Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização

Segundo Encontro

Indicadores objetivos e subjetivos

de bem-estar*

 

Qualquer que seja o propósito último da existência humana de um ponto de vista cósmico, uma coisa é certa: o propósito terreno

das pessoas de carne e osso em qualquer lugar do planeta é alcançar a felicidade e fazer o melhor de que são capazes de suas vidas.

A busca do prazer e a aversão à dor não detêm o controle exclusivo das ações que conduzem à felicidade, mas são guias

indispensáveis na realização deste fim. A natureza não dá ponto sem nó. Uma espécie biológica que sofresse dores lancinantes ao saciar os seus apetites por alimento, sexo e sono estaria com os dias contados. A mensagem que a língua cifrada da dor e do prazer físicos nos transmite é inequívoca: a natureza nos quer vivos e dispostos a procriar. O que os materialistas libertinos do século XVIII intuíam é hoje uma evidência científica: o orgasmo feminino eleva de forma significativa as chances de fecundação no ato sexual. Como ensinava o velho e bom Aristóteles, “o prazer aperfeiçoa a atividade”.

A questão do segredo da felicidade e do lugar do prazer na melhor vida ao nosso alcance tem ocupado alguns dos melhores (e

piores) cérebros da humanidade há milênios. Do esoterismo neoplatônico aos manuais de auto-ajuda que abarrotam as livrarias, existem receitas para todos os paladares. Mas é somente de alguns anos para cá, a partir do início da coleta sistemática de evidências e dados empíricos sobre o assunto, que um trabalho de investigação mais científico e rigoroso começou a ser desenvolvido. Alguns dos resultados até aqui obtidos estremecem convicções fortemente enraizadas.

Os programas de pesquisa em andamento atacam a questão dos determinantes da felicidade por diversos ângulos. Entre eles se

destacam: o estudo do que torna certos estados de consciência mais ou menos aprazíveis; a identificação dos fatores pessoais, socioeconômicos e culturais associados a variações de bem-estar subjetivo; e as bases químicas, hormonais e neurobiológicas das experiências mentais e emocionais que levam alguém a se sentir mais ou menos feliz com a vida que tem. A febre em torno do tema nos meios acadêmicos, especialmente nos Estados Unidos, pode ser avaliada pela criação de um novo periódico integralmente dedicado ao assunto — o Journal of Happiness Studies. O interesse pelo tema, alguém poderia ironizar, é sintomático. Se a felicidade (ou a falta dela) não houvesse se tornado um problema, existiria tamanha preocupação em pesquisá-la?

O que torna as pessoas felizes? A pergunta pode soar arrogante e pretensiosa, mas a resposta não precisa ser. O primeiro passo

é constatar que o bem-estar humano abarca dois componentes básicos.

Existe uma dimensão objetiva, passível de ser publicamente apurada, observada e medida de fora, e que se reflete nas condições

de vida registradas por indicadores numéricos de nutrição, saúde, moradia, uso do tempo, renda per capita, desigualdade, criminalidade, poluição e assim por diante; e há uma dimensão subjetiva, que é a experiência interna do indivíduo, ou seja, tudo aquilo que se passa em sua mente de forma espontânea enquanto ele vai vivendo e agindo no decorrer dos dias e que volta e meia ocupa a sua atenção consciente nos momentos em que ele se dá conta do que está sentindo e pensando ou reflete sobre a vida que tem levado.

A felicidade é algo que sucede na confluência das duas dimensões. Situações extremas revelam a dependência recíproca entre

ambas. Se o lado objetivo não preencher requisitos mínimos, a carcaça biológica sucumbe e não há mais bem-estar possível (pelo menos entre os vivos). Mesmo um faquir precisa vez por outra entreter o estômago. Mas para alguém cronicamente deprimido, em contrapartida, o viver é insípido e nada recobra o gosto de ser quem se é. Embora cercado de luxo e conforto, sua vida beira o insuportável: “não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”.

O grande desafio para quem se propõe a analisar os determinantes da felicidade na vida e convivência humanas é obter

informações e dados empíricos confiáveis sobre a dimensão subjetiva do bem-estar. Observar diretamente o fenômeno está fora do nosso alcance — apenas alguma forma desconhecida de endoscopia da psique humana, algo difícil de ser concebido até mesmo especulativamente, daria conta da tarefa. O desafio, contudo, é real. Dado que não é possível observar e medir de fora o bem-estar subjetivo, como então saber se as pessoas estão se sentindo mais ou menos felizes com a vida que levam à medida que as condições do mundo ao seu redor se transformam?

A saída encontrada foi perguntar a elas. Nas últimas três décadas, uma formidável bateria de questionários e entrevistas vem

sendo aplicada a amostras representativas das populações de dezenas de países, principalmente entre os de alta renda per capita, procurando obter respostas sobre o grau de felicidade (elevada, moderada ou baixa) dos indivíduos com a sua vida como um todo.

O método, é certo, desperta dúvidas metodológicas legítimas, mas pelo menos oferece uma primeira aproximação do que era até

aqui uma verdadeira terra incognita. Ele tem recebido aprimoramentos ao longo do tempo e, mais importante, tem gerado resultados que satisfazem critérios externos de validação, que são consistentes entre si na experiência de diversos países e que parecem justificar um esforço continuado de análise e investigação.

Uma das descobertas centrais do programa de pesquisa sobre os determinantes da felicidade é que a relação entre os indicadores

objetivos e subjetivos de bem-estar está longe de obedecer a um padrão bem-comportado. Como resumem os organizadores da mais completa e atualizada coletânea de papers sobre o que se produziu até o momento na área: “Há várias décadas os cientistas sociais deram início a investigações em larga escala sobre a satisfação dos indivíduos com as suas vidas e a sua sociedade. Um dos achados mais

robustos desta pesquisa foi que as correlações entre os juízos globais sobre a qualidade de vida e as condições objetivas são

freqüentemente bastante fracas”.

Uma amostra das evidências e achados surpreendentes descritos na literatura especializada ajuda a ilustrar a natureza dos

resultados obtidos:

• Décadas de forte crescimento econômico nos Estados Unidos, Europa e Japão na segunda metade do século XX muito pouco ou nada

alteraram as proporções de indivíduos felizes e infelizes na população dos respectivos países; o crescimento compra felicidade nos países extremamente pobres, mas a partir do momento em que uma nação atinge determinado nível de renda (cerca de US$ 10 mil anuais

per capita** ou o equivalente à renda atual de países como Irlanda, Portugal e Coréia do Sul), acréscimos adicionais de renda não mais se traduzem em ganhos de bem-estar subjetivo; entre 1975 e 1995, por exemplo, a renda média por habitante nos Estados Unidos aumentou 43% em termos reais, ao passo que a felicidade média dos americanos não saiu do lugar.

• Embora exista um vínculo positivo entre felicidade relatada e nível de renda pessoal dentro de cada país, ou seja, há uma

proporção maior de felizes entre os mais ricos, o impacto de aumentos da renda pessoal em termos de bem-estar subjetivo tende a ser forte somente para as faixas de menor renda na sociedade, declinando sensivelmente a partir de patamares um pouco mais altos (cerca de US$ 20 mil anuais no caso americano).

Curiosamente, o vínculo entre renda e felicidade volta a ficar fortemente positivo quando se atingem níveis ainda mais elevados

de renda (cerca de US$ 80 mil anuais).

• Os desempregados involuntários apresentam taxas significativamente maiores de infelizes, suicidas e parassuicidas do que a

média da população, mesmo em países com generosos sistemas de salário-desemprego e mesmo que se controle o efeito da perda de renda; os aposentados, entretanto, apesar de não possuírem emprego, relatam níveis de satisfação com a vida ligeiramente acima do verificado entre os que estão empregados e trabalhando.

• Uma pesquisa de opinião feita em 1999 com cerca de 3 mil mulheres em onze países revelou que 93% das entrevistadas acreditam

estar em melhor situação do que estavam as suas avós no tocante a direitos e oportunidades; em contrapartida, a maioria delas (54%) não se considera mais feliz do que teriam sido as mulheres na geração de suas avós.

• Um estudo clássico realizado com ganhadores de prêmios vultuosos em loterias (média em torno de US$ 500 mil) constatou que,

passado o “pico” da euforia momentânea, os ganhadores não apresentavam níveis de bem-estar subjetivo distintos dos verificados entre os não-ganhadores e relatavam menor grau de prazer do que antes do prêmio ao realizar seis afazeres comuns do dia-a-dia; efeito simétrico foi observado em prisioneiros condenados a confinamento solitário: após um período inicial de “inferno mental” de cerca de 72 horas, eles passaram a considerar a experiência bastante tolerável.

• Existe um forte vínculo positivo entre saúde e bem-estar subjetivo; ocorre, porém, que ele somente se mantém quando o

indicador de saúde utilizado é a percepção que a própria pessoa tem do seu estado de saúde: a correlação se enfraquece ou desaparece por completo quando o indicador utilizado é a avaliação feita pelos médicos sobre o estado de saúde daquela pessoa ou, ainda, a freqüência com que ela precisou consultar serviços médicos ou ser hospitalizada; em suma: as crenças do indivíduo sobre a sua própria saúde têm maior grau de correlação com a sua felicidade do que os indicadores objetivos de saúde.

Fatos como estes — e diversos outros poderiam ser arrolados — dão o que pensar. A noção de racionalidade tem a ver com a escolha dos meios adequados para a obtenção de um determinado fim. A ação racional é

aquela que, dadas as restrições de recursos e conhecimento disponíveis, identifica, mobiliza e aplica o melhor método existente para alcançar o objetivo pretendido. Mas o fato de uma ação ser racional não quer dizer que ela será capaz de atingir o alvo. O avanço do conhecimento pode revelar que ações que pareciam perfeitamente racionais na busca de determinado fim, dado o que se supunha conhecer sobre o mundo, na verdade não o são. (Um exemplo: se os médicos têm razões para crer, no momento t1, que o remédio A cura a moléstia B; mas depois se descobre, em t2, que ele provoca o efeito colateral C, pior que B, então a prescrição de A era racional em t1, mas deixa de sê-lo em t2.)

A felicidade sempre foi e continua sendo um grande fim, se não a finalidade suprema, em nome do qual se justificam escolhas na

vida pública e privada. Assim como a saúde está para a medicina, o pursuit of happiness, o bonheur public, a felicitá pubblica seria o objetivo maior frente ao qual toda a maquinaria do processo político, social e econômico constituiria tão-somente um meio adequado e ao qual estaria subordinada. O economista Irving Fisher — amplamente reconhecido como o maior cientista econômico americano de todos os tempos — é claríssimo sobre isso. Toda atividade produtiva, ele argumentou, “e todas as transações monetárias que dela decorrem derivam a importância que possuem somente na condição de preliminares úteis e necessárias da renda psíquica — da satisfação humana [human enjoyment]”. De Petty e Turgot, no século XVIII, a Keynes, Friedman e Samuelson, poucos economistas dignos de nota discordariam.

O programa de pesquisa sobre os determinantes do bem-estar subjetivo está abrindo à visitação pública a “caixa-preta” das

experiências psíquicas das mentes individuais. Mas se é verdade, como tantos acreditam, que o desempenho econômico importa e faz sentido somente na medida em que propicia o aumento da felicidade, então há algo problemático e perturbador nas evidências sobre o que vem ocorrendo com a renda psíquica nos países ricos.

A pergunta que fica é: por que a relação entre indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar se revela tão caprichosa? A

riqueza material e as condições objetivas de vida são um bom indicador do bem-estar de uma sociedade? Como interpretar a pletora de aparentes anomalias que os estudos empíricos sobre a felicidade e a psicologia do prazer vêm produzindo? Na vida pública, assim como na pessoal, os meios escolhidos estão conduzindo aos fins desejados?

 

ALEX: Inversão de papéis, Otto. Quem cobra esclarecimentos agora sou eu. O seu texto levanta vários pontos substantivos intrigantes, mas a questão metodológica ficou zunindo na minha cabeça como uma mosca irritante. O velho Aristóteles, que aliás você citou com ótimo humor, recomendava que não se deve esperar mais precisão acerca de um assunto ou tópico de pesquisa do que a natureza do objeto admite: a ética e a psicologia, por exemplo, não se prestam ao método rigorosamente dedutivo da geometria euclidiana. A idéia de medir empiricamente o grau de felicidade das pessoas e a sua evolução ao longo do tempo me pareceu uma tentativa de dar mais precisão ao assunto do que se pode esperar dele. Além disso, tenho sérias dúvidas sobre a confiabilidade das respostas que as pessoas dão a enquetes de opinião como estas que você reportou.

 

MELO: Eu também fiquei com essa dúvida. Aliás, lendo o texto, foi impossível não lembrar daquela passagem da Autobiografia de John Stuart Mill em que ele afirma: “Pergunte-se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê-lo”. Ou como diria o nosso Fernando Pessoa, “por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?”. Boa parte dos entrevistados nas pesquisas, pelo jeito, não concorda. Mas você não acha que o simples fato de se perguntar a alguém se está feliz ou satisfeito com a sua vida já não acaba alterando e interferindo na resposta? OTTO: Vamos por partes. Como disse no nosso primeiro encontro, Alex, eu não sou o positivista crasso que você estava pintando. A interdição da subjetividade que prevaleceu em certos meios acadêmicos no auge do positivismo e do behaviorismo foi um desastre para a filosofia, a economia e as disciplinas da área de humanas em geral. Uma coisa, porém, é rever e abandonar o tabu de que a experiência interna do homem não importa ou não existe; outra é saber como lidar com a dimensão subjetiva da realidade de um modo consistente e cientificamente aceitável. Os problemas são ponderáveis e eu seria a última pessoa no mundo a menosprezá-los. Duvidar, eu sempre digo, é um dever científico; mas buscar soluções e continuar tentando também é. Deixe-me tentar responder às questões de método que você levanta, começando pela última.

As respostas são confiáveis? O que as pessoas dizem sobre o que sentem acerca de suas vidas corresponde a um

fenômeno real, a alguma coisa sobre a qual podemos fazer inferências válidas sobre o mundo? Com toda a franqueza, não sei. E também ficaria muito desconfiado se alguém alegasse saber. O problema maior, creio, não é uma improvável falta de sinceridade nas respostas. Não há razões para mentir em pesquisas de opinião nas quais não se identifica pelo nome o entrevistado. As reais dificuldades são de ordem cognitiva e de comunicação.

É muito provável, por exemplo, que estados de ânimo passageiros, induzidos por acontecimentos de caráter

coletivo (atentados terroristas, Copas do Mundo, “corralitos” etc.) ou pessoal (“perdi o ônibus e a esperança”), dominem as avaliações globais sobre a vida que se tem. Há um trabalho magnífico que demonstra como até mesmo a seqüência específica das perguntas feitas num questionário pode alterar o teor das respostas. Assim, por exemplo: se você pergunta ao entrevistado, primeiro, até que ponto a saúde é importante para a felicidade e, logo em seguida, se ele se considera feliz com a vida que tem, as respostas obtidas serão diferentes do que teriam sido se a ordem das perguntas fosse invertida. O silogismo induzido pela primeira seqüência é perfeito: se a saúde é muito importante para a felicidade e se eu tenho a sorte de ter ótima saúde, então sou feliz. A ordem dos fatores altera o produto. A informação é capciosa.

A questão da confiabilidade, concordo, é um vespeiro. Mas nem tudo está perdido. Parte dos problemas a lei dos

grandes números resolve. É mais fácil saber quantos acidentes de automóvel ocorrem por ano em média numa grande cidade do que quantos deles ocorrerão num dia específico ou quem exatamente serão as vítimas em determinado ano. As particularidades acidentais de contexto e as idiossincrasias pessoais que afetam as respostas sobre o grau de felicidade tendem a ser eliminadas à medida que o número de observações aumenta, ou seja, à medida que as pesquisas são repetidas em diversos anos, nos mais diferentes contextos coletivos e tomando por base distintas amostras probabilísticas da população estudada. Ao filtrar ruídos fortuitos e distorções ocasionais, a lei dos grandes números permite apurar com razoável precisão estatística os padrões de maior permanência nos dados coletados.

O mais importante, entretanto, é que as evidências de bem-estar subjetivo baseadas em respostas individuais

sobreviveram a numerosos testes de validação. As pessoas que se declaram “muito felizes” nas pesquisas possuem atributos observáveis que podem ser tomados como indicativos de felicidade: elas tendem a ser classificadas como felizes por seus parentes e amigos; sorriem com maior freqüência; têm maior propensão a renovar os contatos sociais com amigos; faltam menos ao trabalho; apresentam menor incidência de sintomas físicos associados a estresse e têm menor probabilidade de morte prematura ou de cometer suicídio. Tudo isso está longe de ser uma prova conclusiva de que as respostas obtidas refletem o verdadeiro grau de felicidade das pessoas, mas creio que é uma boa primeira aproximação da questão. O fato de a felicidade ser uma experiência subjetiva não significa que nós não devamos buscar a máxima objetividade possível na tentativa de compreendê-la.

 

ALEX: Mas você há de convir que, por mais que se avance no caminho da objetividade, existem obstáculos e limites intransponíveis no percurso... Até onde se pode chegar por essa via? E o que você entende por “verdadeiro grau de felicidade”?

 

OTTO: É difícil saber até onde se vai chegar. Pense o seguinte. No passado, a sensação de frio ou calor era algo inteiramente subjetivo e baseado na impressão do sujeito. Cada um tinha a sua. Podia estar quente para um, mas frio para outro — e os dois tinham razão! Então veio o termômetro. O que parecia inapelavelmente subjetivo e pessoal passou a ter uma medida objetiva e impessoal. Se um está com frio e o outro sente calor, ninguém pode duvidar do que eles estão sentindo; mas pelo que o termômetro está indicando um deles deve estar com o termostato biológico desregulado.

Talvez consigam inventar algum dia uma espécie de termômetro para medir a intensidade das sensações de prazer

e bem-estar — um “hedonômetro” (derivado do grego hedoné: prazer + metrón: instrumento para medir), como sugeriu certa vez o economista irlandês Edgeworth. O que já se sabe é que, além do que referi há pouco, existe também uma correlação positiva entre o grau de felicidade declarada das pessoas e certas configurações cerebrais mensuráveis, como maior concentração do neurotransmissor dopamina e maior atividade elétrica na região pré-frontal do cérebro. Se o meu prazer ao comer chocolate ou ao ouvir a Sinfonia Praga de Mozart é parecido com o seu, duvido que a ciência algum dia responda. Mas se eu disser que detesto, digamos, dormir até tarde pela manhã, ao passo que o hedonômetro está informando exatamente o contrário, bem, é sinal de que alguma coisa está mal explicada.

Suspeito que ainda teremos enormes surpresas à medida que a neurociência e o estudo das relações cérebro-mente

forem avançando. Quando eu lembro que a humanidade precisou de centenas de milhares de anos para descobrir algo tão banal — ao menos em retrospecto — como a circulação do sangue, fico imaginando a imensidão do que ainda desconhecemos. “Chegará o tempo”, dizia Sêneca, “em que a posteridade ficará assombrada de que fôssemos ignorantes de coisas tão manifestas.” O vaticínio de Sêneca encerra o dom da eterna atualidade.

 

ALEX: Mas o que você não disse, Otto, é o mais importante. Que a prática científica depende de um acordo ético que a ciência por si mesma não estabelece, nós já discutimos no outro encontro. Mas há uma coisa ainda mais fundamental que isso, e é por aí que eu gostaria de avançar na discussão das questões que você propõe no texto. O que a ciência nunca fará por nós — e isto não importa quanto ela avance ou deixe de avançar — é escolher o uso que faremos do poder que o conhecimento confere e o que pretendemos, afinal de contas, fazer de nossas vidas.

O economista Frank Knight, que se graduou em filosofia antes de se tornar, ao lado de Jacob Viner, um dos pais

da conhecida Escola de Chicago, põe o dedo no nervo do problema: “A visão científica da vida é uma visão limitada e parcial; a vida é no fundo uma prospecção no terreno dos valores, uma tentativa de descobrir valores, em vez de, com base no conhecimento deles, produzir e desfrutá-los ao máximo. Nós nos esforçamos para ‘nos conhecermos a nós mesmos’, para descobrir os nossos reais desejos, mais do que para obter o que queremos. Este fato define uma primeira limitação de amplo alcance a uma concepção da economia como ciência”.

Os economistas gostam de pressupor em seus modelos, como se fosse a coisa mais simples do universo, que todos

os “agentes” sabem exatamente o que preferem e o que procuram na vida e, ainda por cima, que eles agem invariavelmente de modo a maximizar a sua “utilidade” ou bem-estar. Ao fazerem isso eles estão, na verdade, apenas facilitando demasiadamente as coisas para si mesmos. Eles estão jogando tênis com a rede da quadra abaixada.

O ponto central que o texto de hoje levanta, penso eu, não é tanto a questão de saber se as respostas dadas nas

pesquisas refletem algo de genuíno sobre o bem-estar subjetivo da sociedade. A questão crucial é ética, não metodológica. O que as evidências e anomalias apresentadas nos levam a crer é que as pessoas — e acho que me incluo nisso — não sabem muito bem por onde ir na busca da felicidade, ou seja, parecem não saber o que poderia torná-las mais felizes.

Até certo ponto — quem discordaria? — isso é inevitável, salutar até. A inscrição do templo de Apolo —

conheça-se a si mesmo — também carrega o dom da eterna juventude. O problema é que parece que ficamos atolados no caminho, girando em falso, afundando no desperdício e na frustração à medida que nos agitamos para tentar sair. É como se estivéssemos presos a uma espécie de jogo infernal em que corremos cada vez mais depressa, com excessivo estresse e sofreguidão, para simplesmente não sair do lugar. Pior: para descobrir que fomos parar onde não queríamos.

 

OTTO: Devagar com o ardor, Alex. Afinal, aonde você pretende chegar? Dá para ser um pouco mais direto e específico no que você está dizendo?

 

ALEX: Explico-me. Veja só. Do ponto de vista individual, como os dados revelam, faz todo o sentido para cada pessoa separadamente tentar subir na vida. Há uma proporção maior de indivíduos felizes entre os mais ricos do que entre os mais pobres. Se o dinheiro compra felicidade, sobretudo para quem ganha menos, e se eu quero ser feliz, então vou atrás do dinheiro. É uma escolha racional. Mas aí você examina o resultado agregado, ou seja, o efeito geral produzido por estas escolhas e constata algo estranho. A sociedade como um todo ficou mais rica, praticamente todos subiram na vida (ainda que alguns mais do que outros), mas a proporção de pessoas que se declaram felizes e infelizes se manteve teimosamente no mesmo lugar. A sociedade prosperou, mas a felicidade geral estancou. O que parecia racional para cada um isoladamente, dado o objetivo de ser mais feliz, não redundou em algo racional para todos ao mesmo tempo.

Pegue o caso americano, sempre um banquete de mil talheres. “Em comparação com 1957”, reporta um artigo no

Psychological Science (1995) citado num dos textos de apoio que o Otto nos deu, “os americanos possuem duas vezes mais carros per capita — além de fornos de microondas, tevês coloridas, videocassetes, aparelhos de ar condicionado, secretárias eletrônicas e US$ 12 bilhões em pares de tênis de grife novos por ano. Os americanos, portanto, estão mais felizes do que em 1957?” Resposta: “Não estão”. O todo é menor que a soma das partes! O que está acontecendo?

 

LEILA: O absurdo da situação é patente. Faz lembrar aqueles hamsters enjaulados em esferas rotatórias: quanto mais correm, mais depressa a roda gira, mas eles não saem do lugar. O meu caçula ganhou um desses de aniversário. Que presente de mau gosto! Pensei em devolver na loja, mas ele insistiu tanto que acabou ficando... Como é que você explica uma situação dessas, Alex?

 

ALEX: A explicação não é minha, mas é a melhor que encontrei e tem um ótimo pedigree intelectual. Primeiro, o óbvio: as pesquisas sobre felicidade mostram que a satisfação de certas necessidades básicas, como nutrição e moradia, tem forte impacto positivo no bem-estar subjetivo das pessoas nas mais diversas culturas. Isso é universal. Daí que acréscimos de renda sejam vitais para quem parte de um nível de renda absoluta muito baixo.

Mas a partir de certo ponto, ou seja, quando as necessidades biológicas primárias foram satisfeitas, as pessoas

passam a prestar mais atenção e a se preocupar com outras coisas. O que importa já não é tanto a renda absoluta, mas a renda relativa — a situação em que elas estão na comparação com os demais. O que passa a importar crescentemente agora é como a pessoa se percebe diante dos outros, diante do seu grupo de referência, diante daqueles cujo sentimento e opinião contam para ela. Ela quer saber como está, aos seus próprios olhos, em relação aos outros; e ela quer saber como eles irão percebê-la, isto é, como ela se sairá aos olhos deles, quando se compararem a ela.

Resolvida, portanto, a questão dos bens primários, começam a entrar em cena os chamados bens posicionais — a

pletora infinita dos tênis de grife desta vida, ou seja, os bens cujo valor reside precisamente no fato de que eles são socialmentes escassos, visto que a grande maioria não dispõe (por enquanto) de renda para adquiri-los. “Para a maior parte das pessoas ricas”, observa o insuspeito Adam Smith, “a principal fruição da riqueza consiste em poder exibi-la, algo que aos seus olhos nunca se dá de modo tão completo como quando elas parecem possuir aqueles sinais de opulência que ninguém mais pode ter a não ser elas mesmas.” Os ricos se orgulham da sua riqueza, mesmo que ela tenha sido obtida por meios pouco ou nada admiráveis, enquanto os pobres se envergonham da sua pobreza, mesmo que não haja nada do que se envergonhar no modo como ganham o pão. É por isso que, quase sem nos darmos conta — e não só no sentido literal, é claro — vivemos “a exibir nossas riquezas e a esconder nossa pobreza”. Vocês por acaso conhecem alguém que, seguindo o preceito do Buda, oculte das pessoas o que tem de bom e as deixe ver apenas o que tem de mau?

O grande conquistador veneziano Casanova, mestre incomparável dos segredos e artimanhas da sedução, abre o

jogo em suas Memórias. Com nove de cada dez mulheres que conseguiu seduzir, ele confessa, foi o manejo habilidoso do dinheiro que abriu as portas do triunfo — o dinheiro pelo que ele simboliza e por tudo o que proporciona de doce e amável. O poeta latino Petrônio, retratando a psicologia moral dos ricaços da Roma antiga, põe na boca de um deles: “Só me interessam as posses que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-las”. O ardil repugna, mas tem sua lógica — o populacho é cúmplice. Se os pobres simplesmente rissem e escarnecessem da riqueza e da ostentação dos ricos, o circo desabaria.

O ponto crítico, contudo, onde a roda da felicidade pega, é que, ao contrário da renda absoluta, a renda relativa

jamais poderá melhorar para todos ao mesmo tempo. É como a primeira classe num avião de carreira: o número de assentos é fixo; se novos passageiros vierem ocupá-los, os atuais terão que se acomodar mais atrás. Na competição por status, preeminência e prestígio — “por um lugar de honra na mente dos nossos semelhantes” —, o sucesso de alguns é, por definição, o fracasso da maioria. O prazer que sinto ao beber um copo de leite em nada depende do fato de a cidade inteira estar (ou não) tomando leite. Mas o prazer que experimento ao dirigir a minha BMW ou ao aparecer na coluna social ao lado do ministro ficará seriamente abalado se todos os carros da cidade amanhecerem trocados por BMWs iguais à minha ou se a coluna publicar fotos do tal ministro ao lado de todos os que estiveram no último Fla-Flu.

O poder do dinheiro no meu bolso está longe de ser somente o litro de leite e o conforto que ele compra. Ele é

também a falta relativa de dinheiro no bolso dos demais. O acesso a bens primários traz ganhos líquidos de renda psíquica. Na competição por bens posicionais, ao contrário, os apetites se estendem ao infinito e a escassez está sempre sendo recriada. A moeda escassa nesse jogo sisifista de soma-zero é a atenção respeitosa, a disposição favorável e o afeto alheios.

A melhor analogia aqui, para concluir o raciocínio, é com a corrida armamentista entre dois países: eles investem

cada vez mais em armamentos e, no entanto, se percebem cada vez mais inseguros! Nenhum deles pode parar de investir, porque senão o outro vence. Mas se eles confiassem um no outro e conseguissem suspender a corrida, então eles poderiam reorientar os recursos gastos em armas para outros fins e, ainda por cima, passariam a se sentir mais seguros. Será que não estamos vivendo algo parecido? Não estaremos, como os hamsters da Leila, girando em falso na roda de uma felicidade ilusória? Atarantados e atolados até o pescoço numa espécie de corrida armamentista do consumo?

 

LEILA: Mas você não vê a possibilidade de alguma forma de aprendizado nesse processo? O aumento da afluência e da segurança material não criam as bases para uma mudança de valores na sociedade? Eu enxergo a armadilha que você descreve, mas discordo da idéia de que estejamos condenados a viver assim indefinidamente. As pessoas, afinal, não são hamsters. Elas aprendem com os seus erros. A própria repetição desse jogo macabro que não leva a nada, as enormes frustrações que ele inevitavelmente produz, terão que acabar algum dia levando a um efeito pedagógico, a algum tipo de mudança...

 

ALEX: Isso é o que eu também gostaria de acreditar, Leila, mas não é o que a lógica pura da situação sugere. Note o seguinte. Se nós admitirmos, como as evidências indicam e o senso comum reforça, que a pessoa busca a sua felicidade, e que a chance de ser feliz é maior para quem está no topo da pirâmide de renda, então a ação racional do indivíduo será escolher o meio adequado para chegar lá. Ele tentará ingressar no clube dos mais ricos e fará isso independentemente do que os demais estiverem fazendo. Se os outros desistirem, melhor para ele, pois a competição será menor. Mas se os outros estiverem na lide, suando de esforço nas suas rodinhas, então ele não poderá se dar ao luxo de ficar parado — o preço seria ficar muito para trás. Acontece que, se todos pensarem e agirem assim, ou seja, escolherem aquilo que é mais racional para si, a corrida armamentista jamais chega ao fim.

A única possibilidade de sair da armadilha, sem alguma forma de intervenção externa que restrinja a liberdade

individual, seria uma mudança de valores, um pouco na linha do que você esboçava. Há quem acredite que isto já esteja ocorrendo hoje em dia, de forma mais ou menos espontânea, nos países ricos. Seria o surgimento de uma sociedade “pós-materialista” ou, como apregoa o historiador econômico Robert Fogel em The fourth great awakening, a emergência de uma agenda ético-política pós-moderna para o século XXI — o que ele chama de um novo “grande despertar” —, na qual o desenvolvimento dos recursos espirituais teria primazia frente às questões de ordem estritamente econômica que dominaram a agenda a partir do século XVIII. Entre os objetivos centrais da nova agenda, aponta Fogel, estariam “a luta pela auto-realização”, “a educação não apenas para fazer carreiras mas para valores espirituais” e “o desejo de encontrar um sentido mais profundo na vida do que a interminável acumulação de bens de consumo e a busca do prazer”.

Apesar da minha total simpatia (e torcida) por visões desse tipo, confesso que a repetição desse mesmo enredo me

deixa um tanto cético. O fato é que visões de futuro como essas do Fogel e de alguns outros autores contemporâneos vêm se sucedendo com regularidade desde a Primeira Revolução Industrial...

 

MELO: Só um rápido parêntese, Alex, antes de você concluir, mas o problema que você aponta tem de fato raízes bem remotas. Para dar só um exemplo, veja o que dizia o poeta latino Horácio — e isso muitos séculos antes de alguém inventar esse maldito pau para toda obra que é o termo “capitalismo” — em uma de suas sátiras: “Em conseqüência da cobiça invejosa, poucos são os que podem dizer que tiveram uma vida feliz [...] Será mesmo necessário que todos, por causa da ganância, vivam contrariados consigo mesmos e invejosos dos que têm outras ocupações?”. É exatamente a pergunta que a Leila estava formulando.

 

ALEX: Pois é. A história é antiga. Será que vai ser diferente desta vez? Francamente duvido. Deixe soprar o vento gélido de uma recessão, ainda que moderada, e aí então veremos o que sobra desta brisa cálida e aconchegante de pós-materialismo. Suspeito que a pergunta feita por Keynes em 1927 — “Por que não deveríamos começar a colher os frutos espirituais de nossas conquistas materiais?” — seja forte candidata ao nosso rol das sentenças dotadas do dom da eterna atualidade.

 

LEILA: Mas se a mudança não vier por bem, ela virá por mal. Eu estava ouvindo atenta o que você falava, Alex, e fui sendo tomada de um desconforto que só aos poucos fui capaz de explicar a mim mesma. Em que planeta estamos?! Nós conversamos, esgrimamos, elucubramos. Tudo muito civilizado, tudo como combinado no início. Mas é como se estivéssemos encastelados em alguma torre de marfim, ao pé de uma lareira em Oxford ou Princeton, ruminando sobre “o tumulto inconsciente em que anda a humanidade de uma a outra banda” e mais preocupados com o tédio e a obesidade dos que desfilam em BMWs do que com o sofrimento, a insegurança e a fome dos que seguem descalços por caminhos pedregosos. Não se preocupem. Não vou fazer demagogia barata preenchendo o vazio espiritual dos ricos com o estômago vazio dos miseráveis. Mas um modicum de realidade e um pouco de senso de proporção não fazem mal a ninguém.

É bom saber que o crescimento econômico não compra felicidade — que ele tem um “retorno marginal

decrescente”, como diria o Otto. Mas isso, como ele também mostrou, é só para os países que romperam a barreira dos US$ 10 mil anuais per capita. Agora vejam o estado em que o mundo terminou o século XX. Nos países ricos da América do Norte, da União Européia, da Oceania e no Japão, onde vivem cerca de 900 milhões de pessoas, a renda média por habitante gira em torno de US$ 26 mil anuais. No restante do mundo, isto é, nos chamados países em desenvolvimento da Ásia, da África, da América Latina e do Leste Europeu, onde vivem 5,1 bilhões de habitantes, a renda per capita está na casa dos US$ 3,5 mil ao ano.

Se considerarmos os países mais pobres do mundo, nos quais residem 2,4 bilhões de seres humanos, a renda

média por habitante não passa de míseros US$ 1,9 mil anuais. O fato espantoso é que o grau de desigualdade no nível de renda entre os países do mundo é maior do que a desigualdade de renda existente dentro de qualquer país do planeta (Brasil incluído). Em termos de distribuição de renda, o mundo é um lugar mais desigual do que o mais desigual lugar do mundo.

 

OTTO: Mas tudo isso, Leila, só reforça o argumento de como, inclusive do ponto de vista do bem-estar subjetivo, o objetivo do crescimento econômico permanece absolutamente prioritário para o grosso da população mundial. Vá explicar num vilarejo perdido lá da África subsaariana que a riqueza não traz felicidade e que, no fundo, “a pobreza resulta do aumento dos desejos do homem e não da redução das suas posses”...

 

LEILA: Eu tinha certeza de que você diria isso, Otto. Fiz até uma pausa proposital para que você entrasse. Só que antes de passarmos para o campo do que deveria ser, como você já ia fazendo, me permita gastar mais um tiquinho do nosso tempo chamando a atenção para o que vem sendo, quer dizer, para o que é. Dois pontos apenas.

O primeiro é que o fosso entre países ricos e pobres está crescendo. De 1830 para cá, a renda per capita das

nações hoje chamadas ricas se multiplicou por dezesseis, ao passo que o nível de renda média do resto do mundo “apenas” triplicou. Mesmo nas últimas décadas, a distância continuou a aumentar. Enquanto nos países ricos a renda por habitante subiu 2,4% ao ano em média entre 1965 e 1995, no mundo como um todo ela cresceu 1,6%. Das regiões menos desenvolvidas, o Leste Asiático foi a única que conseguiu, nesse mesmo período, encurtar a distância que a separa do pelotão dos ricos.

O outro ponto tem a ver não com a renda gerada, mas com a energia e o patrimônio ambiental consumidos na sua

geração. Os países ricos absorvem aproximadamente metade da energia comercial utilizada por ano no planeta. Isso significa que um habitante desses países consome em média cinco vezes e meia mais energia do que alguém no restante do mundo (um americano gasta oito vezes mais). O outro lado dessa moeda é a emissão de gases tóxicos. Quase a metade do dióxido de carbono despejado anualmente na atmosfera é gerada pelos países ricos. Isso significa que as emissões per capita desses países são em torno de cinco vezes maiores do que nos países em desenvolvimento (o americano típico libera dezoito vezes mais dióxido de carbono por ano do que um indiano e sete vezes mais do que um chinês). Para se ter uma idéia, só de 1950 para cá o grau de concentração de carbono na atmosfera do planeta subiu mais do que nos dois séculos precedentes, ou seja, já em plena era industrial.

A questão é: em que direção nós estamos indo coletivamente ? Que o crescimento é fundamental nos países de

baixa renda, Otto, ninguém em sã consciência poderia negar. Mesmo aqui, porém, eu não faria um fetiche dos tais US$ 10 mil — a necessidade de renda monetária não é a mesma na Irlanda ou no Taiti, e isso pelo simples fato de que nos ambientes tropicais onde “o mero existir é um prazer” se gasta menos com aquecimento, vestuário, moradia e consumo de calorias.

Mas o ponto crítico não é esse. O homem é parte do mundo natural e a economia é um subsistema da biosfera. No

século XX, surgiram sinais inequívocos de que estamos nos aproximando rápida e perigosamente dos limites desse sistema maior. Imagine agora o que seria da espécie humana se a Índia e a China, com um terço da população mundial, insistissem no direito de consumir um terço dos recursos naturais do planeta e lançassem de volta um terço dos resíduos sólidos, líquidos e gasosos. Imagine se os domicílios indianos e chineses passassem a ter dois automóveis em média nas suas garagens, 2,2 aparelhos de tevê, freezers, aparelhos de ar condicionado e tudo o mais. Imagine a corrida armamentista de que o Alex falava, só que não mais em escala restrita aos países ricos, mas em escala verdadeiramente global.

É por isso que eu digo que se a mudança de valores não vier por bem, ela virá por mal. Se os bilhões de

“excluídos” do planeta insistirem em conceber a busca da felicidade como “a interminável acumulação de bens de consumo”, para usar a expressão do Fogel sobre os seus conterrâneos, então o meio ambiente natural e a biosfera não suportarão o desaforo. O limite irá se impor de fora para dentro.

Mas o que é mais grotesco nisso tudo é que a corrida armamentista do consumo, ainda por cima, não leva ao que

promete. Há um equívoco monstruoso nessa idéia, tão cara aos economistas desde Adam Smith, de que a auto-realização humana se resolve na esfera do consumo, ou seja, por meio da satisfação de apetites que se multiplicam como coelhos e da gratificação indiscriminada dos sentidos. A falência do modelo iluminista-faustiano é dupla: ele não é generalizável em escala global e ele também falha nos seus próprios termos, ou seja, ele nos ilude ao acenar com uma promessa de felicidade que jamais se cumpre. A corrida rumo a lugar algum em que estamos metidos é muito mais que o efeito conjunto das ilusões, vaidades e auto-enganos que nos movem como indivíduos. Ela é um impulso coletivamente suicida.

 

MELO: Que pena, Leila, eu estava prestes a dizer que tinha enorme simpatia por tudo o que você estava dizendo, ainda que sem muita clareza quanto às reais implicações do seu argumento, quando de repente, como que por um cacoete, você colocou Adam Smith na parada. Aí não dá. É uma questão menor, concordo, e você não está sozinha; mas não deixa de ser uma flagrante injustiça vinda de alguém tão ciosa de justiça. Revire a obra de Adam Smith de cabo a rabo, levante tudo o que ele escreveu sobre a felicidade e sua relação com o progresso econômico e civilizatório — você ficaria espantada em descobrir como ele estava à frente do iluminismo ao qual pertencia e afinado a certas tendências da ética estóica e epicurista que, conforme venho notando, são muito do seu agrado. Como o tempo é exíguo e o Otto já anda consultando o relógio, serei brevíssimo.

O fato é que Adam Smith jamais confundiu a riqueza das nações com a felicidade das nações. Com a exceção dos

miseráveis, ele acreditava que o contentamento e a dor, ao contrário da renda e do poder, estavam distribuídos de forma razoavelmente equânime entre as diversas classes da sociedade e que “naquilo que constitui a verdadeira felicidade da vida humana, eles [os pobres] em nada se encontram numa situação inferior à daqueles que pareceriam estar tão acima deles”.

A verdadeira felicidade, ele sustentava, mora mais na imaginação das pessoas e na obtenção de uma certa

tranqüilidade de espírito do que na satisfação ilusória da vaidade associada a níveis maiores de renda e consumo. Embora cético quanto ao papel da riqueza na felicidade dos homens, Adam Smith soube reconhecer e analisar com maestria a força do seu apelo na psicologia moral do animal humano. Os pobres, como disse o Alex, não riem da ostentação dos ricos: miram deslumbrados e perseguem o luxo-troféu que lhes escapa. Dessa crença ilusória (deception é o termo que ele usava) se alimenta o progresso das nações. Mas os sentimentos morais do autor da Riqueza das nações eram outros. Como resume Alfred Marshall: “Adam Smith seria a última pessoa no mundo a pensar que a riqueza é o objetivo da vida humana, a última a supor que os ideais de uma vida elevada devessem ser subordinados ao crescimento da riqueza material por qualquer indivíduo ou nação que se auto-respeita”.

 

LEILA: A sua erudição, Melo, é a minha desgraça; mas você não disse ainda o que pensa das questões que levantei.

 

MELO: Pois é, Leila, ia chegar lá. Quanto à sustentabilidade ecológica do atual modelo, nos moldes em que ele hoje está definido, concordo que é uma questão de primeiríssima ordem, compartilho inteiramente da sua ansiedade, mas é um assunto sobre o qual não me sinto competente para opinar. Digo apenas o seguinte: você deveria talvez evitar um certo tom de milenarismo ecológico, como se a humanidade estivesse sempre suspensa à beira de um abismo apocalíptico. Pode até ser o caso, não sabemos, mas os pânicos e alarmes falsos foram tão freqüentes nas últimas décadas que um mínimo de cautela e humildade é recomendável. O problema desse falso alarme permanente é que ele mina a credibilidade do movimento ecológico. A pesquisa científica e a inovação tecnológica poderão dar resposta a desafios que hoje nos parecem insolúveis...

 

OTTO: Este é um assunto sobre o qual tenho alguma experiência. Meu primeiro emprego como economista foi em plena crise energética, no final dos anos 70. Sou um veterano das profecias de catástrofe iminente. Depois da segunda ou terceira vez, a gente começa a adquirir alguns calos no cérebro. A humanidade tem recursos. Não dá para extrapolar com base no que aí está. O automóvel movido a hidrogênio, que está sendo desenvolvido nos laboratórios dos países ricos, vai permitir que ele chegue às garagens de bilhões de chineses e hindus sem onerar em demasia a atmosfera...

 

MELO: Mas também não acho que devamos descambar para uma atitude complacente, Otto. O fato de que essas profecias tenham se revelado falsas no passado, graças ao avanço tecnológico, não significa que será sempre assim no futuro. É a falácia da indução — todos os cisnes conhecidos eram brancos, até que um belo dia o cisne negro deu o ar de sua graça. Vai que uma profecia aterradora dessas é verdadeira. Só que aí poderá ser tarde demais. Concordo com a Leila. Quando se trata de ameaça ecológica, é melhor correr pela pista de dentro. É prudente não exagerar nos riscos. Por outro lado, será que o automóvel e a parafernália de gadgets da cultura americana irá promover a felicidade dos chineses e hindus? Volta e meia eu lembro de um button ecológico dos anos 70 que dizia “Technology is the answer! But what is the question?”.

 

ALEX: Exatamente: qual é a questão? Eu queria voltar ao ponto central que é o da relação (ou falta dela) entre progresso e felicidade. Creio que o que a Leila falou e o que nós estávamos discutindo antes sugerem duas conclusões relevantes. A primeira é a de que o bem-estar não é necessariamente função da satisfação de um número maior de desejos ou preferências (para usar o termo caro aos economistas). E a segunda é a de que as pessoas não sabem ao certo o que desejam e, o mais grave, elas podem estar sistematicamente equivocadas acerca do que poderia torná-las mais felizes. Se isso é verdade, então o indivíduo não seria invariavelmente o melhor árbitro daquilo que é melhor para si, e isso mesmo do ponto de vista estreito do seu bem-estar subjetivo. Adam Smith, pelo que o Melo mostrou, não discordaria.

Considere por exemplo, para efeito de raciocínio, duas situações hipotéticas: A e B. Na situação A: Bentinho

deseja que Capitu seja fiel, ela é fiel, mas ele acredita que ela não seja. E na situação B: Bentinho deseja que Capitu seja fiel, ela não é, mas ele acredita que ela seja. Em A, o desejo de Bentinho está sendo objetivamente satisfeito, mas ele não é feliz — é o inferno dos tolos. Ao passo que em B o seu desejo não está sendo satisfeito, mas ele é feliz — é o paraíso dos tolos. A percepção nem sempre é o fato; mas isso em nada desabona o fato da percepção. No ardiloso tabuleiro da busca da felicidade, o fato da percepção com freqüência vira o jogo. O que é preferível, A ou B?

 

MELO: Desculpe, Alex, mas não resisto. Vocês conhecem a definição de felicidade dada por Jonathan Swift? Ela é “a posse perpétua da condição de estar bem enganado; o estado pacífico e sereno de ser um tolo entre canalhas”. Pobre Bentinho...

 

ALEX: Considerem agora o caso dos ganhadores de loteria no estudo clássico a que se refere o nosso texto de abertura. Eles imaginavam que o dinheiro do prêmio lhes permitiria satisfazer os seus sonhos de consumo e que isso os tornaria mais felizes. Não foi o caso. Passado o pico inicial de euforia, eles se adaptaram ao seu novo padrão de vida e, apesar de estarem satisfazendo uma quantidade muito maior de preferências de consumo, a sua felicidade média voltou a ser o que era antes, ou seja, regrediu à norma estatística da população.

Talvez a utilidade advinda do maior consumo propiciado pelo prêmio esteja sendo apenas o suficiente para

compensar a “maldição dos ganhadores” — o custo de tantas fantasias e ilusões perdidas. “Quando os deuses querem nos punir eles atendem as nossas preces.” Conseguir boa parte daquilo que desejamos pode nos deixar com menos do que tínhamos de início.

Os países ricos do mundo, Leila, são mais ou menos como os ganhadores de loteria do exemplo. Os seus

habitantes satisfazem objetivamente uma infinidade de preferências de consumo, mas a felicidade não responde à altura. Aos olhos dos que acompanham de fora essa farra, imaginando à distância a vida de luxo e fartura que poderiam estar levando se lá estivessem, a incapacidade de traduzir tanta riqueza em felicidade só pode configurar uma situação de inferno dos tolos.

Os países de menor renda — aqueles que estão bem acima da miséria subsaariana mas longe ainda da afluência

americana — seriam portanto como apostadores sonhando com tudo o que fariam se conquistassem o prêmio maior, em moeda forte, na grande loteria do crescimento econômico. A força dessa ilusão, como apontou Adam Smith, é poderosa: ela move montanhas e faz girar as rodas e engrenagens do progresso, além de estar causando seríssimos danos — em alguns casos irreparáveis — ao meio ambiente, como a Leila frisou. Felicidade, porém, é outra coisa.

“Existem poucas coisas que nós desejaríamos de forma intensa se nós soubéssemos realmente o que queremos”,

observa o moralista francês La Rochefoucauld. Perfeito. O problema é como provar da fruta sem mastigar a polpa. Como saber o valor do presente sem desembrulhar o pacote? O grande desafio implícito em seu argumento, Leila, poderia ser traduzido na seguinte questão: até que ponto é possível persuadir o apostador lotérico a se desfazer da felicidade ilusória do prêmio antes mesmo do sorteio em que ele sonha ser o grande felizardo? Como alertava Dorival Caymmi, em “Saudades da Bahia”, “pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”. Será preciso, no entanto, “perder a Bahia” para “descobrir a Bahia?”. E se Bahia (“terra da felicidade”) não há mais?

 

OTTO: O nosso tempo por hoje, amigos, já se esgotou. Como coordenador da noite, no entanto, vou me permitir um breve comentário final. Vamos colocar as coisas um pouco mais em perspectiva. Apesar de todos os problemas que discutimos, não se pode perder de vista as conquistas feitas. A esperança média de vida ao nascer no mundo — incluindo os países de ínfima renda — aumentou mais nos últimos quarenta anos do que nos 4 mil anos precedentes. Ela passou de cerca de 53 anos em 1960 para 67 anos atualmente. Isto significa que quem nasce hoje em dia vive em média 122 mil horas ou 5083 dias a mais do que alguém nascido na nossa geração, ou seja, quatro décadas atrás. Ao mesmo tempo, o poder produtivo aumentou exponencialmente: a humanidade produz agora em dezessete dias o que o trabalho de nossos avôs e avós, há cerca de um século, produzia em um ano. Não é pouca coisa.

O século XX demonstrou que a liberdade individual, entendida como o mínimo de restrições à ação de cada um

compatível com o direito a uma igual liberdade dos demais, possui não apenas valor intrínseco, pelo que ela significa do ponto de vista da autonomia e dignidade da pessoa humana, mas também um valor instrumental, pelo que representa em termos de ganhos de eficiência e criatividade no uso do conhecimento para a geração de riqueza material. A democracia e o mercado venceram a disputa com a autocracia e o planejamento central. Os grandes desafios do século XXI serão: a) mostrar que a liberdade individual é compatível com a preservação do equilíbrio ecológico do planeta no longo prazo, e b) que ela é capaz de favorecer, melhor do que qualquer esquema paternalista ou dirigista, o aumento do bem-estar subjetivo do ser humano.

O que parece ter ficado claro, apesar de nossas naturais divergências, é que, uma vez resolvidas certas carências

básicas ligadas a bens de primeira necessidade, o desafio da felicidade se torna muito mais uma questão de psicologia e de ética do que propriamente de economia. Eu não iria tão longe quanto Mozart, a ponto de afirmar que “a felicidade existe somente na imaginação”; mas eu diria, sim, que a partir de certo nível de renda, felizmente não muito alto, ela passa a depender mais do temperamento e da fantasia do que do tamanho da casa e da conta bancária. A vida dos povos, não menos que a dos indivíduos, é vivida em larga medida na imaginação.

Que as pessoas estejam se sentindo perdidas e sem saber ao certo o que poderia fazê-las mais felizes, como

discutimos hoje, não me parece ser tanto um problema quanto um indício de solução. Imaginem como estaríamos agora, caso tivéssemos concluído que os homens sabem, sim, exatamente o que querem, e que as suas preferências atuais refletem a palavra final sobre o que de fato os tornará felizes. O surpreendente descompasso entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar, não é descabido concluir, encerra uma semente de esperança. Temos muito chão pela frente.

 

(*) Juntamente com o ensaio de sua autoria, Otto distribuiu fotocópias de três artigos que poderiam servir de pano de fundo para este encontro: Ed

Diener et al., “Subjective well-being: three decades of progress”; Michael Argyle, “Causes and correlates of happiness”; e Andrew Oswald, “Happiness and economic performance”.

(**) Todos os valores monetários no texto de abertura e nos diálogos são em dólares norte-americanos e foram convertidos segundo a paridade do poder

de compra (PPP) das diversas moedas a fim de evitar distorções provocadas por desajustes nas respectivas taxas de câmbio.