Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

Fabrina Magalhães Pinto · Capítulo 14 de 14 · parte 2/2

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Filosofia, política e cosmologia: ensaios sobre o renascimento

Cosmologia e ética no tempo de Giordano Bruno

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

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3. Para Quentin Skinner, o processo que começou em Pisa, em

1085, se estendeu por outras cidades até que, em fins do século XII, essa forma republicana de autogoverno já tivesse sido adotada por quase todas as principais cidades da Itália, como Milão, Arezzo, Bolonha, Lucca, Florença, entre outras (SKINNER, 1996, p. 26). Ainda que, em fins do século XIII, a maior parte dessas cidades fora cindida por suas facções internas e muitas delas tenham sido forçadas a abandonar as constituições republicanas e a aceitar o poder de um único signore, passando assim de uma forma de governo livre para outra despótica, a república de Florença resistirá, e será o nosso objeto de análise neste artigo.

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4. Em 1401 foi realizado um concurso para a criação das portas

em bronze do Batistério de São João, em que concorreram Lorenzo Ghiberti, Filippo Brunelleschi e Donatello.

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5. Imagem disponível em: <https://s-media-cache-

ak0.pinimg.com/736x/7d/d4/9c/7dd49c0a0e726f455c676e87857

72401.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2017.

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6. Imagem disponível em:

<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e6/Frances

co_di_Giorgio_Martini%2C_veduta_ideale_di_città_fantastica%

2C_1495_circa%2C_berlino_2.jpg>. Acesso em: 17 abr. 2017.

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7. (BRUNI, 2008, p. 243). Podemos encontrar as seguintes

traduções dos textos de Bruni: H. Baron. From Petrarch to Leonardo Bruni: Studies in Humanistic and Political Literature (1968, p. 232-63). Uma tradução inglesa pode ser encontrada em B.G. Kohl e R.G Witt. The Earthly Republic: Italian Humanists on Government and Society (1978, p. 135-75). A parte IV apenas foi traduzida em The Humanism of Leonardo Bruni, trad. G. Griffiths, James Hankins, e D. Thompson (1987, p. 116-21). E ainda a tradução italiana: L. Bruni. Opere letterarie e politiche, a cura de Paolo Viti (1996). Neste artigo usaremos a edição bilíngue latim-francês da Laudatio florentinae urbis. In: Histoire, éloquence et poésie à Florence au début du Quattrocento. Textes choisis, édites et traduits par Laurence Bernard-Pradelle (2008, p. 205-301). A tradução do original em latim para o português da Laudatio, bem como sua introdução e notas explicativas, realizadas por mim e Alexander de Carvalho, serão publicadas na Revista Morus, no segundo semestre de 2017.

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8. Segundo Edmilson M. Rodrigues: “as cidades ideais são

imaginadas a partir da dinâmica interna das cidades reais, não necessitando de um elemento externo para adquirir sentido e ganharem forma. Por isso, sua representação imagética tende a associá-las à cultura aristocrática, ao refinamento nobre e à arte no sentido de sua força estética. Entretanto, são essas cidades ideais que se afirmam como modelos para a construção das cidades coloniais na América Ibérica. Os critérios de ordem das cidades ideais têm uma dinâmica assegurada pela geometrização de sua imagem, que é, ao mesmo tempo, o limite de sua característica ideal e também sua fronteira. As cidades utópicas, ao contrário, constituem-se a partir de um

espelho externo para depois voltarem-se para dentro das cidades reais, precisam de um espaço constituído como “alhures” ou “lugar nenhum” para existirem. Como já são produções da segunda fase do humanismo, posterior a Maquiavel, as cidades utópicas expressam valores éticos e morais, associando-os ao lugar geográfico, quase todas tendo como elemento comum estarem separadas do mundo real pelo braço de mar ou por um rio, adquirindo a feição de uma “ilha” isolada. Por isso, são mais difíceis de serem construídas no imaginário e possuem um ordenamento físico muito mais detalhado” (RODRIGUES, 2009, p. 373).

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9. Muitos analistas ainda hesitam em datar de maneira precisa a

Laudatio Florentinae urbis, como é o caso de: Baron (1968, p. 232-63); Viti (1996, p. 568-647). As pesquisas mais recentes se detêm no período entre 1403 e 1404. Ver especificamente: Hankins (1990, vol. I, p. 377); Viti (1992, p. 4, n. 3); Witt (1990, p. 183).

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10. Após ter conquistado a maior parte das cidades da Emília-

Romana e da Toscana, o duque Giangaleazzo Visconti já ameaçava invadir Florença, em 1399, se a peste não o tivesse capitulado, em setembro de 1402. Portanto, a sua inesperada morte coloca fim à possibilidade imediata de um conflito que seria extremamente doloroso à cidade toscana; tendo em vista as suas perdas militares anteriores e a conquista da cidade de Pisa, em 1399, pelo duque de Milão, impossibilitando o comércio florentino pelo mar (LANZA, 1991, p. 13-37).

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11. Baron destaca a influência do Panatenaico, de Elio Aristides,

como uma das principais referências para a escrita do elogio bruniano (BARON, 1958). Apesar de concordarmos com o autor, não partilhamos da sua tese de que seria esta a única fonte que Bruni teria se baseado para escrever a sua obra. Acreditamos que outras referências, como a Invectiva contra Antônio Loschi de Coluccio Salutati, bem como os tratados de Hermógenes (Progymnasmata) e de Menandro, o rétor, tenham

sido importantes para a construção de seu encômio. Para a análise da influência de Hermógemes e Menandro conferir o artigo de Bernard-Pradelle (2000, p. 355-387).

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12. Aqui utilizamos a seguinte tradução: Aristides (1987, p. 113-

254). Não há um critério unânime sobre quando foi pronunciado o Panatenaico. Alguns autores acreditam ter sido em 155, e outros em 167. No que tange a forma, se trata de um panegírico de uma cidade, semelhante a outros que Aristides escreveu. Com este discurso o sofista se somava a uma larga tradição de elogios de Atenas; em especial àquela dos elogios fúnebres. Contudo, ainda que não trate de uma temática nova, temos notícias sobre o atrativo destes elogios entre diversos autores da época. Cf. Loraux (1981). Ver também: Bowie (1981, p. 203ss).

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13. O foco de sua análise já está na perfeita relação entre a cidade

e seus habitantes, o que lhe permite transpor para Florença as qualidades geralmente atribuídas aos homens. A cidade, como bem destaca Laurence Pernot, não é apenas uma alma e uma biografia, mas ela também possui um corpo, constituído por suas construções, pelo seu sítio e por sua situação (PERNOT, 1993, p. 191).

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14. E continua Bruni: Isso porque elas possuem em geral apenas

uma ou duas ruas bem construídas, nas outras todas a ausência de bela constituição é tal que elas enrubescem grandemente de vergonha ao serem vistas por estrangeiros (BRUNI. Laudatio, 2008, cap. 10). Serei eu um tolo por ficar enumerando tudo isso? Ainda que eu tivesse cem línguas, cem bocas e uma voz de ferro, não poderia mostrar toda a magnificência, as belas construções, os tesouros, o luxo e o brilho de Florença (Idem, cap. 12).

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15. Villani considerava que Florença fora criada no período

imperial, “quando César havia enviado tropas para punir os

habitantes de Fiesole, por terem apoiado Catilínia em sua revolta” (BIGNOTTO, 2001, p. 95).

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16. Baron já sublinhou que tanto a Invectiva quanto a Laudatio, de

Bruni, foram escritas em decorrência das ameaças do duque de Milão Gian Galeazzo Visconti à cidade de Florença, salientando como essa experiência foi intensamente vivida pelos cidadãos (BARON, 1966). O combate que se trava em ambos os textos é entre uma cidade que é tradicionalmente livre e tiranos como o duque milânes, que se veem como os legítimos conquistadores da península; e cujo governo seria superior, mais organizado e próspero do que o modelo republicano. Sobre este conflito ver também: Brucker (1981, p. 146 ss); Lanza (1991, p. 13-37). O texto de Salutati é uma resposta a um panfleto de 1399 escrito por Antonio Loschi, Invectiva in florentinos. Na sua Invectiva afirma Salutati sobre o passado republicano de Florença: “[…] não pode haver dúvida de que nossa cidade teve um início ainda mais augusto do que se poderia pensar”. […] “Quem poderia assinalar o verdadeiro princípio do vilarejo? Donde fica claro para nós que é um dado hereditário que nossa origem primeira permaneça desconhecida, assim como aquela de Roma; o que de resto é um argumento muito válido para provar a antiguidade”. (SALUTATI, Coluccio. Invectiva contra Antonio Loschi. In: BIGNOTTO, 2000, p. 244).

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17. “De onde, portanto, se origina este povo? Quais foram seus

ancestrais? Por quais mortais esta ilustre cidade foi fundada? Reconhecei, florentinos, reconhecei vossa estirpe e vossa linhagem! Considerai que de todas as gentes sois os mais ilustres! Os outros povos têm como ancestrais refugiados ou banidos de suas pátrias, camponeses, imigrantes obscuros ou fundadores desconhecidos. Os vossos fundadores, entretanto, foram os romanos, conquistadores e senhores de todo o orbe terrestre” (BRUNI, 2008, cap. 30).

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18. Sobre este aspecto no texto de Salutati afirma Bignotto que

“não é pela caracterização de uma república como um regime

que respeita a liberdade de seus cidadãos e luta por sua independência com relação aos tiranos e príncipes que podemos depreender a novidade do procedimento do chanceler da República Florentina”. Mas esta relação com o passado republicano constitui um elemento que os autores medievais estavam longe de suspeitar (BIGNOTTO, 2001, p. 96).

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Maquiavel e seus primeiros leitores e

 

A virtù do governante maquiaveliano

 

e a tradição das virtudes cristãs

 

1. Professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade

Federal de Minas Gerais (UFMG). Esse texto faz parte de minha pesquisa financiada por uma Bolsa de Produtividade do CNPq.

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2. Ambos foram editados por Albertini (1970). Basta procurar entre

as p. 376-384, para o primeiro e p. 385-390, para o segundo. Todas as citações dos escritos de Alamanni foram retiradas dessa edição.

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3. Gilbert foi pioneiro em mostrar o “realismo ingênuo” que está no

centro do pensamento de muitos jovens da geração de Alamanni. Cf. Gilbert (1970, p. 120).

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4. Como exemplo, podemos pensar no terceiro capítulo d’O

Príncipe e na análise da conquista de Milão. Ao mesmo tempo cabe recordar que em seu Discursus florentinarum rerum post mortem iunioris Laurentti, ele também faz referências aos grupos políticos presentes na cidade. Essa descrição, no entanto, é diferente daquela d’O Príncipe na medida em que tem um alcance meramente histórico. A esse respeito, ver Pancera (2010).

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5. Opomo-nos à interpretação de Albertini que, comentando a

mesma passagem, afirma: “In modo machiavellico, a dir poco, egli soppesa le possibilità si adotar ela prima soluzione e giunge ala conclusione che l’impiego della violenza è anacronistico e inattuabile” (ALBERTINI, 1970, p. 36).

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6. Os documentos de que dispomos sobre a conspiração foram

publicados em: “DOCUMENTI della congiura fatta contro il Cardinale Giulio de’ Medici nel 1512”. Giornale storico degli Archivi Toscani, III, 1859.

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7. Utilizamos aqui a primeira edição de seus escritos (BRUCIOLI,

1526). Para um estudo do conjunto de seus escritos ver: Spini (1940); Brucioli (2008).

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8. Conferir especialmente os trabalhos de Valcke (2005); Safa

(2001).

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9. Ver a respeito dessa questão: Bignotto (2006, p. 162-192).

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10. Esse texto reproduz trechos da minha dissertação, intitulada

Virtù e valores no pensamento de Maquiavel. Ele constitui parte do resultado de um projeto que desenvolvo atualmente na condição de pesquisadora financiada pelo CNPq\FAPEAL.

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11. As seguintes abreviaturas serão usadas para a obra Discursos

sobre a primeira década de Tito Lívio: 1. Discorsi, quando no texto; 2. Quando em nota no corpo do texto ou como referência bibliográfica, entre colchetes após o ano referente da edição utilizada, usaremos D, seguida do livro e do capítulo.

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12. Para referenciar a obra O Príncipe, usaremos a abreviatura P,

seguida do capítulo entre colchetes, após o ano da edição utilizada nas referências bibliográficas em nota no corpo do texto.

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13. Necessidades imediatas ou, para usar um termo mais

apropriado para a filosofia, contingências. No que diz respeito à política, nem tudo se resume às contingências, como se procurará mostrar mais adiante. Porém, estas últimas podem ser definitivas e, por isso, ocupam um lugar importante no pensamento de Maquiavel.

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14. As qualidades apontadas como tais pela “moral” cristã

encontram-se explícitas, em especial, no Gênero dos Specula (enquanto conceito) e na análise que Maquiavel faz do caso Savonarola (enquanto tentativa de ação).

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15. LEFORT. Desafios da Escrita Política. São Paulo: Discurso,

1999. p. 141-177.

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16. Talvez aqui tenhamos encontrado uma distinção mais definitiva

no que diz respeito à comparação d’O Príncipe com os Specula. Enquanto no caso destes últimos o governante deve se guiar em geral pelo dever-ser, O Príncipe parece sugerir uma postura um pouco distinta. Não se trata, assim, de suprimir esta dicotomia no âmbito teórico, mas de ultrapassá-la pela opção pela efetividade do que Sfez chama de “política do meio mal”. Não podemos pensar, entretanto, que a peculiaridade da obra de Maquiavel, ao identificar o espaço da política como coincidente com o da aparência, se caracteriza como uma consequência exclusiva das distinções que apresenta em relação aos manuais tradicionais de aconselhamento para príncipes. Nem tampouco que ele encerra sua análise sobre as possibilidades das ações do governante para conquistar e manter o poder, assim como sobre a variação das circunstâncias que lhe são próprias. Há outros elementos apontados por Maquiavel que ainda não foram tratados em nosso trabalho. Uma vez analisados a divisão do corpo político e o conflito inevitável entre suas partes, assim como o ambiente deste corpo político que é caracterizado pela aparência, resta-nos ainda investigar o elemento que impõe ao corpo político a maior parte das variações de suas circunstâncias (algumas

vezes já mencionado no presente capítulo, mas ainda não investigado). Em outras palavras, resta-nos ainda analisar a fortuna, elemento capaz de introduzir modificações nas circunstâncias em que o governante deverá efetivar suas ações.

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Maquiavel, o conflito e o desejo de

 

não ser dominado

 

1. Professor Associado do Departamento de Filosofia da UFMG.

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2. Dominari illi volunt, vos liberi esset (SALÚSTIO, 2012a, p. 60,

grifo meu).

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3. Para uma apreciação do papel do medo no pensamento de

Salústio, vale a pena consultar o livro de Daniel Kapust (2011), especialmente os capítulos 2 e 3.

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4. Estou inteiramente de acordo com a seguinte declaração de

Fontana: “In effect, it seems that Machiavelli is taking Memmius’ thematic idea – product, it should be noted, of the very dissension and factionalism that Memmius appears to lament, and which was originally intended by Sallust as a critical analysis of post-Marian Rome – and generalizes it into a conceptual and theoretical category of political discourse. In so doing, he presents a novel and revolutionary interpretation of Roman republican institutions which moves away from the traditional emphasis on unity, order, and the tranquillitas necessary for the public good” (FONTANA, 2003, p. 92, grifo meu).

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5. Vale notar que estou fazendo aqui um uso restrito do termo

“história”, reduzindo-o à narrativa dos acontecimentos. Em sua acepção ampliada, mais rica, a história é tanto o discurso que

recolhe os eventos em sua particularidade quanto aquele em que eles ganham sua inteligibilidade a partir de princípios gerais. De acordo com essa última acepção, a história é o horizonte em que se insere a reflexão de Maquiavel, assim como a de Salústio (a respeito, ver ARANOVICH, 2007). E, ainda levando em conta essa acepção ampliada de história, é preciso fazer justiça a Salústio e reconhecer a natureza conceitual de seu trabalho de historiador. Os princípios gerais que lhe interessa formalizar são diferentes dos de Maquiavel, o que significa dizer que sua concepção da política é também diferente (Cf. KAPUST, 2011).

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6. Como afirma S. Cardoso (2015, p. 243-4), “os grandes, movidos

pela ambição de bens e de mando, por interesses particulares ou facciosos (de ‘alguns’), definem-se como classe política somente por sua aversão – e seu ódio – ao povo e à repressão das leis. Só a oposição popular, portanto, faz deles classe e, assim, atores propriamente políticos”.

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7. Não querer ser dominado implica a extensão universal do

desejo porque é recusa da particularidade da dominação, assim como de seu caráter determinado (LEFORT, 1978).

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8. A respeito ver o artigo de Sérgio Cardoso (2015).

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9. E valeria ainda a pena recordar outra retirada da plebe em um

momento crucial da história romana, aquele que corresponde à resistência à tirania dos decênviros, comentado por Maquiavel em Discorsi, I, 40.

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10. É importante, aliás, ressaltar a constante presença dessa

expressão em Maquiavel, herança dos escritores latinos, como o próprio Salústio.

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11. Como vemos em Discorsi, II, 2.

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12. Cf. O principe, VII; Discorsi, I, 7 e 8; História de Florença, livro

II.

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13. A mesma proposição é novamente formulada no capítulo 3,

quando Maquiavel afirma que os homens apenas fazem o bem “onde há necessidade” (MAQUIAVEL, 2000, p. 70).

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14. Se voltarmos ao capítulo 3, esta violência é descrita como as

insuportáveis e constantes “ofensas” da nobreza, que levaram a plebe a se rebelar.

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15. Como vemos no capítulo 3 do livro I.

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16. Não sendo possível desenvolver este tema aqui, apenas indico

uma passagem crucial do segundo livro da História de Florença em que Maquiavel entende o desejo do povo como o de “vivere secondo le leggi”.

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Os usos de stato e umori em o

 

príncipe: uma leitura a partir de

 

gennaro sasso

 

1. Este trabalho foi composto para uma comunicação oral no

encontro “500 anos de O Príncipe: colóquio Maquiavel” realizado na UFMG entre os dias 17 e 19 de junho de 2013.

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2. Professor de Ciência Política da Universidade Federal

Fluminense (UFF).

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3. No presente trabalho, para referenciar a obra O Príncipe,

usaremos a abreviatura Principe, seguida do capítulo.

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4. “E’ principali fondamenti che abbino tutti li stati, cosí nouvi come

vecchi o misti, sono le buone legge e le buone arme”.

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5. Abreviatura usada para referenciar a obra Discursos sobre a

primeira década de Tito Lívio, em seguida estão indicados o livro e o capítulo utilizados.

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6. Tal interpretação implica no imperativo de que a bondade plena

somente se constitui e pode ser percebida fora do universo político.

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7. As seguintes abreviaturas serão usadas para referenciar tal

obra:1. Discorsi, quando no texto; 2. Discorsi, seguida do livro e do capítulo quando em nota no corpo do texto ou como referência bibliográfica, como fora mencionado anteriormente.

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8. “Io dico che coloro che dannono i tumulti intra i Nobili e la Plebe

mi pare che biasimino quelle cose che furono prima causa del tenere libera Roma, e che considerino più a’ romori e alle grida che di tale tumulti nascevano, che a’ buoni effetti che quelli partorivano; e che e’ non considerino come e’ sono in ogni republica due umori, quello del popolo e quello de’ grandi; e come tutte le leggi che si fanno in favore della libertà, nascano dalla disunione loro”.

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9. Para a obra História de Florença, a seguinte referência será

utilizada quando em nota no corpo do texto: Istorie Fiorentine, seguida do livro e do capítulo.

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10. “Le gravi e naturali nimicizie che sono intra gli uomini popolari e

i nobili, causate da il volere questi comandare e quegli non ubbire, sono cagione di tutti i mali che nascano nelle città, perché da questa diversità di umori tutte l’altre cose che pertubano le republiche prendono il nutrimento loro. Questo tenne disunita Roma; questo, se gli è lecito le cose piccole alle grandi agguagliare, ha tenuto diviso Firenze: avvenga che nell’una e nell’altra città diversi effetti partorissero, perché le

nimicizie che furono nel principio in Roma intra il popolo e i nobili, disputando, quelle di Firenze, combatendo, si difinivano; quelle di Roma con una legge, quelle di Firenze con lo esilio e con la morte di molti cittadini terminavono”.

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11. “Vera cosa è che alcune divisioni nuocono alle republiche e

alcune giovono. Quelle nuocono che sono dalle sètte e da partigiani accompagnate, quelle giovano che sanza sètte e sanza partigiani si mantengano. Non potendo adunque provvedere uno fondatore di una republicha che non sieno inimicizie in quella, ha a provvedere almeno che non vi sieno sètte”.

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Cosmologia em maquiavel?

 

1. Texto apresentado no Simpósio Internacional Renascimentos –

cosmologia, natureza e ética, realizado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, na cidade do Rio de Janeiro, de 09 a 11 de setembro de 2015.

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2. Professor adjunto do Departamento de Filosofia da

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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3. Doravante designaremos esta obra apenas de Discursos,

indicando, na sequência, o livro e o capítulo; quando em parênteses, utilizaremos a letra inicial D, seguida do livro e do capítulo.

↩

4. O termo natura tem 127 ocorrências; natural, 5; naturale, 45 e

naturali, 10.

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5. D, I, 56: “donde ei si nasca io non so, ma ei si vede per gli

antichi e per gli moderni esempli, che mai venne alcuno grave acidente in um città o província, che non sia stato, o da indovini o da rivelazioni o da prodigi o da altri segni celesti, predetto.

[Savonerola, etc] […]. La cagione di questo credo sia da essere discorsa e interpretata da uomo che abbi notizia dele cose naturali e soprannaturali: il che non abbiamo noi. Pure, potrebbe essere che, sendo questo aere, come vuole alcuno filosofo, pieno di intelligenze, le quali per naturali virtù preveggendo le cose future, ed avendo compassione agli uomini, acciò si possino preparare alle difese, gli avvertiscono com simili segni. Pure, comunque e´ si sia, si vede così essere la verità; che sempre dopo tali accidenti sopravvengono cose istraordinari e nuove alle provincie”.

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6. D, III, 1: “Egli è cosa veríssima, come tutte le cose del mondo

hanno il termine della vita loro; ma quelle vanno tutto il corso che è loro ordinato dal cielo, generalmente, che non disordinano il corpo loro, ma tengolo in modo ordinato, o che non altera, o, s ´egli altera, è a salute, e non a danno suo. E perché io parlo de´ corpo misti, come sono le republiche e le sètte, dico che quelle alterazioni sono a salute, che le riducano inverso i principii loro”.

↩

7. “Di poco avea Dio fato le stelle,/el ciel, la luce, le elementi e l

´uomo,/dominator di tante cose belle”.

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Sêneca, montaigne e a utilidade dos

 

saberes

 

1. Professora do Departamento de Filosofia da Universidade

Federal de Mato Grosso (UFMT).

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2. Sobre Epicuro e Sêneca: “[…] tampouco são cartas vazias e

descarnadas, que se sustentam apenas por uma delicada escolha de termos acumulados e ordenados num ritmo regular, e sim recheadas e repletas de belas reflexões de sapiência, pelas quais nos tornamos não mais eloquentes e sim mais sábios, e que nos ensinam não a falar bem e sim a bem agir”

(MONTAIGNE, 2002, Livro I, 40, p. 375). Ver também Méniel (2003).

↩

3. As imagens do Renascimento desenhadas por Nakam mostram

bem o cenário cultural do período: transitoriedade, dramaticidade, precariedade. Cf. Nakan (1985, p. 15, 16).

↩

4. As passagens, entre muitas, nas quais podemos observar a

crítica aos saberes e sua utilidade podem ser aferidas no capítulo 12 do Livro II, ou no capítulo 12 do Livro III dos Ensaios.

↩

5. Cf. Eva (1999, p. 13, 14). Ver também: Merleau-Ponty (1991, p.

221ss).

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6. Nos Ensaios, as letras A, B e C entre colchetes designam as

passagens que Montaigne acrescentou aos capítulos já publicados: ‘A’, da primeira edição, em 1580; ‘B’, segunda edição, em 1588; e ‘C’, edição póstuma de 1595, segundo o manuscrito de Bordeaux (exemplar da segunda edição dos Ensaios com novos acréscimos escritos por Montaigne, encontrado após a morte).

↩

7. Cf. Carneiro: “Perante os antigos, Montaigne se porta como um

leitor humanista na melhor versão, curioso e algo reverente em relação a um cânone pagão renovado, mas estimulado a produzir comentários pessoais aos textos, interligando passagens literárias e reflexões morais, comparando-as entre si e estabelecendo-as como parâmetro na avaliação de eventos modernos e de sua própria conduta moral e intelectual […]. Mais propenso a explorar o potencial perturbador dos textos do que a conciliar suas contradições, ou a acomodá-los, domesticando-os, à moral cristã e à tradição escolar, os Ensaios se mostram, primordialmente, como o registro pessoal e mesmo idiossincrático de uma experiência de perplexidades, simultaneamente crítica e autocrítica – de onde, costuma-se dizer, vem a importância de seu contato com o pirronismo. A

prática da leitura humanista é assim reorientada no sentido de avivar as aporias e os estranhamentos produzidos por um exercício de julgamento que parte dos textos mas vai além deles. Procedimento decisivo na avaliação de autores (contrapondo Virgílio e Lucrécio, Plutarco e Sêneca, Tito Lívio e Tácito, etc.), o iudicium comparativo será arma, tão contundente quanto afiada, também na abordagem de assuntos “não literários”, temas espinhosos como a fé religiosa, a sexualidade ou a própria natureza “instável” do eu racional em um procedimento que desestabiliza, por contágio, todo um sistema de crenças paralisantes e categorias simplificadoras […]. Advertindo-nos que limitará sua atividade de escrita ao propósito restrito de se dedicar à criação de um ethos privado, ele pode tomar distância dos saberes instituídos e se pronunciar em nome próprio” (CARNEIRO, 2011, p. 115-116).

↩

8. Segundo Sêneca (2009, Carta 51, p. 174), a liberdade consiste

“Em não ser escravo de nada, de nenhuma necessidade, de nenhum acaso, em lutar de igual para igual com a fortuna”. E na Carta 75 (SÊNECA, 2009, p. 301): “Queres saber em que consiste a liberdade? Em não temermos nem os homens nem os deuses; em não desejarmos nada que seja imoral ou excessivo; em termos o maior domínio sobre nós próprios […]”.

↩

9. Na Carta 111, 1, 2, 3 encontramos a crítica aos cauillationes

(sophisma), os discursos vazios de utilidade prática e cheios de sutilezas capciosas.

↩

10. Cf. Montaigne (2000, Livro II, 12. p. 230, 231); (2002, Livro I, 26.

p. 239).

↩

11. Ver especialmente o capítulo Da arte da conversação, Ensaios,

Livro III, 8.

↩

12. Sêneca aconselha: “Subtrai-te quanto possível a essas

sutilezas, a essas argúcias da filosofia. À boa formação do espírito convém a clareza e a simplicidade. Ainda que nos

restasse muito tempo de vida, haveria que poupá-lo com cuidado, de modo a bastar o indispensável. Grande estultícia seria aprender inutilidades apesar de uma tão grande escassez de tempo!” (SÊNECA, 2009, Carta 48, p. 165).

↩

13. Na Carta 76, Sêneca afirma que quando a razão se realiza

inteiramente, alça o homem à plenitude: “[…] o homem torna-se admirável e atinge sua finalidade natural quando leva a razão à perfeição máxima. À razão perfeita chamamos a virtude, a qual é também o bem moral” (SÊNECA, 2019, p. 314).

↩

14. Quanto à utilidade dos preceitos na constituição da conduta, ver

Carta 94, especialmente 21, 30, 31, p. 485.

↩

15. “Vou compondo alguma coisa que lhe possa vir a ser útil; passo

ao papel alguns conselhos, salutares como as receitas dos remédios úteis […]” (SÊNECA, 2009, Carta 8, p. 18, 19).

↩

16. Sobre as divisões da filosofia e a polêmica que Sêneca

estabelece com os filósofos, ver Carta 89, p. 431ss; e Carta 94, p. 479ss.

↩

17. Segundo Gazolla (1999, p. 71), o sábio estoico sintetiza uma

imagem persuasiva de guia, porém não atingível. A imagem do sábio senequiano é um modelo a ser perseguido, está no plano ideal e desempenha o papel de mestre exemplar. Sócrates e Catão são referências nesse sentido. Na Carta 42, 1, a figura do sábio tem por referência a fênix; entre o surgimento de uma e outra são guardados grandes intervalos de tempo.

↩

18. “Segundo o estoicismo antigo, os homens estavam divididos em

duas classes somente, a dos sapientes (sábios) e a dos stulti (insensatos). Uma categoria intermediária, a dos proficientes, pode ter se originado durante o estoicismo médio. Estes, embora não sapientes, eram os que haviam se iniciado no caminho para a sapientia e também se encontravam separados

em classes, de acordo com as quais se achavam mais ou menos próximos da sabedoria” (BREGALDA, 2006, p. 39).

↩

19. Epicuro (1980, p. 13) reafirma a utilidade da filosofia em:

“Deves servir à filosofia para que possas alcançar a verdadeira felicidade”. Ver também Epicuro (2013).

↩

20. “[B] A filosofia não luta contra as voluptuosidades naturais,

contando que lhes seja juntada a justa medida, [C] e prega a moderação nelas, não a fuga: [B] a força de sua resistência volta-se contra as estranhas e bastardas” (MONTAIGNE, 2001, Livro III, 5, p. 160).

↩

21. Segundo Eva (2012, p. 397-419), Montaigne estabelece

critérios distintos para a ação e para a verdade, ou seja, para a “dimensão prática e a experiência”, de um lado, e para “o modo como as pretendemos conhecer”, de outro. Entendemos que a base da “dimensão prática” em Montaigne circunda menos uma possível naturalização da ética e mais a ênfase sobre um apurado autoconhecimento a partir da experiência de si e da observação dos homens.

↩

 

O humanismo da palavra: rabelais e o

 

discurso do homo ridens

 

1. Artigo traduzido do italiano para o português pela pesquisadora

Talita Janine Juliani, Licenciada em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Mestre (CAPES) e Doutora (FAPESP) em Linguística (na área de Letras Clássicas) pela mesma instituição.

↩

2. Professora de História da Filosofia da Universidade de Bolonha

(UNIBO), na Itália.

↩

3. No primeiro caso, sofístico, o nome, a veste linguística,

reproduz o modelo assim como aparece à vista, no segundo o reproduz segundo parece à mente (ALLEN, M. J. B., 1978, p. 117-118). Dois gênios, um benigno, o outro, maligno – exemplifica Bocchi –, preenchem o vaso que é a inteligência humana, criando obstáculos um ao outro. O gênio benigno preenche o vaso dos próprios inventa, que são nomes ou ícones de coisas, os quais contém em si a própria ideia da coisa denominada; o outro insinua palavras sofísticas e mentirosas, as quais, em vez de deixar transparecer a verdade, o sentido, a natureza das coisas, a esconde ainda mais. A distinção aqui proposta entre copia e inventum é a mesma que Sócrates determina entre phantasma e eikon, ambas cópias (mimèmata), mas apenas a segunda capaz de refletir uma “porção determinada de verdade”.

↩

4. “Voyez le Cratyle du divin Platon”. Les Cinqu Livres de F.

Rabelais, publiés avec des variantes et un glossaire, par P. Cheron. Paris: Librairies des bibliophiles, 1876. Livre IV: Pantagruel, p. 174.

↩

5. Os primeiros dois livros do ciclo de Gargantua e Pantagruel

(Les horribles et espoventables faictz et prouesses du très renommé Pantagruel Roy des Dipsodes, filz du Grand Géant Gargantua; e La vie très horrifique du grand Gargantua, père de Pantagruel, jadis composée par M. Alcofribas abstracteur de quintessence. Livre plein de Pantagruélisme) são publicados em Lion respectivamente em 1532 e em 1534 sob o pseudônimo de Alcobribas Nasier, que é o anagrama de François Rabelais.

↩

6. Les Cinqu Livres, cit., Livre II: Pantagruel, o diálogo entre

Panurge e Pantagruel está no capítulo IX, p. 52-58.

↩

7. A primeira edição russa foi publicada em 1965, ver: BAKHTIN,

M. Rabelais and his World. Cambridge (Mss.); GILSON, E. “Notes médiévales au Tiers Livre de Pantagruel”. Revue

d’Histoire Franciscaine, II, 1925; RENAUDET, A. Humanisme et Renaissance: Dante, Pétrarque, Standonck, Érasme, Lefèvre d’Étaples, Marguerite de Navarre, Rabelais, Guichardin, Giordano Bruno. Genève: Droz, 1958; SCREECH, M. A. Rabelais, Ithaca N.Y.: Cornell University Press, 1979; DEMERSON, G. Rabelais, une vie, une oeuvre, une époque. Paris: Balland, 1986.

↩

8. Cf. FEBVRE, L. Le probleme de l’incroyance au XVIe siècle. La

réligion de Rabelais (1942). Paris: Edition Albin Michel, 1947. p. 363-366.

↩

9. MEIGRET, L. Traité touchant le commun usage de l’escriture

françoise. Paris: J. Longis, 1542. p. 64r.

↩

10. VALLA, L. Repastinatio dialectice ac philosophie. G. Zippel

(Ed.). Padova: Antenore, 1982. I. p. 19.

↩

11. FOUCAULT, M. Les Mots et les Choses, Archéologie des

sciences humaines. Paris: Gallimard, 1966. p- 40-45.

↩

12. VALLA, L. Repastinatio dialectice ac philosophie,. I, 14. G.

Zippel (Ed.). Padova: Antenore, 1982, p. 122-23: «‘Vox’ humana naturalis illa quidem est, sed eius significatio ab institutione: que significatio et ipsa est qualitas.Verum et vox hec licet a natura oriatur, tamen ab institutione descendit. Homines enim, rebus cognitis, voces quas adaptarent invenerunt et propterea ‘signa’ appellaverunt, quorum primusfuit Adam,Deo auctore; easque cum suis significationibus posteros docuerunt, ut soni quidem sint a natura, voces autem sive signa et significationes ab artifice: atque ita, quod Plato vult, erit vox propria hominis. Aliter bruta non dicerentur ‘muta’ cum vocem emittant, sed quia non articulatam et artificio factam. Ex quo fit ut sonos auris, significationes animus, voces ambo percipiant».

↩

13. Cf. CAMPOREALE, S.; VALLA, L. Umanesimo e teologia.

Firenze: Istituto Nazionale di Studi sul Rinascimento, 1972.

↩

14. Cf. RABELAIS, F. Les Cinqu Livres, cit., Livre III: Pantagruel.

Paris: Librairie des bibliophiles, 1876, p. 104: “C’est abus dire que ayons linguaiges naturel: les languaiges son par insitutions arbitraires et convenences des peuples; les voix, comme disent les dialecticiens, ne signifient naturellement, maismais à plaisir”.

↩

15. Sorbonagre retorna no capítulo VIII da edição de 1533,

Pantagruel. Les Horribles et espoventables faictz et prouesses du très renommé Pantagruel, roy des Dipsodes, filz du grand géant Gargantua, composez nouvellement par Maistre Alcofrybas Nasier, s. n., 1533; a partir da edição de ’42, o termo não aparece e é substituído por sofistas; como por exemplo no capítulo XXI do Livre I, ed. cit., p. 75.

↩

16. VALLA, L. Repastinatio dialectice et philosophie. T. I:

“Retractatio totius dialecticae cum fundamentis universe philosophiae”. G. Zippel (Ed.). Padova: Antenore, 1982. p. 2; 15-16.

↩

17. A. Koyré, De la mystique à la science: cours, conférences et

documents, 1922-1962. P. Redondi (Ed.). Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1986. Cit., p. 28-29.

↩

18. Esta é a conclusão: “Il demanda seulement un ioueur de farces,

lequel il avoit veu on theatre, & ne entendent ce qu’il disoit, entendoit ce qu’il exprimoit par signes et gesticulations: alleguant que soubs sa domination estoient peuples de divers languaiges, pour es quelz respondre et parler, luy convenoit user de plusieurs truchemens: il seul à tous suffiroit. Car en matière de signifier par gestes estoit tant excellent, qu’il sembloit parler des doigtz. Pourtant vous fault choisir un mut sourd de nature, affin que ses gestes et signes vous soient naifvement propheticques: non saincts, fardez, ne affectez. Reste encores sçavoir si tel advis voulez ou d’home ou de femme prendre” (Livro III, cit., p. 105).

↩

19. Para Erasmo, a linguagem tem o poder de revelar o espírito

daquele que fala, de modo que os discursos malvados correspondem a um espírito corrupto, enquanto os verba vita são expressos por um espírito no qual Deus habita: “Quemadmodum autem unicum illud Dei verbum imago est Patris, adeo nulla ex parte promenti dissimilis et eiusdem sit cum illo individuaeque naturae, ita humanae mentis imago quaedam est oratio”, Apologia reiiciens quorundam suspiciones ac rumores natos ex dialogo figurato qui Jacobo Latomo… inscribitur. In: Desideri Erasmi. Opera omnia. Lugduni Batavorum, *** 1703, vol. V, p. 772f.

↩

20. VALLA, L. Retractatio, cit., 1, 2, 29-30, p. 19-20.

↩

21. RABELAIS, F. Le Cinqu Livres, cit., Livre II, p. 108: “Je veult

disputer par signes seulement, sans parler, car le matieres sont tant arduës que les parolles humaines ne seroyent suffisantes à les expliquer à mon plaisir”.

↩

22. Ibid., p. 110.

↩

23. Ibid., p. 120.

↩

24. Ibid., p. 120: “Vous avez veu comment son seul disciple me a

contenté et m’en a plus dict que n’en demandoys: d’abundand m’a ouvert et ensemble solu d’aultres doubtes inestimables. En quoy je vous puisse asseurer qu’il m’a ouvert le vray puits et abysme de l’encyclopedie, voire en une sorte que je ne pensoys trouver homme qui en sceust le premiers elemens seulement, c’est quand nous avons disputé par signes, sans dir mot, ny demi. Mais à temps je redigeray par escript ce que avons dict et resolu, affin que l’on ne pense que ce ayent esté mocqueries, et le ferait imprimer, à ce que chascun y apreigne, comme je ay faict. Donc povez juger ce que eust peu dire le maistre, veu que le disciple a faict telle prouesse, car non est discipulos super magistrum. En tous cas, Dieu soit loué! Et bien humblement

vous remercie de l’honneur que vous avez faict à cest acte. Dieu vous le retribue eternellement!”

↩

25. Apologia… Latomo, cit., vol. II, p. 772d: diferentemente dos

Silenos de Alcebíades, figuras rústicas e brutas por fora, mas que continham um sublime deus dentro de si, os homens – segundo Erasmo – preferem o inverso, a saber, uma aparência elegante e ornada, que esconde um espírito corrupto e vazio. O vazio de sua linguagem, na aparência douta, mas na realidade sofística, lhes é um sinal característico.

↩

26. RABELAIS, F. Les Cinqu Livres, cit., Livre II, p. 107-108.

↩

27. Cf. VALLA, L. “De libero arbitrio”. In: Opera Omnia, cit., vol. I, p.

1.009.

↩

28. RABELAIS, F. Les Cinqu Livres, cit, Livre II, p. 16-17 :

“Thaumaste, de grand hahan, se leva, mais en se levant fist un gros pet de boulangier, car le bran vint aprés, et pissa vinaigre bien fort, et puoit comme tous les diables. Les assistans commencerent se estouper les nez, car il se conchioit de angustie”.

↩

29. P. Levi, L’altrui mestiere.

↩

 

Giordano bruno, universo infinito e

 

finitude humana

 

1. Professor Associado na Universidade Federal do Rio Grande do

Sul (UFRGS).

↩

2. Uma extensa bibliografia sobre o tema pode ser encontrada nas

investigações filosóficas e historiográficas de Alexander Koyré (2008), Miguel A. Granada (2007), Nuccio Ordine (2006),

Newton Bignotto (1966), Wolfgang Neuser (1995) e Pietro Omodeo (2014), dentre outros.

↩

3. Uma análise da avaliação bruniana sobre a contribuição de

Copérnico encontra-se em Ingegno (1978, p. 26-33), especialmente no cap. II, Copernico come segno divino.

↩

4. De immenso, I, 2, p. 193; I, 1, p. 307.

↩

5. Ver especialmente as interpretações de Miguel A. Granada

(1989, p. 11-78) na introdução de Expulsión de la bestia triunfante; e Fúlvio Papi (1968).

↩

 

Cosmologia e ética no tempo de

 

giordano bruno

 

1. A tradução deste artigo do italiano para o português foi

gentilmente realizada pelo filósofo e Professor Associado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiz Carlos Bombassaro.

↩

2. Pesquisador do Max Planck Institute for the History of Science,

em Berlim.

↩

3. O confronto e o desencontro de Bruno com as autoridades

acadêmicas e eclesiásticas caracteriza a problemática complexa de seu modo de repensar infinitista em relação à cosmologia, antropologia, ética, política e religião. Para uma síntese elucidativa da concepção bruniana, em especial nos diálogos filosóficos italianos, ver: Granada (1999, p. IX-CXVIII); e Ordine (2004). Sobre as tensões ético-antropológicas e dos escritos vinculados à astronomia pós-copernicana e à cosmologia bruniana, tomo a liberdade de remeter ao meu texto (OMODEO, 2014, cap. 7 e 8).

↩

4. Referência imprescindível continua a ser Firpo (1993).

↩

5. Trata-se de temas muito conhecidos dos estudiosos da cultura

científica renascentista. Deles se ocupou Cassirer (1927). Ver também Garin (2007).

↩

6. Sobre o ‘milenarismo’ de Bruno, especialmente no Spaccio de

la bestia trionfante, ver Canone (2005, p. 53-65).

↩

7. Farei referência aos documentos do processo na edição

francesa (BRUNO 2000).

↩

8. “Igitur [Deus] hominem accepit indiscretae opus imaginis, atque

in mundi positum meditullio, sic est alloquutus: ‘Nec certam sedem, nec propriam faciem, nec munus ullum peculiare tibi dedimus o Adam, ut quem sedem, quam faciem, quae munera tute optaveris, ea pro voto, pro tua sententia, habeas et possideas. Definita caeteris [animalibus] natura intra praescriptas a nobis leges coercetur: Tu nullis angustiis coercitus, pro tuo arbitrio, in cuius manu te posui, tibi illam praefinies. Medium te mundi posui, ut circumspiceres inde commodius quicquid est in mundo. Nec te coelestem, neque terrenum, neque mortalem, neque immortalem fecimus, ut turpi ipsius quasi arbitrarius honorariusque plastes et fictor, in quam malueris tute formam effingas. Poteris in inferiora quae sunt bruta degenerare. Poteris in superiora quae sunt divina ex tui animi sententia regenerari.’ O summam Dei patris liberalitetem, summam et admirandam hominis felicitatem. Cui datum id habere quod optat, id esse quod velit” (PICO DELA MIRANDOLA, De hominis dignitate, vol. 1, p. 314-315) [Aqui citado da edição portuguesa: PICO DELA MIRANDOLA, 1989, p. 49].

↩

9. “Il dio ha trovato e ha donato a noi la vista, affinché, osservando

nel cielo i movimenti ciclici dell’intelligenza, ce ne servissimo per le circolazioni del pensiero che è in noi, le quali sono affini a

quelli, sia pure come circolazioni non ordinate a circolazioni ordinate; e così, traendone insegnamento e partecipando alla rettitudine dei ragionamenti conformi a natura, imitando le circolazioni del dio che sono del tutto regolari, correggessimo le nostre circolazioni erranti” (PLATONE, Timeo 47 B-C. Traduzione a cura di Giovanni Reale in Platone, Timeo, 155). [Aqui citado da edição brasileira: Platão, Timeu. São Paulo: Hemus, 1981, p. 110].

↩

10. “Quae primum eos [homines] humo excitos celsos et erectos

constitit [providentia naturae], ut deorum cognitionem caelum intuentes capere possent. Sunt enim ex terra homines non ut incolae atque habitatores sed quasi spectatores superum rerum atque caelestium, quarum spectaculum ad nullum aliud genus animantium pertinet. […] Nam oculi tamquam speculatores altissimum locum obtinent, ex quo plurima conspicientes fungantur suo munere” (CICERONE, De natura deorum, II, 56, p. 140ss. Tradução Luis Carlos Bombassaro (LCB)).

↩

11. Referência standard sobre a questão da concepção

melanchtoniana da astronomia, em particular da astrologia como ciência da Providência Divina, encontra-se em Kusukawa (1995).

↩

12. Trato do gênero laudatio mathematicae em “Utilitas

astronomiae”. In the (RERANISSANCE, 2015).

↩

13. A paixão pelo pitagorismo como filosofia apta a suportar uma

abordagem matemática da natureza pode ser colocada no contexto de dois debates culturais importantes. O primeiro, concernente a certitudo mathematicarum foi estudado por De Pace (1993). O segundo é a astronomia copernicana, como bem mostrou a seu tempo Bilisnki (1977) e Omodeo (2014, seção 4, 4, p. 167-170. “The Invention of Pythagorean Cosmology”.

↩

14. “Apparet itaque, quam inique ordinationi et providentiae divinae

contradicant, qui astrorum nullam esse asserunt in haec inferiora influentiam” (BRAHE. De disciplinis mathematicis, 1972, p. 143–174; p. 155).

↩

15. A importância de Pico no debate astronômico do século XVI foi

destacada, talvez de modo exagerado, por Westman (2011).

↩

16. “Cum itaque tanta sit analogia inter septem Planetas et inter

septem principalia membra in hominis corpore adeoque sibi omnia consentiant, ut quasi ad ideam superioris mundi formatus esse homo, ideoque non immerito a philosophis Microcosmos appelletur: quis unquam sanae mentis negare poterit, coelestia corpora in humana, quibus tanta officiorum similitudine devincta sint, influere?” (BRAHE, 1972, p. 157-158).

↩

17. Remeto à discussão apresentada em Omodeo (2014, p. 225-

230).

↩

18. “Post Dei veram et competentem cognitionem, nobis in verbo a

se dato revelatam, nihil hominis naturae magis proprium, et finis propter quem homo in Terra, mundi centro, conditus et collocatus sit, magis consentaneum esse judico, quam ut inde tanquam e loco medio, ea, quae in tota mundi fabrica, imprimis vero in coelesti illa et fulgentissima tot perpetuarum stellarum regia elucent, prospectans, jucunda hac et ingeniosa contemplatione aetatem suam suaviter transigat, Deumque opificem in his suis sapientissimis et variis operibus agnoscens, merita eum veneratione ac laude celebret” (BRAHE, 1972, p. 152).

↩

19. Dentre os numerosos estudos sobre as controvérias geo-

heliocêntricas de Brahe, ver especialmente Rosen (1986); Granada (1996); Jardine; Segonds (2008).

↩

20. Para um retrato provocativo de Brahe como senhor feudal que

estende a lógica do poder senhorial à gestão da pesquisa

científica, ver Conner (2005, p. 321-325). Para um estudo detalhado das atividades realizadas no observatório astronômico de Brahe na ilha dinamarquesa de Hven e sobre as pessoas envolvidas no centro, ver Christianson (2000).

↩

21. “[…] d’avergli sentito dire […] che il proceder che usa adesso la

Chiesa, non è quello che usavano gl’apostoli, perché quelli con le predicationi et con gl’esempi di buona vita convertivano la gente, ma che hora chi non vuol esser catholico, bisogna che provi il castigo et la pena, perché si usa la forza et non l’amore; che questo mondo non poteva durar così perché non v’era se non ignoranza, et niuna religione che fosse buona; che la cattolica gli piaceva ben più de l’altre, ma che questa ancora havea bisogno di gran regole; et che non stava bene così, ma che presto il mondo havrebbe veduto una riforma generale di se stesso, perché era impossibile che durassero tante corruttele” (BRUNO, Procès, 2010, doc. 10, terceira denúncia de Giovanni Mocenigo (Veneza, 29 de maio de 1592), p. 41).

↩

22. “Chi dunque sarà sì villano e discortese verso il studio di

quest’uomo [Copernico], che, avendo posto in oblio quel tanto che ha fatto, con esser ordinato dagli dei come una aurora, che dovea precedere l’uscita di questo sole de l’antiqua vera filosofia, per tanti secoli sepolta nelle tenebrose caverne de la cieca, maligna, proterva ed invida ignoranza; vogli, notandolo per quel che non ha possuto fare, metterlo nel medesmo numero della gregaria moltitudine […]” (BRUNO, La cena delle Ceneri, 2000, p. 25) [Aqui citado da edição brasileira: BRUNO, 2012, p. 41-42].

↩

23. “For the cheefest reason that hath moved some to thincke the

Heaven limited was Motion, whiche they thoughte without controversie to bee in deede in it” (DIGGES, 1934, p. 69-117; p. 83-95; p. 91).

↩

24. “Si absque lumine superiori, in quem finem facta fuerint corpora

coelestia, scire desideras, et humanam rationem sequi volueris,

putandum tibi non erit ea solum effecta esse, ut tam vile corpus, ut est terra aquis irrigata, animalia, et plantas regant, cum ea corpora sint divina, in numero incomprehensibilia, maximis magnitudinibus, et motibus velocissimis, praedita, id etiam minus putabunt hii, qui opinionem Aristarchi Samii, et Nicolai Copernici sequuntur, quorum ratione fieri non potest, ut credant, eius, quod ex vniverso reliquum est, alium finem non habere, quam regimen huius centri epicycli Lunaris, ut illorum more loquar. Quam enim turpe esset si centra aliorum epicyclorum planetarum tali regimine privarentur, id quod nullo modo cum ratione consentit, si tam vera est ea opinio, quemadmodum rationabiliorem eam existimant. Neque quid quam valet opinio Aristotelis, qui corpora coelestia, ab ortu, et interitu libera esse sentit, dicens superioribus saeculis, a nostris antiquis nullam unquam animadversam fuisse alterationem in coelo, cum non videat si quis esset in coelo, neque etiam observare posset alterationes quæ in Terra, et circa Terram fiunt, quae in partibus, et non in toto spectantur: unde etiam fieri potest, ut in coelo sint particulares alterationes” (BENEDETTI, Diversae speculationes, p. 255).

↩

25. “Dalla censura di onorati spiriti, veri religiosi, et anco

naturalmente uomini da bene, amici della civile conversazione e buone dottrine, non si de’ temere; perché quando bene arran considerato, trovarranno che questa filosofia non solo contiene la verità, ma anco favorisce la religione più che qualsivoglia altra sorte de filosofia: come quelle che poneno il mondo finito; l’effetto e l’efficacia della divina potenza finiti; […] et altri inconvenienti assai; li quali non solamente come falsi acciecano il lume de l’intelletto, ma ancora, come neghittosi et empii, smorzano il fervore di buoni affetti” (BRUNO, La cena delle Ceneri, 2000, p. 9-158, p. 95-96) [Aqui citado da edição brasileira: BRUNO, 2012, p. 109].

↩

26. A imediata repercussão europeia da condenação de Bruno foi

destacada por Ricci (2000, p. 549-557).

↩

27. O Spaccio, por exemplo, foi ‘descoberto’ em uma fase muito

avançada, quase conclusiva, do processo, presumivelmente em 1599. “Et essendosi […] havuto notitia che nel Santo Offitio di Vercelli eri stato denunziato, che mentre tu eri in Inghilterra eri tenuto per ateista et che havevi composto un libro di Trionfante bestia […]” (BRUNO, Procès, doc. 66, p. 481).

↩

28. (Idem, doc. 13, p. 64): “[…] sempre ho diffinito filosoficamente et

secondo li principii et lume naturale, non havendo riguardo principal a quel che secondo la fede deve essere tenuto”.

↩

29. (Ibid, p. 65): “[…] che nel medesmo modo indirettamente sono

contrarii alla fede, anci molto più contrari che li articuli da me filosoficamente proposti et diffesi”.

↩

30. “[…] ho dechiarato infiniti mondi particulari simili a questo della

Terra; la quale con Pittagora intendo uno astro, simile alla quale è la Luna, altri pianeti et altre stelle, le qual sono infinite” (BRUNO, Procès, 2000, p. 67).

↩

31. (Idem): “[…] più e più volte insegnava che tutte le stelle che si

vedeano erano mondi”.

↩

32. “Ponendo poi il mondo causato e produtto, intendeva che

secondo tutto l’essere è dependente dalla prima causa; di sorte che non abbhorriva dal nome della creatione, la quale intendo che anco Aristotele habbia espressa, dicendo Dio essere, dal quale il mondo e tutta la sua natura depende; sì che, secondo l’esplicatione de san Thomaso, o sia eterno o sia in tempo, secondo tutto lo essere suo è dependente dalla prima causa et niente è in esso independentemente” (BRUNO, Procès, 2000, p. 69).

↩

33. (Idem, p. 313): “In duodecimo constituto in substantia eodem

modo respondet et, factis sibi obiectionibus, negat”.

↩

34. (Ibidem, doc. 13, p. 71): “Così quanto al Spirito divino per una

terza persona, non ho possuto capire secondo il modo che si deve credere; ma secondo il modo pittagorico, conforme a quel modo che mostra Salomone, ho inteso come anima dell’universo, overo assistente all’universo, iuxta illud dictum Sap[ientiae] Salomonis: ‘Spiritus Domini replevit orbem terrarum, et hoc quod continet omnia’”.

↩

35. “Che sia animale rationale—aveva spiegato—è manifesto

dall’atto suo rationale intellettuale, che si vede nelle regole del suo moto circa il proprio centro, l’altro circa il Sole e l’altro circa l’asse delli suoi poli; la qual regola non può essere senza l’intelletto più degnamente interiore e proprio che esteriore e alieno, perché, se proprio senso si trova nelle formiche, api et serpenti, e nell’huomo, molto più degnamente deve trovarsi nella Madre, e non attribuili un esteriore trudente, spingente, rotante, saepe idem inculcando” (BRUNO, Procès, doc. 51, p. 391).

↩

36. Idem, p. 389 “Et ad obiectionem, quod repugnat haec sua

positio auctoritati sanctorum Patrum, respondet, che ‘non in quanto sono santi, buoni et essemplari, ma in quanto che sono meno de’ filosofi prattichi e meno attenti alle cose della natura’”.

↩

37. Bellarmino a Foscarini (12 de abril de 1615), p. 215-216:

“Consideri hora lei con la sua prudenza se la Chiesa può sopportare che si dia alle Scritture un senso contrario a tutti li santi Padri et a tutti li espositori greci e latini. Né si può rispondere che questa non sia materia di fede, perché se non è materia di fede ex parte obiecti, è materia di fede ex parte dicentis, et così sarebbe heretico chi dicesse che Abramo non abbia havuto due figlioli et Iacob dodici, come chi dicesse che Christo non è nato di Vergine, perché l’uno e l’altro lo dice lo Spirito Santo per bocca de Propheti et Apostoli”.

↩

38. Federico Cesi a Galileu (Acquasparta, 12 de janeiro de 1615).

Ver: Galileo (1968, vol. 12, p. 128-131; p. 129).

↩

39. “[…] ait quod Terram revolvi longe videtur esse rationi

consonantius, quam Coelum, vel suprema astra moveri. Et refert sententiam Nicolai Copernici dicentis Coelum sydereum stare simul cum stellis, Terram vero moveri.

↩

40. In hac doctrina duo sunt falsa, et contra sacras literas videlicet

Terram revolvi. S[ecundum] Coelos praesertim suprema astra non moveri. Omitto quae adducit Arist. s[ecundo] De Coelo […] ad probandam stabilitatem Terrae sed in Ps. 92 “Firmavit Deus orbem” Terrae, qui non commovebitur. […] In initio Ecclesiaste Terra autem in aeternum stat. Quod autem Coeli moveantur, probari potest p[rimo] nam est sententia Theologorum, quod coelorum motus cessabit in die Iudicii […]. De Sole aperte habetur in Ecclesiaste quod movetur, oritur Sol, et occidet, et ad locum suum revertitur, ibique renascens gyrat per meridiem, et flectitur ad Aquilonem. […] Ait quod Astra vivunt, immo quod habent Intellectum […] Dicere quod Astra et sydera vivant, et intellectu polleant est contra sententiam communem receptam apud Patres […]. Dicit extra Mundum esse spatium quoddam infinitum quod impletur Lumine stellarum, et planetarum, et tale lumen extendi in infinitum […] et hoc vocat Coelum empyreum. […] Hoc est somniare per altissimas tenebras, et a via communi declinando in praecipitia ruere, nam cum Deus opt. Max. omnia in pondere, numero, et mensura produxerit, nullum infinitum corpus actu dari nullamque rerum subsistentium multitudinem actu infinitam omnes viri fatentur. De Coelo empyreo consultat Patres, et sanctum Thomam” (BALDINI; SPRUIT, 2009, p. 2.216-2.219).

Um olhar de relance sobre os estudos da censura do Índice é apresentado por Black (2013, cap. 7, “La censura”).

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41. Para uma visão panorâmica sobre a “lotta contro la nuova

filosofia” [luta contra a nova filosofia] pode-se consultar Del Col (2006, p. 552-565).

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Fabrina Magalhães Pinto

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