Fim
Fim
F I M
ÁLVARO
* 26 de setembro de 1929
† 30 de abril de 2014
Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos.
A queda é a maior ameaça para o idoso. “Idoso”, palavra odienta. Pior, só “terceira idade”. A queda separa a velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo. Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela para a cama, da cama para a poltrona, da poltrona para a janela.
Olha aí, outra vez, a pedrinha traiçoeira atrás de me pegar. Um dia eu caio, hoje não.
Um dia. Um dia já foi tão longe. Cruzei com o Ribeiro na Francisco Sá, não nos víamos há tempos, ele disse para a gente se encontrar “um dia desses”. Morreu no seguinte. Que horror estava o Caju, aquele forno de Auschwitz. As tumbas pareciam derreter. Passei mal no crematório, acharam que era emoção. Não deixava de ser. Estava ótimo, o Ribeiro. Jogou vôlei até o último entardecer, saiu da praia e apagou no banho, infarto fulminante. Não tenho mais amigos vivos, o Ribeiro era o último. Eu tinha certeza de que ele ia me enterrar, corria, nadava, parou de fumar aos quarenta e se recusou a ficar brocha. A irmã acha que foi o Viagra. Comeu muita gente o Ribeiro, ele dava muita importância para isso.
Antes dele foi o Sílvio. Ou o Ciro? Não, o Ciro foi o primeiro, de câncer, antes do Neto e da mulher do Neto. O Neto não aguentava a Célia, mas morreu um ano depois dela. Vai entender. Era insuportável a Célia, depois de velha, então, virou uma mulher amarga, ranzinza, feia. O Neto não suportou a paz.
Pensar que a Célia foi uma noiva gostosíssima. Devia ter morrido ali, no auge. Se o Neto soubesse, não tinha chorado o que chorou no altar. Homem é um bicho muito bobo.
O Sílvio partiu num fevereiro de Carnaval. Ele abriu os trabalhos na sexta e emendou dez dias virado. No domingo da outra semana, deixou três vadias de prontidão no apartamento e saiu para comprar mais pó, misturou com tudo e o coração não segurou. Encontraram o Sílvio emborcado na Lapa, perto da Mem de Sá, com um lança-perfume na mão e cinco gramas de cocaína no bolso. O Sílvio bebia, normal, mas quando veio a menopausa, eu sei que é andropausa, mas não gosto de andropausa; é que nem siririca, que é um nome repugnante, melhor punheta, independente do gênero; enfim, veio a menopausa e o Sílvio despirocou. Ele conheceu umas gurias novinhas do Sul, libidinosas, traficas, e virou escravo das duas. A gente parou de se ver com as gaúchas, elas tiraram ele de circuito. Deus mandou duas diabas frígidas para acabar com a raça dele. Foi castigo. Que ano foi isso? Não sei, já foram tantos: os anos e os amigos.
Não faz muito tempo, ir da minha casa até o consultório do Mattos, Mattos é o meu clínico geral, me custava dez minutos a pé. Hoje, levo quarenta. Andar deixou de ser um ato inconsciente. Vigio os passos, os joelhos, mantenho a atenção na rota. Tudo dói, pelas razões mais diversas, todas condizentes com a velhice. O Mattos me mandou para mais de dez especialistas. Um quer operar a catarata, o outro, a vesícula, todos me entopem de remédios. O dr. Rudolf acha que minhas veias já não seguram a pressão do sangue, planeja meter canículas na femoral, na aorta. Fico quieto, finjo que não estão falando comigo. São uns neuróticos esses médicos, vaidosos, brutais. Queria ver um deles encarar a faca.
Opa! Fezes caninas. Como se não bastasse. No meu prédio tem uma senhora que cria uns minicães histéricos e de latido fino. Todo fim de semana ela viaja e deixa as bestas trancadas na área de serviço. Eles ganem de solidão. Ainda denuncio a bruxa do 704 por maus-tratos. Considero humilhante recolher cocô com saquinho. Entendo os que deixam para lá, só não aceito o sujeito mofar com um cachorro dentro do apartamento.
Me arrependo de todos os bichos de estimação que tive. Infelizes, carentes, sujos. Quatro cachorros e um gato. O primeiro morreu de velho, cego, manco e fedido. O gato foi esquartejado pelo pai, tinha um complexo de Édipo retumbante, era fissurado na mãe. Os outros cachorros definharam por motivos diversos, todos horrendos: cinomose, tumor e veneno. Minha mãe espalhou mata-rato pelo jardim e esqueceu de prender o Bóris. Nunca mais confiei nela. Coitada, limpava o jornal, trocava a água, levava no veterinário, chorou como se tivesse perdido um filho, e mesmo assim não perdoei.
Não há nada mais egoísta do que criança. Não suporto meus netos. Moram longe, melhor para eles. São barulhentos, interesseiros. Amei minha filha até ela completar cinco anos, depois não aguentei a histeria dela, da minha mulher com ela, dela com as empregadas. Eu fazia qualquer coisa para não ter que voltar para casa. Acho que só tive um caso com a Marília para ter para onde ir depois do trabalho. Eu adorava o apartamento da Marília, ficava lá fazendo hora até umas dez, bebendo e ouvindo sem escutar a conversinha mole dela.
Eu não fazia questão de sexo, me empenhava mais por ela. Gostava era da casa pequena, mas muito agradável, no Jardim Botânico, com uma área no térreo onde ela criava uns cágados.
Nunca fui chegado a taras. Gostava na hora, mas tinha preguiça de começar. E as mulheres, invariavelmente, transferem para o homem a obrigação de estar a fim. Como eu nunca estava, os casos amorosos duravam o tempo da sedução.
O casamento é o estado civil mais indicado para homens que, como eu, não gostam de conviver com os outros. Nada mais exaustivo do que administrar encontros e expectativas. Um mau casamento pode ser ótimo para ambas as partes, e o meu foi assim. A Irene abstraiu das tentações e eu também, vivíamos confortavelmente em dois quartos, tudo muito triste e civilizado. Um dia, ela se deu conta de que estava envelhecendo, que aquela era a última chance de foder, e gozar, e amar loucamente, aquelas coisas que mulher acredita que existem. Desconfio que foi a adolescência da Rita que tirou a Irene do prumo. Ela entrou para uma análise de grupo e deu para o Jairo, o gerente do clube, foi chato. Nenhum homem convive bem com a cornidão. Tive que parar de nadar na piscina, eu gostava muito daquela piscina, mas a titular era ela.
A Irene se arrependeu, só que já era tarde. Eu me descobri sozinho, sem culpa, porque foi ela que me deixou, e ainda me interessei por umas duas outras moças, bem ao contrário da Irene, que deu com os burros n’água e nunca mais teve ninguém depois do remador do clube. Ele era casado e, em um mês, já não atendia os telefonemas dela. Toda mulher é ingênua. Não nos vemos há trinta anos, passamos quinze juntos. Comecei a ficar brocha com a Aurora, a segunda mulher que arrumei depois da Irene. Minto, a coisa já não ia bem com a Irene, mas com a Aurora foi definitivo. Sofri uns bons anos, até que relaxei. Adeus, hormônios, adeus, garotas, adeus, silêncio penoso no quarto, adeus, olhos piedosos. Serei franciscano. Sátiro e franciscano.
Meu pai era igual ao Ribeiro, não aceitava a própria brochura. Me lembro de uma Páscoa, ele e minha mãe radiantes, eu perguntei qual era o segredo. Meu pai bateu com a mão na coxa dela e disse que a vitamina dele era “essa mulher aqui”. Fiquei com orgulho deles. No aniversário de setenta e cinco anos da minha mãe, ela me chamou num canto e disse que não aguentava mais tentar fazer o pau do meu pai ficar duro. Dava muito trabalho, ela estava cansada, se sentia obrigada, não queria mais. Chegou a dizer para ele procurar outra, que não se importava, mas ele fechou o tempo. Fiquei muito constrangido com aquela conversa, a Irene estava no pico da crise, e eu sempre fui contra pai e mãe ficarem falando de sexo com os filhos. Ela queria que eu o convencesse a deixar ela quieta.
Abri a porta do quarto, tudo fechado, ele na cama de mau humor. Perguntei como iam as coisas e ele respondeu que mal, muito mal: a minha mãe tinha um caso com o corretor de seguro. Endoidara. A esclerose fez do meu pai um homem paranoico, ciumento e delirante, que acusava a mulher de ter pulado a cerca com uma lista extensa de homens que conviveram com eles desde o casamento. Logo ela, que guardou a virgindade e nunca se atreveu a querer ninguém. Ele tinha uma arma em casa e veio com uma história de que ia dar um tiro na minha mãe e depois se matar. Joguei a pistola no mar.
Eu a trouxe para morar comigo, o que agravou ainda mais a insatisfação da Irene. Virei um para-raios de problemas familiares, a Rita repetiu de ano, a cozinheira foi embora, o último cachorro estrebuchou, deu um vazamento no banheiro, tudo contra. Internamos o velho num asilo em Maricá, onde ele morreu convencido de que havia passado cinquenta e nove anos com uma adúltera compulsiva. A Irene devia ter casado com ele. Estariam trepando até hoje.
Olha a bicicleta! Todo ciclista é assassino, suicida e assassino.
Me olho no espelho e vejo a tia Suzel. Culpa do estrogênio, me explicou o Mattos, que deixa os velhos com cara de velhas e as velhas com cara de velhos. Tia Suzel morreu solteira e virgem, com oitenta e seis anos. Desses, vinte e seis ela passou abanando o bafo quente do Andaraí com a ventarola, repetindo que queria morrer. Dava vontade de fazer a vontade dela. Uma tarde, Suzel caiu da escada — a queda — e nunca mais rejuntou. Ela morava com a sobrinha num prédio de três andares sem elevador. Hoje, me visita no espelho.
O sinal está fechado, não vem carro, mas não arrisco um tropeço. Espero o verde como um alemão educado. Calor sudanês. Fritei muito ovo no paralelepípedo da Penha da minha infância. O Rio sempre foi quente, não é novidade, não tem nada a ver com essa besteirada de Greenpeace. Desde que eu me conheço por gente que o mundo vai acabar.
Guardo uma lembrança embaçada dos efeitos da testosterona. Não sei mais o que é ser jovem, é como falar de outra pessoa. Nunca fui muito ativo. Eu e o Ribeiro saíamos muito, bebíamos demais, demais. Troquei o dia pela noite, engordei, criei uma barriga dura, sustentada por dois gambitos e um pescoço curto que equilibra a careca lustrosa.
O Ribeiro não, esse saía da boate e ia direto para a praia, só dormia depois de correr do Posto 1 ao 6, ida e volta, non-stop. Ele demorou muito para perder cabelo, o que lhe deu alguns anos extras de vida ativa como Don Juan do Calçadão. O Ribeiro não casou, dava aulas de educação física e tinha fixação nas alunas de dezessete, chegou a apanhar de um pai. Hoje, estaria preso. Sempre achei que o Ribeiro fosse imortal. Ninguém é.
Quem irá ao meu enterro?
Casei depois do Ciro e fui um dos últimos a me separar. Em dez anos todos fizeram o mesmo. O Neto não. O Neto encarou a Célia até o fim. Coitado, nunca soube o que é ficar no banheiro de porta aberta, dormir com a televisão ligada, fumar no quarto, comer na cama, e não ter que conversar e nem que assistir novela.
Sou da opinião que o Neto ficou casado porque era mulato. Eu tenho medo de dar palpite sobre a cor da pele das pessoas. Até Monteiro Lobato, que é o Monteiro Lobato, foi tachado de racista. Mas o Neto, por ser mulato, me queimem na fogueira junto com o Visconde de Sabugosa, sempre correu atrás de parecer distinto. Ele achava que o casamento conferia status. Não condeno, até entendo. É racismo? Que seja, dane-se Zumbi. O Sílvio, que era polaco e calvo louro, não estava nem aí para o que os outros pensavam dele. Acho que tem a ver.
Me acostumei rápido com a vida de solteiro, mudei para um pardieiro de fundos na Hilário de Gouveia. A Irene ficou com a casa e eu com o carro. Eu comia a Aurora e a outra no Chevette azul-metálico. Lá na Barra da Tijuca, quando aquilo ainda era um areal. Na volta, a gente parava num daqueles motéis e via um filme pornô. Quando eu conseguia, repetia o feito. Eu ainda gostava de sacanagem naquela época, mesmo brochando.
Foram as mulheres que me fizeram perder o interesse. Chatas, chorosas, carentes, adoram botar a culpa da infelicidade delas em quem está do lado. Eu nunca dei trela. Mulher fica esperando que você diga meio ai para descarregar três páginas de folhetim na sua orelha. Como falam, meu Deus, não cansam de tagarelar. Depois, abrem o berreiro para o otário ter pena delas. Não gosto de mulher. Aliás, não gosto de ninguém.
Gostava do Neto, do Ciro, do Sílvio e do Ribeiro. Homem não fala, cada um diz uma imbecilidade qualquer, a gente ri, entorna, e pronto, foi uma noite extraordinária. Mulher está sempre no encalço da grande ocasião.
Opa, abriu. Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar. Lá vou eu, ágil como os cágados da Marília. Não acredito, já está piscando?… Fechou! Não estou dizendo? Ainda falta um terço de faixa e essa porcaria fecha? Calcularam com quem esse tempo? Com o Ligeirinho? O que é? Vai passar por cima? Passa, desgraçado, parte o meu joelho ao meio com o seu farol de milha. Eu já entendi que você quer passar, filhinho! Um dia você vai envelhecer, se tiver sorte você vai envelhecer, e um guri com pressa vai quebrar a sua perna em vários pedacinhos e você vai passar o resto dos seus dias de fraldão, com pânico de atravessar a esquina. Bueiro, calçada alta, fedentina, argentinos.
Não leio jornal, não leio revista, não leio. Também não enxergo. Só vejo televisão. Futebol, o dia inteiro. Adoro mesa-redonda.
Parei no videocassete, minto, tenho um DVD que veio de brinde com a TV de quarenta polegadas, mas nunca me entendi com o controle remoto. Antes, eu alugava um filme ou outro no caminho do consultório do Mattos, mas fecharam a locadora. Não senti falta.
Tive a sorte de envelhecer fumando.
Não separo lixo, não reciclo, jogo guimba no vaso, uso aerossol, tomo longos banhos quentes e escovo os dentes com a torneira aberta. Dane-se a humanidade. Não vou estar aqui para assistir.
Não voto há treze anos, não tenho culpa da tragédia em volta.
Desvio de obra. Como gostam de obra. Os cones sujos no meio da pista, esses carros a toda tirando fino, não veem que eu estou aqui? Britadeira. Britadeira. Britadeira. Como é que esse pobre aguenta? Vai morrer cedo. Não perde nada, mentira, deve perder alguma coisa; não sei o quê, mas deve. Eu nunca encarei a morte como uma possibilidade. Não que fosse apegado a nada de especial na vida, mas é que a morte não existe. A morte é uma doença crônica.
Me lembro, ainda novo, de ver a mão do Sílvio tremendo e achar que era ressaca. Mas o Ribeiro ouviu do filho no enterro que já era Parkinson. O Inácio contou que o pai continuou torturando as vítimas dele por aí, penando na mão das gaúchas, mas deu pra trocar a hora do remédio, os nomes, o número do apartamento. O Sílvio era magro, elegante e mau. Muito mau. Escroto. Ele se suicidou naquele Carnaval. Tem muitos jeitos de o sujeito fazer isso.
As mulheres não ligavam para ele. Mas era só trocar duas frases com o Sílvio para elas gamarem à loucura. E ele jogava com elas, ligava muito, depois parava de telefonar, fingia ter outras, tratava mal no dia do aniversário. Mulher adora ser maltratada.
Isso foi no início. Com trinta e dois, o Sílvio casou com a Norma e a batida acalmou. Só que vieram os filhos, a Norma teve depressão pós-parto na segunda gravidez e ficou chatíssima. Para piorar, a sogra do Sílvio foi morar com eles. A casa virou um Muro das Lamentações. Era choramingo, novela à noite e criança enchendo o dia inteiro: banho de criança, purê de criança, brinquedo de criança, meleca de criança, escola de criança, cocô de criança. Ele perdeu a paciência, enfiou o mais velho num internato em Petrópolis, de onde o menino só saía para dar uma pinta no Natal, botou a sogra para cuidar do menor, se despediu da Norma e se mandou para a garçonnière que mantinha na Glória. O Sílvio não era rico, mas também não era pobre. Nem desfez as malas e já marcou com três garotas, isso no dia da mudança. O Sílvio era da orgia.
Ele enlouqueceu pelas gaúchas e foi embora para o Sul. Bebemos à partida. Bebemos muito, numa festa no Leme, e tomamos umas bolas, também, que o Sílvio apresentou. Ele queria ensinar a gente a viver. Quando amanheceu, fomos expulsos, eu, o Ribeiro, o Neto, o Ciro e o Sílvio. Cinco zumbis e uma penca de donzelas fáceis. O Sílvio propôs uma esticada na batcaverna dele. Comemoramos a sugestão. Ele entrou e já foi tirando a roupa, disse que estava com calor. O Ciro se trancou no quarto com a argentina, o Ciro sempre soube fazer as coisas. Acho que o Neto foi embora, e o Ribeiro não sei onde foi parar. Sobramos eu e o Sílvio de cueca, na sala, mais a moça que eu arrastei, a que sobrou do Neto e a mulata do Sílvio que, quando vi, já estava atracada com ele na poltrona de pé palito. As outras duas vieram para cima de mim sem nem perguntar se eu queria, o Ciro começou a gemer atrás da parede, enquanto a argentina gritava: Más rápido, más rápido! Brochei gloriosamente. Uma das meninas, a lourinha do interior, tentou reverter a situação, mas dei um dinheiro pra ela e mandei andar. O Sílvio capotou da poltrona com a morena e não levantou mais. O Ciro também deve ter dormido, porque não ouvi sinal dele no quarto. Saí de lá onze da manhã, a enxaqueca latejando. Tomei um café preto na padaria e desabei no tapete do corredor. Fiquei vinte e uma horas fora do ar.
Talvez o Ciro e o Sílvio fizessem isso habitualmente, mas eu não. Aquela foi a primeira e última vez que estive perto de participar de uma suruba entre amigos. Toda amizade masculina carrega um quê de veadagem. Comer as mesmas mulheres não deixa de ser um jeito de se comer entre si. No mesmo ambiente, então, é um passo. Mas não concebo, nem de brincadeira, nem de porre, nem de nada, a ideia de beijar na boca o Neto, o Sílvio, o Ribeiro ou o Ciro. Talvez o Ciro. O Ciro, definitivamente. Depois dos quarenta, o tesão migra.
O Ciro passava o rodo. As mulheres só faltavam esfregar a xoxota na cara dele. O Ciro conheceu a Ruth na festa do Juliano e botou na cabeça que ia casar na igreja, com bolo, madrinha, véu e grinalda. Ele ficou alucinado com a Ruth. Ela era bonita mesmo, e inteligente, e sexy. O Ciro acreditou que o grande amor lhe abriria as portas da monogamia.
Levou uns dez anos para o casamento acabar com o tesão do Ciro. E o Ciro sem tesão não era o Ciro. Ele entrou num dilema terrível, falava nisso o tempo todo, não queria trair a Ruth porque sabia que era um caminho sem volta, mas a Ruth virou mãe, esposa, companheira, irmã, tudo, menos amante.
Foi aí que ele começou a brigar com ela, briga feia, sem motivo. Não sei se ele planejou, ou se foi o desespero, mas o Ciro, de uma hora para outra, deu para se irritar por causa de uma frase, um copo, um desodorante. Por coisa nenhuma fazia as malas e saía batendo a porta. A Ruth enlouquecia, faltava ao emprego, emagrecia, e ele também. Dava uma semana, ele voltava e os dois fodiam como se tivessem acabado de se conhecer. Funcionou por uns anos, ele voltou a ficar corado, até que as discussões viraram uma rotina mais destruidora do que o antigo ramerrame doméstico. Ele primeiro se engraçou com a Marta, ou foi a Cinira? Não lembro. Ele comeu uma das duas, ou as duas juntas, enfim, eu sei que, depois que a porteira abriu, o Ciro traçou metade do Rio de Janeiro em pouco menos de um ano. A Ruth definhou. As mulheres cultivam a fantasia de que o verdadeiro amor é capaz de transformar os homens. Quando isso não acontece, e isso nunca acontece, elas perdem o orgulho e viram esses farrapos que a gente vê por aí.
O Ciro conseguiu ser pior que o Sílvio, porque o Sílvio nunca amou ninguém, mas o Ciro amava muito a Ruth. Ela ficou tão chocada com a destrambelhada do marido, o desrespeito dele por ela, a falta de paciência com a família, que desenvolveu uma apatia estranha. Começou no dia em que ela flagrou o Ciro na garçonnière do Sílvio com a mulher de um cliente dele. A Ruth arrombou a porta aos gritos, a amante se escondeu no lençol e o Ciro correu para as calças. Depois disso o Sílvio foi proibido pelo condomínio de emprestar o apartamento. O Ciro ficou frio, se vestiu e saiu sem dar satisfação. A Ruth continuou gritando no corredor, enquanto o elevador descia. Ele pegou o primeiro táxi e zuniu para casa, olha o sangue-frio deste homem. Chegou, tomou banho, botou o pijama, sentou no sofá e ligou a televisão. A Ruth ainda demorou uns vinte minutos para aparecer, possessa, parada na soleira, pronta para o quebra-pau. Só que o Ciro, gênio, um canalha mas gênio, era só carinho. A Ruth contou do apartamento, da vagabunda, e ele, na cara dura, disse que não sabia do que ela estava falando, jurou que chegou em casa, estranhou que ela não estivesse e sentou para ver TV. Aos poucos, foi ensaiando uma indignação contida por ela ter soltado os cachorros em cima de um casal que nem conhecia, e mais, no apartamento do Sílvio! E fingiu preocupação com a saúde mental da esposa. Não deu uma semana, internaram a Ruth num sanatório. O Ciro nunca mais se perdoou, mas também não fez nada para mudar. Deixou o que sobrava da Ruth na casa da irmã dela e se mudou para um apartamento pequeno, uma cobertura na Santa Clara onde não cabia nada que não fosse ele. E continuou riscando o nome das moças do caderninho. Era uma base de três por semana, quatro, dependendo da carência que batia nele.
Jamais achei que o Ciro pudesse ser tão brutal. Do Sílvio, eu esperava tudo, mas a frieza do Ciro com a Ruth foi chocante. Invejei o Ciro a vida inteira. Ele era muito bonito, daqueles caras que sabem jogar sinuca, futebol, peteca, pôquer, e ganham todas sem se esforçar. E mesmo nas horas mais condenáveis, como a daquela quase bacanal na casa do Sílvio, o Ciro sabia ser cortês. Arrastou a argentina para o quarto, foi cavalheiro.
Eu me casei por causa dele. Como era solteiro, fui ficando de fora dos almoços de domingo. Ia o Neto e o Sílvio com as esposas e eu e o Ribeiro sobrávamos. A Irene era amiga da Ruth, elas armaram um encontro, eu achei que melhor não podia ficar. Depois, as duas dedicaram anos a falar mal de nós dois.
Pensei que ele estava emagrecendo daquele jeito por causa das noitadas e do excesso de tudo. Numa terça-feira de sol, o Ciro me chamou para tomar um café e me contou que estava com câncer, no pâncreas, sem solução. Ele tinha acabado de fazer cinquenta anos. Fiquei mudo, não sabia o que dizer. Pensei no dia em que ele conheceu a Ruth na festa do Juliano, no casal bonito que eles formavam. O Ciro era o nosso Kennedy. Partiu seis meses depois desse encontro. Eu fugi dele, fiquei apavorado, não queria ver. Mas carreguei o caixão. A Ruth não apareceu.
Tem uns trombadinhas vindo na direção contrária. Já perdi a conta do número de vezes que fui assaltado. Foram tantas, que eu só saía de casa com a roupa do corpo. Aí, numa tarde besta, saindo da ressonância lá em Botafogo, dois pivetes me cercaram. Quando descobriram que eu não tinha dinheiro, nem celular, nem porcaria nenhuma, me deram uma surra. Agora, carrego sempre um trocado para o assalto. Passaram. Vai ver eram honestos. Pretos, de short, chinelo e sem camisa, mas honestos. Bota a culpa no Monteiro Lobato.
Ganhei do meu pai, de Natal, a coleção completa do Sítio do Picapau Amarelo. Eu tinha doze anos. Ela sobreviveu e eu dei para a Rita, achando que estava apresentando o céu para ela, mas a Rita amarrou a tromba porque queria uma Barbie. Tentei ensinar matemática com o Visconde, história com Dona Benta, gramática com a Emília, mas ela criou aversão ao Sítio, reclamava que não tinha figura. A Rita cresceu ignorante e fútil. Na adolescência, torci muito para ela não engordar, porque, com o QI da minha filha, o melhor que podia acontecer era ela arranjar um bom casamento.
Arranjou um médio, com um radiologista de Uberaba. O pai tinha uma clínica de imagem e o filho entrou para o ramo. Eles se conheceram numas férias dela em Ouro Preto. Meu genro é uma besta quadrada, do tipo que afirma que todo mal provém do stress. Então tá, do stress. Sou acometido de um sono hipnótico toda vez que converso com ele. Pode ser em pé, sentado, no carro, numa festa horrorosa, dessas de fim de ano. O Felipinho e o Marcelinho relincham alto para me acordar e cantam com voz de débil mental que o vovô está gagá. Mal sabem eles que só estou me protegendo da chatice do ignóbil do pai deles. Pai esse que lhes deu metade dos genes medíocres, sendo que a outra metade quem deu foi a mãe deles, que herdou de mim os piores genes, aqueles que não gostam de Monteiro Lobato. Os galhos estão podres, Felipinho e Marcelinho. Os seus filhos vão ser gordinhos que nem vocês, vão apanhar na escola, vão ser filhinhos de mamãe, riam bem alto, vocês nem sabem o que vem por aí: acne, pau pequeno, calvície, pressão alta, colesterol, tosse, mau hálito, pelo no ouvido, falta de ar, incontinência urinária, derrame, eu vou assistir de camarote. Qualquer garoto de rua tem uma genética melhor que a de vocês. Agora vão pro quarto porque eu quero voltar a cochilar ouvindo a ladainha do seu pai.
A Rita me visita no Rio duas vezes por ano, quer que eu mude para Uberaba, imagina. Como se eu fosse resistir a Uberaba, e ela a mim, e eu aos filhos dela. Melhor o asilo, muito melhor o asilo; em Maricá. Quando ela vem, procuro ser gentil, o idiota do marido sempre a tiracolo. Eu marco deles virem à noite, na hora da insônia, para ver se durmo no embalo da cantilena. Poderoso sonífero, o papo do meu genro.
Meu quarteirão! Mais cinquenta e sete passos e chego. Adoro contar os passos. Não saio muito, não tenho aonde ir, não trabalho há dezoito anos. Outro dia, me dei conta de que sou funcionário da minha saúde, trabalho full time por ela. Todo mês faço os exames mensais, todo ano os anuais, todo semestre os semestrais, quando acaba um, já é hora de fazer o outro. E tem que agendar, e tem que trazer o protocolo, e guardar a via, e entrar na fila. Plano é igual INPS. O consultório do Mattos fica num edifício comercial aqui de Copacabana lotado de médicos senis. De vez em quando, um bate as botas. Vou lá toda semana, sei a distância, o tempo, as passadas do trajeto completo e a parcial dos blocos, o ritmo dos sinais, os canteiros, os postes e as pedras do caminho.
Agora que o Ribeiro morreu, não tem ninguém que eu vá encontrar, mesmo que por acaso, no cruzamento. Só visito os médicos e não gosto deles. Não gasto nada. Uma loja alugada, que herdei do meu pai em Copacabana, paga o seguro-saúde, e o resto vem da aposentadoria. Como embutido, porco, coxinha e cupim, bebo água da torneira e não preciso de ninguém.
Que sirene é essa? É bombeiro, achei que era ambulância. O bom da sirene é que eu paro de escutar o zumbido, o enxame de abelhas que apareceu há uns cinco anos no ouvido esquerdo, depois foi para o direito, em estéreo, e só faz piorar. Estou ficando surdo. Amanhã tenho uma consulta para medir de novo a audição. Acho que meus óculos ficaram em casa.
Que sirene é essa agora? Ah! É garagem. A garagem do meu prédio. Cheguei. Nem contei direito, vim conversando. Com quem? Conversando com quem? Comigo mesmo, que é com quem eu gosto de conversar. Tem um carro subindo a rampa, vem no embalo, melhor acelerar as pernas. É a desnaturada do 704, está fugindo dos cachorros, vai viajar, covarde. Acho que ela não me viu. Não, ela não me viu. O carro deu aquele voo no fim da subida, ela vem descacetada, está no celular, não notou que eu estou aqui. Larga essa porcaria e presta atenção no que está na sua frente! Eu! Eu estou na sua frente! Ah! Finalmente, reparou, vai frear, se atrapalhou. Como assim, se atrapalhou? Está nervosa, é bom mesmo ficar nervosa. Quantos anos tem essa incapaz? Ela fez exame psicotécnico? Pode dirigir com essa idade? E os cachorros da área de serviço? Freou! Achou o freio, estou ouvindo o cantar dos pneus. O carro continua andando; como assim, continua andando? Derrapou? Não vai parar? Está fora do alcance dela? Ela me encara com ar de pena e fecha os olhos pra não ver o que vai fazer comigo. Abre o olho, desgraçada, vem ver o que você aprontou. Por que é que eu não te denunciei para a Associação Protetora dos Animais? Eu devia ter desconfiado que alguém que trata assim o próprio cachorro não tem respeito à vida humana. Já sinto a lataria roçar o tergal da calça.
Um pulo. Há quantos anos não dou um pulo? Dobro a perna direita, estico a esquerda e me jogo pra frente. Anda, a lataria no tergal! Andar deixou de ser um ato inconsciente. Aciono os comandos. Dobro, estico, estou no ar, me preparo para a aterrissagem, a ponta do pé toca a pedrinha, relaxo o peso… está solta? Como assim, está solta? Eu jogo o meu esqueleto em cima do pedregulho e ele solta? Quem foi o relapso que socou isso aqui? Cadê o empreiteiro? Cadê o prefeito, que não aparece? Não tem mais volta, o pé torceu, estou caindo, o carro passa raspando, mas a gravidade já me puxa em direção ao paralelepípedo. A queda. A minha queda, aquela que vai me fazer ter saudade do dia em que eu contava os passos no caminho do consultório do Mattos. De uma hora para outra serei tia Suzel. A mão arranha o chão, tenta amparar, não consegue. O cotovelo esfola, o quadril sai do lugar e a cabeça se precipita no granito bruto do meio-fio e bate, como um badalo de sino de igreja.
Preto, preto, preto, preto, preto, cadê branco? Cadê as ondas do mar? A bruaca do 704 é uma loura tingida, dessas que cheiram a água-de-colônia com pó de arroz e usam tailleur com a saia igual ao casaquinho.
O meu anjo da morte. Quem diria?
Uma vez, perguntei a um budista que acreditava em reencarnação o que, afinal, reencarna. Ele disse que era uma parte tão ínfima, mas tão ínfima que, nela, não há vestígio do indivíduo de outrora. Tem sangue saindo da minha cabeça. A perua do 704 saiu do carro aparvalhada, o porteiro vem correndo. Não sinto nada, nem dor, nem pena. Estou bem, aqui. Foi bom lembrar dos amigos, nada é por acaso. Se houvesse outra vida, seria bom encontrar com eles, visitar o Ciro e o Sílvio no inferno, ia ser bom. Mas não há. A morte não existe. Nem o budista reencarnacionista acha que vai voltar igual ao que foi. Vou estar na planta, na baba da lagarta que devora a planta, na mosca que lambe a baba da lagarta que devora a planta. Estarei por ali. Foi de bom tamanho, eu estava cansado. A indiferença daqui me cai bem.
Falei muito mal das mulheres, elas merecem. Os homens também não prestam para nada. E um não foi feito para o outro.
Desintegro no ar sobre Copacabana. Uma vez, li que a morte era o momento mais significativo da vida, e é mesmo. A minha foi boa, está sendo, não por muito mais.
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IRENE recebeu com frieza a notícia da morte do homem com quem vivera quinze anos de sua juventude. A filha telefonou aflita de Uberaba, estava no aeroporto, o pai jazia numa geladeira no IML. Ela havia deixado as crianças com o marido e não conseguiria fazer a conexão em São Paulo, passar na delegacia e ainda tratar com a funerária a tempo de sepultá-lo à tarde. Rita reclamou da falta de irmãos e pediu que a mãe fosse à morgue reconhecer o corpo. Eu sei que você detesta o meu pai, mas não tenho ninguém. Eu não detesto o seu pai. Ia dizer que não sentia nada por ele, mas lhe pareceu pior do que a aversão de que era acusada. Detestar. Irene detestava as chantagens da filha, como aquela, agora, de obrigá-la a se mandar para o Centro, debaixo do sol quente, para encarar, ainda, uma última vez, o Equívoco. Era assim que se referia a ele, o Equívoco. Irene relutava em ser mãe, não queria ir, já o tinha sepultado havia tempos, mas achou por bem cumprir o ritual da perda. Às dez e meia desceu do táxi na avenida Mem de Sá, em frente ao Instituto Médico Legal.
O prédio exalava podridão. O cheiro ardia nas ventas, penetrando nos poros mesmo com as narinas tapadas. O bafo pútrido de fora piorou do lado de dentro. Não podia ter escolhido um dia mais fresco? Irene se dirigiu à recepção, pegou a senha e sentou-se para aguardar na cadeira de plástico. O assento rachado beliscou a coxa, obrigando-a a manter a perna sob vigília. Intermináveis minutos se sucederam. O pesar rondava o rosto dos que, como ela, esperavam a vez. Irene cogitou se servir de água, mas deu com os olhos numa barata escura que cruzou a tomada para se esconder no bebedouro; preferiu a sede. Leu os avisos no quadro, as mensagens de fé, e anotou o telefone de dois agentes funerários, Rita talvez precisasse. Absorta no limbo, assustou-se com um guincho agudo vindo do corredor. Uma senhora obesa surgiu carregada por dois funcionários de branco; sofria golfadas de horror e berrava como uma besta-fera. O cortejo atravessou a sala de espera em direção a um grupo de familiares a quem foi delegado o desvario da pobre. Levaram-na pra fora. Os funcionários continuaram seu serviço moroso e Irene compartilhou com eles a mesma apatia. Pensou no alívio de estar ali por alguém tão insignificante para ela. Os urros na calçada a fizeram comparar o seu estado com o da gorda. Apaziguou-a o fato de sofrer menos do que os que estavam ali, sentiu-se em vantagem; uma mesquinhez desculpável pela estranheza da situação. Cento e dezessete, chamaram. Era o seu número.
Depois de se apresentar no guichê, foi conduzida por um rapaz de jaleco encardido até o elevador; subiram em silêncio, evitando o olhar. Saltaram no terceiro andar. Uma comprida galeria de portas fechadas se estendia a perder de vista. Irene seguiu o guia até a penúltima da direita e esperou enquanto ele experimentava o molho de chaves. Entraram. O ar funcionava melhor ali dentro, mas o fedor se agravara. A luz fria piscou na parede dividida em quadrados e, somente então, vendo o legista cumprir a rotina de comparar os números das etiquetas com os do protocolo, Irene se deu conta do que estava prestes a ocorrer. Numa daquelas gavetas escondia-se o fantasma, o seu fantasma.
O doutor, esse sim, era indiferente; ela não. Irene descobria assombrada, à beira de rever o corpo do ex congelado numa repartição pública, que mentiu todas as vezes em que menosprezou a importância dele na vida dela. Álvaro ainda lhe revirava o estômago. A náusea nada tinha a ver com o bodum do ambiente, era a sombra de arrependimentos nunca aplacados. Teve vontade de vomitar.
Parado diante do segundo quadrado, no canto oposto à entrada, o rapaz fez sinal para que Irene se aproximasse. Protegidas por luvas, as mãos do perito puxaram a estreita cama de metal. Sobre ela, o Equívoco. Nunca mais o vira. Aos poucos, a luz descortinou o nariz ainda mais adunco e as bochechas murchas. A papada e a calva unidas formavam uma moldura de pele enrijecida em volta do rosto. O cinza-pedra das feições. O trilho se estendeu até o final, permitindo enxergar os ombros mirrados, os braços finos, a barriga de sempre e os pelos embranquecidos. Não quis olhar o resto. Constrangeu-a vê-lo nu. Parou pensativa, admirando o contraste das nádegas com o alumínio da maca. Como era pequeno. Álvaro estava sujo de sangue, mas não era o vermelho, a idade e nem os resquícios do acidente que intrigavam Irene. Álvaro não se parecia em nada consigo mesmo. A boca arqueada se juntara ao sulco que partia das abas das narinas, criando um aspecto maligno que jamais tivera. A passividade cômica de antes cedera lugar a uma carranca tensa. Sempre fora infeliz, mas não amargo. Teria se tornado um homem mau? Os mortos nunca se parecem com os vivos, pensou. Álvaro nasceu velho, mas não morto, concluiu.
Quando estivera com ele pela última vez? No casamento da filha? Enterro da Célia? De Neto? Não lembrava. O exercício consciente que fizera para eliminá-lo da memória surtira efeito. A pergunta puxou uma segunda indagação. Quando fora a última vez com ele? Na cama, com ele? Reflexos involuntários dos quinze longínquos anos correram à solta. Os quartos separados, o desconforto do par, a careca evidente, a raiva, a pança, o cansaço, a inércia e a brochura daquele homem. A única imagem que guardara era dos dois nus, entre os lençóis de uma pousada na serra, onde foram passar um fim de semana nos primórdios da tragédia que se seguiria. Do casamento, nenhum afeto sobreviveu.
O Álvaro não gosta de mulher, garantia, estendida nas almofadas do chão de madeira escura do casarão da Visconde de Caravelas. Ele devia ter virado padre. Por que continuava fechada num casamento branco, tratada como uma cidadã de segunda pela filha adolescente, enquanto todas as amigas pediam o desquite e partiam para outra? O que a prendia a ele? Aquela garota? O cachorro asmático? O décimo terceiro da empregada? Queria viver, trepar, amar, e nem sabia se ainda restava tempo para aprender a fazer tudo isso. Casais bem mais realizados enfrentavam o seu fim. O Ciro e a Ruth. Ele é um zero, um nulo, um nada, como eu posso sofrer por um nada?
Vera foi dura. Esperou Irene terminar o rosário de queixas e, perto do fim da sessão, disse que tinham chegado a um impasse. Não acreditava que fariam progresso sozinhas. A questão não se referia apenas a Irene, mas a toda a sua prática terapêutica. Vera estava convencida de que a análise de grupo seria a única maneira de libertar Irene da capa de racionalidade que a aprisionava. Ela tinha todo o direito de não aceitar, mas, caso achasse melhor continuar com um tratamento convencional, pediria que procurasse outro profissional para atendê-la. A paciente ouviu ofendida. O exibicionismo com que Vera proferiu o termo “capa de racionalidade” deveria tê-la feito ir embora, mas, aos quarenta anos, era jovem demais, burra demais, perdida demais, desesperada demais para dizer não. Aceitou o grupo.
O pensamento vagara sem que se desse conta. Por que recordar daquela tarde? Quando aceitou servir de cobaia para uma corrente experimental da psicanálise, tão em voga naquele período mas cujas técnicas, todas aposentadas no presente momento, são como os procedimentos ultrapassados da cirurgia plástica, um criadouro de deformações neuróticas das gerações que lhe serviram de pasto. Irene não gostou de revisitar a mágoa antiga. Até morto, pensou, Álvaro evoca más recordações.
Foi objetiva.
Assinou o termo assegurando que o cadáver daquele sujeito enfezado era de Álvaro Pereira Gomes Soares, morador de Copacabana, oitenta e cinco anos, branco, velho e infeliz. Assinava a ex-esposa, mãe de sua única filha, Rita da Costa Soares. Sem mais, Irene Azevedo da Costa. Havia muito, para seu regozijo, o desquite, seguido de divórcio, extirpara o Soares de seu nome completo.
Quando botou os pés na rua, o asfalto fervia. Uma da tarde. A operação toda lhe custara três horas e meia de calvário. Queria voltar para a toca, tomar um banho e jogar a roupa e os sapatos no incinerador. Considerava paga a dívida moral com a cria, não iria ao enterro nem morta. Tinha o direito de retornar ao paraíso da sua solidão.
Apesar das juras, Irene compareceu ao adeus de Álvaro. A filha insistiu, vertendo lágrimas via Embratel. Rita repetiu a lamúria pela falta de irmãos. Irmãos, cogitou Irene, não se comete o mesmo erro duas vezes.
Ela havia acabado de limpar a craca do IML no longo banho de chuveiro. A ideia de se vestir de novo e encarar a sauna do lado de fora, a decrepitude, as baratas, eu sou uma mulher de idade, essa menina não tem compaixão? Cresça! Enterre seu pai sem autopiedade. Ele tinha mais de oitenta anos! Eu não tenho pena de ninguém, muito menos dela, que é nova, que pode fazer o que bem entender da vida. Não vou jogar outro vestido no lixo, outro par de sapato. Não vou botar poeira de cemitério pra dentro de casa. Eu tenho setenta e três anos, mocinha! Eu é que devia te chantagear!
Mas não disse nada. Marcou de se encontrar com Rita às duas e meia no São João Batista. O cortejo sairia às quatro. A contragosto, escolheu uma saia velha, uma blusa preta que não lhe caía bem e uma sandália apertada. Pelo menos limpo o armário, pensou. Na calçada, fez sinal para o primeiro táxi. Era um Corsa velho, sem ar, com a marcha solta e um futum exasperante de odorizador de ambiente com sovaco de trabalhador. Quis saltar, inventar uma desculpa, mas teve pena do motorista. Mandou seguir. Mesmo respirando pela boca, o perfume azedo subia pelo paladar. Aquele não era um bom dia.
Capela 10. Galgou as escadas, entrou, não havia ninguém. Achou que estivesse enganada, chegou a dar meia-volta, mas resolveu checar o defunto. Caminhou em direção ao féretro o suficiente para conferir a expressão de zanga; era ele mesmo, a careca, a papada, a boca envergada, era tudo dele. Evitou revê-lo. Desviou para sentar-se nas cadeiras alinhadas em fila, encostadas na parede. Irene contava os segundos que a separavam da ducha que tomaria ao chegar em casa.
Ninguém mandou flores, notou. Só uma coroa de lírios-brancos trazia o dizer: “Saudades, Rita, Cézar, Marcelo e Felipe”. Quem arrumou o Álvaro? Devia ter trazido uma revista. Não, não devia, não pegaria bem. Cadê a Rita? Por que não diz alguma coisa, Álvaro? Irene riu da besteira. Depois, o silêncio apossou-se dela.
Da mudez, veio a lembrança. O dia em que ajudara o marido a embrulhar a velha coleção de Monteiro Lobato para dar de presente a Rita no seu aniversário de sete anos. A expressão de menino, antecipando a alegria da filha, revivendo a infância através dela. Os olhos de Irene marejaram. Foi um bom pai, pensou, e se enterneceu dele. Sentiu respeito e até saudade do homem deitado imóvel na sua frente. Foi assaltada pela viuvez. Estava viúva. Era viúva. Viúva, repetiu. Algo que desejara muitas vezes na época em que eram casados, que ele desaparecesse de vez, agora era fato e não lhe servia de coisa nenhuma. Pelo contrário, sentia falta e não sabia do quê.
Humilde e respeitoso, um senhor abriu a porta. Cumprimentou-a de longe e foi dar atenção ao morto. Ficou em pé, rezando, apoiado na madeira do esquife por largos minutos. Quando terminou, fez o sinal da cruz e se virou para a sala. A falta de quórum o constrangeu. Precisava dividir o momento com alguém, mas a única carpideira presente não parecia a fim de conversa. Ignorando a reserva de Irene, avançou até a cadeira vizinha à dela. Irene estremeceu, fingiu não notá-lo. Que coisa…, balbuciou o homem. Pois é, que coisa, respondeu Irene. Uma hora a gente está aqui, na outra desaparece, mas Deus sabe o que faz. Não. Não era possível que ainda fosse obrigada a escutar a seleção de lugares-comuns de alguém que nunca vira antes. Melhor interrompê-lo. O senhor era amigo do Álvaro? Fui eu que prestei socorro, sou porteiro no prédio há mais de quinze anos. O tempo voa. A gente se acostuma a ver uma pessoa todo dia e, de repente… Por isso é que eu vivo cada segundo como se fosse o último, não se conhece o dia de amanhã, a vida é um fósforo que a gente risca e não sabe a hora que apaga. Irene cogitou gritar por ajuda, tinha horror a clichês. É pra frente que se anda. Não tem como voltar atrás. Não se controla a vontade de Deus. O porteiro era uma metralhadora giratória de frases feitas. De uma hora pra outra, interrompeu o discurso. Deve ter cansado, pensou Irene, e deu graças por isso. O homem levantou a cabeça e olhou para o caixão. Eu perdi minha mulher faz um mês. Ela… ela…, a voz embargou. Apesar das tentativas, foi impossível seguir adiante. Irene assistiu à pantomima de dor, ao vai e vem do pranto, aos espasmos e soluços, aos gestos desconexos. Eu não me conformo, não me conformo, repetia trêmulo, e desabou num choro convulso. Eu pedi tanto a Deus… Irene pôs a mão no ombro do viúvo para não dizer que não fez nada. Ansiosa, olhou para a porta. Cadê a Rita? Rita! Achei alguém para chorar o teu pai com você!
E a senhora?, indagou o pobre. Eu sou a mãe da filha dele. Ah…, e se recompôs diante da objetividade da interlocutora. Não nos víamos há muitos anos, estou aqui mais por ela. O porteiro percebeu que desperdiçara a comoção inutilmente e se desculpou pelo incômodo. Irene o perdoou pelo transtorno e o assunto acabou subitamente. Ficaram calados, olhando o infinito. A praticidade da ex-mulher do condômino ajudou-o a voltar aos eixos. Não chorou mais, nem na sepultura.
Rita chegou quase uma hora depois do porteiro. Seu luto se transformara numa burocracia infernal de carimbos, vias e assinaturas. Um problema com a papelada fez com que o enterro do pai fosse adiado para o fim do dia. Seria o último. Quase passa para amanhã, explicou Rita, enxugando o suor. Irene controlou o desespero. Ficar ali ainda uma hora. Se o Álvaro tivesse amigos, parentes, ela poderia sair de fininho. Se o inútil do marido da filha tivesse deixado os meninos com a mãe e vindo ajudar, ela não estaria presa àquele purgatório. Não vem mais ninguém?, perguntou. Acho que não, não sei, disse a filha, os amigos faleceram, ele só saía para ir ao médico, mas médico não vai a enterro, é contra os princípios deles.
Rita agradeceu a presença do funcionário do prédio, ele narrou em detalhes o atropelamento, fez a mímica completa do acidente e condenou a demora da assistência. Sem pausar, descreveu a aflição da vizinha cardíaca. Ela está em choque, contou ele, o filho levou a mãe pra casa e botou o apartamento à venda. Os cachorros ainda estão lá. Foi uma fatalidade. Eu sei, concordava Rita. Irene ouvia entediada, tinha sono. Quando o sol se esconder atrás daquele prédio, prometeu a si mesma, eu me levanto daqui.
Ainda faltavam uns bons palmos de azul para o entardecer. Sendo assim, Irene se voltou para ouvir o papo arrastado de Rita com o grilo falante. A luminosidade da janela dilatara as pupilas, o que fez com que seus olhos demorassem a se ajustar à pouca claridade do interior. O teto empreteceu, Irene sentiu vertigem e se amparou no espaldar do assento. Recostou a cabeça na parede, teve calma e aguardou a cegueira passar. Rita e o porteiro haviam saído. Num reflexo natural, checou o caixão para ver se ainda estava lá. Estava. Mas o cadáver, com meio corpo para fora, apoiava as mãos nas laterais, dando ao féretro um aspecto de barquinho de pesca. Álvaro estava sentado e olhava para ela com um sorriso.
— Que bom que você veio, Irene — disse ele com doçura.
O pânico travou-lhe a glote, quis gritar, não conseguiu; retesou as mãos e fez força para abrir a boca. Pedia socorro. Acordou com um sobressalto.
Mãe?! Você está bem? Irene demorou a focar. Quando recobrou a razão, lembrou-se de checar o defunto. A ponta do nariz, único pedaço de carne visível de onde estava, assegurou-lhe que Álvaro continuava deitado. Que horas são? Quatro e meia. Eu estou cansada, preciso ir. Não falta muito, insistiu a filha. Irene se levantou para tomar água no corredor, deu um gole, mas lembrou da barata do bebedouro do IML e desistiu da sede. Também não quis ir ao banheiro, evitava tocar em qualquer coisa, tinha nojo até do ar. Voltou para o velório.
Estava em pé, em frente à entrada, quando alguém entrou chutando a porta. Era o capelão, todo vestido a caráter, com uma bíblia na mão. Tenso, fez uma pausa e gritou:
— QUEM SERÁ O PRÓXIMO?
Rita, Irene e o porteiro se voltaram surpresos. Não satisfeito, o padre repetiu a pergunta:
— QUEM SERÁ O PRÓXIMO?!
As testemunhas admiraram boquiabertas o pároco contratado pelo cemitério rogar a abominável praga. Quem chamou este palhaço? Rita, foi você? Irene encarou-o indignada. Se a natureza fosse justa, a próxima seria ela.
PADRE GRAÇA acordou de madrugada. Rezou, fez a higiene matinal, comeu pouco, como de hábito, e preparou a pequena mala com os objetos litúrgicos. O São João Batista o aguardava. Havia vinte e quatro anos cumpria a função de levar a palavra de Deus para famílias que perderam seus entes queridos. No início, via sentido em ser capelão, não mais. Preferia ser transferido para uma comunidade pequena, onde ainda houvesse fiéis. Via o quanto os seres urbanos eram hostis e descrentes da paz eterna. O entusiasmo de seminarista cedera espaço a um isolamento estéril, sem saída. Sonhava em celebrar casamentos, batismos, tudo menos aquilo. O convívio excessivo com a morte o tornara insensível. Não se adequava mais ao cargo. O pedido de transferência fora enviado meses antes, mas os superiores não demonstravam pressa para encontrar um substituto. Padre Graça esperava resignado. Por isso, a perspectiva de enfrentar a sequência de velórios, no longo dia quente que se anunciava, lhe consumia os sentidos. Teria perdido a fé?
Quem o visse entrar no 136, em Botafogo, não suspeitaria da batalha que travava no silêncio do espírito. A ideia de abandonar a batina o seduzia especialmente à noite, como um demônio insistente. O padre lhe dava as costas, mas, de uns tempos pra cá, gastava as horas a se revirar, sem conseguir espantar a vontade traiçoeira. Seria professor, enfermeiro, bancário, cuidaria ele mesmo de Deus, sem ter que impô-Lo a ninguém. Estava cansado da cruzada contra o fogo amigo dos evangélicos e o inimigo dos ateus. Perdemos a luta.
E foi dominado por dúvidas que padre Graça abriu os trabalhos naquela manhã, encomendando a alma de uma bisavó de sete, avó de quinze, mãe de quatro e viúva de um. Apesar da tristeza, os parentes se mostraram resignados com a partida da matriarca. Católicos praticantes, se empenharam na missa. O santo homem chegou a esquecer, por breves instantes, a atual rejeição que nutria pela própria função. No final, agradeceu aos presentes e confessou: Entrei aqui sem esperança, saio com ela redobrada.
As visitas seguintes reduziram a cinzas a comunhão da manhã. Um adolescente, uma mãe ainda jovem e um pai atencioso. De um total de cinco, apenas a anciã da manhã e um velho ao cair da tarde seguiam a lógica natural, a ordem que deveria impedir que as mães enterrassem os rebentos, que os bebês se vissem privados do carinho materno e que os pais faltassem na hora de necessidade. Novamente abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir, padre Graça se deixou arrastar pelo pessimismo. Sou um coveiro de Deus, desabafou em voz baixa.
No estertor do dia, subiu amargurado as escadas da capela a caminho do salão de número 10. Chegou a reduzir a marcha, certo da incapacidade de oferecer conforto. Preciso eu de consolo. Quem me dará? Foi quando surgiu o ensejo, a ideia, a tentação. Cabia ao pároco ser firme no justo instante em que o rebanho se mostra mais vulnerável. A fragilidade diante da morte torna propícia a revelação. O engano residia na benevolência passiva do sacerdote. De que serve a misericórdia? O catolicismo deve eleger a firmeza como aliada. Sou um pastor, percebeu, mas me castro na pele de ovelha. Afaste de mim a bondade. Serei impiedoso, viril, romano, bélico e voraz. O lado terrível do ser divino. O Antigo Testamento é meu guia.
E, certo da recente convicção, adentrou o salão de número 10 às quatro e quarenta e cinco da tarde daquela terça-feira, estancou na soleira e bradou a cruel pergunta:
— Quem será o próximo?
Padre Graça calou-se, parado, segurando a porta entreaberta, sem saber se aquele era o início ou o grand finale da missa. A questão do fim iminente deveria despertar a consciência dos vivos, mas não havia sinal de elevação. A estupefação dos ouvintes exprimia apenas reprovação. Padre Graça pousou os olhos numa velha dama elegante que o mirava assombrada. Era Irene. A próxima. Graça arrependeu-se da bravata, ensaiou uma reverência acanhada e partiu sem fechar a porta. Desceu a escadaria, foi até a secretaria; não havia mais ninguém por quem orar. O dia estava encerrado. Sua carreira também.
Era a gota d’água. Irene não tinha por que ficar ali, ouvindo as ofensas de um reza-defunto, perdendo minutos preciosos de vida para sepultar um homem que já havia nascido caduco. Eu tenho que ir, Rita! Cadê o Cézar? Por que é que ele não veio te ajudar? Que casamento é esse que não vale o sacrifício?
Mas, antes que soltasse o desabafo, os coveiros chegaram para dar a saída. Irene foi junto. Caminhou pelas alamedas até o alto do cemitério e enterrou Álvaro numa cova simples.
Na saída, ao cruzar os portões do Tártaro, correu para um táxi. Desabou no banco de trás, virou a cabeça para o lado e se pôs a admirar o trânsito pela janela, o vai e vem dos vivos. Observou as próprias mãos, mãos de velha, as veias à mostra e a pele enrugada. Tinha mais de setenta anos, mas não se via assim. Sentia saudade dos mimos do pai, do rosto da mãe, da casa do Cosme Velho. Como era bom se sentir segura, e como foi duro perder as certezas. A adolescência destruiu-lhe a graça, a escola a inocência e os homens a delicadeza. Ninguém reconhecia mais nela a princesa, só ela, ali, no engarrafamento da São Clemente.
O enterro, o velório, tudo veio inteiro e de uma vez.
Quanto tempo tinha ainda? Não precisava de muito. Estava cansada, não alimentava mais planos, não se importaria de partir. Nem a filha precisava mais dela, a verdade é que mal se viam. Os últimos trinta anos haviam sido dedicados à solidão absoluta, à ausência de qualquer expectativa amorosa, à não dependência. Conseguiu. Não sofria mais da ânsia do par, da angústia de vencer as etapas: namoro, estudo, trabalho, família, filhos, cumprira tudo da maneira possível.
Naquela noite, sonhou.
Estava na praia. O sol se deitava atrás dos Dois Irmãos, clima ameno, mar calmo. Álvaro vestia uma sunga, ajoelhado em frente a ela, as costas recortadas pelo laranja do céu. Era magro, forte e bonito. Sorriu para Irene.
— Que bom que você foi. Que bom, Irene.
E a beijou. Depois, ficaram assim, enlaçados. Um pouco adiante, em frente ao muro do Country, uma roda observava o casal, era o grupo de análise. Falavam de Irene, mas ela não conseguia saber o quê. Álvaro perguntou se estava tudo bem e virou a cabeça da esposa para que ela respondesse olhando para ele. Álvaro havia se transformado em Álvaro. Era flácido, careca, mirrado e brocha.
Irene abriu os olhos e não dormiu mais. No dia seguinte, levou a filha até o aeroporto.
RITA parecia orgulhosa de ter dado conta da tarefa hercúlea. Falou do pai como os filhos costumam falar após as exéquias, com cerimônia. Nas suas palavras, Álvaro vinha ungido de uma grandeza que jamais possuíra. Napoleão coroado em derrotas. Irene ouviu, era seu papel ouvir. Os filhos têm pouco interesse pelo sofrimento dos pais, são ciosos do lugar de vítima, não gostam de abrir mão por ninguém. Era a hora de Rita contabilizar seus feitos e de Irene dar valor à maturidade da filha. Fingiu dar. Na despedida, abraçou a cria, lembrou dela neném, do futuro que projetara para ela, do choro, das aflições, das brigas, depois olhou para a mulher na sua frente. Rita havia crescido, aceitara uma existência modesta no interior, com um homem medíocre, mas sólido, fiel e presente. Não arriscou e não perdeu tempo. Possuía o bastante da passividade bovina do pai para se contentar com a vitória dos meninos no futebol, com a novela das nove e o Carnaval no clube. Era feliz, bem mais do que Irene. E de Irene havia herdado o brio. Era submissa à vida doméstica, mas nunca ao marido. Conseguira a vitória onde Irene falhara, soubera controlar os impulsos e se satisfazer nas insatisfações. Rita cumpria com mestria as duas grandes obrigações do mundo moderno, ser jovem e ativa. Ia à academia diariamente, comia direito e passava cremes à noite. Cuidava da contabilidade da clínica de exames do sogro. Era boa de contas, sólida, reta e pragmática, como a mãe; e simplória, como o pai. Eliminara a dúvida. Não tinha desejos, a não ser os de trocar o carro, organizar o aniversário do Felipe e do Marcelinho e o churrasco no sítio. Irene acumulava desprezo e admiração pelos feitos da filha. De qualquer maneira, era um presente melhor do que o que prometera a nefanda adolescência.
A pele de Rita estourou de espinhas, os quadris alargaram e a barriga, engraçada aos quatro, preocupava aos doze. No fim do quarto ano primário, o colégio chamou, queriam que repetisse de ano. A mesma rotina ocorreu nos anos seguintes. Os dezembros gastos na expectativa de salvar o boletim, berros e chás de cadeira ao lado dela, martelando equações e os verbos irregulares. Rita gostava de não fazer nada, de ver TV e comer biscoito com requeijão. Queria ser como as heroínas das novelas, Lucélias e Lídias, Reginas e Glórias, ser beijada pelos galãs. O pior veio depois, quando passou a desdenhar dos folhetins e deixou de tomar banho. Só comprava roupas usadas, andava de chinelo e não raspava debaixo do braço. Botava Led Zeppelin para a vizinhança ouvir e respondia com raiva a qualquer pergunta que lhe fizessem. Agredia a mãe, ridicularizava as roupas e as opiniões dela. Irene era a sua inimiga figadal. Depois de repetir duas vezes o primeiro científico, concluiu os estudos num cursinho supletivo, o Fast, onde não precisou nem marcar presença. Pagou e passou. Não tentou o vestibular. Tudo parecia perdido. Depois de quitada a última prestação do Fast, para comemorar não se sabia bem o quê, os pais financiaram uma viagem de Rita para Minas Gerais. Quinze dias em Ouro Preto na companhia de umas amigas igualmente bizarras. Irene achou que estava louca quando deixou as três na rodoviária.
Rita perdeu a virgindade em Ouro Preto, tinha dezoito anos, e voltou outra. O namoro com o Cézar engatou e tudo nela amainou. Rita, diferente da mãe, era dona de um romantismo terreno, saciável. Casou-se com vinte e um, depois de um longo noivado, e se mandou para Uberaba. Teve dois filhos homens e acabara de perder o pai. A mãe ainda estava viva e, graças a Deus, com saúde. Rita não alimentava hipóteses. Vai morrer em paz, pensou Irene, é uma qualidade e tanto. E abraçou a filha, dessa vez, com o merecido respeito.
A cria desapareceu no portão e Irene se viu perdida no aeroporto. Fazia tempo que não viajava. Será que voltaria a fazê-lo? Ficaram a sós, ela e as suas frustrações. Preferiu usufruir da companhia em público. Sentou-se no balcão e pediu um café, esperaria até o avião confirmar a partida.
— E por que você acha que bateu na sua filha?
— Eu não sei. Ela apareceu bêbada. Chegou dizendo que precisava de dinheiro e se arrumou para sair. Tinha acabado de escurecer. Eu falei que não ia dar, mas ela abriu a minha bolsa e pegou um bolo de notas sem pedir. Fez isso na minha frente e saiu andando pelo corredor. Eu achei demais aquilo, barrei a porta e mandei ela botar o dinheiro de volta. A Rita me empurrou com força e tentou virar a chave, eu puxei ela pelo cabelo, a cabeça bateu na quina do batente. Eu não sei o que eu fiz. Eu chutei a chave da mão dela e dei um tapa, acho que no rosto… não lembro… não lembro. Ela sempre foi difícil.
— E você, Irene? Você é difícil?
Irene encarou a Santa Inquisição. Havia um prazer explícito no rosto dos presentes pelo fato de ela aceitar o papel de ré com tamanha abnegação. O regozijo do grupo crescia a cada fracasso seu. Irene havia tomado para si a posição da falha, da fraca, exorcizando a consciência dos demais. A pergunta de Vera era uma acusação clara de que a fonte da histeria da filha provinha dela. Todos aguardavam a expiação, o mea-culpa que, segundo a teoria, romperia com as mazelas psíquicas que lhe mantinham fechadas as portas da felicidade. A bolha. Mas era preciso que Irene admitisse, perante o tribunal, que a agressividade de Rita tinha origem na mãe neurótica que ela era, na frigidez sexual de que sofria e na inveja do mundo que não confessava.
— O problema é esse seu casamento.
— Ela precisa trepar.
— Quem? A filha ou a mãe? — Roberta disse rindo. Logo ela, que apanhava em casa e tinha um filho drogado. Está rindo do quê?, pensou Irene.
— Será que o Álvaro não brochou com você porque você brochou com ele primeiro?
— Está todo mundo brocha na sua casa. É por isso que essa menina está desse jeito.
— Você tem que dar, Irene. E pra alguém que te coma direito.
A última sentença foi proferida pelo macho alfa do grupo, um homem atraente, alcoólatra e sedutor. Havia a suspeita de que ele estivesse tendo um caso com Vera. A analista sofrera grandes transformações, emagrecera, passara a usar saia, salto alto e batom. A mudança coincidira com a chegada de Paulo, que nunca falava dele e se divertia com o psicodrama dos outros. Paulo gostava de concluir os ataques endereçados a Irene com frases irônicas, sempre machistas, tiradas sobre a carência feminina e as glórias do pênis.
— Você é um caso clássico de mulher mal-amada — dizia ele, sugerindo que saberia resolver o problema, embora não tivesse nenhuma intenção de fazê-lo.
Irene terminava as sessões massacrada, Vera mal intercedia. Era como se a doutora a houvesse abandonado nua, em meio à savana, para ser devorada por lagartos carnívoros.
Saiu do elevador escondendo o rosto inchado de choro. Resolveu caminhar. Como é feio Botafogo. Não era, mas é, ficou. Não queria ir para casa. A mãe do Álvaro estava lá por causa do marido caduco que a acusava de adultério e alimentava planos de meter uma bala na cabeça da esposa. Era uma boa sogra, silenciosa, discreta, mas havia um mês dormia no escritório. Passava o dia entre a cozinha e a sala, pilotando o forno e vendo televisão. Gostava do fogão, o que foi a salvação quando a cozinheira pediu as contas, o único alívio, pequeno alívio, em meio a tantas debacles. Rita seguia firme em direção a uma terceira reprovação e até o cachorro estava nas últimas, internado numa clínica veterinária de Copacabana. Era velho, fora o presente de aniversário dos oito anos de Rita, depois do fracasso de Monteiro Lobato. O bicho já não enxergava; cheirava mal, mancava e sofria de complicações intestinais. Vivia num canto da área de serviço e seria mesmo uma bênção se alguém ligasse dizendo que ele passara dessa para a melhor. Na noite em que teve que pular da cama para levar o animal desmaiado para o pronto-socorro, Irene pensou em sugerir uma injeção, mas os pudores católicos frearam o impulso. Que bom seria escutar que o Major não retornaria. Mas ele voltou. Só para morrer perto da gente, disse a sogra emocionada. Velho se emociona à toa. Irene cogitou jogá-lo pela janela, adoraria fazê-lo, mas limitou-se a sorrir e fingir alegria com a sobrevida do cão.
Agora, caminhava a esmo por Botafogo, sem lugar. Se pudesse, trocaria de pele, sairia de si, mudaria de nome, começaria tudo outra vez. Até completar trinta, Irene achou que atravessava um período de teste, vendo o que acontecia, jogando por jogar, mas, depois que a filha deixou de ser bebê, percebeu que o futuro se define cedo. Rita era insegura, chata e gorda, além de pouco dotada intelectualmente. Irene jamais pensara que o seu ideal de mãe pudesse não se realizar, não com ela, não com seus filhos. Admitia ter errado de homem, de profissão, de amigos, mas carregava a prepotência de que faria de Rita um exemplo. Fracassara.
A menina foi matriculada num colégio tradicional, católico e exigente. Seria advogada ou economista, previa a mãe. Já na alfabetização, no entanto, a letra em garranchos, a dificuldade na leitura, a falta de compreensão das noções básicas de matemática, denunciaram que algo não sairia como o previsto. Os pequenos problemas de aprendizado tomaram proporções catastróficas. Para evitar a repetência, a família achou por bem trocar de escola. Optaram por Piaget. Irene fez a matrícula numa instituição experimental do Jardim Botânico, foi às reuniões de pais, às palestras sobre a liberdade e a criatividade da criança, entendeu a importância da descoberta e do prazer de aprender em oposição a um ensino ditatorial, feito de cima para baixo, empurrando a matéria goela abaixo dos alunos. No primeiro dia de aula, deixou Rita no colégio convencida de que o problema não se encontrava na filha, mas no sistema. A certeza não durou um semestre. Em junho, Rita recebeu uma péssima avaliação do corpo de psicólogas e professores. Se houvesse boletim, teria levado um D. E mais, tornou-se agitada, rebelde, parou de comer sentada, pulava, desenhava peitos e perus compulsivamente. Os intermináveis deveres de casa do antigo educandário, com Piaget, deram chá de sumiço. Aflita, Irene marcou uma reunião na escola. A psicóloga explicou que a criança deveria fazer o dever caso se sentisse motivada. As redações também não eram obrigatórias. Irene expôs seus argumentos favoráveis à disciplina e a sua preocupação com a leniência de Rita, mas nada disso tinha relevância para a terapeuta, o que a preocupava era outra questão. Esta aqui, disse, tirando uma folha de papel de uma pilha de desenhos. Era um rabisco de Rita, um peru enforcado pela glande com um “papai” escrito embaixo. Ao lado, uma criatura espinhuda, semelhante a um ouriço rosado, exibia dois olhos raivosos e uma boca com dentes pontiagudos. Um “mamae”, sem til, sublinhava a composição.
— Talvez seja indicada uma terapia familiar — ela disse, e concluiu a reunião.
Vagando pela São Clemente, Irene procurava aceitar que havia perdido o controle. Esforçava-se para separar a própria vaidade do destino da filha, mas era difícil. Media o desenvolvimento de Rita pelo dos colegas, pelo dos filhos de amigos, todos sãos, fortes, saudáveis, e sofria com a inferioridade uterina. Procriei mal, pensava. O nó na garganta obrigou Irene a parar. Ela sentou numa mureta, arfava de agonia, sentiu tontura e sufocamento. Para onde fugir? Lembrou-se do clube, ainda tinha força de vontade suficiente para aliviar os nervos na natação.
Cumpriu dois mil metros sem pensar em coisa nenhuma. Saiu melhor da piscina e tomou banho no vestiário. Como havia esquecido a carteira em casa, foi obrigada a dar um pulo na secretaria para carimbar uma autorização e entregar ao guarda-vidas. Implorou para cuidar da burocracia depois do descarrego, foi atendida. Por isso subia as escadas da administração agora, feliz de cumprir a tarefa, era mais uma razão para adiar a sua volta ao lar. Um homem atlético, aparentando cinquenta anos, bronzeado e atencioso, cuidou dos trâmites. Era o Jairo. Ele protestou contra a rigidez do clube, uma mulher bonita como Irene não merecia ser tratada assim. Irene corou com o comentário. Poucas vezes ouvira elogios, já nem se lembrava da existência deles, mas aquele “bonita” fez suas pernas bambearem e o coração palpitar. Sorriu, vermelha, e baixou os olhos. Tinha quinze anos. Passou a frequentar o clube todos os dias, sempre sem a carteira. Subia as escadas logo que passava a roleta, pegava sua autorização com o Jairo e rumava para as raias, onde cadenciava braçadas, enquanto fantasiava encontros com seu raro fetiche. O cargo de gerente dava ares de rei a Jairo, que passou a acompanhá-la até a piscina. Depois, começaram a marcar uma hora certa na portaria, para que Irene não precisasse subir. Ele a conduzia até a catraca e dava ordem para que liberassem a entrada. Na terceira semana de vai e vem, Jairo pediu que Irene regularizasse a situação, estava sofrendo pressão da chefia. E também não via sentido em se valer de desculpas bobas para esconder o desejo de estar com ela. Irene quase desfaleceu. Não sabia mais o que era ser cortejada, havia dado as costas ao romantismo. Jairo tinha tudo o que Álvaro lhe negava. Era macho e direto. Na tarde em que regularizou a carteira, ele fez questão de levá-la até o carro. Estava debruçado na janela, Irene se preparava para ligar o motor, quando, sem avisar, ele roçou a mão no pescoço de Irene e segurou seus cabelos pela nuca. Pediu que ela o encontrasse num bar da Farme de Amoedo às seis. Irene não respondeu. Encabulada, deu marcha a ré e quase levou a cancela.
O Agris era um predinho vagabundo no fim da Farme, quase na boca do lixão da favela do Cantagalo. Os dois se encontraram num bar com varanda a uns três quarteirões do hotel. A conversa não durou muito. Jairo virou o primeiro uísque, sacou uma nota da carteira e pôs sobre a mesa com uma gorjeta gorda. Saíram abraçados, ela ansiosa, ele focado, ambos lascivos. Entraram no 304, fundos. O lençol com perfume de desinfetante, o sabonetinho do banheiro apertado, nada se assemelhava à fantasia de Irene, mas era um passo, uma atitude, um começo. Ele chegou aos finalmentes, ela não, apesar do esforço; mas não se frustrou, pelo contrário, assistiu encantada ao rosto contorcido de Jairo sobre ela, por causa dela, nela, e saiu aérea pela Visconde. Jairo se pôs do lado do meio-fio para protegê-la dos carros e chamou um táxi. Antes de abrir a porta, deu um longo beijo na amante. Antes de deixá-la partir, pediu cuidado ao motorista. Ele sabia ser homem.
Irene foi aplaudida na sessão de análise.
Os quartos separados encobriram o constrangimento. Quando chegava dos encontros com Jairo, Irene não era obrigada a se deitar com Álvaro; de manhã, bastava monitorar o som do chuveiro e as batidas de portas para não ter que cruzar com ele. Viam-se raramente. O marido, assolado por problemas familiares, aliviou-se com o inesperado bom humor da mulher. Se estava bom pra ela, estava bom pra ele.
Dormiam em camas distintas havia dois anos. Aconteceu por acaso, depois de uma briga, mais uma, causada pelos comentários jocosos de Sílvio num almoço de domingo na casa do Ciro. Sílvio bebeu e escolheu Álvaro para cristo. Destilando acidez, sentenciou que Irene tinha escolhido o pior entre eles. Falou das manias de Álvaro, do ronco, da falta de ambição. O Álvaro não ganha da gente nem na porrinha, soltou ele, e riu até não poder mais. Ciro o mandou calar a boca, o que só aumentou a falastrice de Sílvio. O amigo da onça listou as mulheres que haviam rejeitado Álvaro. Teve a Bete, a Cláudia, a Mina, a Sandra, a Paula, a Maureen… Até a doida da Dora disse não. Me espanta você, Irene, ter dito sim. Você merecia coisa melhor.
O discurso morreria com o bêbado, se não refletisse de maneira tão precisa as insatisfações secretas de Irene. Ela vestiu a camisola e se deitou furiosa. Álvaro veio do banheiro, botou o pijama e se meteu debaixo da coberta como se a tarde não houvesse existido. Irene explodiu. Queria entender o porquê de ele ter aguentado a humilhação sem revidar. Perguntou se ele desconfiava do que se passava com ela. Da vergonha que tinha dele. Da falta que sentia de tudo. Álvaro pediu desculpas por existir, disse que aceitaria o que ela quisesse, da maneira que quisesse, quando quisesse. A resposta a enfureceu ainda mais. Irene catou um lençol na despensa, um travesseiro, fez a cama no quarto de hóspedes e mandou que ele dormisse lá naquela noite. Álvaro obedeceu e nunca mais retornou para o quarto do casal. Só não terminaram porque Irene tinha mais medo da solidão que da frustração afetiva. Gostava de ouvir o barulho da chave na porta quando Álvaro chegava de noite, da presença do pai, das contas divididas igualmente. E não alimentava nenhuma ilusão quanto às chances de arrumar algo melhor no futuro. Ao contrário de Ruth, Irene nunca soube o que significava ser feminina. Os rapazes morriam por Ruth, desde sempre foi assim, no primário, no ginásio e, sobretudo, na faculdade. Cursaram letras juntas. Ruth se casara com o melhor dos cinco, ela, com o pior, embora fosse uma mulher desejável. Jamais entendeu.
Álvaro era amigo do Ciro. Ruth cantou loas sobre ele, encheu a cabeça de Irene. Ela estava cansada de estar só, não engatava com ninguém havia mais de um ano. O último namorado se mudara para a Espanha. Cogitou ir com ele, mas teria que abrir mão das aulas que começava a ministrar, da vida aqui. Prometeram se falar à distância. A correspondência durou alguns meses, mas, de repente, minguou. Ele se casou com uma andaluza no verão seguinte e nunca mais deu as caras. Álvaro era troncho, torto, mas dono de um senso de humor atravessado, autodestrutivo, que cativou Irene. Por que não? Ela jamais o amou, continuou com ele como se esperasse o bonde seguinte que a livraria do pequeno desvio; mas o bonde nunca passou. Os amigos em comum, o tempo, o acaso, os enlaçaram. Álvaro escolheu o anel, Ciro ajudou, e num domingo de sol, tendo Ruth e Ciro como testemunhas, Álvaro pediu Irene em casamento. O vinho era bom, a tarde de outono, que importava o noivo? Vou aceitar, decidiu, depois separo, vou ver no que dá. Treze anos se foram e ela continuava na expectativa de alguém que a arrancasse dali. O Jairo, o Jairo a libertaria do Álvaro.
Como era boba, pensou, enquanto admirava o jato alçar voo sobre a baía de Guanabara. Seria bom estar nele.
SÍLVIO não conseguiu esconder a alegria de dar as más novas.
— Um passarinho me contou que a sua senhora planeja o abandono do lar com um sujeito do clube onde ela nada. Abre o olho, Alvarozinho, que elas estão com a corda toda. Willing and able!
O passarinho era o Paulo, ele mesmo, o da terapia. Um dos passatempos prediletos do Casanova era entregar as mazelas dos analisandos para o pessoal da praia. Vera gostava de discutir as sessões com ele, nos frequentes encontros íntimos que andavam tendo, muitas vezes no consultório. Ela adorava a franqueza de Paulo, a segurança, o amor-próprio. Era alcoólatra, é verdade, mas, fora isso, era perfeito. Estava apaixonada, perdera a compostura. Falavam mal do grupo, riam do desespero alheio e eram felizes como ninguém.
Bastava uma dose no quiosque do Coqueirão para Paulo descarregar os podres das últimas sessões de análise. As horas extras com a terapeuta enriqueciam o vocabulário de certezas do difamador. Desde que o caso com Jairo pegara fogo, a intimidade de Irene se transformara na sua novela de predileção. Paulo farejava de longe o igual. O Jairo? É um cafajeste completo, profetizava, agarrado à oportunidade de acompanhar de camarote a queda de Irene na teia do garanhão.
— A idiota vai jogar a toalha na semana que vem, escreve o que eu estou dizendo. Em um mês, esse Jairo vai parar de responder os telefonemas dela; em dois, ela vai implorar para voltar para o corno brocha do marido. — Promulgado o decreto, virou o resto da cerveja e partiu para a rede de vôlei.
Ribeiro conhecia Paulo de nome. Tinham um amigo em comum, também bombeiro. Ribeiro preferia a turma da Miguel Lemos, mas calhou de nesse dia aceitar o convite de fechar uma dupla no Coqueirão. Dividiram a quadra com o Paulo. Antes do jogo, tomaram a gelada que soltou a língua do fofoqueiro. A menção do nome de Irene foi o que primeiro chamou a atenção de Ribeiro; o marido brocha, a filha histérica e o cachorro moribundo o fizeram ter certeza de que se tratava da mulher do Álvaro, o seu Álvaro. Ribeiro detestou saber do imbróglio, teria que tomar uma atitude, mas qual? Precisava dividir com alguém. O Ciro era padrinho do casal, preferiu uma opinião mais isenta e escolheu Sílvio como alcoviteiro.
Sílvio delirou, cogitou se embrenhar no grupo, iniciar terapia, conhecer “aquela tal de Vera”, uma analista tão aberta a experiências. Ribeiro vivia o dilema de contar, ou não, da traição. Lembrou-se da vez que desancou a ex-namorada de um primo, sem pensar que os dois poderiam reatar no fim de semana seguinte. Acabaram casados, pais de três filhos. Quem dançou foi o Ribeiro. Sílvio encarnou o conselheiro, argumentou que não teria condição de encontrar o Álvaro sem lhe dizer a verdade e quase implorou para assumir o papel de Cassandra. Ribeiro delegou a missão e se livrou de bom grado do peso.
* * *
Álvaro não gostava de praia, ia porque todo mundo ia, mas ficava debaixo da barraca, sentado numa cadeira dobrável, lendo o jornal e tomando mate. Raramente dava um mergulho, e carregava um balde d’água para limpar a areia dos pés na retirada. Luminosa manhã, lá estava ele, folheando o caderno de esportes. Sílvio se aproximou com ar de preocupação e sentou-se para aproveitar a sombra. Consternado, contou da infidelidade de Irene e encerrou com o “willing and able”, ele gostava de pavonear seu protoinglês. Álvaro odiou Sílvio por se deleitar com algo tão triste quanto ver as suas dores lavadas na mixórdia do Posto 9. Compreendeu a recente alegria da esposa, o porquê da leveza dela, Irene estava indo embora. Paulo acertara na mosca, em um mês ela retornaria aturdida, pediria para voltar; em um ano, entraria no climatério e enfrentaria uma depressão abissal. Sairia bem, dois anos depois, mas nunca mais teria outro homem. Aquele era o começo do fim da vida sexual de Irene. Não teria sido muito diferente se tivesse permanecido casada.
Sério, Álvaro recolheu a barraca de praia, a esteira, a cadeira, guardou o jornal na sacola, catou os chinelos, o chapéu, o balde d’água, e se voltou para o Calçadão. Antes de enfrentar a travessia escaldante, olhou para Sílvio com gravidade e desejou que ele estivesse morto.
Mas isso ainda demoraria vinte e cinco anos para acontecer.
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