Fim

Fernanda Torres · Capítulo 4 de 6

Páginas do PDF

Fim

Neto

* 27 de dezembro de 1929

† 30 de abril de 1992

A Célia assistiu o jornal e foi deitar. Está cedo, argumentei, mas ela estava indisposta. Vi um filme de guerra e fui dormir. No dia seguinte, estranhei que ela ainda estivesse na cama quando acordei. A Célia tinha por hábito levantar antes de mim para fazer o café. Tomei banho, me vesti, mas ela não se mexeu. Quando tentei acordá-la, percebi a rigidez. A Célia morreu de madrugada, do meu lado; um aneurisma a levou sem que eu notasse. No mesmo instante, todos os momentos ruins desapareceram, os maus humores dela, o pavor dos amigos, a implicância com a nora, a ranhetice com o genro, a infelicidade crônica, os rachas, os tabefes. Fui invadido por um amor incondicional por nós dois, pelos nossos anos juntos. Fiquei paralisado, sentado na cama, passando o tempo em revista, sem ter coragem de ser prático.

Meu filho cuidou dos trâmites: funerária, missa, capela, escolheu um caixão bonito, eu não tinha condição de nada. Sentei ao lado dela no velório, as pessoas vinham até mim, mas eu não estava ali, eu não estava em nenhum lugar. Meu desejo era sair da pele, sair de mim. Vociferei, gritei, blasfemei, não aliviou, até hoje não botei os pés no chão. Sóbrio, nunca mais. Me recuso a começar tudo de novo, perdi a ilusão necessária para reinventar os dias.

Fui carregado no enterro. O Álvaro e o Ribeiro me ampararam. O sino anunciou a saída do cortejo e nos arrastamos pelo cemitério; como é triste, meu Deus. No fim, abracei meus filhos, meus netos, e rumei para o apartamento que dividi com a Célia por mais de trinta anos. O silêncio cortou o ar, corri para ligar a TV. O Murilo achou melhor dormir comigo na primeira noite, foi tão esquisito pra ele quanto foi pra mim. No dia seguinte, mandei-o embora. Dali pra frente, eu teria que aprender a ser só, concluí, olhando no olho dele, fingindo ter recobrado a razão.

Faz um ano que me esforço, mas tudo parece artificial: sair, ir a um cinema, jantar. Não tenho mais com quem comentar as notícias, é como se os fatos não existissem. O sol nasce e morre numa sucessão de horas iguais. A Célia era a ponte, a casa existia graças a ela. Paranoica, desconfiada, falou mal do Ciro, do Sílvio, do Álvaro e do Ribeiro desde o dia em que os conheceu. Que importa? Eu não sabia, até ver o corpo dela estendido sobre a cama, eu não sabia, mas a Célia era o esteio, o mastro, o prumo.

Fecho as janelas, checo se deixei a porta aberta, a geladeira, o gás, sou metódico. Apago as luzes e me tranco no quarto; tento ler, não consigo. Sempre gostei de ler, mas não consigo mais. Me tornei alheio ao drama de terceiros.

Como é possível prosseguir sem planos? Aos vinte, assassinam-se amores, amizades, vai-se em frente como uma flecha afiada; só mais tarde se aprende quão raros são os reais afetos. Não acredito em paixões tardias, não se ama mais depois dos quarenta. É mentira. No máximo, faz-se um acordo formal, finge-se saudade, apreço, mas a biologia não precisa dos arroubos juvenis de um velho.

Meus amigos jamais entenderam minha ligação com a Célia. E ela também não ajudava, detestava todos eles, o Sílvio em especial. No dia em que a Suzana fumou maconha no jardim do Ciro, chegamos em casa e ela partiu para cima de mim com uma conversa séria. Disse que não queria o filho metido com aquela cambada, que tinha medo do Sílvio abusar do Murilo, que conhecia milhões de casos de assédio com conhecidos íntimos. Falou do sobrinho da Irene, uma moça, coitada da mãe dele, iniciado por um tio na garagem de casa. Eu revidei violento, disse que o Murilo não tinha nem um ano de idade e que nenhum pedófilo disfarçado de amigo iria atacar o nosso bebê, muito menos o Álvaro, o Ciro, o Sílvio e o Ribeiro, porque eles gostavam de mim. O Ciro queria comemorar o fato de eu ser pai e o Ribeiro é um infeliz, que vive atrás dessas gurias. Hoje em dia, todo mundo fuma essas drogas e o que você não pode, Célia, é me proibir de ensinar o Murilo a ser homem. Bicha ele corre o perigo de ser, Célia, se você, que é mãe, sufocar o coitado com um anormal em cada esquina. Não vou afastar meu filho dos meus amigos para satisfazer a mania persecutória de uma mãe de primeira viagem. Ela abaixou a cabeça, ofendida. O Murilo abriu o berreiro e a Célia, com os olhos cheios d’água, disse que tinha que dar de mamar. Nunca mais tocamos no assunto.

Essa era a nossa rotina: picuinhas, discussões, mágoas e reconciliações. Eu me viciei nisso, não sabia mais viver sem. O fato de discordar da Célia me mantinha ativo. E sabíamos varrer tudo para debaixo do tapete, o que é fundamental para a saúde de qualquer casamento. Deve-se virar a página, esquecer, zerar, perdoar, passar por cima. As mulheres se negam a entender, insistem em expor as suas razões estúpidas, querem mudar quem está do lado, obrigá-lo a cumprir o papel de príncipe. Os homens assistem, esperando que elas cansem, enquanto repetem os mesmos erros. Elas agridem, xingam, gritam, choram, mas, depois, vão cuidar da janta. Até as feministas vão cuidar da janta. E seguimos juntos, para um dia faltar e deixar o outro aqui, na cova.

Estou sentado na poltrona da sala. Ia deitar, mas dei meia-volta e estanquei aqui. Minha casa é a mesma, não troquei os móveis de lugar nem doei as roupas dela. Estou diferente. Hoje cedo acordei diferente. Fui tomado por uma paz mórbida, uma distância que jamais havia sentido. Foi quando ouvi a voz dela. Já tinha me acontecido uma vez, no hall de entrada, para nunca mais. Hoje voltou. É mais como um respiro, um hálito, o bafo dela. Foi de manhã, quando me aproximei da cômoda para pegar o dinheiro da padaria. Por isso estou sentado aqui, pensando nisso, na brisa que me atravessou.

A Célia era branca, considerada branca, porque tinha traços finos, mas era mulata, como eu, e costumava alisar o cabelo, pixaim como o meu. Os quatro eram brancos. Eles não sabiam da cobrança por trás da cor, do espanto de não se parecer com nenhum colega da turma, do prédio, do bairro, e de ser tão semelhante aos faxineiros, garis e pedreiros que servem a brancos como eles. Quando a revolução de costumes aportou na Guanabara, o Ciro, o Sílvio e o Ribeiro, e também o Álvaro, por culpa da Irene, que começou a fazer análise, todos eles se perderam naquela libertinagem sem freio. Rio Babilônia. O desquite virou obrigação. Eu via o desprezo com que eles me olhavam, enquanto jogavam seus casamentos no lixo, um após outro, numa ganância desenfreada, suicida, solitária, estéril. Eu não. A leviandade não fazia parte de mim. Tirei as melhores notas, passei nos piores testes, estudei até ferver os miolos, trabalhei como um corno e não traí. Fui honesto até dizer chega.

Chega.

Quero escrever uma nota. Cadê a caneta? Na estante. E o papel? Na gaveta. Nada fora do lugar. Só eu. Vou sentar para escrever. O que quero mesmo escrever? Uma nota. Retiro a tampa da Bic, deposito ao lado da folha em branco, toco a ponta da esferográfica na superfície lisa e rabisco: “Não contem a ninguém”. Por que escrevi isso? É para os meus filhos, pensei. Dobro o papel e guardo no bolso. Agora posso deitar. Caminho pelo longo corredor de portas fechadas. Não gosto desse funil estreito, ele me lembra a bagunça, as toalhas pelo chão, as calcinhas dependuradas na torneira e a ausência deles, e dela. Dobro à direita no banheiro próximo ao quarto. Quando nos mudamos para esse apartamento, não se falava em suíte, varanda, play ou vaga de garagem. Os cômodos eram amplos e isso bastava. Vivíamos uns com os cheiros dos outros, os vapores, os restos de cabelo e as poças d’água.

A escova de dentes dela me olha do copo sobre a prateleira de louça. Ainda está lá. Abro o armário atrás do espelho e me atenho com a porta entreaberta. É o mesmo espelho do dia em que entramos aqui pela primeira vez. Está trincado. Procuro o antigo rosto, sou eu, ali, e não sou; também não lembro como eu era. Abro. Ritalina, Lexapro, Frontal, Valium, Haldol, Seroquel, o resto do Pondera do ano passado e o Aropax, que o dr. Péricles planeja experimentar nos próximos meses. Os rótulos me encaram do buraco da parede. O Murilo insistiu que eu me tratasse. Por um ano respondi aos intermináveis questionários sobre os efeitos dos benzodiazepínicos no meu organismo. O dr. Péricles queria saber da compulsão, da ansiedade, do desânimo matinal; de acordo com as respostas, alterava as doses, o que provocava novas indagações. Um melhora, outro piora, eu respondia, como um aluno bem-comportado, até que, num rompante, me transformei numa cobaia arisca. Decidi não mais colaborar com os laboratórios, me vinguei de forma sistemática, atrapalhando a preciosa pesquisa deles. Fornecia dados fraudulentos, alegava tonturas, dores no peito que não existiam. Me revelei um rato anárquico, perigoso, que planejava destruir a megalomania científica dos reguladores de humor, frustrar o delírio dos que pretendiam controlar meu desespero. Tive uma melhora considerável nesse período, gostava de ver a surpresa do doutor diante do quadro que eu descrevia. Estava na cara que o Péricles estava perdido. E, mesmo antes, quando eu ainda não blefava sintomas, ele também estava perdido. Um clínico saberia diagnosticar uma pancreatite fingida, mas o psico Péricles seguia à risca as estatísticas americanas, as tabelas de comportamento da Pfizer, da Roche, sem perceber que eu fazia o que o homem faz desde que se entendeu por gente: eu mentia e me divertia. Não há remédio pra isso. Cheguei a ter pena dele. Eu era grato ao Péricles. Foi ele quem demoveu da cabeça do Murilo a ideia de apelar para a psicanálise. Cheguei a frequentar algumas sessões, mas não passou do primeiro mês. Era um chato de Laranjeiras que cobrava uma fortuna para ficar calado, comigo de costas pra ele, remoendo neuroses em alto e bom som. Encenação ridícula. Quem inventou essa porcaria? Não se devem fuçar frustrações, eu e a Célia somos o melhor exemplo disso.

Minha alegria de acabar com as certezas do Péricles perdeu a graça recentemente, há duas consultas. Ele me entregou a receita, eu passei na farmácia e trouxe o carregamento pra casa. Guardei lacrado no armário trincado do banheiro. Desisti de tomar. Faz três semanas que meus humores agem livres. E eles têm tomado conta de mim.

Recolho os tarja-preta e ponho no bolso, encho o copo com água da bica. Pra que filtrar? Me dirijo ao quarto. Olho para a sala escura, tudo apagado. Entro na porta à direita, a do fundo do corredor, acendo a luz, o facho ilumina a passagem. Tranco a porta por puro hábito, ninguém vai entrar de surpresa; sento na cama e deposito os medicamentos e o copo sobre o criado-mudo. Tiro o paletó, a camisa, a calça, dobro tudo e penduro no cabide de pé. Volto a sentar.

A diferença entre um tarja-preta e um tarja-vermelha, me explicou o balconista da Droga Raia, é que se você tomar uma caixa inteira da preta, você empacota; da vermelha, não. Ele soltou essa e riu, colocando as três caixinhas na cesta. Qual é a graça?, pensei.

Qual é a graça?

O ar pesou de repente. Notei que não estava a sós. Havia alguém, além de mim, ali, naquela cama. Era possível ouvir a respiração. Não tive coragem de virar para ver quem era. Escorreguei os dedos sobre o lençol, tateei às cegas, até que uma mão conhecida segurou a minha.

Você não vem deitar? A voz ecoou limpa no quarto vazio. Demorei a responder, temendo que a ilusão se desfizesse. Já vou. Que horas são? Tarde, eu disse. Você não vem deitar? Fechei os olhos e me inclinei devagar, segurando a mão dela para que não se soltasse da minha. Voltado para o teto, sem coragem de me mexer, senti o volume de um corpo se aconchegar no meu. O dela. Achei que já era dia, comentou. Não, ainda está escuro, você dormiu pesado. Ficamos abraçados, quietos. Aconteceu alguma coisa? Não consigo dormir. É o trabalho? Não, Célia, não tem nada a ver com o trabalho. Sou eu mesmo.

Cerrei ainda mais os olhos e a afastei de mim. Toquei os cabelos, o colo, a cintura, a barriga, as ancas, eu queria muito que fosse verdade. Movi as pálpebras receoso, a claridade invadiu a retina e imprimiu o rosto da Célia. Ela estava neutra. Não era jovem, mas também não carregava os vincos da rabugice final. Era uma mulher bonita. Uma mulher. A minha mulher. O que é que você tem?, perguntou ela, abrindo um leve sorriso. Nada, respondi.

Sempre invejei a paixão do Ciro pela Ruth. Ele apareceu na praia no dia seguinte da festa do Juliano e me chamou para um mergulho, estava bonito como nunca. Passamos a arrebentação e o Ciro confessou estar apaixonado pela cantora da última noitada. Ruth era o nome dela. Haviam passado a noite juntos e o Cupido o flechara. Eu não pensei que isso existisse, Neto, você sabe do que eu estou falando? Não, não sei. O amor é muito mais violento do que eu imaginava. Comer alguém com essa gravidade, meter numa mulher que te pertence, que é sua por destino, direito, por vidas passadas, sei lá. Eu não esperava que me acontecesse, achei que era invenção. Eu não existo mais sem ela, Neto. Quero casar, ter filhos, comer, morrer, matar por ela. Senti pena de mim. As ondas cresceram atrás de nós dois e ele desceu uma de peito, a maior, até a areia, soltando um grito de Tarzan.

Existia mesmo uma aura em torno dos dois. Não era assim comigo e a Célia. Eu gostava dela, mas não era daquele jeito. A Ruth e o Ciro se extinguiram num incêndio, viraram unha e carne do outro, e pele, e osso; mas o Ciro, apesar de amar a Ruth à loucura, continuava atrás de sentir aquele fogo poético, romântico, aquela ânsia amorosa que ele me revelou na praia, nos primórdios da vida deles. O Ciro brigava e voltava, só para criar a expectativa de que a Ruth o abandonaria. Mas ele sabia que ela era incapaz de fazer isso. E ele precisava que ela fizesse, para conquistá-la de novo, para foder a mulher como se fosse a primeira vez. A Ruth nunca entendeu, sofria, escravizada pelo erotismo dele. A paixão é uma doença grave. O Ciro precisava que ela fosse mais forte do que ele, mas ela definhou como a mais comum das mulheres. Ele desesperou de tal jeito que saiu seduzindo a porta, o rodapé. A tragédia era que nenhuma das outras era a Ruth, a do início, a que ainda não pertencia a ele, embora já pertencesse. A moderação do meu casamento foi sempre frustrante, mas agora, mirando a Célia deitada ao meu lado, sou invadido pelo mesmo ardor do Ciro e da Ruth. A comoção de ser de alguém. Minha descoberta não veio de estalo, na aurora da vida, só a percebo agora, depois da morte dela. Aqui, na nossa cama de mogno, entendo o que o Ciro quis me dizer naquela tarde, quando passamos a arrebentação.

Você não vai dormir?, ela insiste. Não sei. Por que não toma um remédio? Emudeci pensando na possibilidade. Você sonha, Célia? Não. E não sente falta de sonhar? Não. E você, sonha? Às vezes, com você. Toma o remédio, vai te fazer bem. Você quer que eu pegue?, ela se ofereceu. Quero, eu disse.

A Célia se levantou, como sempre fez, o dia amanhecia lá fora, calçou o chinelo, deu a volta no tapete, escolheu uma das caixas na mesinha e sentou ao meu lado. Quantas é pra tomar? Não sei, quantas você acha que eu devo tomar? Você leu a bula? Ela desdobrou a folha, pegou os meus óculos para enxergar as letras miúdas. Quem te receitou isso? Dr. Péricles, o psiquiatra. Você leu as reações? Li, são de apavorar. Constipação, sudorese, pânico, reações alérgicas, disfunção hepática… Quem te levou nesse médico? O Murilo. Ah… ele está bem? Está, sim. Nós criamos um filho e tanto. Dois, ele e a Dalva. Ela sorriu satisfeita. Você quer tomar quantos? Não sei, eu queria dormir, só isso. Um vidro? Acho que sim, qualquer coisa eu tomo o outro. Tem água no copo. É melhor deixar o bilhete à vista, ela sugeriu. Está no paletó. Ela foi até o cabide, tirou a folha dobrada do bolso e ficou na dúvida de onde colocar. Você acha ruim deixar na roupa? Tenho medo que eles não vejam. E na cabeceira? Tira o copo para não molhar o papel.

Ela despeja metade do conteúdo do frasco na palma da minha mão e aguarda com a tampa aberta. Engulo a primeira leva de comprimidos. Só mais uma e termina. Ela me dá o restante e eu mando para dentro com o finzinho da água; me deito para esperar. A Célia me cobre até o pescoço, me beija e volta para o seu lado da cama. Permaneço olhando o teto.

Sou dominado por uma embriaguez sonolenta, cochilo, desperto, cochilo novamente, não sei quanto tempo me arrasto nesse vai e vem. De súbito, uma pontada na barriga me tira do transe. O estômago revira, o intestino aperta, o coração acelera, cólicas anunciam o horror. Suor frio, cãibras, vômito incontrolável. Ergo-me às pressas e me arrasto até a privada. Vomito de quatro e me sento para respirar no chão frio. Vai vir mais. Ou não? Me amparo nas paredes para levantar, bochecho pasta de dentes e tento voltar para o quarto. Paro na porta, outra golfada me cola ao piso. E mais outra, e outra. Bílis. Nada mais pra sair. Fico ereto, respiro, acalmo. Entro no quarto. Percebo a cama vazia. Ela deveria estar lá. Ela não está mais lá. Chamo pelo nome, ninguém responde. Reviro os lençóis, abro e fecho o armário embutido, olho debaixo da cama. Foi-se. Esqueço o mal-estar, a azia, a queimação, e saio pelo corredor. Escancaro as portas fechadas do quarto do Murilo, da Dalva, do escritório, entro na cozinha, na área de serviço, reviro a sala toda, nenhum sinal dela. Desabo na poltrona.

Na mão oposta, um rancor insidioso, mero impulso agressivo, pequeno mas concreto o suficiente para se fazer presente, brota em mim até atingir a razão. O ódio dela, do sadismo dela de me largar sozinho antes de terminar o que veio fazer aqui. Some, filha da puta, desaparece. Trinta anos de desentendimentos e, agora, a estocada final. Eu amei muito você, Célia, depois que você sumiu, eu amei você como nunca achei que fosse amar ninguém. Eu achei que você tivesse entendido isso ali, na cama, no jeito que eu te olhei, abracei e festejei a sua presença. É vingança? É isso? Trinta anos enfrentando a sua carranca para te ver desaparecer outra vez? Belo troco, Célia, belo troco.

Nem o prazer de te largar você me deu. Nem isso. No dia em que eu cheguei de manhã, atordoado, depois da despedida do Sílvio, ali, naquele dia, eu deveria ter abandonado você. Eu nunca contei o que aconteceu nas doze horas que antecederam aquela manhã, e você também não quis saber. Eu esqueci de você naquela noite, Célia, tomei tudo o que o Sílvio me deu pra tomar, bebi o que pude, dancei, cantei, abracei meus amigos malcomportados, fui deles, só deles. Arrastei uma lourinha para o lavabo e, quando ela meteu a mão no meu zíper, levou um choque com o que encontrou. Você tinha que ver a alegria dela, o valor que ela deu para aquilo. Você nunca mencionou o fato, nem nas nossas fantasias, você nunca me elogiou como ela fez. Eu não sou um homem qualquer, Célia, você sabe disso. Como é possível não ter gratidão? Vai perguntar para a Irene o que é conviver com um brocha. Você fingiu a vida toda que aquilo não era importante. Dissimulou tanto que eu acabei esquecendo. Mas, naquela festa de bacana do Leme, que o Sílvio escolheu para nos dizer adeus, com a lourinha de joelhos, devota, incrédula com a boca metida na minha braguilha, eu lembrei do que eu tinha entre as pernas. Arranquei a roupa e fui dançar no salão. Queria exibi-lo ao mundo. Fui posto pra fora a pedradas. Resisti na calçada e ainda virei a última bolinha que o Sílvio me deu. Quando todos concordaram em esticar na Glória, vi que eu jamais seria um deles. Tive vergonha do que havia feito. Quis voltar para casa, dormir, apagar. O resto da minha vida: vocês, o lar, o escritório, os contratos, tudo era incompatível com a sarjeta, as rameiras e os quatro rapazes de quem eu gostava tanto. Eu não tinha a coragem deles. Eu voltei, Célia, e você me bateu com a mão fechada, me bateu na cara, nas costas. Eu me deixei apanhar. Eu devia ter desaparecido pra sempre, mas só fui até o elevador. Eu precisava dormir. E não apareci em casa porque te amava, Célia, voltei porque não podia ser igual aos meus. Por mais que eu quisesse, ou tentasse, eu não seria um deles.

Passei o último ano achando que eu sofria de amor, mas era raiva. Eu não perdoo a sua mesquinhez. Eu fui um marido extraordinário, paciente, bom pai. O que você queria mais? A sua acidez se chama vaidade, Célia. Eu sou melhor do que você. Mais humano, com certeza. Eu teria te deixado quieta, não passaria um ano rondando a sua cabeça, te azucrinando, não viria aqui cometer eutanásia. Vai se foder, Célia. Tira as tuas coisas daqui, some e não me procure mais. Ataco o armário embutido, arranco as roupas dela de lá, jogo no buraco da área de serviço, retorno ao banheiro, atiro a escova de dentes na privada, tento dar descarga. Remexo as tralhas, rasgo as fotos, chuto as caixas, atiro os sapatos longe. Outra fisgada, a lembrança da dor me faz curvar. Regurgito pílulas. Vomito nas dependências de empregada. Me arrasto até a cama e relaxo a cabeça no travesseiro. Daqui não saio mais.

A ira, finalmente, a ira. Eu passei os últimos meses esquecido do quanto eu detestava a Célia. Pena, agora me deu vontade de continuar sem ela. Não vai ser possível. Teria sido bom. Que estupidez eu fiz. A dormência domina as extremidades, nada se move, nem reflexos tenho mais. Só resta a cabeça pensante, os olhos embaçados e a boca amarga e seca.

Enfim só.

===============================================

Conteúdo disponíbilizado gratuitamente por Le Livros

===============================================

PADRE GRAÇA acordou de madrugada. Rezou, fez a higiene matinal, comeu pouco, como era treinado a fazer, e acomodou os objetos litúrgicos na mala pequena. O São João Batista estava à espera.

 

Recém assumira a posição de capelão do mais tradicional cemitério do Rio de Janeiro. Era pecado, sabia, mas não conseguia refrear o orgulho. Sem desmerecer Batista, identificava-se mais com Pedro, o guardião da eterna morada. Padre Graça abria as portas na Terra, para que o santo terminasse o serviço no céu. Antes de iniciar os trabalhos, costumava caminhar pelas alamedas, admirando os mausoléus rebuscados e as placas em homenagem aos finados. Vez por outra, trocava as flores mortas. Na volta para a capela, depois de orar na quadra das Irmãs de São Vicente de Paulo, visitava Carmen Miranda, Villa-Lobos e Prestes. Comoveu-se ao descobrir Bento Ribeiro e Ary Barroso. Vivia no paraíso.

Na secretaria, foi informado de que não havia quase nenhuma encomenda para o dia. Pela manhã, um homem jovem, vítima de um tumor maligno e, à tarde, um senhor idoso. Paramentou-se e subiu a escadaria para o carpe diem. Pretendia aproveitar o pouco movimento para se esmerar na prece. No corredor, cruzou com os encarregados da funerária, o defunto acabara de ser despachado na capela 10. Padre Graça olhou pela fresta, não queria intrometer-se em hora imprópria, três homens se ocupavam de decorar o salão. O mais alto esticava o pregueado de renda do tablado, enquanto o careca e o bronzeado discutiam a melhor posição para as duas coroas atrás do féretro. Numa delas, lia-se a curta inscrição: “Saudades, João”. Na outra: “Amigos para sempre, Álvaro, Neto e Ribeiro”. Era deles, dos três. Satisfeitos com a angulação do arranjo, contemplaram a composição fúnebre. Sofriam.

Achando o momento propício, padre Graça apresentou-se e pediu detalhes de Ciro. A cerimônia exigia o resumo da vida do falecido, o pároco gostaria de preparar algo especial para a ocasião. Descreveram o básico: local de nascimento, idade, estado civil, profissão, deram o nome do filho, João, e concluíram com a moléstia. Não durou nem seis meses, informou Neto, sem conter a comoção. Não puderam ir além. Padre Graça tentou extrair novos dados, formulou frases, deu sugestões. Um bom amigo? Concordaram que sim, que Ciro era um grande amigo. Bom pai? Sim, bom pai, garantiram. Mas nada o definia à altura.

Ciro era a luxúria, a beleza, o irracional, era o amor virginal, a adolescência, o macho por excelência. A sequência de “bom isso e bom aquilo” não curaria a saudade das bebedeiras, das badernas de rua, da atração pelas mulheres que ele comeu. Ciro, seu padre, era o amante latino, o campeão de boxe, o Orfeu do Carnaval, o fauno, o Cupido em pessoa. Ciro era um deus para os três. Um deus bonito pra cacete, e falho, por ser mortal. Sem nada a acrescentar, baixaram os olhos e se consolaram mutuamente. Algum de vocês deseja participar da homilia?, perguntou Graça às lacônicas ovelhas. A recusa foi unânime. Reagiram como se fossem um só, calaram-se ao mesmo tempo, acometidos de uma sobrenatural telepatia.

Se o Sílvio estivesse aqui…, murmurou Álvaro com timidez. O padre teve a impressão de que riam. Riam. Se o embaixador estivesse presente, pensavam, sem coragem de confessar ao ministro, seria dele o discurso de adeus. Com a habitual frieza e a aristocracia herdada do Itamaraty, Sílvio desafiaria a moral vigente, chocaria os parentes próximos e faria corar as infinitas amantes que, é fato, compareceram às exéquias. Ressaltaria a ausência de Ruth, narraria a paixão e a danação do casal. Condenaria a monogamia. Citaria, uma a uma, as conquistas do guerreiro e confessaria sua atração carnal pelo amigo. Dirigindo-se a Álvaro, Neto e Ribeiro, professaria o fim daquela união e concluiria propondo uma bacanal na Glória, em memória do ausente. Caíram em si pesarosos. Não podiam contar com a eloquência de Sílvio. A essa altura, se o conheciam bem, o louro calvo, escoltado pelas mercenárias gaúchas, já estaria a caminho da Bolívia a cavalo, mascando coca e praticando o Kama Sutra com as cholas do Império Inca.

Caso mudem de ideia, insistiu o padre, me procurem para combinarmos a hora. E se retirou, concentrado nas anotações, ensaiando em voz baixa o sermão que faria. Padre Graça carregava a convicção de que meia dúzia de frases colhidas a esmo aliviaria o coração dos saudosos. Pela dificuldade que enfrentara com o trio, percebeu que “pai prestimoso”, “marido exemplar” e “companheiro fiel” não serviriam de modelo para Ciro. Preferiu se ater à morte prematura. Achou indicado falar sobre a conformação e a aceitação do que parece injusto.

* * *

— Meditemos sobre a eternidade, e procedamos na realização daquilo que Deus colocou em nossas mãos. Façamos o que é bom e correto.

Findou a passagem imbuído da fé. Era crente. Ainda noviço, auxiliara uma das missas celebradas pelo Santo Padre, durante a visita de João Paulo II ao Brasil. Confirmara, ali, a vocação. Dez anos depois, padre Graça vivia o apogeu de seu entusiasmo católico, a ponto de sofrer delírios de santa Teresinha ao se trancar sozinho, à noite, no claustro de um mosteiro no Centro. Enlevado, não percebeu a desatenção dos ouvintes. Com exceção de Célia, e mais uma ou duas senhoras de idade, rodeava o cadáver uma frente de ateus praticantes. Gente que, no desespero do agora, perdera a noção do bem, do bom e do reto.

Álvaro se vingava de Irene, ao revê-la acabada, preterida pelo galã do clube de remo. Neto e a esposa chegaram brigados. Ela desdenhou de Ciro, logo antes de sair, e Neto lhe devolveu com um tapa na cara. Ribeiro amaldiçoava o defunto pela ruína de Ruth. João preferiu sentar-se longe do corpo do pai, Raquel, se pudesse, cuspiria no ex-cunhado, por deixar o sobrinho viver a reboque do amor egoísta que ele e a maluca da irmã dela nutriam um pelo outro. Ninguém pensava em Jesus, muito menos na eternidade. Cinira, a gordinha do escritório, carpia o fim dos sarros com o chefe no cafezinho. Lílian enterrava a dor do passa-fora que levara de Ciro, no domingo do frango assado, e Milena mancava com o apoio de uma bengala, resultado dos tiros que recebera do ex.

Uma coleção admirável de adúlteras lotava a sessão com decotes, meias de seda e salto agulha. Martas, Clarices e Gogoyas desfilando o olhar pudico, assoladas por lembranças pecaminosas. Deus não estava presente, mas padre Graça não reparou.

Na falta de Ruth, Álvaro, Neto e Ribeiro aceitaram, eles mesmos, os pêsames do pessoal do vôlei, da faculdade, da praia, dos colegas do escritório, de clientes antigos e do mulherio lastimoso que não cessava de brotar da porta. Os enterros de meia-idade são os mais concorridos.

Em meio a tantas viúvas, a morte entrou sem ser notada. No momento da meditação, quando o sacerdote pediu um minuto de silêncio para que todos refletissem sobre a correção, uma morena de pele alva, não muito alta, abriu passagem no meio do aperto e só sossegou quando se debruçou sobre Ciro. Álvaro, Neto e Ribeiro seguiram a aparição. Não conheciam aquela, pensaram. Vestia um modelo cinturado de veludo negro brilhante que salientava as ancas largas e generosas. Ela olhava o morto com um amor indecente, superior, consumado. Irresistível visão. Sentiram, pela última vez, inveja do conquistador.

Ela mal reconheceu o rosto da vítima à luz da capela, longe do hospital, do quarto e dos tubos na veia. Está mais bonito assim do que na cama, pensou. Tinha loucura por homens de terno. O cadáver de Ciro não era exceção. Os três continuaram atentos. A moça reparou na presença maciça de enlutadas. Mediu-se com todas. Nenhuma fora tão importante. A viúva era ela. Continuou a passar em revista o recinto, até dar com Álvaro, Neto e Ribeiro, olhando-a fixamente da lateral oposta do caixão. Padre Graça atacou o pai-nosso, mas nenhum deles prestou atenção. A morte admirou a elegância do trio, o nó esmerado das gravatas. Seriam irmãos? Não, eram diferentes demais para terem saído da mesma barriga. Teve ganas de dar para os três. E de matá-los, na devida hora. Fazer o quê? Acordara assim, dadivosa. Se pudesse escolher, se encarregaria de Neto primeiro e, depois, dos outros. Imaginou-o acamado, recebendo dela a extrema-unção. Neto enrubesceu com o olhar perverso da misteriosa figura, os dois consortes notaram. Célia também notou. Não tirara os olhos do marido, convencida de que os cinco compartilhavam seus casos furtivos. A insinuação lhe custara a bofetada na cara, mas, agora, a viuvinha oferecida justificava o porquê de querer vê-lo longe dali. Tomou uma reta, enganchou-se no braço do marido e encarou a rival com cara feia. A deusa teve desdém pelo ciúme tosco da megera. Rezou para que Célia empacotasse antes de todos os presentes. Coincidência ou não, Neto perderia a mulher no ano seguinte, e morreria um ano depois.

— Amém, disse o padre, e mandou seguir o cortejo.

Álvaro, Neto e Ribeiro dividiram as alças com o pessoal do escritório. A amante que ninguém conhecia fez questão de ir à frente do séquito. O anjo exterminador, a Samotrácia, espreguiçando as asas negras da procissão.

Aglomeraram-se numa sepultura na subida da ladeira, no fundo do terreno, de onde se via o mar de túmulos do cemitério. Ciro foi depositado ao pé da cova.

Padre Graça colheu a pá de terra e prosseguiu com as duras palavras:

— Separa deste mundo a alma deste irmão. Entregamos seu corpo à terra. Terra à terra, cinza à cinza, pó ao pó. O espírito pertence a Deus. Este é o ponto final de uma vida. No sepulcro não há obras, nem conhecimento, nem sabedoria, e a ele chegaremos cedo ou tarde.

* * *

Quando? Faltou dizer. De que importa o marasmo eterno? Todos, ali, trocariam mil anos da paz do Senhor por cinco minutos a mais de tortura terrena. Álvaro, Neto e Ribeiro aprendiam com Ciro que seria a qualquer hora, em qualquer lugar, com qualquer um. Faziam contas, calculavam a distância que os separava do fim. Padre Graça levaria mais tempo para externar a revolta pela indiferença celeste.

— Quem será o próximo? — bradaria no velório de Álvaro, vinte e quatro anos depois, para indignação de Irene, que não lembrava daquele idiota no enterro de Ciro.

Álvaro, Neto e Ribeiro acompanharam a descida. A finitude de Ciro pairando ameaçadora sobre a consciência dos três. Quem será o próximo? O simples fato de não quererem o pior para si mesmos implicava desejar o pior para os outros dois. Evitavam o olhar. Saíram em fila com o resto do grupo, atravessaram os portões, deram adeus aos conhecidos. Irene não se dirigiu a Álvaro e Célia foi buscar o carro no estacionamento. Sobraram os três.

Nenhum deles visitou o amigo nas semanas que precederam a morte. Eu jurei que o Ciro ia sair disso, confessou Neto quando ligou para Álvaro e Ribeiro dando a notícia. Apesar do sumiço, Neto manteve contato com a enfermeira-chefe e sabia da piora do quadro. Álvaro e Ribeiro permaneceram mudos no telefone. Neto propôs que cuidassem do enterro. É o mínimo que podemos fazer, disse. Martirizava-se pela covardia, por não ter suportado o convívio com a derrocada de Ciro. Chegava do hospital com ataques de pânico, tonturas, tremedeiras, foi convencido pela mulher a se afastar. Se Neto se sentia culpado, Álvaro era um poço de arrependimentos. Remoía a frieza do último almoço, no Lucas, e a promessa não cumprida de visitá-lo no hospital. Teve horror de si mesmo. Ribeiro foi o último a desistir. Viu Ciro até que o sedaram. Por duas vezes, permaneceu mais de hora no quarto, ouvindo a respiração compassada e os bips dos aparelhos. Achou inútil insistir, preferiu refletir sobre a tragédia do companheiro ao ar livre, olhando o mar e o voo das gaivotas.

Abraçaram-se envergonhados. Haviam traído o companheiro. Tentavam se redimir agora, cuidando do que restou dele. Iriam se encontrar uma semana depois, na missa de sétimo dia, mas já não existia sinal da velha intimidade.

Acabara ali.

Neto, não suportando a ausência da esposa, entraria em depressão no ano seguinte. Álvaro e Ribeiro ainda arriscariam um cineminha a dois com resultados patéticos. No velório de Neto, trocariam acenos formais. Uma competição velada, iniciada no adeus de Ciro e agravada com a partida de Neto, os colocara em lados opostos. A pura existência de um era ameaça para a sobrevida do outro. Álvaro tinha certeza de que iria primeiro, Ribeiro, nenhuma dúvida. A superioridade física lhe dava vantagem e ele revelava uma arrogância que jamais tivera. Ambos erraram na previsão. Décadas depois, ao se cruzarem na Francisco Sá, esquecidos da rivalidade, pensaram em reatar, mas Ribeiro morreria de infarto no dia seguinte.

Despediram-se com um abraço envergonhado e se afastaram cabisbaixos. Neto fez sinal para um táxi, mas desistiu da corrida. Álvaro e Ribeiro também pararam para olhar a dama de negro deixar o cemitério. Haviam se esquecido dela, que ficara mais tempo que os outros, para velar a sós o cadáver. A aparição virou à direita, em direção ao Centro, e caminhou a passos firmes, banhada pela luz entrecortada do gradil.

* * *

A diva continuou o estirão até a Venceslau Brás, cruzando a faixa em frente ao Pinel. Quando sentiu o cheiro do mar, hesitou entre o Aterro e a Urca. Preferiu a Urca, estava leve, queria voar. Subiu o Bondinho. Avistou a cidade do alto, o zigue-zague dos carros, o formigueiro de pedestres e os aviões rumo a São Paulo. Nenhuma morte, nunca mais, ocorreria sem o seu consentimento. A barca solar se escondeu atrás do Cristo Redentor, levando a alma de Ciro para o submundo de Apopis. Maria Clara esperou que o astro completasse o arco celestial. Era dela a encomenda.