Sim. – Saio do carro e já pego minha mochila para não ter que voltar para buscá-la quando Matt chegar.
– Você está bem? – Brandy pergunta.
A garota me lê como um detector de mentiras.
– Tudo bem. – Percebo que o carro de Brian não está estacionado ali.
– Onde está Brian?
Ela sorri.
– Pedi que saísse para conversarmos. Eu sabia que você estaria nervosa.
– Quem dera você não estivesse certa...
Ela pousa a mão no meu ombro.
– Vai ser demais, pode acreditar.
Nós nos esparramos no sofá para conversar e esperar Matt. Brandy começa me dando dicas sobre o que os caras gostam na cama. O papo logo fica realmente estranho. E passa a ficar engraçado mais rápido ainda.
Acabamos rindo tanto que esqueço que estou nervosa. Mas volto a me lembrar no segundo em que a campainha toca e deduzo que provavelmente é Matt.
Brandy me dá um abraço de melhor amiga. O tipo de abraço que só se recebe de amigos de verdade.
– Não se preocupe.
Pego minha mochila e vou até a porta encontrar Matt. O beijo dele é mais do que apenas um rápido olá. Isso basta para eu saber quanto quero estar com ele. Eu o amo. Sei disso sem sombra de dúvida. Quando o beijo carinhoso e quase sensual termina, ele percebe que estou com a minha mochila e a tira do meu ombro.
– Está pronta?
– Sim. – Despedimo-nos rapidamente de Brandy e vamos para o carro dele.
Quando nos acomodamos no banco, ele olha para mim.
– Deixei meu celular em casa. Você se importa se passarmos lá para pegar?
– Não.
No caminho rápido até a casa dele, conversamos sobre Lady, que certamente vai sentir falta dele, e sobre a prova de matemática que fizemos ontem.
Quando ele para na frente de casa, diz:
– Entre. Minha mãe não está.
Tenho um sentimento estranho quando ele diz “minha mãe não está”.
Ocorre-me que ele não me apresentou à mãe dele. Não que eu esteja preocupada. É só... esquisito.
– Tudo bem, vou aproveitar para ir ao banheiro antes de pegarmos a estrada.
Eu o sigo para dentro. Lady corre na minha direção, todo o seu corpo se contorcendo de alegria. Matt vai até a cozinha e faz um gesto me indicando o banheiro.
– Achei que meu telefone estivesse na mesa da cozinha. Provavelmente esqueci no bolso da outra calça. – Ele sai à procura do telefone.
Vou para o banheiro. Lady fica do lado de fora da porta choramingando.
Um minuto depois, saio do banheiro. É quando ouça a porta da frente se abrindo e se fechando. Congelo. Uma mulher entra na cozinha. Nossos olhos se encontram.
– Oi – eu digo. Ela é loira e tem olhos verdes, bonitos. Não se parece nem um pouco com Matt, mas de alguma forma sei que é a mãe dele.
– Matt está... procurando o celular.
Ela sorri.
– Sou a mãe de Matt. Você deve ser a misteriosa Lori.
Não.
– Hã...
Ela deixa a bolsa sobre a mesa e se aproxima. Acho que vai me abraçar, mas no último minuto parece que desiste e abaixa os braços.
– Matt fala de você. Você... tem feito bem a ele. Eu te agradeço por isso.
Eu assinto.
– Ele tem feito bem para mim também.
Passos soam quando Matt entra.
– Encontrei... – Seu olhar se fixa na mãe e depois em mim. Ele arregala os olhos como se estivesse em pânico.
– Oi, querido. Acabei de me apresentar a Lori.
Matt acena com a cabeça, seu olhar se desvia para mim.
– Tá.
– Gostaria de beber alguma coisa? – A mãe dele oferece. – Tenho chá, Coca-Cola...
– Não – Matt fala. – Estávamos... tenho que deixá-la em casa e ir para a casa de Ted.
A mãe parece desapontada.
– Bem, a gente conversa outro dia. Logo. – Ela lança um olhar maternal para Matt e se vira para mim.
– Lori, peça para ele vai te trazer aqui outras vezes.
Mal tenho tempo para me despedir, pois Matt pega minha mão e me leva para fora.
– Desculpe – diz Matt, antes mesmo de entrar no carro.
– Pelo quê? – pergunto.
– Você não estava preparada.
Hã?
– Para que eu teria que estar preparada? Ela parece simpática. – Entramos no carro.
– Ela é. Ela só... Por um tempo, foi meio imprevisível.
– Ela parece bem agora. – Eu sorrio. – Embora tenha confundido meu nome. – Eu olho para ele. – Você costumava sair com uma garota chamada Lori?
– Não. – Ele sai da rampa e parece tenso.
Não me ocorreu que Matt pudesse ficar nervoso com isso, por estarmos juntos. Eu meio que gosto que ele se sinta assim.
São quatro horas quando Matt estaciona no hotel. Ele precisa contar a Leah a verdade. Por que ele está preocupado com o fato de a mãe conhecê-la, mas...
parece estranho, ou errado.
Enquanto vai pegar as chaves do quarto, Leah espera do lado de fora. Ele está com a carteira de motorista falsa que Eric fez para eles. Matt nunca tinha usado, mas agora está feliz que o irmão tenha arranjado uma, pois só maiores de 18 anos podem reservar um quarto de hotel e ainda faltam alguns meses para ele completar 18.
Matt dá boa-tarde para a funcionária e pega a carteira de motorista para provar que tem 21 anos, rezando para que não haja nenhum problema. Todo o final de semana vai estar arruinado se não conseguirmos nos hospedar.
A mulher sorri, dá as boas-vindas a ele, entrega o cartão do estacionamento e as chaves do quarto.
Ele corre de volta até Leah. Entra no carro e sorri para ela. Ela sorri de volta. Dá para perceber que ela está nervosa. E ele espera que consiga deixá-la mais calma. E que consiga se acalmar também.
– Pensei em levar nossa bagagem para o quarto, depois ir à praia. Trouxe um cobertor para não passarmos frio.
– Parece ótimo.
Ela olha do outro lado da rua, que dá para a praia.
– Acho que o clima não podia estar melhor.
– Tive uma conversinha com São Pedro – diz ele, brincando.
Dez minutos depois, eles estão sentados no cobertor, ouvindo o barulho das ondas se quebrando na areia. O vento está soprando, um pouco frio, mas não a ponto de deixá-los desconfortáveis. Eles estão de jaqueta, mas o sol, baixo no céu agora, ainda esquenta um pouco.
Leah está fitando as ondas e ele a observa. O cabelo castanho esvoaça com o vento. Ela parece tão despreocupada. Tão bonita. Ele pega o celular e tira uma foto dela.
Leah olha para ele e ele tira outra.
– Meu cabelo está uma bagunça.
Ela pega um punhado de cabelos e joga para trás.
Ele tira outra foto e acrescenta:
– Não, está lindo.
Ela se aconchega a ele e olha para o oceano.
Então Matt tem um daqueles momentos de que ele e a mãe falaram na noite passada. Em que ele se sente feliz e privilegiado, mas em seguida é assaltado por uma onda de culpa porque Eric não pode ter o mesmo.
Então ele se lembra de quantas vezes Eric lhe disse: Ei, papai não ia gostar de nos ver andando deprimidos por aí. Temos que continuar vivendo.
Eric também não ia gostar de vê-lo deprimido.
Quando Leah olha para ele, ela está sorrindo de novo.
– Esta paisagem é linda! – diz ela. – Obrigada. Fazia muito tempo que eu não vinha à praia. Tinha esquecido quanto adoro. O som é... como música. A maresia. Até a areia.
Ela corre os dedos pela areia. Ele se inclina, afasta o cabelo dela dos olhos e a beija.
– Eu gostaria que fosse uma praia do Havaí ou alguma outra praia famosa.
Você merece algo exótico. Uma paisagem perfeita.
– Isso é perfeito! – Ela volta a olhar para as ondas. – Devíamos ter trazido os detectores de metal. Quem sabe a gente não encontrava um tesouro.
– Eu já encontrei um – diz ele. – Você.
Leah olha para ele e, desta vez, ela o beija. Um beijo doce, mas sexy, lembrando-o do que os aguarda mais tarde.
Quando o beijo termina, eles se reclinam sobre o cobertor. Ele envolve a cintura de Leah com os braços, as costas dela pressionadas contra ele, e os dois ficam contemplando a água e as ondas.
O cabelo dela ocasionalmente voa sobre o rosto dele. Ele não se importa.
Eles conversam sobre tudo e sobre nada, especificamente. Filmes que se passam na praia. Livros em que os personagens moram na praia. As praias que conhecem.
No céu, pelicanos e gaivotas passam voando. Algumas aves aquáticas andam pela areia, esquivando-se das marolas, que sobem e descem.
Ele beija a parte de trás do pescoço dela.
– Você tem um gostinho salgado.
– Desculpe – diz ela.
– Eu gosto. – Ele beija o pescoço dela novamente.
Ela ri como se sentisse cócegas. É o som mais doce do mundo. Ele fecha os olhos e enterra o rosto no cabelo dela, que agora tem cheiro de fruta e maresia. A emoção enche seu peito.
Felicidade e... amor. Ele ama Leah McKenzie. Nunca teve tanta certeza de algo. Mas tem receio de que seja muito cedo para declarar isso. Então decide manter esse sentimento para si por enquanto.
Eles ficam ali, aconchegados nos braços um do outro, cercados pela areia, pelo mar e por um sentimento mágico de que nada na vida pode dar errado.
Não que Matt acredite nisso – muito na vida dele já deu errado –, mas este momento é perfeito e ele quer celebrar isso.
De vez em quando alguém passa por eles, mas isso não desfaz a sensação de que não existe mais ninguém no mundo além deles.
O tempo passa, mas eles não se mexem. O sol começa a se pôr e tudo é
banhado por uma luz dourada. Eles assistem enquanto o céu ganha matizes rosa e púrpura, em seguida começa a ficar azul-escuro.
O tempo esfria, e eles apenas se aproximam mais, até o dia se transformar em noite.
Ela vira o corpo e olha para ele, tocando sua bochecha. A emoção preenche os olhos dela.
– Estou muito feliz por não ter perdido tudo isso. Eu poderia ter... partido e não me lembrado mais de como é a praia, o cheiro de maresia ou o barulho do mar... Eu poderia ter morrido sem saber como é estar aqui com você.
As palavras o emocionam e, ao mesmo tempo, o assustam.
– Você não vai morrer. Recebeu o melhor coração do mundo. – Então ele a beija.
Depois de ficarmos todo sentimentais na praia, Matt e eu vamos para o restaurante ao lado do hotel. Procuro aproveitar cada momento, dizendo a mim mesma que até o nervosismo é um rito de passagem, assim como cabular aula.
Percebo todas as outras coisas que deveriam estar na minha lista de coisas para fazer antes de morrer: me apaixonar, ficar deitada na praia, contemplar o oceano por horas, cabular aula e fazer amor com a pessoa que deixou o meu mundo muito mais bonito.
Matt deixou o meu mundo mais bonito. Eu o amo, mas quero que ele diga isso primeiro.
Pedimos camarão frito no óleo de coco, batatas fritas e legumes cozidos no vapor. Pedimos só um prato, porque nenhum de nós dois está com muita fome. Mas, quando o camarão chega, está quente, crocante e um pouco doce.
Eu como mais do que eu pensava que comeria.
Voltamos para o hotel de mãos dadas. Subimos até o oitavo andar de mãos dadas. Entramos no quarto, que é grande e decorado com uma mobília cara, de mãos dadas.
Já tínhamos entrado no quarto para deixar a bagagem, mas é como se estivesse entrando ali pela primeira vez.
As duas mochilas estão aos pés da cama. Uma cama enorme. Ofereço-me para pagar metade da diária, mas Matt se ofende.
– Não precisa...
Ele me cala com um beijo. Quando se afasta, diz que vai tomar um banho para tirar a areia dos ouvidos. Pega uma roupa e vai para o banheiro. O clique da porta se fechando ecoa no quarto. Não consigo evitar e o imagino tirando a roupa.
Pego minha necessaire, o short sexy e a regata e espero que ele termine para que eu possa entrar no chuveiro. Sentada na beira da cama, uma cama alta, meus pés balançam a alguns centímetros do tapete. Me sinto pequena.
Ouço o barulho da ducha.
Na minha cabeça, eu o vejo novamente. A água escorrendo pelo corpo.
Mesmo nervosa como estou, sinto uma espécie de eletricidade com a expectativa.
Tento não pensar na minha. Em seguida penso nela. Entro em pânico e ensaio o que vou dizer a ele quando tentar tirar a minha blusa.
Ele desliga o chuveiro. Respiro fundo algumas vezes. Ele sai; uma nuvem de vapor escapa do banheiro atrás dele. Ele está vestindo apenas uma cueca boxer azul-marinho. Mais nada. Ainda há algumas gotas de água escorrendo pelo tronco. Seu cabelo parece mais escuro, seu peito mais largo. Ele parece mais velho. De repente me sinto jovem demais. Ou talvez não tão jovem, só inexperiente.
Escorrego pela cama até pisar no chão.
– É minha vez.
Ele fica na minha frente e me beija. Está quente e cheira a sabonete de hotel. Eu o beijo agora. Então me afasto.
– Eu preciso...
– Tudo bem. – Ele se afasta. Entro no banheiro cheio de vapor e com o mesmo aroma que Matt. Fecho a porta e começo a virar a tranca, mas paro.