Fim

Fernanda Torres · Capítulo 2 de 6

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Fim

Sílvio

* 13 de junho de 1933

† 20 de fevereiro de 2009

Me dá três de cinco. E a lança também. Quanto?… Aceita cheque? Não tenho. Cem… sessenta… duzentos e cinco… duzentos e dezessete… me perdi. Quanto? Dois de cinco por isso? E a lança? Inclui a lança aí, porra… É Carnaval!

Sai logo desse muquifo, rei. Odeio buraco quente, sempre acho que vão me matar. Aqui. Não vem ninguém. Que pó cortado da porra é esse? Vidro moído. Foda-se. Onde é que eu estou? Evaristo da Veiga. Evaristo da Veiga… Evaristo da Veiga… Onde fica a Evaristo da Veiga? Quem foi o sádico que batizou o filho com um nome desses? O mundo está perdido. Cadê os Arcos? Cadê a porra do mar?

Olha a cabeleira do Zezé… Será que ele é?… Será que ele é?… Bicha! Adoro essa música. Cadê a lança? Uuuuuuuuuóóóóóóóóó… Caceta! Caí e continuo em pé… estou doido pra caralho. Preciso pegar um táxi e voltar pra Suzana… Ela está lá com a… a… ou não?… Não, a Suzana… a Su… zzzz…

Eu estava casado com a Norma há um ano e meio. Fazia um ano e meio que ela não era mais virgem. A Norma não dava o cu, me chupava por obrigação e perdeu aquele medo de abrir as pernas que tanto me alucinou no começo. Era um beco sem saída, eu sabia, mas ainda não tinha decidido o que fazer. Eu estava no jardim da casa do Ciro, pensando na cara de pedinte que a Norma fez com o bebê do Neto no colo, quando a doida apareceu. Sorriu que nem criança, acendeu um baseado e virou o rosto para tomar sol.

Suzana. Sílvio. Sílvio também começa com “s”, ela disse. É, começa, respondi. E me ofereceu o charro, eu aceitei. Você é amigo do Ribeiro?, perguntou. Muito, eu disse. E ficamos mudos, olhando para a frente.

Você faz o quê? Sou funcionário do Banco do Brasil. Nossa. Meu pai queria o Itamaraty, mas eu não aguentei a frescura. Frescura? Tem muito veado no Itamaraty. Eu gosto de veado, ela disse. Eu também, respondi. E rimos cúmplices. E você? Devolvi o cigarro para ela. Eu o quê? Você faz o quê? Ela deu uma baforada e respondeu: Eu namoro o Ribeiro.

Sempre tive desprezo pelo Ribeiro. Primeiro vinha o Ciro, depois o Neto, o Álvaro e, muito depois, o Ribeiro. O Ciro era heroico, o Neto conservador, o Álvaro trágico e o Ribeiro burro. Simples assim. Um bronco comedor de virgens. Que vantagem há nas virgens?, eu perguntava. Ele dizia que era escolha, mas a verdade é que nenhuma mulher com mais de um neurônio suportaria a companhia do Ribeiro.

Por que será que essa menina está com ele?

Chamou pelo nome, o diabo aparece. Veio pedir para apagar o cigarrinho porque a Ruth não estava gostando. Eu ri, era ridículo demais, o jeito como o queixo dele caiu quando viu nós dois juntos. A Suzana também se escangalhou, me entregou a ponta e saiu colada nele. O Ribeiro foi andando com a cara virada pra trás, um símio raivoso. Ai, que meda!

Onze e meia da noite, eu já estava na cama, o telefone tocou. A Norma atendeu e disse que era do banco. Estranhei. Era a Suzana. Contou que o Ribeiro estava infernizando ela por minha causa e que não tinha aonde ir. Inventei uma transferência do Japão, um telex que ia chegar no escritório, e combinei com a Suzana, ali, nas barbas da Norma, de me encontrar na agência da Primeiro de Março. A Norma engoliu e eu sumi pelo corredor. Voei pelo túnel em direção à Presidente Vargas.

A Suzana estava na esquina em frente à Candelária, vestida com uma minissaia que dava pra ver a cor da calcinha. Verde. Eu parei do lado, ela abriu a porta tomada de raiva, sentou no carona e me deu um beijo de língua que me fez ver estrelas. Eu não esperava. Olhei bem para a cara dela sem conseguir pensar em nada que não fosse revirar a Suzana por dentro e rumei para a Glória. Nos agarramos no carro, no elevador, e trepamos na porta do apartamento, oito horas depois do jardim da casa do Ciro.

Repetimos a dose até ela cair para o lado, já era bem tarde. Vesti o terno e sacudi a Suzana forte, disse que era para ela voltar para o Ribeiro porque eu não queria confusão para o meu lado. Passamos a nos ver regularmente, o Ribeiro cada vez mais enciumado, a Suzana cada vez mais Suzana e eu cada vez mais entediado com a vida de casado.

Foi quando a Norma engravidou pela segunda vez.

Apaguei. Emborquei na calçada. Que fedor de mijo. Acho que sou eu. Não, é o bueiro. Não, sou eu e o bueiro. Eu estou todo anestesiado. Levanta, Sílvio, toma teu rumo. Eu tenho que pegar um táxi. Angústia filha da puta. Vai ser ruim de aterrissar dessa vez. Eu tenho um Dormonid no apartamento. Eu tenho que chegar no apartamento. Cadê o táxi? A estrela-d’alva no céu desponta… Estrela-d’alva é fim de festa. Está ficando azul… o céu… anil. Odeio o amanhecer. Angústia filha da putíssima. Cadê o pó de vidro? Mais uma, só para chegar em casa. Vêm vindo uns pivetes, foda-se.

Na Cinelândia tem táxi, na Cinelândia tem táxi, na Cinelândia tem táxi. Na Cinelândia. Pra que lado é a Cinelândia? Tu não tens pena de mim… que vivo tonto… Vivo tonto. Eu vivo tonto, me sinto em transe nos estados alterados, desde sempre foi assim. Comecei a fumar aos doze, a beber aos treze, e me viciei em bolinha aos quinze. Perdi a virgindade com uma puta, um primo me levou, meu pau não estava nem formado. Adoro sacanagem. Tinha a coleção do Carlos Zéfiro e ia à zona toda semana com esse primo, o Valdir. Fiz muita meia com o Valdir. O coitado morreu cedo, de tuberculose, tinha só dezoito anos.

Eu era bom aluno e o meu pai encasquetou com o Itamaraty. No curso, conheci uns garotos finos que se divertiam que nem gente grande. Rico é muito mais pervertido do que pobre. Rico não tem moral. Aqueles meninos não tinham. Fui aceito por causa de um anestesista, herança do Valdir, que fornecia os tarja-preta; eles entravam com o uísque e cada um ficava incumbido de trazer duas acompanhantes para as festas.

Uma delas, a Miranda, era de menor. Quem trouxe foi o Fausto, disse que era prima dele. Ninguém questionou se a guria tinha mais ou menos anos, para estar ali com o Fausto boa bisca ela não era. Foi a primeira vez que vi dois caras darem cabo de uma garota. O Fausto e o Bernstein. Fiquei doido. Um tesão que não passou nem na delegacia. Os pais da Miranda botaram a polícia para seguir o Fausto e fomos todos parar na cadeia.

Fui expulso do Itamaraty. Meu pai, desesperado, conseguiu uma prova no Banco do Brasil com um diretor conhecido, deram um jeito de esconder a ocorrência, eu passei e resolvi os próximos cinquenta anos da minha vida. A única exigência era comparecer em dia, o resto — aposentadoria, décimo terceiro, férias e bonificação — viria de mão beijada com o tempo de serviço. Longe da aristocracia diplomática, a vida ficou bem mais entediante. As caixas queriam casar, as gerentes constituir família e os homens só ejaculavam quando o time fazia um gol. Melhor pastar longe do serviço, pensei.

Tem um pessoal saltando de um táxi na esquina do Municipal. Mais uma. Mármore dos diabos. Última lança antes de chegar em casa. Uuuuuuóóóó… Uuuuuuóóóó… Caceta! Caceta! Cacet…

A Norma era lindinha, pequenininha e ingênua; filha de um tio fazendeiro. Moravam todos em Ribeirão Preto. Ela veio passar as férias no Rio e minha mãe pediu para eu servir de cicerone. Fui ao Bondinho, ao Cristo, à praia, levei para tomar sorvete, apresentei aos amigos, demorou semanas para ela me dar um beijo, sem língua. Eu inventei um tipo romântico, fiz parecer que não esperava nada dela, que estava doente de amor, deprimia com a ideia de vê-la partir. Eu andava entediado com as pilantras que davam fácil. Eram vulgares, desbocadas, e a grande maioria já tinha passado pela cama de todos os marmanjos que eu conhecia. A pureza da Norma se transformou num fetiche pra mim.

Era impossível, naquela época, existir sem cumprir certos rituais. O casamento era o principal deles. Percebi na Norma a vocação de gueixa. Ela seria tão agradecida por eu ter tirado ela do mato, que engoliria qualquer ofensa para manter o matrimônio em dia. A Norma era a minha libertação.

Minha mãe chorou com a notícia.

Quando eu levantei a saia do vestido de noiva, alucinado de bêbado por conta das comemorações, a Norma tremia que nem vara verde. Eu virei um bicho e possuí a pobre como um touro pagão. Depois, caí duro para o lado, roncando. Na vigília, ouvi a Norma chorar. Deixa pra lá, pensei, amanhã eu vejo isso. Sóbrio, tratei melhor dela e a vida caminhou sem dificuldades. A rotina com os amigos era um direito sacramentado. O horário incerto do fim do expediente, também. Eu não nasci para Cristo. Meu pai morreu e me deixou umas economias. Comprei o refúgio da Glória.

A Norma saía muito para levar o Inácio no parquinho, na praia, no médico; eu chegava de manhã, dormia até tarde e, mal acabava a janta, já ganhava a rua. Vivemos assim por dois anos sem que ela notasse a minha ausência. Mulheres como a Norma só têm olho para filho pequeno. Estava tudo em ordem, até a Suzana aparecer.

Alguém contou para a mãe da Norma que eu estava de caso com uma hippie de Bauru e ela bateu o relatório para a filha. A Norma estava no nono mês. Com uma mãe assim… Ela entrou em trabalho de parto e quase perdeu a menina. A Vanda nasceu roxa, foi um pesadelo. Quando voltou do hospital, a Norma estava liquidada. Minha sogra se mudou para dentro de casa, veio cuidar da retaguarda. Quando me via, desviava os olhos de indignação. Eu suportei por um bom tempo aquele inferno, até que não deu mais. Mandei o Inácio para o internato, contratei uma enfermeira para cuidar da Vanda, bati continência para a sogra e parti em direção à Glória.

Na Glória…

Suzana de manhã, Suzana de tarde, Suzana de noite. Ela me fez tirar o atraso. O Valdir, os diplomatas, a esbórnia, tudo voltou com força total. E melhor, porque eu não era mais criança. No dia da mudança, a Suzana preparou uma surpresa, chamou duas amigas da Bahia que me ajudaram a arrumar a bagunça. Depois, tiraram a roupa e ficaram se alisando no sofá para eu ver. A Suzana montou em mim e me desejou boas-vindas. O Ribeiro não tinha nobreza para dar conta daquela mulher. O aristocrata da turma era o Silvinho aqui.

Calor da porra, palpitação, tremedeira. Parkinson. Tenho que tomar o remédio. O veneno daquele remédio. Está juntando gente. Afasta, porra! Eu não sei o meu nome. Não me chateia que eu não vou dizer meu nome! Um filho da puta vestido de zebra querendo me levantar. Me deixa em paz, quadrúpede! Estou bem aqui. Onde? Onde eu estou? Por que tem um cara vestido de zebra tentando me levantar? Colombina… traveca… onde é que eu fui parar, cacete? Por que faz tão frio? Zebra! Ô zebra! Alguém! Chama uma ambulância e pede para me apagar com Propofol. Só serve Propofol! O do Michael! Jackson… Five… Foram embora. Graças a Deus me deixaram em paz.

Meu filho me arrastou para o hospital no dia em que eu apareci pelado na portaria perguntando por fogo. Eu queria acender um cigarro. Não esbocei reação, dei a mão para ele e me deixei levar. O Parkinson acaba com a iniciativa da gente. Não sei como o Inácio ainda consegue ter carinho por mim, eu fiz tudo para ele me odiar, nunca entendi. Na clínica, me viraram de cima a baixo e deram o veredito: dali pra frente, eu teria dificuldade para andar, falar, comer, pensar, dormir e trepar. Grande notícia. E ainda se paga para ouvir uma merda dessas. Me arrependi de não ter baixado hospital mais cedo, alguns exames pediam anestesia, daquelas que só se experimentam nas melhores enfermarias do ramo.

O tratamento do Parkinson é muito pior do que o Parkinson. E não existe cura. As bombas aceleram a cabeça, dão suor frio e um medo do caralho. O médico carimba a receita e te manda para casa de mãos dadas com o Incrível Hulk. São uns tarados, esses doutores. Carbidopa 25 mg, Levodopa 250 mg, Cloridrato de benzerazida 25 mg. Para o farmacêutico te entregar o pacote, você tem que apresentar CPF, carteira de identidade, título de eleitor, bons antecedentes, foto. É mais fácil comprar uma arma e se matar. Sem contar os antidepressivos, antiespasmódicos, antiácidos e associados. Me viciei em todos eles. Deu um mês, vieram as alucinações; delírios extenuantes de carros andando pra trás, cortes no tempo e passamentos. A whole new world. Ah, se o Valdir estivesse aqui! Coitado, só conheceu a anfetamina e o álcool, perdeu o melhor da festa.

Sai, bêbado! Bafo dos diabos. Sai, sai! Vai te catar! Cadê a zebra? Esse ano não vai ser… igual àquele que passou… Meu Deus, estão botando os foliões pra correr. E você, Sílvio? Vai ficar aí? Pelo menos senta, seja digno. Zonzeira, nariz sangrando, pó de vidro do cacete. Chão molhado, melhor assim, com a cabeça em pé. Sentado não amontoa gente. Como fede o Rio de Janeiro. Sempre fedeu. Sai, cachorro pestilento, vai fazer xixi noutro poste, eu cheguei primeiro.

Larguei tudo pela Suzana, os amigos, o serviço, perdi dinheiro, tudo. O Ribeiro e ela viviam às turras, a Suzana passava os dias se escondendo na Glória, comigo inventando desculpas para abandonar a noite. Quando perguntavam se eu ia botar a mulher na roda, eu desconversava, o Ribeiro só faltava subir pelas paredes. E a Suzana não era de ficar trancada à espera de ninguém; saía sem avisar, dizia que ia me encontrar e não aparecia, ameaçava fazer as pazes com o Ribeiro, inventava que estava esperando um filho dele só para me atazanar. A Suzana era igual a mim.

Quando o Ribeiro finalmente botou ela pra correr, a Suzana pegou um táxi e foi direto para a Glória. A Brites veio a reboque. Era uma gaúcha lourinha e cheinha que chegou de ônibus com um carregamento de maconha que pretendia vender no Rio de Janeiro. Eu disse que ela podia ficar se deixasse a metade para o aluguel. Sem opção, as duas venderam a parte delas. O Ciro quis comprar um terço do que ficou comigo. Rachamos a cama em três, eu, a Suzana e a Brites. Inventei para o Ciro, o Ribeiro, o Álvaro e o Neto que eu estava enrolado com duas gaúchas e que tinha planos de me mudar para o Sul. O Ribeiro me fuzilou do outro lado da mesa, fazia seis meses que ele não via a Suzana, estava na cara que a gaúcha era ela.

A Suzana e a Brites conheciam muita gente. Todos bi de carteirinha, donos de um discurso chatíssimo de que o mundo se dividia entre os bi e os reprimidos. Os comunistas não gastavam o tempo deles com sexo, ao contrário dos bi, que fodiam adoidado. A Brites era apaixonada por uma bicha dos Dzi Croquettes, acho que também se chamava Ciro. Assisti aquela porcaria mais de dez vezes. As duas gostavam de colocar “Dois pra lá, dois pra cá”, com a Elis, pra tocar na vitrola, e de dançar agarradas, imitando o Lennie Dale. Era uma marginália cabeluda, não se distinguia homem de mulher.

Um dia, a Brites apareceu com um convite para uma festa chique numa cobertura na praia do Flamengo. Eu achei que era mentira, mas ela explicou que ia levar uma encomenda e que o dono, um pintor milionário, liberou dela entrar. Fomos os três e mais trinta gramas de pó.

Subimos no elevador social, tocamos a campainha do um por andar, o som a toda, ninguém atendeu. Dez minutos de expectativa, nada, viramos a maçaneta e descobrimos a porta aberta. Atravessamos o hall imponente, seguindo a música e o vozerio. Ao virar à direita no corredor principal, por trás de uma coluna de mármore, os janelões do salão descortinaram a Guanabara. Nele, cem pessoas nuas se entretinham majestosamente. Adentramos a corte do Rei-Sol, o esplendor de Versalhes. Saímos de lá de manhã e fomos caminhando pelo Aterro. Trepamos a tarde inteira. Agradeci por ter nascido quando nasci, a tempo de usufruir daquela libertinagem. Nunca mais fui o mesmo. Mandei o sofrimento cristão às favas e restituí a glória, Na Glória…, do antigo Império Romano.

O Império Romano. O que esse homem de toga está fazendo, parado na minha frente? Ele está vestido de quê? Do que é que você está vestido? De Hércules, diz ele. Cadê a clava? Hércules me pergunta se eu tenho fogo. Bafo horroroso. Tenho, Hércules, tenho fogo. Você tem um cigarro? Trocamos gentilezas. Que bênção esse Marlborão. Tenho pó, aceita? Não, eu não… Hércules não completa a frase. E lança, quer? Lança ele quer. Hércules cheira e devolve o frasco, depois sai imitando uma sirene pela Evaristo da Veiga. Evaristo. Que nome besta do diabo.

Não tenho mais pernas, nem braços, nem cabeça eu tenho mais, perdi as extremidades. Vou pegar táxi porra nenhuma. Vou ficar aqui, amanhã a Suzana me recolhe. Será que ela já foi embora? Não era ela, Sílvio, era outra, outras. A Suzana nunca mais apareceu. Chora. Pode chorar. Você trancou três bocetas no apartamento e saiu para comprar mais pó. A Suzana nunca mais deu o ar da graça. Que falta de tudo, meu Deus.

Eu tive uma epifania na cobertura do Flamengo. E devo isso a ela. Foi a Suzana que me fez entender que o homem nasceu para ser livre, e gozar, e foder, e se fundir com outros braços, outras bundas, e peitos, e coxas e paus. Não lembro bem do que aconteceu, só do êxtase, da realização. Aquela noite foi um divisor de águas, o auge de alguma coisa que me separava em definitivo do Ciro, do Neto, do Álvaro e do Ribeiro. Foi o fim da juventude. Naquela sala neoclássica, com a boca enfiada na boceta da Brites, que se ocupava de beijar a Suzana, que dava para um alemão barbudo, que sarrava os peitos da japonesa de São Paulo, que admirava o aglomerado de corpos enroscados no sofá da frente, eu pensei: Esse é o pico, o ápice da minha existência. Decidi, ali, abandonar de vez o manual do bom comportamento, que te impede de comer o amigo, a mulher do amigo, a mãe e o pai do amigo. Uns cornos mansos que desconhecem o deleite da amoralidade.

Me deu vontade de seduzir a Ruth, a Irene e a Célia. E também o Ribeiro, o Álvaro, o Neto e, é claro, o Ciro. A Irene eu cheguei a tentar. Ela tinha levado um pé na bunda do Jairo, o gerente do clube com quem ela corneou o Álvaro. Farejei a presa, liguei perguntando, engatei um papo mole, chamei para um café. Quando esfreguei o meu pé no pé dela debaixo da mesa, a Irene me deu um tapa, levantou e se retirou ofendida. Burguesa idiota.

Ela e todos eles. Uma classe média cafona, travada, vivendo em prisão domiciliar, com os periquitos, os cachorros e os gatos castrados. Lamentável. Pior, só os do banco. Esses conseguiam superar a bovinice dos outros. O Ricardinho. Ricardinho galgou a gerência da agência do Centro. Encarnava um novo tipo, o economista recém-desmamado, lavadinho, com a camisa passada, abotoada até o pescoço, óculos de tartaruga e uma ambição do tamanho da crise financeira do país. Ricardinho foi empossado junto com o cruzado novo. Entrou com o pé na porta, nem pentelho devia ter. Exigiu rendimento. Que rendimento?! O dinheiro não valia lhufas. Estamos falidos, Ricardinho! O governo laçando boi no pasto para encher o supermercado, e me aparece um fedelho de fralda querendo ser produtivo, cobrando balanço, projeção, metas de um funcionalismo que jurou, perante a bandeira, jamais se esforçar. Será que ele não via que a ideia era justamente essa? Arrumar um emprego público e não ser obrigado a correr atrás de porcaria nenhuma? Ricardinho dava pitis no corredor, rodava as mãozinhas insatisfeito, eu era tudo o que o impedia de chegar a Brasília, de participar daqueles planos de merda que terminavam sempre em ruína. A minha morosidade era inimiga direta da eficiência dele, o meu cumpre-horas, o meu não se importar com o futuro brilhante que ele tinha pela frente. Vai dar esse cu de ferro, Ricardinho, tenho certeza que você vai gostar.

O terno, o Centro, as conversas do cafezinho, as noitadas com os quatro, tudo parecia condenado ao fracasso. Só existia a Suzana, só ela sabia de mim. Por que insistir no resto? Por que não fazer com eles o que fiz com a Norma? Com o Inácio, a Vanda? Largá-los na mão.

De três em três meses, por aí, nunca era certo, a Brites ia a Porto Alegre se abastecer com um boliviano. Suzana propôs que viajássemos com ela na próxima vez, iríamos a Gramado, tomaríamos chimarrão, cavalgaríamos os pampas. Topei no ato. No desânimo que eu estava, era a minha salvação. Inventei para o Ricardinho que um tio meu, gaúcho, estava à beira da morte. Em breve, eu teria que fazer uma viagem de urgência. A perspectiva de se ver livre de mim o deixou até comovido. Para os companheiros, inventei uma mentira baseada na pequena verdade de que iria viajar, disse que estava de mudança para o Sul. Até eu fiquei surpreso com a falácia, por que dissera aquilo? Por que a necessidade de romper dessa maneira com meus comparsas? Era ódio. Eu tinha ódio deles preferirem ser o que eu execrava. Nada de novo viria dali. Era o fim. Outro. De muitos. Fui, voltei escondido e pedi transferência da agência da Presidente Vargas. Ricardinho mal escondeu a alegria. Me ofereceu Niterói. Perfeito, todos os dias eu atravessaria a ponte e não arriscaria cruzar com eles. Eu não queria deixar o Rio. Niterói era o mais distante que eu pretendia chegar.

O boliviano demorou para fazer contato. A espera me deu tempo para refletir. Eu não poderia simplesmente ir embora, minha saída exigia que eu deixasse uma marca, a prova do quanto eles perdiam ao optar pela normalidade. A chance apareceu no aniversário de uma grã-fina do Leme. A oportunidade de ouro para eu sair de cena em grande estilo, deixando uma lição para aquela plebe ignara, escravos de uma vidinha de merda, mal dividida entre o casamento, o trabalho e o uísque do fim de semana. A festa seria o começo daquilo que culminaria numa bacanal, na Glória, ao amanhecer.

A Brites preparou o arsenal e combinaram de dormir fora, ela e a Suzana sabiam o quanto aquela noite era importante pra mim. Eu queria muito que a Suzana estivesse comigo, mas o Ribeiro não iria aguentar. Eu cuidei deles todos, distribuí os destilados, as ilegais e os speeds aperitivos. Administrei o estoque até sermos expulsos pelos seguranças. O Neto tirou a roupa para homenagear a aniversariante. Mulato, não fazia praça do que carregava entre as pernas, mas, quando bebia, fazia questão de exibir o prêmio.

Na calçada, acabei com o que tinha no bolso e sugeri a esticada na Glória. Na Glória… Fui saudado como herói. As vagabundas se dividiram nos carros e, não lembro como, o Ribeiro acabou no meu banco do carona. Só reparei que ele estava ali no retorno em frente ao Hotel Glória; eu vinha concentrado no volante, com a mulata de cílio postiço me enfiando a língua na orelha. O Ribeiro perguntou de bate-pronto se eu tinha comido a Suzana. Falou ríspido, irritado. Eu ri. Que mais eu podia fazer? Eu rumava para o momento culminante da minha cerimônia do adeus, íamos todos nos lamber na Glória, e ele me vem com o “você comeu a Suzana?”. Até a Norma aproveitaria melhor a ocasião. O Ribeiro abriu a porta com o carro em movimento, a morena gritou e ele se atirou para fora, eu vinha devagar. Saí com a porta batendo e não gastei mais dois segundos com o idiota.

No apartamento, o Ciro traçou a argentina no quarto. Achei grosseiro. Era a minha despedida, porra, o mínimo que ele podia fazer era me convidar para assistir o feito. O Neto deve ter desistido no caminho. Ele era, de longe, o mais culpado. Monogâmico assíduo, incurável. O Álvaro, é óbvio, brochou. O Ciro foi o único a me telefonar no dia seguinte para desejar boa viagem.

Andei a cavalo, tomei ácido, me empapucei de churrasco, virei noites na base do chimarrão e comprei três ponchos, um pra mim e dois para as meninas. Trepamos muito debaixo deles, fazia frio, foi muito bom. Foi a infância da minha velhice.

Como ninguém frequentava a Glória, eu não tive que mudar a rotina. Cruzava a baía de segunda a sexta e convivia com a bicharada do teatro, os conhecidos da Brites, de sexta a domingo. Os quatro morreram pra mim, junto com meus verdes anos.

E aqui, é aonde? Evaristo da Veiga. Que porra de nome é esse? Esse bate-queixo é frio ou é Parkinson? É Parkinson. Fui intimado pelos médicos a parar com os excessos. O fígado, o pâncreas, a vesícula, os pulmões, o cérebro, está tudo pela bola sete. Mefisto cobrando a conta. Que diabinha linda… Me chifra! Me chifra! Não ouviu.

* * *

A Brites acabou presa numa das tantas idas e vindas de Porto Alegre. Ela encheu duas malas de cocaína com o boliviano e achou mais seguro vir de ônibus; passara dois apertos no Galeão e não pretendia mais arriscar. Não adiantou nada. Rodou catorze horas num semileito para acabar detida num posto policial na divisa do Paraná com São Paulo. Teria sofrido menos de avião. Cumpriria a pena no Rio e a Suzana não teria ido atrás dela. A Brites foi transferida para um presídio no interior do Rio Grande do Sul. A notícia deixou a Suzana transtornada. Na mesma noite, fez as malas e se mandou para Pelotas. Ela amava a Brites. Eu fiquei só. Alone again, naturally.

O incidente da portaria fez meu filho desejar ser o pai que eu nunca fui pra ele. Contratou psiquiatra, fisioterapeuta, fonoaudióloga, foi um horror. Eu disse que preferia o dinheiro àquela sabatina sem fim, mas ele negou, pagava direto os especialistas, um dinheirão jogado fora. O Inácio tentou me controlar de tudo quanto foi jeito, até que eu dei um basta. Expliquei para o santo do meu filho que nós dois éramos feitos de matérias distintas. Que a vida regrada que ele sonhava pra ele era a morte pra mim. Que eu tinha sustentado ele, trabalhando naquele banco a vida inteira, e que agora ele tinha a obrigação de me ajudar com os meus vícios. Que eu agradecia pelo seguro-saúde, mas que eu não era ninguém sem o meu pó, meu uísque e meu baseado. Que, se fosse pra viver sóbrio, eu preferia que ele me desse um tiro ali, na hora, e me despachasse para o inferno. Ou você tem alguma ilusão de que o céu está à espera do seu tão amado pai, Inácio?

Porra, eu internei o Inácio por dez anos num colégio de padres, até hoje não sei como ele não virou veado, e agora ele vem me tratar que nem filho?! Tem maluco pra tudo. Culpa da mãe beata. Vai ver é vingança, deve ser. Esses remédios, os exames, é tudo vingança. Não têm nada a ver com compaixão. O ser humano não é movido a bons sentimentos.

A Norma eu esqueci que existe, ela e a Vanda. Estão lá pra Ribeirão. O Inácio comenta uma coisa ou outra. Que a mãe casou com um parente e a Vanda com um engenheiro, tem um filho. Engenheiro, profissãozinha. Minha dinastia nasce e morre comigo. Ninguém vai seguir os meus passos.

Passos. Voltou a amontoar gente. Abre a roda, caralho, não vê que está abafado aqui? Tombei, não vi que tombei. Eu não estava sentado? Quando foi que eu tombei? Vou mandar mais uma linha. Uma lança e uma linha. Uma linha e uma lança. Para a viagem. Que viagem, Sílvio? A sua termina aqui. Estou sem coragem. Eu devo estar muito mal, para juntar gente assim. Sai, filho da puta, me dá essa lança aqui! Dá! É minha! Eu fui até o buraco quente atrás dela. Vou cheirar essa porra, sim, filho da puta, aqui, na sua frente. Uuuuuuuuó…

De novo, aconteceu de novo. Caído e de pé, tudo ao mesmo tempo. É uma cena poética, eu e os foliões: piratas, bacos e vampiras. Gostei. Que alívio, meu Deus, que leveza, que brilho, que sol lindo nascendo na Guanabara. É o que eu sempre procurei, esse não se importar com o que me cerca, não sofrer, não sentir. Como é bom, meu Deus.

Acredito no castigo. Que é um jeito de crer em Deus. Torto, mas é. Venho de uma linhagem antiga e perversa, de dráculas, crápulas e afins. O paraíso não me serve de nada, prefiro a companhia dos que praticaram violência contra o próximo, contra si próprios, contra Deus, contra a arte e contra a natureza. Os meus. A divina morte é o meu império. É o que eu busquei a vida inteira. Consegui. Mas por que, agora, no delírio dos meus últimos momentos, sou tomado por devaneios de danação? Masoquismo. Talvez. Quem diria que você, Sílvio, se revelaria um cristão arraigado? Não existe perdão.

Padre Roque me patolou durante os anos de ginásio. Ele gostava de punir com Dante. Líamos e relíamos os ciclos durante o recreio, no calor da biblioteca. Ele nem imagina o valor da remota tortura nessa hora que se apresenta. Devo a ele o imaginário que me acompanha agora, enquanto pairo acima do Corcovado em direção à abóbada celestial. Não há querubins nem serafins, não há raios, pombas ou brancas nuvens. Avisto a floresta dos suicidas e o rio de sangue fervente, vejo bestas, centauros e sodomitas. “Da nossa vida, em meio da jornada, achei-me numa selva tenebrosa, tendo perdido a verdadeira estrada…”

Entrei como saí. O homem não muda, transmuta, sempre igual. Até a próxima eternidade.

INÁCIO cuidou do velório do pai. Norma e a irmã, Vanda, não compareceram. As três garotas que Sílvio deixou no apartamento vieram prestar seus sentimentos, as três juntas, sem desgrudar. Não era a primeira vez que atendiam ao chamado do Tarado da Glória. Um travesti e mais alguns habitantes da sarjeta fechavam o pequeno grupo, Ribeiro não conhecia ninguém. O filho se manteve de pé ao lado do morto e fez questão de agradecer a presença de cada louco, cada bêbado, cada mendigo e puta que apareceu. Inácio foi de uma altivez admirável, mas quando viu Ribeiro se aproximar, abraçou o antigo conhecido e desabou em prantos. Ribeiro procurou retribuir o gesto, se lembrou de Inácio criança, dos domingos na casa do Ciro e da pena que sentiu do garoto quando Sílvio o despachou para o colégio alemão em Petrópolis. Solidário, apertou-o em seus braços.

Inácio se preparava para levar a filha menor no bloco mirim do Carnaval da rua quando recebeu o telefonema. Desde segunda andava atrás do pai, mais de vinte ligações ignoradas, chegou a deixar recado com o porteiro na Glória, mas Sílvio desaparecera. Acontecia às vezes, mas a piora do Parkinson, a pestilência do vício e a bandalheira condenavam o único parente ainda interessado a viver em permanente estado de preocupação.

— Lá vem o chato do meu filho querendo me controlar. Bate mais uma gorda aí pro santo Inácio, Maritza! — bradava o insano cada vez que o 9634-5888 acendia no visor do aparelho.

Uma voz desconhecida queria saber o nome do dono do celular. Indagou se ele estava sozinho ou havia mais alguém na casa. Inácio suspeitou do questionário sinistro, teve medo de que fosse sequestro e ameaçou chamar a polícia. Foi quando o interlocutor se apresentou como paramédico. Ligava de um celular encontrado no bolso do paletó de um homem branco, sem identificação, de aparentes setenta anos, calvo, magro e de estatura mediana. O indigente apresentava sinais de embriaguez, era portador de drogas ilícitas e fora encontrado por foliões na Cinelândia, perto do Theatro Municipal.

— Ligamos para o primeiro número de chamada não atendida. O senhor conhece alguém com essa descrição?

— Conheço. É o meu pai.

Inútil narrar a peregrinação jurídica para recuperar o corpo de um drogado que empacota na esquina de uma cidade grande. Nem Antígona. Inácio enfrentou a truculência da polícia, a ironia dos legistas e a tristeza de não ter motivos para se orgulhar do pai. Lutou para não sucumbir à letargia. Enquanto esperava para retirar o que restou de Sílvio da geladeira — na mesma repartição onde, anos mais tarde, Irene reconheceria Álvaro —, Inácio, para se agarrar em alguma coisa concreta, passou os olhos nos panfletos da recepção. Um deles trazia sugestões para os anúncios fúnebres, cruzes medievais, estrelas de davi, palavras enaltecedoras de amor e união. A esposa, as filhas, os genros e a querida mãe de fulano de tal agradecem as manifestações de pesar. Inácio não sabia o que era ter uma família assim. Ali, na recepção do IML, a mesma onde Irene se sentiria aliviada por sofrer menos do que a mãe obesa, enojado com o mesmo fedor nauseabundo, Inácio tomou uma resolução. Mandaria publicar um anúncio grande de meia página, se fosse possível, o que o dinheiro desse, informando do falecimento de Sílvio. Nele, pediria desculpas pelo pai.

Arranjou uma caneta e uma folha de papel pautado na recepção e esboçou um rascunho solene. O coração de Maria ao lado do nome do morto em negrito, seguido de um texto copiado das referências que viu nos modelos. Não achou bom. Manteve o coração, o nome, mas percebeu que o adeus ao monstruoso pai deveria fazer jus aos atos perpetuados por ele em vida. Foi franco. E vingativo.

No obituário do jornal O Globo do dia 23 de fevereiro de 2009, um aviso grande, de quase um quarto de página, chamou a atenção de Ribeiro. Ele costumava passar os olhos nos anúncios fúnebres, não raro cruzava com um conhecido, mas o nome de Inácio e, sobretudo, o conteúdo do enunciado causaram-lhe espanto. Não havia dúvida, o Sílvio do impresso era o Sílvio, aquele Sílvio, o famigerado Sílvio.

O filho de

Sílvio Motta Cardoso Filho,

Inácio, comunica o falecimento de seu malquisto pai,

infiel marido, abominável avô e desleal amigo.

“Peço perdão a todos os que, como eu, sofreram ultrajes

e ofensas, e os convido para o tão aguardado sepultamento

que terá lugar no dia 23 de fevereiro de 2009,

no Cemitério São Francisco Xavier,

à rua Monsenhor Manuel Gomes, 155,

nesta cidade do Rio de Janeiro, às 4 horas da tarde.”

O ressentimento de outrora, a birra, a traição, tudo de novo, a jorrar pela têmpora. O asco súbito fez Ribeiro largar o jornal. Atravessou a areia e se jogou no mar imundo, chovera a cântaros no dia anterior. O choque com a água gelada provocou um estado de paralisia no banhista, que se pôs a boiar entre cascas de laranja, copos e sacos plásticos. Valão maravilhoso. Refeito da notícia, deixou a consciência agir. Concluiu que gostaria de atender ao chamado de Inácio e comemorar o fim de Sílvio. Queria ter certeza de que o enterrariam sete palmos abaixo da terra numa tumba bem lacrada.

Ribeiro jamais perdoou Sílvio. Na ordem moral de sua mentalidade tacanha, não roubar a mulher do próximo era o primeiro mandamento a ser seguido por homens que se diziam irmãos. Mas havia uma segunda razão reclusa e inconfessável, que impelia Ribeiro ao Caju: saber se Suzana estaria lá. Agora que Sílvio se fora, e Neto e Ciro antes dele, sobrava Álvaro, que já garantira não saber de nada. Suzana era a única resposta para a questão que o corroía havia trinta e três anos. Ocorrera, ou não, a traição?

SUZANA chegou fugida de Bauru, a família queria interná-la porque a menina assumira o namoro com uma coleguinha do segundo científico. As duas se beijavam na escola, no cinema, na sorveteria, e dormiram na delegacia mais de uma vez. O pai vociferava com sotaque do interior: Isso não é norrrmal! E ela respondia com o mesmo “r” enrolado: É norrrmal, pai! É norrrmal! Uma noite, depois de uma surra de cinto, Suzana pulou a janela, andou até a estrada e entrou de carona num caminhão que vinha para o Rio. Tinha dezessete anos.

A praia lotou de bichas. Bichas tímidas, bichas magras, bichas finas, bichas grossas, bichas gordas. Suzana frequentava várias rodinhas, do Posto 9 ao Arpoador. O Coqueirão era o limite do seu país das maravilhas. Foi Deus que me trouxe aqui, repetia rindo, com o sol de abril a se pôr atrás do píer, iluminando os dentes alvos da caipirinha prafrentex. Suzana amava os gays de Ipanema, tinha o mesmo entendimento de vida que eles. Cresceu hippie e marginal, no meio de uma gente que olhava torto para ela. Por isso foi aceita de imediato, virou confidente, discípula, irmã e filha de vários deles. Era uma igual. Trabalhou como garçonete, recepcionista, atendente, caixa, tentou ser atriz, cantora, era muito eclética a Suzana, mas nunca vingou em coisa nenhuma.

A transformista Lana Ley alugava um sala e quarto de fundos, em cima da Galeria Alaska. Ela tinha saudade da irmã que deixou em Maceió e fez de Suzana a sua queridinha no Rio. Gostava de caminhar com a garota pela Joaquim Nabuco e lhe dar conselhos de etiqueta. Copacabana, para Lana, era praia de bicha pobre. Havia mesmo algo de diferente acontecendo na Farme, no culto hedonista dos meninos do Rio, na felicidade alucinada das pessoas, no topless e no sexo desimpedido.

Ribeiro marcou um vôlei para cá do Coqueirão com o Ciro e o Neto. O rei da Miguel se rendia à nova era, embora lamentasse o triunfo do unissex. Eu sou do tempo em que homem gostava de mulher, dizia ele, deprimido com os corpinhos esquálidos da macrobiótica. Uma cortada mais violenta zuniu a bola no meio dos cabeludos. Ribeiro chegou pedindo desculpas, não era bonito, mas tinha um corpo que impressionava. A bicharada aplaudiu. Suzana se levantou para devolver a bola, veio com um baseado na mão e ofereceu a Ribeiro. O atleta recusou o agrado. Não gosto de maconha, não gosto de pó, só gosto de destilados. Ela riu e perguntou se podia ser útil em mais alguma coisa. Safada, safada, safada. Os dois se deram muito bem na cama e o fisiculturista trintão se apegou à Baby Consuelo de Bauru.

Ciro e Sílvio se casaram, Neto e Célia estavam grávidos, e Álvaro, o único que continuou na bagunça com o Ribeiro, resolveu se engraçar com uma amiga da Ruth, mulher do Ciro, a tal da Irene que, tempos depois, o coroaria com uma galhada de alce. Foi quando Lana Ley botou Suzana para fora do cubículo da Nossa Senhora. A guria não catava um papel do chão, comia o que via pela frente, não lavava a louça, não coçava o bolso e ainda vivia colada numa tal de Brites. Folgada!, comentava Lana, nas noites da Boate Sandalus. Suzana se mudou para a Pompeu Loureiro sem que Ribeiro se desse conta. Quando viu, ela já estava lá.

Murilo, filho do Neto, nasceu em março. Ciro deu um almoço para brindar a chegada do primeiro herdeiro da turma. Ribeiro pensou que seria bom levar a Suzana, assumir para os amigos que estava com alguém. Levou. Ela acendeu um baseado no jardim. Célia reagiu chocada, Neto era casado com uma mulher muito careta. Ciro lançou um olhar irônico, Ruth fez sinal para Ribeiro dar um toque de que não estava pegando bem e Irene sumiu com Norma, mulher do Sílvio, para dentro da cozinha. Álvaro não havia chegado.

Ribeiro foi tirar satisfação com Suzana. Surpreso, deu de cara com Sílvio dividindo o cigarrinho com ela no meio das samambaias. Sílvio nunca foi confiável. Ribeiro pediu para Suzana se livrar do charro. A dupla riu cúmplice, como se o namorado da moça fosse um bedel de colégio. Ele catou Suzana pelo braço e se retirou ofendido. Desde aquela tarde, a certeza de que Sílvio estava tendo um caso com Suzana passou a atormentar Ribeiro como uma enxaqueca aguda e recorrente. Suzana odiava ser posta contra a parede. Ah! Então tá!, respondia possessa, eu comi o Sílvio, o Ciro, o Neto, até o Álvaro eu comi, tá bom pra você?! Mas a filha da mãe não desmentia.

Demorou até Ribeiro ter coragem de fazer a pergunta a Sílvio. Aproveitou a última chance, antes da partida do imoral, no notório fim de festa do Leme.

 

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Eram homens maduros e desesperados. Viviam o apogeu do macho e o pressentimento da inevitável queda. Preparavam-se para se despedir de Sílvio, o devasso, único desquitado dos cinco. Sílvio se divorciara havia dois anos de Norma e gozava da liberdade de fazer as malas e partir para onde bem entendesse. A reunião era um adeus. No dia seguinte, Sílvio se mudaria para Porto Alegre na companhia de, segundo ele, duas gaúchas a quem devia o seu retorno à mocidade. Fiquem vocês com os seus casamentinhos, provocava, a sua vidinha ideal, porque o Silvinho aqui zarpa amanhã para nunca mais! As harpias o roubariam dos quatro. Ribeiro desconfiava que uma delas fosse Suzana. Tinha quase certeza. Quase, não o suficiente. Por isso relutava em confrontar o inimigo. Temia parecer ridículo.

Sílvio planejara a epopeia com precisão estratégica. Levantariam voo de seu apartamento na Glória, misturando uísque, pó, maconha e anfetamina, e cadenciariam a adrenalina, alternando os aceleradores com Mandrix, ou Lorax, ao gosto do freguês. Soltariam a franga na festa comemorativa dos cinquenta anos de Gorete Campos do Amaral, ex-madame Juneau, nos mil metros quadrados da exuberante cobertura do Leme, fruto da separação recente do dono de uma rede de hipermercados francesa, o magnata Gilles Juneau.

A boca-livre teria início às nove. Combinaram de se concentrar às dez, na Glória, e seguir para o rega-bofe entre onze e meia-noite. O cumpre-anos de Gorete prometia. A grã-fina, trocada pelo milionário por uma russa trinta anos mais jovem do que ela, decidira sepultar o papel de esposa exemplar com uma festa de arromba. Por vinte e cinco anos cuidara dos outros, mas os filhos cresceram e Gilles abandonou o lar. Ela amargara um ano de barbitúricos e precisava provar a si mesma que dera a volta por cima. Dona de uma conta bancária proporcional à culpa do marido, cobriu de riqueza a sua reentrada no society carioca. Entre os convidados, uma mescla de altas esferas, jet sets, starlets, esportistas, intelectuais e ídolos da contracultura, não estavam incluídos os cinco cariocas de classe média, com empregos medíocres e nenhum voo artístico ou econômico. Brites os infiltrara a pedido de Suzana. O disc jockey, encarregado de fornecer os aditivos do convescote, encomendou trinta gramas de cocaína com Brites e fez a fina de colocar os nomes de Sílvio, Ciro, Neto, Álvaro e Ribeiro na lista.

Os Cavaleiros do Apocalipse já chegaram em alfa. Ciro foi o primeiro a se descolar da célula-mãe, atendendo aos apelos de uma portenha que o comia com os olhos na biblioteca. Sílvio se desgarrou ao bel-prazer, adentrando a pista com passos de John Travolta. Álvaro encostou-se no bar, Ribeiro pediu uma vodca e foi olhar a vista do terraço, estava difícil para ele. Neto, ninguém mais viu. Sílvio mantinha a atenção nos amigos, se percebia sinais de esmorecimento, corria com a bolinha certa, e pronto!, lá estava o boneco de volta à ativa. Caso notasse uma aceleração desmedida, acalmava o monstro com um relaxante. E assim se esvaíram as horas, entre altos e baixos cada vez mais confusos. Sábados alucinantes. Sílvio tomou conta dos outros até a hora em que não conseguiu mais tomar conta de si mesmo. Os de tendência masoquista afundaram no sofá italiano, os maníacos atingiram a estratosfera. Neto foi à lua. O núcleo já não se encontrava havia algum tempo, quando Neto abriu a porta do lavabo com a braguilha aberta e, entoando o refrão de “Stayin’ alive”, dos Bee Gees, avançou até o centro do dancing executando, em homenagem à anfitriã, a dança do gira-pau. Álvaro descolou do assento. Ciro largou a argentina, Ribeiro, a varanda, e ambos correram para controlar o fauno. Sílvio viu que estava na hora de encerrar a fase um da esbórnia, mas não teve tempo de reagir. Quatro agentes treinados em Israel imobilizaram Neto com uma chave de braço e o arrastaram para a porta dos fundos, junto com Ciro e Ribeiro. Chutados para dentro do elevador, foram recebidos por um segundo batalhão dos Mossad na garagem e ejetados no canteiro de iúcas, em frente ao endereço chique. Álvaro, Sílvio e uma coleção de picanhas de primeiro corte desceram pelo social. Sílvio distribuiu a última rodada de alucinógenos e sugeriu o arrastão para o seu domínio na Glória. Todos comemoraram entusiasmados, menos Ribeiro, que fazia as contas. Havia um par de peitos a menos do que o necessário para cada um chegar em casa e conseguir se olhar no espelho. A possibilidade de dividir uma daquelas com o Sílvio, logo quem?, o Sílvio, lhe dava ânsias de vômito. Mesmo assim, apressou-se para entrar no carro do rival, vai entender… A mulata se acomodou no banco de trás e os outros se dividiram nos automóveis com as suas respectivas ladies. Hoje tiro a limpo, jurou Ribeiro, e seguiu em silêncio pelo Aterro.

A morena lambia a orelha do Sílvio, que tentava manter os pneus em linha reta. Na altura do aeroporto, Ribeiro disparou:

— Sílvio, você comeu a Suzana?

Como bom torturador que era, Sílvio abriu um sorrisinho debochado.

— A gaúcha é a Suzana? Eu sei que é! Diz, diz na minha cara!

O rosto do motorista se contorceu num esgar, a boca abriu e os dentes vieram para a frente, Sílvio gargalhava. Ribeiro teve um ímpeto de agarrar o volante, bater no primeiro poste, morrer e matar o facínora junto com a messalina do assento traseiro. Preferiu investir contra si mesmo. Abriu a porta com o carro andando, saltou, ralando o joelho no asfalto, e foi para casa se martirizar. Fazia seis meses que ele e Suzana não estavam mais juntos.

O ciúme do almoço do baseado nunca mais abrandou. Tudo, em Suzana, passou a incomodá-lo. A mania de querer beijar sem escovar os dentes, o cê-cê do sovaco peludo, as calcinhas espalhadas pelo chão, o Fagner e o cemitério de baganas que fazia a casa recender a patchuli com cannabis, a ponto de o síndico vir reclamar. O apartamento se transformou em ponto de encontro de figuras suspeitas, um entra e sai de tipos estranhos que o fez invejar a ordem de despejo de Lana Ley. Fez o mesmo, despachou Suzana. Depois, se arrependeu.

Ribeiro desconhecia a subjetividade. Não tinha humor. Era burro e companheiro. Morreu adolescente, sem filhos e sem mulher, meio primo do sobrinho e filho da irmã. A mãe morreu jovem, do coração, e Celeste ocupou o lugar. Lembrava de cenas esparsas do calor materno, dos olhos grandes, de um caldo na espuma do mar do qual foi salvo pelas mãos dela, não mais. O pai, milico, era um sergipano soturno. Ambicionava ver seu varão formado nas Agulhas Negras, com direito a patentes muito acima da sua. O velho nunca escondeu a frustração com o rendimento escolar do filho. Falava da decepção com os amigos, os parentes. Ribeiro não contava com ele, confiava na irmã, só nela, o arrimo, o colo, o lar.

A praia era a sua razão de ser. Cada fim de tarde rosado, cada tempestade ou noite de lua cheia confirmava a escolha correta. Ribeiro não fez faculdade, terminou os estudos num colégio público ruim, mas conseguiu tirar seu sustento da geografia que idolatrava. Mal cumpriu o secundário, esmerou-se para tirar um certificado de bombeiro e salva-vidas e, com ele, começou a dar aulas de natação no Posto 6. Ganhava pouco, mas o suficiente para se livrar da pressão paterna. No mais, seduzia as virgens que passavam no teste do biquíni. Ao contrário de Sílvio, não o fazia por perversão, era sincero. Ribeiro jamais encarou a própria tara como pecado, e muito menos como tara, era amor verdadeiro. Envelheceu sem se dar conta. A idade serviu de trunfo por um bom tempo, até que Ribeiro passou do ponto.

Cinquentão recente, arrumou um emprego na Impact, uma academia de ginástica na subida da Tabajaras. A Impact preparava as coxas e tríceps para o Carnaval, era o forte dela. Marinara, Monique, Marininha, todas passaram por lá. Os instrutores traficavam os anabolizantes e os Conans se aplicavam no banheiro. Ribeiro odiava o ambiente, mas não tinha escolha, só os discípulos de Schwarzenegger pagavam salário. Vivia abismado. As meninas não queriam mais ser como Leila, Danuza, Florinda, Norma… a Norma, não a do Sílvio, a Bengell.

Ribeiro descobriu Norma Bengell adolescente. Um tio boêmio teve um caso com uma corista e infiltrou o sobrinho na coxia de uma revista do Carlos Machado. Ribeiro assistiu, ao vivo, à Bardot de Norma. Tinha dezesseis anos. Bateu punheta até o fim dos dias pensando naquela imagem. Fixou-a à perfeição. As lembranças da mãe se misturaram com as da vedete.

As mulheres perderam a graça, deixaram de ser mulher, comentava. Para que tanto músculo? Ribeiro tinha tesão em pouquíssimas, a conversa não fluía, era muito entediante. Pior, todas o tratavam como se fosse inofensivo. Um dia, surgiu Lucíola. O professor passou a primeira sequência de exercícios, mas a novata não acompanhou a turma no agachamento do Jairzinho. Remem, remem!, se esgoelou Ribeiro, para dar um incentivo, mas não adiantou. Ele deu água pra ela e aconselhou aulas particulares, Lucíola corria risco de sofrer lesão, caso tentasse acompanhar o grupo. Ofereceu seus serviços fora da academia, a praia seria o lugar mais indicado. A moça topou, não ia mesmo sobreviver na Impact por muito tempo.

Manhã esplendorosa. Os dois se encontraram na Colônia dos Pescadores e iniciaram a caminhada em direção ao Leme. Ela era bonita, muito bonita, bonitíssima, Ribeiro só reparou ali. As bochechas vermelhas contrastavam com a pele branca e o rosto, muito delicado, era cortado por sobrancelhas negras e grossas que davam um ar masculino às feições dela. Quando chegaram ao Posto 1, estavam apaixonados. O pai não podia saber, era muito severo, Lucíola era virgem. Talvez por medo de enfrentar um brutamontes qualquer, impossível saber, Ribeiro caiu como uma luva para os desejos dela. Siderado com a possibilidade de arrancar a virgindade da moça, Ribeiro soube ser hábil, avançou aos poucos, até que, no fim de uma aula, Lucíola cortou o pé num caco de vidro e ele a carregou até o seu apartamento para fazer um curativo. Não foi preciso nem uma fração de segundo para a mão dele esquecer do machucado e se meter no meio das pernas dela. Lucíola ficou quieta e Ribeiro fez o que tinha que fazer. Depois, deixou-a na esquina de casa e voltou para a dele, para rememorar.

Meia-noite, por aí, o deflorador acordou sobressaltado com alguém derrubando a porta. Correu para o olho mágico. Um senhor, acompanhado de um rapaz muito forte, o encarava pelo buraco. Era o pai da Lucíola, disse que queria falar com ele. Mal virou a chave, levou uma portada na cara. O rapaz emendou com uma sequência de murros e chutes, enquanto o xingava de velho safado. Era o irmão da Lucíola, veio a saber depois. Foi a primeira vez que chamaram Ribeiro de velho. A coisa toda durou cinco minutos, nem isso, mas pareceu não ter fim. Quando cansaram, o pai exigiu que o instrutorzinho, sob risco de morte, nunca mais se aproximasse da filha. E sumiu, arrastando o troglodita do filho com ele. Ribeiro sofreu um bocado, uma mistura de humilhação e falta dela. Não se come uma virgem uma vez só. A largada nem conta, o segredo é o desenrolar da trama, as descobertas, a maneira como elas vão se soltando. Depois, até perde a graça, dizia. Lucíola ficou na promessa, e ainda deixou nele a consciência da idade e do ridículo.

Adeus, garotas, era preciso avançar. Tentou as de vinte e nove, as de trinta e um, e dois, e três, todas complexas, chatas e exigentes. As virgens eram como ele, simplórias. Sonhavam em trepar com delicadeza, só. Existe algo melhor? E Ribeiro sabia detectar os problemas, abortar investidas, desistir das que não relaxavam em duas semanas. Ao dobrar o cabo dos trinta e cinco, cansou do papai e mamãe. Por isso endoideceu com Suzana, porque ela era a união perfeita entre a ingênua e a mulher da vida. Ela o deixava constrangido com as obscenidades que propunha sem perder o ar infantil. Lucíola foi o apagar das luzes, a última virgem que o amou, a derradeira tentativa de voltar a ser quem era. Suzana foi o mais longe que esteve de si mesmo, a única com quem dividiu o teto, o mais próximo de uma esposa que chegou a ter. Trinta anos depois do incidente no jardim das samambaias, Ribeiro ainda remoía o ciúme. Sílvio não podia ter feito o que fez.

O caixão desceu sem lágrimas ou palavras de louvor ao morto. Inácio permaneceu estático, pálido e impávido. Que queime no inferno, augurou baixinho. Os coveiros lacraram a cova com as pás besuntadas de cimento, dando um inusitado toque de reforma de banheiro à cerimônia. O cortejo se retirou em fila indiana, com o travesti à frente, desviando das tumbas para retornar à alameda principal. Ribeiro fingiu seguir o grupo, mas virou à esquerda, escolhendo um ponto remoto, escondido entre as lápides. Vigiava o sepulcro. Tinha certeza de que ela viria, sozinha, depois de todo mundo, para velar o amante. Antevia o olhar de Suzana, finalmente saberia a verdade. Quando foi expulso pelo segurança, já era tarde da noite. Suzana não apareceu. Vai ver estivera errado. Sofrera inutilmente. Na rua, de costas para a grade do cemitério, admirando as luzes da favela do Dona Marta, entendeu: não amava Suzana, nunca a amou. No seu delírio ciumento, ela o teria traído com Sílvio e reapareceria ali para dar fim à sua incerteza. Suzana não cumpriu o trato. Ela nada tinha a ver com ele, ou com os amigos dele, era uma estranha, uma desculpa para não pensar em Ruth.

Olhando as luzes da encosta do Dona Marta, Ribeiro deu adeus às tormentas. Seus últimos sete anos de vida correram sem arrebatamentos, febres, ciúmes ou rancores. Estava curado. Foi bom, e ruim, porque, de certa forma, já estava morto. Morrera ali, na porta do cemitério.