Fim

Fernanda Torres · Capítulo 6 de 6

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Fim

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O P R Ó X I M O

MARIA CLARA saiu do hospital já era de manhã, o sol quente rachando a pele. Detestava plantão, morre-se muito de madrugada, dizia, toda vez que se via obrigada a encarar o serão.

Caminhou até o ponto de ônibus, estava cansada. Não queria pensar no que havia feito, estava feito, que descanse em paz. Ninguém levantou suspeita, ele não recebeu visitas nas duas semanas em que trabalhou lá. Era esperado, vagaria um leito, quem se preocuparia? Foi melhor pra ele, concluiu, com a enxaqueca fisgando a cabeça como um anzol. Tirou da bolsa a cartela de Neosaldina, tinha salvado uma pra si. Destacou a bola preta, botou na boca e engoliu a seco. Foi bom subir no ônibus e se pôr em movimento. A manhã, límpida como a tarde anterior, agiu nos sentidos junto com o comprimido. Lembrou da ansiedade com que descera no ponto na véspera, da pressa nas escadarias, refez o percurso até o quarto. Por que queria tanto vê-lo? A atenção vagou pela paisagem de tirar o fôlego, o Pão de Açúcar acordando para mais um dia de calor na Guanabara. A eutanásia, a morte, a pena de prisão. Ciro. A imagem de Ciro, as mãos dele na cintura dela. Maria Clara adormeceu recostada na janela da condução.

Era enfermeira, mas poderia ter sido aeromoça; queria usar uniforme, servir de fetiche para os homens. Quando perguntavam, jurava sonhar com a medicina, em conhecer o mundo, tudo mentira. Maria Clara gostava era de se sentir atraente. Escolheu errado. A aviação, talvez, tivesse lhe dado mais alguns anos de ilusão. A rotina hospitalar revelou-se brutal desde o princípio; as comadres com xixi, as lavagens, o cheiro de peido nos quartos. Já estava a ponto de jogar a toalha, quando Lívia propôs que tomasse seu lugar como acompanhante de um paciente terminal.

— Ele não é velho — confidenciou a amiga —, ainda é bonito, galante, cita uns filósofos para elogiar a gente, você vai gostar. Só tem que dar os remédios e escovar os dentes, o resto é com a enfermagem.

Lívia cumpria o destino que Maria Clara ansiava para si. Casara-se com um médico de tradição de família e engravidara quatro meses depois. Proibida de frequentar o hospital e feliz com a proibição, pois pretendia ser mãe e esposa em tempo integral, salvou a amiga do horror da emergência.

Nas duas semanas em que a substituta zelou pelo enfermo, Ciro não deu o ar da graça. Balbuciava palavras incompreensíveis, parecia escutar, mas nunca abriu os olhos. Fria e profissional, Maria Clara não desenvolveu nenhum apego, não trocou um bom-dia, ignorou aquele homem deitado sobre a cama durante a maior parte do tempo que passou ao lado dele. Dava banho, fazia a higiene bucal, penteava o cabelo, sempre indiferente, isenta, nula. Gastava as horas nas palavras cruzadas, folheava revistas, tirava a pressão, via TV, cochilava e, dez horas depois de bater o ponto, deixava o emprego com a vida ganha.

Passou a gostar dos turnos noturnos. Saía às sete e aproveitava para tomar café com o namorado no Centro. Ao contrário do que acontecia no antigo pronto-socorro, dormia bem no serviço e chegava fresca aos encontros, pronta para combinar com Nélson o futuro próspero que teriam.

O uniforme de enfermeira foi a flecha do Cupido. Cruzaram-se na padaria, como virou costume, ele chegando no banco e ela saindo do plantão. As curvas de Maria Clara apertadas na roupa branca, o escarpim claro, o joelho à mostra. Nélson alucinou com a morena branquinha de quadris largos, metida numa fantasia erótica em pleno desjejum. Chamou pra sair, deu telefone, endereço, pediu pra casar. Não havia nada que tocasse mais o coração de Maria Clara do que ver um homem de terno atraído por ela. Foi direita e acessível. Combinaram um jantar. Nélson gastou para impressionar, ela se impressionou, mas, depois, aceitou a realidade contada do pretendente, que vivia do magro soldo de bancário e da esperança de uma promoção. À moça, incomodava que ele não dispusesse de um carro para passear por aí. Nélson pegava ônibus, o que, aos olhos dela, roubava muito da virilidade dele.

Melhor do que nada.

Maria Clara deixou a família em Friburgo para se formar na capital. Tios, primos, pai, mãe, irmãos, avós. Conseguiu se manter no Rio a duras penas; topou os piores horários, dobrou jornada, se virou em mil. Agora, arrependida da profissão que escolhera, sofria da urgência de arrumar alguém que se responsabilizasse por ela, dividisse as contas e a deixasse perto do mar. Nélson não era bonito nem feio, não fumava, não bebia, era fiel e demonstrava devoção por Maria Clara. Não era o partidão que Lívia arrumara pra si, mas ela também não era a Lívia. Cada um com o seu cada qual. Agarrou-se à única oportunidade que apareceu e deu para Nélson assim que achou seguro. Quis garantir a culpa dele, caso desejasse se livrar dela. Não tinha arroubos pelo noivo, tê-lo bastava, ou quase bastava. Nélson, mais empenhado, juntava dinheiro e fazia planos para a vida eterna dos dois.

Eneida instruiu a novata na maneira correta de se dirigir a um paciente em coma induzido:

— Fale claro, perto da orelha. Não direcione a boca para o canal auditivo, pode provocar surdez. Fale forte e pausado. Eles escutam. — E demonstrou a técnica.

Ninguém avisou da mudança na medicação. Maria Clara passava a toalha úmida no rosto de Ciro para fazer a barba, quando o morto arregalou os olhos e a fitou com uma fisionomia confusa. Ao vê-lo desperto, quase desfaleceu. Acostumara-se com a ideia de que Ciro não existia. Perdeu o ar, ao ver a maçaroca de carne transformar-se num homenzarrão indignado, mirando reto na direção dela. Apavorada, agarrou-se ao tatibitate estereofônico de Eneida:

— O MEU NOME É MARIA CLARA, EU SUBSTITUÍ A LÍVIA. ELA VEIO AQUI ME APRESENTAR, QUERIA SE DESPEDIR, MAS O SENHOR ESTAVA DORMINDO. A LÍVIA DEIXOU UM ABRA…

— Você é surda? — Ciro indagou severo, com a pouca força que lhe restava. — Por que grita tanto? Morreu alguém? Quem morreu? Alguém morreu, eu me lembro do funeral. — Entendeu que foi delírio. Pediu água, a boca seca, Maria Clara foi buscar. — Vocês não dão água para um moribundo? — Já se sentia capaz de gracejos.

Ela veio com o copo, tremia. Ciro bebeu e a olhou de cima a baixo.

— A Lívia jurou que não ia me decepcionar. Deixa eu ver. Qual é o seu nome?

— Eu disse o meu nome.

— Eu não me lembro.

— Maria Clara.

— Maria Clara. Bonito.

— Você acha?

— Acho. Você não?

— Não.

— Você é casada?

— Não, eu não sou casada.

— E pretende casar?

— Pretendo, se Deus quiser.

— Reza para ele não querer. Quantos anos você tem?

— Vinte e quatro.

— Vinte e quatro. Isso passa. Aproveita que passa rápido.

Cansado da esgrima, Ciro permitiu-se uma pausa.

— Você quer casar por quê?

— Porque é o que tem pra fazer.

— Isso não é resposta. Por que você quer casar?

— Porque eu não quero voltar para Friburgo.

— Já é uma razão concreta. Mesmo assim, não faça isso. Você gosta dele?

— Mais ou menos.

— Então, não tem problema.

— Por que não tem problema?

— Porque casamento com amor termina sempre em tragédia.

Maria Clara o olhou abismada.

— Eu posso comer alguma coisa?

— Acho que sim.

Ela apertou o botão de socorro. Em segundos, o quarto lotou de enfermeiros para tirar a pressão, o sangue, e checar os reflexos do ressuscitado. Maria Clara sumiu atrás do mutirão, sentou-se no sofá e repassou o curto diálogo. Não era todo dia que encontrava alguém curioso pela vida dela. Sempre lamentara o amor interesseiro que sentia por Nélson. Decidira abrir mão da sorte, ser realista e se casar com a frustração. Agora, aquela entidade surgia do além para dizer que o matrimônio era uma desgraça certa. Falou em tragédia. Condenou a paixão. Garantiu que a falta de afeto poderia ser vantajosa. Em quê?, pensava. Teve vontade de lhe contar o que ninguém sabia, que durante uma fase apertada, para quitar o aluguel atrasado, aceitou os favores de um senhor da Tijuca. Viveu dele um tempo. Desconfiava que o que sentia por Nélson não era diferente do vazio de tirar a roupa no quarto do apartamento mofado da Conde de Bonfim. O que há de bom nisso? Ciro só lhe deu uma ordem certeira: Aproveita, ele disse, aproveita que passa rápido. De fato. No último ano, Maria Clara se dera conta de que, apesar de jovem, não tinha mais tempo para guinadas drásticas, ou grandes mudanças na vida. Tarde demais para desistir da carreira, ou procurar um homem melhor. Passa rápido. Ele tem razão.

A junta pediu eletro, ultrassonografia e raio X do tórax. Removeram o corpo para exames. Quando Gisa apareceu para rendê-la, Ciro ainda não havia chegado. Maria Clara maldisse a pontualidade da colega e puxou conversa para atrasar a saída. Gisa ouviu sobre o acontecido, riu do susto da outra e entregou intimidades do patrão:

— O filho veio aqui poucas vezes, com uma tia. É separado. No começo, ainda apareciam uns amigos, depois sumiu todo mundo. Faz duas semanas que botaram pra dormir. Foi logo antes de você entrar. Vão apagar de novo, você vai ver.

— Será?

— Tenho certeza.

A notícia entristeceu Maria Clara. Gisa assumiu um ar vago.

— Por que não deixam ir em paz?

— Como assim?

— Você não vê a tortura? Furam, reviram, tiram chapas, acordam para fazer testes; depois, desligam de novo. É crueldade. A medicina nega direitos básicos ao cidadão. É anticonstitucional.

Maria Clara estarreceu. Já estava ali havia mais de dez dias, e jamais formulara nenhum pensamento relevante a respeito do interno. O que ele tomava, ou deixava de tomar, era responsabilidade dos médicos. Jamais discutira as decisões do alto-comando, quanto mais naqueles termos de advogado. Olhou pasma para a colega, achou-se burra e superficial. Gisa era de esquerda, politizadíssima, prestava serviço social, lia livros que pesavam mais de quilo e fumava na varanda do segundo andar.

Ciro não retornou. Maria Clara se despediu desolada. Seria bom ter a chance de estar a sós, mais uma vez, com um homem mais velho e experiente interessado nos problemas dela. Sentiu falta da família. Entrou no lotação com medo de que Ciro não resistisse até o encontro seguinte. Ainda tinha um dia inteiro pela frente.

Encontrou com Nélson na saída do banco. Ele havia feito uma extravagância, comprara dois ingressos para a pré-estreia de Dias de trovão, no São Luiz do largo do Machado. Maria Clara era fã de Tom Cruise. Jantaram na casa dela, um ravióli congelado e um pudim de caixinha. Como sempre, o assunto terminou no casório. Maria Clara não fingiu o entusiasmo de sempre, se limitou a observar a alegria do namorado. Ele notou a frieza, achou que era indisposição. Hospital não faz bem a ninguém, pensou, certo de que, um dia, libertaria a amada da escravidão da saúde. Ganharia o suficiente para deixá-la em casa, indo e vindo do cabeleireiro, levando a vida mansa das esposas da diretoria, com cozinheira, governanta e babá à disposição. Teriam direito a um carro executivo, cujo motorista dispensaria, só para ter o prazer de dirigir pra ela.

Nélson dormiu na quitinete da noiva e saiu cedo para trabalhar. O dia amanheceu fresco. Maria Clara demorou a largar os lençóis, passou o dia em casa, rondando o telefone, com receio do recado funesto. Saiu uma hora antes do horário, não aguentou esperar. Na subida para o Silvestre, a baía pintou o fundo de azul-escuro e a contraluz do poente acendeu as montanhas com um tom alaranjado, o céu sem névoa, a maravilha do Rio. Maria Clara não suportaria voltar para a serra, ter que dar adeus àquilo tudo. Lembrou-se de Ciro e repassou as perguntas que planejava fazer. Tinha urgência, precisava ouvi-lo. Dependia disso. A falta de notícias era a melhor notícia. Estava segura de que havia resistido à madrugada. Apressou o passo, estaria desperto?

Ciro dormia, ainda mais magro do que no dia anterior. Maria Clara lavou as mãos e sentou-se para esperar. Esqueceu-se das palavras cruzadas, das revistas, da TV. Quando o sol se escondeu atrás da copa das árvores, a melancolia tomou conta da moça. Permanecera no mesmo lugar por mais de três horas, atenta a qualquer movimento, mas nada de diferente se deu. Levantou-se para vestir o casaco. Fazia frio. Os insetos zumbiram do lado de fora, ela fechou a janela, mas o silêncio foi mais irritante do que a zoeira do mato; abriu-a novamente. Quando a arrumadeira chegou para fazer a cama, Maria Clara aproveitou para tomar um banho e colocar um uniforme passado. Não costumava vesti-lo com Ciro, queria lhe fazer um agrado. Saiu do banho, checou o belo adormecido e deitou-se na cama feita. Mirou o teto. E se ele não acordar? Não conseguiria sair dali sem vê-lo. Deu-se conta de que não pensava no noivo desde cedo. Não vou mais casar, decidiu, algo nela decidiu por ela. Queria que Ciro fosse o primeiro a saber.

Às nove, a enfermagem passou para entregar o prontuário da noite. Eneida, Gisa, Lívia e Maria Clara tinham competência para ministrar as doses. Dr. Júlio armara um esquema com o hospital, onde parte das diárias das acompanhantes entrava no custo do tratamento coberto pelo seguro. A manobra possibilitou a Ciro continuar cercado de mulheres até a última hora.

Maria Clara tirou a pressão, a temperatura, trocou o soro, injetou o antibiótico e o anti-inflamatório. Ciro imóvel. Terminada a tarefa, pôs-se a admirá-lo. Que deselegante é o coma, pensou. Os músculos, relaxados ao extremo, largam a boca aberta, pressionam o queixo contra o pescoço e despregam a pele da bochecha dos ossos. Deus me livre de ficar assim. A indiferença de antes aflorou de repente. Mirou-o distante, viu-se diante de um cadáver. Recuou por instinto. Como era idiota. Alimentara a esperança de que um morto teria algo de importante a dizer. Uma luz para dar. Imbecil. Virou as costas para Ciro enervada, sentou-se e ligou a TV. Bruce Willis, descalço, pisava nos cacos de uma recente explosão. Duro de matar. Tiro pra todo lado. Maria Clara descarregou na fita o ódio de ter um destino tão vagabundo. Por que não optou pela Varig?

Vou casar com o Nélson, acalmou-se. Vou casar, ter filhos, largar essa porcaria de emprego e ficar no Rio de Janeiro. Não esperou o mocinho terminar o serviço, sumiu com o astro americano da tela, pôs o despertador para as duas, recostou-se no sofá-cama, apagou a luz e fez força para dormir. Não pensava mais em Ciro, não estava nem aí pra ele. Amanhã, procuraria alguém para o lugar dela. Lívia calculara errado, aquilo não lhe servia. Seria aeromoça, ainda tinha tempo, largaria Nélson, poria o pé na estrada, almoçaria em Paris, jantaria em Londres, visitaria as Pirâmides, a Disney e o Nordeste. Lutou contra a insônia. Dormiu sem perceber.

* * *

A campainha apitou. Maria Clara emergiu contrafeita das trevas, não sonhara com coisa nenhuma. Demorou a focar. Os remédios, lembrou, hora de dar os remédios. Acendeu a luminária da mesinha de canto, caminhou até o leito, tirou a pressão do corpo, ajustou o termômetro sob a axila, se concentrou na gaze, no álcool e na seringa. Descartou a agulha. Quando terminou de injetar a receita, sentiu que uma mão lhe apalpava as nádegas. Virou-se para trás, era Ciro.

Nada dos olhos esbugalhados ou da fúria do dia anterior. Ele parecia exausto, menor e mais frágil. A voz débil arriscou uma pergunta. Queria saber o dia. Quatro de agosto de 90, ela respondeu. É uma bela data. Maria Clara havia feito um esforço tão grande para se livrar da expectativa que depositara no moribundo, que, agora, nenhuma questão importante lhe vinha à cabeça. E Ciro, também, perdera a autoridade, já não inspirava a mesma confiança. A mão voltou a alisar a carne. O espírito despertara lascivo. Seu Ciro…, não sabia como chamá-lo. Achou ridículo o “seu”, seguido do nome Ciro. Mas Ciro, puro, era íntimo demais. Senhor, muito severo. Usou “seu Ciro”, mesmo sabendo que não era bom. Sentiu a mão escalar pela cintura até a divisa com o braço. Seu Ciro…, repetiu sem jeito, não queria rejeitá-lo, mas não esperava aquilo. Maria Clara enrubesceu, tentou tirar a mão que lhe apertava o peito, mas Ciro se enganchou no decote e não soltou mais.

— A Lívia não mentiu. Você é mesmo bonita, Maria Clara.

Nunca resistiu a elogios, mas descobrir que Ciro não esquecera seu nome fez o calor subir pelo rosto, as pernas dobrarem e o pulmão bombear ar pelas ventas. Vem, senta em mim, ele pediu. Maria Clara quis fazer o desejo dele. Gostava de realizar a vontade dos homens. Aquele era um pedido especial, não aconteceria outra vez. Muda, baixou a proteção lateral da cama, puxou a escadinha de três degraus para perto e sentou-se na beira do leito. O que tinha a perder? Amanhã, estaria longe, nunca mais o veria. Em dois dias, estaria morto de qualquer jeito. Por que negar? Tomada pela necessidade de ser especial para alguém, fantasiou que Ciro morreria pensando nela. Seria a última, a definitiva. Nunca mais lhe seria oferecido algo assim. Com um movimento brusco, ergueu o corpo e passou uma das pernas sobre as pernas dele, estabilizou os dois joelhos no colchão. Enamoraram-se. Foi quando Ciro propôs o assassinato. Maria Clara se afastou assustada.

— Seja santa — ele disse —, tenha misericórdia de mim.

Ser santa. Esquecer a Tijuca. Que proposta. Faria qualquer coisa por ele. Mas Ciro a lembrou das suspeitas, falou em investigação, e a consciência do crime interrompeu o ato de bondade. Não queria aquilo pra si. Ele não argumentou, mandou-a descer, foi ríspido e impessoal:

— Não precisa vir amanhã, eu converso com a Eneida e ela arruma alguém para o seu lugar.

Maria Clara fez o que Ciro mandou, pôs os pés no chão humilhada. Arrastou a escada para o canto com a cabeça baixa, ajeitou o uniforme, subiu a grade de proteção e se refugiou no sofá-cama. Ciro dormiu. Entrara ali sem saber se devia, ou não, casar; seis horas depois, cogitava em acabar, ou não, com a vida de alguém. Não se conformava com a secura de Ciro. Pede que eu seja santa e depois me trata como uma qualquer. Eu não sou uma qualquer. Posso não ser educada, não leio jornal, e nem esses livros que a Gisa lê, mas eu sei que é crime. É crime. Não vou fazer. Já fiz muita coisa errada, mas essa eu não vou fazer. Eu quis que ele gostasse de mim, eu sei deixar um homem feliz, isso é uma grande qualidade que eu tenho, mas ele vem com um pedido desses… E ainda se ofende de eu não querer. Por que não cortou os pulsos quando ainda estava em tempo? Continuou sentada, sem conseguir frear o pensamento em lugar algum.

Levantou-se e saiu.

Caminhou até a sala de enfermagem. Não gostou do que encontrou. Três rapazes truculentos e uma chefe feia. Ciro merecia algo melhor. Ciro merecia que fosse com ela. Um dos rapazes perguntou se Maria Clara precisava de ajuda, ela respondeu que não, que havia saído para arejar. Ele continua desacordado, mentiu, e voltou para o quarto disposta a conquistar a sua santidade.

Ciro dormia um sono leve. Maria Clara recolheu o que pôde de medicamento, juntou com a morfina, fez um coquetel, deixou de lado a seringa e escalou a cama mais uma vez. Chamou por Ciro, ele abriu os olhos.

— Está na hora da sua dose — avisou.

Sentada sobre ele, testemunhou a dança da morte. Quando voltava ao presente, Ciro a fitava e abria um sorriso, depois mergulhava novamente no insuspeitável. Parecia feliz, Maria Clara foi um bom anjo.

Espantada com o próprio feito, desmontou com cuidado, arrumou o quarto, colocou os remédios na bandeja e traçou um plano de ação. Cumpriu-o à risca. Esperou o dia clarear, apertou o botão e disse que, ao dormir, Ciro não apresentava nenhum sinal preocupante, mas que, agora de manhã, quando foi checar, viu que não respirava. Ninguém pôs em dúvida a narrativa. A aceitação dos presentes afastou o medo de ser descoberta. Segura, telefonou para as companheiras. Eneida chorou, Gisa ficou aliviada e Lívia reagiu indiferente. Eneida disse que não iria ao enterro. Se eu for me despedir de cada baixa do hospital, não saio mais do cemitério. Gisa não via sentido em chorar a morte de um burguês. Maria Clara informou que marcaria presença em nome delas. As duas reagiram surpresas. A última a entrar, que só vira Ciro de olho aberto uma vez, fazia questão de prestar condolências. Tem maluco pra tudo, pensou Eneida.

Maria Clara não demorou a ser liberada. Assinou papéis, deu cabo das formalidades, trocou de roupa e desceu a rampa até o ponto. Dormiu no trajeto pra casa. Dormiu em casa, dormiu a tarde toda. Guardava um segredo. Sonhou com Ciro. Trepava com ele, olhava-o dormir, conversavam, eram amantes. Acordou bem, diferente. Havia matado alguém. Executara o ato heroico, dera o tiro de misericórdia, algo da dimensão do sagrado, do divino. Era uma mulher especial. Casar ou não, ser isso ou aquilo, servir café nas alturas, ou cuidar de feridas aqui embaixo, que diferença fazia? Maria Clara não se guiava mais pelo cotidiano, sua medida era o eterno.

No dia seguinte, vestiu o melhor luto, subiu no salto, se esmerou na maquiagem suave e foi dar adeus ao maior acontecimento de sua vida.

PADRE GRAÇA arrastou por um bom tempo o peso por ter largado a batina. Encontrou na penitência a única forma de se expiar da culpa. Jejuou, se autoinfligiu privações, mas continuava preso aos mesmos códigos do sacerdócio. Decidiu peregrinar. Enterrou a batina e os objetos litúrgicos no quintal de casa e traçou uma reta para o noroeste. Aos cinquenta e quatro anos, viraria outro.

Levou mais de ano mapa acima, comendo asfalto e muitos pares de sapatos. Deus se transmutando no próprio planeta, nas correntes de ar, nas nuvens densas, no sol inclemente, na lua e nos temporais. Dormiu ao relento, teve medo de bicho, de gente, foi assaltado mais de uma vez na estrada. Trabalhou como peão de fazenda, sentiu febre, frio, fome e sede. Tinha como único objetivo seguir adiante. A vida é o caminho, disse Tirésias a Odisseu. Trezentos e oitenta e dois dias depois de iniciar o périplo, se viu perdido no centro de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Entrou numa galeria refrigerada para se proteger do calor e deu com os olhos numa porta de madeira com uma placa pequena: MATA. Era uma ONG ambientalista. Entrou e foi informado de que não precisavam de ninguém na cidade, mas que a organização trabalhava com dezenas de postos avançados carentes de voluntários. Graça observou a lista de localidades espalhadas por lugares tão longínquos quanto Oiapoque, Boca do Acre, Lábrea, Manicoré, Aripuanã, Parecis, Jaciara. Interessou-se por Manicoré, no sul do Amazonas. Leu os nomes das etnias locais, tenharins, parintintins, diahois, torás, apurinãs. Recebera a missão.

Por vinte e quatro anos cultivara lápides floridas e mausoléus frondosos no seu jardim de cimento armado, agora era hora de zelar pelo real paraíso. O monomotor sobrevoou por horas as monoculturas de soja e o capim careca do gado, até atingir a parede verde da floresta imemorial. Acostumou-se com o mormaço, os insetos graúdos e as cobras, com os barulhos da noite e as brincadeiras truculentas dos nativos. Gostava de visitar as aldeias, ver o sol refletido na clareira das ocas e de ser cercado por cunhãs novas, com risos diáfanos e cabelos negros. Casou-se com uma delas, a quem ensinou o evangelho.

Longe da metafísica do além, Graça se ateve a problemas urgentes: crimes contra a natureza, serras elétricas, tratores, correntes e venenos de praga. Combatia um demônio chamado civilização.

Acordou antes do nascente, lavou o rosto com água fria, vestiu-se. A mulher fez o café. Caminharia por três horas em trilha fechada até a tribo dos torás. Um acampamento ilegal de extração de madeira invadira a reserva indígena e Graça fora designado para intermediar o conflito. O curió cantou na gaiola ao vê-lo abrir a porta da frente, lembrou-se de que havia esquecido o alpiste. Pegou o pequeno saco de ração na prateleira da varanda e despejou com cuidado no comedouro. Notou que a forração estava suja, quis trocá-la. Catou um papel de embrulho, abriu a portinhola, retirou a sujeira e esticou o forro novo. Assobiou um aceno, passando o dedo pelas barras finas para tocar o animal. Tinha amor por ele. Foi quando ouviu o estampido seco no mato. O tiro. Sentiu a pontada na costela, a ardência, a brasa acesa por dentro. Dobrou-se, caiu, desmontou olhando o teto. Um calor morno se espalhou por todo o corpo, a partir do centro, em direção às extremidades. Já não ardia. Sentiu o ventre inchar, pressionando os pulmões e a glote, os tímpanos e o cerebelo; a falta de ar, o sangue pulsando nas orelhas, o formigamento, o sono, o túnel, o desligar. Estou vivendo a minha morte, pensou.

Parou para assistir.

Viu-se tragado, puxado para o assoalho por uma gravidade descomunal, precisava agir. Em que pensar? Uma profusão de rostos imóveis surgiu num repente. A varanda, o teto, a gaiola vista de baixo, tudo continuava ali, envolto em véu, enquanto os mortos, perfilados no interior dele, tornavam-se cada vez mais nítidos. As mulheres, os homens, as crianças e os velhos; as mães, os filhos, os jovens e doentes que encomendou. O Hades. Voltava à capela do São João Batista, era o papa, benzia um caixão. O último. Álvaro. Não tinha consciência do nome, desconhecia a fisionomia, mas sabia ser dele aquele último velório. Separa deste mundo a alma deste irmão, terra à terra, cinza à cinza, pó ao pó. Uma senhora distinta o encarava à distância, jamais esquecera o olhar de reprovação. Irene lhe devolvia a pergunta, séculos depois de tê-la ouvido. Quem será o próximo? Graça voltou a atenção para o féretro e descobriu-se nele, inerte, deitado, finito. Teve medo. Retornou ao teto, à gaiola, à casa de madeira e à floresta. Amanhecia. Teve a impressão de ouvir alguém berrar. Uma mulher morena surgiu no campo de visão estreito, o rosto contorcido gritava. Já não ouvia. Onde estava? Quem era? Um morto. Mil mortes em uma. Arrastaria todas consigo. Ainda não. Enterrou a batina no quintal de casa, refez a marcha, tomou o avião, se embrenhou na mata, ficou de tocaia, à espreita. Viu-se na varanda, dando comida ao curió. Teve a certeza de que seria o próximo.

AGRADECIMENTOS

 

Agradeço a Fernando Meirelles, por ter me pedido um conto; a Flávio Moura, pela remada forte; a Otávio Costa, por ter se juntado ao barco; a Arthur Lavigne, pelos causos e causos que me contou; a Luís Carlos Miele, pela inspiração; a Cézar Mendes, pelo violão; a minha mãe, por distinguir movimento de ação; a Washington Olivetto, pela parceria; a Sérgio Mekler, pela amizade; a Salim Mattar, pela longa estrada; a Carmen Mello, pelo amor e perseverança; a Millôr Fernandes, por ter existido; a meus avós, tios e primos da Tijuca, da Ilha e do Catumbi, pela zona norte; e a Andrucha Waddington, pela vida.

Agradeço, também, à Conspiração Filmes e, em especial, à TV Globo pelo apoio no lançamento dessa obra.

 

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JORGE BISPO

FERNANDA TORRES nasceu no Rio de Janeiro, em

1965. Há 35 anos mantém uma carreira de sucesso no

teatro, no cinema e na televisão. É colunista da Folha de S.Paulo, da Veja Rio e colaboradora da piauí.

Copyright © 2013 by Fernanda Torres

Todos os direitos reservados

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Capa

Alceu Chiesorin Nunes

Foto de capa

Enseada #2, Guarujá, 2007. Cássio Vasconcellos/ Fotospot

Preparação

Márcia Copola

Revisão

Marina Nogueira

Isabel Jorge Cury

ISBN 978-85-8086-866-1

Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles.

 

Todos os direitos desta edição reservados à

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