Fim
Ciro
* 2 de fevereiro de 1940
† 4 de agosto de 1990
O Júlio ofereceu a cadeira e me pediu calma para ouvir o que tinha a dizer. Fiquei quieto, enquanto ele pendurava as chapas na contraluz. Está vendo aqui? Essa mancha entre o fígado e o intestino? Fiz que sim com a cabeça. Não dá para saber se é maligno ou benigno, mas o aspecto não é bom. Vê? A extremidade estrelada. Nós vamos ter que abrir, Ciro. O quanto antes. Eu já conversei com o Cézar Fialho, ele tem muita prática com esse tipo de cirurgia. Amanhã de manhã a equipe está disponível. Amanhã? É, Ciro, amanhã. Nós temos que tirar isso de dentro de você o mais depressa possível. E depois?, perguntei. Depois vem a químio e a rádio, vai ser longo, Ciro, mas isso é para depois, primeiro você tem que passar pela cirurgia. É de risco? É, é de risco. Vamos extrair uma área grande, para garantir. Quanto tempo eu tenho? Não vamos pensar nisso agora, ele respondeu.
Saí do consultório e caminhei uma boa hora sem direção, os pés mal tocando a calçada. A última vez em Copacabana. O muque do Maciste no neon da academia, o Roxy, o Lido, o Copa e o Calçadão. Não lembro como cheguei em casa. O jornal da manhã ainda sobre a cama, a toalha molhada, o fim do café, restos de uma vida que não me pertencia mais. Arrumei a bagunça e lavei a louça como se limpasse os vestígios do velho inquilino. Preparei a mala pequena do hospital, fui até a janela, acendi um cigarro e me debrucei para ver a nesga de mar. Eu devia dar um mergulho, pensei, o último mergulho. Não tive ânimo, não mais. Nunca mais o mar. Qual foi a última vez? Arpoador, quinta passada, antes da dor persistente me empurrar para a ciranda de médicos e exames clínicos. Água gelada, céu azul, sol quente, o último sol.
O Júlio explicou que eu não podia ficar sozinho, alguém teria que me acompanhar no hospital. Meu filho era pequeno, meu pai falecido e minha mãe frágil demais para enfrentar a notícia, não tenho irmãos. Pensei no Álvaro. Ele vivia deprimido, talvez lhe fizesse bem saber que eu me encontrava em situação pior. Marquei um café. Insisti que tinha que ser na hora do almoço, eu tenho uma coisa pra te contar. Arrependido, botei o telefone no gancho. O Álvaro era de um egoísmo único, mesquinho, medroso, jamais faria nada por mim, muito menos dormir no sofá apertado, ao lado de um doente terminal. Eu precisava da Ruth.
Não sei por que fiz o que fiz. Foi o instinto, o pau, a cabeça, a cabeça do pau. Não sei. Mas na hora que o Júlio decretou a sentença, percebi que eu comecei a morrer lá atrás, na festa do primo da Irene, quando cruzei o meu olhar com o da Ruth e fomos tragados pela tempestade.
Disquei o antigo número, a sequência que eu conhecia de cor. Há quatro anos não me aventurava a marcá-la. Raquel atendeu. Desliguei. Saí para encontrar com o Álvaro. O Lucas estava vazio, era fim de almoço. Sentei na mesa colada à vidraça e aguardei. Aproveitei para me despedir da praia e do cheiro de maresia. Minha última visão do mar. O Álvaro chegou logo em seguida, estava sem tempo, era março, o mês do leão. Contou que havia deixado uma pilha de declarações esperando por ele no escritório e reclamou do salário apertado. Tanta gente a depender de mim, argumentou, deviam pagar melhor, vai que um dia me vingo? Ri social. Lembrei do formulário que, em meio às novas, tinha ficado esquecido em alguma gaveta. E se eu sair vivo?, pensei. A malha fina me pega. Melhor morrer no hospital. Abri a conversa por aí, pelo fisco, que era a única realidade que lhe importava:
— Não vou conseguir entregar esse ano.
Ele me olhou espantado, como se o imposto de renda fosse algo da dimensão do sagrado. Eu me atrapalhei no último mês. O problema é que vocês deixam para a última hora, ele interrompeu trivial. Você quer uma ajuda? Foi por isso que você me ligou? Não, Álvaro. Eu não vou declarar os meus ganhos porque não sei se vou estar aqui amanhã. Ele me olhou confuso. Descobriram um tumor, vão me meter a faca para arrancar o bicho de lá. Eu me interno hoje e não tenho com quem ir.
Não tive por onde prosseguir, perguntar se ele viria comigo. O pânico do Álvaro foi quase obsceno. Ele se afastou da mesa como se temesse o contágio. Câncer não pega, filho da puta. Depois, olhou para os lados, queria se escafeder dali, não conseguia esconder; mal disfarçou o desconforto. Não é melhor ouvir uma segunda opinião? Não tenho mais tempo, Álvaro. Vim me despedir, menti. Não contei a ninguém, você é o primeiro. Ele não demonstrou a menor lisonja com o fato, preferia não saber. E eles disseram o motivo? Cigarro, álcool, tem casos na família?, insistiu, medindo os próprios riscos, preocupado com ele mesmo, como todos nós. Não tem lógica, é uma roleta-russa. Eu puxei o gatilho com a bala dentro. O café chegou, esperamos o garçom se afastar. Você vai contar para a Ruth? Não, respondi. Uma falta de assunto constrangedora seguida de um “tenho que ir” dele deram fim ao encontro. Claro, eu não quero tomar o seu tempo. De jeito nenhum, Ciro, de jeito nenhum. É que eu não sabia. Você podia ter me avisado, eu teria desmarcado, dado um jeito. Mentira. Estava aliviado de ter uma desculpa para sumir dali. Eu vou te ver, pode visita? Qual o hospital? Foi a última vez com o Álvaro. Ele nunca apareceu. Logo depois de pagar o café, ele fez questão de pagar o café, pôs a mão no meu ombro, me deu um abraço desajeitado e pediu desculpas pela pergunta que queria fazer. Posso? Espero que sim. Você acha que foi castigo?
O Álvaro parecia imbecil, mas era um sujeito profundo, trágico. Senti um amor incondicional por ele. Eu tinha certeza que era castigo. E isso me trazia conforto, dava ordem à confusa sequência de acasos que me levaram até ali. Ou é castigo, Álvaro, ou Deus não sabe o que faz. Lamentei que não viesse comigo. Rumei na mesma tarde para o Silvestre. Subi a ladeira de Santa Teresa, o mato molhado, o Rio do alto pela última vez.
Faz três meses.
Arrancaram um terço do fígado, um metro de intestino, o pâncreas e a vesícula, tudo de uma vez, costuraram e me deitaram aqui. O Júlio finge otimismo e eu faço de conta que confio nele. O Fialho eu não vejo desde o pós-operatório. Minto, de vez em quando ele me presta visita, a caminho de uma das suas carnificinas. O Fialho é de uma vaidade revoltante, gosta de mostrar as tomografias das vísceras dos penitentes, enquanto descreve os detalhes das torturas que pratica. Merecia cadeia. E é dono de uma prepotência esnobe, ariana, um ser desumano, detestável. Ele sumiu depois que os oncologistas tomaram o poder. O Fialho não suporta a concorrência, tem complexo de inferioridade, sabe que não passa de um bombeiro hidráulico. Sobrevivi ao Fialho e, agora, o Júlio está livre para me matar com radiação.
Você entra no hospital com uma doença e contrai outras, muito piores, oportunistas, crônicas e agonizantes. Fui vítima de fungo, vírus, bactéria, ameba, germes e derivados. A cistite me faz urinar sangue, já usei sonda no pinto, cateter no peito e dreno no pulmão; meus cabelos caíram e não como há uma semana. Estou bem fraco. Me arrasto pelo corredor, para fazer exercício, dizem. Preciso de ajuda para ir ao banheiro e vivo agarrado à torre. A torre, minha amante fiel. O varal de sacos plásticos a me injetar veneno. Antifúngicos, antibióticos, antivirais, antis, antis, antis, nada a favor. Expliquei ao Júlio que não tinha ninguém para ficar comigo e ele contratou um serviço de acompanhante. Nunca soube o que era pagar por companhia, agora sei. São três que se revezam. A Eneida, a Gisa e a Maria Clara. A Eneida é uma senhora bem-humorada que sabe ser dura nos dias de desespero. A Gisa é muito distante, não ligo pra ela, e a Maria Clara acabou de entrar, no lugar da Lívia, que engravidou e não pode mais frequentar o ambiente hospitalar. Eu gostava da Lívia.
Não sei nada da Maria Clara, não tivemos tempo de nos conhecer. É mocinha, bonitinha, deve ter namorado. Ando fora do ar. O fungo tomou o pulmão, a cistite alcançou os rins e ainda faltam dezenas de sessões de químio. Aumentaram a morfina essa semana. O Júlio não me disse nada, e nem precisa, porque sei quando estou doido. E doído. E por isso doido, porque doído. O Sílvio ia gostar. Aguardo ansiosamente a próxima dose e pioro o quadro, para ver se eles dobram. Nada mais apavorante do que um dia inteiro de cama pela frente seguido de uma noite maldormida. Santa morfina, alívio para a dor e a lerdeza das horas.
Por que a demora? Quero apagar, esquecer, sair daqui.
* * *
Eu acordei do lado dela, era um dia igual aos outros. Mas despertei antes da Ruth, o que não era comum. Fiquei deitado, olhando para ela. Não havia centímetro quadrado daquela mulher que eu não conhecesse. Eu visitara cada dobra e orifício dela. Por dez anos conquistamos as terras vizinhas em infinitas primeiras vezes. O elevador foi só o começo da extensa invasão. Quando nos transformamos em amantes maduros, casados e desinibidos, a vontade de procriar nos trouxe um novo alento. Trepamos solenes, emocionados. E os peitos dela de leite, e a felicidade de ter feito alguém que era metade ela, metade eu, tudo isso nos varreu como uma onda quente por quase dez anos. Mas, nesse dia, olhando para ela na cama, percebi que não havia mais nada a ser conquistado. Ela ainda era bonita, não tinha a ver com beleza. Minha surpresa era perceber que nada em mim, nem um pelo, nem um poro, nem uma mísera célula ansiava por um pouco daquela mulher. A Ruth abriu os olhos e se surpreendeu ao me ver acordado. Sorriu. Eu me levantei para o dia. Aconteceu alguma coisa? Não, nada. Eu conheço você. Esse era o problema, Ruth, nos conhecíamos demais.
No fim do expediente, liguei para o Neto, nos encontramos no Amarelinho. O Sílvio tinha acabado de se separar e o Álvaro ainda estava com a Irene, confidente da Ruth, eu não queria que nada chegasse na Ruth. Você ainda gosta de trepar com a Célia?, perguntei. O Neto ficou surpreso com a crueza da questão, riu, refletiu e devolveu sincero: Não penso nisso, acho que sim, não sei. É a minha vida, não tenho outra. Mas você não sente falta do desconhecido, Neto? Da corte? Do perigo? Do sexo anônimo? Da incerteza quanto à próxima vez? Ele explicou que sentia pela Célia um carinho familiar, gostava da casa arrumada, de ver os filhos saírem para a escola e de ter alguém para deitar do lado. Trepamos bem. Ainda trepamos bem. É um pouco metódico, é verdade, mecânico, mas sempre foi assim. A Célia é bastante moderada. Executamos o mesmo rito, que serve bem a ambos, gozamos juntos, eu sei esperar por ela, acho que estou satisfeito. Devo estar, porque não penso nisso.
A doença era minha. Desconfiei que a fúria amorosa que me devorou no elevador vinha cobrar a conta agora, dez anos depois. Eu não sobreviveria com a mesma resignação do Neto.
Abri a porta de casa, não era mais eu, era outro. Ela notou e perguntou se eu estava bem. Respondi que eu estava bem, que já tinha dito que estava bem, e o que não me deixava bem era o fato dela querer saber se eu estava bem. Entrei no banheiro, bati a porta, liguei o chuveiro. Tomei um banho demorado. Quando saí, a Ruth estava na sala vendo TV. O João já tinha ido pra cama. Eu me meti no quarto, entrei debaixo do lençol, apaguei a luz e virei para o lado, irritado comigo mesmo. Por que fizera aquilo?
Não sonhei. Despertei com ela do lado, olhava o teto. Estava esperando você acordar, disse. Um manto pesado havia caído sobre nós dois, tão inesperado e intenso quanto o amor de antes, mas diferente, sombrio, desolador. Sentei de costas pra ela, pensei em dizer alguma coisa, mas continuei calado. Fui escovar os dentes. Ela me esperou voltar, exigiu uma explicação. Não é nada, Ruth. Como, nada, Ciro? Eu te fiz alguma coisa? Não, você não fez nada. Então, qual é o problema? O problema, Ruth, é o nosso casamento. Ela empalideceu, como se tivesse recebido a notícia da morte de alguém. Se ficássemos ali chafurdando, seria pior, já estava pior. O pequeno desconforto de ontem dera frutos, frases, brigas e indagações, era preciso estancar a sangria. Eu vou trabalhar, Ruth, e acho que você deve fazer o mesmo, não sei o que há comigo. Me perdoa, eu tenho hora na cidade, vamos conversar à noite.
Ela não foi trabalhar.
Atendi os clientes, resolvi uns problemas no fórum, a tarde caiu, a noite chegou. Saí pela rua como se não houvesse ninguém. E se fosse assim? Dez anos depois do furacão eu voltava a ser eu, como sempre fora, antes de ser tragado por ela. Vaguei pela Ouvidor, Cinelândia, e fiz sinal para um táxi quase chegando ao Aterro. Princesa Isabel, ordenei. Saltei no Frank’s Bar. Sentei no sofá do fundo, duas meninas nuas se contorciam no palco, pedi um uísque e me deixei estar. Era livre. Uma garota pediu licença para sentar, preferi ficar a sós, ela deu meia-volta e foi para a mesa perto do palco, onde um barbudo bebia um Campari. As strippers terminaram o número e um casal entrou em cena segurando um lençol desbotado. Eram casados, estava na cara que eram casados, via-se pela passividade com que esticaram o pano e se deitaram no assoalho. Triste cena. Ele estava meio lá, meio cá, o que o obrigava a apertar a base do pau para mantê-lo ereto. Ela não era bonita e possuía um corpo pequeno, banal, igual a tantos outros. Devia ser a enésima vez que fornicavam naquele dia. E, mesmo pagos para ficar de sacanagem, mesmo assim, faziam cara de paisagem, entediados, frios. A intimidade destrói a libido, tive certeza. Éramos eu e a Ruth. Nós dois. O que o casamento havia feito de nós dois. Não tem mais volta, pensei. Deixei uma nota de mil na mesinha, levantei e saí da boate inquieto. Bendito fumacê dos carros. Corri até o orelhão e liguei para o Sílvio. Marcamos no Antonio’s. Cheguei antes. A velha cafajestagem. Homens livres, como eu gostaria de voltar a ser. Um deles, vermelho pelo excesso de malte, narrava eufórico a cantada do Tarso na Candice Bergen. Onde é que eu me enterrei esses anos todos? Todo mundo comendo todo mundo, e eu metido naquela fidelidade sem solução.
O Sílvio chegou animado, tinha um compromisso para mais tarde. Estava radiante como há tempos eu não via. Conta aí, Ciro. Conta você, como anda a vida de solteiro? Se melhorar, estraga. E deu uma risada solta, chamando o maître. Um Black Label, pediu. E aquele amor de romance? Fala para eu ter inveja. Vai bem, respondi. Eu não queria falar da Ruth. A sua vida é tão perfeita, Ciro, que, às vezes, me dá vontade de cuspir na tua cara. E riu irmão, chacoalhando o gelo no copo, até dar um gole e mudar de tom. Sílvio debruçou sobre a mesa e sinalizou para que eu fizesse o mesmo. Segredou. Se eu te confessar uma coisa, você jura que não conta pra ninguém? Jurei. O Sílvio abriu um sorriso maroto, vê lá, hein? Vê lá! Olha a responsabilidade! Pois o Silvinho aqui está vivendo a primavera, Ciro, sobrevivi ao tortuoso inverno. Depois de aguentar a cara feia da minha sogra, as rezas da Norma, a chatice daquelas crianças, o cheiro de alho no café da manhã, eu voltei a ser eu, Ciro. Aquele casamento, se eu continuasse ali, eu ia me transformar num eunuco, Ciro, meu pau ia diminuir, murchar até virar uva-passa. O Neto aguenta porque ele tem de sobra, mas eu não posso desperdiçar. Você tem sorte, casou com a Ruth, mas a Norma esgotou em um mês. Eu me segurei porque ela não dava defeito, mas não temos picas em comum. E agora vem o segredo. Atento? Atento. O balde entornou porque uma madame de Ribeirão bateu os dentes para a mãe da Norma que eu estava de caso com uma hippie de Bauru. Pois sabe quem é a hippie de Bauru, Ciro? Não, Sílvio, eu não sei quem é a hippie de Bauru. Segredo? Segredo. Não quer adivinhar? Não. É a Suzana. Que Suzana? Como, que Suzana? A do baseado, a do Ribeiro, porra!
A revelação não foi surpresa. Do Sílvio, se esperava tudo, e daquela guria, nada menos do que isso. A parte do eunuco, no entanto, me acertou em cheio. A visão do castrado.
É ela que eu vou encontrar. Ela e uma amiga dela, a Brites. E fez um movimento de cobra repugnante com a língua, para dizer que comia as duas. Eu sempre achei asquerosa a maneira como o Sílvio falava de sexo. Quando bebia, saía beliscando os outros, uma coisa suspeitíssima. Meu ideal de felicidade era bem diferente do dele. Certamente mais conservador que o dele. Nunca humilhei meus amigos por ser o que eu era. Nasci bonito pra cacete, boa-praça pra cacete, as mulheres tremiam de antecipação. Era assim sem que eu fizesse força. Me tranquei dez anos num estábulo, não mais, o Sílvio está coberto de razão. À primavera, brindamos.
Altos, deixamos o Antonio’s e descemos a pé pela Bartolomeu Mitre. O Sílvio querendo me arrastar para o Shirley, onde a Suzana chupava frutos do mar com a Brites. Mexilhão…, insinuou, abrindo uma concha imaginária, repetindo a língua de réptil. Eu entendi, Sílvio. De lá, elas vão para uma festa de um pessoal de teatro. Hoje você não vai pra casa, Ciro, eu proíbo. Amanhã manda a Ruth me telefonar que eu explico pra ela que um patrimônio que nem você tem que ser dividido com o resto da humanidade. Explica, Sílvio, explica isso pra ela. Pegamos as duas no Shirley e nos mandamos para um casarão velho em Santa Teresa.
O mundo mudou muito desde a última vez que eu saí, constatei. Uma androginia alarmante. Uns bichos fêmeas. Todo mundo passando a mão na bunda de quem chegasse perto. Recusei o Mandrix do Sílvio, achei melhor ficar sóbrio. Logo na chegada, duas bibas que viviam de fazer pochetes se chegaram com os olhos lânguidos, perguntaram se de onde eu vim tinha mais. Eu ri e elas deram um gritinho. Uma revoada de amigas parrudas ouviu o chamado e veio admirar o pitéu. O enxame pousou em torno de mim num não acabar de mãos-bobas. Quem me salvou foi o Sílvio, enxotou a passarada dizendo que eu tinha que respirar. Fomos para a pista. Lança, menina… lança todo esse perfume… ridículo acompanhar. Fui para um canto olhar a vista. Pensei na Ruth, lá embaixo, louca sem mim. Parado próximo à amurada do sobradão decadente de Santa Teresa, cogitei a possibilidade de voltar, pedir desculpas e ignorar aquela manhã fatídica em que eu acordei antes dela. O Sílvio reapareceu com uma vodca. Se divertindo, Ciro? Tentando. Eu larguei a Ruth, Sílvio, deixei ela em casa e saí batendo a porta. Não tenho como ir pra casa. Ele arregalou os olhos. Largou, largou mesmo? Ou largou mais ou menos? Não, acho que não, ainda não. Não sei. Meu querido, o não sei é a fase mais exaustiva de qualquer desquite, o resto vem naturalmente. Estou desconcertado, achei que você e a Ruth eram imunes às tentações. Pensa bem, Cirinho, vai ter fila de mulher para dar pra você, exclamou profético, mas você vai aguentar ver a Ruth solta, Cirinho? Pensa bem. Você vai entregar aquilo tudo de mão beijada para outro? Cuidado com o Ribeiro! O que tem o Ribeiro? Sei não, mas tenho o palpite que o Ribeiro sempre quis comer a tua mulher. E me carregou para dentro. Não vamos desperdiçar a sua crise! A Suzana e a Brites surgiram do nada e adentramos o interior abafado. Um cheiro de maconha empesteava o ambiente escuro. Algumas pessoas se agarravam no sofá, rodando o baseado de boca em boca. Minha cabeça não parava de dar voltas com a revelação do Sílvio. O Ribeiro queria comer a Ruth. O Ribeiro ia comer a Ruth, o Ribeiro podia estar comendo a Ruth naquele exato momento, enquanto eu perambulava no comes e bebes alternativo. Desviamos da fila do banheiro e subimos uma escada tomada de mulheres e homens maquiados de strass. Atingimos o segundo andar, onde um corredor curto terminava em várias portas. Escolhe, disse o Sílvio. O quê? Como, o quê? Escolhe a porta, porra. É hoje, Ciro! A Suzana e a Brites riram cúmplices. Eu escolhi a do meio, só por escolher, concentrado no ciúme da Ruth. As duas viraram a maçaneta e o Sílvio, antes de atravessar o batente, me mandou um tchauzinho sacana, te vejo já, já, disse. Entramos. Breu total, gemidos e o tranco do ar-condicionado. Alguém segurou meu saco, uma língua me furou a orelha e uma mão insistente tentou baixar a calça. Impedi, como pude, que um bigode me violasse a boca. Nojo do cheiro azedo daquele quarto, do incenso tântrico, daquela falta de macho e fêmea, da Ruth. Saí me debatendo com as ventosas sedentas, torci a mão que insistia em me bolinar. Desci desabalado a ladeira até a rua dos bondes, atravessei o túnel num táxi caindo aos pedaços. O prédio que não chegava nunca. Subi correndo, quase derrubei a porta, cruzei o corredor chamando pelo nome dela. O quarto. A Ruth em pé. O meu nome é Ciro, eu disse, sou advogado, casado, tenho um filho e ninguém vai tirar você de mim. E me agarrei a ela como da primeira vez. Passou, pensei. Passou. Me perdoa, Ruth. Não vai acontecer mais.
Ela era tapada e baixinha. Medíocre, servil e assanhada. Não valia uma pestana da Ruth. A firma pegou fogo no arrasta-pé de fim de ano, eu bebi muito, não lembro direito. A Cinira veio gulosa, eu achei graça naquela porquinha trôpega abrindo o meu cinto e me chamando de doutor. Não tinha nada a ver com amor, era só baixaria. Eu ri, enquanto ela lutava para se livrar da roupa apertada. A Cinira entalou na blusa de lastex, eu saquei ela de dentro aos solavancos, trocamos uns beijos melados com a cabeça dela ainda presa na manga e tivemos um frouxo na hora de arrancar o último tufo de cabelo preso no botão da gola. Quando olhei para aquela tampinha pelada, ansiosa de excitação, me atraquei no corpinho de barril e não levei meio segundo para terminar. Uma porcaria de uma trepada de bêbado custou uma noite inteira de lamúrias e acusações. Não adiantou eu dizer que a Cinira era ninguém, era uma cachaça, um deslize, que nada tinha a ver conosco, que morria ali. A Ruth ensaiou outro acesso. Eu não aguentava aquilo. Ela devia se dar ao respeito, demonstrar algum amor-próprio, me dar um corno corretivo, ir procurar o Ribeiro, mas não, ela preferia se fazer de coitada, uma chata. Ruth, eu disse, você é uma chaaaaaaata! E dei-lhe as costas, precisava dormir. Cochilei umas duas horas no sofá do escritório e acordei com torcicolo. Ainda estava irritado com ela. Levantei como pude, catei uma muda de roupa e fui embora sem avisar pra onde. Não apareci no Natal e nem no Ano-Novo.
A Ruth foi internada na manhã do dia 1 o.
O Sílvio me deu abrigo. Passei o réveillon com ele, a Suzana e a Brites. Elas me apresentaram a Marta e, à meia-noite de 80 para 81, pulamos sete ondinhas no Leme. Ela quis porque quis dar pra mim na água, disse que era superstição, eu fiz a vontade dela, pelo menos uma mulher eu deixo feliz, pensei. Depois, voltamos todos para a Glória. Acordei de ressaca, culpado com o que havia feito. Bati em casa no fim da tarde, a empregada avisou que o João estava com os avós e que d. Ruth tinha ido para o hospital com a irmã.
Fui tocado pra fora pela Raquel. A Ruth estava sedada. Aguardei na recepção perdido, subi de volta e convenci a minha cunhada a sair. A Ruth só acordou de manhã, estava com sede. Quando me viu, começou a chorar. Eu a abracei, deitei na cama, jurei que nunca mais faria aquilo. Ela dormiu recostada em mim. Quando voltamos para o nosso apartamento, fiz questão de carregá-la no colo até o quarto. Nos amamos como noivos. Cinira… imagina, a Cinira, como a Ruth era tola de se comparar à toupeira da administração.
Em maio, o mês das noivas, peguei um caso de desapropriação de um terreno em Ipanema. Os especuladores avançaram pelo bairro que nem enxame de abelhas. O dono de uma construtora de grande porte estava com uma obra embargada, a prefeitura descobrira uma fraude nas certidões do lote de trinta por cinquenta da Nascimento Silva. Eu desenrolei o processo e o bate-estaca voltou a atormentar a redondeza. Em retribuição, me foi oferecido um jantar. Não levei a Ruth, disse que era trabalho, e era. O apartamento metido a chique, com vista para a Lagoa, era muito apertado e sem ventilação. Pé-direito baixo, quartos de dois por dois, esquadria de alumínio, vidro fumê, lavabo sem janela e bancada de granito na cozinha. O novo padrão de moradia do qual aquela gente tanto se orgulhava. Cada pombal erguido recebia o nome de um europeu célebre: Vivaldi, Monet, Rimbaud, aquele se chamava Voltaire. Milena veio até a porta para me receber com o marido. Ela era bonita pra cacete. Fui apresentado à fina flor do mercado imobiliário, ricos gordos, de Rolex, apinhados no conjunto estofado de couro do living. Ouvi elogios, fingi modéstia, colecionei contatos. Na segunda, a secretária avisou que a d. Milena, mulher do construtor, estava marcada para terça. Falou o assunto? Não, não falou o assunto.
Afastei a cadeira para ela sentar, dei a volta na escrivaninha e me acomodei para ouvi-la. A Milena se superava à luz do dia.
— Eu quero me separar — me disse ela. — Você acha difícil?
Eu fiquei tão sem ação que devolvi a pergunta:
— Difícil em que sentido?
— Você acha arriscado pedir o desquite?
— Ele é um homem bem-sucedido, não deve ser fácil abrir mão de um casamento assim. Suponho que não.
— Ele fala muito bem de você.
Que conversa era aquela? Procurei manter a fleuma.
— Milena… Posso te chamar de Milena?
Ela consentiu.
— Eu advoguei para a outra parte, raramente atuo em vara de família, só quando tenho um imóvel preso em litígio, e só assim. Não seria ético e, muito menos, honesto aceitar…
— Você entendeu errado. Eu não quero a sua ajuda profissional.
E me olhou séria. Demorei um bom minuto para processar. Tratava-se de uma cantada de gente grande, com hora marcada. A Milena era muito mais agressiva do que eu. Deus é testemunha, não trocamos duas frases naquele jantar, nos ignoramos por completo, eu passei a madrugada ouvindo os planos da nata do boom imobiliário para destruir o Rio de Janeiro. Eu não estava atrás, mas ela veio, caiu do céu igual manga madura. Como dizer não? Uma mulher daquelas pedindo que eu a livrasse do carnossauro do marido dela, dos banquetes de engenheiro, das viagens à Disney. Por que a Ruth não fazia o mesmo com o Ribeiro? O casamento não pode matar a aventura de cada um. Aquilo estava acontecendo comigo, só comigo, a Ruth era livre para ter o que fosse dela. Ou isso ou aquilo é o cacete! Isso e aquilo. Disquei o número do Sílvio no banco sem tirar os olhos da lenhadora. Pedi a chave da Glória, ele cedeu de imediato, o Sílvio era muito solidário nesse tipo de situação. Escrevi o endereço e o horário, meio-dia e quinze, num papel timbrado.
— Talvez eu possa ajudar — eu disse, e entreguei a nota na mão dela.
Milena guardou na bolsa, se levantou e saiu como entrou.
Nos encontrávamos na hora do almoço, depois eu engolia um sanduíche e voltava para a realidade. Mantínhamos a rotina de casados, cada qual com o seu cônjuge. A Milena era um colosso, criativa, fina. Me deu um terno importado de presente para que eu a comesse a caráter. Não fosse a Ruth, eu teria me casado com ela. Mentira, eu não faria isso. A Milena levou cinco tiros do marido em Búzios, sete meses depois do nosso caso. Duas balas atravessaram a coxa direita e as outras fincaram na parede da casa colonial Cabo Frio que ele construiu para ela na Ferradura. A Milena colecionava histórias, eu não sabia. Logo depois de mim, emendou o romance tórrido com o sócio da construtora. Ela odiava a mulher dele. Nós ainda estávamos juntos quando a Milena telefonou para o coitado dizendo que o amava à loucura. Ele caiu, não tinha como não cair. Milena combinou de passar o fim de semana com ele no Maksoud, mas exigiu que trouxesse a cacatua. A cacatua? É, a cacatua. Era um capricho dela, ele teria que levar a cacatua de estimação, que o casal mantinha numa gaiola gigante na sala, para São Paulo. Ele riu do absurdo, tentou negociar, mas não teve jeito, já estava decidido. Na sexta à tarde, rumou para o aeroporto com o bicho apertado num engradado para gatos, para ser flagrado pela mulher com a ave rara e a Milena no portão de embarque. A amante arrumou um jeito de fazer com que a outra ficasse sabendo, a cacatua era a prova da submissão do esposo. O outro tomou conhecimento da traição e ensandeceu, havia precedentes, Milena nunca foi fácil. Mas atacar o sócio, irmão dele, era inaceitável. Um homem não aceitaria. Cego de ciúme, botou o revólver no bolso, rumou para a Ferradura e descarregou o cartucho na Milena.
Terminamos bem antes de tudo isso e de forma não menos desastrosa. Ruth não desconfiava de nada. Eu era presente, companheiro, andava feliz, feliz pra cacete. Um dia, eu esqueci que tinha marcado de ir com ela ao dentista do João, meu filho, que ia botar aparelho num consultório no Centro. Eu não estava no escritório quando ela passou para me pegar. Descuidei da hora, a Milena gostava de me fazer perder a hora. Meu esquecimento disparou os alarmes da Ruth, ela deprimiu e levou o lar para o buraco com ela. Milena virou o meu sol. Fiquei obcecado por ela. Um dia, a Ruth, louca, foi para a porta do escritório me vigiar. Eu saí sozinho e peguei um táxi para a Glória, onde a Milena me aguardava. A Ruth foi atrás e deu um jeito de subir. Eu não sei se eu não tranquei a porta, ou se foi a Milena, não sei, só lembro do rosto da Ruth materializado no meio do quarto, gritando comigo como uma gralha eriçada. Eram tantos impropérios que eu parei de ouvir, anestesiei. Levantei da cama, vesti a calça, a camisa, recolhi o que pude e saí a caminho do elevador. Ela veio berrando no meu ouvido. Desci ao som dos urros dela. O elevador de outrora, o antigo veludo da voz dela, a última vez como estranhos. Como pode o mundo girar tão rápido?
O rugido da rua foi um alento aos sentidos. A voz estridente ficara pra trás. Peguei um táxi, tudo normal, tarde de sol, Rio de Janeiro, o Aterro, o túnel, Copacabana, drama nenhum, cheguei a me convencer disso. Tomei um banho, liguei a TV, comi uma besteira, até que ela chegou transfigurada. Neguei, neguei tudo, neguei completamente, considerei absurdo o que a Ruth contava. Reafirmei que estivera em casa todo aquele tempo e, num misto de diversão, doença e falta de caráter, não sei, insinuei que, talvez, ela estivesse perdendo o juízo. A Ruth comprou a ideia, parou, sentou-se à mesa de jantar e pediu um copo d’água. Suas mãos tremeram para levá-lo à boca. O olhar ficou vago, vazio, os gestos lentos, como se toda ela pudesse quebrar. A Ruth levantou, apoiando-se nos móveis, foi até o quarto e se deitou vestida. Passou a noite em claro, calada, pupilas fixas no lustre. Não comeu no dia seguinte, não se levantou, não tomou banho, não se moveu. No terceiro dia, chamei o médico e ele achou melhor internar. Voltei para casa sozinho, o João chegou da escola, jantamos, ele perguntou quando a mãe voltaria, eu disse que não sabia. Ela recebeu alta um mês depois, mas foi diferente da primeira vez. A Ruth chegou apática, bolada, parecia um espectro dela mesma. Não houve reconciliação, não celebramos coisa alguma. Era um pesar tão negro, tão fundo, que não permitia gozo nem dentro e nem fora do lar. Eu disse adeus à Milena, ela já estava focada no sócio, além de ter ficado horrorizada com o chilique da Ruth. Milena não lamentou o nosso fim. Ela tinha desprezo pela minha vida conjugal. A minha e a de qualquer um.
Enfrentei a convalescença da Ruth por meses, até que a comichão voltou a me importunar. Ela deixou de ser mulher, não se cuidava mais, não guardava nenhuma cerimônia comigo, mal nos falávamos. Eu esperei passar, sem saber o que era esperado de mim. Só mais tarde entendi. A Ruth aguardava a traição, o bote, só assim recuperaria a razão. Não havia nada de frágil nela, era uma emboscada.
Não demorei a cair. As mulheres abstraem facilmente do sexo, os homens não. Eu não. Depois de três meses culpado pelo desacerto da Ruth, voltei a sair com a turma e as mulheres não tardaram a me cercar. Eu não queria nenhuma e queria todas. Sempre pela primeira vez. Três com a mesma era raro. E foi assim que comi a Bete, a Marga, a Clara, a Ana, a Sônia, a Cláudia, a Andrea Marques, a Andrea Souza, a Maria João, a Claude, a Cristine, a Gabriela, a Amora, a Paula, a Lu, a Paula Saldanha, a Ana Cristina e a Cristina; a Roberta, na escada de incêndio, a Mirela da farmácia, a Gorete da praia, a Rita e a Brenda, de Nova Jersey; a Cora em Recife, a Úrsula do Paraná, a Brígida do 306; a Marina, a Ana Luísa e a Míriam… a Biba e a Marcela. A Marcela. Eu lia Machado para ela, “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Ela ria e não entendia nada. E nem deu tempo de explicar, porque surgiu a Adriana, e depois a Celina, e depois a Simone, a Aline, a Mônica e a Luciana. Não sei quem veio antes e quem veio depois, só lembro do milagre da multiplicação de peitos.
Eu dormia raramente em casa, passava para pegar a correspondência, comer alguma coisa e ver o João. A Ruth parou de falar comigo. Só me olhava de longe, como um juiz, soberana na certeza de que eu não valia nada.
Foi quando conheci a Lílian. A Lílian era professora de literatura da PUC, o caso mais sério que me aconteceu. Eu sentia falta de ter uma conversa decente com uma mulher decente. Algo além da fornicação e do voto de silêncio que a Ruth me impôs. A Lílian era culta, ao contrário das outras, além de uma amante dedicada. Passei a dormir no apartamento dela com frequência. Dava um pulo para deixar a roupa suja em casa e já tomava o meu rumo, cada vez mais magoado com a Ruth. Eu fui responsável pelo horror que estávamos vivendo, mas ela tomou as rédeas da carroça e apontou para o desfiladeiro. Cortou qualquer possibilidade de amor, me expulsou da sua intimidade e se fechou como uma ostra. A Ruth foi de uma passividade assustadora. Não queria mais ser minha, mas também não abria mão de mim. Ela esperava que eu a largasse. A prova cabal da minha incapacidade de amar.
Se é assim, pensei, que seja. Arrumei um canto, um lugar para poder estar com a Lílian, com os meus discos, meus livros. Vagou uma cobertura pequena, na Santa Clara, um colega casou e quis passar o contrato. Fechei. Não disse nada. Devagar, fui levando as poucas coisas que me cabiam: o que sobrava da infância, os livros da universidade, os LPs do Grappelli, do João, dos Beatles e do Cat Stevens.
A Lílian ajudou a arrumar tudo, escolheu o fogão novo, ela gostava de culinária. Um dia, me dei conta de que caminhávamos para uma união estável. Foi num domingo de sol, depois da praia, tomamos banho, trepamos, eu liguei a TV no futebol e sentei para comer. A Lílian surgiu da cozinha com um frango assado recém-tirado do forno e o serviu na mesa bem posta, fez meu prato, o dela, e se pôs a mastigar. Travei. Não toquei na comida, não ousei, jamais trairia a Ruth daquela maneira. A Lílian foi até a sobremesa sem perceber minha irritação. Quando se levantou para pegar o café, segurei o braço dela e disse que não precisava. Ela me olhou espantada. Eu não quero começar de novo, Lílian, mal larguei minha família e já estou aqui, com você coando café pra mim. Você não vai gostar de me conhecer. Eu matei a minha mulher. Talvez você seja menos frágil do que ela, mas, se esse é o caso, você não serve pra mim. Amo a doença que a Ruth tem por mim, e te amaria, se você sentisse o mesmo. Mas algo me diz que você, no lugar da Ruth, já teria me mandado andar. Então, mando eu, você andar. Não vou cair nessa arapuca de frango assado, no delírio da cara-metade, da alma gêmea, dessas idiotices que inventam para nos arruinar. O sexo vai piorar, depois virá o mau humor, o tédio, as agressões, as brigas. Melhor parar por aqui.
Lílian catou a bolsa e me fitou chocada, ainda era muito jovem para enxergar o breu do poço, mas levou a sério o aviso de se afastar. Foi o que fez, nunca mais a vi. Sozinho, na sala da cobertura da Santa Clara, com o frango assado da Lílian me olhando do pirex refratário, percebi o quanto a morte estava à espreita. O nó górdio do tumor de origem, no lado direito do pâncreas, desatou, tenho certeza, naquele exato momento, e se dividiu em mil células podres, que se espalharam pelos meus órgãos e fizeram a festa.
Caí na gandaia.
Do João, eu falava com a Raquel, ou com os advogados. Pagava pensão, tudo em dia. A Ruth parou de existir. Não deixou de ser um alívio. Eu sonhava com ela, conversávamos, fodíamos, brigávamos, era bom, a única forma de aliviar a saudade. Várias vezes, eu quis ligar para ela e dizer que havíamos passado a noite juntos, mas não liguei.
Preferi a companhia do Sílvio. Perambulei pelas baladas mais loucas, cheirei o que não devia e me empenhei naquelas surubas brochas. Quando o Sílvio confessou que estava de partida para o Sul, achei até bom ter um descanso. O sonho dele era ver todos juntos, numa bacanal de comparsas. Ele conversava muito sobre isso comigo. Afirmava que a experiência curaria o Álvaro da impotência, o Neto da monogamia e o Ribeiro da infantilidade. O Sílvio tinha uma teoria séria a esse respeito. Mas o plano não saiu como previsto. Na prática, a teoria é outra. Acho que ele ficou chateado de eu ter levado a argentina para o quarto, chegou a comentar comigo no telefonema do dia seguinte. Estava frustrado. Neto e Ribeiro passaram a vez, Álvaro falhou, como esperado, e ele dormiu nos braços da Xica da Silva. Foi um anticlímax, reclamou, antes de partir para sempre. Um ano depois, por aí, senti uma pontada no lado direito do abdome. Minha pele ganhou um colorido amarelo-xixi, o xixi ficou preto e trataram como se fosse hepatite, mas era muito pior. Agora, estou aqui.
Que horas são? Anoiteceu. Eu dormi. Devo ter dormido. Já me aplicaram? Certamente que sim. Cadê a outra dose? Quero voltar para onde eu estava.
Tem alguém no quarto.
A falta de privacidade é o grande abuso da rotina hospitalar. As portas não têm tranca. Os enfermeiros, os faxineiros, os médicos, qualquer um entra a hora que bem entende, falam alto, mexem em tudo. Limpam o chão, trocam sonda, futucam, apalpam, furam, é um pesadelo. A letargia me impede de perguntar quem é. Não tenho força, sou só pensamento. É uma mulher. Nova. Não é a Eneida. Não. Não é a Eneida. Não é a Gisa. Quem é? Quem é? Tento balbuciar um som audível, mas os lábios não mexem. Ela checa a veia, tira a temperatura e injeta veneno no soro. Minha mão escorrega para fora da grade da cama e pousa nas ancas dela. São firmes, como as da Ruth. Que dia é hoje? Sexta, ela responde. Sexta que dia? Quatro de agosto, ela fala. De que ano? Mil novecentos e noventa. É uma bela data, pensei. Eu estou dormindo há muito tempo? Há uma semana, ela responde. Uma semana. Uma semana que eu não vi passar. Bênção. Se eu estivesse preso, denunciaria todos eles por tortura. Preso, pagaria a pena e sairia vivo. Não é o caso. Não, não o meu caso. Estou na boca do corredor, amarrado à cadeira elétrica, de pé, em frente ao pelotão. Me dá outra dose. Só está prescrito para daqui a três horas. Três horas… que eternidade. Então, chega aqui, pedi, apertando como podia a minha mão contra o traseiro dela, queria trazê-lo para perto de mim. Seu Ciro…, ela falou. Quê? Chega aqui perto, insisti. Ela chegou. Escalei com os dedos a cintura dela. Seu Ciro…, ela repetiu. Sobe em cima de mim, roguei. Ela tentou tirar a minha mão do peito dela, mas eu enganchei no decote e não soltei mais. Você tem medo do quê? Eu sou inofensivo, não vê? Que mal tem? Não se nega a vontade de um condenado. Ela olhou para a porta, tinha medo que entrasse alguém. Eu a puxei pra mim. O rosto em foco veio acompanhado do nome, Maria Clara. A sua amiga não mentiu, eu disse, você é mesmo bonita, Maria Clara. O colo arfou debaixo dos meus dedos. Vem, repeti, senta em mim. Seja santa, é o meu tiro de misericórdia. Seu Ciro… deixa eu ir. Não, me deixa ir você. Me deixa ir. Me deixa. Deixa. Ela ergueu o olhar pra mim, pensava algo, não disse o quê, depois checou mais uma vez a entrada e, sem dizer uma palavra, baixou a proteção lateral da cama, puxou a escadinha de três degraus para perto do leito e sentou ao meu lado. Eu ri agradecido. Ela tinha um cheiro bom. Esperei que continuasse, mas não, parou onde estava. Só isso?, perguntei. Ela corou. Seu Ciro… por favor. Monta em cima de mim. Eu te chamo de outro nome, não vai ser você. Não, seu Ciro, pelo amor de Deus. Você é casada? Não, eu não sou casada. Mas quer casar. Então, você finge que eu sou ele e eu finjo que você é a minha mulher. Que mal faz? Não é direito, murmurou séria. Nada nessa vida é direito, respondi, com absoluto conhecimento de causa. Depois de uma longa pausa, ela deu início a uma complexa coreografia de subir na minha bacia sem desplugar as trocentas tubulações que me ligavam ao poste. A cicatriz da barriga já estava fechada, mas não era prudente colocar peso sobre o abdome. Maria Clara tentou ser rápida. Apoiada nos joelhos, comigo entre as pernas dela, foi aumentando a pressão com cuidado, até relaxar em cima de mim. Há quanto tempo o meu corpo não me dava alegria, pensei. Alisei as coxas dela. Eu amava as mulheres.
Viu?, não custou nada, eu disse, para acalmá-la. Não, não custou nada, ela confirmou. Perguntei o que tinha na bandeja. O antibiótico. O antibiótico sozinho não vai chegar aonde eu quero, pensei. Mais nada? Tem mais duas prescrições, para dar espaçadas, ela informou. Eu tinha tempo. Propus que brincássemos de médico e ri. Ela quis descer. Irritado, respondi que ela já ia descer, mas que, antes, eu queria um favor. Maria Clara me olhou assustada, receosa de sequer imaginar o que eu estava prestes a sugerir. Fui direto. Injeta tudo de uma vez, eu disse, e aguardei a reação dela. Maria Clara recuou, ameaçou voltar para o sofá-cama, mas eu apertei o seu pulso e desatei a falar dos horrores da UTI, das máquinas de prolongar a vida, do meu avô que morreu dezessete dias antes de falecer, do caixão dele pingando sangue, do corpo furado por todos os tipos de intervenção de emergência. Você tem que me ajudar. Eles vão me entubar, eu vou morrer agoniado, você sabe disso, vocês conversam sobre os pacientes, eu não vou sair daqui. Você é o meu anjo, Maria Clara. Eu te escolhi. Me deixa ir assim, no meio das suas pernas, faz o que eu estou pedindo. Ela me olhou apavorada. Eu dei sequência à súplica, enquanto me ouvisse, não sairia de perto de mim. Se você descer dessa cama, mesmo que você me visite todos os dias, e se sente sobre mim todos os dias, eu nunca mais vou sentir o prazer que senti agora, nesse gesto que você fez. Seja santa, tenha misericórdia.
Um silêncio sepulcral tomou o quarto. Maria Clara me olhou fundo, como era bonita, meu Deus. Sem avisar, esticou o braço até a mesinha e puxou para si a bandeja de metal com três injeções. Eu não sei se vai funcionar, disse. Indescritível alegria. Preocupado com o baixo teor letal do coquetel, quis saber se ela não carregava mais nada na bolsa. Só Neosaldina. Mistura tudo, ordenei. Errei o tom e emendei com o argumento desastroso de que, vivo, eu me tornaria um problema para ela. A morte é o mínimo que esperam de mim. Ninguém vai achar que não foi natural. Mas se eu estiver aqui amanhã, eles vão me testar, me abrir, até chegar em você. A lembrança do ato criminoso, da possível investigação, fez retroceder nela a decisão de me ajudar. Maria Clara entrou em parafuso. Com a voz abafada, respondeu que não faria aquilo. Pode descer, eu disse seco. Não é para ser assim. E não precisa vir amanhã, eu converso com a Eneida e ela arruma alguém para o seu lugar. Desapontado, virei para o lado e fingi dormir.
Maria Clara saiu de cima de mim. Um frio petrificante se espalhou pelos meus ossos. Ela se recompôs e subiu a grade de proteção. Saiu calada. Fiquei a sós, na tumba. Nada me veio à cabeça, nem para a frente e nem para trás. Só me restava a agoniada espera. Fechei os olhos, devo ter apagado, não sei se dormi. Acordei com o barulho metálico da cama. Alguém mexia na trava para baixá-la. Ouvi o arrastar da escada e um vulto surgiu sobre a minha cabeça. Era ela. Maria Clara montou sobre mim novamente, eu senti o calor do sangue dela esquentar o meu. Como antes, esticou o braço para pegar a bandeja de medicamentos e falou calma:
— Está na hora da sua dose.
Maria Clara suspendeu a seringa e se apoiou sobre os joelhos para alcançar a torre. O ventre dela se aproximou do meu rosto. Meti a mão por debaixo da saia e puxei a calcinha, queria cheirá-la. Ela deixou, enquanto injetava o conteúdo no soro. Uma onda morna correu-me as veias, a raiz do cabelo a arrepiar, a pele dela na minha, o veludo. Morfina. A minha dose. A última.
— Eu te amo, Maria Clara.
Imprensei ela contra o elevador, as vozes ecoando no fosso, ela é minha, eu gritei, e saí arrastando a Ruth para fora da roda. Na varanda, nos beijamos com uma necessidade idêntica. Um raio me atravessando a espinha. Deslizei uma das mãos por entre as pernas de Maria Clara até tocar o meio dela. Os dedos escorreram para dentro.
— O meu nome é Ciro, sou advogado, separado e isso nunca me aconteceu assim.