Fim
Ribeiro
* 4 de setembro de 1933
† 13 de novembro de 2013
— E aí, Sampaio? Tudo azul?
— Tudo, Ribeiro, tudo azul. Mas só estou com três caixas no estoque. Te aconselho a levar porque não tem previsão de entrega.
Que seria de mim sem o meu personal farmacêutico?
— Embrulha aí o que tiver.
O Viagra é tão revolucionário quanto a pílula, mas ninguém tem coragem de dizer isso. Com esse negócio de ter que botar camisinha, então, só com um empurrãozinho. Aí, alguém inventa esse milagre, à venda em qualquer farmácia do ramo, para quem tem o Sampaio, sem receita médica! É a libertação! Eu nem lembro mais o que é viver sem ele.
Não notei a velhice chegar. É traiçoeira, a danada. Aos trinta, não se aparenta mais quinze, aos quarenta, desaparecem os sinais dos vinte, aos cinquenta, os dos trinta, leva uma década para realizar as perdas. Eu não percebi, me sentia o mesmo, vigoroso, maduro, em cima do lance. Foi ali, na separação da Suzana, que sofri o baque. Passei mais de um ano morando com ela, obcecado com o suposto caso com o Sílvio, esqueci de mim. Parei de me pesar, de medir a cintura, o bíceps, burlei a dieta, dormi pouco, bebi mais que o normal e experimentei umas bobagens, também; culpa da Suzana, tudo culpa dela.
Na manhã em que eu voltei arruinado com o papelão de marido traído que havia feito, entrei em casa com o joelho sangrando e a gargalhada do Sílvio ainda a ecoar na cabeça. Tirei a roupa, corri para o banho e, sem querer, me olhei no espelho. Eu estava nu, de pé, em frente à minha imagem refletida de corpo inteiro. Era um homem velho. Chocado, me aproximei para investigar. O cabelo grisalho, as bolsas debaixo dos olhos, as bochechas caídas, a flacidez do pescoço, a papada. Os mamilos tinham aumentado, o estômago estufara, anunciando uma barriga em breve. Meu pau mediano e os braços e as pernas ainda fortes exibiam óbvios indícios de decadência. Meu bem-estar se baseava em coisas simples, rotineiras, tirá-las de mim, como Suzana havia feito, era destruir um equilíbrio delicado. Minha mãe sorrindo, o caldo na praia, as mãos dela, a boca da Suzana, a risada solta, a minha orfandade. Sentei no vaso e chorei. Liguei para a Celeste.
O Carlinhos ajudou muito, estava levando o vôlei a sério e minha irmã me obrigou a treinar o moleque. Foi o que me tirou da fossa. Ele e o Frank Sinatra. Nunca fui à América, era meu sonho, conhecer a América. A minha coleção de vinil do Sinatra já comeu muita gente, hoje eu a escondo para não afugentar.
— Manda no fundo, no fundo!… Isso é o meu garoto! De virada! Dezessete a quinze! É o triunfo da experiência.
Marquei na praia com o Carlos uma melhor de três com o filho dele, mais um colega da faculdade. Esses moleques não têm nem pelo no corpo e acham que vão jantar o leão aqui.
— A deixadinha, a levantada precisa, a cortada indefensável, podem se ajoelhar, falta manha! Deve ser essas porcarias que vocês comem.
Cansei.
Acordei cedo para dar uma aula para a terceira idade. Umas senhoras que torraram no sol a vida inteira e agora estão que nem vampiro, sem poder ver luz. Melanoma é brabo, já removi umas pintas, não aguento protetor solar.
É duro aceitar que aquelas velhas já dançaram a valsa dos quinze anos. Todas obrigadas a se levantar de madrugada, mas também não dormem, melhor ter o que fazer. Elas reclamam muito de insônia. Elas reclamam muito, ponto. E quem é o herói que acorda antes do sol para encontrar um coletivo de zumbis de setenta? O Ribeiro aqui. Mas é bom, porque, às nove, metade do dia já está ganho, eu jogo meu vôlei, cochilo até umas quatro, encontro com o pessoal da rede e vejo o que a vida reserva.
Não tem reservado muito, mas hoje promete.
Eu ia recusar esse horário das velhinhas. Fui até o prédio em que todas moram, na República do Peru, para dizer que não podia. Mas desceu a sobrinha da do 401, cinquenta e sete, cinquenta e oito, por aí, enxuta, cabelo comprido, calça justa, a tia estava indisposta. Foi bater o olho nela para eu desviar o rumo da conversa. Disse que tinha vindo para saber dos objetivos de cada uma, embromei uns quinze minutos e sugeri uma visita aos apartamentos para conhecê-las melhor. Fiz a via crucis pelos onze andares. O tempo é mesmo cruel com as mulheres. Deixei o da sobrinha para o fim.
A tia dormia no quarto.
Aconselhei barras no banheiro e lancei mão de umas perguntas inofensivas: se ela morava ali, se estava a passeio. Alda acabara de se separar e preferiu não voltar para a casa da mãe. Ela agradeceu o interesse e retribuiu com um elogio, disse que eu era um professor atencioso. Sugeri um encontro. Ela saía da loja às seis. Bingo!
Como é bom cair no mar gelado de Copacabana. Tenho horror à sopa de mijo do Nordeste. Está sujo, a corrente virou, ninguém se aventurou a nadar. Espuma marrom gordurosa. Uma das vantagens da idade é parar de se importar com o futuro longínquo. Agora é sentar na areia com os pombos e arriscar um câncer de pele, não tem hipótese de me besuntar de creme. Que deusa passando, meu Deus, elas ainda existem. Não pra mim, não mais, nunca mais. Fui obrigado a me conformar com as putas e as direitas com mais de cinquenta. Neuróticas, todas, como essa Alda, do 401. Está na cara que ela está desesperada.
— Tchau, Carlos, diz pra sua mãe que amanhã eu passo lá. Eu tenho um compromisso. É, o leão não está morto, não! Pode ir tranquilo que eu não vou sujar o nome da família, já passei no Sampaio!
Eu não quis ter filhos. Meu sobrinho foi o mais perto que cheguei dessa possibilidade, com a vantagem de devolver para minha irmã sempre que desse defeito. Todo homem vira escravo da mãe de seus filhos, mesmo depois que separa. Eu nunca encontrei uma mãe, nem para mim e nem para os meus. Pensei em fazer vasectomia, mas e o medo daquilo me brochar?
Esses chuveirinhos são regados a água de esgoto. E daí? Como é bom tirar o sal! O Álvaro toma água da bica e continua vivo. Cadê meu coco? E me dá, aí, a minha pochete. Conheço esse garoto desde criança, agora herdou o quiosque do pai. Cadê meu comprimido? Aqui! O diamante azul-niágara.
* * *
Logo depois da surra do pai da Lucíola, e do “velho safado” que o irmão dela me deixou de lembrança, decidi virar monge, parei de fumar, fiquei casto. Passei a ter vergonha de me aproximar das meninas, temia o não, parecia um bobo, desisti de arriscar. Acordava de madrugada, corria a praia, treinava o Carlinhos e nadava no fim da tarde, depois de encerradas as aulas. Virei uma máquina, um Adônis sem libido. Não tinha vontade e não sabia muito no que aquilo ia dar. O Álvaro só falava em pau mole, corri dele. O Sílvio abandonara o barco em prol da putaria, o Neto era casado e o Ciro morrera há pouco. Casei com a minha irmã.
A Celeste era muito prática. Decidira arriscar viver só, gostava do marido mas quis separar. Era muito corajosa, ela, numa hora em que as mulheres penam de medo de perder seus pares, a Celeste me veio com essa. Foi bom, porque eu não tive mais que fazer cerimônia para entrar e sair da casa da minha irmã e ainda supri a falta da presença de homem da entressafra conjugal dela. Eu dormia no meu apartamento, mas passava o dia lá, fomos felizes assim. Não durou. A Celeste se engraçou com um engenheiro de produção que foi trabalhar na firma dela. Eu perguntava o que fazia um engenheiro de produção, a Celeste nunca soube explicar. Tem a ver com planejamento, não sei, um dia você pergunta pra ele. Não perguntei. Tive um ciúme louco do cara. Eu não trepava há quase um ano, andava tensíssimo, inventei que o Carlinhos não podia ficar sozinho e dei para esperar ela na sala, com cara de maus amigos. Era a Celeste virar a chave para eu partir para o interrogatório, queria saber de onde ela vinha, com quem havia estado, se tinha comido. No começo, ela achou graça, dizia que eu estava maluco e me tocava de lá a vassourada; mas quando eu me tornei agressivo, a Celeste achou melhor partir para um papo reto. Seríssima, me aconselhou a comer alguém, a primeira que aparecesse, Ribeiro, faz sem pensar, depois me diz como foi. E proibiu visitas depois das sete.
Como se não bastasse, o Neto faleceu.
Ciro costumava aliviar a tragédia do Álvaro garantindo que todo homem brochava, menos eu. Não mais. Obrigado pela Celeste a voltar à caça após um longo período sabático, e assustado com a brevidade da vida, retomei do ponto em que me encontrava quando saí de circulação. As que me queriam, eu não queria nem por decreto, e as que eu queria não me queriam de jeito nenhum. As jovens amantes, agora ariscas, torciam os narizinhos para mim. A Solange foi a menos ruim que apareceu.
Nos conhecemos no elevador do meu dentista, ela trabalhava num escritório de contabilidade no mesmo prédio da Figueiredo de Magalhães. Eu tinha acabado de fazer a limpeza, estava com a boca tinindo, deve ter ajudado. Ela era uma ruiva tingida, socada, olhuda, mas passável no conjunto. Fomos ao La Mole. Ela comeu o escalopinho com arroz à piemontesa, e eu, o camarão à grega, tomamos vinho, sorvete, café, e devoramos os petits-fours. Durante o jantar, Solange confessou que economizava dinheiro para colocar silicone. Será que ela tem algum problema no peito?, pensei. Não me importo de serem pequenos, até gosto, se não forem murchos. Pegamos um táxi até o Catete e saltamos em frente à portaria dela. A Solange deu toda a condição. Eu já estava no terceiro degrau, com o pé no hall de entrada, quando um pensamento surgiu de relâmpago. E se eu falhar? Foi terminar a frase para o suor frio descer pela nuca. Disfarcei, ela não reparou, dei meia-volta, desejei um boa-noite de cinema, combinei um segundo encontro, beijei-lhe as mãos e saí fora rapidinho. Não queria que ela me visse inseguro, não há nada que espante mais o sexo oposto.
O Sampaio vendia uns energéticos, umas vitaminas importadas, eu gostava dele. Numa gripe mais forte, me aplicou um antibiótico que me levantou da cama em um dia. Virou meu clínico geral. O Sampaio era muito discreto, se falou do Viagra, foi pelo nome bíblico: sildenafila. Ainda não existia a tadalafila do Cialis e nem a vardenafila, do Levitra. Não preguei o olho na noite que antecedeu a consumação com a Solange, me imaginava tentando meter sem conseguir, sonhei que a xoxota dela era uma estátua de bronze. Amanheceu e eu desci para comprar um calmante. O fim do caso com a Suzana foi todo à base de Lexotan, receita do Sampaio, eu era muito agradecido a ele. Cheguei cedo, ele, atrasado. Quando viu as minhas olheiras no balcão, perguntou se tinha morrido mais alguém. Eu implorei por um ansiolítico. Sampaio me olhou desconfiado. Ansiolítico pra quê? Você quer relaxar? Mais ou menos, respondi cabisbaixo. Desculpa a liberdade, Ribeiro, mas qual é o problema? Minha irmã arrumou um cara… Sei… Ela mandou eu ir atrás de alguém… Estou entendendo… Eu tenho um jantar, hoje à noite, e acho que vai ter sobremesa. Não precisa dizer mais nada, ele interrompeu, e me arrastou para o fundo da drogaria, até um cubículo apertado onde eram ministradas as injeções. O Sampaio fechou a cortininha e tirou o aparelho de pressão da parede. Você tem histórico de pressão alta? Não, eu disse. Esqueci de mencionar o infarto da minha mãe, ele também não perguntou, só bombeou o ar, olhando sério para o medidor. Doze por sete, sem perigo, e sumiu para o estoque. Voltou rápido, com uma caixa na mão.
— Ribeiro, eu só não comparo essa maravilha com o Nosso Senhor Jesus Cristo porque é pecado capital. Mas é, Ribeiro, isso aqui é o Nosso Senhor Jesus Cristo.
Segurei a caixinha. Viagra, dizia o rótulo. Aconselho tomar com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado. Você experimentou?, perguntei. Logo que chegou, ele disse, e não larguei mais.
O mesmo aconteceu comigo.
Furei a Solange que nem britadeira. Achei pouco. O Viagra desassociou o sexo do amor. Eu era um amante ciumento, tapado, carente, a sildenafila suprimiu a expectativa amorosa, caí na tentação. Sílvio teria orgulho de mim. Eu trepava como um ginasta, gastei o que não tinha com as gurias de vinte dos bas-fonds da Prado Júnior e me apeguei ao roupão descartável da Centauro, onde quase fui à bancarrota por causa de duas profissionais que se trancaram comigo num dos quartinhos. Começaram desanimadas, meio enrolando o freguês, mas, perto de acender a luz vermelha, a que avisava do término da sessão, as canalhas saíram se esfregando que nem polvas. Me deu um tesão filho da puta, mandei dobrar o prazo. Tripliquei, quadrupliquei. Na hora de pagar, me explicaram que, com duas, tudo era dobrado. Saí rapado e tive que pedir dinheiro para a Celeste. Disse que era para um tratamento de canal.
Botei o comprimido na boca e virei. A Alda que me aguarde. Faz tempo que eu não como uma mulher decente. Vai ser bom, pra variar. Quanto é? E em quanto está a pendura? Fecha, então, que eu não gosto de dever nada a ninguém. Encontrei com o Álvaro ontem, por acaso, na Francisco Sá. Eu estava saindo da farmácia do Sampaio e dei de cara com ele. A gente não se via há muitos anos, desde o velório do Neto, eu acho. Está acabado, benza Deus, com a cabeça toda trocada, me chamou de Ciro umas três vezes e tropeçou outras dez. Eu tentei ajudar, mas ele ficou ofendido, tive pudor de perguntar se era isquemia.
Copacabana mudou muito, são esses ônibus com essa fumaça preta. Me dá aí uma cerveja. Adoro pé-sujo. Adoro olhar os bêbados.
O Álvaro insiste que o Sílvio morreu na Lapa, mas ele está enganado. Foi na Cinelândia, em frente ao Bola Preta. Eu fui no enterro, Álvaro! Eu sei pelo Inácio. O desacordo ameaçou virar briga e eu cortei com um “deixa disso”. Que diferença faz? O Sílvio mentiu, disse que foi para Porto Alegre, mas acabou em Niterói, nunca mais telefonou. Lembra do Sílvio cheirado? Com mau hálito, fumando e falando sem parar? Foi e já foi tarde. O Álvaro achou graça, combinamos de nos ver um dia desses. Quem sabe? Saudade do meu clube. Do Álvaro, do Neto, do Sílvio e do Ciro.
Eu era louco pelo Ciro. O Ciro era o melhor de todos nós. A gente comia as sobras do que vinha para ele. As mulheres pressentiam a presença do Ciro até de costas. Pelo cheiro. Era ele chegar para elas se virarem que nem robozinhas. As casadas, as solteiras, as noivas, as debutantes. E o Ciro era um ganhador divertido, cheio de histórias, e politizado à beça, inteligente, leitor compulsivo, romântico e bem-dotado até para tocar violão. Não tinha pra ninguém. A gente brincava que ele era o tubarão, e nós, os peixes-piloto. A verdade é que disputávamos a atenção do Ciro com o mesmo ardor das moçoilas.
Ele passava as férias em Búzios, numa casinha de pescador. A beleza mais sonhada das areias de Ipanema dirigiu quatro horas o fusca dela, na madruga, só para encontrar com ele no paraíso. Quando chegou, o Ciro disse que ia buscar a janta e mergulhou no mar com uma faca na mão. Voltou com uma lagosta viva. Depois da ceia, os dois partiram para o prato principal e a felizarda espalhou o mito do caçador de crustáceos pelo Rio de Janeiro. Para garantir o número, o Ciro passou a deixar um engradado com as bichas presas amarrado no fundo do mar. Era a candidata aparecer, qualquer uma, porque formou fila, pra ele ressurgir das ondas com o aperitivo em punho.
A gente amava o Ciro.
Eu estava lá, do lado dele, no dia em que ele conheceu a Ruth. Chegamos juntos na festa do Juliano, prontos para mais uma madrugada inesquecível. O Sílvio trouxe o arsenal, o Álvaro e o Neto nos encontraram na porta, tudo nos conformes. As fêmeas viraram o pescoço para ver o Ciro entrar, nós avaliamos a rebarba, mas uma não se virou. A Ruth não se virou. Nem notou a nossa presença. Ela riu alto, empenhada na roda de violão, e emendou cantando aquela… Hoje eu quero a rosa mais linda que houver… “A noite do meu bem”! “A noite do meu bem”. Da Dolores Duran. Ela tinha voz de cantora de inferninho, grave, sensual demais, era uma princesa de se ver. A sala inteira parou para ouvir. Eu fiquei louco com a Ruth, foi amor à primeira vista. Quando olhei para o lado, percebi que o mesmo havia acontecido com o Ciro. Eu nunca tinha visto ele daquele jeito. O Ciro tomou a dianteira, avançou até o sarau, pediu o instrumento e puxou uma música linda, de matar, do Vinicius, que a Odete Lara cantava… Eu sem você... sou só desamor… A Ruth atacou a voz da mulher, o Ciro a do homem, e os dois terminaram juntos, aplaudidos de pé, para sempre apaixonados.
Meu mundo caiu.
Como competir? Os dois sumiram e alguém puxou “Lígia”. “Lígia”, o tema da minha dor de corno. Eu ouvia “Lígia” sem parar, pensando nela, e no Ciro. Era duro sair com os dois, conviver com a alegria deles. A Ruth já não era menina, mas e daí? Se ela tivesse me escolhido, eu teria tido filhos, família, eu nunca mais olharia para essas fedelhas, eu ia ser só dela. Mas ela escolheu o Ciro, claro que ela escolheu o Ciro, eu também escolheria o Ciro. Eu cuidaria dela. Jamais faria o que ele fez, o horror que ele fez com ela.
Por isso me agarrei na Suzana; por isso eu não perdoo o Sílvio, porque eu amei a Ruth a vida inteira mas nunca avancei o sinal. Eu assisti o Ciro fazer ela feliz, muito feliz, e depois matar ela, internar ela, cuspir nela. Bem feito, Ciro. Esse câncer foi bem feito.
O bicho bateu forte. Suadouro. O negócio é pensar na Alda. Trânsito infernal. Essas roupas de lycra, meu Deus. O mundo enlouqueceu. As mulheres se vestem de puta até para ir na padaria. Olha a bunda dessa! Espremida a vácuo no legging. Aprendi o que é legging na Impact.
Cheguei. Estou meio tonto. Parei na portaria para respirar. O porteiro reparou, veio me oferecer ajuda. Senti a mesma irritação do Álvaro e respondi que não precisava. Fui grosseiro à toa, pensei. Perguntei se tinha correspondência e ele, antes de checar, comentou que eu estava corado. Foi o mormaço, eu disse. Mas não tinha mormaço, estava até fresco. Vão fechar a água? Agora? Não, espera eu tomar meu banho. Avisa que eu já estou subindo, segura lá pra mim! Consegui me arrastar até o elevador. Há uns trinta anos que o condomínio não queima lixo, mas o cheiro não sai. Primeiro… segundo… esse elevador vai cair. Quinto… sexto, meu andar. A vizinha do 610 está cozinhando feijão. Todo dia ela cozinha feijão. O corredor recende a sulfa. Não suporto feijão. Que embrulho no estômago. Cadê a chave? Vou morrer aqui com esse futum.
Meu santuário. Corre pro banho. Ui… teto preto, o que é que há, leão? Baixa a cabeça, respira fundo. Melhorou. Enxaqueca à vista. Só tiro a sunga no boxe, senão é areia pra todo canto. Como demora a esquentar essa joça. Vou trocar para elétrico. Chuveiro elétrico evoluiu muito. Começou… Vai, desgraça, vão fechar o registro. Esquentou. Bênção. Estou suando até debaixo d’água, acho que vou vomitar. Agora está pelando, essa ducha é um inferno.
Quando avancei para a torneira fria, senti o formigamento subir pela mão direita e, através do braço, invadir o peito. O peito. Esse apertou, como se um gigante me estrangulasse com os dedos. A pontada fisgou o plexo, paralisando o pulmão, a mandíbula travou e senti falta de ar. Procurei me acalmar, cogitei chamar o porteiro, a polícia. Qual é o telefone da Celeste? 97… 9756… 753… 75… tentei lembrar. Saí do boxe amparado pela cortina, o plástico não segurou o peso e eu beijei a lona. Fiquei melhor que de pé. Deita, deita, põe as pernas para o alto. Chão frio como o capeta. Outra pontada, não acredito. Sossega, leão. Meu Deus, não estou enxergando mais nada. Tem que tossir, ouvi na televisão que tem que tossir se achar que está infartando. Eu estou infartando. Não tem a menor chance de eu tossir com o sufoco que estou passando.
Preciso achar o Carlos. Ele vem com o meu sobrinho… como é o nome dele? Não importa. O Carlinhos me arrasta até um táxi, me deixa num pronto-socorro… Cadê o celular? Deixei na sala. Danou-se. Não vou mais levantar daqui. Meu coração vai sair pela boca. Vai sair, vai sair… vai sair… vai… saiu.
Fica tranquilo, Ribeiro, você não vai ter derrame, Alzheimer ou Parkinson. A sua cadeira de rodas não vai ser empurrada por uma enfermeira feia, você não vai babar como o Álvaro, e nem sair de um hospital perfurado como o Ciro. Você é um sujeito de sorte. Acabou a água. É assim. É assim? É assim. Vai ser assim. Eu não devia ter tomado aquela bomba de barriga vazia. Esquece a barriga vazia, ia acontecer. Eu andava na base de quatro, cinco por semana. O Viagra me deu dez anos de vida útil. É justo. Mais do que justo. Troco os dez que teria pela frente pelos sete que tive pra trás. Viva a tropa da Centauro, as travecas da Xouxoteca, a Erotika e o sexo via internet. Aproveitei até o talo. Agora, é abrir mão.
Eu não aproveitei coisa nenhuma. Nada disso valia a Ruth.
Fui vê-la na casa da irmã, uns dez anos depois da separação. A Ruth se transformou numa mulher ausente, amarga. Quando me viu, desdenhou de nós todos, do Sílvio, do Neto, do Álvaro e de mim. Não tocou no nome do Ciro. Não podia, não conseguia. Fui até lá na esperança de me confessar pra ela, de propor o que fosse, o que ela quisesse, mas não tive coragem. Ela perguntou como ia a corriola. Assim mesmo, a corriola… Eu disse que não os via há um tempo. Isso foi um pouco depois da surra que eu levei por causa da Lucíola, quando eu tentei mudar o rumo das coisas e encontrar uma mulher de verdade. A Ruth pediu para eu ir embora, disse que nós estávamos todos mortos pra ela e foi para o quarto sem se despedir. A irmã me levou até a porta e me fez jurar que não voltaria. O Ciro não deixou nem o bagaço da Ruth. Um egoísta. Sempre foi.
Parei de fazer planos. O futuro acabou ali.
Desde então, aceitei comer senhoras cada vez mais distantes da minha vontade. Como essa Alda, que eu fiz parecer a Miss Universo mas que é um fim de linha que não tem tamanho. Perdão, Alda, não vou poder estar com você.
ALDA esperou por Ribeiro na saída do trabalho por mais de uma hora. Voltou para casa humilhada, rejeitada até por um velho. No dia seguinte, a notícia correu no prédio: o professor não dera as caras na aula das seis e nem no vôlei das dez. Carlos ligou, tocou a campainha e o porteiro deu um jeito de arrombar a porta. Ribeiro estava caído no banheiro encharcado. Quando religaram a água, o chuveiro ensopou o chão. O corpo rígido, quase entrando em decomposição, não foi uma visão agradável. Carlos chamou o rabecão, tentou secar o piso com a toalha de banho, ligou para Celeste e contou o que havia ocorrido. Alda sorriu sem querer, não desejava o fim de ninguém, mas o alívio de não ter sido esnobada por um septuagenário era maior do que a perda. E ainda achou romântica a ideia de que fora a última esperança amorosa do senhor de Copa, não deixava de ser um idílio. Foi ao Caju prestar sentimentos ao morto.
O enterro caíra em desuso. Com a inauguração do crematório São Francisco Xavier, as famílias preferiram as cinzas aos ossos. Celeste tomou a frente dos preparativos. Seus homens a ajudaram imenso, mas ela fez questão de cuidar dos detalhes sozinha, encomendar as coroas, escolher o caixão, o terno do irmão. Carlos cobriu o tio com a bandeira do Botafogo e pôs a bola de vôlei da derradeira partida nas mãos dele. O discurso ficou por conta do sobrinho. Carlos foi sincero e carinhoso. A mãe não quis falar, mas se manteve abraçada ao filho, aprovando com a cabeça os fins de frase. Coube a ela dar a ordem para o forno andar. A melodia fúnebre acompanhou a travessia do esquife pela esteira de rolos de metal, até sumir por um túnel baixo e escuro, como fazem as malas no raio X dos aeroportos. O produto final só foi liberado no dia seguinte. Celeste mostrou o papelzinho com a senha, recebeu a caixa na administração e seguiu para a Pedra do Leme. Meu irmão quer praia, justificou, desembrulhando o conteúdo da urna entre os pescadores, as varas e os anzóis. Carlos e o filho apanharam um punhado do parente, Celeste fez o mesmo, e os três jogaram Ribeiro ao vento, repetindo o gesto até não sobrar mais nada. Ele revoou ao redor da família, antes de ser sugado com os urubus por uma corrente ascendente. Algumas partículas lamberam o rosto dos que testemunhavam o culto. Não houve reclamação, a fileira de pescadores respeitou a liberdade da família, sem deixar de se enojar com a nuvem de poeira orgânica.
Celeste era uma mulher terrena, via grandeza na morte tanto quanto na vida. As meninas amadurecem cedo, na falta da mãe, Celeste virou mulher cedíssimo. A dona da casa, a esposa do pai, a mãe do irmão. A despedida de Ribeiro era algo muito tocante para ela, mas não a ponto de lhe tirar o orgulho do filho feito, do neto saudável, dos homens bons que teve e tinha. Havia muito vivia sozinha, mas o neto tomou o lugar do filho, o novo amor do antigo, de forma que nunca enfrentou o vazio das perdas. Não tinha temperamento para isso. Sempre viveu cercada, nunca acreditou na solidão. Ribeiro não andava bem, havia perdido a inocência que preservara por tanto tempo. Preferia-o dissipado no espaço a vê-lo perambulando em Copacabana, gastando dinheiro com prostituta, tomando estimulante, arriscando apanhar, ser roubado, ou preso. Foi bom pra ele ter parado agora, pensou, enquanto abotoava o vestido preto.
Era a primeira vez que Álvaro assistia a uma cremação. Achou detestável e indigno, meter um morto numa fábrica de cinzas, misturado aos restos de outros mortos. Ninguém limpa essa joça. A placidez da irmã chocou o último amigo vivo. Celeste deveria esconder melhor a aceitação. Chorava, é certo, mas sorria, sorria de mostrar os dentes, não era direito. O filho e o neto foram mais discretos, os maridos também. Toda mulher é espalhafatosa, decretou, na sua inarredável misoginia. Álvaro esperou que alguém se rasgasse pelo amigo, mas todos pareciam conformados, ele inclusive. Preocupava o fato de ter restado sozinho, com cem por cento de chance de ser a bola da vez. No mais, entediava-se. Culpa da cerimônia ou do calor? Por que o tempo abafa sempre que morre alguém? Sem ar, preferiu sentar no fundo da pequena plateia. Ouviu as palavras de Carlos, achou bonito o discurso, mas chocou-se com a naturalidade dos presentes. A morte nada tem de natural. Faltava a revolta, o desamparo, o luto de antigamente. Faltava o morrer de amor.
RUTH era Oxum, Maria e Madalena. O feminino pleno, sempre foi assim. Orgulho do pai, espelho da mãe, uma mulher para casar. Seria feliz em qualquer tempo, era ou lugar. Serviria ao burguês e ao guerreiro, era Afrodite encarnada, o feminino em pessoa. Futura esposa exemplar, despertou para a vida no apogeu final dos anos 50, embalada pela elegância de Tom e Vinicius. Amar estava na ordem do dia. Os adultos tomavam porres de dor de cotovelo e Ruth ansiava pelo seu dia de fossa. Prenda rara, e ciente da prenda rara que era, guardava-se para o ideal. Alimentava um romantismo pueril, se bem que cumprisse as exigências da nova era.
Foi das primeiras a conhecer a liberdade de beber e fumar, de cantar nas viradas, usar biquíni, ser cortejada e rir sem ser vulgar. Era culta e inteligente, não seria completa se não fosse assim. Lia Nietzsche e fazia crochê. A boa educação do Sion refreava qualquer exagero, era solta na dose certa, e boa moça em igual medida. De família. As amigas revelaram-se bem mais atiradas. Diferentes de Ruth, não tinham escolha. Aproveitaram a brecha do despertar da revolução dos costumes e, tocadas a pílula, foram pioneiras na arte de dar sem pensar se valia a pena. Ruth não, esperou paciente. Enquanto a hora não vinha, ouvia Dolores Duran.
Virgem, ingressou na faculdade de letras. Os rapazes logo notaram o andar gracioso, o sorriso largo, a voz afinada e a maneira sedutora de pôr as mãos na cintura quando arriscava o samba no pé. Ruth desfilava pelos pilotis, embriagada pelo convívio diário com a testosterona dos moços. Sua natureza respondeu aos estímulos, os cabelos cresceram fartos, a pele rosou, o peito vivia eriçado; tudo nela amadureceu à espera do momento que insistia em não vir. Leu Platão, O banquete, com o grupo de estudos, e descobriu-se andrógina. Algum deus maldito havia cortado ao meio seu corpo de origem, separando-a do homem dela. Queria encontrá-lo, reavê-lo. À noite, fantasiou ser costurada de volta, ponto por ponto, pele com pele, sentiu calafrios e dormiu excitada. Ruth só esqueceu de prestar atenção no alerta do sábio: “Só se ama aquilo que não se tem”.
Sérgio era um rapaz sensível, sério e atencioso. Cursava filosofia e pretendia ser professor. As amigas torciam por Beto, o Alain Delon da turma de economia, mas Ruth preferiu o outro, com quem descobrira O banquete. A virgindade era praxe, mas deixara de ser dogma. As colegas mais prafrentex faziam coro e, inconformadas com as reservas de Ruth, tachavam a princesa de esnobe.
A libido retesada ameaçava romper o dique. Ruth pensava em amar dia e noite, de nada interessava a política, a guerra, Cuba, o porvir e a bomba. Resolveu que seria com Sérgio. Aceitou terminar um trabalho na casa do rapaz e, numa tarde de sol, na primavera de 62, se deitou na cama dele e, com um beijo, fez o convite. Pego de surpresa, Sérgio se esmerou na missão. Tímido, escondeu a pouca prática; foi respeitoso, técnico e amador. Ruth deixou o quarto com a impressão incômoda de que continuava a mesma. Ainda era casta. A frustração a fez refugar, se guardar ainda mais; se continuasse tentando, pensou, arriscaria perder o impacto do grande acontecimento. Sérgio lhe levara o hímen, é certo, mas não arranhara em nada a inquietação. É a paixão que deflora as mulheres, é ela que desperta os sentidos, o olfato, o tato, o paladar, a visão, o arrepiar dos ouvidos. Ruth permanecia intocada. Quem a iria resgatar?
Ciro, era de Ciro que falava Aristófanes.
Foi o acaso que os uniu. O aniversariante era primo de Irene, e Irene, unha e carne de Ruth. Juliano notou que as amigas da prima haviam atingido o ponto do abate e organizou com ela a roda de violão. Essa era a razão de Ruth estar presente quando Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Sílvio cruzaram o salão. Poderia não estar, mas estava. E mesmo que não estivesse, de alguma maneira Ciro e Ruth se encontrariam um dia. Estava escrito, seria assim.
Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
Fez-se silêncio para ouvir a cantora, mais que cantora, intérprete. Ruth era intérprete. As longas horas gastas ao lado da vitrola, o disco furado de tanto tocar, a compreensão cristalina da letra, a identificação com o lamento de Dolores, de Maysa, a gravidade da voz, o conjunto da obra dava mesmo vontade de parar e prestar atenção. Perto do fim, ao confessar que como o seu bem demorou a chegar, ela, talvez, já não tivesse no olhar toda a pureza que gostaria de dar, fitou os ouvintes e viu Ciro de pé, no fundo da sala. O chão cedeu, a parede recuou e a imagem daquele homem bonito tornou-se gigantesca, luminosa, na frente dela. Entonteceu. Sentiu o sangue correr nas veias, as artérias estreitarem, a injeção de hormônios a eriçar os pelos, estrangular as vísceras e acelerar o coração. Era o começo do envenenamento. Encerrou a canção sob aplausos, fingiu calma, sorriu, tentou, como pôde, controlar o turbilhão, até que percebeu, pelo canto do olho, que Ciro se aproximava. Tremeu da cabeça aos pés. Ele tomou o violão das mãos de um dos seresteiros, sentou-se diante de Ruth e, sem tirar os olhos dela, fez soar os primeiros acordes. Cantou.
Eu sem você não tenho porquê
O prelúdio. Ruth corou, todos notaram. Ciro sorriu, era irresistível. Com uma mesura, pediu que Ruth o acompanhasse na segunda voz. A musa aceitou o desafio. Passearam pelas notas, serviram-se do poeta.
Sem você meu amor eu não sou ninguém
Não houve respiro. Completado o dueto, Ciro devolveu a viola para o dono, levantou-se sob a ovação da plateia, bradou que Ruth era dele e a arrastou para longe da plebe. Apesar da revolta, nenhum conviva ousou contrariar o herói. Senhor absoluto da cena, Ciro raptou a rainha com a perícia de Eros. Muitos casais se formaram naquela noite, atiçados pelo testemunho do encontro.
A palma da mão de Ciro a apertar a dela, a calma que aquilo lhe trouxe. Não lembra o que fez, só do desespero de abrir os botões e encostar o rosto na pele de alguém que não conhecia. Ficou assim, com os olhos fechados, respirando o mesmo ar, ouvindo o bater ritmado. Queria ser costurada para sempre. As mãos grandes seguraram seu rosto, Ruth teve coragem de olhar. Ciro aproximou a boca dele da dela e a abriu com os lábios, os dentes, a língua. Ruth o agarrou pelo pescoço, sentiu a aspereza da barba, o cheiro de cigarro, de homem, que ele tinha. O amor nada tem de etéreo, é carne, é físico, e brutal. Ciro subiu as mãos pelas pernas de Ruth e, sem pensar se devia, meteu os dedos por dentro dela. O gesto despertou censura. Pela primeira vez, desde que dera com Ciro, Ruth conseguiu ponderar. Quem é ele?, pensou, enquanto segurava a mão intrusa com firmeza. Ciro entendeu. Também refletia, pela primeira vez, sobre o que se passara desde o instante em que a vira.
— Meu nome é Ciro, eu me formei em direito e isso nunca me aconteceu assim.
Foi o que pôde dizer. Não havia truque, como fazê-la entender? Ciro desconhecia o terreno em que pisava, mas a resposta sincera surtiu efeito. Ruth aceitou a inocência do réu e consentiu.
Um vulto surgiu na varanda e apressou o que pedia para ser apressado. Debandaram sem dar boa-noite. No hall, Ciro apertou o botão do elevador com insistência, enquanto Ruth mirava o assoalho. Não iria para a casa dele e não podia ir para a dela, não havia lugar, seria ali. Sérios, contavam os segundos. Quem os visse de fora juraria estarem brigados. Ao entrar no cubículo espelhado, Ciro, maquinalmente, esperou passar dois andares e pressionou a emergência. A porta abriu, exibindo a laje feia de concreto. Ruth aguardou sem se mexer. Ele a imprensou contra a parede com um beijo fundo e tudo rodou novamente. Ciro escorregou pelos peitos, pelo ventre dela e se ajoelhou, levantando a saia de Ruth até revelar o umbigo; afundou o rosto no meio dela e a cheirou.
— O meu nome é Ruth — ela disse.
Ciro se ergueu para admirá-la. As mãos passearam até a nuca da eleita, ela enganchou as pernas nas pernas dele para não cair, ele abriu o cinto, afoito, e levantou o rosto para mirá-la ainda uma vez. Sério, pressionou o quadril e se forçou para dentro. Estava feito. Alguém berrou no fosso para liberar o elevador. Não havia tempo. Ele a ajustou no canto do pequeno quadrado e violou sua menina até terminar. Ruth não era mais virgem. Encontrara a sua razão de ser.
— Eu vi Jesus — confidenciou às amigas.
Gostava de Jango porque Ciro gostava de Jango; de Che, Dylan e Noel Rosa. Ruth assumiu o papel da primeira-dama, foi a Maria Tereza, a Jacqueline de Ciro, fez as honras da vida do amado. Voltou à política, debateu sobre a bomba, ficou amiga de Célia, casou Irene com Álvaro, riu dos excessos de Sílvio e nunca entendeu a solteirice de Ribeiro. Tinha pena dele, não sabia por quê. Apaixonou-se por tudo o que orbitava em torno de seu sol. Marcharam contra o golpe, assistiram ao Opinião com Nara e Bethânia, esconderam amigos perseguidos, saíram na Banda de Ipanema, foram à praia e se amaram demais. A lua de mel foi em Búzios. Ciro a levou para caçar a lagosta da janta; mergulharam entre as pedras, treparam na areia, no cais, no quarto, nos cômodos. Ruth só conhecia o orgasmo de sonho, Ciro tornou-o palpável, foi um desbravador.
Mas é justamente aqui, no ápice da realização amorosa, que a perdição feminina acontece. Na embriaguez afetiva. Ruth não era mais ela, era Ciro, era o filho, a casa, a união. Dizia-se completa. Esquecera o alerta do filósofo. Não suspeitou que os dez anos de felicidade eram o samba do prelúdio da Tosca, o acúmulo de tudo o que lhe faltaria a partir daquele momento.
Acordou cedo, Ciro a observava taciturno. Não era normal que despertasse antes dela. Ruth sorriu, ele seguiu para o banho sem devolver a graça. Tudo bem?, perguntou. Tudo bem, foi a resposta.
Por anos a fio, Ruth repassaria aquela manhã na cabeça. Tinha certeza de que Ciro ainda a amava quando fora dormir, mas acordou mudado, casmurro, seco. Voltou tarde da noite, tinha bebido, Ruth quis conversar, mas ele, irritado, se trancou no banheiro. No dia seguinte, continuou arredio, ela exigiu explicação e acabou por ouvir o que jamais pensou escutar: o problema era o casamento dos dois. Ruth se petrificou. Ele não quis se alongar, pediu desculpas, abotoou o terno e seguiu para o escritório. Assustada, entregou João para a cozinheira e se recolheu no quarto; faltou ao serviço, disse estar indisposta. A empregada reparou na palidez da patroa, notou os olhos esbugalhados, a respiração curta, mas não comentou nada. Catou o menino e honrou o emprego de mãe.
Ruth não comeu, não dormiu, não saiu do claustro. A madrugada chegou e Ciro teimou em não vir. Entrou em pânico. Dormiu exausta, os olhos inchados, acordou suada e se pôs a rodar pelo tapete. Checava o movimento da rua minuto a minuto. Falou sozinha, soluçou, ia e vinha na insônia. O sol já ameaçava nascer quando ouviu a porta. Como um cão treinado, carente do dono, ficou de pé, na expectativa, ao lado da cama. Os passos pelo corredor, era ele, teve certeza. A porta abriu e Ciro surgiu transtornado.
Ruth não quis saber das marcas de batom nem dos restos de purpurina grudados na camisa do companheiro. Treparam como cães. Ruth chorou, atracada ao marido, e ele jurou ser fiel.
Os meses correram calmos, Ciro se mostrou curado e Ruth recuperou o orgulho delicado de antes. Os reclames de Natal invadiram a TV, anunciando o funil de comemorações. Ciro avisou que ficaria até mais tarde para o arrasta-pé de fim de ano da firma. Ruth não se importou, atarantada que estava com os presentes, a árvore, o peru, a rabanada e os fios d’ovos das efemérides. Deu meia-noite, nenhum sinal de Ciro. Ela foi se deitar preocupada, pressentia o retorno do pesadelo. Às quatro e quarenta e sete, ouviu a chave e correu para o corredor abanando o rabinho. Ciro tomara um porre, como costumava fazer vez por outra. A braguilha aberta, a camisa para fora da calça e os vestígios de um batom cereja dos mais ordinários o denunciavam. Ciro não mostrou culpa ou arrependimento, pelo contrário, riu e a chamou de meu bem. Nojento. Empurrou-o pra longe e gritou, para que os vizinhos soubessem do ser hediondo que dividia a cama com ela. Deu asas à histeria. Ciro encheu o saco, estava virado, precisava dormir; catou uma troca de roupa e sumiu pela porta dos fundos. Ruth perdeu a fala assim que o viu descer pelo elevador, passou a noite de pé na área de serviço, vigiando a porta. A diarista chegou às sete, ela correu e se trancou no quarto. A doméstica deu conta do menino, da cozinha, da roupa para passar e só incomodou a madame no fim da tarde, para avisar que precisava ir. Era dia 23, antevéspera do Natal. Ruth não respondeu. A pobre ligou para Raquel, a tia do menino, para que assumisse o drama. Raquel mandou João para os primos e tentou convencer Ruth a abandonar o refúgio. Foi uma negociação demorada. Ruth repetiu que só deixaria o aposento se Ciro viesse até ela. Raquel reiterou que deixaria um bilhete na sala, caso Ciro retornasse, mas que era preciso levantar a cabeça e se amparar na família.
— Você tem que pensar no João, Ruth. Ele não tem culpa do desencontro de vocês. O João é mais importante do que o Ciro, pensa bem.
Ruth amava João, mas Ciro ocupava um altar. Por isso não quisera mais filhos, não carecia deles. Era um desvio de caráter, um excesso irracional, a enfermidade de Ruth. Deixou o esconderijo depois de muita insistência, saiu lívida, quase morta. Raquel se assustou com o desterro da irmã. Colocou-a no carro com o cuidado de quem carrega um cristal e tocou para o Humaitá. Ruth não desceu para a ceia, não quis abrir os presentes e nem ver os parentes. Parou de comer no dia 29 e definhou até o 31; deu entrada na Clínica São Vicente em 1o de janeiro de 1981.
Ciro apareceu só à tarde. Aflito, implorou para ficar a sós com a mulher. Embora relutante, Raquel concordou. Carecia de descanso e achava que o cunhado tinha mesmo obrigação de dar conta da sujeira que deixara para trás. Ruth só acordou horas depois. Quando viu Ciro, pensou ser delírio do sedativo. Ele se deitou ao lado dela e jurou, mais uma vez, nunca mais repetir a desfeita. Ruth acatou a promessa, não tinha opção, faria o que fosse preciso para não perdê-lo outra vez. Ruth era posse de Ciro. E quanto mais se provava dele, mais difícil era, para Ciro, amar o que lhe pertencia.
Mais seis meses de calmaria e uma desatenção boba, um dentista de João que Ciro deixou passar, fez Ruth ligar as antenas. E tinha motivos para tanto. Ciro, de fato, arrumara um caso com a mulher de um cliente, para quem ele havia ganhado uma causa. O pavor a fez esquecer a dignidade. Seguiu-o num táxi, desceu na Glória, subiu na alcova, flagrou os dois em pleno ato e fez o escândalo. Ciro agiu como se estivesse a sós, levantou, vestiu-se com calma e saiu pelo corredor. Ruth gritou até perder a voz, despencou pelos nove andares de escada, foi até a esquina, procurou por ele em círculos, voltou a si, morreu de vergonha e rumou para casa. Ciro já estava lá, de banho tomado e pijama. Quando a viu, sorriu como se nada tivesse acontecido. Estupefata, Ruth narrou o ocorrido, Ciro se indignou. Lamentou o papelão, preocupou-se com o Sílvio, o dono do apê, e garantiu que importunara o casal errado. Estivera ali todo o tempo, à espera dela. Meu amor, será que não é melhor procurar um médico?
Ruth se amparou para sentar. Pediu um copo d’água. Se não era ele, pensou, quem era aquele, na Glória? E, se era ele na Glória, quem era esse homem em frente a ela, agora, de pijama, na sala de jantar? A questão a consumiu de tal forma que outra vez se esqueceu de comer e dormir. Foi internada três dias após o flagra.
Retornou mudada. Falava pouco, mantinha uma vida em segredo. Entendia que viam nela a louca, mas não se importava. A decepção com Ciro serviu de medida para o resto da humanidade, não quis mais saber de ninguém. Só se ama o que não se tem. Levara uma década para se ater ao alerta. Fizera tudo errado, jamais resistira a Ciro. Cedera de imediato, para todo o sempre, perdera o poder de barganha. Era preciso privá-lo dela. Ruth parou de se dirigir ao cônjuge.
Ruth se enganou ao crer que a paixão se dobraria à vontade. Quem sofria era ela. A falta era dela. Foi masoquista onde Ciro a queria sádica. Destruiu a libido. Ciro reagiu com igual violência. Comeu meio mundo, enquanto Ruth assistia calada.
O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas, agora que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas. Célia, Irene, Raquel, todas tratavam seu sofrimento como algo vulgar, um mero desquite. O talho nos pulsos, a forca, o gás, eram fins grandiosos demais para alguém como ela. Decidiu ser humilde, matou o amor com discrição de vestal, fez do lar um convento. Já não planejava reconquistar o marido, queria, sim, se isolar do barulho lá fora, não se importar, não querer, não precisar, não sofrer. Morrer. Exercitou a indiferença até se tornar insensível ao cheiro, ao rosto e à voz da cara-metade. Os objetos foram desaparecendo da casa, os discos, os livros, Ciro preparava a mudança. Ele baixou a cabeça e saiu com as malas cheias. Ruth entendeu que não voltaria. Sentiu alívio, estava livre para ser infeliz à sua maneira.
— Ruth, o Ciro morreu, ontem, no Silvestre. Há três meses, descobriram um tumor muito agressivo, o Ciro não resistiu. Acabou, Ruth — disse Raquel. — Você quer ir ao enterro? Eu tenho que levar o João. Achei que deveria te perguntar.
Ruth teve ódio da irmã. O amor recalcado ameaçou vir à tona e transbordar. Nunca mais o veria. Só sobraram os desacertos, pensou. Ciro jamais saberia que os dez anos de casamento continuavam a significar a sua vida inteira. Por que Raquel não lhe contara antes? Quis bater na irmã. Culpá-la do assassinato. O longo treino de clausura, o autocontrole conquistado a duras penas, trouxe de volta a frieza. Foi melhor assim, ponderou. Não teria coragem de vê-lo, de arriscar perder, mais uma vez, a sanidade. Respondeu que preferia ficar em casa.
Raquel deixou o quarto sem contestar. Aprendera a respeitar a vontade soberana da irmã. Adotou João como filho e manteve a empregada. Ruth exigia o mínimo, em troca pedia que não a importunassem, que não tecessem considerações sobre seus atos, que a deixassem em paz. Raquel cresceu com ciúme dos encantos da irmã, mas, agora, dava graças a Deus por não ter sido ungida com nenhum dom divino. Aprendeu, desde cedo, que o mundo é injusto e que toda grande alegria antecede uma tragédia maior. Pensou em desistir do São João Batista, tinha desprezo pela fraqueza do cunhado, mas a responsabilidade sobre o sobrinho a demoveu da ideia.
Ruth abriu o armário da sala que não via luz desde a partida de Ciro. Retirou dali uma caixa de papelão empoeirada, pôs sobre a mesa e procurou, na pilha de discos, o velho LP de Dolores Duran. A vitrola, herança do equipamento de som comprado por Ciro em 78, continuava intacta na estante. A diarista cuidava dos cômodos vazios com o mesmo zelo de antes. Ruth vivia no quarto, mas, nesse dia, depois que Raquel bateu a porta, decidiu sair da toca. Caminhou pelo corredor até a sala de estar, abriu a cortina para o sol entrar e deixou a memória agir. Ela, tão diferente de quem era agora, sentada no mesmo sofá, Ciro a tirando para dançar, João pulando pelas almofadas, os quadros, a mesa viva. O momento pedia música. Tirou o vinil da capa, limpou com cuidado e o colocou no prato. A agulha ainda resistia, o chiado que antecede a melodia, a introdução da orquestra, Dolores.
Não deixe o mundo mau levá-lo outra vez
Ruth aumentou o volume, cantou, dançou, se deixou levar. Caiu arfante na poltrona, calou-se, refletiu. Sentia-se grata. Havia dez anos enfrentava a ausência de Ciro. A morte dele era o fim da tortura de, um dia, sabê-lo vivo e feliz, ao lado de outra mulher. Morto, permanecia seu, imaterial, eterno.
* * *
De todos da geração, Ruth foi a mais longeva. Resistiu por longos anos, trancada em casa, ao lado de seu parceiro imaginário. Bem cedo, desconectou-se do real, existindo entre lá e cá, mais lá do que cá. Alzheimer, abulia, demência, esclerose, nomes diversos para sintomas tão semelhantes. Ruth extinguiu-se amparada pela irmã e faleceu numa manhã chuvosa, aos oitenta e três anos, feliz com seu dono.
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CÉLIA foi solidária com o drama de Ruth, disse as últimas de Ciro, esteve presente em todas as internações, até que chegou à conclusão de que a neurose da outra não tinha jeito.
Depois da separação, as visitas ao apartamento de térreo da rua Maria Angélica puseram um ponto final na amizade. A sala ampla, que dava para um jardim bem cuidado, lugar das feijoadas de sábado, das Copas do Mundo, de largar as crianças soltas, jogar e beber à vontade, virou um mausoléu sombrio. Ruth não abria as janelas nem acendia a luz. Habitava o último quarto, onde não permitia que ninguém entrasse. Só a doméstica cruzava o umbral. Mas ela não é considerada gente, suspeitava Célia, pela maneira como Ruth se dirigia à empregada.
— Sinhá, Irene. A Ruth é sinhá. Trata a coitada como se fosse escrava, gosta de café na cama. Se pendurasse a roupa no cabide, se lavasse os pratos, não ia ficar do jeito que ficou, desesperada por causa de um vagabundo. Eu sei que incomodo, não vou mais lá. Pra quê? Pra aturar chilique de grã-fina?
Irene não discordava, embora achasse exagerada a afronta. Via-se mais em Ruth do que em Célia, a Margaret Thatcher de São Cristóvão. Irene evitava falar da sua insatisfação matrimonial por receio das reprimendas.
Célia estudou em escola pública, foi campeã de natação no ginásio e nunca levou desaforo pra casa. Era filha de pai português, abandonado pela mãe, que ficou viúva cedo e preferiu a companhia do filho mais velho, internando o mais novo num educandário. A rejeição deu ao pequeno um ofício. Interno, aprendeu carpintaria e, crescido, formado e livre, progrediu no ramo da movelaria. Casou-se com a faxineira da loja, uma negra bonita de dentes branquíssimos, que se revelou uma gerente esplêndida dos negócios. Célia foi vizinha do Campo de São Cristóvão até a maioridade. Gostava de ir à Quinta da Boa Vista, depois da missa de domingo, aos jogos do Maracanã, de tomar sorvete e ir ao cinema na praça Saens Peña. A Zona Norte era o seu domínio. Mas a prosperidade e a compra de uma loja grande no Catete fizeram a família se mudar para o Flamengo. A ascensão social foi uma lástima para a garota. Célia não se reconhecia naquele paraíso amoral, fazia parte da classe trabalhadora. Terminado o curso normal, nem cogitou em seguir faculdade, desdenhava do orgulho acadêmico. Eles gostam é de esfregar aquele anel na cara da gente, dizia. Célia queria emprego, salário e independência. Fez datilografia e arrumou uma vaga de estagiária numa secretaria do Detran. Prosperou no antro burocrático, cercada de esquemas escusos, compras de carteira, mamatas, despachantes, poeira e falta de ar condicionado. Tratava com igual dureza os bacanas e os populares. Fazia justiça. Não entregava os colegas, tinha horror a dedo-duro, mas não participava da ladroagem. No fundo, ninguém presta, garantia.
Nunca confiou em homem. Foi educada assim. Alta e atlética, só não foi mais cortejada porque os rapazes se intimidavam com aquele De Gaulle de saia. Via no sexo oposto um inimigo em potencial, encarava-o de cima para baixo, do alto de sua fortaleza. Só um santo para transpô-la. O santo, no caso, foi o Neto.
Célia atravessava a praia de Copacabana a nado regularmente. Da areia do Forte, Neto viu surgir Calipso em meio às ondas. Mulata, como ele, gigante, homérica. Gamou no ato.
O apaixonado era formado em administração. O pai, funcionário público, criara o filho para ser alguém. Bom rapaz, bebia com moderação, era bem-humorado e craque no futebol. Álvaro creditava a normalidade excessiva de Neto ao fato de ele ser mulato. Havia fundamento na teoria. Sempre que um festejo mais animado acabava com a polícia na porta, Neto era convidado a seguir na viatura até a delegacia. O racismo velado o fez perseguir uma vida sem falhas. Casou cedo, teve filhos cedo e morreu cedo.
Conheceu Ciro e Álvaro na universidade, algumas matérias de administração se cruzavam com as de direito e contabilidade. Juntos, formaram um grupo de samba-jazz, com Neto na bateria e Ciro no violão. Álvaro tentou o pandeiro, mas desistiu e acabou só com o chocalho.
A cumplicidade masculina, as mulheres e a praia os uniram, nessa ordem. A Princesinha do Mar acolhia muitas tribos. Álvaro conhecia Ribeiro de infância, moravam ambos na Ministro Rocha Azevedo e iam à praia na Miguel Lemos. Ribeiro cultivava amizade com a turma da Miguel, um pessoal barra-pesada que barbarizava o bairro nobre. Vivia rodeado de meninas, ao contrário de Álvaro, que espantava as mulheres desde o tempo em que tinha cabelo. Sílvio entrou para o bando atraído pelos encantos de Ciro e tirou a virgindade de todos nos psicoativos. Sílvio era um mito entre os jovens da praia. Corria a lenda de que fora o mais novo membro aceito pelo Clube dos Cafajestes, e que teria participado da covardia de pendurar um travesti pelo pé na janela do décimo andar de um edifício na Barata Ribeiro.
O primeiro Carnaval da década de 60 foi o grande divisor de águas da união dos cinco. Sílvio contou de uns italianos que conheceu no Itamaraty, que fingiam ser gays para quebrar a resistência de madonas e prima-donas. Elas vêm soltas porque acham que estão seguras, depois de dois tragos é só partir para o abraço, garantiu. Propôs que usassem os dotes musicais para fundar um bloco de sujos travestidos de mulher. A ideia foi acatada com entusiasmo incondicional. Dedicaram todo fevereiro à confecção das fantasias. Ciro, a mais linda, lançou a minissaia muito antes de Mary Quant, com botas e peruca de franja. Fez um tipo sexy-intelectual. Álvaro compôs uma dona de casa com peitos de melancia e Neto deixou brotar a cabrocha que existia nele, num belíssimo biquíni de lantejoulas douradas, farto de penas nos ombros e na cabeça. Sílvio encarnou Carmen Miranda e Ribeiro homenageou a Bardot de Norma Bengell. Comeram deus e o mundo. Viraram irmãos.
Os amigos de Neto eram seu único pecado.
Estavam os cinco refestelados na areia, quando a deusa emergiu das ondas e caminhou com firmeza até a sombra da barraca vizinha. A pele fixada nos músculos, a cadência dos quadris e a dureza das coxas, a flecha no coração do mancebo. Os amigos perceberam e caíram em cima, Neto arriscou a aproximação. Célia foi duríssima e deixou-o meses na geladeira. Não dava conversa, mas, também, não o fazia desistir. A prova de amor era a paciência extrema do candidato. Célia o torturou com um namoro de um ano e um noivado de três. Virgem. Os pais da noiva só deram permissão para o casamento depois de o noivo ser promovido na empresa de material hospitalar em que foi trabalhar. Neto segurou com bravura a vontade de engolir Célia viva, de vê-la a sós, sem a sogra, as sobrinhas, os primos e os tios de Cascadura. Sem roupa. Mal podia esperar. Na cerimônia, estava tão ansioso, tão agradecido por, enfim, ter direitos sobre a própria mulher, que chorou copiosamente no altar. A longa espera influenciou no seu desempenho nulo da primeira noite. A pressão baixou e Neto foi obrigado a deitar. Acabou dormindo, exausto que estava da expectativa. Célia não se importou de deixar o principal para a manhã seguinte, abraçou o troféu de marido que conquistara e demorou a apagar. Era adulta. Só o seria depois de casada. E era. Casada e adulta.
O pai passou mal na igreja. Começou balbuciando algumas palavras inaudíveis na sacristia. Depois, passou a revirar a cabeça, gesticulando com os braços abertos.
— Esse canalha… esse canalha vai roubar minha filha…
Os familiares tentaram acalmá-lo, mas o português entrou em surto, repetindo que estavam levando a pequena dele. A mãe, receosa de que o ciúme atávico comprometesse o andamento da festa, ministrou-lhe um sossega-leão, mandou o velho passar uma água no rosto e voltou para usufruir do seu dia de glória. Nascera na Mangueira, ficara órfã menina e ajudara a criar os irmãos. Jamais imaginou que pudesse dar à filha um casório daqueles. Mandou enquadrar a foto dos noivos e pendurou na sala, em cima do sofá. A pobreza, a miséria, a morte dos pais e de muitos parentes, tudo ficara pra trás. Agora, era sentar e esperar os netos.
Eles demorariam a vir. Um menino e uma menina, Murilo e Dalva. Célia organizou uma planilha de gastos e calculou que só seria ajuizado aumentar a família dali a três anos. Todo mês, separava parte dos ganhos para a futura empreitada e, enquanto a maternidade não vinha, curtia o príncipe consorte.
Foram muito felizes juntos.
Célia aturou as safadezas dos amigos do Neto até o nascimento das crias. Depois, enxotou todos para fora do seu círculo de confiança. Suspeitava muito das taras de Sílvio e da pedofilia de Ribeiro. O pai morreu pedindo que a filha não baixasse a guarda. Genro não é parente, insistia. A mãe ralhava, defendia a escolha da filha, mas achava bom não descuidar.
Os desquites em série, a juventude drogada, os hippies de calças sujas, Célia detestou as novas modas. Nunca esqueceu do dia em que viu Ney Matogrosso na TV pela primeira vez. De início, admirou a cantora típica muito afinada, com o esplendor de penas nos ombros e uma máscara de urubu na cabeça. Achou-a peluda, mas a agudeza da voz não deixava dúvidas: era fêmea. Num passo mais corajoso, o pavão misterioso sacudiu as cadeiras para lá, os balangandãs do peito vieram pra cá e revelaram a ausência de seios. É homem!, gritou. Santo Pai! É homem! Célia tirou as crianças da sala. O mundo enlouqueceu, comentou com Neto, à noitinha, e triplicou a vigilância sobre os filhos.
Foi admiradora de Médici e do general Geisel, comungava com eles do horror aos comunistas. Querem tomar o Brasil, tinha certeza. Imagina, dividir minha casa com os outros? Acho ótimo, lá neles! E virava as costas, sem dar chance a ponderações. Seus dois maiores receios eram os de que Dalva perdesse a virgindade e que Murilo não fosse homem. A paranoia com as ameaças externas acabou por moldar-lhe a fisionomia. Tornou-se sisuda. A boca tensa enrugou a face, as preocupações cavaram-lhe sulcos na testa e vincos entre as sobrancelhas. Célia enfeou. Neto não percebeu. Para ele, seria sempre Calipso.
Brigaram, é certo, muitas vezes, saíram no tapa, mas nunca aventaram a possibilidade do fim. Célia foi o cão pastor da família. Faleceu sem gozar a velhice, aos sessenta anos, de um AVC. Seria uma morte exemplar, não tivesse ocorrido tão cedo. Deu boa-noite ao marido, foi para o quarto e não acordou mais.
O desespero no velório da esposa foi um prenúncio do que viria mais tarde. Neto contorcia-se de angústia. Ajoelhou no chão, tentou arrancar as roupas, mordeu, gritou, bateu; os filhos correram para abraçá-lo. O pai diminuiu os ganidos, aplacou a fúria, Murilo e Dalva o sentaram de volta na cadeira junto à mãe, mas a calmaria durou pouco. Mal a fila de condolências retomou o ritmo, Neto foi assolado por outro descontrole bestial. Agarrou Célia nos braços, quis tirá-la de lá, levá-la para casa, foi preciso ajuda para fazê-lo largar a defunta. Álvaro e Ribeiro atenderam ao pedido de Murilo e o arrastaram até a enfermaria. Sedado, participou do cortejo escorado pelos dois comparsas que a mulher tanto rejeitava.
Neto nunca mais se acertou. Por conta própria, continuou a tomar o ansiolítico receitado no São João Batista. Sóbrio, nem pensar, dizia. Quando a língua enrolada não permitiu mais que se entendesse o que o pai dizia, Murilo o levou a um psiquiatra. Neto enveredou na ciranda de tentativa e erro dos reguladores de humor. Nenhum funcionou a contento. O coquetel o transformou num efeito colateral ambulante. Vivia entre o eufórico e o deprimido, mais deprimido do que eufórico. Murilo tentou homeopatia, massagem, acupuntura, insistiu na psicanálise, mas nada demoveu Neto da fixação em Célia.
Tratava-se de um luto perpétuo.