Felicidade: diálogos sobre o bem-estar na civilização

Quarto Encontro

A pílula da felicidade instantânea*

 

A consciência pesa. Em casos extremos, o tormento da vida ciente de si adquire tal força que o animal humano reflete e

contempla com amarga nostalgia a perda de sua inocência animal. O que nos aconteceu? De onde a sina de um viver cindido e aflito, expectante do inalcançável e à míngua de explicações? Por que não nos é dada a vida simplesmente, a venturosa e plena inconsciência do mero existir? O poeta americano Walt Whitman dá expressão ao sentimento em versos memoráveis:

 

Eu penso que poderia volver e viver com

animais, tão plácidos e autocontidos,

Eu paro e me ponho a observá-los longamente.

Eles não se exaurem e gemem sobre a sua

condição,

Eles não se deitam despertos no escuro e

choram pelos seus pecados,

Eles não me deixam nauseado discutindo o seu

dever perante Deus,

Nenhum deles é insatisfeito, nenhum

enlouquecido pela mania de possuir coisas,

Nenhum se ajoelha para o outro, nem para os que

viveram há milhares de anos,

Nenhum deles é respeitável ou infeliz em todo o

mundo.

 

Ética à parte, o desejo de se livrar do fardo da autoconsciência é compreensível. Na vida cotidiana, a regressão periódica a um

estado pré-consciente e pré-lógico é parte da ordem natural das coisas. O ciclo circadiano que divide o fluxo da nossa experiência subjetiva em fases alternadas de atenção desperta (dia) e obliteração dormente (noite) oferece um testemunho da necessidade vital e sempre renovada de suspender por algum tempo a tirania da consciência desperta e mergulhar no universo sem pecado e sem lei que aflora na mente de quem dorme.

O prazer do sono e do sonho constitui uma espécie de férias da consciência conscienciosa — uma “viagem” cotidiana à selva

subterrânea e ao simples existir com que sonha acordado o poeta. No mito prometéico, a regeneração do fígado de cada dia ocorre durante a noite. Ela é o trabalho silencioso e noturno da mente adormecida.

O sono noturno, entretanto, não se confunde com sonambulismo. A idéia de voltar a um passado de inocência e suposta leveza do

ser abriga uma singular contradição. A armadilha está no projeto de tentar não pensar. Pois a estrada que leva à conclusão de que o melhor seria viver sem pensar é ela própria fruto do pensamento: o caminho nega o ponto de destino. A intenção de se abrir mão da autoconsciência pressupõe uma aguda consciência de si por parte de quem a alimenta. Ao se chegar a isto, portanto, já é tarde, ou seja, já se pensou e concluiu.

A vida irrefletida jamais poderá ser alcançada por um ato de reflexão. Uma vez aberta a porta e ocupada a redoma da

autoconsciência não há mais volta deliberada possível — não há como retroceder no enredo. Ao contrário: a idealização poética ou filosófica de uma suposta felicidade animal apenas sublinha e torna ainda mais saliente o fato bruto e inescapável do nosso viver consciente.

Mas a sagacidade humana não se rende com facilidade. Se a porta da frente trancou e a chave do deliberar consciente não serve,

por que não escapar pela porta dos fundos? Se o caminho da reflexão e da intenção subjetiva não dão conta do desejo de reduzir o fardo de uma autoconsciência que pesa e faz sofrer, por que não tomar o atalho da intervenção objetiva por meio da manipulação tecnológica?

Na luta pela felicidade, o homem se deu conta de que o mundo natural podia ser transformado e submetido aos seus desígnios. O

corpo do animal humano é parte dessa natureza. Ao se perceber e tomar como objeto de si mesmo, o homem descobriu que era possível alterar e manipular a sua natureza orgânica tendo em vista não só o bem-estar objetivo da saúde física, mas também o subjetivo da felicidade. Se “a vida é uma doença incurável”, como declarou o poeta inglês Abraham Cowley no século XVII, então por que não buscar um remédio que alivie os sintomas e o desconforto?

A idéia de alterar estados de consciência por meio da manipulação da química cerebral pode soar moderna, mas o sonho vem de

longe. Não é de hoje que se especula, se fantasia e se experimenta em torno de facilitadores químicos e soluções mágicas para vencer o desafio de afastar o sofrimento e ser feliz. A farmacopéia psiquiátrica do animal humano remonta ao ambiente ancestral. Cada tribo guarda o seu segredo. A mais antiga língua escrita de que se tem registro — o idioma sumério praticado no sul da Mesopotâmia desde o terceiro milênio a.C. — continha um ideograma específico denotando a papoula da qual se extrai o ópio como “a planta da alegria”.

A bela e cortejada Helena, segundo o relato de Homero na Odisséia (IV, 220-32), possuía o segredo de uma planta egípcia cuja

infusão em vinho dissipava a melancolia e fazia esquecer todos os males. O nepentes (grego nepenthos: “antipreocupações”) era tão eficaz contra o sofrimento e a tristeza, esclarece o poeta, que “àquele que o tragasse, depois de ter sido misturado ao vinho, não lhe correriam mais, em todo o dia, as lágrimas pela face, nem mesmo se lhe morressem a mãe e o pai ou se lhe matassem com o bronze, na sua presença, o irmão ou o filho”. A poção de Helena de Tróia, provavelmente uma solução de ópio em álcool, adormecia os circuitos da dor psíquica.

Outro exemplo notável vem do libreto de A flauta mágica de Mozart. A diferença é que o princípio ativo, nesse caso, não era um

agente químico, mas um estímulo auditivo. A propagação das ondas sonoras e sua ação sobre os sentidos e o sistema nervoso, vale lembrar, são uma realidade tão impecavelmente física (embora não só isso, é claro) quanto a ingestão de um gole de vinho.

A flauta mágica, talhada das raízes mais profundas de um carvalho milenar em noite trovejante, tinha o dom de transfigurar o

humano sofrer. Ao ouvi-la, o tristonho se enche de alegria, a solteirona sonha e o velho solitário se enamora. “Esta flauta”, celebra o coro da ópera, “é mais preciosa do que o ouro e as coroas, pois graças ao seu poder irão crescer o júbilo e o contentamento entre os homens.” Quando o céu da paisagem interna anda cinza, de que bênçãos e reviravoltas

o sopro encantado da música não é capaz?

Seria ótimo, não é mesmo? Dispor de um

remédio infalível — um recurso como o nepentes homérico ou a flauta mágica —, capaz de afastar com um sopro as nuvens negras e

as preocupações que assombram a mente, inundando-a suavemente de um bem-estar indizível, como nos melhores dias de nossas vidas. Não foi à toa que Francis Bacon, o grande precursor renascentista da ciência a serviço da técnica e do resgate da condição humana, vaticinou que aquele que descobrisse o segredo da “alegria solúvel em sangue” teria encontrado “a chave da vida eterna”. A tecnologia farmacêutica de drogas lícitas e ilícitas é o braço psiquiátrico do projeto iluminista-faustiano da conquista da felicidade por meio da crescente dominação da natureza pelo homem.

“O que hoje está provado ontem era apenas um sonho.” O que parecia distante no tempo vai se tornando visível no horizonte do

exeqüível. Os avanços recentes no campo da bioquímica, da neurociência e da chamada “neurotecnologia” prenunciam a chegada do dia em que o sonho dos poetas e visionários do passado poderá se tornar realidade. Paralelamente, o apetite do público pelas novidades da indústria farmacêutica parece insaciável. Da calvície à obesidade, da insônia à impotência sexual, da ansiedade à perda de memória — há remédio para tudo. A farmacopéia moderna pode exclamar com o conde de Mirabeau: “Impossível? Nunca me diga essa palavra ridícula!”. O caminho do paraíso está pavimentado de fórmulas, prescrições e bulas medicinais.

O alvoroço em torno das possibilidades abertas pelo avanço da tecnologia biomédica dá o que pensar. Boa parte das drogas que

vêm empolgando os mercados tem por finalidade não a defesa do organismo contra doenças que ameaçam ou debilitam a saúde, mas sim a expansão da nossa capacidade de desfrutar prazeres, sentir satisfação em sermos quem somos e gozar ativamente a vida. Não são remédios apenas “defensivos”, ou seja, voltados para o reparo de deficiências e anomalias; são drogas “ofensivas” (life style, no jargão farmacêutico) à base de substâncias que visam à ampliação do campo de experiência e à propulsão de “vôos mais altos” do bem-estar subjetivo — armas químicas na guerra de conquista pela torre da felicidade.

A finalidade dessas drogas não é fazer com que o paciente volte à normalidade ou se sinta menos mal, mas sim levar o usuário a

ficar “mais do que bem”, isto é, a ir além de sua condição normal. O problema, porém, é que o que parecia ser apenas um desafio tecnológico vai se revelando uma complexa e espinhosa questão de escolha moral. Até onde pode levar esse caminho? Estaremos aptos a encarar os dilemas da hora fatal que se aproxima?

Suponha, para efeito de raciocínio, que todas as dificuldades técnicas e de ordem prática foram vencidas. A “pílula da

felicidade instantânea” — uma nova e revolucionária megadroga testada e aprovada pelos órgãos médicos competentes — aterrissou com um estardalhaço maior que o do Viagra nas prateleiras das farmácias. Diante dela, drogas que viveram os seus quinze minutos de glória, como Oblivon, Zoloft, Paxil e Prozac, ficaram tão obsoletas e limitadas como o lampião a gás, o gramofone de manivela e o cinema mudo. O novo remédio não custa mais do que um picolé, não causa dependência física, não suscita uma escalada de consumo, não gera síndrome de abstinência nem possui efeitos colaterais indesejados do ponto de vista

médico.

Mais importante: a pílula tem um efeito estritamente psíquico, ou seja, restrito aos circuitos neurológicos da vivência

subjetiva, e foi projetada de modo a não interferir de nenhuma forma no desempenho das tarefas e ofícios da vida prática. Ela não interfere nos circuitos da dor e do desconforto físicos, como por exemplo a fome, a sede e o estresse muscular, nem nos comportamentos que esses “sinais de alerta” motivam visando a sua supressão.

Ao tomar a pílula, calibrada precisamente de acordo com as características da bioquímica cerebral de cada um, a pessoa

permanece cumprindo como antes a sua parte na divisão social do trabalho. Ninguém deixará de preencher a declaração do imposto de renda por causa dela. O engraxate continua engraxando, o fiscal continua fiscalizando e o especulador, especulando.

A grande diferença é que agora todos podem prosseguir no seu dia-a-dia, fazendo exatamente o que sempre fizeram para ganhar a

vida, mas imersos numa subjetividade

exuberante, entregues a uma suave e arrebatadora euforia, sentindo-se como verdadeiros deuses que, ao baixar à Terra,

preferiram o simples disfarce de cidadãos comuns.

As demandas do corpo ainda precisam ser atendidas. Mas, uma vez eliminados os ruídos e vestígios dos déficits e desconfortos

corporais, nada de mau os alcança. Como no ideal estóico, o Olimpo subjetivo se liberta por completo das vicissitudes do contexto e das circunstâncias objetivas. Se “a felicidade consiste em querer ser o que se é”, como propõe o poeta latino Marcial, então a pílula matou a charada. A felicidade que ela proporciona pode ser adquirida por uma bagatela e levada no bolso da calça. Nem a superpopulação do Olimpo subjetivo impedirá cada um de viver ao sol perpétuo do seu paraíso artificial privativo. Entre as propriedades da pílula está a de que, sob o seu efeito, o usuário não se recorda de que o bem-estar exuberante que está sentindo é apenas um truque que aplicou sobre si mesmo. É só tomar e curtir.

A pílula está aí. Na condição natural do animal humano, a felicidade é um pássaro caprichoso. Voa quando voa e não quando

pretendemos que voe. Podemos perfeitamente marcar de antemão os dias da semana em que desejamos fazer exercício físico ou sair à noite, mas seria absurdo supor que podemos escolher na folhinha as datas e ocasiões em que desejamos nos sentir plenamente felizes. O nosso bem-estar subjetivo é refratário aos ditames, decretos-lei e medidas provisórias da vontade consciente. O advento da pílula, entretanto, altera dramaticamente o quadro.

A primeira escolha é: experimentar ou não? A curiosidade, é plausível supor, leva a melhor. Se não é ilegal e se estão todos

tomando, por que não? Depois de conhecê-la, contudo, como aceitar a mesmice de dias insípidos, a velha angústia inexplicável do espírito por nenhuma causa? Mas, tendo visitado o paraíso bioquimicamente determinado em que o tempo se redoura por uma bagatela, em nome do quê abrir mão agora do dia de ouro escondido em cada dia?

Uma primeira questão, portanto, é saber se o atalho químico da felicidade tem caminho de volta, mesmo na ausência de

dependência física. O mais provável é que o recurso à pílula, uma vez testado, se torne tão trivial como o consumo de bebidas e aspirinas hoje em dia.

Mas o problema maior, creio, não é a dependência psicológica da droga. É o que ela acarretaria do ponto de vista da condição

moral do homem. Quais seriam as implicações práticas e éticas dessa possibilidade? O que o experimento mental da pílula nos diz sobre o conceito de felicidade e sobre o lugar

e o papel do bem-estar subjetivo na melhor vida ao nosso alcance? O que esperar do progresso científico e tecnológico para a

solução dos problemas éticos e existenciais da humanidade? Se a felicidade é a finalidade maior da vida — o objetivo derradeiro ao qual tudo o mais se subordina —, então por que não viver em estado de embriaguez extática? Ser feliz é só o que importa?

 

MELO: Antes de começar, Alex, apenas uma breve curiosidade. Você citou no texto uma observação de Bacon sobre a alegria solúvel em sangue como “a chave da vida imortal”. Tentei localizar a passagem em várias obras dele, mas sem sucesso. Qual é exatamente a fonte da citação?

 

ALEX: Agora você me pegou, Melo. Na verdade eu não tirei isso diretamente da obra de Bacon, mas de uma passagem das Confissões de um inglês comedor de ópio em que o Thomas de Quincey atribui isso a ele. Curiosamente, a mesma alusão a Bacon aparece num livro recente — The pursuit of oblivion, de Richard Davenport-Hines —, e que é uma verdadeira bíblia de informações sobre a evolução da pesquisa, produção e consumo de drogas no mundo nos últimos cinco séculos. Quincey faz a referência sem dar a fonte primária e Hines praticamente repete as palavras de Quincey (“making myrrh soluble by human blood”), só que, além de não dar a fonte primária, ele também não dá nenhuma indicação da fonte secundária na qual claramente está se baseando...

 

MELO: Não me surpreende. Eis aí um ótimo exemplo de como nascem e ganham vida própria as legendas e mal-entendidos em história das idéias. Eu não ficaria nada surpreso se o Quincey — que, diga-se de passagem, assim como outros românticos, nunca primou por excesso de zelo acadêmico em seus escritos — simplesmente tiver inventado essa história. O procedimento é mais comum do que se supõe, e nem sempre deliberado. Keynes, por exemplo, não teve a menor cerimônia em fabricar uma conveniente alusão de Lênin à inflação como sendo “a melhor forma de destruir o sistema capitalista”. Eu andava havia tempos tentando rastrear essa maldita passagem até que um dia me encontrei por acaso, numa conferência, com o editor-geral dos Collected writings de Keynes, Donald Moggridge. Na saída, fui lá perguntar a ele qual era a fonte da referência. Ele me olhou e disse com a maior tranqüilidade do mundo: “Lênin nunca disse aquilo; Keynes inventou a coisa para assustar os leitores”. É pena que na hora eu não tenha tido a presença de espírito para cobrar dele por que isso não tinha sido explicado nas copiosas notas de sua maravilhosa edição.

O fato é que o mal-entendido, proposital ou não, é uma das forças mais poderosas da vida intelectual. Dá para

entender o que levou Jacob Viner, ex-professor de história do pensamento econômico em Chicago, a concluir que “a média das referências modernas aos economistas clássicos é de uma ignorância tão crassa que ela não merece ser sequer notada, quanto mais refutada”. Nos últimos anos, a coisa piorou ainda mais. Como diz o historiador de idéias Alexandre Koyré, “as discussões entre filósofos se parecem no mais das vezes com um diálogo de surdos”.

 

OTTO: Seguramente não é o nosso caso... [RISOS] Mas eu também queria esclarecer um ponto antes de partirmos para a discussão das questões propostas. Felicidade não é uma coisa absoluta. Como as noções de quente ou frio, ela só se define pelo contraste com o seu oposto. Se você eliminar a infelicidade, então não há mais por que falar em felicidade — fica tudo a mesma coisa.

O problema com a conjectura da pílula, Alex, é que ela viola um princípio básico da psicologia que é a chamada

lei da utilidade marginal decrescente. Se você ficar sem ingerir líquido durante um dia, o primeiro copo de água após o jejum será intensamente prazeroso. Mas se logo em seguida você tomar outro copo, o prazer já será menor. O terceiro exigirá algum esforço; e o quarto, só se for obrigado. Tudo o que dá prazer na vida é assim — a partir de um certo ponto satura, deixa de satisfazer e começa a ficar positivamente desagradável. O ser humano foi constituído de tal maneira que ele só sente prazer e satisfação ao passar de uma condição a outra, ao experimentar algum tipo de contraste, e não ao permanecer indefinidamente na mesma situação, não importa quão agradável ela seja. Daí a razão pela qual, como lembra o poeta, “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Os momentos de exuberância subjetiva e de intensa felicidade são por natureza fugazes. Se todo dia é carnaval, acabou o carnaval. A garota de Ipanema é, por definição, a “que vem e que passa”, jamais a que fica. O que ficou difícil de engolir na história da pílula é que ela viola esse princípio básico da nossa psicologia.

 

ALEX: Você está coberto de razão, Otto, ao levantar esse ponto. É uma dificuldade que eu também me coloquei no início, mas depois acabei resolvendo. Veja só. Os cientistas que estudam a neurofisiologia — a localização e a função específica das diferentes partes do cérebro — fizeram uma descoberta estonteante. Eles conseguiram identificar os centros de prazer no cérebro dos mamíferos e mostraram que é possível “driblar” a lei da utilidade marginal decrescente. Prazer perpétuo.

O experimento clássico, feito com ratos de laboratório, induz o animal a se auto-estimular por meio de uma

alavanca que ele pressiona. Toda vez que ele aperta a tal alavanca por meio segundo, um eletrodo implantado no seu hipotálamo lateral solta uma pequena carga de eletricidade naquele ponto. O efeito disso é fazer com que o hipotálamo acione o circuito que libera o neurotransmissor dopamina, assim como ocorre quando o rato se alimenta ou copula. Ao pressionar a alavanca, portanto, o animal estimula diretamente o centro de prazer no seu cérebro, como se estivesse obtendo “comida elétrica” ou “sexo elétrico”. A diferença é que agora o seu apetite é insaciável. O prazer da descarga elétrica é tão intenso e gratificante que o rato se desinteressa por tudo o mais, inclusive alimento e sexo, e passa a se auto-estimular dia e noite, cerca de 3 mil vezes por hora, até o colapso por esgotamento. Não é à toa, diga-se de passagem, que as drogas que estimulam a liberação de dopamina no cérebro, como heroína, morfina, cocaína e nicotina, não apenas viciam como reduzem o apetite.

O que esse experimento revela é que o princípio da utilidade marginal decrescente não é uma fatalidade

inescapável. Ele pode ser neutralizado por um animal que seja capaz de contornar o seu sistema nervoso periférico — por onde passam os estímulos naturais que estão sujeitos à saciação —, e que consiga ir direto ao ponto, ou seja, auto-estimular os centros de prazer no cérebro. Do ponto de vista da biologia darwiniana, a utilidade marginal decrescente faz sentido. É ela que previne um animal de se exceder no exercício de uma atividade que lhe seja especialmente prazerosa, o que reduziria a sua capacidade de sobreviver e procriar. Mas o animal humano não se contenta com pouco. Assim como a descoberta da lei da gravidade permitiu ao homem deliberadamente manipular os seus efeitos e fazer um avião voar, os avanços da neurociência estão permitindo compreender e controlar cada vez melhor a mecânica do bem-estar subjetivo. Chegará o dia em que a posteridade se divertirá ao relembrar como eram primitivas e precárias as drogas lícitas e ilícitas que usamos hoje em dia.

A pílula da felicidade, portanto, atuaria diretamente sobre os centros de prazer, mas com uma diferença crucial: ela em nada prejudicaria os processos e comportamentos que preservam a saúde física do organismo. O que a pílula faz é neutralizar todas as causas imaginárias de dor e sofrimento, como, por exemplo, a consciência antecipada da morte ou o medo do inferno. Ao mesmo tempo, ela é capaz de recriar no cérebro a configuração bioquímica do perfeito bem-estar subjetivo, como no dia em que você se apaixonou pela primeira vez ou o seu time ganhou o campeonato mundial. A pílula permite eternizar aquele instante perfeito em que a vida parecia completa. Ela põe ao nosso alcance, todos os dias, o melhor dia de nossas vidas.

Mas os detalhes da conjectura são de importância secundária. Tudo não passa, é claro, de um “experimento

mental”. Eu poderia igualmente estar falando, digamos, de um “botão da renda psíquica” — você aperta e pronto, é como se de repente você se sentisse como um bilionário, um Bill Gates da subjetividade. A idéia aqui não é discutir o grau de realismo da coisa, mas as suas implicações conceituais e éticas. O que vocês, por exemplo, fariam? Tomariam ou não a pílula?

 

OTTO: Se eu a usaria de forma corriqueira, é difícil saber de antemão; mas eu certamente experimentaria.

 

MELO: Não sei... Eu ficaria curioso, sem dúvida. É bem provável até que acabasse não resistindo e tomando alguma. Mas acho que ia esperar um bom tempo antes, para saber como ela estava afetando as pessoas em geral.

 

ALEX: E você, Leila? Estou estranhando o seu silêncio...

 

LEILA: Pois eu não só não tomaria a tal pílula como faria tudo ao meu alcance para que ela fosse banida legalmente. Mais que isso. Se pudesse, eu me encarregaria de garantir que a fórmula fosse destruída e varrida para sempre do universo.

 

ALEX: Mas que reação violenta! Eu não imaginava que você fosse tão conservadora a esse respeito. Não há um certo exagero, uma dose de calvinismo farmacológico nessa postura? Por que tamanha rejeição?

 

LEILA: Calvinismo farmacológico?! Era só o que faltava! Está patente que vocês não se deram conta da enormidade do que nós estamos tratando. O uso indiscriminado da pílula teria conseqüências tenebrosas para o nosso futuro. Seria o equivalente a um ato de suicídio moral coletivo da humanidade. Nietzsche dizia que a crítica mais afiada de um autor ou de uma filosofia de vida se dá quando nós delineamos o que seria o seu ideal. A conjectura que você nos propõe, Alex, faz precisamente isso. Ela põe o dedo na ferida. Ela ajuda a escancarar o que há de mais terrível, para não dizer monstruoso, com o ideal iluminista-faustiano de felicidade, ou seja, com a idéia de que o bem-estar da humanidade pode ser conquistado a ferro e fogo, por bem ou por mal, através do crescente domínio científico-tecnológico da natureza. O cérebro humano é a derradeira fronteira dessa empreitada.

Considerem, para começar, as implicações políticas da pílula. É difícil conceber uma arma mais poderosa de

apaziguamento e controle social. O sujeito toma a droga e pronto — não há mais do que reclamar. Resignação e êxtase. Pode ser o campo de concentração, a fila da previdência, o canavial nordestino ou a periferia de Calcutá: o inferno objetivo das condições de vida se transmuta em paraíso subjetivo. Tudo é divino e maravilhoso. Os governantes e opressores podem ficar tranqüilos (sem recorrer à pílula). Se as massas não buscarem o perfeito contentamento por si mesmas, o que seria o mais provável, a substância pode ser administrada pelos órgãos e canais competentes, dentro do modelo do “pão e circo” romano. Um eficiente programa de saúde pública, inspirado na definição benthaminiana do papel do governo, pode garantir que o “circo bioquímico” — o princípio ativo da pílula — se torne um ingrediente obrigatório na fabricação de pão. Quem sabe aí teríamos o verdadeiro “fim da história”? Afinal, como insistia Hegel em suas aulas sobre a filosofia da história universal, “a História não é o palco da felicidade; nela, os períodos de felicidade são páginas em branco”.

Mas não é só isso. Tentem imaginar agora as conseqüências éticas do uso da pílula. A primeira idéia que me

ocorre é que, na ausência de sentimentos negativos como culpa, vergonha, remorso e arrependimento, todos eles neutralizados por conta da pílula, haveria um dramático enfraquecimento do respeito às normas legais e morais de convivência. As pessoas não se sentiriam psicologicamente inibidas ao praticar os atos mais terríveis. Ao tomar a pílula, o cidadão deixaria de sentir culpa ao prejudicar alguém, ou vergonha ao ser pego. A punição seria apenas o preço do crime — o risco inerente a qualquer negócio ou aposta. Tudo seria uma questão de cálculo frio dos custos e benefícios da transgressão. O poder de fiscalização, vigilância e repressão da polícia teria que ser redobrado, de modo a compensar a ausência de inibidores subjetivos da criminalidade e garantir um mínimo de respeito às leis. O resultado seria ou anarquia ou tirania. Não: o mais provável é que seja a anarquia como prelúdio da tirania. É a grande lição hobbesiana. Quando a ética cívica e o respeito às leis se enfraquecem, surgem aqueles a quem chamamos tiranos...

ALEX: Só um minuto, Leila, porque aí tem um problema no seu raciocínio. Não dá para entender. Se a pessoa tomou a pílula e está absolutamente feliz consigo mesma, então por que ela haveria de querer lesar ou tirar vantagem de alguém? Em nome do quê ela iria correr o risco de ser presa, passar anos a fio na cadeia e, ainda por cima, ficar talvez sem acesso à pílula?

 

LEILA: Está certo. Você tem razão nesse ponto, mas eu não terminei ainda. Considere também o seguinte. Se a pílula neutraliza todos os afetos negativos da mente, tornando-a imune a qualquer sentimento que provoque desconforto e mal-estar, então a pessoa deixa também de sentir inveja, ciúme, desejo de vingança e ressentimento. Ela não vai cobiçar a propriedade alheia, não vai apelar vergonhosamente na luta por um lugar de honra na mente dos seus semelhantes nem quererá ser tida em alta conta por aquilo que ela não é. Desaparecem os motivos para desrespeitar a lei e praticar o mal. Acontece, porém, que a mudança não termina aí. A lâmina corta dos dois lados. O recurso à pílula aproxima o animal humano daquela condição de inocência abençoada e feliz idealizada por Walt Whitman no seu texto de abertura. O que faltou dizer foi o custo dessa opção do ponto de vista ético.

O descontentamento é o motor de toda mudança. O perfeito contentamento da pílula pode trazer paz, alegria e

alívio, mas ao custo de aniquilar o que a humanidade tem de melhor — a capacidade de criar, ousar e experimentar na arte da vida. Marvin Minsky, um dos pais da inteligência artificial e pesquisador do MIT, resumiu muito bem a questão: “Se nós pudéssemos deliberadamente controlar os nossos sistemas de prazer, seríamos capazes de reproduzir o prazer do sucesso sem a necessidade de realizar coisa alguma — e isso seria o fim de tudo”.

O que vale para o prazer do sucesso vale também, é claro, para qualquer tipo de prazer mental ligado a

determinada atividade e, o que é mais grave, vale para todas as formas de realização espiritual associadas ao amor, às relações pessoais, à ajuda ao próximo, à busca do conhecimento e ao trabalho criativo.

É por isso que recorrer à pílula, penso eu, equivaleria a um verdadeiro suicídio moral. Seria nada menos que uma

barganha faustiana na qual estaríamos adquirindo uma felicidade espúria em troca da destruição daquilo que temos de mais nobre e elevado, ou seja, o descontentamento sagrado que nos move e nos envergonha diante de nós mesmos e que é a fonte de toda busca genuína e do esforço de transcendência e criação. O ser humano se veria reduzido à condição de um autômato inofensivo e alegrinho — um inseto hedonista e saciado, “casado, fútil, cotidiano e tributável”, perfeitamente satisfeito em ser o que é. O atalho químico da pílula se revelaria, na verdade, um tenebroso beco sem saída. “Existem duas tragédias na vida”, dizia Bernard Shaw. “Uma delas é não conseguir o que o seu coração deseja; e a outra é conseguir.” No caso da pílula, contudo, a segunda opção se tornaria não uma tragédia, mas uma grotesca farsa.

 

MELO: Não sei se você sabia, Leila, mas o alerta de Marvin Minsky a que você se referiu é quase idêntico ao que concluiu o poeta francês Charles Baudelaire: “Um homem que, com uma colher de doce, pode alcançar instantaneamente todos os bens do céu e da terra, nunca adquirirá a milésima parte deles pelo trabalho. É preciso, acima de tudo, viver e trabalhar”.

O caso de Baudelaire é interessante porque ele viveu o drama na pele e passou boa parte da vida buscando se

libertar do vício das drogas. O que ele imaginou encontrar nas drogas — o canto da sereia que, na juventude, o seduziu — aparece com clareza num de seus poemas em prosa. “Cada homem”, ele refletiu, “traz em si a sua dose de ópio natural, constantemente secretada e renovada; e, do nascimento à morte, quantas horas podemos contar preenchidas pelo verdadeiro prazer, pela ação feliz e resoluta?” O que ele acabou descobrindo, entretanto, é que a tentativa de fabricar o êxtase por meio da droga levava não ao paraíso sonhado — ao “verdadeiro prazer” e à “ação feliz e resoluta” da vida em seu ápice —, mas a um inferno de dependência, esterilidade poética e atrofia da vontade do qual ele desesperadamente procurou se livrar.

 

ALEX: Que droga ele usava, Melo?

 

MELO: Haxixe. Algo que, naquela época, assim como o ópio e a cocaína, nem era proibido por lei. Mas o que eu me pergunto às vezes, Leila, indo um pouco mais longe no seu raciocínio, é se não haveria uma conexão entre estados depressivos e criatividade. Examine a biografia dos filósofos, cientistas, músicos e artistas célebres de um modo geral. Não digo que seja uma lei infalível ou uma condição necessária do processo criativo. Há exceções de sobra. Mas é impressionante, de qualquer modo, a freqüência dos casos de fortes oscilações do ânimo e a alta incidência de depressões na vida dos grandes criadores nos mais diversos campos de atuação. De Antero de Quental a Wittgenstein, passando por Darwin, Mahler, Michelangelo, Newton, Fernando Pessoa, Rilke e Virginia Wolf, os exemplos são muitos e dariam para encher um tratado. Quem sabe até ele já não foi escrito?

Um dos casos que mais me chamaram a atenção recentemente foi o de Weber. Eu não sabia que ele havia passado

quatro anos, e isso bem no início de sua carreira universitária, deprimido a ponto de não conseguir sequer dar aulas. O espantoso é que, assim que ele começou a se recuperar e sentir que suas forças retornavam, ele imediatamente se pôs a escrever e, em poucos meses, completou a obra pela qual é até hoje mais lembrado, A ética protestante e o espírito do capitalismo.

Imaginem agora um Weber contemporâneo: um jovem professor, em início de carreira, submetido à pressão

competitiva do publish or perish no padrão americano, e às voltas com uma depressão; um recém-doutor, no ápice do seu potencial acadêmico, mas acometido por uma forte letargia e por uma total incapacidade de se concentrar — Weber não conseguia ler jornais — que o impedem de lecionar e pesquisar, que destroem a sua auto-estima e que começam a se prolongar em demasia. O que aconteceria?

Não parece exagero supor que, de duas uma: ou o nosso jovem Weber seria demitido por falta de desempenho; ou

ele obteria licença médica, receberia tratamento psiquiátrico apropriado à base de antidepressivos e voltaria, sem mais perda de tempo, a exercer suas funções profissionais. A primeira opção seria um golpe adicional em alguém fragilizado — a depressão talvez se agravasse. A segunda alternativa possivelmente permitiria salvar a sua carreira universitária. Ele voltaria a dar aulas e a publicar regularmente artigos bem-comportados em periódicos acadêmicos (quem sabe, por exemplo, exegeses minuciosas de textos menores e inacabados do corpus weberiano). Família, chefe do departamento, médico responsável, superego superexigente — todos felizes e contentes. Tudo de volta ao normal.

Mas o que se perderia nesse caminho? Alguém em sã consciência imagina que o Weber autêntico ou qualquer

uma das figuras que mencionei há pouco teria conseguido mobilizar o impulso necessário e criar a sua obra máxima se tivesse evitado a depressão tomando Prozac? A depressão não teria sido, no seu caso, um elemento necessário de amadurecimento espiritual? A pressão de competir e desempenhar a qualquer preço não acaba nos reduzindo a “especialistas sem espírito”? A laboriosos, covardes e produtivos conformistas? Casos como esse me levam a crer que a depressão possa cumprir uma função incubadora. Ela abriria caminho a reservas de criatividade e energia realizadora às quais normalmente não temos acesso. Mas se isso é verdadeiro, então a idéia de aliviar o sofrimento a qualquer preço pode constituir um grave empecilho às maiores criações do espírito humano. Seja como for, uma coisa é certa. À luz do contexto e das circunstâncias pessoais do autor, podemos avaliar melhor o terrível peso do que Weber nos diz na Ética sobre este grande fantasma da razão protestante que é perder tempo. “O desperdício de tempo”, ele afirma, “é o primeiro e, em princípio, o mais mortal dos pecados.” Weber sabia do que estava falando.

 

ALEX: Essa questão do uso do tempo me apaixona. A ansiedade do tempo é um dos grandes paradoxos dos nossos dias. Tudo é feito com o intuito de ganhar tempo. Mas há um descolamento terrível entre as conquistas objetivas da tecnologia e a nossa experiência subjetiva do tempo. A sensação é a de que quanto mais economizamos tempo, mais carecemos dele — é a mendicância na opulência. O vírus da pressa se tornou uma epidemia sem controle. Na língua inglesa, por exemplo, já surgiram até expressões novas para denotar o fenômeno, como time famine (fome de tempo) e hurry sickness (doença da pressa). A pressa, ao que parece, também vicia. E quando não é a pressa, é o tédio. Igualzinho à droga. Quem sabe a gente poderia fazer um encontro sobre essa questão mais à frente? Alguém se candidata?

 

OTTO: Eu queria voltar ao que a Leila estava dizendo e aos exemplos do Melo. Em um ponto estamos de pleno acordo: o risco de a pílula da felicidade vir a se tornar uma arma de manipulação política existe e precisa ser combatido a qualquer custo. Seria um pesadelo de dimensões orwellianas. Aquele romance do Aldous Huxley, vocês devem ter lido, o Admirável mundo novo, explora exatamente essa veia. Tive até vontade de relê-lo depois do ensaio do Alex. A droga do contentamento, pelo que me recordo, chamava-se soma.

Compartilho também a preocupação de que algumas pessoas façam um mau uso da pílula. Vocês sabem que eu

seria a última pessoa do mundo a defender ou a elogiar qualquer forma de dependência ou de vício, seja ele álcool, heroína, nicotina, misticismo, ou o que for. Eu não descarto a possibilidade de que, em certos casos, possa haver uma relação entre quadros depressivos e criatividade. No fundo, é um pouco o que eu dizia no início sobre a felicidade se definir por oposição à infelicidade. Se você não se sentir mal, ou seja, insatisfeito e infeliz com alguma coisa de errado em você ou ao seu redor, então você não terá motivação para agir e tentar melhorar as coisas. Caímos numa espécie de “conservadorismo cósmico” ou mundo panglossiano no qual, não importa o que seja, está certo, está tudo bem — melhor não podia ser.

Aliás, enquanto ouvia o que o Melo ia dizendo, fui me lembrando daquela velha canção da bossa nova, “É melhor

ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe...”. Até aí, a pílula resolve. Lá pelas tantas, porém, a letra segue e diz: “Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não”. O “bocado de tristeza” é a depressão a que o Melo se referia. É aí que a história da pílula começa a complicar...

MELO: Taí, quem diria? O Otto cantarolando bossa nova! Vê-se que as nossas conversas estão aos poucos tendo um efeito humanizador... [RISOS] Minha cabeça está fervilhando de exemplos, mas o padrão básico é sempre o mesmo. A canção que espanta o sofrimento (“cantando eu mando a tristeza embora”) germina no solo do sofrer (“a tristeza é senhora”) — a dor fertiliza. “Desde que o samba é samba é assim.” Outro dia, abri por acaso o livro de uma jovem que resolveu contar a história de sua luta pessoal contra o câncer. A epígrafe que ela escolheu era um trecho de um velho poema hebraico:

 

Quando estamos nos degraus mais baixos da escada do

pesar, nós choramos.

Quando chegamos à metade dela, nós emudecemos.

Mas quando alcançamos o topo da escada do pesar, nós

convertemos a tristeza em canto.

 

OTTO: Tudo perfeito, Melo. Mas o que me desagrada na postura de vocês é a tendência de tratar as pessoas como se elas fossem crianças precisando de uma pajem ou tutor moral. Por que não deixar cada um decidir por si o que é melhor para si? Peguem o caso do Weber, que o Melo levantou. Naquela época, está claro, não existiam os remédios que hoje temos à nossa disposição. Mas vamos supor que existissem. Vocês iam negar a ele o direito de escolher se queria ou não receber tratamento? Quem iria decidir em nome dele? E se ele preferisse uma vida menos atormentada e mais feliz, mesmo que isso implicasse abrir mão da pretensão de criar uma obra que nós estamos discutindo até hoje? Vocês iriam obrigar Weber a ser Weber ? O que seria mais “humano” (já que você usou esse termo para caçoar de mim)?

Mas se vocês estão dispostos a respeitar a liberdade de escolha e o desejo do jovem Weber, qualquer que ele seja,

então por que negar isso ao cidadão comum? É plausível imaginar que o acesso a antidepressivos pudesse ter abortado as criações imortais de um Rilke, um Van Gogh ou um Fernando Pessoa. Ok. Mas e daí? Vocês julgariam, então, que seria moralmente defensável bloquear a chance de felicidade de milhões de homens comuns, gente que muitas vezes se arrasta pela vida sem a menor perspectiva de sair do buraco e respirar a brisa fresca de dias felizes, apenas para afastar o risco de perder um punhado de grandes gênios?

A pílula da felicidade do Alex traz algumas complicações, mas no fundo é a mesma coisa. O que ela faz é

aumentar o nosso poder sobre nós mesmos; é ampliar o campo de escolhas diante de cada um. Assim como um equipamento de som, hoje ao alcance de qualquer mortal, nos permite ouvir A flauta mágica na hora em que nos apetece, no café-da-manhã ou no chuveiro, coisa que teria despertado furor e inveja na mais alta nobreza em Versalhes; da mesma forma, a existência e o livre acesso à pílula colocariam ao nosso alcance a opção de desfrutar de um bem-estar divino, pelo tempo que nos desse na telha, e mesmo que não houvesse razão objetiva para tanto.

Alguns benefícios que ela traria são previsíveis. Tanto a incidência de doenças relacionadas ao estresse como o

consumo de drogas ilícitas (e lícitas, exceto a própria) despencariam. As seitas e religiões organizadas dificilmente teriam como sobreviver no mercado de massas do consolo. Adeus, pastores hipócritas, púlpitos mercenários e currais eletrônicos. Mas o fundamental é que o cidadão seja dono do próprio nariz — o princípio lockiano da autopropriedade — e responsável pelos seus atos. Desde que não cause danos nem restrinja a liberdade dos demais, cada um é livre para administrar como bem entende o seu sistema nervoso. Nenhum prazer por si mesmo é um mal.

 

MELO: Quer dizer então, Otto, que você é a favor da liberação total das drogas, de deixar o livre-mercado funcionar? Você não teme que ocorram abusos horríveis? Que isso leve o pessoal mais jovem principalmente a meter os pés pelas mãos no consumo desenfreado de estimulantes, narcóticos, alucinógenos e sabe-se lá o quê mais?

 

OTTO: É uma questão delicada. Defendo, sim, a legalização do consumo e do comércio de drogas. Mas isso não quer dizer que eu minimize a gravidade do problema que temos pela frente. A mera repressão policial é um modo equivocado e contraproducente de lidar com ele. Enquanto houver demanda, a oferta se fará. Se a via legal estiver bloqueada, o tráfico ilegal florescerá. A experiência da “lei seca” americana nos anos 20 foi claríssima — nunca o arcabouço legal ficou tão desmoralizado e nunca o crime organizado foi tão beneficiado. Quanto maiores a severidade das leis e a repressão, maiores serão o preço de venda da substância e o lucro da operação. Com a descriminalização, os preços e os lucros cairiam e a atratividade do negócio idem. Os crimes ligados a drogas e a população carcerária diminuiriam. Os recursos bilionários empregados hoje na repressão poderiam ser usados em programas de prevenção e reabilitação. A “guerra às drogas” é mais um desses remédios desastrados que exacerbam o mal que buscam sanar. Como dizia um ex-presidente colombiano, “a única lei que os narcotraficantes não violam é a lei da oferta e procura”.

O risco do abuso, não nego, é seríssimo. Mas o mesmo se aplica ao abuso do álcool e de outras drogas legais,

como anfetaminas e barbitúricos. Vocês com certeza se lembram daquele nosso amigo de juventude, o Piza. Um talento, uma memória, uma vivacidade absolutamente fora do comum. Ele tinha tudo para se tornar um poeta como poucos em qualquer língua. E, no entanto, o que ele realizou? Acabou se afogando num alcoolismo diabólico que destruiu irreparavelmente o seu cérebro e a sua lucidez. Até hoje deploro, rumino lembranças e não me conformo com o que aconteceu. Mas o que se vai fazer? Cada um pilota o seu próprio naufrágio. É absurdo imaginar que a ameaça de abuso implica conferir ao Estado o papel de proibir as pessoas de correrem riscos ou de se colocarem em situação de perigo.

Há um verso de William Blake — vocês com certeza se lembram — que o Piza adorava citar em causa própria:

“O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Pois é, deu no que deu. Mas há um outro provérbio de Blake, mais sábio que aquele, e que vem ao caso: “Você nunca saberá o que é suficiente se não se permitir saber o que é mais que suficiente”. Algumas vezes na vida é preciso correr o risco de ir longe demais. Só que não para cultivar um tolo e desmiolado excesso dionisíaco, que afinal leva apenas ao palácio da sensaboria, mas para se descobrir até onde se pode e, sobretudo, até onde se deve ir.

 

MELO: Acho que você está sendo duro demais com o Piza, Otto, mas não vamos entrar nisso agora. O que você está dizendo, se eu o entendi corretamente, é que tanto no caso das drogas ilegais como no da pílula do Alex a melhor política seria dar uma chance à liberdade. O resultado vai depender de como as pessoas reagirem à nova situação. O que você há de convir, contudo, é que é muito difícil — para não dizer impossível — antecipar todas as conseqüências de uma aposta corajosa como a que você está propondo. Pode ser que a experiência da liberdade acabe revelando algo novo, algo que não temos condições de prever nem sequer de imaginar agora, e que nos faça mais tarde mudar de opinião.

 

ALEX: O xis da questão, então, está em saber como nós reagiríamos ao enorme poder que a pílula nos daria sobre nós mesmos. O que ocorreria após o surgimento dessa possibilidade de alcançar toda a felicidade do mundo sem qualquer esforço ou mérito próprios? Que o advento da droga iria provocar, de início, uma corrida desenfreada às farmácias, não é difícil prever. Mas e depois? Passado o furor da novidade, quando a poeira baixasse, que rumo as coisas tomariam? Qual seria a configuração da nova realidade, o equilíbrio pós-pílula?

Uma possibilidade é que, com o tempo, a pílula acabe se tornando não mais que uma superdroga recreativa — “a

droga das drogas”. Ela seria totalmente evitada por alguns; utilizada de forma intermitente, com abusos ocasionais, por muitos; e capaz de escravizar por completo a vida de uma minoria. Ela se tornaria basicamente um atalho inocente para o bem-estar subjetivo: mais poderosa sem dúvida, mas não muito distinta de outras táticas comuns no arsenal do prazer quimicamente estimulado, como bebidas e estimulantes, ou do prazer vicário, como o voyeurismo, o consumo de pornografia ou a masturbação. Em suma, business as usual. Nada que comprometesse de forma irreparável a convivência, os percalços e a experiência normal da vida.

Outra possibilidade, bem mais preocupante, é a de que o acesso indiscriminado à pílula leve a uma situação em

que ela passa a dominar integralmente o dia-a-dia, não só de uma minoria propensa ao abuso, mas do grosso da população. Ela deflagra um surto de hedonismo desmiolado, invade os lares, ruas, escolas, escritórios e oficinas e se torna um novo modo de vida. A “religião da felicidade” tem um punhado de hereges esparsos, entregues a suas dores inúteis e angústias desnecessárias, mas eles em nada incomodam a rotina de euforia sonambular da maioria e não são sequer hostilizados. Quem se importa com eles? O equilíbrio da pílula tem a permanência dos astros distraídos e a robustez do granito.

 

MELO: Para que lado penderia a balança, Alex, se é que ela penderia para o mesmo lado em diferentes culturas, nenhum de nós sabe. O que me parece indiscutível, entretanto, é que nós perdemos a confiança que o iluminismo acalentava de que “quanto mais os homens se erguerem acima da pobreza e de uma vida de expedientes, mais a decência prevalecerá em sua conduta e a sobriedade nos seus sentimentos”.

Marx e Engels, é bom lembrar, ainda acreditavam que, com o fim da luta de classes e o advento do comunismo, o

homem deixaria para trás “os últimos vestígios de sua animalidade”. E John Stuart Mill então? Há uma passagem dele que serve como uma luva ao que nós estamos discutindo.

Mill acreditava que as pessoas em geral sempre dariam “uma preferência marcante a um modo de existência que

empregue as suas faculdades mais elevadas”. “Poucas criaturas humanas”, ele afirmou, “consentiriam ser transformadas em qualquer dos animais inferiores em troca da promessa do mais pleno acesso aos seus prazeres bestiais; nenhum ser humano inteligente consentiria tornar-se um tolo, nenhuma pessoa instruída, um ignorante, ninguém de sensibilidade e consciência, um ser egoísta e reles, e isso mesmo que eles fossem persuadidos de que o tolo, o beócio ou o infame estavam mais satisfeitos com a sua sorte do que eles estão com a deles.” O talento espontâneo de alguns filósofos para recriar a humanidade à sua imagem e semelhança é um dos milagres da história da filosofia.

A minha grande preocupação é que nos falte maturidade ética, ou seja, moderação e disciplina no exercício da liberdade para lidar com o poder que a pílula da felicidade nos daria. Digo isso sem nenhuma arrogância, sem a menor pretensão de ser diferente, pois confesso que eu mesmo não sou capaz de dizer como reagiria diante de uma possibilidade dessas. Uma coisa é estarmos aqui, discutindo confortavelmente os efeitos possíveis de uma pílula hipotética. Outra, muito distinta, é saber o que de fato faríamos no calor da hora fria, quando o tempo fecha e o cárcere do pensar oprime. Uma coisa é filosofar (sem consumo de álcool!) entre amigos; outra é estar com a pílula no bolso. Duvido que algum de nós saiba o que faria.

“Toda emancipação do espírito é perniciosa se não vier acompanhada de uma maior capacidade de autocontrole.”

A sentença goethiana, penso eu, vai ao cerne da questão. O caminho da liberdade, Otto, pode revelar-se uma estratégia liberticida. Foi exatamente porque soube dar ouvido aos seus limites humanos que Ulisses, atado ao mastro, ouviu o canto das sereias, quase enlouqueceu de desejo, mas não se deixou levar e destruir. Quem quer que se examine de perto se dá conta de que o autoconhecimento e o autocontrole do ser humano são limitados. Restringir a liberdade é às vezes uma forma sábia de proteger a liberdade. Não há nada mais irracional do que ignorar os limites da racionalidade.

 

LEILA: Acompanho o seu raciocínio, Melo, e também acho que o Otto exagerou a mão na crítica ao Piza. A obra dele pode ser exígua, mas tem momentos brilhantes. Duvido, sem querer ofender ninguém, que algum de nós deixe coisa melhor. Mas eu sou mais radical do que vocês na questão da pílula. Nós não podemos subestimar a gravidade da ameaça que essa idéia representa. No fundo, ela é uma espécie de coroamento lógico de um projeto de civilização que está arrastando a espécie humana ao desastre. Vocês não percebem isso? São movimentos alternados de um mesmo e tenebroso enredo.

A mesma civilização tecnológica e de alta pressão competitiva que, por um lado, destrói as bases da felicidade

instintiva no animal humano, vem, por outro, acenar com a promessa de um paraíso sobre a terra por meio do consumo desenfreado e de um simulacro de felicidade quimicamente determinada. O que ela retira com uma das mãos, ela promete restituir com a outra. Mas a troca não passa de um engodo, de uma operação perversa e fraudulenta. Perversa porque está arruinando o meio ambiente natural do qual depende a vida no planeta, e fraudulenta porque a felicidade que os homens buscam não é a alegria espúria de uma fuga cínica e niilista em estados alterados de consciência. Se é verdade que o mistério do universo está contido num simples grão de areia, essa pílula do Alex é o projeto iluminista-faustiano embutido numa cápsula medicinal. Ela é o remédio desesperado de uma civilização doentia.

O equívoco fica já patente no uso do termo “felicidade” para denotar o efeito da pílula. O que é isso?! Eu não sou

menos pluralista que vocês. Posso conceber os mais diferentes modos de ser feliz. A felicidade do guerreiro não é a do monge; a do artista plástico não é a do banqueiro. “No amor”, declara o romancista francês Stendhal, “eu tenho a sensação de que uma felicidade ilimitada, para além dos meus mais desvairados sonhos, está logo ali dobrando a esquina, aguardando apenas uma palavra ou um sorriso.” A felicidade do amante libertino não é a do filósofo kantiano; a de Mobuto não é a do Dalai-Lama. As concepções da melhor vida são infinitas, ainda que nem todas sejam coerentes, socialmente toleráveis ou tenham o mesmo valor. Aceito tranqüilamente a idéia de que cada uma delas tem o seu apelo e a sua razão de ser.

O que não dá para engolir é a idéia de que a felicidade é alguma coisa que você compra, embrulha e leva para

casa, como aspirinas ou picolés. A felicidade não é algo ligado ao ter, mas ao fazer. Ela não é um humor ou um estado de ânimo, por mais exaltados e duradouros que sejam, mas o resultado de uma vida bem conduzida, ou seja, das escolhas e valores que definem o nosso percurso. A felicidade, em suma, jamais será um estado final que se possa adquirir e dele tomar posse de uma vez por todas. Ela é uma atividade — algo que se cultiva e constrói, algo que, por alguns momentos, se conquista e se desfruta, que é fonte de contentamento, mas que está sempre a exigir de nós empenho e amor, sempre recomeçando outra vez. É impossível conceber a felicidade humana sem algum sentido de realização. Acreditar no contrário equivale a negar a nossa humanidade. É o supra-sumo da alienação.

Suponham, só para concluir, que um deus baixasse aqui na sala agora e nos obrigasse a optar, sem apelação, entre

duas alternativas polares para o resto da vida. De um lado, a autoconsciência torturada e atormentada, digamos, de um são Bernardo — “nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade”. E, do outro, a alegria perpétua, inconsciente de sua causa e infalível da pílula 365 dias por ano. O que o Caliban ferido e esfomeado faria, a opção da fera trancafiada no porão das nossas mentes, não é difícil de imaginar. Quem nunca comeu geléia, quando come se lambuza. Mas o que eu gostaria de saber é: o que vocês escolheriam?

 

MELO: Cadê o açoite para começar o suplício?

 

OTTO: Se não existisse nenhuma outra opção, Leila, eu ficaria com o santo. Mas defenderia com unhas e dentes o direito dos que preferissem a pílula. E confesso, ainda, que não iria ficar nem um pingo mais deprimido ou atormentado do que o seu deus já me forçou a ser se muita gente optasse por ela.

 

ALEX: Unanimidade, Leila. Apesar de nossas divergências, neste ponto ao menos estamos todos de acordo. Sinto dizer, contudo, que o nosso tempo por hoje (sempre ele!) acabou. E como já é de praxe em nossas reuniões, aproveitarei a condição de coordenador para fazer um breve comentário e balanço final do que discutimos esta noite.

Conhecendo a Leila, eu esperava que ela reagisse à idéia da pílula. Mas a virulência e o tom emocional da reação

me surpreenderam. Penso, não obstante, que as preocupações que ela coloca são legítimas. É curioso observar como a mesma ciência e a mesma tecnologia por meio das quais dominamos a natureza podem se tornar o tortuoso caminho de nossa — vergonhosa? — rendição final a ela. Mas eu certamente não chegaria ao ponto de tentar proibir ou propor a destruição da fórmula da pílula. Mesmo que isso fosse exeqüível — o que não me parece ser, mas também não vem ao caso —, eu ainda apoiaria a idéia de dar uma chance à liberdade, como propõe o Otto, mas desde que temperada pela cautela que o Melo, sempre um moderado conciliador, sugere.

Por outro lado, a pergunta final da Leila e as respostas que nós, unanimemente, demos a ela, permitem esclarecer

um ponto crucial. A felicidade é só o que importa? Ficou bem claro que não. Se a felicidade for entendida na acepção de bem-estar subjetivo local (estar feliz), nenhum de nós estaria disposto a passar o resto da vida fechado no interior de uma bolha de alheamento extático, e isso mesmo que nós não tivéssemos ciência de estar sob o efeito ininterrupto da pílula e mesmo que o preço da única alternativa fosse uma vida de tormento e autoflagelo. Se a felicidade for entendida, dentro do conceito mais reflexivo, como a escolha e a realização de um percurso de vida satisfatório (ser feliz), a opção pela pílula da felicidade instantânea como modo de vida seria forte candidata ao status de pior vida ao nosso alcance. Nos termos das opções polares oferecidas pelo deus da Leila, o ser feliz nesse caso se opõe frontalmente ao estar feliz.

As conseqüências do avanço científico e neurotecnológico são de fato imprevisíveis. O poder que o progresso

técnico confere é como um avião a jato — pode ser usado para aumentar a liberdade e o bem-estar ou para a realização de atentados terroristas e o bombardeio de civis indefesos. O avanço dos meios é patente, mas e os fins? Nenhum sistema socioeconômico, salto tecnológico, descoberta científica, dogma religioso ou pacote ideológico resolverá os nossos problemas por nós. A questão fundamental que temos pela frente é de ordem ética. A velha pergunta socrática — como viver? — nunca foi mais urgente.

O saldo do século XX, estamos de acordo, não foi nada animador. Mas a esquisitice do ser humano é tamanha que

dela se pode esperar qualquer coisa, inclusive — por que não? — boas surpresas. Quem sabe a banalização da felicidade não leve os homens a se darem conta de que, nesta vida, nada é tudo, nem mesmo a felicidade? Foi graças ao sofrimento e à dor que o animal humano adquiriu a autoconsciência. É a consciência do sofrimento e do júbilo compartilhados que nos une e que nos vincula uns aos outros. A dor e o mistério de existir são prerrogativas das quais a humanidade jamais consentirá em abrir mão. A magia e o encanto da existência — estar vivo e viver entre os vivos — se renovam nessas fontes. O absurdo e a inquietude têm suas compensações.

 

(*) As leituras complementares recomendadas por Alex, em ordem de importância, para o quarto encontro foram: Robert Nozick, “Happiness”; B.

Hoebel et al., “Neural systems for reinforcement and inhibition of behavior: relevance to eating, addiction, and depression”; e Roland Puccetti, “Is pain necessary?”.