Fora do Tempo
Fora do tempo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
eu continuo, eu guardo,
entesouro
e ressuscito, o menino
que você foi, o homem
que não será —
você talvez sorria: “Que é isso,
pai? Experimentos com um ser
humano?”
Eu dou de ombros: não, isso
é a empresa
de uma vida.
Veja, eu súbito me inflamo,
eu vou criar
você, ou ao menos um
palpitar
de vida
seu, e por que não,
com os diabos,
por que voltar atrás?
Já fiz isso uma vez,
e agora quero
você
muito
mais.
mulher que ficou em casa:
Baixei
todas as persianas. Apaguei todas
as luzes. Minha pele cobriu-se
de feridas e abscessos. Obscuro
silêncio. Escuro
silêncio. Dias
e noites e eu
dentro dele, um feto
pós-maturo, petrificado,
que a tragédia concebeu
depois
do climatério.
Até que súbito acordei
de meu desmaio, e como que
um ventríloquo de meu ventre
falou: eu
perco
meu filho
mais uma vez.
anotador dos anais da cidade: Debaixo de um lampião de rua que derrama uma luz amarelada, um homem idoso escreve com giz na parede de uma casa. Seu cabelo muito branco, como um halo, paira em torno de sua cabeça, seu bigode de morsa é prateado, e por um instante eu exulto, pois esse homem é o meu professor, professor de matemática no curso fundamental, um homem simpático, que há muitos anos passou por uma tragédia, não me lembro o que foi, e depois sumiu. Pensava que tinha morrido, e ei-lo aqui de pé na noite avançada anotando na parede imunda de desenhos pornográficos colunas de números e de exercícios numa escrita pequena e organizada. Quando percebe a minha presença, não se assusta nem um pouco: ao contrário, sorri para mim com uma boca desdentada, como se durante muito tempo tivesse esperado só por mim, e faz sinal com um dedo torto para que eu me aproxime da parede.
velho professor de matemática :
Dois e dois são
quatro. Repita
comigo: três
mais três são seis. Dez
e dez — vinte. Mais uma vez
você se atrasou, meu jovem, amanhã
terá de trazer
seus pais —
anotador dos anais da cidade : Mas professor, o senhor não se lembra de mim?
velho professor de matemática :
Desculpe, senhor, desculpe,
a escuridão, e também meus olhos... Você
é o anotador-dos-anais-da-cidade,
é claro.
Então: quanto ao que foi
perguntado, ou que estava a ponto de ser
perguntado
tenho tão pouco a dizer,
e eu também
um pouco me espanto: pois
já há vinte e seis anos
esta é a grande ocorrência de minha vida,
a única, consumada,
mas para surpresa maior,
e também embaraço maior,
não sei sobre ela
nada.
“Mas como é que ela é”,
as criaturas perguntam às vezes,
e eu também mais de uma vez pergunto
a mim mesmo:
como um bloco de concreto?
Uma barra de ferro?
Compacta represa?
Rocha
basáltica?
Ou talvez — como cebola
camada a camada?
Não-não, eu
me desculpo, nem
isso nem aquilo, e não
pense, meu senhor, que eu
me esquivo à resposta:
realmente quanto a isso não sei
nada.
Só sei que está aqui.
É um fato. E ele
com todo seu peso
meus dias
dilapida. Ele
suga
minha vida
sofrida. E basta,
desculpe, senhor,
mais do que isso,
em suma,
não sei
coisa alguma.
anotador dos anais da cidade: E já me vira as costas e volta a escrever números na parede da casa em sua caligrafia miúda. Por longos minutos continuo a contemplá-lo, haurindo um estranho conforto de seus movimentos leves e rápidos. E de repente me lembro do que lhe aconteceu, e fico surpreso de ter esquecido, quase vou de novo até ele para lhe dizer, professor, assim e assim aconteceu comigo também, e o senhor nunca me ensinou o que se deve fazer então.
parteira:
Um b-bebê,
se um só bebê surgisse
de um útero para minhas
duas mãos ex-p-pectantes, minhas
mãos de parteira
vaz-zias,
ainda coberto do orvalho
do parto, preso ao cordão
umbilical, e vagindo,
só
que não sei
se afinal
nesse instante
não vai se desfazer
nas minhas mãos
em pó —
Mas o q-que é
isso? S-sua
boca, o que
você fez
consigo?
sapateiro: Não é nada. Não é.
parteira:
A b-boca,
a boca, a-a-a-
abra
a boca!
sapateiro: Não, deixe, não toque, toda a minha força vem deles.
parteira:
E como não
p-per-percebi... como? Eu
p-pensei
que só q-quando você
trabalha você... e como
você comeu
a-as-sim? E como
você vai t-t-tirá-los,
eu peço, eu
imploro, tire
tudo —
sapateiro: Não, não posso, quem vai cuidar que eu...?
parteira: Tire-os!
sapateiro: Para que eu não morda a mim mesmo
parteira:
S-s-sim, mais,
tire, cuspa, tem
mais, e mais
um, sim, me dê, na
mão... tem mais, meu Deus,
é tão afiado... tem sangue...
t-toda a sua
boca é feridas
e ferrugem.
anotador dos anais da cidade: Ela abre a janela e joga todos fora. Eu os ouço cair em torno de mim num tilintar metálico, e o sapateiro lá está perplexo, a mão no rosto e a língua a se revirar na boca, perscrutando a saliva.
sapateiro: Havia dez como esses. Pequenos, e grandes e tortos, e um grosso e sem cabeça, era como um polegar, assim eu o chamava. Já se tinham tornado pedaços de mim. Um para cada dedinho dela que eu beijava.
anotador dos anais da cidade: E ainda na mesma noite o caminhante ouve passos atrás de si, e lá está o sapateiro, num andar um pouco encurvado, e ele pergunta num murmúrio: Você estaria precisando de sapatos? E o homem diz que não precisa de nada, só de andar, e de que não o perturbem. E o sapateiro olha para seus pés descalços e feridos e lhe diz que aqui, na mochila, ele tem ferramentas e um pedaço de couro, e que pode fazer facilmente um par de bons sapatos. E o homem não responde, eles continuam a andar por algum tempo, e por fim o sapateiro lhe pergunta se pode andar assim atrás do caminhante, e o caminhante não responde, tampouco interrompe sua marcha, e só dá de ombros como a dizer, se você quiser, mas eu caminho só.
Agora eles são dois, Vossa Alteza. Podeis vê-los de vossa janela. Na frente, o homem alto e ossudo, de cabelos e barba revoltos, e atrás dele, a alguns passos de distância, o sapateiro, braços caídos para o chão, e de vez em quando ele vira a cabeça para trás, para a mulher delgada, ereta, à janela da cabana.
parteira:
E se
não,
se não se des-f-fizer
o bebê
em pó, se permanecer
quente e sólido
ao vagir
e chorar,
talvez então
o mundo todo vai voltar
a se irmanar
em minha mão?
mulher que saiu de casa:
Cinco anos após a morte
de meu filho, seu pai
saiu para
encontrá-lo.
Eu decidi
não acompanhá-lo.
No alto do campanário
no coração da capital regional
cem milhas distante
de minha casa, eu agora
caminho sozinha
em círculos, eu
circundo
o espigão de uma torre
férrea, lenta
lentamente, volta
a volta, noites,
dias,
em meu pequeno círculo
diante dele,
e ele
que está nas colinas
diante de mim, dias,
noites,
traça
o seu círculo.
centauro: Mas se eu não escrever isso, não vou compreender —
anotador dos anais da cidade: É assim, duque, como que por acaso, que o Centauro fala ao anotador dos anais de vossa cidade, quando passo em frente a sua janela ao entardecer — passo seguindo vossas ordens, sob profundo e veemente protesto.
centauro: Não vou compreender o que aconteceu, tampouco o que sou agora depois que aconteceu. E o mais terrível, barnabezinho, é que, se eu não escrever isso, também não poderei compreender quem é ele agora, quer dizer, o meu filho.
anotador dos anais da cidade : Eu também não compreendo do que ele está falando. E ele, é claro, não explica. Só ergue o nariz numa espécie de orgulho inflado e ofendido, e vira-me as costas na medida em que seu corpo disforme permite. Mas ele também me acompanha com o canto do olho, e no momento em que dou um basta às suas encenações e me disponho a ir embora —
centauro: Assim são as coisas comigo, barnabito, é desse jeito que eu sou. É um fato! Não sou capaz de compreender algo enquanto não escrever! Compreender de verdade, quero dizer, minuciosamente! Por que é que você fica me olhando? De novo essa cara de órfão! Escrever mesmo, eu lhe digo, não apenas ruminar o que mastigaram e vomitaram mil pessoas antes de mim, como você gosta tanto de fazer, hein, caderneta? Incitar, citar, anotar cada perambulação delas em letras caprichadas, hein? Então agora, por favor, escreva em letras bem grandes, gigantescas: Eu tenho de criá-lo novamente na forma de uma história! Captou?
Ele, idiota! O fato, o que aconteceu! O que você não está entendendo aqui? Isso, essa coisa filha da puta que aconteceu comigo e com meu menino, sim, tenho de misturar tudo dentro de uma história, sou obrigado. E que haja ação! Imaginação! E visões e liberdade e sonhos! Fogo! Um caldeirão a ferver!
anotador dos anais da cidade: Grandes gotas de suor rolam nos vincos de seu nariz. Seu rosto é uma tempestade vermelha. Anoto febrilmente, totalmente hipnotizado por ele, sem olhar para o papel, a mão correndo sozinha.
centauro: Só assim eu posso, de algum jeito, me aproximar dele, desse isso, maldito seja, sem morrer disso, percebe? Tenho de me mover à sua frente, me deslocar, não ficar petrificado como um rato diante de uma serpente! Tenho de sentir, mesmo que por um só instante, por meio segundo, o último lugar livre que talvez ainda tenha restado em mim, a partícula de centelha que ainda, de algum modo, cintila lá dentro de mim, que esse desgraçado não conseguiu apagar...tfu! Não tenho alternativa, compreenda: eu não tenho alternativa. E talvez não haja mesmo alternativas, hein? Não sei, e você com certeza não vai entender, então pelo menos anote, depressa: Eu quero amassá-lo, revolvê-lo, esse isso, sim, isso que aconteceu, isso que veio como um raio e queimou tudo que eu tinha, as palavras também, maldito seja e maldita sua lembrança, as palavras que poderiam me descrever isso ele queimou, o desgraçado. Eu preciso misturá-lo com algo de mim mesmo, sou obrigado, do mais fundo de mim, a soprar dentro dele minha pobre respiração, tentar fazer dele um pouco, como lhe explicar, um pouco meu, meu... Eis que alguma coisa de mim, de meu, já se encontra nele, bem dentro dele, em sua prisão maldita, então talvez haja sobre o que falar, regatear... hein? Anote, facínora! Não pare de anotar. Que jeito que você tem de me olhar! Quando finalmente consigo dizer uma palavra sobre isso, respirar... E também quero criar figuras, preciso, tenho que, é sempre assim comigo, figuras que jorrem para dentro da história, que fluam, que arejem um pouco meu cárcere, e que surpreendam, a ele e também a mim, claro, que me traiam, que o traiam, esse filho de mil putas, que caiam sobre ele daqui e dali e de todos os lados e ao revés e com um laço, por mim podem meter em seu traseiro, contanto que o façam se mover um milímetro, não precisa mais, que pelo menos em minha página ele se mova um pouco, que esperneie, e só
que não seja
tão
tão inatingível
por
nada.
anotador dos anais da cidade: Ele se cala, seus olhos se arregalam de pavor, como se de repente o chão faltasse sob seus pés e ele mergulhasse, bem à minha frente. Uma de suas mãos se ergue debilmente, como se ele tentasse se agarrar em mim. Só agora, Vossa Alteza, começo a perceber o que todo o tempo estava bem diante de mim: o caderno, as penas sobre a mesa, as páginas em branco —
Contemplo essa criatura corpulenta e grosseira. Uma como essa, nunca cheguei a imaginar.
centauro: Agora vá embora daqui. Eu lhe imploro, vá. Mas volte, sim? Voltará? Quando? Amanhã?
anotador dos anais da cidade: No dia seguinte, numa gaveta empoeirada dos arquivos da cidade, encontro sua pasta. Ele não mentiu: até alguns anos atrás, escrevia histórias. Escrevia canções também, e baladas, e um poema. Vi que os críticos em geral lhe torceram o nariz, embora aqui e ali dissessem dele coisas boas: “Como o José da lenda”, poetizou alguém, “sementes se projetam dos dedos de suas mãos”.
Lá estão registrados também os boatos que circulam a seu respeito, e a respeito de sua estranha alcunha de “Centauro”. Histórias da carochinha, Vossa Alteza, acredite quem quiser! Eu quase sou tentado a anotá-las aqui, por divertimento, mas, quando deparo com o olhar sarcástico que vossa imagem me envia da ordem que tenho nas mãos, sei que não devo constranger-vos mencionando tolices primitivas como essas num documento oficial do ducado.
mulher no alto do campanário:
Às vezes passantes
sobem à torre, observantes
de pássaros, ou amantes
de sinos, ou turistas,
e mais que todos, os que põem as vistas
em nossa guerra
eterna, lá no vale além das colinas.
Ficam horas, bebem, escarram
e olham nos binóculos, e apostam
resultados, e bebem de novo, gritam
hurra, a plena voz, se
algum pobre soldado lá — impossível
distinguir
se é nosso ou se é deles — consegue
com grande dificuldade
erguer sua espada. Você também esteve
lá, meu filho, o que
fazia
lá, o que
tem a ver
lá com você? —
e entre esses hurras
e as bebidas e as piscadelas, eles olham
para mim, apontam com o dedo, riem,
às vezes beliscam também. E o que
podem ver? Uma mulher
da aldeia, da zona dos pântanos, com rosto
de aldeia e pernas grossas, e uma longa
trança, cinzenta, e não se move
quase, e anda
devagar,
devagar,
três-quatro passos
por hora, mulher doida.
Riam, sorrio eu, riam,
bom proveito, e em torno de mim
gira a torre devagar, um passo,
mais um passo, um passo mais.
Meus olhos não desgrudam dele
nas colinas,
e eles, em torno de mim, e ele
e eu,
e eu
e ele,
e nosso filho
é um fio
entre nós.
o caminhante:
Um raio penetra
em mim, me atinge
as fendas, as profundezas,
armado e tenso:
onde está você?
Em qual dos caminhos
virá se revelar um dia,
se erguer
em minha fantasmagoria?
Jogando futebol?
Preparando o molho do bife?
Fazendo a lição,
a cabeça apoiada na mão?
Jogando pedrinhas
na água?
Há muito tempo já sei,
é você
quem decide
como aparecer a mim
e quando. Você,
e não eu, escolhe
como vai falar
comigo. Mas seu
vocabulário, meu filho —
eu sinto — vai diminuindo
com o passar dos anos.
Ou pelo menos as palavras não
se renovam: futebol,
bife, lições, pedras.
Mas você tinha muitas mais
(toda a vida, meu querido,
um acervo imenso),
mas você parece insistir
em se entrincheirar
no sucinto —
bife, bola, pedras, deveres de escola,
e mais dois ou três momentos
breves, aos quais você volta,
fazendo voltar —
a aurora à beira do rio, no norte,
a história que lhe contei,
o estranho nicho na rocha
cinzenta, onde você se aninhou,
se enroscou,
tão pequeno
que era,
e o azul de seus olhos, e o sol, e os peixinhos
que saltavam na água como se também quisessem
ouvir a história, e o riso
que rimos juntos —
só isso, só essas, de novo
e de novo, as lembranças
estas, e as outras que tais
se esvaem, finais,
cada vez mais...
O quê?
Propositalmente você
me rouba o consolo, a mercê?
Então eu penso, talvez
assim você me acostume
aos pouquinhos
ao apagar
da dor? Talvez, com uma delicadeza
sem igual, com os perenes
bons sensos tão seus,
você me prepara
lentamente
para isso,
então,
para o adeus?
centauro: Você voltou. Finalmente. Eu já tinha certeza de que não... de que você se assustara comigo... Ouça, andei pensando sobre isso: você e eu formamos um estranho par, não é? Pense: já há anos não consigo escrever, nem uma só palavra sai de mim — e você, dá para ver, pode escrever, na verdade anotar, quanto quiser, caderninhos inteiros, papelada sem fim! Mas, pelo visto, só aquilo que os outros lhe dizem... só citações, hein? Mastigações e ruminações de outros. E você só as descreve, assim, com a pena rápida, num esboço... estou certo? Nem uma só palavra realmente sua? Hein? Nem mesmo uma letrinha só? Era o que eu pensava. O que se pode dizer, que dupla fantástica a nossa... Então agora anote depressa, por favor, antes que me escape: E dentro de minha cabeça o tempo todo tem uma guerra vírgula as vespas não param de zumbir dois-pontos o que vai adiantar se
você escrever ponto de interrogação, o que acrescentará
ao mundo se imaginar ponto
de interrogação e se realmente
for obrigado vírgula então escreva apenas
os fatos vírgula o que
tem a dizer
além deles ponto
de interrogação escreva-
-os e cale-se
para sempre dois-pontos na hora
tal e tal vírgula no lugar
tal e tal vírgula meu filho
vírgula único vírgula com
onze anos e meio
ponto o menino
não está mais
ponto
anotador dos anais da cidade: E a estas últimas palavras, com as duas mãos e uma força terrível ele golpeou a mesa, e seu rosto se contorceu numa dor tão intensa que por um momento me pareceu, Vossa Alteza, que ele golpeara o próprio corpo e a própria carne.
parteira:
Meu Deus, a dor que de repente
dilacera meu ventre,
minha filha,
se eu apenas soubesse que também l-lá,
quando você chegou,
quando acabou
de agonizar —
a receberam mãos
amorosas e uma toalha
morna
e olorosa, e alguém,
ou algo, em cujo acalento
você descansou
no primeiro momento.
anotador dos anais da cidade: Junto à estação ferroviária, no escuro, ao lado de uma casa quase a cair, está o velho professor. Sua cabeça prateada se apoia numa parede da casa como se ele lhe sussurrasse segredos. Num gesto autoritário, como se também desta vez só estivesse esperando por mim, ele me convida a sentar a seus pés na calçada. Dois mais dois são quatro, eu balbucio com ele, e logo sinto um alívio. Três mais três são seis. Quatro mais quatro — oito. Parece que minha presença lhe inspira vitalidade: ele rabisca exercícios na parede em movimentos rápidos, e seus olhos se iluminam. Cinco e cinco são dez, eu repito com ele, cantarolando, curvando o pescoço para trás para vê-lo ali de pé sobranceiro. As abas de seu paletó esvoaçam quando ele salta de exercício em exercício, sua voz fica suave e fina, tenho a impressão de que meus pés não chegam até o asfalto e que posso balançá-los, dez e dez são vinte, eu exclamo com entusiasmo, e da janela no segundo andar alguém joga em nós um líquido fedorento e grita que deixemos as pessoas dormir.
Eu me levanto e fico de pé ao lado do professor. Estamos os dois molhados e constrangidos, como se tivéssemos sido pegos numa tentativa idiota de fugir da prisão. O pequeno e enrugado professor parece de repente um bebê. Se eu pudesse tocar em alguém, eu o tomaria em meus braços e o acalentaria, cantando para ele até que adormecesse. Por isso abro meu caderninho, e na voz mais protocolar que sou capaz de extrair de mim eu lhe peço que especifique.
velho professor de matemática :
... e ele não tem brechas? Eles
pressionam, os que perguntam:
ou rachaduras
ou sulcos?
Não.
E você pode
tocar nele?
Não há como tocá-lo.
Mas diga: ele é compacto
ou oco, da sua vida
o grande fato? É relaxado
ou tenso?
Não, não, respondo contrito, ele
está aqui, está
aqui!
Mas isso você já disse!
Sim, estranho como é pouco
o que tenho a dizer
quanto a isso.
Impressionante
e frustrante, eu sei,
mas ele, ou seja, “isso”,
ou seja, a morte
de meu filho, de Michael, há
vinte e seis anos, num acidente
bobo (uma brincadeira que se complicou,
uma banheira, e uma navalha afiada,
veia seccionada,
enquanto
brincava) —
isso como que engole,
põe para dentro as palavras
e o bom senso,
todas as chaves.
E só uma coisa
resta permanente
e firme:
ele, o fato.
Aqui.
Se eu for ou se eu voltar,
se me levantar ou deitar —
isso está aqui.
Quando estou só
ou me sento na praça
ou dou uma aula sofrida
isso está aqui
preenchendo-me assim
sem medida
não deixando às vezes lugar
nem para mim.
Sim, é o que eu queria dizer
(e talvez o senhor deva escrever):
que não tenho lugar
para mim, nem para
respirar. Sim,
a questão é essa:
uma respiração
sem pressa,
respirar
profundamente,
completamente
e simplesmente,
sem o espasmo crucial
de horror
abismal —
Mas sobre a coisa falada
(já mencionada, em suma) —
coisa alguma,
nada.
o caminhante:
E se me lampeja a memória —
você faz as lições na cozinha,
ou sorri na praia, numa foto antiga,
ou apenas dorme em sua cama —
logo eu desperto
para viver
o que era um minuto antes,
o que foi um minuto depois,
antes de ter capturado você na lembrança,
depois que o fotógrafo a congelou.
Eu lhe faço uma massagem:
para que seu semblante se espraie
num sorriso,
e lentamente persiga
um devaneio.
Que os olhos se iluminem de repente,
que mudem de cores
na luz,
cheios de irada paixão
ou estupefação,
ou conspiração.
E assim você caminha no quarto
para cá e para lá e ao sabor do dia,
pequenas ondas
de graça
e candura e juventude
movem-se sob a sua pele,
na testa se agita seu cabelo
claro.
E agora vai se virar para mim e dizer:
mas pai,
você não compreende —
Ou quando dorme, coberto com um lençol
seu peito a subir e descer,
sobe
e desce,
e de novo sobe
(ah,
demais eu pedi.
Percebi.
Castigo eu sofri).
E no entanto, meu filho,
enfim,
você se move,
você se move,
em mim.
centauro:
E às vezes eu faço joguinhos
com ela, com aquela
maldita, provocações verbais: “A morte
morre”, eu pisco para ela, como
se fosse um joguinho
de nós dois: “A morte será morrida, ou
talvez, se morrerá? Morrer-se-á?
Morrificará?”. Conjugo com ela, pacientemente,
mais e mais, tentando, repassando, “nós
nos morrificamos, vós
vos morrificareis, elas se morrificarão”, lutando
com ela assim, que mais posso fazer,
nem escrever nem
viver, pelo menos
a língua
ficou, pelo menos ela ainda é um pouco
livre. Permitida... é sábia
a língua, verdade, meu barnabé? Cheia
de mistérios e alusões
e liberdade. Veja a palavra
“paiei”, fui pai,
“Quão tanto
eu paiei
meu filho” —
anotador dos anais da cidade : Conte-me sobre o berço.
centauro: Como é? O que você disse?
anotador dos anais da cidade : O berço. Na grande pilha, atrás de você.
centauro: De todo coração, funcionário infeliz, espero que meus ouvidos me tenham enganado.
anotador dos anais da cidade : Tem dois patos desenhados nas cabeceiras.
centauro: Que pena, funcionário, você estragou tudo.
anotador dos anais da cidade: Seus ombros começam a inflar. Seu rosto também. Minha aposta fracassou. Ele se esforça por se afastar da mesa e se levantar da cadeira. É preciso dar o fora daqui, depressa. Nunca o vi a não ser junto a sua mesa. Na verdade, até este momento, nunca o vi de pé. Lembro-me das coisas que li sobre ele nos arquivos da cidade. Esta é a hora de fugir, mas minhas pernas não me obedecem. Ele vai crescendo diante de mim. Vai se levantar, isso é evidente, se levantar e arrancar com ele a casa inteira, romper o telhado. Os brinquedos e as roupas e os outros sedimentos da infância que aqui estão vão virar pó e voar para todos os lados. Pena. Pena. Estava quase começando a gostar dele. Ele suspira, o rosto trêmulo. Enquanto isso eu ouço lá junto a ele, bem dentro do quarto, fortes pancadas e também um rangido estranho, como uma grande unha córnea arranhando uma lajota. Fecho os olhos e digo pressurosamente para mim mesmo que é só a mesa, é só a mesa que range assim. Um pensamento lampeja em mim: ele vai se levantar da cadeira, puxar-me para dentro de seu quarto e me devorar lá. E mais um pensamento: esta mesa tem ferraduras nos pés.
centauro: Para o inferno! Para o inferno. Nem mesmo ficar de pé? É uma merda! Merda!
anotador dos anais da cidade : Sua cabeça descai sobre o peito e ele chora, juro, ele chora. É melhor eu ir embora. Assim não vou envergonhá-lo. Espero mais um instante e vou. Seus ombros se sacodem em tremores rápidos, partidos. Ele cobre o rosto com as mãos. Eu fico contando as fendas e rachaduras da calçada. Corrijo alguns erros em minhas anotações no caderninho. Depois, sem alternativa, começo a prestar atenção nas diferentes camadas de seu choro, até que encontro aquela que me é tão conhecida. Eis aí, se fosse eu a chorar, assim seria meu choro. Presto atenção. Desde o momento em que aquilo aconteceu a minha filha proibi a mim mesmo qualquer tipo de autopiedade. Isso exige, evidentemente, uma certa medida de autocontrole e uma permanente vigilância. Até durante a noite. No entanto, não posso proibir o Centauro de chorar. É uma questão particular dele, mesmo que, por alguma razão, ele teime em chorar usando a minha voz. Tento adivinhar o que faria minha mulher numa situação dessas. Ergo-me na ponta dos pés. Minha mão paira no ar por cima de sua cabeça. Essa mão que não tem o direito de tocar em ninguém, uma pobre mão, impura, a mão de um medroso. Respiro profundamente, fecho os olhos e acaricio seus cachos. “Shhh, shhh”, eu lhe digo.
Sobre ele desce o silêncio. O silêncio paira em toda a cidade. Não ouso me mexer. Assim, enquanto minha mão pousa sobre a cabeça do Centauro, ouço de repente, muito perto de mim, exatamente no lugar em que minha mão toca em sua cabeça grande e suada, a voz do homem que anda pelas colinas.
o caminhante:
No primeiro ano
após, quando estava em casa
a sós, eu chamava às vezes você
pelo nome que usávamos em
sua infância.
Com uma força que não havia em mim,
num desvario, eu injuriava
a alma, o corpo vazio, eu fundia
nessa palavra curta,
almejada,
todos os pós da magia:
do lar o aconchego,
o sossego,
rotina, uma certa
indiferença...
e eu então chamava
num acaso
premeditado:
U-i?
Se o fazia com esmero, assim esperava,
(visionava, tramava),
você não poderia deixar
de responder a tal
simpleza, que atravessava
fronteiras
e mundos —
eu diria “U-i”, e você
deslizaria até aqui e se concretizaria
facilmente, eco
de meu chamado,
como uma pequena preamar
a transbordar
de lá
para o real. E seria esta
a sua resposta,
natural e factual,
como a resposta
da expiração
à inspiração,
reverência fina
à milagrosa força
da rotina.
Ah, eu lhe diria,
está a fim de assistir comigo
a um jogo? Talvez
sair numa curta
caminhada, juntos?
Como pôde ser, meu menino,
que de todas as palavras
e outras mais,
existe uma
à qual jamais,
jamais
você responderá?
anotador dos anais da cidade: “Mas onde fica lá?”, pergunta minha mulher no dia seguinte, na hora de nosso passeio vespertino, ela na rua, eu seguindo atrás dela, escondido entre as sombras: “Onde está este lá para o qual ele está indo? Quem acredita que existe tal coisa, lá?”.
Assim, durante a tranquila caminhada, ela lança essas palavras ao espaço! Minhas pernas quase fraquejam de tanta surpresa. Olho em volta para ver se alguém a ouviu, mas por sorte só ela e eu estamos na rua a esta hora.
“Talvez lá já esteja há muito tempo aqui?”, ela continua, e fico ainda mais perturbado com a nota prosaica na sua voz: como se fosse uma conversa trivial na cozinha de nossa casa.
“E talvez nós talvez estejamos um pouco lá, desde que isso nos aconteceu?”, ela diz se empertigando, e tenho a impressão de que seus passos ganham um novo ímpeto: “E talvez lá sempre esteve aqui e não sabíamos?”.
Um vento frio está soprando. Ela envolve o pescoço num xale, mas seus belos ombros ficam desnudos. Ela faz isso para mim. Hoje é meu aniversário, Vossa Alteza, e ela sabe o quanto eu gosto deles, dos ombros dela.
“E se for assim”, ela respira profundamente: “então talvez, talvez também ela esteja aqui conosco, em cada minuto?”.
Ante a força pungente dessas palavras, nós dois nos detemos.
“Imagine você”, ela sussurra.
Continuamos a caminhar, ela à frente, eu na sombra das casas, entre os quintais escuros, e nada dentro de mim.
velho professor de matemática :
“Um pai não viverá mais do que seu filho”,
eis uma regra cuja lógica
sensata está plantada
não só na vida das pessoas, mas
também, como se sabe, na ciência
da óptica, onde
(no espírito do reverenciado
Spinoza, lapidador de espelhos)
achamos um teorema
muito ousado: “Jamais
poderá um objeto (a vida do filho)
se encontrar no universo
a uma distância
da qual o pai (‘o sujeito
contemplante’) poderia
abarcar num só olhar
ele inteiro
do início ao fim”.
Pois se não for assim
(e isso acrescento eu),
o sujeito contemplante
vai virar,
de uma só vez,
um bloco
de lignito
(que também chamam, e eu abono,
de “carbono”).
anotador dos anais da cidade: Agora, dia após dia, o andar desse caminhante se torna mais obstinado. Por momentos parece, Vossa Alteza, que uma força inominada paira em torno da cidade, envolvendo-a, e como alguém a chupar um ovo por um furinho em sua casca ela suga essas e outras pessoas, de dentro de cozinhas e praças e píeres e camas. (E será verdadeiro o boato estrondoso, estonteante, Vossa Alteza, de que até mesmo das câmaras de um palácio?)
Também a mulher no alto do campanário — de vez em quando levanto meus olhos e a vejo lá, entre as nuvens, a trança desfeita e o cabelo prateado esvoaçando para todos os lados — também ela às vezes tem de se segurar com as duas mãos na coluna do campanário, para não ser arrastada nessa cega tempestade. Agora, por exemplo, sua boca está aberta, e não sei se está gritando em silêncio, ou engolindo avidamente palavras que lhe assomam e vêm —
o caminhante:
Como quando o feto emerge do útero
e do corpo da mãe,
sua morte fez de mim um pai
que não
fui jamais —
abriu
em mim um rasgo, uma ferida
e um vácuo, mas também me preencheu
de sua essência,
que desde então em abundância
irrompeu em mim,
nunca houve uma vivência
como tal —
mortal, pois, ao morrer,
ele me fez
capaz
de o conceber.
Sua morte
fez de mim uma pele decídua
e vazia de pai, e também
de mãe —
e sua morte me desnudou
um seio
para um lactente ausente,
e nas paredes de meu útero que
se entalhou no dia aquele
sua morte riscou com as unhas
de um prisioneiro fugitivo
a contagem dos dias
sem ele.
Sim, com um cinzel transparente,
sua morte
gravou, como é mister:
o enlutado
será sempre
uma mulher.
anotador dos anais da cidade: E na noite do dia seguinte, eu e minha mulher estamos novamente em nosso passeio de sempre. Por entre as casas da cidade avistamos de vez em quando a pequena caravana que percorre as colinas, na linha do horizonte.
mulher do anotador dos anais da cidade: Nos últimos dias tenho a impressão de que sobre suas cabeças, no ar, há uns lampejos assim, avermelhados, como uma corrente de brasas flutuando acima deles...
anotador dos anais da cidade: Como de costume, é ela quem determina o ritmo da caminhada. Quando ela se detém, eu também paro onde estou. Às vezes, quando ela está absorta em seus pensamentos, eu tenho de entrar em um dos quintais e me agachar atrás de uma cerca, rezando para que não haja ali um cão. Neste momento ela está contemplando longamente as estranhas brasas, e eu, como sempre, estou contemplando ela. A diáfana luz da Lua cai sobre seu rosto. Ela já foi tão bonita. É bonita agora também.
Quando chegamos finalmente a sua casa, ela abre a porta, mas esta noite, ao contrário do habitual, se detém na entrada, vira-se em minha direção e olha dentro da escuridão, como se adivinhasse onde exatamente eu me escondo. Sinto o sopro que vem da casa chegar até mim, e ele é morno e oloroso. Ela abraça seu corpo com as mãos e suspira baixinho. Pode ser que eu esteja enganado, mas talvez seja seu jeito de me dizer que gostaria de se atirar sobre mim aos gritos, com os dentes arreganhados, me bater com punhos raivosos, arrancar minha pele com suas unhas.
Ela fecha a porta lentamente. Recolhe-se em sua casa. Ergo os olhos para as colinas.
o caminhante:
E ele mesmo,
ele está morto,
isso eu já sei,
já sei dizer — embora
sempre num sussurro — “o menino
está morto”, eu compreendo,
quase,
o sentido
desses sons —
o menino
está morto,
reconheço com isso,
nessas
palavras, a
verdade, ele está morto,
eu sei, sim.
Eu reconheço, ele
está morto, mas
sua morte —
sua morte
se avoluma
e atenua
e tempestua,
não
é quieta
sua morte,
é muito
in
quieta.
velho professor de matemática : ... com base em minhas observações eu creio, meu rapaz, que só pessoas de um certo tipo podem percebê-lo, o fogo ardente. É assim que eu chamo, comigo mesmo, essas brasas misteriosas.
anotador dos anais da cidade: Eu o encontro novamente por acaso, esta noite, às três da madrugada. Desta vez não está escrevendo exercícios no muro: cansado, quase exausto, no escuro, está sentado no banco de rua sobre o qual eu havia dormitado. Depois de alguns momentos em que ficamos os dois constrangidos, e depois que consigo fazê-lo lembrar, finalmente, que fui seu aluno na primeira série, e que na aula dele encontrei a menina que viria a ser minha mulher, subimos os dois no banco e por algum tempo contemplamos o fenômeno.
velho professor de matemática: Meu coração me diz, meu jovem, que, no momento em que
Adam percebe o fogo ardente, é seu destino levantar-se e ir até ele.
anotador dos anais da cidade : Enquanto fala, seus grandes pés estremecem, fazendo tremer o banco de madeira. Também meus pequenos pés ficam de repente inquietos. Falo com ele de coração. Digo que houve uma vez um tempo no mundo em que minha filha não existia nele. Ainda não existia. E também não existia a alegria que ela me trouxe, e não existiam esses sofrimentos. E eu quero que ele me olhe com aquele seu olhar vago, confuso, no qual tudo é possível. E que de novo me chame à parede de uma casa e me passe um interminável exame de soma e subtração. Penso: quem sabe ele também sonha em voltar a ser um jovem e ingênuo professor? E quem sabe chamo minha mulher até aqui para juntos formarmos uma pequena turma que não saberá o que é tristeza? E já começo a cantarolar o “dois e dois são quatro”, mas ele pula de repente do banco — me admiro de quão ágil ele ainda é — e fica ali um instante, olhando para seus pés agitados, depois estende as mãos para mim numa desculpa, vira-se e se afasta murmurando para si mesmo —
velho professor de matemática :
Eu vou cair,
agora vou cair?
Não caio, é minha sina.
Eis a sombra fina
e rala da neblina,
e o frio
sobe
da escura ravina —
agora,
agora
cairei —
mulher do anotador dos anais da cidade :
Eis que agora
vai terminar meu coração —
e não
termina —
eis a sombra fina
da neblina —
agora?
Agora cairei?
anotador dos anais da cidade: E ela se foi! Foi embora! De repente apareceu a meu lado na rua, saindo da escuridão, e de repente também se foi e se afastou de mim, sem ter sequer me visto, andando como uma sonâmbula atrás do professor. Deito imediatamente no banco e me encolho com toda a minha força. Estou com muito frio. Tento adormecer. Não adormeço. Não sei o que vou fazer hoje comigo mesmo, e o sol ainda nem nasceu. A cidade está deserta de fazer medo. Eu vagueio pelas ruas. Não há ninguém. Corro para o cais, vasculho pilhas de redes fedorentas e de algas secas — não há ninguém. Para onde irei? Lá, nas colinas, as pequenas brasas cintilam esta noite como se em cada uma delas batesse um coração. Num pátio escuro na extremidade do mercado está um velho burro cinzento, comendo de uma manjedoura. Aproximo meu rosto de sua pelagem, nela esfrego minha boca. Para minha surpresa ela é macia, ainda mais macia que o cabelo do Centauro. Será que as coisas no mundo se tornaram mais macias em minha ausência? O burro para de mastigar. Ele me espera. Sobre aquilo que aconteceu com ela, com minha filha, sou proibido de falar seja com quem for — explico para ele — e para dizer a verdade me é proibido até mesmo lembrar dela, apesar de nem sempre eu resistir a isso, principalmente desde que aquele homem começou a andar em volta da cidade. O burro vira sua cabeça para mim. Seu olhar é inteligente e cético. Sim, sim, eu sussurro, nem mesmo me lembrar dela, imagine só. Ele mexe as orelhas com espanto. É o duque, eu digo, abraçando seu pescoço, foi ele quem me ordenou, num despacho ducal, abandonar minha casa, andar dia e noite pelas ruas e anotar as histórias que as pessoas da cidade contam sobre seus filhos. E foi ele também quem me proibiu — numa ordem expressa! — lembrar-me dela, da minha filha. Sim, logo depois que aconteceu ele me deu essa ordem, depois que ela se afogou, quer dizer, minha filha, Chana, afogou-se diante de meus olhos, no lago, e eu não consegui, ouça, havia ondas muito altas, gigantescas, e eu não... o que poderia...
Você não acredita em mim. Você move as orelhas com descrença, até as cruza, como se descartasse a possibilidade... Sei exatamente o que está pensando agora: O duque? Nosso bom e gentil duque? Não pode ser! Todos na cidade pensam assim, e para dizer a verdade, eu às vezes também penso assim. Pois talvez você também tenha ouvido, aqui e ali, que uma vez já fomos bons amigos, eu e o duque, amigos de corpo e alma de verdade, sim, eu fui seu bobo da corte, durante vinte anos, até me acontecer a tragédia, seu bobo preferido e por ele amado... e pensar que exatamente ele, exatamente ele me deu uma ordem tão terrível... como pôde sequer pensar numa coisa assim?
Meus lábios de repente estão trêmulos, e o burro inclina a cabeça e os fita atentamente. Temo que leia neles palavras que prefiro guardar para mim mesmo, ou que, segundo a ordem ducal, sou proibido de pronunciar até se estou sozinho, e mesmo de lembrar, ainda que só por alusão, só por uma palavra, ou de pensar em quem ela seria hoje, se apenas pudesse estar aqui. Não imaginá-la de nenhum modo, e não sonhar com sua imagem. Também foram proibidas as saudades, os anelos etc. Ou palpitações súbitas do coração, ou contrações de intestinos a se revolverem, e nisso está incluído qualquer tipo de lamentação, desde o pranto até um leve soluçar durante o sono. Sou um ser desmemoriado, burro, abstinente de minha filha, prisioneiro numa pequena e isolada cela na prisão
de meu espírito, como no poema que lemos uma vez juntos, o duque e eu, “Minha vida, que amava o
sol e a lua, parece algo que não aconteceu”.
sapateiro:
Do que havia
de mim —
só restou
o movimento, só isso
posso hoje lhe ofertar,
minha filha,
só o movimento
a se esgueirar
no silêncio
em que você
está confinada, só isso,
só assim saberei
hoje, minha filha,
ser para você
um pai —
parteira:
Eu estava na janela,
minha filha, de noite,
sozinha, a me
esvair. Como
num sonho ouvi
uma v-v-voz
distante me dizer
subitamente, em minha língua: Só isso,
minha filha, só assim hoje
saberei ser para você
um pai.
S-sab-sabia: é
o sinal, s-saí
de casa, fui para
as colinas, fechei
os olhos, apaguei
o olhar, deixei o fogo ardente
me levar.
Só assim
hoje saberei ser
para você
um pai — apressei-me
corri para ele
para o homem
pe-pesado,
lento, indolente
que falou
em minha língua
de repente.
anotador dos anais da cidade: Eles caminham pelas colinas, e eu atrás deles, numa corrida ininterrupta entre eles e a cidade. Eles gemem, tropeçam e se erguem, um se segurando no outro, carregando com eles os que dormem, adormecendo eles mesmos, noites, dias, dando mais e mais voltas à cidade, na chuva e no frio e no sol ardente. Quem sabe até quando vão caminhar e o que vai acontecer com eles quando despertarem de sua loucura. O duque, por exemplo, quem poderia acreditar, caminha ombro a ombro com a cerzidora de redes, e mais de uma vez nele se enredam as redes esvoaçantes. E o velho professor, com o fino e branco halo de seu cabelo, caminha com agilidade, como sempre, pulando de pé em pé e movendo a cabeça para os lados numa curiosidade imensa, mesmo quando dorme. E o sapateiro e a parteira, de mãos dadas, caminham com os olhos fortemente cerrados, como se guiados por uma obstinada decisão. E na extremidade dessa curta procissão, minha mulher, se arrastando em suas pernas pesadas e respirando com esforço, a cabeça pendendo sobre o peito e sem ninguém a segurar sua mão.
duque:
Ao caminhar, sonolento,
uma visão em mim cintila, de um sonho o fragmento:
uma terra árida, estéril, frio vento
e bruma, e um agônico lamento
varando a superfície
do deserto —
parteira:
E ali, a f-forma
de um p-penedio
montanhoso, redondo, escorregadio,
e dentro de um sonho, ou m-meio
desperta, digo a mim mesma
o-olha, mulher,
essa é a coisa, isso é tudo,
a solução da grande charada,
a sagrada,
e mais do que isso
não há,
além disso
não há nada.
sapateiro:
Uma montanha-medula
escalvada,
de aspecto terrível,
palpita talvez
uma vez
em mil
anos —
mulher do anotador dos anais da cidade :
É a medula do universo,
fria, gelada
ela é. E ele,
o lamento,
não é dela que
vem. Ele
é o caos, somente o caos
surdo e mudo,
indiferente a tudo
ele é, e vazio
de lamento,
de qualquer pensamento,
e nele não há
resposta, amor ou
sentimento —
duque:
E você, pegue
uma enxada e prepare um canteiro,
e nele plante uma luminária, um travesseiro,
e uma carta, de um rosto amado o retrato
e meias grossas, e um prato
depois, e luvas e uma pasta, e um lápis
talvez, e um pincel, e um livro aberto
ou dois, e um par de óculos
bons, para que possa
enxergar de longe
e enxergar de perto.
anotador dos anais da cidade : Conte-me sobre o cavalo de pau.
centauro: Você outra vez? Nunca vai se calar?
anotador dos anais da cidade: Conte-me sobre a bola de futebol, sobre o chapéu de caubói. Conte-me sobre os aniversários, sobre a varinha mágica, sobre a pipa azul —
centauro: Você está me torturando.
anotador dos anais da cidade : Conte sobre o barquinho de brinquedo.
centauro: Ferro-velho! Cascas de recordações!
anotador dos anais da cidade : Conte-me ao menos algo sobre o berço.
centauro: E que tal, para variar, você contar algo sobre você mesmo? Já há algumas semanas você vem até aqui dez vezes por dia para me interrogar, me revirar ao avesso como uma luva, e você mesmo — nada! Funcionário! Cumpridor de ordens! Escondendo-se por trás do despacho do duque, que qualquer imbecil pode ver a olho nu que é forjado, ainda mais com essa figura ridícula do duque, com a coroa, realmente! Você podia se esforçar um pouco, até um menino do jardim de infância desenha melhor do que você!
Está bem. Entendi. Eu também sei ficar calado. Veja, estou calado. Pedra. Esfinge. Você também, aliás, não está com muito bom aspecto nestes últimos dias, mas eu definitivamente estou descarrilando, isso sim, não é difícil perceber. O que está acabando comigo é essa luta com ele, maldito seja. Veja, estou reconhecendo isso. E essa coisa idiota que me aconteceu com esta mesa, ahn? Com certeza você ouviu as histórias a meu respeito que circulam pela cidade, ahn? Só isso bastaria para você parar de me importunar com suas besteiras... Você não tem pena de um pobre centauro? E ainda por cima enlutado? Venha, olhe para mim, não, sério, suba aqui na janela, com as duas mãos, não tenha medo! O que mais eu lhe poderia fazer que você já não fez a si mesmo...
E então? Bonito, não? Estético. Alguma vez você viu um híbrido como esse, uma maldição como essa? Metade-escritor-metade-escrivaninha? É isso. Já pode descer. Finita la tragedia. O que diz você? Encantador, hein? Eu não lhe disse que não há prazer maior do que o inferno dos outros?
anotador dos anais da cidade : Seu filho um dia se deitou nesse berço.
centauro: E agora ele tem outro berço.
anotador dos anais da cidade: Ajude-me, Centauro. Essas pilhas que você tem aí estão me deixando louco.
centauro: Eu nunca mais sairei daqui.
anotador dos anais da cidade : Há treze anos eu perdi minha filha.
centauro: Nestes últimos dias, quando você já era um espinho em meu traseiro, comecei a adivinhar algo assim.
anotador dos anais da cidade : Não posso falar sobre ela.
centauro:
Eu fiz este berço
com minhas duas mãos. No dia em que ele
nasceu, com madeira
de carvalho. Minha mulher desenhou
os dois patos. Como ficou bonito
seu desenho. Era uma mulher
tranquila e delicada. E ela me abandonou,
três anos depois do filho. Eu também,
se apenas pudesse, abandonaria
a mim mesmo. Adam, era seu nome.
Adam. Eu o pus
no berço assim que
nasceu. Ele ficou
de olhos abertos, olhou
para mim como a me estudar
com seu olhar.
Era tão sério! Em toda a sua vida
foi assim. Em toda a sua curta
vida. Sério e também
solitário, um pouco. Amigos
quase não tinha. E gostava de ouvir
historinhas. E delas
criávamos alegorias,
ele e eu, fantasias,
e máscaras. Você perguntou
sobre o berço. Minha mulher
o forrou com panos
macios, mas adormecer
ele só queria
comigo, neste meu
peito. Num tal aconchego, de repente
eu me lembro, não ria,
do som especial que eu fazia
para adormecê-lo em mim, um murmúrio,
um canto, tranquilo, profundo, um augúrio,