Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 4 de 8 · parte 1/3

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Grande Sertão: Veredas

– nem sei porquê: peguei a mão…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– nem sei porquê: peguei a mão daquele homem, beijei também.

Todos, os que eram mais moços, beijavam. Os mais velhos tinham vergonha de beijar. – “Este aqui é o Riobaldo, o senhor sabe? Meu amigo. A alcunha que alguns dizem é Tatarana...”

Isto Diadorim disse. A tento, Joca Ramiro, tornando a me ver, fraseou: “Tatarana, pêlos bravos... Meu filho, você tem as marcas de conciso valente. Riobaldo... Riobaldo...” Disse mais: –

“Espera. Acho que tenho um trem, para você...” Mandou vir o dito, e um cabra chamado João Frio foi lá nos cargueiros, e trouxe. Era um rifle reiúno, peguei: mosquetão de cavalaria.

Com aquilo, Joca Ramiro me obsequiava! Digo ao senhor: minha satisfação não teve beiras. Pudessem afiar inveja em mim, pudessem. Diadorim me olhava, com um contentamento. Me

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas chamou de lado. Vi que, mesmo sendo assim querido e escolhido de Joca Ramiro, ele procedia mais de ficar de longe, por ninguém se queixar, não acharem que ali havia afilhadagem. –

“Não é que ele é mesmo o chefe de todos? Não é que é mandante?” – Diadorim me perguntava. Era. Mas eu não percebi o vivo do tempo que passava. Eles já estavam indo de saída. Montado no cavale branco, Joca Ramiro deu uma despedida. Vi que ele com os olhos caçou Diadorim. Só Candelário gritou: – “Viva Jesus, em rotas e vantagens!” E, num bufúrdio, todos esporaram, andaram, ao assaz. A alta poeira, que demorava. Aquilo parecia uma música tocando.

Desde ver, a figura dele tinha parado no meio da gente, noutra coisa não se falava. Aí em festa feita a gente tramava nas armas: Joca Ramiro entrava direto em combate, então ia ser o fim da guerra! – “Só Candelário queria ir também, mas teve de aceitar ordem de ficar...” – Diadorim me explicou. Segundo disse – que Só Candelário, por aquela ânsia e soência, de avançar, a avançar, agora podia desequilibrar a boa regra de tudo. Seria para ficar de espera, tapando o mundo aos que aqui o mundo quisessem. Assim, mais, Joca Ramiro tinha mandado: que nosso grupo se repartisse, em aos três ou quatro piquetes, para valer de vigiar bem os vaus e suas estradas. Diadorim e eu

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas fizemos parte duma turma dessas, duns quinze homens, chefia de João Curiol – fomos para a baixa dos Umbuzeiros, lugar feio, com os gravatás poeirentos e uns levantados de pedra. Partindo desse vau, a gente pega uma chapadinha – a Chapada-da-Seriema-Correndo. A que parecia mesmo de propósito. Porque foi lá, com todo o efeito, que a cara da caça se apareceu. Aquilo, terrível. Conto já ao senhor, duma vez.

Terrível, tido, por causa da ligeireza com que aquilo veio.

Surpresa a gente sempre tem, o senhor sabe, mesmo em espera: dá a vez, e não se vê, à parva. Não se crê que é. Tão de repente.

O vento vinha bom, da parte d’eles chegarem, de formas que o galope pronto se ouviu. Escoramos as armas. Assim que eles eram uns vinte. Passaram o ribeirão, com tanta pressa, que a água se esguichou farta, vero bonito aquilo no sol. Demos fogo.

Do que podia suceder. Vi homem despencado demais, os cavalos patatrás! Dada a desordem. Só cavalo sozinho podia fugir, mas os homens no chão, no cata, cata. Ao que, a gente atirava! Se morria, se matava, matava? Os cavalos, não. Mas teve um, veio, à de se doidar, se espinoteava, o cavaleiro não agüentava na rédea, chegaram até perto de nós, aí todos os dois morreram de repente. Meu senhor: tudo numa estraga

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas extraordinária. Mas aqueles eram homens! Trampe logo que puderam, os sobrantes deles se desapearam e rastejaram, respondendo ao fogo. Ah, puderam tomar oculto atrás de outras fragas de pedra, nisso a gente não conseguiu ter mão. Ainda deviam de ser uns dez, ou uns oito. Afa que gritavam, em febre de ódio, xingando todo nome. A gente, também. Anhãnhãe, berrávamos fogo, quando sinal de homem tremeluzia. As balas rachavam as pedras, só partiam escalhas. Um se mostrou, caiu logo. Munição deles era pouca. Fugir, mesmo, não podiam. A gente atirava. Aí deviam de ser uns seis – que é a meia-dúzia. –

“Aoê, sabe quem está lá, comandando?” – o rastejador Roque me disse. – “Sabe quem?” Ah, eu sabia. Eu tinha sabido, o em desde o primeiro momento. Era quem eu não queria para ser.

Era Zé Bebelo!

Assim eu condenado para matar.

Aqui eu não sei o que o senhor não sabe. – “A fogo! A crevo!” – isto João Curiol gritava. Antes do depois, neles a gente ia ir a pano de facão. – “Tralha! Lá vai obra, cão, carujo!

Roncolho!” – isto era a voz de Zé Bebelo, gritava. Eu não gritei.

Diadorim também atirava calado. Munição deles – quase nenhuma. Eles deviam de ser uns quatro, ou três. O cano do

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas meu rifle esquentava demais. – “Roncolho! Toma...” Um Freitas, nosso, gritou, caiu muito ferido. A bala era de Zé Bebelo. Atiramos, grosso. Eles respondendo. Respondiam pouco. Deviam de ser... os quantos? Digo ao senhor: eu gostava de Zé Bebelo. Redigo – que. eu menos atirava do que pensava.

Como era possível, assim, com minha ajuda, a morte dele? Um homem daquela qualidade, o corpo dele, a idéia dele, tudo que eu sabia e conhecia. Nessas coisas eu pensei. Sempre – Zé Bebelo – a gente tinha que pensar. Um homem, coisa fraca em si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras pedras. Senti, em minha goela. Aquela culpa eu carregava?

Arresto gritei: – “Joca Ramiro quer esse homem vivo! loca Ramiro quer este homem vivo! Joca Ramiro faz questão!...” A que nem não sei como tive o repente de isso dizer – falso, verdadeiro, inventado...

Gritei firme, repeti.

Os outros companheiros aceitavam aquilo, diziam também, até João Curiol: – loca Ramiro quer este homem vivo!”

– “É ordem de Joca Ramiro!” De lá não atiravam mais. Só bala ou outra, só. – “Arre, à unha, chefe?” – o Sangue-de-Outro perguntou. João Curiol respondeu que não. Eles deviam de estar

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas reservando balas para um final. – “Ordem de loca Ramiro: é pegar o homem vivo...” – ainda eu disse. Ali Zé Bebelo eu sal-vasse. Todos aprovaram. Eu sei, eu sei? O senhor agora vai não me entendes, O como são as coisas. Todos me aprovaram – e, aí, extraordinariamente, eu dei um salto de espírito. O que? Mas, então, eu não tinha pensado tudo, o real?! O que era que eu estava fazendo, que era que eu estava querendo – que pegassem vivo Zé Bebelo, em carnes e ossos, para depois judiarem com ele, matarem de outro pior jeito, a fácil?! Minha raiva deu em mim. Me mordi, me abri, me-amargo. Tanto tudo ia sendo sempre’ por minha culpa! E daí pedi tudo ao rifle é às cartucheiras. Eu atirava, atirava: queria, por toda a lei, alcançar um tiro em Zé Bebelo, para acabar com ele de uma vez, sem martírio de sofrimentos. – “Tu está louco, Riobaldo?” –

Diadorim gritou, rastejando para perto de mim, travando em meu braço. – “Joca Ramiroquer o homem vivo! Joca Ramiro quer, deu ordem!” – todos agora me gritavam. Assim contra mim, assim todos. O que eu havia de desmentir? E não vi direito, o fato. O que vi foi Zé Bebelo aparecendo, de repente, garnisé. O que ele tinha numa mão, era o punhal; na outra uma garrucha grande, fogo-central. Mas descarregou a garrucha, atirando no chão, perto dos pés dele, mesmo. Arrancou poeira.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Por trás daquela poeira ele reapareceu, dava pensamento assim – aprumado, teso; de briga. Lampejou com o punhal, e esperou.

Ele mesmo estava querendo morrer à brava, depressamente.

Olhei, olhei. De atirar nele, de todo jeito não tive coragem. Ah, não tinha! E um dos nossos, não sei quem, jogou o laço. Zé Bebelo mal ainda bateu com um pé, por se firmar, e caiu, arrastado, voz que gritou: – “Canalha! Canalha!” Mas todos foram nele, desarmaram do punhal. Eu parei quieto, vago, se me estranho. Não queria, ah não queria que ele me reconhecesse.

Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. Aos quais: era Joca Ramiro; com sua gente total. Subiu pó e pó, por ouros, poeira de entupir o narii e os olhos. Agarrei de mim, sentado lá, no mesmo meu lugar, atrás do pedação de pedra. O que eu estava era envergonhado. O fuzuê se fez um enorme. Sendo que chegavam também os outros grupos nossos, escutei os brados de Só Candelário. A roda de cavaleiros tantos, no raso, sempre maior. Algum soprou o buzo do corno de boi. Tocavam para o acampamento. Mas Diadorim estava me caçando, e mais João Curiol, pelos mortos e feridos que também tínhamos, e também ali ele devia de ter perdido algum trem seu, objeto. –

“Homem danado...” – ouvi o que um dizia. Meus olhos firmavam no chão, agora eu via que tremia. – “Ipa! Zé Bebelo,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas oxém, ganhou patente. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste entretanto. Ao menos Diadorim raiava, o todo alegre, às quase danças: – “Vencemos, Riobaldo! Acabou-se a guerra. A mais, Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem vivo...” Aquilo me rendia pouco sossego. E depois? – “Para que, Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. Mas o João Curiol virou e disse: – “Matar não. Vão dar julga; mento...”

– “Julgamento?” – não ri, não entendi.

– “Aposto que sei. Aí foi ele mesmo quem quis. O

homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro, e, assim agarrado preso, do jeito como desgraçado estava, brabo gritou:

– Assaca! Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo julgamento correto legal!... e foi. Aí Joca Ramiroconsentiu, apraz-me, prometeu julgamento já...” – isto o que falou João Curiol, para me dar a explicação.

Agradeci mesmo isso, a cisma não era para pôr peso em meus peitos. Saímos ainda com João Concliz, a ir em longe arredor, prevenir os que faltavam. A vinda geral. A gente de Titão Passos e do Hermógenes mandava aviso de estarem em caminho. Os do Ricardão já aos tantos chegavam. Saí, com esses de João Concliz. Fui. Fiz questão. Eu não queria retornar logo,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas com os outros, não enxergar Zé Bebelo eu achava melhor.

Montamos e sumimos por aqueles campos, essa estrada, esses pequizeiros. – “Homem engraçado, homem doido!” – Diadorim ainda achava. – “Sabe o que ele falou, como foi?” E me deu notícia.

Tinha sido aquilo: Joca Ramirochegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo a pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse:

– “Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!”

– “O senhor se acalme. O senhor está preso...” – Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.

Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:

– “Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver...”

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– “Vejo um homem valente, preso...” – aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração.

– “Isso. Certo. Se estou preso... é outra coisa...” – “O que, mano velho?”

“... É, é o mundo à revelia!...” – isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas.

Assim isso. Toleimas todas? Não por não. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso. Ele não era criatura que se prende, pessoa coisa de se haver às mãos.

Azougue vapor...

E ia ter o julgamento.

Tanto que voltamos, manhã cedinho estávamos lá, no acampo, debaixo de forma. Arte, o julgamento? O que isso tinha de ser, achei logo que ninguém ao certo não sabia. O

Hermógenes me’ ouviu, e gostou: – “É e é. Vamos ver, vamos ver, o que não sendo dos usos...” – foi o que ele citou. – “Ei, agora é julgamento!” – os muitos caçoavam, em festa fona.

Cacei de escutar os outros. – “Está certo, está direito. Joca Ramirosabe o que faz-..” – foi o que disse Titão Passos. –

“Melhor, mesmo. Carece de se terminar o mais definitivo com

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas essa cambada!” – falou Ricardão. E só Candelário, que agora não se apeava, vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de saber quem é que manda, quem é que pode!” Ao espraia as margens.

Agora estavam todos mais todos reunidos, estávamos no acampamento do É-Já, onde ali mal tanto povo cabia, e lotes e pontas de burros, a cavalhada pastando, jagunços de toda raça e qualidade, que iam e vinham, co, miam, bebiam, bafafavam. Só Candelário tinha remetido dois homens, longe, no São José Preto, só para comprarem foguetes, que no fim teriarA de pipocar. E onde estava Zé Bebelo? Apartado, recolhido de toda vista, numa tenda de lona – essa única que se tinha, porque Joca Ramiro mesmo se desacostumava de dormir em barraca, por o abafo do calor. Não se podia ver o prisioneiro, que ficava lá dentro, feito guardado. Contaram que ele aceitava comida e água, e estivesse deitado num couro de vaca, pitando e pensando.

Gostei. O de que eu carecia era de que ele não botasse olhos em mim. Eu apreciava tanto aquele homem, e agora ele não havia de ser meu pesadelo. – “Aonde é que vamos? Onde é que esse julgamento vai ser?” – perguntei a Diadorim, quando surpreendi os suspensos de se ter saída. – “Homem, não sei...” –; Diadorim disso não sabia. Só depois se espalhou voz. Ao que se ia para a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Fazenda Sempre-Verde, depois da Fazenda Brejinho-do-Brejo, aquela a do doutor Mirabô de Melo.

Mas, por que causa iam dar com aquele homem tamanha passeata? Carecia algum? Diadorim não me respondeu. Mas, pelo que não disse e disso, tirei por tino. Assim que Joca Ramiro fazia questã de navegar três léguas a longe com acompanhamento de todos os jagunços e capatazes e chefes, e g prisioneiro levado em riba dum cavalo preto, e todas as tropas, com munição, coisas tomadas, e mantimentos de comida, rumo do Norte – tudo por glória. O julgamento, também. Estava certo? Saímos, de trabuz.

No naquele, a gente podia ver resenho de toda geração de montadas. Zé Bebelo lá ia, rodeado por cavaleiros de guarda, pessoal de Titão Passos, logo na cabeça do cortejo. Ia com as mãos amarradas, como de uso? Amarrar as mãos não adiantava.

Eu não quis ver. Me dava travo, me ensombrecia. Fui ficando para trás. Zé Bebelo, lá preso demais, em conduzido. Aquilo com aquilo – aí a minha idéia diminuía. Tanto o antes, que fiz a viagem toda na rabeira, ladeando o bando bonzinho de jegues orelhudos, que fechavam a marcha. A pobreza primeira deles me consolava – os jumentinhos, feito meninos. Mas ainda pensei: –

ele bom ou ele ruim, podiam acabar com Zé Bebelo? Quem tinha capacidade de pôr Zé Bebelo em julgamento?! Então, ressenti um

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas fundo desânimo. Sem mais Zé Bebelo, então, o restado consolo só mesmo podia ser aqueles jericos baianos, que de nascença sabiam todas as estradas.

Assim passamos pelo Brejinho-do-Brejo, assim chegamos na Sempre Verde. Aí fomos chegando. Que me deu, de repente?

Esporeei e galopeis para dianteira, fomentado, repinchando dessas angústias. Vim. Eu queriá sobressalto de estar ali perto, catar tudo nos olhos, o que acontecia maior. Nem não importei mais que Zé Bebelo me visse. Passei quase para a frente de todos.

Estavam pensando que eu viesse com um recado. – “Que foi, Riobaldo, que foi?” – gritou para mim Diadorim. Dei nenhuma resposta. pessoa ali não me entendia. Só mesmo Zé Bebelo era quem pudesse me entender.

A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme, viemos saindo da estrada e entrando nas cheganças, os currais-de-ajuntamento.

Aquele mundo de gente, que fazia vulto. Parecia um mortório.

Antes passei, afanhou a porteira, aí fomos enchendo os currais, com tantos os nossos cavalos. A casade-fazenda estava fechada.

– “Não carece de se abrir... Não carece de se abrir...” – era uma ordem que todos repetiam, de voz em voz. Ave, não arrombassem, aquilo era de amigos, o doutor Mirabô de Melo,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mesmo ausente. Esbarramos no eirado, liso, grande, de tanto tamanho. Aí tinham apeado Zé Bebelo do cavalo, ele estava com as mão amarradas, sim, mas adiante do corpo, feito algemas. –

“Ata amarra os pés também!” – algum enfezado gritou. Outro se chegou, com uma boa peia, de couro de capivara. Que era que aquela gente pensavam? Que era que queriam? Doideira de todos. Daí, Joca Ramiro, Só Candelário, o Hermógenes, o Ricardão, Titão Passos, João Goanhá, eles todos reunidos no meio do eirado, numa confa. Mas Zé Bebelo não estava aperreado. Tomou corpo, num alteamento – feito quando o peru estufa e estoura – e caminhou, em direitura. Que que pequeno, era bom: homem às graças. Caminhou, mesmo. – “Oxente!” Para diante de Joca Ramiro, no meio do eirado, tinham trazido um mocho, deixado botado lá; era um tamborete de tripés, o assento de couro. Zé Bebelo, ligeiro, nele se sentou. – “Oxente!” – se dizia. A jagunçama veio avançando, feito um rodear de gado –

fecharam tudo, só deixando aquele centro, com Zé Bebelo sentado simples e Joca Ramiro em pé, Ricardão em pé, Só Candelário em pé, o Hermógenes, João Goanhá, Titão Passos, todos! Aquilo, sim, que sendo um atrevimento; caso não, o que, maluqueira só. Só ele sentado, no mocho, no meio de tudo. Ao que, cruzou as pernas. E:

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– “Se abanquem... Se abanquem, senhores! Não se vexem...” – ainda falou, de papeata, com vênias e acionados, e aqueles gestos de cotovelo, querendo mostrar o chão em roda, o dele.

Arte em esturdice, nunca vista. O que vendo, os outros se franziram, faiscando. Acho que iam matar, não podiam ser assim desfeiteados, não iam aturar aquela zombaria. Foi um silêncio, todo. Mandaram a gente abrir muito mais a roda, para o espaço ficar sendo todo maior. Se fez.

Mas, de repente, Joca Ramiro, astuto natural, aceitou o louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou, no chão, defronte de Zé Bebelo. Os dois mesmos se olharam.

Aquilo tudo tinha sido tão depressa, e correu por todos um arruído entusiasmado, dando aprovação. Ah, Joca Ramiro para tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde, homem acreditado pelo seu valor.

A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele fez? Se levantou, jogou para um lado o tamborete, com pontapé, e a esforço se sentou no chão também, diante de Joca Ramiro.

Foi aquele falatório geral, contente. De coisas de tarasco, assim, a gente não gostava? E até os outros chefes, todos, um por um,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mudaram de jeito: não se sentaram também, mas foram ficando moleados ou agachados, por nivelar e não diferir. Ao que o povaréu jagunço, com ansiedade de ver e ouvir o que se desse, se espremendo em volta, sem remangar das armas. Aquele povo –

rio que se enche com intervalo dos estremecimentos, regular, como o piscar de olho dum papagaio. Vigiei o Hermógenes. Eu sabia: dele havia de vir o pior. Com o que, todo o mundo parado, formaram uns silêncios. Menos no mais, Joca Ramiro ia falar as palavras consagradas?

– “O senhor pediu julgamento...” – ele perguntou, com voz cheia, em beleza de calma.

– “Toda hora eu estou em julgamento.”

Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? Mas ele não estava lorpa nem desfeliz, bom para a forca. Que até capivara se senta é para pensar – não é para se entristecer. E rodou aprumada a cara, vistoriando as caras de tantos homens. Ar que inchou o peito e o queixo levantou, valendo se valendo. Criatura assim sente tudo adivinhado, de relâmpago, na ponta dos olhos da gente. Eu tinha confiança nele.

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– “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado, duma vez.

Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...” – Joca Ramiro fraseou.

– “Com efeito! Se era para isso, então, para que tanto requifife?” – Zé Bebelo repostou, com toda a ligeireza.

De ouvir, dividi o riso do siso. A pois! Ele mesmo tinha inventado exigido esse julgamento, e agora torcia o motivo: como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser fuzilado... Saranga ele não era. Mas estava brincando com a morte, que para cada hora livrava. Ao que bastava Joca Ramiro perder um ponto da paciência, um pouco. Só que, por sorte, paciência Joca Ramiro nunca perdia; motejou, não mais:

– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada... Serviu algum?”

– “Sempre serve, chefe: perdi – conheço que perdi. Vocês ganharam. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?”

O puro lorotal. E atrevimento, muito. Os jagunços em roda não entendiam o escutado; e uns indicavam por gestos que Zé Bebelo estava gira da idéia, outros quadrando um calado de mau

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sinal. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz. Joca Ramiro não reveio logo. Mexeu com as sobrancelhas. Só, daí:

– “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei...”

– “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo...”

– “O senhor não é do sertão. Não é da terra...”

– “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!”

Que visse o senhor os homens: o prospeito. Aqueles muitos homens, completamente, os de cá e os de lá, cercando o oco em raia da roda, com as coronhas no chão, e as tantas caras, como sacudiam as cabeças, com os chapéus rebuçantes. Joca Ramiro tinha poder sobre eles. Joca Ramiro era quem dispunha.

Bastava vozear curto e mandar. Ou fazer aquele bom sorriso, debaixo dos bigodes, e falar, como falava constante, com um modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos... Meus filhos...” Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Estavam escutando sem entender, estavam ouvindo missa. Um, por si, de nada não sabia; mas a montoeira deles, exata, soubesse tudo. Estudei foi os chefes.

Naquela hora, o senhor reparasse, que é que notava? Nada, mesmo. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. Em tudo, eles gostam de alguma demora. Por mim, vi: assim serenados assim, os cabras estavam desejando querendo o sério divertimento. Mas, os chefes cabecilhas, esses, ao que menos: expunham um certo se aborrecer, segundo seja? Cada um conspirava suas idéias a respeito do prosseguir, e cumpriam seus manejos no geral, esses com suas responsabilidades. Uns descombinavam dos outros, no sutil. Eles pensavam. Conforme vi. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro, com Titão Passos e João Goanhá; o Ricardão da outra, com o Hermógenes. Atual Zé Bebelo foi começando a conversar comprido, na taramelagem como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo; e Titão Passos se desacocorou, com a mão num ombro, que devia de ter algum machucado. O Hermógenes fez beiço. João Goanhá, aquele ar sonsado, quase de tolo, no grosso do semblante. O

Hermógenes botava pontas de olhar, some escuro, nuns visos. Só Candelário, ficado em pé, sacudia o moroso das pernas.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete. Porque ele sobre se virou, para Só Candelário, ao de indagar:

– “Meu compadre, que é que se acha?”

Sô Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha, movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:

– “Ao que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu...”

A lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância.

Zé Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito. Alguns, mais riram dele. Em menos Joca Ramiro esperou um instante:

– “A gente pode principiar a acusação.”

Aprovaram, os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo.

Assim Joca Ramiro refalou, normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de seu destino.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei, deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas as ações de Zé Bebelo, seus motivos; e propor condena.

Rés o que começasse, quem? O Hermógenes limpou a goela. De primeira entrada eu vinha sabendo – esse Hermógenes precisava de muitas vinganças.

Ele era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem toda cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro; os olhos.

Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. ver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não tive. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim, entrada por saída.

Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto, mesmo sem conversar, mas respirava, como

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas era com a boca tão cheirosa. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado, para falar:

– “Acusação, que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”

– “Quá?!” – Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu oficio em árvore, Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo:

– “Cachorro que é, bom para a forca. O tanto que ninguém não provocou, não era inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados mesmos... Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O diacho, cão!”

– “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o tempo – medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

– “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou, por terminar: – “Sujeito que é um tralha!”

– “Posso dar uma resposta, Chefe?” – Zé Bebelo perguntou, sério, a joca Ramiro. Joca Ramiro concedeu.

- “Mas, para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas...”

Nisso não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio, que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto:

– “P’r’ aqui mais p’r’ aqui, por este mais este cotovelo!...”

– disse, batendo mão e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma aspação: – “Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele ainda está é azuretado...”

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– “Ei! Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé!” – Zé Bebelo falou. – “Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto...” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!...”

Mas o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira, falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada:

– “Tibes trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo estando assim vencido nosso e preso... Meu direito é acabar com ele, Chefe!”

Vi a mão do perigo. Muitos homens resmungaram em aprovo, ali rodeando, os tantos, dez ou vinte círculos, anéis de gente. Rentes os do bando do Hermógenes chegaram a dar altas palavras, de calca pá. Questionou-se a respeito disso? Tinham barulhos na voz. Mesmo os chefes entre si cochicharam. Mas Joca Ramiro sabia represar os excessos, Joca Ramiro era mesmo o tutumumbuca, grande maioral. Temperou somente:

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– “Mas ele não falou o nome-da-mãe, amigo...”

E era verdade. Todo o mundo concordou, pelo que vi de todos. Só para o nome-da-mãe ou de “ladrão” era que não havia remédio, por ser a ofensa grave. Com Joca Ramiro explicar assim, não havia jagunço que não aceitasse o razoável da ponderação, o relembrado. O Hermógenes mesmo se melou na atrapalhação das ligeirezas, e aí tinha de condizer. Nada ele não disse: mas abriu quadrada a boca, em careta de quem provou pedra de sal. E Zé Bebelo mesmo aproveitou para mudar o aspecto – para uma certa circunspecção. Se via que ele pensava a curto ganho no estreito, por detrás daquele sonsar. Trabalho de idéia em aperto, pelo pão de salvar sua vida da estrosca.

Imediato, Joca Ramiro deu a vez a Só Candelário, não deixando frouxura de tempo para mais motim: – “Hê, e você, compadre? Qual é a acu. sação que se tem?”

Sobre o que, sobreveio Só Candelário, arre avante, aos priscos, a figura muita, o gibão desombrado. Sobrava fala: –

“Com efeito! Com efeito!...” – falou. Vai, vai, forteou mais a voz:

– “Só quero pergunta: se ele convérn em nós dois resolvermos isto à faca! Pergunto para briga de duelo... É o que acho! Carece mais de discussão não... Zé Bebelo e eu – nós dois, na faca!...”

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Só Candelário mais longe não conseguia de dizer, só repetia aquilo, desafio, e no mais se mexer, feito com são-guido ou escaravelho. Sem raiva quase nenhuma – notei; mas também sem nenhuma paciência. Só Candelário sendo assim. Mas aí Joca Ramiro remediou, dizendo, resistencioso, e escondeu o de que ria:

– “Resultado e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”

– “Crime?... Crime não vejo. É o que acho, por mim é o que declaró com a opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos, papos. Isso é crime? Perdeu, rachou feito umbuzeiro que boi comeu por metade... Mas brigou valente, mereceu... Crime, que sei, é fazer traição, ser ladrão de cavalos ou de gado... não cumprir a palavra...”

– “Sempre eu cumpro a palavra dada!” – gritou de lá Zé Bebelo... Só Candelário olhou encarado para ele, rente repente, como se nos instantes antes não soubesse que ele estava ali a três passos. Só assim mesmo prosseguiu:

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– “... Pois, sendo assim, o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem, com o compromisso de ir ajuntar outra vez seu pessoal dele e voltar aqui no Norte, para a guerra poder continuar mais, perfeita, diversificada...”

Ressaltados, os homens, ouvindo isso, rosnaram de bem, cá e lá: coragem sempre agradava. Diadorim apertou meu braço, como sussurrou: – “Doideira, dele. Riobaldo, Só Candelário está doido varrido...” Aí podia ser. Mas eu tinha relanceado um afio de onde ódio que ele mirou no Her-, mógenes, enquanto falando; e entendi: Só Candelário não gostava do Hermógenes! Sendo que ele podia até nem saber disso, não ter noção firme de que não gostava; mas era a maior verdade. Sucinto, só por conta disso, eu apreciei demais aquele rompante.

Só Candelário esbarrou de falar, secado. Só aos bufos, surdo de se ver que ele tinha feito o grande esforço todo, sopitante. Se afundava para os altos.

– “Apraz ao senhor, compadre Ricardão?” – Joca Ramiro solicitou, passando a vez.

Aquele retardou tanto para começar a dizer, que pensei fosse ficar para sempre calado. Ele era o famoso Ricardão, o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas homem das beiras do Verde Pequeno. Amigo acorçoado de importantes políticos, e dono de muitas posses. Composto homem volumoso, de meças. Se gordo próprio não era, isso só por no sertão não se ver nenhum homem gordo. Mas um não podia deixar de se admirar do peso de tanta corpulência, a coisa de zebu guzerate. As carnes socadas em si – parecia que ele comesse muito mais do que todo o mundo – mais feijão, fubá de milho, mais arroz e farofa –, tudo imprensado, calcado, sacas e sacas. Afinal, ele falou: fosse o Almirante Balão:

– “Compadre Joca Ramiro, o senhor é o chefe. O que a gente viu, o senhor vê, o que a gente sabe o senhor sabe. Nem carecia que cada um desse opinião, mas o senhor quer ceder alar de prezar a palavra de todos, e a gente recebe essa boa prova...

Ao que agradecemos, como devido. Agora, eu sirvo a razão de meu compadre Hermógenes: que este homem Zé Bebelo veio caçar a gente, no Norte sertão, como mandadeiro de políticos e do Governo, se diz até que a soldo... A que perdeu, perdeu, mas deu muita lida, prejuízos. Sérios perigos, em que estivemos; o senhor sabe bem, compadre Chefe. Dou a conta dos companheiros nossos que ele matou, que eles mataram. Isso se pode repor? E os que ficaram inutilizados feridos, tantos e tantos... Sangue e os sofrimentos desses clamam. Agora, que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas vencemos, chegou a hora dessa vingança de desforra. A ver, fosse ele que vencesse, e nós não, onde era que uma hora destas a gente estava? Tristes mortos, todos, ou presos, mandados em ferros para o quartel da Diamantina, para muitas cadeias, para a capital do Estado. Nós todos, até o senhor mesmo, sei lá.

Encareço, chefe. A gente não tem cadeia, tem outro despacho não, que dar a este; só um: é a misericórdia duma boa bala, de mete-bucha, e a arte está acabada e acertada. Assim que veio, não sabia que o fim mais fácil é esse? Com os outros, não se fez? Lei de jagunço é o momento, o menos luxos. Relembro também que a responsabilidade nossa está valendo: respeitante ao seo Sul de Oliveira, doutor Mirabô de Melo, o velho Nico Estácio, compadre Nhô Lajes e coronel Caetano Cordeiro... Esses estão agüentando acossamento do Governo, tiveram de sair de suas terras e fazendas, no que produziram uma grande quebra, vai tudo na mesma desordem... A pois, em nome deles, mesmo, eu sou deste parecer. A condena seja: sem tardança! Zé Bebelo, mesmo zureta, sem responsabilidade nenhuma, verte pemba, perigoso. A condena que vale, legal, é um tiro de arma. Aqui, chefe – eu voto!...”

A babas do que ele vinha falando, o povaréu jagunço movia que louvava, confirmava. Aí, nhães, pelos que davam mais

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas demonstração, medi quantidade dos que eram do Ricardão próprio. Zé Bebelo estava definito – eu pensei – qualquer rumorzinho de salvação para ele se mermando, se no mel, no p’ra passar. Mire e veja o senhor: e o pior de tudo era que eu mesmo tinha de achar correto o razoado do Ricardão, reconhecer a verdade daquelas palavras relatadas. Isso achei, meio me entristeci. Por quê? O justo que era, aquilo estava certo.

Mas, de outros modos – que bem não sei – não estava. Assim, por curta idéia que eu queira dividir: certo, no que Zé Bebelo tinha feito; mas errado no que Zé Bebelo era e não era. Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Eh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo.

Nisso, Joca Ramiro já tinha transferido a mão de fala a Titão Passos – esse era como um filho de Joca Ramiro, estava com ele nos segredos simples da amizade. Abri ouvidos. Idéia me veio que ia valer vivo o que ele falasse. Aí foi:

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas – “Ao que aprecio também, Chefe, a distinção minha desta ocasião, de dar meu voto. Não estou contra a razão de companheiro nenhum, nem por contestar. Mas eu cá sei de toda consciência que tenho, a responsabilidade. Sei que estou como debaixo de juramento: sei porque de jurado já servi; uma vez, no júri da Januária... Sem querer ofender ninguém – vou afiançando.

O que eu acho é que é o seguinte: que este homem não tem crime constável. Pode ter crime para o Governo, para delegado e juiz-de-direito, para tenente de soldados. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? Ele quis vir guerrear, veio –

achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora, ele escopou e perdeu, está aqui, debaixo de julgamento. A bem, se, na hora, a quente a gente tivesse falado fogo nele, e matado, aí estava certo, estava feito. Mas o refrego de tudo já se passou.

Então, isto aqui é matadouro ou talho?... Ah, eu, não. Matar, não.

Suas licenças...”

Coração meu recomprei, com as palavras de Titão Passos.

Homem em regra, capaz de mim. Cacei jeito de sorrir para ele, aprovei com a cabeça; não sei se ele me viu. E mais não houve rebuliço. Só que notei estopim os homens ficando diferentes.

Agora tomavam mais ânsia de saber o que era que iam decidir os manantas. O pessoal próprio de Titão Passos era que formavam

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o bando menor de todos. Mas gente muito valente. Valentes como aquele bom chefe. “De que bando eu sou?” – comigo pensei. Vi que de nenhum. Mas, dali por diante, eu queria encostar direto com as ordens de Titão Passos. – “Ele é meu amigo...” – Diadorim no meu ouvido falou – “... Ele é bisneto de Pedro Cardoso, trasneto de Maria da Cruz!” Mas eu nem tive surto de perguntar a Diadorim o resumo do que ele pensasse.

loca Ramiro agora queria o voto de João Goanhá – o derradeiro falante, que rente dificultava.

João Goanhá fez que ia levantar, mas permaneceu agachado mesmo. Resto que retardou um pouco no dizer, e o que disse, que digo:

– “Eu cá, ché, eu estou p’lo qu’ o ché pro fim expedir...”

– “Mas não é bem o caso, compadre João. Vocês dão o voto, cada um. Carece de dar...” – foi o que Joca Ramiro explicou mais.

A tanto João Goanhá se levantou, espanou com os dedos no nariz. Daí, pegou e repuxou seu canhão de cada manga.

Arrumou a cintura, com as armas, num propósito de decisão.

Que ouvi um tlim: moveu meus olhos.

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– “Antão pois antão...” – ele referiu forte: – “meu voto é com o compadre Só Candelário, e com meu amigo Titão Passos, cada com cada... Tem crime não. Matar não. Eh, diá!...”

Rezo que ele falou aquilo, aquele capiau peludo, renasceu minha alegria. Rezo que falou, grosso, como se fosse por um destaque de guerra. De ripipe, espiei o Hermógenes: esse preteou de raiva. O Ricardão não acabava de cochilar, cara grande de sapo. O Ricardão, no exatamente, era quem mandava no Hermógenes. Cochilava fingido, eu sabia. E agora? Que é que tinha mais de ter? Não estava tudo por bem em bem terminado?

Ah, não, o senhor mire e veja. Assim Joca Ramiro era homem de nenhuma pressa. Se abanava com o chapéu. Ao em uma soberania sem manha de arrocho, perpasseou os olhos na roda do povo. Ant’ante disse, alto:

– “Que tenha algum dos meus filhos com necessidade de palavra para defesa ou acusação, que pode depor!”

Tinha? Não tinha. Todo o mundo se olhava, num desconcerto, como quem diz lá: cada um com a cara atrás da sela.

Para falar, ali não estavam. Por isso nem ninguém tinha esperado.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Com tanto, uns fatos extraordinários. Haja veja, que Joca Ramiro repetiu o perguntar:

– “Que por aí, no meio de meus cabras valentes, se terá algum que queira falar por acusação ou para defesa de Zé Bebelo, dar alguma palavra em favor dele? Que pode abrir a boca sem vexame nenhum...”

Artes o advogo – aí é que vi. Alguém quisesse? Duvidei, foi o que foi. Digo ao senhor: estando por ali para mais de uns quinhentos homens, se não minto. Surgiu o silêncio deles todos.

Aquele silêncio, que pior que uma alarida. Mas, por que não davam brados, não falavam todos total, de torna vez, para Zé Bebelo ser botado solto?... me enfezei. Sus, pensei, com um empurrão de força em mim. Ali naquel’horinha – meu senhor –

foi que eu lambi idéia de como às vezes devia de ser bom ter grande poder de mandar em todos, fazer a massa do mundo rodar e cumprir os desejos bons da gente. De sim, sim, pingo.

Acho que eu tinha suor nas beiras da testa. Ou então – eu quis – ou, então, que se armasse ali mesmo rixa feia: metade do povo para lá, metade para cá, uns punindo pelo bem da justiça, os outros nas voltas da cauda do demo! Mas que faca.e fogo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas houvesse, e braços de homens, até resultar em montes de mortos e pureza de paz... Sal que eu comi, só.

Abre que, ah, outra vez, Joca Ramiro reproduziu a pergunta: – “Que se tiver algum...” – e isto e aquilo, tudo o mais. Me armei dum repente. Me o meu? Eu agora ia falar – por que era que não falava? Aprumei corpo. Ah, mas não acertei em primeiro: um outro começou. Um Gu, certo papa-abóbora, beiradeiro, tarraco mas da cara comprida; esse discorreu:

– “Com vossas licenças, chefe, cedo minha rasa opinião.

Que é – se vossas ordens forem de se soltar esse Zé Bebelo, isso produz bem... Oséquio feito, que se faz, vem a servir à gente, mais tarde, em alguma necessidade, que o caso for... Não ajunto por mim, observo é pelos chefes, mesmo, com esta vênia. A gente é braço d’armas, para o risco de todo dia, para tudo o miúdo do que vem no ar. Mas, se alguma outra ocasião, depois, que Deus nem consinta, algum chefe nosso cair preso em mão de tenente de meganhas – então também hão de ser tratados com maior compostura, sem sofrer vergonhas e maldades... A guerra fica sendo de bem-criação, bom estatuto...”

Aquilo era razoável. A ver, tinha saído tão fácil, até Joca Ramiro, em passagens, animou o Gu, com acenos. Tomei

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas coragem mais comum. Abri a minha boca. AI, mas, um outro campou ligeiro, tomou a mão para falar: Era um denominado Dosno, ou Dosmo, groteiro de terras do Cateriangongo – entre o Ribeirão Formoso e a Serra Escura – e ele tinha olhos muito incertos e vesgava. Que era que podia guardar para dizer um homem desses, capiau medido por todos os capiaus do meu Norte?

Escutei.

– “Tomém pego licença, sós chefes. Em que pior não veja, destorcendo meu desatino. É-que, é-que... Que eu acho que seja melhor, em antes de se remitir ou de se cumprir esse homem, pois bem: indagar de fazer ele dizer ond’é que estão a fortuna dele, em cobre... A mó que se diz – que ele possederá o bom dinheiro, em quantia, amoitado por aí... É só, por mim, é só, com vosso perdão... Com vosso perdão...”

Riram, uns; por que é que riram? – rissem. Dei como um passo adiante, levantei mão e estalei dedo, feito menino em escola. Comecei a falar. Diadorim ainda experimentou de me reter, decerto assustado: – “Espera, Riobaldo...” – tive o siso da voz dele no ouvido. Aí eu já tinha principiado. O que eu acho, disse, supri neste mais menos fraseado:

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

– “Dê licença, grande chefe nosso, Joca Ramiro, que licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer, que calado não posso ficar...” Digo ao senhor: que eu mesmo notei que estava falando alto demais, mas de me abrandar não tinha prazo nem jeito – eu já tinha começado. Coração bruto batente, por debaixo de tudo. Senti outro fogo no meu rosto, o salteio de que todos a finque me olhavam. Então, eu não aceitei niw guém, o que eu não queria era ver o Hermógenes. Não pôr as capas dos olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum neste mundo não tivesse, nenhum para mim, nenhum de si! Por isso, prendi minhas vistas só num homem, um que foi o qualquer, sem nem escolha minha, e porque estava bem por minha frente, um pardo. Pobre, esse, notando que recebia tanto olhar, abaixou a cara, amassado de não poder outra coisa. No eu falando:

–... Eu conheço este homem bem, Zé Bebelo. Estive do lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem. Saí de lá, meio fugido. Saí, porque quis, e vim guerrear aqui, com as ordens destes famosos chefes, vós... Da banda de cá, foi que briguei, e dei mão leal, com meu cano e meu gatilho... Mas, agora, eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem, e inteiro, que honra o raio da palavra que dá! Aí. E é chefe jagunço, de primei-

Continuar: parte 2 de 3