Fora do Tempo
Fora do tempo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
um acalanto, hmmmm...
hmmmm...
anotador dos anais da cidade : Perdão, excelência, importa-se se eu também...
centauro: Pelo contrário... hmmmm...
anotador dos anais da cidade : Hmmmm...
centauro e anotador dos anais da cidade: Hmmmm...
o caminhante:
Caminho, caminho,
nem desperto nem
dormindo, caminho
e me esvazio
de meus pensamentos,
de meus arrebatamentos,
de meus sofrimentos, de meu ardor,
de meus segredos,
do meu aguerrimento,
de tudo que seja eu —
me olhe, meu filho,
e eis que não estou.
Só um projeto de vida eu sou,
que chama você, para vir,
e por meio de mim existir —
acontecer, e mesmo que somente
por um instante, de novo se unir
ao existente.
Venha, sem mais demora,
seja,
não estou aqui agora,
a casa é sua
mobiliada com todos os órgãos,
jorre para dentro deles e se integre,
o sangue agora é seu sangue e os músculos
são seus músculos, venha,
ganhe existência,
estenda seus braços
de uma ponta a outra do mundo,
ria de dentro de minha garganta, grite, se agite
e faça bobagem,
por breve instante tudo agora é possível,
tudo agora é sim,
ame, se inflame, deseje,
transe, enfim,
meus cinco sentidos famintos estão
a suas ordens como cinco
garanhões espumantes,
pateando, pateando
para galopar
até o seu fim, meu menino —
não pare,
seu tempo é curto, contado,
e minhas pálpebras já começam
a estremecer,
dentro de um instante voltarei para casa,
mais um momento e minha pupila se contrairá
ante a lógica estrita. Depressa, prove
de tudo, apresse, seja profundo,
triste,
resoluto, gentil, grite,
estremeça de prazer e de esforço,
meu prazer é seu, e também minha força —
encante, faça fluir sua alma,
seja o impulso de quem semeia,
torrente de cereais em grão
e de moedas de ouro a jorrar
como a luz —
seja repleto como uma teta,
e forte
como o meio-dia, e também se enfureça,
ferva, cerre a mão sobre o punho até
incharem as artérias em seu pescoço,
e palpitante seja, como um coração, uma garota,
seja aberto, de fina pele, iluminado
na esplendorosa claridade
do que só acontece uma vez,
quebradiço e intacto, efêmero
seja você na eternidade.
E sendo assim, interrompa de repente sua corrida, respire, aspire, sinta o ar queimar em seus pulmões, passe a língua em seu lábio superior, prove o sal de um suor sadio, o prurido da vida, e agora diga de boca cheia: eu — (inferno, agora eu percebo:
este pronome também
se perdeu e morreu
com você, e para mim você deixou
somente o “ele”, “você”, “nós”
e ninguém mais
vai dizer “eu”
com sua voz.
Isso também, isso também.)
Mas depressa, meu filho,
a aurora já desponta, o encanto
logo vai esvaecer; ame,
e mesmo se for traído,
mesmo se provar o veneno
da humilhação, ame,
tenha coragem, mas seja também covarde,
seja tudo, toque na derrota,
no fracasso, magoe também,
desaponte
e minta —
depressa, meu filho, passe por tudo isso,
só há tempo para um leve roçar,
tão curto o decorrer de uma ilusão
assim, mas você vai tocar, acariciar
um corpo quente, uma mulher,
opulência de seios em suas mãos,
cabeça de um menino que nasceu,
que você não teve.
Depressa, depressa, eis a primeira faixa
de luz —
veja o mundo, Nova York que você não viu,
Paris, Tananarive, tantas faces
tem o mundo
que vive —
não, não, pare —
já é tarde,
volte
para seu descanso,
depressa,
o escurecimento,
o esquecimento,
só não veja
com meus próprios olhos
o que aconteceu
a você.
os caminhantes:
Nossos pés
lentamente se destacam
da terra leves
leves
flutuamos
entre lá e cá entre a lucidez
e o sono mais um breve instante
o fio
será cortado e então poderemos pairar
e olhar
para tudo que é possível
tudo que é permitido
ver
somente quando se anda
dentro
de um sonho
anotador dos anais da cidade: Dormem... Já há alguns dias eles dormem quase o tempo todo, como se adormecessem a si mesmos... dormem e andam, falam um com o outro em seu sonho, as cabeças apoiadas em quem anda ao lado e eu não sei quem carrega quem e de onde vem a força que os faz andar —
duque:
... Às vezes, quando estou
sozinho, em minha alcova,
descalço os dois sapatos
e olho para
meus pés, e penso
que são
ele.
velho professor de matemática :
Eu bati
nele. Ele era
um rapaz teimoso, e atrevido,
e já quando criança
tinha ideias
estranhas, e eu — quem poupa
sua vara odeia
seu filho — fui
obrigado
a bater nele. E quando ergueu
a mão defendendo
o rosto, eu
lhe bati
na barriga.
o caminhante:
Mas onde você está, por que não responde,
só isso me diga, meu filho,
eu simplesmente pergunto
onde?
Ou como um discípulo ante seu mestre
(pois isso eu vislumbro agora
muitas vezes em seu rosto),
eu peço, vamos, me ensine,
como uma vez, não faz muito tempo,
eu ensinei a você
o mundo
e seus segredos,
e desculpe se minha pergunta
é boba, um tanto vaga, mas
não se apaga
pois há cinco anos me devora a alma
como uma chaga:
o que é a morte, meu filho?
O que
é
a morte?
parteira:
A morte é grande e definitiva,
minha filha, sua força
não tem l-limite, a morte
é et-t-terna,
imortal, e a sua,
pequena, e uma só,
está dentro dela —
sapateiro:
Na verdade eu queria
perguntar, como é,
minha filha, quando a gente morre.
E como está você
lá.
E quem é você
lá.
duque:
É uma ideia incrível, meu filho, mas
e se agora você sabe
muito mais do que eu?
Talvez um mundo novo,
maravilhoso,
arrebate você em seu voo,
e no ruflar de sua poderosa asa
estenda a você
sua infinitude, assim como
nosso mundo aqui destilou
então sua abundância
em sua alma, uma alma
juvenil
e pura. De repente
a sua frente
eu me sinto
tão jovem, tão pueril —
anotador dos anais da cidade: De vez em quando por eles passa um tremor, em todos, um após outro, como se uma mão invisível deslizasse uma carícia ao longo da espinha daquela pequena caravana, detendo-se um pouco sobre a cabeça de cada um deles. Eles, em seu sono, se empertigam para ela como pintinhos cegos ao ouvir a voz da mãe, e através de suas pálpebras seus olhos brilham.
parteira:
Eu a vejo
a pular e dançar na cozinha
antes de ficar
doente, quando ainda
tinha forças. E o p-pai
dela, meu homem, meu amado,
meu sapateiro, se ajoelha
ante ela e faz
de suas mãos sapatos
para os pés dela.
sapateiro:
Estou sonhando?
Meu Deus, veja
como ela
quase
não mais
gagueja!
parteira:
... e ele a leva
pela casa nos sapatos
de suas mãos, e ri
até quase o teto voar, e ela
abraça seu pescoço
a gargalhar, só agora aprendeu
a falar, você
lembra, apenas começa a dizer
as primeiras
palavras dela.
p-pai,
m-mãe
li-li-li-Lili.
sapateiro:
Lilizinha,
Lilizinha,
mi-mi-minha.
os caminhantes:
Caminhantes, é impossível,
impossível ficar parado.
O corpo não o permite. As pernas
fraquejam, minha respiração
é curta, e o corpo assim mesmo
não concorda em parar e empurra
de dentro, adiante... É como
ir a um doce
encontro, não é, senhora
anotadora dos anais? Verdade,
senhora na rede, é como
um encontro
com o ser amado.
o caminhante:
Este buraco,
esta ausência
que só a morte
como tal engendra —
que não é
desaparecimento
ou término
ou nada.
Onde há também um último
lugar, escancarado,
como fresta de janela,
onde ainda respira
o ausente, ainda não consolidado,
se debatendo, no qual se pode
tocar aqui
e ainda, quase, sentir,
o calor da mão que toca
ali —
e este é o limiar, a última
linha comum entre lá
e cá, e só até ela,
não mais, pode
chegar vivo o vivente,
e lá, talvez, sentir ainda
o fim de seu fim,
ainda um sinal, a finda
brasa ardente
que se esvai
se apaga e extingue
no morrente.
velho professor de matemática :
Você tanto se tornou sua morte,
que às vezes penso
(perdão, estou cruzando alguma linha?
Melhor calar? Perguntar? Não sei
se você sabe, meu filho, sou um pouco
um homem de maneiras, e de repente não estou certo
de como devo tratar você... Melhor em segunda pessoa?)
Mas diga, fale claro
e não me poupe; assim,
se lhe permitissem, eles,
lá —
se lhe deixassem
escolher —
você voltaria?
Voltaria para cá?
Para mim?
duque:
Ou, como no poema de Rilke
sobre Eurídice,
você está todo entregue, meu filho, à morte
nova, que o preenche,
“qual fruto cheio de dulçor e treva”?
E somente eu,
Orfeu
maçante cheio de saudade,
arrasto você
para cá,
contra sua vontade?
velho professor de matemática :
Mais uma só, permite?
(perguntar a quem mais
senão você, meu mestre
em mistérios tais) —
Diga-me só que coisa é essa
em nós, a vida,
por cuja trama
nós sabemos
estar completamente mortos
num rompante, no mesmo instante
em que morremos. E desistimos
de tudo, e somos desistidos,
como uma lei das profundezas,
que nos tocaia sempre, dentro
de nós mesmos, e de uma vez emerge
e sobe como um vulto
escuro dos abismos: nós ainda empoeirados
em volta dos destroços
já ela assume o seu lugar
toda orgulhosa, na euforia
da anfitriã de um tempo ido,
e seu olhar petrificado, do qual
não escapa nada, mas também
enceguecido, proclama
em triunfo
num fio de sorriso, aberto —
“A morte, meus amigos,
é que é o certo!”
os caminhantes:
Ao encontrá-los... o que lhes dizer
ao encontrá-los? Eu, meus senhores,
já decidi: não
lhe falarei de seu irmão, do filho que
tive depois dele. No quarto dela
troquei todos
os retratos. Não
aguentávamos mais. Eu,
por fim, a alma nua,
dei seu cão
a um menino
na rua.
(silêncio)
o caminhante:
E após algum tempo,
o que quer que eu faça, você
se petrifica,
e mais e mais uma vez
eu tenho de entalhar
você
das crostas
de pedra em que você
se funde, e eu preciso
muito me esforçar
para querer, sim —
desentranhar
da mesma forma a mim,
lutar —
enquanto todo o meu ser
proclama, pare, melhor assim,
deixe a natureza
humana decidir
o que permite, você já tem
de aceitar dele
o destino, você precisa
respeitar o seu limite — — —
Então, logo eu suspeito
de mim mesmo: talvez no íntimo
eu já deseje que você
se petrifique?
Que pare de sangrar.
Que não esteja
tão desperto e afiado,
e temperado
morto-eternizado.
Mas não menos doloroso
é quando eu consigo:
quando uma força imaginária
irrompe até que o bloco
de pedra se rompe, se esfarela,
se desprende e cai em volta de você,
e então de repente —
eis você:
desnudo,
esplendoroso, a brilhar
dentro da pedra, ou mesmo
sem brilhar, só de pé e relaxado
e em paz, olhando para cá
e para lá, embaraçado, sem saber
que eu olho para você: presente,
tão presente,
e não descumpre, e não
promete, só palpita
com relaxada placidez
o pulsar de sua existência. E quente
na medida certa,
e vivo —
de enlouquecer.
os caminhantes:
Quando nos encontrarmos, se
nos encontrarmos,
que direi a ele? Que
direi a ela? Vocês
acham que souberam?
Souberam o quê? Que
morreram.
duque:
Ele morreu em agosto, e quando chegou
o fim
daquele mês,
pensava eu o tempo todo, como poderei
passar a setembro
se ele fica
em agosto?
os caminhantes:
Será que só vamos parar
diante deles, quando nos encontrarmos,
sem dizer
palavra? Talvez ele
me diga que agora compreende
que foi só
para o seu bem
que eu lhe bati?
Talvez eu cante
para ela a canção
que cantava quando era
um bebê? Só finalmente
lá chegar, meu Deus. Tenho medo
de que ele
me seja estranho. Só estar
com ela. “Toda
noite a lua vê, enfim,
as flores que brotaram
no jardim...” Só
estar lá
com ela. Só
estar. Tomara
eu pudesse lhe levar,
como resgate, um pouco
de sopa de tomate.
o caminhante: Não, não... não pode ser, não pode ser —
os caminhantes: Não pode ser, não pode ser —
o caminhante: Não pode ser que estas palavras estejam corretas —
os caminhantes: Não pode ser, não pode ser —
mulher dentro da rede: Que eu tenha visto como jogavam meu filho dentro de um buraco na terra —
parteira: Tach, tach, tach — o som da enxada que cava a terra —
os caminhantes: Não pode ser que essas palavras estejam corretas, não pode ser que elas sejam verdade —
o caminhante: Simplesmente não pode ser.
parteira: Queimar! Queimar essas palavras! Queimar essas falas malditas!
os caminhantes:
Olhamos para cima, soubemos
logo para onde olhar, para o fogo, o pequeno
fogo, o fogo
perene, de dia e de noite caminha
conosco, já nos acostumamos, eu,
meus caros, o chamo: o fogo ardente.
Esqueça. São apenas pequenas brasas,
doces, não mais,
não mais, olhe o fogo, por dentro, está
vivo, como um vivente — — —
Não se movam, esperem, não
o irritem, ele se abre,
estranho, agora
se distende, lentamente
estende as mãos, braços
compridos, meu Deus, o que
é isso,
dedos estendidos —
mulher dentro da rede: Na terra! Na terra apodrece seu doce corpo!
os caminhantes:
O ar estremeceu com um grito, as mãos
do fogo se crisparam, imóveis um instante num torrão
brilhante, ardente, e então voltaram
a vertiginar, a florescer como uma flor
selvagem, para súbito explodir
lá em cima, torrente de fogo crepitante, a crescer
em erupção, sobre nossas cabeças
os dedos se abriram, linhas
de fogo jorraram,
romperam sombras,
visões de repente
como chicote estalaram, saltaram, capturaram
quem,
as palavras —
As palavras? As palavras
malditas,
todos os não-pode-ser
foram tragados, engolidos
pelo fogo, tudo queimou
na chama, soltamos
um grito
aflito, uma labareda
amarela e negra
se elevou de nosso imo,
escapamos —
paramos —
gritamos —
gelamos —
e ele — labaredas,
leoas,
dragões,
serpentes, juramos
calar
e gritamos,
vomitamos
mistura de palavras, palavras
terríveis, não pode
ser, não
pode
ser, e ele —
se avoluma, crepitante,
o fogo como uma roda atrás de nós
se incendeia, e já
dentro de nós seus olhos vermelhos
e negros se abrem
e perscrutam, línguas
ardentes, que venha,
que queime, palavras
malditas capture
no ar, carbonize
lembranças, quadros
que durante anos não ousamos
contemplar, que coma, devore, fogo
imenso, engolindo
crestando, as
vísceras
consumindo,
ai, latimos, uivamos
ao fogo desvairado, tudo, leve
tudo, queime até
as cinzas, ai,
sufocamos na borralha
das palavras, na fornalha
das palavras —
exaustos,
vazios estamos
e fraquejamos, rostos
enegrecidos, e ele —
finalmente esfria
e silencia,
silêncio, a tênue chama
se apaga, bem nutrida
shhhh...
e adormecida
(silêncio)
O quê, o que foi?
Sonhei? Estava
dormitando? Olhem
para mim! Estou
respirando! E uma leveza
tal tão de repente
nos membros, o corpo
como a flutuar
no ar... Diga,
senhora, estou
morto? Estou vivo?
E o seu rosto,
mulher, toque, toque
em mim, estranho, está
liso, como
era
antes —
Eu quero —
eu quero —
eu
quero, queremos
despertar,
despertar
disso,
despertar
para a luz eu
quero, mergulhar
banhar-me
todo em luz —
Vocês,
vocês aí —
que não escutam — que não
respondem —
que esmagam
nosso coração — que sugam
nosso sangue — mamam de nós
cada gota de vida — cobram
o imposto — imposto sobre o frio
de vocês — sobre todo momento de riso —
de luz — olvido —
distração — vocês — em cuja voz toda palavra
que dizemos aqui a nós é logo
sussurrada de volta — de lá —
e por quê? — Pensaram nisso? — Por que
afinal vocês viraram mortos? — E como
não se cuidaram? — Não se cuidaram como nós —
e por que se foram, e pegaram essa doença que em vocês
se aferra? — E para a guerra,
por que foram para a guerra? —
e para as ondas —
e para a navalha —
e como é que vocês
estão mortos, e nós
conseguimos
ficar vivos? — Pensaram alguma vez
no que isso quer dizer? — Que talvez não por acaso
vocês estão aí
e nós aqui? — E que talvez vocês
tenham feito algo
para estarem a-a-assim?
Querem saber? Nós nem
queremos nos atribular
com tais pensamentos! — Sequer queremos
pensar em vocês! — Já pensamos demais
em vocês! — Já pensamos demais
em geral! — Antes de isso me acontecer
eu nem sabia que existiam
tantos pensamentos! — Ahhh,
quantos anos, meu Deus — quantas lágrimas —
então peguem — peguem — peguem o pacote
de seus ossos — e saiam — saiam de nossa
vida — ouviram? da v-v-v-ida! —
Vocês,
vocês aí —
tomara
que morram!
mulher no alto do campanário:
Caiu
o silêncio.
A cidade
distante emudeceu.
Como se também
lá
deixassem
de respirar.
o caminhante: Mas quem sou eu?
sapateiro: Quem é você?
o caminhante: Acho que eu estava procurando alguma coisa aqui.
mulher no alto do campanário:
E ele foi —
e ele voltou,
e parou, e buscou
nos seus rostos
o que
tinha perdido —
e andou
em círculos
em volta deles
e de repente —
caiu.
o caminhante: Quem sou eu?
velho professor de matemática : Pardon, meu senhor, por acaso o senhor lembra quem sou eu?
sapateiro: Diga, senhora, talvez a senhora se lembre —
parteira: Havia um bebê, e mais um bebê, e mais... todos saíram de mim?
mulher dentro da rede: Havia uma casa, havia roupas —
duque: Eu brincava com cavalos... cavaleiros —
mulher do anotador dos anais da cidade : E você, meu senhor, quem é você?
anotador dos anais da cidade : Eu? Eu não... desculpe, senhora, eu não me conheço.
o caminhante: Quem sou eu?
mulher no alto do campanário (cantando baixinho):
Quando eu lhe disser sim,
abrace
o não,
e abrace o que é
nele ausente, e anuncia
sua completude
vazia —
(silêncio)
mulher no alto do campanário:
Lá você não está
mais só,
não está só,
e lá não é
um só,
e nun
ca mais será só
um —
(silêncio)
o caminhante:
Lá
eu toco
nele?
Bem dentro
dele?
No fundo dele?
mulher no alto do campanário:
E ele,
ele também
tocará
em você de lá
e seu toque —
o caminhante:
Toque como tal,
mortal, não me tocou mais
ninguém
jamais.
mulher dentro da rede:
Duas migalhas de gente
nós fomos,
um me
nino e
sua
mãe —
o caminhante:
O que devo fazer ainda? Meus pés
quase não
me carregam, e o fio de minha vida
está cada vez mais fino, mais um instante
não mais será. Você tinha razão,
mulher, mais razão do que eu —
não existe lá, não existe
lá,
e mesmo se por toda minha vida
eu for para lá
não chegarei lá, não chegarei
vivo. Veja,
passaram-se tantos dias
desde que deixei a casa,
e em vão, e sem propósito, só restou
em mim como uma praga o desejo
de andar mais,
andar —
mulher no alto do campanário:
Triste razão aquela
que tive mais do que você;
e você foi mais sábio do que eu,
ousando mil vezes mais —
levante-se,
vá e se pareça
com ele em tudo que pode
um vivente se parecer
com um morto — sem morrer.
Conceba-o, mas também
o mate, quase.
Seja como ele, como a morte dele,
mas só até
que a sombra de seu fenecer
cubra a sombra da sombra
de você ser —
e lá, meu amado,
entre as sombras
do além,
entre filho e pai,
virá
o descanso
dele
e o seu também.
duque:
Ouça o que ela diz, meu senhor
(súdito meu
que a ninguém
se submeteu), preste atenção:
são críveis as feridas da mulher
que ama. Faça isso, senão —
estará me condenando, condenando
a todos nós,
e de novo não seremos — nós,
toda a caravana — senão
um breve intervalo da morte,
só uma marca tênue, confusa,
no bloco de rocha
obtusa, de cujo corpo
alguma vez nos fez surgir,
como um sinal, um escultor sensato
mas não ousado,
e se ousado, não genial,
e mesmo se genial, certamente não
piedoso —
vá,
inverta a roda do tempo,
conceba-o e com ele
morra, e nasça de dentro
da morte dele —
o caminhante:
Só o desejo não se apaga
em mim, como uma praga,
como uma chaga —
caminhar, caminhar mais,
e mais —
talvez
em alguma última fronteira
que minha razão não
alcança, eu possa me curvar
e deixar
essa carga pesada, e então
andar para trás um passo,
não mais, uma passada
pequena que abrange o mundo,
aceitação
e constatação: eu
estou aqui,
e ele está
lá,
e a fronteira não desaparecerá
entre aqui e lá.
E assim ficar, e divagar,
e devagar
saber,
e todo eu me impregnar
da ideia
como o sangue emana
da ferida:
que assim é a humana
vida.
os caminhantes:
E nesse instante, com essas
palavras, o mundo
escureceu: uma sombra
sobre nós desceu
num golpe,
uma muralha.
Uma muralha bloqueia
nossa estrada. Parede
de rocha poderosa
divide, fende
o mundo. Muralha. Ela
aqui não estava antes,
não estava! Mil
vezes circundamos
a cidade, subimos e descemos
essas colinas, até nelas conhecermos
cada pedra e falha
na rocha, e de repente
uma muralha.
Talvez não tenhamos percebido?
Talvez em pleno sono
passamos por ela? Ela não estava
aqui! Então como?
Do céu? Como surgiu assim
do solo?
Agora está aqui, está aqui,
e talvez —
pode ser? É possível? Mas não,
meus senhores, não, a ciência
não ratifica tal premissa! Mas
talvez sim a saudade? Talvez
a ratifique
o desespero?
O frio
súbito se espalha
nos membros. Uma sombra
gelada cai sobre nós,
como um machado destroça
nosso mundo,
como então,
é verdade, como na hora
da calamidade —
e ele,
um só,
que anda,
só ele, se aproxima
da muralha. Passo
a passo, assustado, lasso,
as pernas batidas, fracasso,
avança e falha,
e lhe volta as costas —
mulher dentro da rede: Basta! Vou voltar.
duque: Mas ainda não chegamos... Quem sabe lá na verdade é bem aqui, minha senhora, atrás dessa muralha?
mulher dentro da rede: Ouça o que eu digo, duque, mais longe não chegaremos vivos.
duque: Por favor, não vá.
mulher dentro da rede: Deixe-me entender, duque, você me pede ficar?
duque: Quando você está aqui, eu não tenho medo...
mulher dentro da rede: Dê-me a mão, meu duque.
os caminhantes:
E ele, diante da muralha, a cabeça
inclinada, escuta,
ele espera
por uma resposta, para onde, para onde
irá, para onde iremos, ao longo
da muralha? Ou só ficaremos
aqui,
esperando?
Por quem? Pelo quê?
E até quando?
E como sempre lhe acontece, já sabíamos,
as pernas. Um leve tremor
lhe sobe das pernas, o corpo
se contrai, a cabeça lentamente se ergue
e se apruma, ele anda. Ele
vai. Isso é bom, assim
é bom, tudo desperta
para a vida junto
com ele, a perna se ergue
e abaixa, um passo mais
e mais
um passo, ele anda,
anda e pisa, pisa
e calca, ele anda
no mesmo lugar —
no mesmo lugar?! Juro, ele anda
no mesmo lugar, um passo, outro
passo, outro passo, seus olhos
no muro, anda sem
andar, anda a esmo
e sonha, consigo
mesmo ele
anda, dele
para ele mesmo —
o caminhante:
Vou cair
agora vou cair —
e não caio.
Eis que agora
o coração vai parar —
e não para —
anotador dos anais da cidade :
Eis a sombra fina
e rala da neblina,
e o frio
sobe
da escura ravina —
agora,
agora cairei —
os caminhantes:
E não
cai
e não
para, anda, caminha junto à muralha, um passo
mais um passo, mais um passo, passa
uma hora, mais uma hora, o sol
se põe e o sol se levanta, grande é a fraqueza
nos membros. As sombras de nossos corpos são tragadas
no escuro, andamos, andamos
para lá —
E às vezes parece
que algo nela se move, na muralha,
e respira. Nós, em nossa andança
nada dizemos. Mais do que tudo
temos medo
da esperança. No que nos espera além
da muralha não ousamos pensar. Na hora
da aurora, também no crepúsculo, nossos corpos
se distendem, nos tornamos como gigantes
muito finos, como sombras. E às vezes
dentro de nós paira um corpúsculo
dourado, se apavora com este e salta
para aquele, e também sobre isso não
falamos. Andamos. Angustiados. Adiante,
num calo da rocha, uma aranha tece
teias, estende sua rede, transparente
e tensa —
e nela faz um nicho de repente
e nele se recolhe,
imensa —
Nossos rostos
se bloqueiam, nossos pés
golpeiam, pisoteiam a terra,
a terra, também uma muralha
encerra. Talvez
o céu também, lá em cima. Andar,
andar ainda, o tempo todo
andar para não sermos esmagados
entre as muralhas. Um passo, mais
um passo, um passo mais, nossos olhos
embaçados enxergam só
corcovas de pedra
rochificada, cicatrizes
de um marrom cinzento,
e a fina rede de uma aranha
a oscilar
ao sopro do vento —
A luz do poente cai sobre a muralha. Por um instante
ela quase é atraente. A luz
é cálida, condolente. Desde o dia em que minha filha
se afogou, eu junto
todo instante de beleza
e caridade, para ela. E eu,
meus amigos,
desde então,
olho cada coisa
bela
duas vezes. Ah, juro,
duque, que também eu
como você sou só um toco, só que eu
não tenho as palavras que você tem
da educação. Mas minha senhora
na rede, você me emociona
tanto toda vez que
fala de seu filho. Bem, meu duque,
é porque magicamente, de repente,
de minha boca saem os poemas. Também comigo
é assim, minha senhora. Quando os escuto
sei também: a poesia
é a língua
de meu luto.
Olhem —
lá — na folha verde. É um milagre ter conseguido
germinar aqui e restar, na rocha
nua e árida. Uma mosca
pousa na folha, limpa
seu corpo, se esfrega, faz brilhar
suas asas transparentes —
Andamos, tensos, olhamos
a mosca como uma charada —
vigorosa, cheia de vida, entusiasmada
ela paira,
de novo pousa, estabanada, mas
que se cuide, certo,
que se proteja daquela, ali
na teia,
que talvez até mesmo
se prepara para
um rendez-vous convosco,
senhora mosca? Ou ela é...
Boboca!
Não —
ela tocou,
a mosca,
com a ponta da asa na teia,
está perdida —
Eis a tragédia, nós o sabemos, logo
sabemos, eis
a tragédia, seus dedos frios
em nossos lábios,
andamos rápido, andamos
forte, fios
se enredam, e ela
luta, tenta
voar, e zumbe
até que o céu
quase se rasga, e sua boca
se abre por completo,
o que quer dizer? O que
aprendeu agora que não
sabia desde o momento
em que nasceu inseto?
E um ou dois dias depois,
no entardecer, num meio-sono
constatamos que nosso passo
mudou. Andamos, marchamos
rápido, a pele
se arrepia, que coisa é essa? A terra, parece,
está mais macia? Se abrindo
em sulcos e crateras?
Os pés
o entendem antes de nós, pisam
na terra, se afundam, colunas
de poeira sobem, as costas se empertigam, os olhos
brilham — — —
Cada um de nós cai de joelhos, baixa
à terra, e nela cava com as mãos
e com os pés, unhas também. Cavamos
depressa, como animais,
e ela freme a esse contato
de nossas mãos. E de repente elas são leves,
flexíveis, os dedos
revolvendo, cava o corpo e a alma inteira
e se empoeira —
anotador dos anais da cidade :
Minha mulher,
ela também.
Sua espádua bela,
se mexe, flutua.
No corpo dela,
de dor pesado, se modela
leve e singela
uma figura, que se esgueira
como mariposa
na janela... Por um momento
se detém. Com a mão enxuga a testa.
Ponho minh’alma em minha
mão e sorrio
para ela. Sorri. Mexo
para cima e para baixo
as duas sobrancelhas. Sorri
ainda. Volto
a cavar. Meu coração,
meu coração.
os caminhantes:
A terra se encurva e se afunda
para nós, como se
esperasse há muito tempo ser cavada, que assim
cavassem, que nela
cavassem pessoas
como nós — finalmente
nos tornamos úteis — e também sentimos
o quanto ela quer, a terra,
que rolemos nela, rejubilemos
nela, que riamos
para dentro dela — só lágrimas
e sangue e suor
derramamos sempre dentro dela. Quando,
diga, quando foi que um homem
riu para
dentro
da terra?
A sombra
da muralha vai
se alongando sobre nós. É dura
e fria a sombra, dentes de ferro
são as sombras que nos rasgam,
e nos atiramos mais ainda
para dentro da terra, a revolvemos,
absorvemos seu calor
e seu alento, e ela — é a mãe
de tudo que vive, e por isso
também a mãe de todo morto, enlutada-viva,
cálida e palpitante em nossas mãos, como a
nos implorar que continuemos,
só
para mais e mais extrair
de seu útero a alegria da juventude
que nela se enterrou, a doçura da infância
que nela se tornou
pó —
centauro:
E eu também, na prisão
de meu quarto, na mesa
de meu corpo maldito, finalmente
escrevi. Como dedos
em terra fofa
escrevi
a história —
os caminhantes:
O dia se extingue,
ante a muralha nos deitamos
entre as covas
profundas — as cicatrizes,
as marcas que nela deixamos,
na terra. De tempo em tempo se nos esvai
um apressado e trêmulo olhar
para dentro delas —
e o olho
logo se retrai.
E ele, o caminhante, se ergue
do pó e nos contempla, como só
agora, pela primeira vez, para nós
se abrissem seus olhos, azuis, cheios de luz,
e bons. E sorri com afeto
para cada um
de nós, e se parece
também com esse
que cada um de nós
carrega
dentro de si.
E só com os lábios, calado
ele murmura:
obrigado.
E depois ele vai, e uma após uma
ele tira suas roupas, e eis que está
nu. Tão branco, tão singelo
seu corpo, tão
humano e belo.
E desce
ao buraco
que cavou, e deita
de costas, os braços
frouxos, largados,
os olhos
fechados.
Nós nos levantamos,
ficamos de pé. Chegou
a hora, e de repente
é urgente: o sapateiro
e sua mulher ajudam
o velho professor
a descalçar seus sapatos.
A mulher dentro
das redes e seu amigo
duque desfazem,
mão na mão, os dedos
ágeis — ela por dentro,
ele por fora — o emaranhado
que envolve o corpo dela. E o anotador
dos anais e sua mulher se ajudam
um ao outro, calados, a tirar
seus trajes rasgados, os dois
emocionados,
empolgados, e de repente
eles parecem
tão jovens e revigorados.
E assim ressurgimos
despidos,
e nos despedimos
um do outro com um olhar. E de novo
cada um
de nós
está só.
E cada um se estende
em sua vala funda,
e cada um
desce
a sua tumba.
Então,
como um predador
ligeiro e de surpresa
a noite
abocanha sua presa.
centauro:
Só agora eu atento.
Não é seu filho que o pai
incita, não é meu filho
que eu alento
assim, e faço estremecer. A mim mesmo
eu satisfaço
com palavras, fantasias,
com espantalhos,
figuras
coladas com palha
e barro, com o bom senso de um coitado —
para não acabar, petrificado.
Para eu não acabar
petrificado.
É minha alma que é
ceifada
na brancura fria entre palavra
e palavra. Sou
eu
que me debato como uma presa
na garganta
do absoluto.
Por mim mesmo,
só por minh’alma luto
aqui com o que aniquila,
com o que obscurece
e amesquinha.
Toda a minha vida
agora,
minha vida plena
está na ponta
desta pena.
o caminhante:
Faz-se
silêncio.
Deito-me
na prisão
da solidão:
tristeza
de um homem
na terra.
Das lonjuras rolam
as vozes tranquilas da noite, nuvens
pesadas e baixas sobre mim
sopram, ocultando como um véu
a visão do céu. As paredes
da cova se acercam, se fecham
sobre mim. A terra estuda, sente,
mede, interpela,
avalia: como
me digerir
dentro dela.
mulher do anotador dos anais da cidade :
Seremos castigados. Tremo
de frio e de medo. Penso:
é proibido
que pessoas façam
uma coisa dessas. Penso
nesse meu bobo querido,
infeliz, deitado
tão perto de mim nessa cama
de terra. E o tempo todo sinto
sangue,
de mim
pinga o sangue, escorre
para dentro da terra, chega
até ele e penetra
em suas artérias, e volta
a mim e se enraíza, é o nosso sangue, pois,
e agora o sangue dela, e é a nós dois
a quem se aferra,
de novo pais,
a concebemos
de sangue e terra.
E fico tonta
e adormecida, e é fácil
de repente, como se o tempo também soltasse
sua mordida. Respiro. Lenta
e lentamente respiro. Não
respirava assim
desde então. Assim não respirei
jamais. Minha alma é aspirada
e volta como numa dança
delicada —
o caminhante:
Despertei depois
de sonhos confusos
que não lembrei.
O céu se fez
transparente, e a muralha foi
alçada, até parti-lo em dois.
Não ouço meus vizinhos
na terra, e não sei
se estão aqui,
ou se fugiram. Eu tenho
frio, mas as pontas
de meus dedos murmuram e ardem;
e-u não se-rei
al-gum dia,
não se-rei!
E desse não-serei de repente
me vem o sabor
de eu ser. Sei
quão muito
eu fui
em minha vida, até a ponta
dos dedos
eu sei.
É maravilhoso
sabê-lo, lembrar:
quão muito
eu fui,
e quão
muito
não serei.
anotador dos anais da cidade :
Tomara esquecesse seu nome,
minha filha, a melodia de seu nome
em minha boca, a doçura que então se espalhava
em todo o meu corpo.
Você era tão pequenina,
mas há tanta coisa sua a relegar no olvido,
e não querer nada que você
tenha tido,
nem mesmo você,
quem quer tenha sido.
duque: Quem está aí? Acho que reconheci a voz de meu bobo.
anotador dos anais da cidade : Sim, duque, é este seu servo.
duque: Meu dileto amigo.
anotador dos anais da cidade : Muito tempo passou desde então.
duque: Mais de treze anos, desde que você se condenou a esse terrível exílio. Agora fale-me de sua filha.
anotador dos anais da cidade: Não posso, senhor. No dia em que aconteceu a tragédia me ordenastes que a esquecesse.
duque: Meu querido amigo, quem mais do que você sabe que tal ordem não poderia sequer ser cogitada por mim. Conte-me sobre ela.
anotador dos anais da cidade: Não, não, duque, não posso. Para mim vossa ordem ainda está em vigor!
duque: Então, seu tolo, eu lhe ordeno: Esqueça-a para mim!
anotador dos anais da cidade :
Esqueço seu cabelo curto e fino.
Esqueço seus dedos róseos, transparentes.
Esqueço que era minha filha mimada e delicada.
Esqueço-me de como ela — —
de como você
se zangava quando eu esquecia e, no prato,
não separava a omelete da salada.
Quando na banheira eu a lavava,
você ria batendo com as mãos na água,
de onde eu a tirava, e embrulhava
seu corpo na toalha macia, e perguntava: que criatura
estranha é esta
que está aqui dentro?
centauro: Meu amigo anotador dos anais fala e fala. Uma fonte de esquecimentos irrompe dele. De minha janela olho para o horizonte. Entre duas colinas vejo a grande e vazia planície onde as covas foram cavadas. No ar, estilhaços de gotas brilham à luz das estrelas. Uma árvore solitária, gigantesca e frondosa, lentamente oscila ao vento, como acenando boas-vindas ou uma despedida.
E então de repente um vulto se move na planície. É uma mulher, que se livra e sai de dentro da terra. Caminha alguns passos, devagar, pesadamente. Para, envolve a si mesma nos braços. Sua cabeça curva-se um pouco.
mulher do anotador dos anais da cidade :
Quem a sustentará,
quem a abraçará,
senão nós dois
com nossos corpos
a envolver
sua plenitude
vazia?
centauro: Ela olha em volta, contempla longamente a muralha, então desce e é engolida pela terra, na cova vizinha. Ao cabo de um minuto ou dois vislumbro um caderninho sendo jogado com ímpeto de lá, esvoaçando por um instante no ar, se abrindo e fazendo brilhar no escuro suas páginas brancas, e se apagando.
o caminhante:
Penso nos filhos —
da-terra a meu lado. Penso
em meu filho. A terra
com meu corpo se aqueceu.
Meu coração lhe fala, e sou eu.
Pelo menos nos separamos sem raiva —
eu lhe digo,
e sem ressentimento.
Você nos amava, e era amado
e sabia
que era amado.
As estrelas cintilam
sobre mim. Eu lhe digo, será
que posso fazer um pedido?
Quero aprender a separar
a lembrança
da dor. Ao menos parte dela,
o que puder, para que nem todo o passado
esteja tão impregnado de dor.
Assim também poderei me lembrar mais de você,
você compreende: sem temer que a cada vez
a lembrança me queime.
E digo também — preciso me separar
de você.
Não me entenda mal (sinto
em minha própria carne
a dor pungente que ele sente) — me separar
só até uma distância
para que o peito possa se expandir
numa só
respiração
completa.
E sorrio, ao lembrar que isso foi
o que pediu também o velho professor. E o mar do céu
freme, como um sorriso emerge
lá, lá em cima. Alguém
talvez me entendeu, ou me
sentiu.
Respiro, a totalidade da noite
inspiro. O céu não
me pesa, tampouco
a terra, nem mesmo
eu. E nem
você.
Você —
onde está
você?
mulher do anotador dos anais da cidade :
Talvez eu não precise mais chegar
ao fim dos
caminhos, à última pousada?
Talvez seja a própria caminhada
a solução e a charada?
Talvez não exista “lá”,
minha filha, talvez também já não exista
“você”?
Mas enquanto estou assim prostrada, no ventre
da terra, e minhas mágoas por breve instante
se aliviam, de repente eu sinto
e sei que vida e morte, elas mesmas,
lentamente em mim
se igualam, numa mescla que mais amena
é impossível (ai, como pode sair de minha boca
fala tão terrível?!),
até que como a noite
e o dia, ou como
o inverno e o verão
que em algum dia são iguais, elas
se dissolvem em mim, com sensatez e precisão medida,
que adquiriram, ai meu Deus, ao preço
da tua vida —
Não, não!
amarga e repulsiva
transação,
mas assim mesmo,
deixe-me dizer, senão
eu enlouqueço — agora, pela primeira vez
eu sei não só que gosto tem
a morte,
mas o que é a vida,
e ainda mais que isso
eu vejo —
anotador dos anais da cidade :
— como se postam
vida e morte e se defrontam.
Como sussurram
uma à outra.
Como se
tocam, como
se entrelaçam
uma na outra
na raiz de sua nudez.
Como sem pausa elas vertem
e derramam
de uma a outra, de uma
para a outra, como um casal,
como dois
apaixonados,
a seiva
de seu ser.
mulher do anotador dos anais da cidade :
Estão uma na outra dissolvidas,
e também eu agora,
como um rio
em que se despejou um par
de riachos,
e eu não sabia disso, não assim,
que a vida, em sua essência inteira,
é só
um nome, na linha
da fronteira —
e é como se eu nunca tivesse
existido, e como se nada
do que me aconteceu
jamais tivesse acontecido, até
que você, ou eu,
até que morri, ou
morreu —
os caminhantes:
Amanheceu. No céu
navegam nuvens finas
e vermelhas.
Subimos das covas devagar, ficamos
nus
ante a muralha.
E de novo nos parece
que ela estremece, um frêmito que passa
e repassa de alto a baixo
e de um extremo ao outro,
como o tremor de uma onda transparente.
E não conseguimos falar, está cortado
nosso alento, um muro
de rocha mas tão cheio
de murmúrio.
parteira:
Um rosto —
mulher do anotador dos anais da cidade :
Ali,
na muralha,
nas pedras,
eu vejo
um rosto —
anotador dos anais da cidade:
Não, querida,
v ê, bem aqui, aqui
está o rosto, o corpo
quente
e vivo,
ao passo que lá —
lá o que há
é uma ilusão
que só cria nostalgia.
mulher do anotador dos anais da cidade :
Um rosto de mulher
jovem,
ou de um homem,
ou de um rapaz —
duque:
E ele
se move
e varia
e vive.
parteira:
Estou sonhando,
certamente
estou sonhando,
meu Deus, é um rapaz ali? Ou
um menino?
Ou talvez, sim,
uma menina?
Menina, me-ni-na,
olhe por favor
para mim...
sapateiro:
Como que em cera
estampado,
ou como
em couro.
velho professor de matemática :
Ou em devaneio,
ou mesmo em sonho, não —
não, eu não
me engano, o
que eu vejo é um rosto
humano.
os caminhantes:
Um menino, vemos
um rosto de menino, num relance,
indícios de sua testa, seu queixo fino... trememos,
o menino também
estremece. Em ondas,
figuras fragmentadas fluem
nas pedras,
vivificando nelas um relevo
sussurrante
e se movendo —
anotador dos anais da cidade :
Ou é só impressão
de um anelante coração
enlouquecendo?
os caminhantes:
Será somente um leve inchar
na rocha,
ou é o nariz
pequenino
de um menino?
E sua boca,
estará se abrindo, ou se curvou
como em caretas? Ou é fragmento
de rocha entre suas gretas?
Menina? Foi uma menina
que lhe surgiu em cima, e já
não está? E voltará?
O cintilar
de uma menina flutua, recua, como
se se chocasse, a pequenina,
nos portais da realidade
e se assustasse...
E ela ainda se evapora, e a nossos olhos agora
o rosto do menino muda, transformado
no rosto de um rapaz, alongado,
fino e delicado.
E seu perfil
lentamente
se volta para nós,
com um espanto
que não tem
fim.
E ele nos
encara, seus dois
sobrolhos
são suaves arcos
no muro. Cada um de seus
olhos
é um orifício
escuro.
anotador dos anais da cidade:
Estão enlouquecendo
pouco a pouco. Atenção, amigos,
vejam: é uma muralha!
Blocos de pedra! E os rostos
que seus olhos veem
não passam de efeitos de luz,
meros jogos
de pedras
e sombras —
os caminhantes:
Mas são tão cheios
de vida! Neles
perpassam lampejos
de um sorriso, espantos,
tristezas, como se,
tão carentes,
tão descrentes, estes rostos quisessem
experimentar uma vez mais,
a última,
todas as expressões,
e também provar
dessa maneira
a plenitude do sabor
das emoções
que lhes roubaram.
Em nós os corações
batem: nossas almas
se debatem, suspirando
por sair, de sua prisão
se livrar, passar
deste lugar
para o de lá... Estão tomadas
de loucura: nossas almas
são como garças e cegonhas
engaioladas, enquanto passa
no céu límpido
um bando de aves,
migrando para casa.
anotador dos anais da cidade :
Esta é a ânsia, não tenho dúvida, é
esta ânsia que também minha razão
cada vez mais avassala, ouçam-me,
me ouçam — é a ânsia
e só ela que na pedra entalha
vivos nossos amados,
iluminados, sim, lá,
vejam, lá! Nos relevos
da pedra.
os caminhantes:
E mais do que tudo, as bocas.
Se mexendo, se mexendo sem parar, escancaradas,
se rasgando, distorcidas,
e arredondando... talvez
rezando?
Para quem?
Amaldiçoando?
Quem?
centauro: Com todos os demônios, se eu apenas pudesse estar com eles! Se eu pudesse só estar lá, e não sentado aqui e escrevendo e escrevendo! Eu arremeteria de cabeça e romperia a muralha, eu a atravessaria e correria para dentro, eu —
os caminhantes:
E os corpos deles também
arremetem, investindo de lá
sobre a muralha: Lutam? Com quem?
Com o quê? Combatem com toda a força
para de novo irromper
para cá?
anotador dos anais da cidade :
Ou fazem como um menino
pequeno, que só agora acordou
de seu sono e ainda
confuso e envolto em seu sonho golpeia
o peito da mãe, e se enlaça,
e golpeia, e golpeia
e a abraça...
os caminhantes:
Vimos um braço, um ombro
fino e magro, um joelho, e outro,
e dois botões
brotaram, se altearam,
seios de garotinha,
apontando. E acima deles o seu rosto,
que devagar se transformou
num rosto sorridente de rapaz, e o par
de seios se fez os rostos
de bebês, menina
e menino... Longas
mãos ali pousaram, dez
finos dedos se espalharam
como grinalda, em volta
do rosto do rapaz.
Seu nariz, assim parece,
se espreme
na escuridão de uma vidraça de janela,
tentando penetrar
com o olhar na espessidão
do escuro.
Está tentando? Será que tenta
nos chamar? Ou prevenir?
Talvez de lá pareçamos
nós também apenas traços
tênues, lutando
para nos livrar do sólido bloco
de rocha —
Medo,
o medo nos assola. Breve tudo
se evapora, agora, correr agora, colar
o rosto na muralha, rompê-la,
de lá puxá-los,
arrancá-los.
Mas congelamos, não
nos movemos! Se falarmos
com eles, pensamos, nós lhes
diremos o que não dissemos
em suas vidas, ou clamaremos
a eles por entre as bordas
do buraco em nós
rasgado, pelo qual
nossa vida se esvai
em grandes golfadas.
centauro: O caminhante cai de repente de joelhos diante da muralha e sussurra o nome de seu filho. Não há som algum em seu sussurro, só uma boca aberta e olhos arregalados, e eu, em meu quarto distante, sinto como uma lâmina afiada voa de lá e me corta aqui em dois, e no desfalecer de uma dor tão doce ouço atrás de mim, de uma pilha de objetos, a voz de um menino dizer baixinho, num suave balbucio —
menino :
Tem
alento, tem
alento, dentro
da dor tem
alento.
centauro: Eu me levanto, fico de pé. Caminho pelo quarto para cá e para lá, levanto um ou outro objeto e toco nele, e o acaricio e o levo a meus lábios. Depois volto e fico junto à janela. Com o binóculo que encontro em uma das pilhas posso ver melhor: o balbucio do caminhante parece ter retardado também os que caminhavam atrás dele. Assim como ele, caem de joelhos a parteira e o sapateiro, o velho professor, a cerzidora de redes e o duque, o anotador dos anais da cidade e sua mulher. E cada um deles, cada um de nós, chama, sussurra para seu filho:
os caminhantes:
Lili —
Adam? Minha
pequena Lili — Michael — ah, meu filho,
meu encanto, minha perda — Chana,
Chana, olhe para cá — perdoe, Michael,
por eu lhe ter
batido — Adam, é seu
pai — U-i — minha migalha
de vida — — —
Despertamos
estendidos sobre
a terra,
e a muralha
já não está lá. Talvez
jamais tenha
existido. Talvez nada
de tudo que vimos
tenha mesmo acontecido.
Foi só uma ideia
estranha, oculta
e comezinha, que
nos ocorreu a todos, como a
costurar cada um de nós
com a mesma linha:
talvez no momento
em que o homem
se pôs de pé
na pequena cozinha
e disse
para a mulher, eu
preciso
ir para lá —
talvez nesse momento
moveu-se
alguma coisa também
lá.
E quando o homem
começou
a andar
em torno de si mesmo
em círculos
em volta de sua casa — também
eles, lá,
começaram
a andar
para cá,
para o lugar
do encontro?
E agora
imaginamos a todos
um pouco encurvados,
se apagando,
voltando
lentamente
ao seu lugar.
o caminhante:
E ele-mesmo
está morto,
eu entendo, quase,
o significado desses
sons: o menino está
morto,
eu reconheço assim
nessas palavras a verdade
sem conforto. Ele está morto.
Ele
está morto. Mas
sua morte
sua morte
não morreu.
centauro:
Mas meu coração se dilacera
em mim, querido meu,
quando penso
que eu —
que isso é possível —
que encontrei
para isso
palavras.
Abril de 2009 — maio de 2011