Eu e Esse Meu Coração
Capítulo 10
Matt engole em seco e olha para a porta da casa de Leah. Lady, na guia, está tentando se soltar. Matt está nervoso. Depois do que aconteceu na noite anterior, e sem saber o que os pais de Leah sabem, foi difícil aparecer hoje de manhã. Ainda mais difícil foi voltar pela segunda vez.
Um telefone toca atrás da porta.
A espera deixa Matt nervoso.
Se o pai dela abrir a porta e disser que Leah ainda está dormindo, Matt vai saber a verdade: ela está se recusando a vê-lo.
E, então, o que ele vai fazer?
Droga. Ela disse que ajudaria. E com a mãe agora de olho nele, pode realmente precisar de ajuda.
Por que Leah viraria as costas para ele? Por vê-lo com Paula?
Matt explicou que Paula não era... namorada dele, não explicou? E, pensando bem, como ela poderia estar chateada com Paula se ela mesma estava abraçada com Trent Becker e toda agasalhada e confortável no casaco dele?
Matt afasta todos esses pensamentos amargos. Leah e ele são apenas amigos.
Sim, eles se beijaram e foi incrível, mas isso foi antes. Um pensamento desagradável lhe ocorre. E se Leah tiver contado aos pais que ela está com o coração de Eric? Talvez os pais dela é que não queiram que ela o veja.
Passos soam atrás da porta. Ele fica mais ereto. A porta se abre. O sr.
McKenzie, descalço e segurando um celular, apenas olha para ele.
– Desculpe, eu estava numa ligação.
Matt está esperando que ele o despache.
– Ela está se arrumando – diz ele. – Não quer entrar?
Na verdade, não. Mas ele tem escolha?
Matt se lembra de Lady. Talvez ele tenha, sim, uma escolha.
– Prefiro esperar aqui. Estou com a minha cachorra.
O sr. McKenzie olha para Lady. Um arrepio de nervoso desce pela espinha de Matt. O tipo de nervosismo que sente um garoto ao encontrar pela primeira vez o pai da garota que ele gosta. Não que seja um encontro. O pai de Leah sabe disso?
– Ele é adestrado? – ele pergunta.
– Ela. – Matt hesita. – Mais ou menos, mas...
– Então entre. Leah ainda está no chuveiro. Pode demorar um pouco.
Ele abre mais a porta.
Matt mal cruza a soleira quando o sr. McKenzie volta a olhar para Lady e diz:
– Mas se ela é do tipo que faz sujeira onde não deve, você é que vai limpar.
– Claro. – Ele pega no colo a cachorrinha, que não para quieta um segundo. Suas grandes patas amarelas não param de se mexer e sua língua rosa está ocupada tentando lamber seu rosto.
O pai de Leah leva Matt para a cozinha.
– Sente-se.
Matt não tem certeza se o homem está apenas sendo simpático ou se está prestes a interrogá-lo. Matt puxa uma cadeira, deixando espaço para acomodar Lady no colo. O sr. McKenzie permanece de pé, olhando para ele.
A cachorra começa a se contorcer, de um jeito muito parecido com o estômago de Matt.
O pai dela finalmente fala.
– Quer uma Coca?
– Não, senhor. – Ele se lembra de ter boas maneiras. – Mas obrigado.
– Como conheceu Leah? – pergunta o sr. McKenzie, sentando-se numa cadeira.
Começou o interrogatório.
– Na escola.
– Você deu aula para ela uma vez, eu me lembrei agora.
– Sim, senhor. – Lady late, querendo descer. Então começa a choramingar.
Matt a coloca no chão, mas segura a guia e a vê farejando migalhas embaixo da mesa.
– Você também está no último ano? – O sr. McKenzie pergunta num tom de voz de quem não está fazendo um interrogatório.
– Sim, senhor. – Matt queria deixar de lado o “senhor”, mas, quando você teve um pai militar, a palavra “senhor” está enraizada em você.
O pai de Leah passa a mão pela borda da mesa.
– Minha mulher mencionou que você tem um irmão gêmeo...
Tinha um irmão gêmeo. Matt acena levemente com a cabeça.
– Vocês dois são idênticos?
Matt acena com a cabeça novamente, agora mais devagar. Ultimamente, ele andava respondendo muito com acenos de cabeça quando conversava com pessoas que não conhecia. Doía menos do que explicar.
– É Matt, certo? – o sr. McKenzie pergunta.
– Sim, senhor.
– E o sobrenome?
– Kenner.
– Kenner? – O pai de Leah inclina a cabeça ligeiramente para a direita como se... Então arregala os olhos. A consternação instantânea que ele sente torna seus olhos azuis mais escuros.
– Seu irmão, ele... faleceu?
Matt acena com a cabeça. Agora dói. Graças a Deus ele não disse “se matou”.
– Sinto muito. Minha mulher não acompanha os noticiários. E eu não liguei uma coisa à outra.
– Está tudo bem – Matt oferece a odiada resposta e pensa “merda”. Então
ele sente o cheiro. Merda. Merda de cachorro.
Ele abaixa a cabeça e solta um gemido. Lady está agachada, fazendo suas necessidades.
Sr. McKenzie inclina-se para o lado e olha embaixo da mesa.
Os dois se olham com a testa franzida.
Só faltava essa...
– Eu limpo, senhor. – Matt prende a guia na cadeira e se levanta. – Toalhas de papel...?
– Em cima do balcão.
A voz do sr. McKenzie está abafada porque ele está cobrindo o nariz.
Com as toalhas de papel na mão, Matt engatinha embaixo da mesa.
– Nem parece uma mocinha! – ele diz, repreendendo Lady, com as palavras e o tom da mãe.
A filhote se senta com um olhar culpado. Com o cocô na mão, Matt está tentando sair de debaixo da mesa quando ouve passos.
Ele olha para cima e vê Leah parada na entrada da cozinha. Ela está usando um jeans desbotado e de toque macio, que não é muito justo, mas mostra todas as suas curvas. O suéter vermelho que está vestindo faz com seus seios o mesmo que o jeans faz com o quadril.
– Onde ele está? Você não disse pra ele esperar? – A decepção goteja das palavras dela. Matt quase sorri ao perceber que Leah queria vê-lo.
Lady, estabanada como todo filhote, corre por baixo da mesa, derrubando uma cadeira ao passar.
Leah grita de susto e depois olha para Lady.
– O quê... – Ela coloca a mão sobre o nariz.
– Ela... hum, embaixo... ali. – A voz grave do sr. McKenzie ecoa na cozinha.
Leah se agacha. O olhar dela encontra o de Matt e eles se encaram por alguns segundos; então, ela foca na mão dele segurando...
Droga! De todas as maneiras que um cara não quer que uma garota linda o veja, provalvelmente, de joelhos, segurando cocô de cachorro é a pior delas.
Matt franze a testa.
– Lady fez porcaria.
A surpresa de Leah se transforma em algo mais suave, mais doce. Um brilho ilumina os olhos azuis dela. Com bom humor, ela faz uma cara de nojo e seu rosto se transforma quando ela abre um grande e maravilhoso sorriso.
Matt está definitivamente cativado.
Ela se senta numa das cadeiras da cozinha, e Lady corre para ela com toda a afobação de um filhote.
O riso de Leah é como uma música que você quer cantar junto. Uma canção que ele não ouve há muito tempo. E que quer de volta. Ele quer conseguir deixar para trás a tristeza que sente desde que o pai morreu, desde que o irmão morreu, e rir assim. Rir de um jeito tão livre... livre de toda dor.
A risada do sr. McKenzie se eleva acima da dela. Até Lady choraminga como fazem os filhotes felizes. Então acontece. Um sentimento leve toma conta de seu peito e sua própria risada enche a cozinha. Ele não se lembra da última vez em que riu tão espontaneamente. Mas, pelo menos por alguns segundos, não quer pensar nisso.
Matt só quer se divertir. Mas sabe que não vai durar muito, porque não vai se passar um minuto até que seu coração se lembre de tudo que perdeu.
Eu corro para pegar o cesto de lixo para Matt, que sai de debaixo da mesa.
Espero que ele saiba que eu não estava rindo dele, mas da situação. Ele se levanta. Nossos olhares se encontram. Seus olhos ainda refletem o sorriso mais incrível que já vi. Sem ressentimentos, presumo.
Ele solta as toalhas de papel no lixo, pega mais algumas, umedece-as na pia e volta para debaixo da mesa, para terminar o trabalho.
– Parece que você é um especialista – meu pai diz, inclinando-se para olhar Matt limpando o chão.
– Infelizmente – responde Matt, de debaixo da mesa. – Mamãe deu Lady para mim no Natal. Mas ela não vem com um serviço de limpeza.
Papai solta uma risada.
– É presente de grego.
Leah ouve Matt rir, mas é uma risada breve. Não tão espontânea quanto a última.
Ele rasteja e joga as toalhas de papel no cesto de lixo que estou segurando.
Seu olhar se desloca para o meu pai.
– Eu tiro o lixo para o senhor, se quiser.
– Obrigado. – Papai ainda está sorrindo. Ele gosta de Matt, eu acho. Por alguma razão isso me agrada.
– A lata de lixo fica nos fundos. – Papai aponta para a porta da cozinha.
Matt puxa o saquinho plástico do cesto. Eu pego a guia de Lady e o sigo para fora.
Correndo até a lata de lixo, levanto a tampa para ele.
Eu me sinto mal por ele estar tirando o nosso lixo. Sinto-me mal por ter ficado tanto tempo me arrumando, o que causou todo o “acidente” com Lady.
E ainda me sinto mal por não tê-lo apresentado aos meus amigos quando eles cercaram seu carro.
– Desculpe – eu digo.
Ele joga o saco na lata. Solto a tampa. Nossos olhares se encontram por alguns instantes. O momento parece tão especial, tão perfeito, que ignoro o cheiro da lata de lixo impregnando o ar.
– Por quê? – ele pergunta. – Não foi você que fez cocô debaixo da mesa.
Eu solto uma risada.
Ele fica ali parado, o tempo congela. Ele está me olhando de um jeito sonhador, com o tipo de olhar que revela que está realmente me vendo. E que gosta do que vê. O tipo de olhar que acontece nos romances que leio. E eu adoro aqueles romances. Não dou a mínima para o que Sandy e LeAnn pensam.
– Você... tem um sorriso bonito. – Ele encolhe os ombros e parece envergonhado por fazer um elogio.
Mas não ligo.
– Obrigada. – Meu sorriso se alarga, meu peito se enche com algo leve, arejado e delicioso.
Lady puxa a guia. O cheiro de lixo persiste. Mas estou nas nuvens. Estou
flutuando. Então noto a jaqueta dele, uma jaqueta de futebol com seu próprio número. E de repente volto para a realidade e para o cheiro de lixo.
Eu me lembro da garota da noite anterior. Lembro que Matt está aqui por causa dos meus sonhos, para fazer justiça pelo irmão. E lembro quem é Matt.
Percebo que o fato de ele gostar do meu sorriso não significa porcaria nenhuma.
Nem agora nem em momento algum.
Nem quando as aulas começarem daqui a poucos dias.
Nem quando ele ainda for Matt Kenner. E eu ainda for...
Eu não sei quem sou.
Embora eu possa estar numa missão para encontrar respostas, tenho certeza de que a Nova Leah não está na mesma turma que o zagueiro da escola. E
quando estivermos no mundo das panelinhas, das garotas esnobes e dos garanhões – no mundo onde caras como ele não olham para garotas como eu
–, ele vai perceber que não fomos feitos um para o outro.
Preciso me lembrar disso.
Agora que tenho um coração novo, posso não ter mais uma data de validade estampada na bunda, mas não posso começar a desejar coisas impossíveis.
No entanto, droga... Assumo uma postura decidida. Não vou me impedir de aproveitar o dia de hoje. Ou qualquer momento que eu passar com ele.
O silêncio se estende um pouco demais. Matt deve sentir isso também porque começa a falar.
– Eu... Eu estava levando Lady para passear no parque e achei que você gostaria de ir com a gente, para que pudéssemos conversar.
– Tudo bem – eu digo, esperando não parecer muito ansiosa. Mas estou ansiosa.
Incapaz de me conter, volto a desejar o que não posso.
Desejo que as aulas não comecem daqui a cinco dias.
Desejo ter alguns meses para aproveitar isso.
Desejo ter tempo para convencer Matt de que, estejamos ou não na mesma turma, podemos ser algo mais um para o outro – mais do que simplesmente
uma dupla em busca de justiça para Eric.
Dez minutos depois, Matt está dirigindo para o parque. Leah está no banco do passageiro, em silêncio. Mas ele também está. Lady nunca está quieta. Ela está no banco traseiro, indo de janela em janela, latindo para cada carro que passa na estrada, como se esse fosse o trabalho dela.
Ele lembra que ainda não perguntou sobre a saúde de Leah.
– Como você está? – diz virando o rosto na direção dela rapidamente.
Ela parece não entender a pergunta.
– Com o transplante de coração, quero dizer.
– Ah, estou... bem. – A ligeira indecisão na voz dela o faz se calar por alguns segundos. Mas ele continua com um olho na estrada e outro nela. Ela é uma paisagem melhor.
– Tudo é como... antes? Você está curada? Normal?
– Sim. – Ela olha pela janela e ele se pergunta se ela está sendo sincera.
Talvez não.
– Você parece bem. – Mas ele pensa “muito bem”.
Com o comentário, ele ganha de presente um sorriso hesitante.
– Obrigada. – Ela volta a se concentrar na estrada.
– A que parque nós vamos?
Olhando em volta, ele percebe onde está.
– Aquele que já passou faz uns dois quilômetros. Foi mal.
Ela sorri e esse sorriso parece de verdade.
– Faço isso às vezes. Especialmente quando estou na parte boa de um livro.
Ele solta uma risada.
– Você lê enquanto dirige?
Ela dá uma risadinha.
– Quis dizer, pensando num livro.
– Você vai voltar a dirigir o clube do livro?
– Não sei – ela faz uma pausa. – Você gosta de ler?
– Sim. Mas provavelmente não tanto quanto você. Especialmente nesses últimos tempos... – Ele olha para ela. – Mas terminei todos os livros do Harry Potter. E gosto dos livros de James Dashner. O que você está lendo agora?
Ela hesita.
– Principalmente livros escritos por mulheres.
– Quem?
– Christie Craig, Lori Wilde e Susan C. Muller. Diane Kelly.
Ele não reconhece os nomes.
– Que tipo de livros elas escrevem?
Ela olha ao longe.
– Algumas escrevem livros de suspense, sobrenaturais, de humor e sobre relacionamentos.
– Romances água com açúcar?
Ela olha para ele com um meio sorriso.
– Não julgue.
– Não estou julgando – responde engolindo um sorriso. – Minha mãe lê romances assim. Ou costumava ler.
Ele se lembra do dia em que Eric levou um dos livros da mãe para o quarto dele e leu algumas das cenas de sexo. Eles riram muito. Leah estava lendo aquele tipo de livro?
– Ela não lê mais? – Leah pergunta.