Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização

Notas

 

PRIMEIRO ENCONTRO: A BIFURCAÇÃO PÓS-ILUMINISTA

“a tradição de todas as gerações”: Marx, O 18 Brumário, p. 17.

“é difícil saber”: Keynes, “End of laissez-faire”, p. 277.

clima de opinião: A expressão “clima de opinião” surgiu no século XVII e foi popularizada por Alfred Whitehead (ver Becker, Heavenly city, p. 5); é dele

também a caracterização do século XVIII como “a era da razão, baseada na fé”, em contraposição ao século XVII, que teria sido “a era da fé, baseada na

razão” (Whitehead, Science and the modern world, p. 83). The age of reason [A era da razão] foi o título de um livro publicado pelo agitador político

Thomas Paine em 1795.

clara ruptura: As fontes e variações do conceito de progresso na Antigüidade clássica são examinadas em Dodds, “The ancient concept of progress”. “[Na vida em sociedade] são requeridos”: Priestley, An essay, pp. 4-5. Essa passagem é citada e comentada em: Bury, Idea of progress, pp. 221-2;

Passmore, Perfectibility of man, pp. 209-10; Willey, Eighteenth-century, pp. 194-204; Becker, Heavenly city, pp. 144-5; e Gaukroger, Francis Bacon, p.

16. Embora Priestley tenha descoberto experimentalmente o oxigênio, foi Lavoisier quem interpretou corretamente o seu resultado empírico. A

formulação original do princípio da utilidade é devida ao filósofo iluminista escocês Francis Hutcheson (“An inquiry”, p. 90); mas foi por meio da obra

de Priestley (e do filósofo criminalista Beccaria) que ele chegou aos pais do utilitarismo inglês, como reconhece o próprio Bentham (ver Himmelfarb,

The idea of poverty, p. 35). Sobre as origens e o desenvolvimento do utilitarismo clássico, ver Viner, “Bentham and J. S. Mill”. “a bondade moral do homem”: Condorcet, Sketch, p. 193. Essa passagem é discutida em Berlin, “Historical inevitability”, p. 136; Cranston, Philosophers

and pamphleteers, p. 143; e, também, por Emma Rothschild (p. 203), que procura apresentar, em seu recente livro, uma interpretação alternativa à visão

dominante, ou seja, a figura de um Condorcet menos otimista e menos entusiasmado com o progresso do que normalmente se imagina (ver Economic

sentiments, especialmente o capítulo 7).

“ao passo que o progresso das artes”: Condorcet, Sketch, pp. 186-8. “quanto mais os homens se erguerem”: Godwin, Thoughts, p. 73. Como veremos no diálogo do terceiro encontro (p. 99 e nota), essa crença remonta a

Aristóteles.

“a posteridade está para o filósofo”: A sentença de Diderot foi usada por Becker como epígrafe do seu magnífico ensaio sobre “os usos da posteridade” no

pensamento filosófico do século XVIII (The heavenly city, pp. 119-68). “o problema de determinar”: Kant, Fundamentação, p. 128. “O conceito de felicidade”, afirma Kant, “é tão indeterminado que, se bem que todo homem a

deseje alcançar, ele nunca pode dizer ao certo e de acordo consigo mesmo o que é que propriamente deseja e quer. A causa disso é que todos os

elementos que pertencem ao conceito de felicidade são na sua totalidade empíricos, quer dizer, têm de ser tirados da experiência, e que portanto para a

idéia de felicidade é necessário um todo absoluto, um máximo de bem-estar, no meu estado presente e em todo o futuro. Ora, é impossível que um ser,

mesmo o mais perspicaz e simultaneamente o mais poderoso, mas finito, possa fazer idéia exata daquilo que aqui quer propriamente. Se é riqueza que

ele quer, quantos cuidados, quanta inveja e quanta cilada não pode ele chamar sobre si!” (p. 127). “Deverá ser o destino”: Kant, “Idea for a universal history”, terceira e oitava proposições. Para um exame sistemático da relação entre ética e felicidade na

filosofia kantiana, bem como para uma análise detalhada da passagem citada no texto (a terceira proposição), ver Guyer, Kant on freedom, law, and

happiness, especialmente capítulo 11.

Razão = virtude = felicidade : A seqüência constituindo um “elo indissolúvel” aparece em Condorcet, Sketch, p. 201. A fórmula de identidade, assim

como usada no texto, foi analisada criticamente por Nietzsche em Will to power (§ 433, p. 237, e § 437, p. 241) no contexto de uma crítica aos

pressupostos da filosofia socrática.

princípio da falseabilidade de Popper : Sobre a idéia de demarcação entre ciência e não-ciência e o princípio popperiano, ver, por exemplo, Popper,

“Ciência: conjecturas e refutações”.

“a lógica é a ética do entendimento”: A sentença sintetiza a idéia, desenvolvida por Peirce em outros trabalhos, de que a lógica é “uma ciência normativa”.

Ela aparece em carta do filósofo à escritora americana Victoria Lady Welby (reproduzida em Values in a universe of chance, p. 415). O que se entende por “felicidade”?: A análise dos três usos do termo felicidade baseia-se em Nozick, “Happiness”, pp. 108-13. (Alex aproveita a

oportunidade para agradecer a Bernard Williams pela recomendação que lhe fez deste texto.) A diferença entre a segunda (local) e a terceira (global)

acepções de felicidade foi de certo modo demarcada e analisada por J. S. Mill em Utilitarianism: “Um estado de prazer exacerbado se prolonga apenas

por alguns momentos ou, em alguns casos, e com certas interrupções, por horas ou dias, e representa o raio intenso de satisfação, não a chama constante

e duradoura. Disso, os filósofos que ensinaram que a felicidade é o objetivo maior da vida estavam tão cientes quanto aqueles que zombam deles” (p.

18).

“fiz de mim o que não soube”: Álvaro de Campos, “Tabacaria” (Fernando Pessoa, Obra poética, p. 365). no epitáfio que compôs para si mesmo, Locke : Citado em Harris, Reason and nature, p. 53. Como esclarece Harris, “mediocrity”, no contexto da época,

tinha o sentido de moderado, temperado. O jovem Locke escreveu um ensaio sobre a felicidade (ver Cranston, Locke, pp. 123-4). Em seu diário pessoal,

já maduro, o filósofo ponderou que o ser humano está no mundo “para buscar a felicidade de que este mundo é capaz, e que consiste em nada além de

uma provisão abundante de toda sorte de coisas que podem, com a maior facilidade, prazer e variedade, preservá-lo por mais longo tempo nele” (citado

em Bonar, Philosophy and political economy, p. 91). Suas últimas palavras ao morrer foram: “Eu vivi por um tempo suficiente e, graças a Deus,

desfrutei de uma vida feliz; mas, no final das contas, toda esta vida não passa de vaidade [all this life is nothing but vanity]” (Cranston, Locke, p. 480). A

julgar pelo teor do seu ensaio juvenil e do que ele afirma no diário, talvez não seja descabido dizer que o “mediocrity” no epitáfio de Locke não esteja

afinal tão distante assim do sentido atual do termo.

“O benéfico e o prejudicial”: Hume, “The sceptic”, p. 168.

“não são as coisas em si mesmas”: Epicteto, Encheiridion, p. 487. Como dirá Montaigne: “Os mais graves males e os mais comuns são os que nos vêm da

imaginação; e o ditado espanhol, ‘defiendame Dios de mi’, parece-me simpático” (“Da experiência”, p. 491). O andarilho solitário Rousseau observa: “O

hábito de me recolher a mim mesmo terminou me fazendo ficar imune aos males que me afligiam e até mesmo quase à memória deles; deste modo, eu

aprendi a partir da minha própria experiência que a fonte da verdadeira felicidade reside dentro de nós e que não está em poder dos homens trazer

desventura a alguém determinado a ser feliz” (Reveries, segunda caminhada, p. 36). Ver também: Schopenhauer, World as will, vol. 2, p. 158; e

Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 108, p. 85. Essa linha de raciocínio parece estar na base da filosofia de vida budista (ver, por exemplo, Dalai-

Lama e Cutler, Art of happiness, especialmente capítulos 8-11).

“Querei só o que podeis”: Padre Antônio Vieira, Sermões, VII.

“No princípio era a ação.”: Goethe, Faust, primeira parte, linha 1237, p. 153. É assim que o herói trágico de Goethe reescreve, vertendo para a sua

“adorada língua alemã”, a sentença, “No princípio era o Verbo”, que abre o Evangelho Segundo São João no Novo Testamento. “o homem se faria a si próprio um deus”: Giordano Bruno, Spaccio de la bestia trionfante [A expulsão da besta triunfante], citado por Gaukroger, Francis

Bacon, p. 76, e Farrington, Francis Bacon, p. 27. Segundo Farrington, Bruno teria sido, mais do que qualquer outro pensador do renascimento, o grande

predecessor de Bacon na concepção da ciência como poder sobre o mundo e na visão de um paraíso reconquistado, após a expulsão do paraíso edênico,

por meio da técnica e da sujeição da natureza aos desígnios humanos.

“Especialistas sem espírito”: Goethe, citado por Weber (sem referência à fonte) no penúltimo parágrafo de The protestant ethic (p. 182). “O mundo que ele [Bacon] almejava”: Macaulay, “Lord Bacon”, p. 405. Zeno foi o fundador da escola estóica no século III a. C.; segundo a sua doutrina,

o único bem é a virtude e o único mal é a fraqueza moral: a pobreza, a dor e a perspectiva da morte não são capazes de arranhar a felicidade de um

homem virtuoso. O programa da filosofia moral de Bacon — a “geórgica da mente” que deveria acompanhar a reforma das ciências naturais em bases

experimentais e pragmáticas — está delineado em seu Advancement of learning, livro 2, pp. 146-70. Alguns dos mal-entendidos da filosofia baconiana

são listados por Gaukroger em Francis Bacon, p. 3. O Bacon de Macaulay guarda algum parentesco com o ideal de autodisciplina recomendado pelo

Dalai-Lama (ver Art of happiness, p. 26).

“As bestas”: Boyle, citado por Burtt, Metaphysical foundations, p. 194. “o sucesso contínuo na obtenção”: Hobbes, Leviathan, p. 63. O contraste entre a “felicidade do tumulto” e a “felicidade da quietude” foi proposto por

Pascal em Pensées, § 136, pp. 67-71. Hobbes reconhece a força do summum malum que é a morte violenta, mas descarta sumariamente o bem supremo

de certas correntes da filosofia clássica, entre as quais estóicos e epicuristas, definido como o estado de ataraxia ou imperturbável tranqüilidade em que

a mente apaziguada e contemplativa do sábio repousa (Leviathan, p. 63). “A grande empresa do governo”: Bentham, Principles of morals, p. 74. alertou o seu ex-aluno : O episódio ocorreu em 1919 e está relatado em Alec Nove, “The omnipotent planners”, p. 1014. Sobre as relações entre Weber e o

seu aluno Lukács, ver Marianne Weber, Weber, pp. 465-6.

“conheciam o preço de tudo”: Adaptado de Wilde, Lady Windermere’s fan e citado por Arrow, “I know a hawk from a handsaw”, p. 48. “Ao mesmo tempo que a humanidade”: Marx, “Discurso no aniversário do People’s Paper”, pp. 298-9. O People’s Paper era um jornal de agitação

sindical londrino do qual Marx era eventual colaborador. O discurso, pronunciado em inglês, aconteceu em abril de 1856. O trecho citado serviu de

epígrafe da tese (depois livro) de Schmidt.

“na sua forma mais completa”: Marcuse, “On hedonism”, p. 199. Como bem apontou Gérard Lebrun, “Marcuse nunca foi mais que um apolíneo

encolerizado” (“Os dois Marcuse”, p. 138). A posição da Escola de Frankfurt em relação ao legado iluminista foi colocada de forma clara por Habermas:

“Os pensadores do iluminismo ainda possuíam a expectativa extravagante de que as artes e as ciências promoveriam não apenas o controle das forças

naturais, mas levariam adiante a compreensão do mundo e do indivíduo, promoveriam o progresso moral, a justiça das instituições e, até mesmo, a

felicidade dos seres humanos. O século XX abalou este otimismo [...] Devemos nós tentar nos manter aferrados às intenções do iluminismo, por frágeis

que possam parecer, ou declarar todo o projeto da modernidade uma causa perdida?” (“Modernity versus postmodernity”, p. 57). A resposta, é evidente,

recai sobre a primeira opção. De fato, o próprio caráter radicalmente excludente da disjuntiva oferecida — como se fosse uma questão de tudo ou nada,

pegar ou largar, aferrar-se ao projeto ou declará-lo “causa perdida” — é já indicativa do caminho escolhido. Ver também o “acerto de contas” com o

marxismo clássico em Habermas, Toward a rational society, p. 119. “o padrão médio de homem”: Trostky, Literatura e revolução, p. 216. “Todo enaltecimento da civilização”: Mill, Nature, pp. 15 e 32.

“É melhor ser um ser humano insatisfeito”: Mill, Utilitarianism, p. 14. A escolha dos termos da comparação não foi gratuita: no livro 2 da República,

Sócrates descreve o modo de vida na “cidade dos porcos” (372d, p. 59).

“Não há nada na constituição”: Mill, Works, vol. 10, p. 15.

“o poder da educação é quase ilimitado”: Mill, Utility of religion, p. 53. era celibatário e provavelmente morreu virgem : Como observa Peter Gay, com base em cartas e testemunhos do próprio casal, “seu casamento [de Mill]

com Harriet Taylor, construído sobre uma base de invariável admiração mútua, de um companheirismo intelectual exaustivo e da adoração abjeta que o

marido sentia pelos talentos da mulher, era muito provavelmente uma coabitação casta de dois companheiros inválidos” (Paixão terna, p. 110). Sobre o

affair Mill-Harriet ver também Ryan, J. S. Mill, p. 49. Nos seus Princípios de economia política, Mill chegou a prever que o interesse pelo sexo

declinaria com a emancipação feminina: “É pela dedicação de metade da espécie humana [mulheres] àquela função exclusiva [procriação] [...] que o

instinto animal em questão foi elevado à dominância desproporcional que ele até aqui exerceu na vida humana” (livro 5, capítulo 7, § 3, pp. 125-6).

Curiosamente, Freud também previa o declínio do interesse humano por sexo como fonte de felicidade no desenrolar do processo civilizatório (ver Mal-

estar na civilização, p. 64). Como observou sem rodeios Baudelaire: “Só o bruto trepa bem: a trepada é o lirismo do povo” (Meu coração a nu, p. 545). medo de transpirar : Conforme relata o pastor Wasianski, que assistiu o filósofo na velhice: “Kant jamais transpirava, fosse dia ou noite. [...] No auge do

verão ele usava roupas leves e invariavelmente vestia meias de seda; ainda assim, como isso nem sempre garantia evitar a transpiração enquanto fazia

algum exercício, ele possuía um remédio peculiar de reserva. Refugiava-se em algum lugar na sombra e lá permanecia imóvel, com ar de uma pessoa

escutando ou em suspense, até que a aridez habitual fosse restaurada. Até mesmo na mais ardente noite de verão, se o menor traço de suor umedecesse o

seu pijama, ele se referia a isso com ênfase, como se fosse um acidente que o tivesse perfeitamente chocado” (The last days of Kant, pp. 118-9). O

confronto entre a perspectiva do filósofo (amigo da sabedoria e da virtude) e a do homem comum (amigo dos prazeres mundanos) foi magistralmente

elaborado por Diderot no diálogo O sobrinho de Rameau.

“o doce sentimento da existência”: Rousseau, “Letter to Voltaire”, p. 235. SEGUNDO ENCONTRO: INDICADORES OBJETIVOS E SUBJETIVOS DE BEM-ESTAR

O que os materialistas libertinos do século xviii intuíam: Ver La Mettrie, Machine man, pp. 35-7. O papel do orgasmo feminino na fecundação foi

examinado pelo biólogo Randy Thornhill da Universidade do Novo México nos Estados Unidos. Desde que ocorra no intervalo entre um e 45 minutos

depois da ejaculação masculina, o orgasmo da mulher tende a aumentar significativamente a retenção de espermas e a probabilidade de fecundação. Daí

a curiosa freqüência, suspeitam os pesquisadores, com que as mulheres engravidam ao cometerem atos, ainda que esporádicos, de adultério (“Doing

what comes naturally”, Economist, 23/12/1996, p. 103).

“o prazer aperfeiçoa a atividade”: Aristóteles, Ética, 1176a, p. 260. “não há mendigo que eu não inveje”: Álvaro de Campos, “Tabacaria” (Fernando Pessoa, Obra poética, p. 365). “Há várias décadas”: Kahneman, Diener e Schwarz, “Preface”, p. X. Avaliando o peso relativo de fatores externos (eventos e circunstâncias) e internos

(temperamento e cognição) na determinação do bem-estar subjetivo, Diener e sua equipe concluem que a mais importante contribuição dos últimos trinta

anos de pesquisa “é o entendimento de que os fatores externos são com freqüência responsáveis por uma parte apenas diminuta da variação de bem-estar

subjetivo” (“Subjective well-being”, p. 286). Conclusão análoga foi formulada por Erik Allardt, pesquisador da Universidade de Helsinki, na Finlândia,

ao avaliar os resultados das extensivas pesquisas sobre bem-estar conduzidas nos países escandinavos nas últimas décadas: “Na maioria dos estudos [...]

a relação entre as condições objetivas e as percepções ou atitudes subjetivas parece ser surpreendentemente fraca” (“Having, loving, being”, p. 92). Décadas de forte crescimento : Os resultados empíricos sobre a relação entre crescimento econômico, renda pessoal e felicidade relatada são apresentados

e analisados em: Frey e Stutzer, Happiness and economics, pp. 9, 73-7; Oswald, “Happiness and economic performance”, pp. 1817-23; Diener et al.,

“Subjective well-being”, p. 287; Argyle, “Causes and correlates of happiness”, pp. 356-8; Inglehart, “The diminishing utility of economic growth”, pp.

516-21; Graham e Pettinato, Happiness and hardship, pp. 3, 16-24; e Wright, “Will globalization make you happy?”. Ver também o estudo pioneiro e

ainda atual de Tibor Scitovski, Joyless economy, capítulo 7 (“Income and happiness”). Os desempregados : Ver: Oswald, “Happiness and economic performance”, pp. 1825-8; e Argyle, “Causes and correlates of happiness”, p. 353. As

evidências sobre suicídio e parassuicídio são a base da conclusão de Oswald de que “o desemprego parece ser a principal fonte econômica de

infelicidade” (p. 1828).

Uma pesquisa de opinião: A pesquisa foi encomendada pela revista britânica The Economist e realizada pelo Instituto Angus Reid; a tabela com os

resultados foi publicada no artigo “Granny knew best, maybe”, 9/10/1999, p. 52.

Um estudo clássico: Brickman, Coates e Janoff-Bulman, “Lottery winners and accident victims: is happiness relative?”. Os resultados desse artigo são

discutidos por: Diener et al., “Subjective well-being”, p. 285; Loewenstein e Schkade, “Wouldn’t it be nice?”, pp. 89-90; Rabin, “Psychology and

economics”, p. 41; Frey e Stutzer, Happiness and economics, pp. 6 e 23; Kahneman, “Objective happiness”, p. 13; e Dalai-Lama e Cutler, Art of

happiness, p. 21.

Existe um forte vínculo: Diener, “Subjective well-being”, p. 287.

pursuit of happiness: A expressão pursuit of happiness (busca da felicidade) foi utilizada por Thomas Jefferson na Declaração de Independência norte-

americana de 1776. Ela define o que seria um direito inalienável do cidadão. Como observa Albert Hirschman, “[Jefferson] tinha em mente a felicidade

pública, ou seja, um desempenho da economia e da sociedade que seja satisfatório para os seus membros. Da mesma forma, na Itália e na França, no

século XVIII, felicitá pubblica e bonheur public eram conceitos usuais, denotando o bem-estar da comunidade. Para dar um único exemplo, Turgot usou

a expressão ‘la science du bonheur public’ (a ciência da felicidade pública) para se referir ao ramo do saber que estava se tornando conhecido como

economia política” (Shifting involvements, p. 122).

“e todas as transações monetárias”: Fisher, Theory of interest, pp. 4-5. Fisher compara a mente humana a um aparelho de rádio: “O sistema nervoso

humano é, como um rádio, um grande instrumento receptor. Nossos cérebros servem para transformar os eventos externos que nos acontecem, e que

estimulam o sistema nervoso, no fluxo da vida psíquica” (p. 4). A origem da expressão “renda psíquica” é atribuída por Schumpeter ao economista

Frank Fetter (ver History of economic analysis, pp. 874 e 898n).

não se deve esperar mais precisão: Aristóteles, ao introduzir a sua ética, alerta: “A marca de uma pessoa educada é buscar tanta precisão em cada classe de

coisas quanto a natureza do assunto permite” (Ética, 1094b, p. 3). “Pergunte-se a si próprio”: Mill, Autobiography, p. 118. Sobre o “paradoxo do hedonismo” e a estratégia de não mirar diretamente a felicidade como a

melhor maneira de alcançá-la, ver: Parfit, Reasons and persons, p. 6; Singer, How are we to live?, p. 253; e Pinker, Como a mente funciona, p. 414. “por que é que, para ser feliz”: Fernando Pessoa, Obra poética, p. 560. Há um trabalho magnífico: Schwarz e Strack, “Reports of subjective well-being: judgmental processes and their methodological implications”. O exemplo

dado no texto é uma variação do que aparece no artigo (p. 63).

testes de validação: Os testes incluem medidas de confiabilidade, validade e consistência. Um bom resumo da literatura em defesa do uso dessa

metodologia está em: Frey e Stutzer, Happiness and economics, pp. 30-6; Frank, “The frame of reference as a public good”, p. 1833; e Diener, Oishi e

Suh, “National differences in subjective well-being”, pp. 434-9.

“hedonômetro”: Edgeworth, Mathematical psychics, p. 8. Ao sustentar a proposta, Edgeworth observou: “Átomos de prazer não são fáceis de distinguir e

discernir; mais contínuos do que areia e mais discretos do que o líquido, é como se fossem núcleos de algo que quase foge à percepção, imersos no

ambiente circundante da semiconsciência [...] pelo menos a concepção do Homem como uma máquina de prazer [pleasure machine] poderá justificar e

facilitar o emprego de termos da mecânica e raciocínio matemático na ciência social” (p. 15). “Chegará o tempo”: Sêneca, citado por Dodds, “Ancient concept of progress”, p. 23. “A visão científica da vida”: Knight, “The limitations of scientific method in economics”, p. 1. A inscrição do templo de Apolo: A autoria da inscrição “conheça-se a si mesmo” é atribuída aos “sete sábios” gregos: um grupo de legisladores, estadistas e

pensadores de toda a Grécia que viveu no período de 620 a 550 a. C. e que era admirado pelo seu bom senso e sabedoria prática, principalmente na

criação de leis (Sólon de Atenas, Tales de Mileto, Pítaco de Metilene, Cleobolo de Lindos, Chilon de Esparta, Míson de Chenae e Bias de Priene). É o

próprio Sócrates quem, segundo Platão, afirma: “[...] cada um [dos sete sábios] é autor de dizeres breves e memoráveis. E não apenas isso, mas eles se

juntaram para fazer uma oferenda a Apolo, no seu templo em Delfos, dos frutos de sua sabedoria, e lá inscreveram aquelas máximas familiares,

‘Conheça-se a si mesmo’ e ‘Nada em excesso’ [...] tal era a forma de expressão da sabedoria dos tempos antigos” (Platão, Protágoras, 343b-c, p. 36). “Em comparação com 1957”: Citado por Argyle, “Causes and correlates of happiness”, p. 357; e Pinker, Como a mente funciona, p. 413. A explicação não é minha: Ver Frank, “The frame of reference as a public good”, pp. 1832-47. Entretanto, como será apresentado a seguir, os elementos

básicos da hipótese da renda relativa e da noção de bens posicionais já estavam contidos na obra de Adam Smith. Em Joyless economy (primeira parte),

Scitovski desenvolve uma explicação complementar à hipótese da renda relativa (p. 135), a partir do contraste entre a demanda humana por “segurança”

e “conforto”, de um lado, e por “estímulo” e “novidade”, de outro. A afluência material, ele sugere, é capaz de atender às demandas associadas ao

primeiro par de necessidades, mas ao custo de frustrar e reduzir progressivamente as chances de satisfazer o segundo. A demanda por — e a conseqüente

presença maciça de — cenas de sexo e violência no cinema e na mídia em geral seria sintoma desse fenômeno. Primeiro, o óbvio: Ver Diener et al., “Subjective well-being”, p. 285. bens posicionais: O termo, embora não o conceito, foi introduzido por Hirsch em Social limits to growth. “Para a maior parte das pessoas ricas”: Adam Smith, Wealth of nations, p. 190. “a exibir nossas riquezas”: Adam Smith, Theory of moral sentiments, p. 50. preceito do Buda: Adaptado de Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 607, p. 290. Com nove de cada dez mulheres: Ver Casanova, Memoirs, passim. “Quando surgiu a propriedade e o ouro foi descoberto”, observa o poeta latino Lucrécio,

“a força e a beleza perderam muito do seu brilho. Pois não importa quão belos ou fortes sejam os homens, eles em geral seguem atrás do mais rico” (De

rerum natura, livro 5, linhas 1114-7, p. 223).

“Só me interessam as posses”: Petrônio, Satyricon, p. 68. No diálogo satírico Saturnália, o poeta Luciano (século II d. C.) alerta os pobres de sua época

por meio do rei Cronus: “Mas de um modo geral vocês que são pobres precisam se dar conta de que vocês têm sido enganados e têm uma visão falsa dos

ricos. Vocês pensam que eles são inteiramente felizes e que só eles vivem uma existência prazerosa, uma vez que podem desfrutar de jantares finos,

embriagar-se de vinhos suaves, associar-se a belos jovens e mulheres e vestir roupas macias. Vocês não têm a menor idéia do que seja a verdade [...] De

fato, a maior parte das coisas, sem dúvida, vocês [pobres] descobrirão que eles [ricos] adquirem por causa de vocês, não porque eles próprios precisem,

mas para que vocês admirem” (pp. 125 e 129). Na mesma linha de raciocínio, o economista Partha Dasgupta, da Universidade de Cambridge, recorda

sobre o seu pai: “Ele sentia que se os pobres da Índia parassem de admirar os ricos e passassem a zombar de seu consumo conspícuo, os ricos ficariam

embaraçados e fariam algo mais digno com a sua riqueza pessoal” (Inquiry into well-being and destitution, p. vi). “por um lugar de honra”: Malebranche, The search after truth, p. 290. David Hume, assim como seu amigo Adam Smith, destaca a força do poder e da

riqueza na competição pelo afeto alheio: “Nada possui maior tendência a nos fazer estimar alguma pessoa do que o seu poder e riqueza; ou a desprezá-la,

do que a sua pobreza e baixa condição” (Treatise, p. 357).

corrida armamentista do consumo: A partir da analogia sugerida por Frank, “The frame of reference as a public good”, p. 1841. agenda ético-política pós-moderna: Além do trabalho de Fogel referido no texto (especialmente capítulo 5), ver também: Inglehart, “The diminishing

utility of economic growth”; e Singer, How are we to live?.

vêm se sucedendo com regularidade: Ver, por exemplo, a defesa do “estado estacionário” feita por J. S. Mill em seus Princípios (livro 4, cap. 6); o artigo

de Keynes discutido no terceiro encontro (pp. 131-2); Mishan, The costs of economic growth; o volume especial do periódico Daedalus (1973) em torno

da polêmica crescimento versus não-crescimento no início dos anos 70; e a crônica (prematura) da “queda” do crescimento econômico como valor

social em Arndt, Rise and fall of economic growth. Os movimentos alternados de consumismo e anticonsumismo na cultura americana, durante o século

XX, foram descritos de forma detalhada por Gary Cross em An all-consuming century. “Em conseqüência da cobiça”: Horácio, Satires, livro 1.i, pp. 42-3. Em outra passagem, o poeta indaga: “Se nenhuma quantidade de água conseguisse

matar sua sede, você consultaria um médico. O que dizer do fato de que quanto mais você possui, mais você quer? Não seria o caso de buscar

aconselhamento?” (Epistles, livro 2.ii, p. 187).

“Por que não deveríamos”: Keynes, “Clissold”, p. 354.

“o tumulto inconsciente”: Fernando Pessoa, Obra poética, p. 703.

Nos países ricos : Todos os dados sobre renda per capita e emissão de poluentes no mundo apresentados por Leila têm como fonte o artigo de Martin Wolf,

“The view from the limousine”. A comparação entre o índice Gini de distribuição de renda dentro dos diferentes países e entre os países do mundo foi

feita por Fogel em Fourth great awakening, p. 225.

“a pobreza resulta”: Platão, Leis (livro 5, 736), citado por Bonar, Philosophy and political economy, p. 14. “o mero existir é um prazer”: Ao comentar sobre a qualidade de vida nos países tropicais menos desenvolvidos, Mill observou: “A vida humana nessas

nações pode ser mantida com tão pouco que os pobres raramente sofrem de ansiedade, e nos climas onde o mero existir é um prazer, o luxo que eles

preferem é o do repouso” (Works, vol. 2, p. 102).

“naquilo que constitui a verdadeira felicidade”: Adam Smith, Theory of moral sentiments, p. 185. Para Smith, observa James Bonar, “a diferença de

felicidade entre os homens é muito menor do que aquela de renda e fortuna [...] Os homens lutam pela riqueza em grande medida por uma visão ilusória

dos prazeres que obterão com ela” (Philosophy and political economy, pp. 170-2). Como resume Donald Winch, “o ceticismo de Smith com relação às

satisfações materiais é uma característica central da Teoria dos sentimentos morais e não está de modo algum ausente na Riqueza das nações. A partir

da satisfação de certas ‘necessidades e conveniências do corpo’, Smith sustentava que a busca de benefícios materiais era em larga medida enganosa

para os indivíduos envolvidos [...] Mas Smith reconhecia que essa ilusão, embora oriunda de uma corrupção dos nossos sentimentos morais, era

importante para a sociedade porque ela ‘despertava e mantinha em constante movimento a diligência humana’” (Adam Smith’s politics, p. 91). Como

observa Viner, para Smith “a busca da riqueza e do poder é um engano por parte de quem a persegue; o sucesso não traz real felicidade” (Role of

providence, p. 102). A posição de Smith acerca da felicidade guarda forte semelhança com a defendida por seu companheiro no iluminismo escocês,

Hugh Blair, no sermão “On the proper estimate of human life” (especialmente p. 192). Para uma perspectiva contemporânea da felicidade, inspirada

basicamente na filosofia moral de Adam Smith, ver o ensaio de Griswold Jr., “Happiness, tranquility, and philosophy”. “Adam Smith seria a última pessoa”: Marshall, Industry and trade, p. 731. duas situações hipotéticas: Adaptado de um exemplo análogo oferecido em Elster e Roemer, “Introduction”, pp. 7-8. “a posse perpétua da condição”: Swift, A tale of a tube, p. 110. No estilo peculiar e inigualável do autor de Gulliver: “This is the sublime and refined point

of felicity, called, a perpetual possession of being well deceived; the serene peaceful state of being a fool among knaves”. Entre os adeptos da tese de

que a felicidade humana assenta em bases não-racionais está o ensaísta francês setecentista Bernard de Fontenelle: “[...] se existe alguma forma de

felicidade pela qual a razão é responsável, ela é como aquele tipo de ‘boa’ saúde que depende inteiramente de algum remédio — nunca será robusta ou

estável” (Nouveaux dialogues des morts, “Mary Stuart et Rizzio”, p. 155). Ver também Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 251, p. 173, e

Daybreak, § 429, p. 184.

“Quando os deuses querem nos punir”: Oscar Wilde, An ideal husband, citado em Ainslie, Picoeconomics, p. xi. “Existem poucas coisas”: La Rochefoucauld, Maxims, § 439, p. 93.

A esperança média de vida ao nascer : Os dados deste parágrafo têm como fonte o trabalho de Angus Maddison, World economy. “a felicidade existe somente na imaginação”: Mozart, Man and artist, p. 80. A afirmação consta de uma carta do compositor (29/11/ 1777) na qual ele

busca se justificar perante o pai, que o repreendera por não possuir um emprego regular e por seus gastos excessivos. TERCEIRO ENCONTRO: A DOMESTICAÇÃO DO ANIMAL HUMANO

“A felicidade entre os homens”: Heródoto, Persian wars, livro 1, p. 5. A presença recorrente do par hybris e nemesis em diversas dimensões da cultura

grega (religião, poesia, filosofia e historiografia) foi examinada pelo psicólogo e historiador de idéias italiano Luigi Zoja em Growth and guilt. permuta civilizatória: a noção de permuta nesse contexto é aquela denotada pelo termo inglês trade-off, ou seja, a idéia de que a obtenção de alguma coisa

valiosa numa dada dimensão implica o sacrifício de outra coisa, também valiosa, em outra dimensão; a noção de trade-off, que não possui um

equivalente exato em português, significa que a relação entre o valor pretendido e o sacrificado é direta e inescapável. “Eu lhe garanto, Senhor”: Shakespeare, The tempest, ato 4, cena 1, linhas 54-6, p. 96. A promessa de Ferdinand de não se aproximar fisicamente de

Miranda contrasta vivamente com a atitude de Caliban que, como transparece no início da peça, teria traído a confiança de Próspero ao tentar

supostamente “violentar” a jovem enquanto dormiam juntos na mesma gruta. Segundo Frank Kermode, editor da peça na insuperável coleção Arden, “o

nome Caliban é usualmente tomado como um desenvolvimento de alguma forma da palavra ‘Carib’, significando um habitante selvagem do Novo

Mundo; ‘canibal’ deriva disso, e ‘Caliban’ é possivelmente um anagrama daquela palavra. Mas embora ligado desse modo ao índio selvagem, ele

também está associado ao homem nativo e selvagem da Europa, ou seja, àquele que era anteriormente a imagem mais familiar de uma humanidade sem

o ordenamento da civilidade” (pp. xxxviii-xxxix). O selvagem vil, turbulento e depravado de Shakespeare em The tempest pode ser visto como o avesso

moral do selvagem íntegro e feliz de Montaigne no ensaio “Dos canibais” (ver p. 202 abaixo). Além de sexo e bebidas, Caliban é apaixonado por

música.

“O que é ganho do lado da inteligência”: La Mettrie, Machine man, p. 10. No mundo grego, assinala Zoja, “a pessoa mais persuadida de que a inteligência

minava a capacidade de sentimento do coração foi talvez Eurípides” (Growth and guilt, p. 120). “Querem saber a história abreviada”: Diderot, Supplément au Voyage du Bougainville, citado por Willey, Eighteenth-century background, p. 14. Nesta

obra, Diderot se utiliza do relato de um explorador francês, Louis Antoine de Bougainville, que havia publicado pouco antes as suas observações de

viagem sobre os habitantes nativos do Taiti, para qualificar as idealizações de seu amigo Rousseau sobre o bon sauvage. Em “Histoire des deux indes”,

Diderot aborda a conduta dos europeus colonizadores nos trópicos e retrata de forma memorável a reviravolta na “guerra civil” entre o homem artificial

e o homem natural: “Além do Equador um homem não é inglês, holandês, francês, espanhol ou português. Ele se apega somente àqueles princípios e

preconceitos de seu país de origem que justificam ou servem de desculpa à sua conduta. Ele rasteja quando está fraco; ele é violento quando forte; ele

tem pressa para adquirir, pressa para desfrutar, e é capaz de todo crime que o conduza mais rapidamente a seus objetivos. Ele é um tigre doméstico

retornando à selva; a sede de sangue toma conta dele outra vez. É assim que todos os europeus, cada um deles indistintamente, têm se mostrado nos

países do Novo Mundo. Um delírio coletivo toma conta deles — a sede de ouro” (p. 178).

prece rousseauniana: Rousseau, Discourse, p. 26. Sobre as origens e a ascensão do movimento romântico na filosofia e nas artes e sobre o papel de

Rousseau no movimento, ver Berlin, Roots of romanticism, especialmente capítulos 2 e 3. “Nossa ascendência”: Darwin, Early writings, p. 29. Ou como ele havia escrito no mesmo caderno de trabalho: “Quem compreender o macaco fará mais

pela metafísica do que Locke” (p. 21).

“o animal selvagem”: Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 614, p. 294. É difícil não detectar aqui um eco do “educador” do jovem Nietzsche, Arthur

Schopenhauer: “O homem no fundo é um animal selvagem e terrível” (“Parerga”, § 114, p. 101). Natura non facit saltum: “A natureza não dá saltos”. O princípio da continuidade apareceu originalmente nos tratados biológicos de Aristóteles e foi

retomado por Darwin, que se refere a ele nada menos que quatro vezes, em latim, em sua obra principal (Origin, pp. 194, 206, 460 e 471). “fizeram com que todos aqueles instintos”: Nietzsche, Genealogia, segunda dissertação, § 16, p. 73. “Esse homem que”: Ibid., p. 73. Ver também: Humano, demasiado humano, § 2: “Mas tudo o que é essencial na evolução humana se realizou em tempos

primitivos, antes desses 4 mil anos que conhecemos aproximadamente; nestes o homem já não deve ter se alterado muito” (p. 16); Daybreak, § 429:

“Não nos enganemos: os bárbaros de todas as épocas eram mais felizes” (p. 184); e Gaia ciência, § 357: “Isso que denominamos consciência constitui

apenas um estado do nosso mundo espiritual e psíquico (talvez um estado doentio) e de modo algum ele próprio” (p. 254). “Se a civilização impõe sacrifícios”: Freud, Mal-estar na civilização, p. 74. A atitude de Freud em relação ao seu grande predecessor é intrigante. Foi

depois de ouvir Eduard Hitschmann ler algumas passagens da Genealogia, numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 1908, que Freud

declarou a respeito de Nietzsche: “Ele possuía um conhecimento mais penetrante de si mesmo do que qualquer outro homem que tenha vivido ou que

provavelmente viverá” (Minutas da Sociedade Psicanalítica de Viena (1908) citadas por Jones, Life and work, vol. 2, p. 385). Mas são no mínimo

estranhas as razões-desculpas oferecidas por Freud, em diferentes momentos de sua vida, para o fato de (supostamente) jamais ter lido e estudado as

obras reunidas de Nietzsche que ele adquiriu ainda jovem: primeiro (1900) foi a “preguiça”; depois (1908) a alegação de que não estava disposto a ser

desviado de seu “trabalho sério” por “um excesso de interesse” (!); e, por fim (1931), “deixei de lado o estudo de Nietzsche, embora — ou melhor,

porque — estivesse claro que eu encontraria nele percepções muito semelhantes às psicanalíticas” (Gay, Freud, p. 58). O paradoxo é evidente: se Freud

jamais se deu ao trabalho de ler e estudar Nietzsche — e isso apesar das repetidas sugestões (por exemplo de Carl Jung) para que o fizesse —, como

podia estar “claro” para ele que lá “encontraria” suas próprias descobertas? Seja como for, o fato incontornável é que Freud jamais deu a menor sombra

de reconhecimento público do seu enorme débito intelectual com relação a Nietzsche.

“Sísifo feliz”: Camus, Mito de Sísifo, p. 152.

“solitária, pobre, imunda”: Hobbes, Leviathan, p. 82.

voice/exit: O protesto (voz) ou o abandono (saída), por meio de fuga ou emigração, como estratégias alternativas de reação a uma situação percebida como

adversa; a fórmula foi sugerida originalmente por Albert Hirschman.

“ignorância feliz”: Rousseau, Discourse, p. 14. Sobre a idéia de que a civilização era um erro ou equívoco, ver Bury, Idea of progress, capítulo 9. raízes profundas na filosofia grega e romana: As origens, variações e percalços do primitivismo no mundo clássico foram exaustivamente mapeadas por

Lovejoy e Boas em Primitivism and related ideas in Antiquity. A idealização do homem primitivo e a noção do “bom selvagem” têm raízes na Teogonia

de Hesíodo e na filosofia política platônica (ver Dodds, “Ancient concept of progress”).

“Naquele tempo, era a fome”: Lucrécio, De rerum natura, linhas 1006-10, p. 219. “os nossos pensamentos são nossos”: Shakespeare, Hamlet, ato 3, cena 2, linha 208, p. 300. “a capacidade para o prazer”: Edgeworth, Mathematical psychics, p. 77. “às vezes é preferível ”: Frase atribuída a Keynes.

comportamento animal : Os dois exemplos a seguir foram extraídos de Singer, How are we to live?, pp. 235-6. “quando as necessidades prementes”: A passagem ocorre na Metafísica (928b) de Aristóteles e foi citada ou parafraseada por Hegel, entre outros, em pelo

menos três oportunidades (ver, por exemplo, Philosophy of history, p. 80). Segundo estimativas das Nações Unidas : Os valores foram estimados pela Agência de Controle de Entorpecentes e Prevenção do Crime da ONU (ver

Davenport-Hines, The pursuit of oblivion, p. 9, e o estudo especial da Economist, “High time: a survey of illegal drugs”, p. 3). “No mundo antigo”: Freud, “Acquisition of fire”, p. 189. O fato de o fígado, no mito prometéico, ser devorado e renovado todos os dias, assinala Freud,

“dá-nos uma imagem apta da atuação dos desejos eróticos os quais, ainda que diariamente saciados, todos os dias se renovam” (p. 190). Em Society and

nature (pp. 123-8), Hans Kelsen reconstrói a ramificada genealogia de mitos pré-modernos em torno da temática da conquista do fogo e da origem da

cultura.

“Os seguidores de Epimeteu”: Bacon, “Prometheus, or the state of man”, pp. 253-4. “a gratificação ulterior de um desejo pré-histórico”: Freud, citado por Norman Brown, Life against death, p. 254. Sobre a relação entre dinheiro e

felicidade, Schopenhauer afirma: “O dinheiro é a felicidade humana in abstracto; conseqüentemente, aquele que não é mais capaz da felicidade in

concreto coloca todo o seu coração no dinheiro” (Essays, p. 170). “referiam-se aos mexicanos”: Russell, Human society in ethics and politics, p. 55. “a alegria é a prova dos nove”: Oswald de Andrade, “Manifesto antropófago”, p. 18. O “canibal ” de Montaigne: No ensaio “Dos canibais”, baseado em relatos de viajantes europeus sobre os tupis sul-americanos, Montaigne contrasta a

felicidade dos índios com a corrupção dos civilizados europeus: “Passam o dia a dançar; os jovens vão à caça de animais grandes contra os quais

empregam o arco unicamente. Enquanto isso, uma parte das mulheres diverte-se com preparar a bebida, o que constitui sua principal ocupação [...] Não

entram em conflito a fim de conquistar novos territórios, porquanto gozam ainda de uma abundância natural que sem trabalhos nem fadigas lhes fornece

tudo de que necessitam [...] Têm ademais a felicidade de limitar seus desejos ao que exige a satisfação de suas necessidades naturais, tudo o que as

excede lhes parecendo supérfluo” (pp. 107-8). O personagem Caliban de The tempest é a negação viva dessa imagem. É praticamente certo que

Shakespeare leu o ensaio de Montaigne na tradução inglesa de John Florio, publicada em 1603. “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil”: Oswald de Andrade, “Manifesto antropófago”, p. 18. “São inúmeros aqui os exemplos”: Goethe, Viagem à Itália, p. 239.

“Acima de tudo, é o que me parece”: Goethe, Faust, primeira parte, linhas 2158-67. “Como um cientista”: Embora acredite que tenha matado a charada de identificar o autor do texto que lhe foi remetido pelo amigo, Melo não foi capaz de

localizar a fonte do depoimento de Robin Horton nele contido.

ruas do outono londrino: A experiência de Alex evoca os versos de William Blake em “London”: “Vagueio por cada rua mapeada,/ Perto do Tâmisa e sua

correnteza,/ E noto em cada face encontrada/ Marcas de pesar, marcas de fraqueza” (Complete poems, p. 128). “alma infantil ” do escravo: Joaquim Nabuco, Minha formação, p. 163. O CD chama-se Noites do norte. Ao defender a tese de que a escravidão no Brasil

“não azedou nunca a alma do escravo”, nem suscitou “o ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos”, Nabuco citou um trecho

do discurso feito pelo historiador inglês Thomas Macaulay, na Câmara dos Comuns, em 1845: “Eu não julgo improvável que a população preta do Brasil

seja livre e feliz dentro de oitenta ou cem anos. Não vejo porém perspectiva razoável de igual mudança nos Estados Unidos” (“O abolicionismo”, p.

114).

“Creio que há um limite na civilização”: Diderot, citado por Bury em Idea of progress, p. 184. A idéia de um equilíbrio que não “mutile” o caráter e

respeite os limites da natureza humana reaparece, defendida pelo homem comum (o sobrinho de Rameau do título da obra), em Diderot, Rameau’s

nephew, pp. 68-70.

“não se pode sustentar”: Knight, Ethics of competition, p. 24.

“Serão os povos”: Keynes, “Economic possibilities for our grandchildren”, p. 368. Um pequeno parêntese aberto por Nietzsche em A gaia ciência, § 21,

parece ter sido especialmente talhado com o intuito de antecipar ironicamente, com meio século de antecedência, o ensaio de Keynes: “A mais diligente

das épocas — a nossa — não sabe o que fazer com sua diligência e seu dinheiro, exceto cada vez mais dinheiro e mais diligência: é preciso mais gênio

para gastar do que para adquirir! — Bem, nós teremos os nossos ‘netos’!” (p. 71).

Cada cultura, em suma, incorpora um sonho: A idéia de que “cada nação tem em si mesma o seu centro de felicidade, assim como cada esfera o seu centro

de gravidade” e de que, portanto, é sempre enganoso tentar alinhá-las num mesmo eixo histórico, seja em termos de felicidade ou de grau de civilização

alcançado, foi defendida no final do século XVIII pelo filósofo alemão Herder, em amarga polêmica com Kant (ver Passmore, Perfectibility, pp. 221-8). Nada se revelou mais devastador : Adaptado de uma resposta de Isaiah Berlin em Conversations, p. 47. A tevê a cabo chegou ao Butão: Conforme relato do jornalista Orville Schell em “Gross national happiness”. O título do artigo faz referência à declaração

do rei do Butão de que “a felicidade nacional bruta é mais importante que o produto nacional bruto”, tendo em vista que “a felicidade tem precedência

sobre a prosperidade em nosso processo de desenvolvimento” (p. 54).

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos: O trabalho foi coordenado pelo sociólogo americano Robert Wuthnow, da Universidade de Princeton, e os

resultados discutidos em “A good life and a good society: the debate over materialism” (pp.1-21). “in God we trust”: A inscrição foi inicialmente gravada em algumas moedas americanas em 1864 e tornou-se obrigatória para todas as notas e moedas

daquele país a partir de 1955.

As pesquisas mostram: Ver Graham e Pettinato, Happiness and hardship, p. 24. “Você pode expelir a natureza”: Horácio, Epistles, livro 1.x, p. 150. Para uma analogia (ainda que um pouco distinta da oferecida por Leila no texto de

abertura) entre o que seriam no fundo duas modalidades relacionadas de poluição, ou seja, a do ambiente externo/físico e a do interno/psicossocial, ver a

nota da p. 210 (“a única lei que os narcotraficantes não violam”) abaixo.

QUARTO ENCONTRO: A PÍLULA DA FELICIDADE INSTANTÂNEA

“Eu penso que poderia volver”: Whitman, “Song of myself”, linhas 685-92, pp. 94-5. A passagem foi utilizada como epígrafe por Bertrand Russell em

Conquest of happiness. Sobre as origens e variações da tese da superioridade dos animais em relação ao homem no pensamento greco-romano, ver

Lovejoy e Boas, Primitivism, capítulo 13. No mundo moderno, a tese ganhou força com a ascensão do movimento romântico — “o sinal da saúde é a

inconsciência, a verdadeira força é inconsciente”, pregava Thomas Carlyle —, mas não ficou restrita a ele. O jovem Nietzsche, por exemplo, abre a sua

meditação extemporânea sobre os males do excesso de memória e da hiperconsciência histórica contemplando a suposta felicidade dos animais: “Se a

felicidade, se a busca por uma nova felicidade é, em qualquer sentido, o que amarra as criaturas vivas à vida e as faz continuar vivendo, então nenhum

filósofo talvez esteja mais jusificado que o cínico, pois a felicidade do animal, como um perfeito cínico, é a prova viva da correção da filosofia cínica”

(Untimely meditations, p. 61; a idéia da felicidade animal reaparece em Gaia ciência, § 224, pp. 176-7). Norman Brown, um dos principais gurus da

contracultura dos anos 60, foi mais longe ainda ao propor um “novo misticismo” que buscasse encontrar “uma saída da neurose humana, rumo àquela

saúde simples que os animais desfrutam, mas o homem não” (Life against death, p. 311). uma “viagem” cotidiana : O psiquiatra americano Allan Hobson, professor da Harvard Medical School, sugere a existência de um estreito paralelo entre o

efeito bioquímico de certas drogas alucinógenas, como o LSD, e o que ocorre naturalmente no cérebro humano durante a chamada fase REM (“rapid eye

movement”) do sono, ou seja, aquela em que ocorre a experiência alucinatória do sonho: “O sonhar, os estados de consciência produzidos por drogas

psicodélicas e o criar artístico não são idênticos [do ponto de vista da bioquímica cerebral], mas são análogos” (p. 285). Daí o sugestivo título de seu

recente livro, The dream drugstore (A farmácia do sonho). A idéia do sonho como janela de acesso aos estratos profundos da mente e ao homem

subterrâneo que nos habita em segredo aparece já em Platão: “Em cada um de nós, mesmo naqueles que parecem mais comedidos, existem desejos

terríveis por seu caráter selvagem e sem leis, e que se deixam revelar pelos sonhos” (Republic, 572b, p. 290). O processo civilizatório modifica o sonhar

humano? Nietzsche sugere que sim. “Nossa imaginação é temperada; mesmo em sonhos não nos acontece o que povos anteriores viam de olhos abertos”

(Humano, demasiado humano, § 236, p. 164).

“a vida é uma doença incurável”: Cowley, citado por Davenport-Hines, Pursuit of oblivion, p. 27. ideograma específico : Conforme Davenport-Hines, Pursuit of oblivion, p. 8. A poção de Helena de Tróia: Ver Erasmo de Rotterdam, Elogio da loucura, p. 5, e Davenport-Hines, Pursuit of oblivion, pp. 8-9. o segredo da “alegria solúvel em sangue”: Atribuído a Francis Bacon, sem indicação de fonte, por: Quincey, Confessions, p. 228, e Davenport-Hines,

Pursuit of oblivion, p. 27 (ver a observação de Melo na p. 153).

“O que hoje está provado”: Blake, “Proverbs of hell”, p. 184.

“Impossível ?”: Citado por Marx em O capital : “A tecnologia moderna pode exclamar com Mirabeau: ‘Impossible! ne me dites jamais ce bête de mot!’”

(p. 547).

levar o usuário a ficar “mais do que bem”: Sobre a evolução recente dos antidepressivos, as frustrações com os resultados até aqui alcançados e a demanda

explosiva por drogas ofensivas (“psicofarmacologia cosmética”), ver Horgan, A mente desconhecida, pp. 144-52. efeito estritamente psíquico: Assim como existem pessoas que têm sensações e sentem dor em membros-fantasma, há casos documentados de indivíduos

que são congenitamente insensitivos à dor. Um dos graves problemas dessa síndrome é que o sujeito fica privado do mecanismo de defesa

comportamental acionado pela sensação de dor ou desconforto. Assim, por exemplo, ao colocar a mão no fogo ele não se dá conta do dano que isso

provoca ao tecido celular e sofre queimaduras de elevado grau. No artigo “Is pain necessary?”, o filósofo Roland Puccetti aborda esses casos e analisa, à

luz de diferentes teorias acerca da relação cérebro-mente, a possibilidade de alguém ter reações defensivas análogas às acionadas pelo mecanismo da

dor, mas sem a experiência subjetiva da dor. Embora logicamente concebível, ele argumenta, trata-se de uma possibilidade distante da nossa experiência

e da realidade comum da vida. Na conjectura da pílula, o indivíduo preserva integralmente os mecanismos de defesa do organismo associados ao circuito

da dor. A exuberância do seu bem-estar não compromete a sua capacidade de prevenir e reagir adequadamente às ameaças que põem em risco a

integridade do seu organismo.

“a felicidade consiste em querer ser o que se é”: Marcial, Epigramas, citado por Erasmo, Elogio da loucura, p. 21. Ou como dirá Antonio Cicero na

expressão feliz do poema “Felicidade”: “Felicidade é esse acaso que te fez o que és” (Guardar, p. 55). “making myrrh soluble”: Ver p. 205, nota 148 acima.

“a melhor forma de destruir”: Keynes atribuiu essa afirmação a Lênin em Economic consequences of peace, p. 220. “a média das referências modernas”: Relatado por Stigler em Memoirs, p. 214. George Stigler foi aluno de Viner e mais tarde veio a sucedê-lo como

professor de história do pensamento econômico na Universidade de Chicago.

“as discussões entre filósofos”: Koyré, Closed world, p. 246.

lei da utilidade marginal decrescente: Uma lei psicológica de base fisiológica segundo a qual o grau de satisfação proporcionado por um bem ou estímulo

decresce à medida que unidades adicionais dele são aplicadas aos sentidos. A lei das variações da utilidade tornou-se o pilar da teoria econômica do

valor a partir da chamada “revolução marginalista” de 1871 (ver Jevons, Theory of political economy, especialmente o capítulo 3). A observação do

fenômeno remonta a Aristóteles. Por que nada é capaz de proporcionar prazer continuamente? Por que nos enfastiamos com as coisas? A razão, sugere

Aristóteles, é que o prazer depende da atividade que o produz e os homens mortais “são incapazes de atividade contínua”: “Algumas coisas nos deliciam

enquanto são novas, mas depois menos, pela mesma razão; pois de início a mente se encontra estimulada e intensamente ativa, como ficam as pessoas

com relação à visão quando miram algo fixamente; depois, no entanto, a atividade não permanece assim, mas esmorece; por esta razão, o prazer também

se empana” (Ética, 1175a, pp. 256-7). O sofrimento e a dor, porém, em contraste com o prazer, parecem menos sujeitos ao empanamento, como assinala

Freud: “Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue.

Somos feitos de modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas. [...] Já a infelicidade é

muito menos difícil de experimentar” (Mal-estar na civilização, p. 33). cientistas que estudam a neurofisiologia : As informações sobre esta linha de pesquisa e os experimentos descritos a seguir são apresentados e discutidos

por: Hoebel et al., “Neural systems for reinforcement and inhibition of behavior”, pp. 561-3; e Young, Philosophy and the brain, pp. 178-80. não é uma fatalidade inescapável : Essa possibilidade foi aventada por Gunther Stent, biólogo da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em The coming

of the golden age, ele sugere que avanços na neurotecnologia podem tornar realidade o sonho da droga perfeita. O caminho seria “direcionar entradas

elétricas específicas para dentro do nosso cérebro. Então seria possível fazer com que essas entradas gerassem sinteticamente sensações, sentimentos,

emoções [...] Os homens mortais em breve viverão como deuses, sem tristezas no coração e afastados da dor, desde que a instalação elétrica de seus

centros de prazer seja apropriada” (citado em Horgan, O fim da ciência, pp. 235-6). O economista Yew-Kwang Ng, da Universidade Chinesa de Hong

Kong, revela um entusiasmo incontido por essa possibilidade: “Existe uma linha específica de pesquisa que levará a saltos quânticos em nossa felicidade

e que permanece largamente ignorada. Trata-se da estimulação dos centros de prazer no cérebro [...] A estimulação magnética, química e elétrica de

certas áreas do nosso cérebro induz prazer intenso e oblitera a dor física e emocional sem a diminuição da utilidade marginal, na medida em que a

estimulação passa ao largo do sistema nervoso periférico [...] A possibilidade de prazer intenso sem utilidade marginal decrescente abre uma tremenda

avenida para aumentar o nosso bem-estar por meio de um salto quântico” (“A case for happiness”, p. 1849). Pouco antes de morrer, Freud contemplou o

potencial de avanço da psicofarmacologia: “O futuro talvez nos ensine a exercer influência direta [sobre a mente] por meio de substâncias químicas

específicas” (citado em Horgan, A mente desconhecida, p. 144). Ver também Nozick, “Happiness”, p. 107. “experimento mental ”: O emprego da técnica dos experimentos mentais na ciência moderna e na filosofia foi exaustivamente examinado e criticamente

avaliado por Roy Sorensen em Thought experiments. Embora elaborada independentemente, a idéia da pílula da felicidade guarda certa semelhança com

a conjectura de Nozick (“Happiness”, pp. 104-8) de uma máquina à qual pudéssemos nos conectar de modo a obter qualquer experiência (ou seqüência

de experiências) subjetiva que desejássemos vivenciar, sem que para isso fosse necessário viver de fato aquela situação. A diferença crucial, no entanto,

é que no experimento mental de Nozick, em contraste com a pílula, é preciso optar de uma vez por todas, ou seja, para o resto da vida, entre mergulhar

na pseudo-realidade da máquina ou não. A máquina de Nozick é, portanto, um caso particular da pílula — uma situação-limite na qual não há espaço

para o surgimento (ou não) de um novo equilíbrio baseado no uso intermitente da mesma.

Nietzsche dizia: “Nós criticamos um homem ou uma obra da forma mais aguda quando delineamos o seu ideal” (Human, all too human, vol. 2, § 157, p.

248).

“a História não é o palco da felicidade”: Hegel, Philosophy of history, p. 26.

“Se nós pudéssemos deliberadamente”: Minsky, “Self-knowledge is dangerous”, citado por Horgan em O fim da ciência, p. 343, nota 23. “Existem duas tragédias na vida”: Shaw, citado por Hirschman (sem referência à fonte) em Shifting involvements, p. 61. “Um homem que, com uma colher de doce”: Baudelaire, Paraísos artificiais, p. 365. “Cada homem”, ele refletiu, “traz em si a sua dose”: Baudelaire, Pequenos poemas em prosa, p. 297. A luta do poeta para se libertar da dependência às

drogas é narrada por Enid Starkie em Baudelaire, pp. 378-81.

Quem sabe até ele já não foi escrito? : A especulação em torno da existência de uma relação entre criatividade e estados depressivos remonta a Aristóteles,

que em Problemata (livro 30, 953a) indaga: “Por que é que todos aqueles que se tornaram eminentes em filosofia ou política ou poesia ou nas artes são

claramente de um temperamento melancólico, e alguns deles em tamanho grau a ponto de serem afetados por doenças causadas pela bílis negra, como se

diz ter sucedido a Hércules entre os heróis?” (O homem de gênio e a melancolia, p. 81). Os gregos acreditavam que a bílis negra era responsável pelos

humores depressivos (daí a etimologia de melancolia: grego melas: preto + khole : bílis). Ver também o verbete “criatividade” do Oxford companion to

mind, que dá como exemplo a depressão vivida pelo poeta alemão Rainer Maria Rilke em meio à composição de Elegias do Diúno. Após quase uma

década de interrupção da obra, o poeta subitamente se recuperou e escreveu cerca de 1200 versos extremamente polidos e densos em dezoito dias de

trabalho: “A prolongada depressão de Rilke pode ter sido necessária para o extraordinário surto de trabalho não apenas criativo, mas altamente

disciplinado, que se seguiu a ela” (p. 171).

Um dos casos que mais me chamaram a atenção recentemente foi o de Weber: O episódio foi descrito com riqueza de detalhes na biografia escrita pela

esposa do sociólogo, Marianne Weber (Weber, capítulos 8 a 12).

“O desperdício de tempo”: Weber, Protestant ethic, p. 157.

time famine e hurry sickness : Ver o artigo de Richard Tomkins, “Old father time becomes a terror”. Admirável mundo novo: O nome dado por Huxley à droga do contentamento de sua ficção científica não foi gratuito. Soma é o nome de um antigo deus

Veda (“o Baco hindu”) e também de uma bebida fermentada sagrada que teria a propriedade de curar todos os males e conferir vitalidade, coragem na

guerra, inspiração e imortalidade a quem a tomasse; bebê-la permitiria aos homens “sentir a divindade dentro das veias” (ver Dictionary of Non-

Classical Mythology, pp. 161-2). A especulação sobre o uso de drogas como arma de controle político aparece já em Platão. Em Leis, uma obra mais

amarga da maturidade, Platão sugere que uma bebida que, em contraste com o vinho, fosse capaz de provocar medo ou confiança nos cidadãos, mas

sempre de acordo com as necessidades de um sábio legislador, seria recebida como uma dádiva para a arte do bom governo (ver Leis, livro 1, 648-9, pp.

25-7).

“Quando estamos nos degraus mais baixos”: O poema foi usado como epígrafe por Katherine Rich em The red devil. O tema é recorrente na obra de

Dostoievski: “O homem nunca se aproxima tanto de Deus como na extremidade do desespero” (Gide, Dostoevsky, pp. 144 e 150). princípio lockiano da autopropriedade : Como observa Viner, quando Locke afirma que a origem e a principal função do governo civil estão ligadas à

necessidade de resguardar os direitos de propriedade do cidadão, ele tem em mente não só os bens externos que são transacionáveis no mercado, mas —

e principalmente — a propriedade que todo indivíduo tem de sua vida, seu corpo e suas faculdades mentais (ver “Possessive individualism”, pp. 361-70). A “guerra às drogas”: Sobre o fracasso da estratégia da simples repressão policial e as alternativas a essa política, ver: Waal, “To legalize or not to

legalize”; Davenport-Hines, Pursuit of oblivion, especialmente capítulos 13 e 14; e Economist, “High time”, pp. 12-6. De acordo com Waal, “o uso

crescente de substâncias psicoativas que induzem à dependência é uma forma de poluição do ambiente psicossocial que precisa ser combatida da mesma

maneira que a poluição do ambiente físico” (p. 167). Para o economista Tibor Scitovski, “a posteridade poderá julgar as nossas leis sobre narcóticos de

um modo não muito distinto daquele pelo qual julgamos a lei seca norte-americana [Prohibition] hoje em dia” (Joyless economy, p. 217). “a única lei que os narcotraficantes não violam”: Virgilio Barco Vargas, citado por Davenport-Hines, Pursuit of oblivion, p. 338. “O caminho do excesso” e “Você nunca saberá o que é suficiente”: Blake, “Proverbs of hell”, pp. 183 e 184. “quanto mais os homens se erguerem”: Ver a nota da p. 186 (“quanto mais os homens se erguerem”) acima. “os últimos vestígios de sua animalidade”: Engels, Dialectics of nature, p. 19. Sobre as expectativas em relação à natureza humana no socialismo, ver

também: Prenant, Biology and marxism, pp. 44-52; e o capítulo intitulado “A biological foundation for socialism?” em Marcuse, An essay on liberation. “uma preferência marcante”: Mill, Utilitarianism, p. 12.

“Toda emancipação do espírito”: Goethe, Maxims, § 504, p. 67. A posição de Goethe em relação ao uso (moderado) de drogas transparece na seguinte

afirmação: “É uma exigência da natureza que o homem, de vez em quando, se anestesie sem dormir; daí o gosto de fumar tabaco, beber aguardente ou

fumar ópio” (Maxims, § 99, p. 13).

“No amor”, declara o romancista francês Stendhal, Do amor, p. 76.

Ela é uma atividade : O locus classicus da idéia de felicidade como atividade, e não como um estado final, é a Ética (1176-7, pp. 261-2) de Aristóteles.

Como observa Julia Annas, em sua minuciosa análise da concepção aristotélica de felicidade: “A felicidade é, portanto, pensada como ativa em vez de

passiva, como algo que envolve a atividade do agente e que, dessa forma, e de acordo com o senso comum, depende dele. Este tipo de consideração

desqualificaria a riqueza, por exemplo, de partida. A felicidade não pode ser alguma coisa, não importa quão boa, com que alguém o presenteasse. No

mínimo ela envolve o que você faz com a riqueza, o tipo de uso para o qual você a destina” (Morality of happiness, p. 45). Sobre a idéia de felicidade

como atividade, engajamento e busca, ver também: Blair, “On the proper estimate”, p. 192; Paley, Principles, especialmente capítulo 6 (“Human

happiness”), p. 37; Passmore, Perfectibility, p. 48; Singer, How are we to live?, pp. 252-3; Pinker, Como a mente funciona, p. 414; e Fogel, Fourth

great awakening, pp. 204-5.

EPÍLOGO

“A vida que se vive”: Fernando Pessoa, Livro do desassossego, p. 251. “Autores são atores”: Wallace Stevens, Opus posthumous, p. 184.