Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização

Epílogo

 

Existem livros que instruem, outros que defendem causas; existem livros que acusam e denunciam, outros que

oferecem curas ou a salvação. Um diálogo filosófico não pede que se concorde com ele nem pretende apontar o caminho. Ele planta a semente da dúvida e, quando ela vinga, colhe o fruto da busca e da reflexão compartilhada. O conversar filosófico não é uma via expressa que liga um ponto a outro da cidade, mas uma alameda arborizada por onde se passeia prazerosamente, um tanto ao acaso, na companhia de idéias e bons amigos. Ao final do passeio, não há vitoriosos nem derrotados. Há o valioso reconhecimento do percurso trilhado, das questões sem resposta e de novos caminhos a percorrer — há a certeza inabalável de que é preciso prosseguir.

No verão de 2002, logo após o fim do carnaval, as reuniões entre os quatro ex-colegas de faculdade tiveram de ser

suspensas. Um dos membros do grupo recebeu e aceitou um generoso convite do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, para desenvolver um projeto ligado à sua área de atuação. A interrupção dos encontros, no entanto, embora lamentada por todos, acabou trazendo um benefício inesperado. Foi durante esse período sabático, no ambiente austero e acolhedor de um tradicional college inglês, verdadeiro reduto da vita contemplativa na era da globalização, que o amigo ausente encontrou o tempo e a concentração necessários para, em meio aos seus demais afazeres e obrigações no Centro, revisar a transcrição dos diálogos, compor as notas e preparar para a publicação em livro o texto dos quatro encontros que chegaram a ser realizados. De certa forma, não seria exagero dizer, foi essa a maneira que ele descobriu de matar as saudades e reviver de algum modo os deliciosos momentos que passaram juntos.

Todo final é arbitrário. Na verdade, a idéia inicial do grupo não era a de suspender os encontros apenas porque um

deles estaria se ausentando do país por algum tempo. O que eles combinaram de início, ao se despedirem, é que poderiam dar seqüência aos diálogos substituindo as reuniões de corpo presente, na casa de um deles, por colóquios eletrônicos pela internet. A receita parecia simples. Bastaria que, no dia e hora marcados, estivessem todos a postos e conectados a uma “sala de bate-papo exclusiva”. Os encontros poderiam então prosseguir e se realizar normalmente.

Os arranjos foram feitos e as providências tomadas. O texto de abertura do que seria o quinto encontro do grupo

— que tinha como tema as relações entre felicidade e a síndrome da ansiedade do tempo — chegou a ser preparado e previamente distribuído. Na prática, porém, nada funcionou direito. Os problemas técnicos, é verdade, atrapalharam bastante: as falas se atropelavam, os assuntos se entrecortavam, a rede caiu. Mas o mais grave, eles logo constataram, não era isso. Havia alguma coisa fundamental no contato direto entre seres humanos — a expressão do olhar, a entonação da voz, a energia indefinível irradiada pela presença física de alguém — que se perdia irreparavelmente na interface com a tela eletrônica. A experiência resultou insípida e o diálogo, pífio — uma cacofonia de falas postiças, fragmentárias e desencontradas. Não houve segunda tentativa. A única coisa a fazer, concluíram, era aguardar o retorno do amigo ausente para reiniciar os encontros. A ansiedade do tempo teria de esperar até lá.

Discutir a felicidade significa refletir sobre o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos relativos de

diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão do hiato que nos separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance.

O que havia de errado e o que permanece vivo no projeto iluminista de conquista da felicidade por meio do

progresso científico e material? Até que ponto as nossas escolhas têm conduzido à criação de condições adequadas para vidas mais livres e dignas de serem vividas? Que lições tirar das conquistas e desacertos das nações que lideram o processo civilizatório? A civilização entristece o animal humano? Qual deveria ser o peso do prazer na busca da felicidade e qual deveria ser o lugar da felicidade na melhor vida? O conhecer modifica o conhecido, o viver modifica o vivido. As questões da filosofia estão sempre voltando ao ponto de partida. Elas nunca se rendem, elas jamais se esgotam; só o que acaba é o nosso fôlego e a nossa capacidade de enfrentá-las.

A humanidade não se coloca apenas os problemas que é capaz de resolver. A fome não garante a existência do

alimento capaz de saciá-la. Encaradas de um ponto de vista sóbrio, sob a luz fria e clínica da razão, nossas aspirações de realização e transcendência estão fadadas ao desapontamento. O tamanho da distância entre a mais alta felicidade e a mais funda infelicidade de um homem é produto da nossa fantasia: “A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver”.

No fundo do coração humano, entretanto, algo surdo e obstinado resiste; algo indomado protesta a nos dizer que

há alguma coisa indefinível pela qual existimos e aspiramos, algo por que vale a pena viver e sofrer. A imaginação selvagem que nos habita em segredo insinua esperanças e inspira sonhos que a razão desautoriza. Os dois lados do embate têm suas armas, têm o seu apelo, têm o seu direito. O grande equívoco é supor que um deles precise ou deva sair vitorioso. A qualidade da tensão é o essencial.

“Autores são atores, livros são teatros.” O texto impresso é o palco de um possível encontro. O autor tem a

palavra, mas é com o leitor que ela sonha. Embora pertençam a quem escreve, as palavras apenas se entregam a quem as lê. Os encontros deste livro são conversas em busca de interlocutores. O diálogo horizontal dos seus personagens terá se justificado se fecundar a curiosidade e prosseguir no diálogo perpendicular com o leitor. O texto semeia, a leitura insemina.

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Eduardo Giannetti

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