Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 6 de 8 · parte 1/3

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Grande Sertão: Veredas

– “Ih, que’s, menino! Quem te vê…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– “Ih, que’s, menino! Quem te vê comer essa tralha que você amoitou aí no saco...”

O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça, que não que não, que parecia ter gosto de poder negar assim. – “Mas o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de comer todo se acabou...” Havia de negar tudo, renegava: até que tivesse tido mãe, nascido dela, até que a doença brava estivesse matando o povo do Sucruiú, os parentes todos dele. A gente queria que aquele traste de menino sentisse em si, e se entristecesse, por tantas suas desditas chorasse uma lágrima, a lagrimazinha só, por um momento que fosse. Ah, ele fizesse logo isso, a gente ficava desconsolado e legítimo no triste, a gente ficava tranqüilizados. Qual, o menino preto negava. O que ele afirmava, no descaramento firme de seu gesto, era que nem era ninguém, nem aceitava regra nenhuma devida do mundo, nem estava ali, defronte dos cascos dos cavalos da gente. Ah, queria salvar seu corpo, queria escape. Se abraçava com qualquer poeira. De mais, não queria saber. – Que podia, que fosse logo embora! – Zé Bebelo consentiu ordem. E ainda jogou um pedaço de rapadura, que ele aparou, fácil, como numa abocada. – “Pra tu adoçar essa tua tripinha preta!” – foi o que Zé Bebelo gritou. E aquele menino, sem fungar, sem olhar para trás, pulou em rumo, maneiro e leviano, se sumiu por onde carecia de ir. Não pensei que fosse tão pequeno, conforme mesmo era.

– “Coitadinho, os dentes dele estavam alumiando de brancos...” – Diadorim disse.

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– “Hem? Hem?” – Zé Bebelo falou. – “O que imponho é se educar e socorrer as infâncias deste sertão!”

Eu ia fazer o sinal-da-cruz, mas com a mão não cheguei a bulir, porque isso me pareceu falta de caridade, pensando no menino pretinho.

E, com o determinado costumeiro, de se espalhar os de vigia, por todas as quatro bandas, mais o movimento de procura dum pasto bem fechado e conveniente, tomamos conta de tudo e entramos naquela casa, para ver o visível e se fazer fogo de aprontar nosso jantar na fornalha de sua grande cozinha.

Virgem! – digo ao senhor: o interior dela dava pena, nunca vi nada tão remexido e roubado. Total o que era de jeito de se carregar, o em arcas e em trouxas, e que no comum duma casa remediada se acha, faltava. Não se encontrou uma peça de roupa, uma lamparina de folha, uma folhinha na parede, um gancho de rede, uma raspadeira, um cabresto pendurado, uma esteira, uma vasilha, uma coisa alguma em que se pegar. Eram só as mesas, os catres, os bancos. Tinham limpado a carne daquele costelame. Por onde andaria o dono? Mas se ficou sabendo que o nome dele não era em verdade Abrão, mas Habão, que assim se chamava. Consoante o diploma de patente,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que no chão, num canto, avistei, lavrado preenchido cerimonial, de que esse Habão era Capitão da Guarda-Nacional, em válidos títulos. Aquele retiro se chamava o Valado. Com pouco mais uns dias que se passassem, o pessoal do Sucruiú era capaz de desmanchar até o prédio da casa, por seus esteios e caibros. Para não falar que, de gado, galinhas e porcos, e cachorros e o mais, nem sinal se divulgava. Sobravam só os passarinhos, soltos, como de toda parte no igual, que piaram uns momentos, pelo acabar da tardinha, alegres assim no empobrecido.

Vai, dentro de lá, num quarto, muito recanto, sediava, no escuro que já fazia, um oratório em armariozinho, construido pregado na parede; que estava com suas poucas imagens e um toco para se acender, de vela-benta. Nisso não tinham desrespeitado de mexer. E nós, então, cada um depois dum, viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior, que era no seu manto como uma boneca muito perfeita, que era a Minha Nossa Senhora Mãe-de-Todos. Se comeu, se dormiu.

Se acordou, bem o digo. Cada dia é um dia. E o tempo estava alisado. Triste é a vida do jagunço – dirá o senhor. Ah, fico me rindo. O senhor nem não diga nada. “Vida” é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéia

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas falsa. Cada dia é um dia. Ora, mais, ordens já para antes do vir da aurora se cumprir, dali Zé Bebelo já tinha dado. E foi se saber: o Suzarte e o Tipote, e outros, com o João Vaqueiro, rastreavam redobrados, onde em redor, remediando o mundo a alho e faro. Tudo eles achavam, tudo sabiam; em pouquinhas horas, tudo tradiziam. O chão, em lugares, guardava molde marcado dos cascos de muitíssimas reses, calcados para um rumo só – um caminho eito. Aqueles rastros tinham vigorado por cima da derradeira lama da derradeira chuva. E – de quantidade e de quanto tinha chovido – eles liam, no capim e nos regos de enxurradas, e na altura da cheia já rebaixada, a deixa, beiradas do ribeirão. Pelo comido pastado das reses, também, muito se reconhecia. Aos passos dos cavaleiros e cachorros. As pessoas da casa tinham viajado para a banda de oestes. Mas o gado, escolhendo por si e sem tocada, mas depois de solto por boa regra, pegara ida espaçada mais virante acima, aonde devia haver, para se lamber, salinas de barreiro. E

bastantes outras coisas eles decifravam assim, vendo espiado o que de graça no geral não se vê. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas ausentes, dizer ao senhor se aquele seô Habão era magro ou gordo, seria forreta ou mão-aberta, canalha inteirado ou razoável homem-de-bem. Porque, dos

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas centos milhares de assuntos certos que parecem mágica de rastreador, só com o Tipote e o Suzarte o senhor podia rechear livro. E ainda antes do meio-dia subir, desemalocaram duas gordas novilhas, carneadas fartas para a nossa refeição. Um bom entendedor, num bando, faz muita necessidade.

E aquele lugar, o Valado, eu aceitei – o senhor preste atenção! ; para ficar, uns meus tempos, ali, ainda me valia. Senti assim, meu destino. Dormindo com um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca, de noite o destino da gente às vezes conversa, sussurra, explica, até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis.

Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Zé Bebelo suscitado determinou, que a gente fosse mais para adiante. Ele concebia medo. Conheci. Estava.

Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por quê? Chega um dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau-ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais. Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas cabedal é um só, do misturado viver de todos, que mal vareia, e as coisas cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme agüentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se suprira certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a tremeluzir em mim.

Pelo que umas cinco léguas andamos. De modo, meio, conforme decerto, aquele algum seô Habão também tinha se ido. Carecíamos? Merecer logo ao menos uma semana de quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais em sua saúde. Esses homens do Sucruiú, cercados da banda outra pelos catrumanos, ei que só podiam achar espaço por estes lados, eles sim. Nós, no nosso. Eu sei que um se mexer a esmo é sempre fácil; e que com o cansaço é que se tapa o desânimo. Mas, o que eu queria, real, era estar sarado de alguma demorada doença, comendo aos poucos o meu caldo com angu, e, em invernia de chuva fria esfriada, me esquentando perto do borralho de um fogão, e galo de manhã cantando em algum terreiro. Era para ir?

Fôssemos. Disso deslavava. Descemos a Vereda do Porco-Es-pim, que não tinha nome verdadeiro anterior, e assim chamamos, porque um bicho daqueles por lá cruzou. Chapadas de ladeira

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pouca. Depois, uma lomba, com o cerradão. E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo, mas feio, como feio não se vê. – Tudo é gerais... – eu pensei, por consolo. Um homem, que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado.

E ali, redizendo o que foi meu primeiro pressentimento, eu ponho: que era por minha sina o lugar demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis. Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o redondo daquilo, e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era – mas da orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara é tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma, por cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma agüinha chorada, demais. Até os buritis, mesmo, estavam presos.

O que é que buriti diz? É: – Eu sei e não sei... Que é que o boi diz:

– Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro corgo-vereda, parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas eram

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas duas, uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um tristonho brejão, tão fechado de moitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbus que não davam salvação.

Elas tinham um nome conjunto – que eram as Veredas-Mortas.

O senhor guarde bem. No meio do cerrado, ah, no meio do cerrado, para a gente dividir de lá ir, por uma ou por outra, se via uma encruzilhada. Agouro? Eu creio no temor de certos pontos.

Tem, onde o senhor encosta a palma-da-mão em terra, e sua mão treme pra trás ou é a terra que treme se abaixando. A gente joga um punhado dela nas costas – e ela esquenta: aquele chão gostaria de comer o senhor; e ele cheira a outroras... Uma encruzilhada, e pois! – o senhor vá guardando... Aí mire e veja: as Veredas Mortas... Ali eu tive limite certo.

Os ruins dias, o castigo do tempo todo ficado, em que falhamos na Coruja, conto malmente. A qualquer narração dessas depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória. E o senhor não esteve lá. O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugugem do canto da mãe-da-lua. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Daí, despropositou o frio, vezmente. E quase que todos os companheiros já estavam adoecidos.

Refiro ao senhor que, da bexiga-brava, não. Mas de outras enfermidades. Febres. Em algum trecho, por falta de sinal, a gente devia de ter arranchado no sezonático. Agora, a maior parte dos companheiros tremiam em prazos, com a intermitente.

Remédio que valesse, de todo faltava. Aquilo afracava, no diário; os homens perdiam a natureza. E um andaço de defluxo, que também me baqueou. Pior não estive; mas, eu, de mim, sei.

Todos, de em antes, me davam por normal, conforme eu era, e agora, instantantemente, de dia em dia eu ia ficando demudado.

Com uma raiva, espalhada em tudo, frouxa nervosia. – “É do fígado...” – me diziam. Dormia pouco, com esforços. Nessas horas da noite, em que eu restava acordado, minha cabeça estava cheia de idéias. Eu pensava, como pensava, como o quem-quem remexe no esterco das vacas. Tudo o que me vinha, era só entreter um planejado. Feito num traslo copiado de sonho, eu preparava os distritos daquilo, que, no começo achei que era fantasia; mas que, com o seguido dos dias, se encorpava, e ia tomando conta do meu juízo: aquele projeto queria ser e ação! E, o que era, eu ainda não digo, mais retardo de relatar. Coisa cravada. Nela eu pensava, ansiado ou em brando, como a água

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas das beiras do rio finge que volta para trás, como a baba do boi cai em tantos sete fios.

Ah, mas aquilo, por terrível que fosse, eu tinha de levantar, mas tinha! Em tal já sabia do modo completo, o que eu tinha de proceder, sistema que tinha aprendido, as astúcias muito sérias.

Como é? Aos poucos, pouquinhos, perguntando em conversa a uns, escutando de outros, me lembrando de estórias antigo contadas. A maneira que quase sem saber o que eu estava fazendo e querendo. De em desde muito tempo. Custoso pior não sendo, no arrevesso. Só o que demandava era uma fúria de quente frieza, dura nos dentes, um rompante de grande coragem.

Ao que era por tanto negrume e carregume, a mais medonha responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem acha o querer para executar, nesses sertões todos.

Vai, um dia, eu quis. Antes, o que eu vinha era adiando aquilo, adiando. Quis, assim, meio às tantas, mesmo desfazendo de esclarecer no exato meus passos e motivos. Ao que, na moleza, eu tateava. Digo! comecei. Tinha preceito. O que seja –

primeiro, não se coma, não se beba, e é; se bebe cachaça... Um gole que era fogo solto na goela e nos internos. Não quebrava o jejum do demo. No que eu confiei que estava pronto para ir

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas avante: no que eram obras de chão e escuridão. Engano meu. A aguardar, até à hora, eu carecia de não deixar que nem um fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse. Deixei. Aí foi um instante: Diadorim estava perto de mim, vivo como pessoa, com aquela forte meiguice que ele denotava. Diadorim conversou, aceitei a companhia dele. Logo larguei meu começo de mão, relaxei aqueles propósitos. Cacei comida. Comi tanto, zampei, e meu corpo agradecia. Diadorim, com as pestanas compridas, os moços olhos. Desde aí, naquelas outras coisas não queria pensar, e ri, pauteei, dormi. A vida era muito normal, mesma, e certa bem que estava.

Tanto o engano. Os três dias passados, eu reproduzi tudo com uma qualidade de remorsos, aquelas decisões. Sonhei coisas muito duras. O porque era pior, agora, que eu tomei sombra vergonhosa, por ter começado e não ter tido firmeza para levar a acabado. E a herança de minhas queixas antigas. Conforme eu pensava: tanta coisa já passada; e, que é que eu era? Um raso jagunço atirador, cachorrando por este sertão. O mais que eu podia ter sido capaz de pelejar certo, de ser e de fazer; e no real eu não conseguia. Só a continuação de airagem, trastejo, trançar o vazio. Mas, por quê? – eu pensava. Ah, então, sempre achei: por causa de minha costumação, e por causa dos outros. Os outros,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas os companheiros, que viviam à-toa, desestribados; e viviam perto da gente demais, desgovernavam todaa-hora a atenção, a certeza de se ser, a segurança destemida, e o alto destino possível da gente. De que é que adiantava, se não, estatuto de jagunço? Ah, era. Por isso, eu tinha grande desprezo de mim, e tinha cisma de todo o mundo. Apartado. De Zé Bebelo, mais do que de todos.

Zé Bebelo doente não estava. Doença, com ele? Sendo o que a um assim não podia permitido; só se perdesse de todo o siso. A não ser por essa malacafa. Ei, pois, ele estava caipora.

Logo vi. Daí tinha conta a nossa reles perdição, aquele atrasamento geral. Zé Bebelo, para mim, tinha gastado as vantagens. Zé Bebelo murchava muda na cor, não existia mais em viço para desatinos, nada que falava era mais de se reproduzir, aqueles exageros bonitos e tamanhos rasgos. Só dizendo que tínhamos de esperar mesmo ali, até que os adoecidos sarassem. Assim em impossibilidades. Tudo o que acontecia, era a má-sorte. Não digo por um Zé Vital, que tornava a dar ataque, dos de entortar boca escumante e se esbracejar e espernear com madeira de braços-e-pernas que de quem eram.

Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela, a rastejo no capim e nas folhas caídas, nem chegava a quatro palmos – e com poder de acabar – e o Gregoriano morreu, em pobres horas. E

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mais conto o que com um Felisberto se dava. Assaz em aparências de saúde, mas tendo sido baleado na cabeça, fazia já alguns anos; uma bala de garrucha – a bala de cobre, se dizia –

que estava encravada na vida de seus encaixes e carnes, em ponto onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escrafunchar. Aí, com o intervalo dos meses, e de repente, sem razão entendível nenhuma, a cara desse Felisberto se esverdeava, até os dentes, de azinhavres, ficava mal. Ao que os olhos inchavam, tudo fuscado em verde, uma mancha só, o muito grande. O

nariz entupia, inchado. Ele tossia. E horror de se ver, o metal do esverdeio. Daí, feito flor de joaninha-silva em muito sol, do meio-dia para a tarde, virava era azul. Aquilo era para poder sarar? Quando que? A tosse dum garrote entisicado. Dizia naquelas horas que estava sem visiva, nada não enxergava. A maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele aquela bala, não carecer de imaginar onde era que tal pessoa estava, nem de ódio constante de repensar nela.

Mas que em desregra a gente se comportava, então, de parar ali envelhecendo os dias, na Coruja, como fosse menos-emais para aproveitar a carne fresca e de-sol que na campeação se conseguia, as boiadas daqueles sertões. Sempre Zé Bebelo não desistia de palavrear, a raleza de projetos, como faz-de-conta. A

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mó de moinho, que, nela não caindo o que moer, mói assim mesmo, si mesma, mói, mói. As doenças se curassem? Minhas dúvidas. Aí, quem não pegara a maleita padecia por outros modos – malde-inchar, carregação-do-peito, meias-dores; teve até agravado de estupor. Adiantemente, me desvali. O que me coçava, que nem se eu tivesse provado lombo de capivara no cio.

A ser, o fígado, que me doía; mas não me certifiquei: apalpar lugar de meu corpo, por doença, me dava um desalento pior.

Raimundo Lê cozinhou para mim um chá de urumbeba.

Era um recurso para aliviar meu achaque, e era dado com bondade. Isso mesmo foi o que eu disse a Raimundo Lê, agradecido: – “É um recurso para aliviar meu achaque, e estou vendo que é dado com bondade...” Alaripe pegou a gabar a virtude mezinheira das mais raízes e folhas. – “Até estas aqui, duvidar, devem de poder servir, em doses, de remédio para algum carecer, só que não se sabe...” – ele disse, por uma moita rosmunda de frei-jorge, esfiada em tantos espetos, e a pavoã por perto crescida. Ali, naquela hora, eu conferi como era usual a gente estimar os companheiros, em ajuntado. Diadorim – que graças-a-Deus estava de todo são – com os cuidados todos depunha assisado por mim. E o Sidurino disse: – “A gente carecia agora era de um vero tiroteio, para exercício de não se

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas minguar... A alguma vila sertaneja dessas, e se pandegar, depois, vadiando...” Ao assaz confirmamos, todos estávamos de acordo com o sistema. Aprovei, também. Mas, mal acabei de pronunciar, eu despertei em mim um estar de susto, entendi uma dúvida, de arpejo; e o que me picou foi uma cobra bibra. Aqueles, ali, eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães – eles achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir, por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. O horror que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano.

A verdade dessa menção, num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim – que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver, então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades.

Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah, eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro.

Ateado no que pensei, eu sem querer disse alto: – “... Só o demo...” E: – “Uém?...” – um deles, espantado, me indagou.

Aí, teimei e inteirei: – “Só o Que-Não-Fala, o Que-Não-Ri, o Muito-Sério – o cão extremo!” Eles acharam divertido. Algum fez o pelo-sinal. Eu também. Mas Diadorim, que quando ferrava não largava, falou: – “O inimigo é o Hermógenes.”

Disse, me olhou. Seja, fosse, para agradar o meu espírito.

Arte de docemente, o que eu não pensei, o que eu reproduzi, firme:

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– “Que sim, certo! O inimigo é o Hermógenes...”

Vigiei Diadorim; ele levantou a cara. Vi como é que olhos podem. Diadorim tinha uma luz. Reponho: em tanto já estava noitinha, escurecendo; aquela escuridão queria mandar os outros embora. O que Diadorim reslumbrava, me lembro de hei-de me lembrar, enquanto Deus dura. Mas, entre nós dois, sem ninguém saber, nem nós mesmos no exato, o que a gente acabava de fazer, entestando nos fundos, definitivamente por morte, era o julgamento do Hermógenes.

Hermógenes Saranhó Rodrigue Felipes – como ele se chamava; hoje, neste sertão, todo o mundo sabe, até em escritos no jornal já saiu o nome dele. Mas quem me instruiu disso, na ocasião, foi o Lacrau, aquele que à custa de riscos conseguira nos Tucanos se baldear para o meio de nós, consoante relatei. A ele dei de perguntar, ao mau respeito, muitas coisas. Assaz de contente, ele me respondia. Se era verdade, o que se contava?

Pois era – o Lacrau me confirmou – o Hermógenes era positivo pactário. Desde todo o tempo, se tinha sabido daquilo. A terra dele, não se tinha noção qual era; mas redito que possuía gados e fazendas, para lá do Alto Carinhanha, e no Rio do Borá, e no Rio das Fêmeas, nos gerais da Bahia. E, veja, por que sinais se

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas conhecia em favor dele a arte do Coisa-Má, com tamanha proteção? Ah, pois porque ele não sofria nem se cansava, nunca perdia nem adoecia; e, o que queria, arrumava, tudo; sendo que, no fim de qualquer aperto, sempre sobrevinha para corrigimento alguma revirada, no instinto derradeiro. E como era a razão desse segredo? – “Ah, que essas coisas são por um prazo... Assinou a alma em pagamento. Ora, o que é que vale?

Que é que a gente faz com alma?...” O Lacrau se ria, só por acento. Ele me dizia que a natureza do Hermógenes demudava, não favorecendo que ele tivesse pena de ninguém, nem respeitasse honestidade neste mundo. – “Pra matar, ele foi sempre muito pontual... Se diz. O que é porque o Cujo rebatizou a cabeça dele com sangue certo: que foi o de um homem são e justo, sangrado sem razão...” Mas a valência que ele achava era despropositada de enorme, medonha mais forte que a de reza-brava, muito mais própria do que a de fechamento-de-corpo. Pactário ele era, se avezando por cima de todos. – “Você, que não cede nenhum valor à alma, você, Lacrau, era capaz de fechar desse pacto?” – eu indaguei. – “Ah, não, mano, quero lá não navegar por detrás das coisas...

Coragem minha é para se remedir contra homem levado feito eu, não é para marcar a meia-noite nessas encruzilhadas,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas enfrentar a Figura...” Calado, considerei comigo. Esse Lacrau tirava a sensatez da insensatez. Outras informações ele disse. O

senhor não é como eu? Sem crer, cri.

Às parlendas, bobéia. O medo, que todos acabavam tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias, o quanto famanava. O fato fazia fato. Mas, no existir dessa gente do sertão, então não houvesse, por bem dizer, um homem mais homem? Os outros, o resto, essas criaturas. Só o Hermógenes, arrenegado, senhoraço, destemido. Rúim, mas inteirado, legítimo, para toda certeza, a maldade pura. Ele, de tudo tinha sido capaz, até de acabar com Joca Ramiro, em tantas alturas.

Assim eu discerni, sorrateiro, muito estudantemente. Nem birra nem agarre eu não estava acautelando. Em tudo reconheci: que o Hermógenes era grande destacado daquele porte, igual ao pico do serro do Itambé, quando se vê quando se vem da banda da Mãe-dos-Homens – surgido alto nas nuvens nos horizontes. Até amigo meu pudesse mesmo ser; um homem, que havia. Mas Diadorim era quem estava certo: o acontecimento que se carecia era de terminar com um.

Diadorim, o Reinaldo, me lembrei dele como menino, com a roupinha nova e o chapéu novo de couro, guiando meu ânimo para se aventurar a travessia do Rio do Chico, na canoa

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas afundadeira. Esse menino, e eu, é que éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário! O que era o direito, que se tinha. O que eu pensei, deu de ser assim.

Mas em tanto, com as mudanças e peripécias, no afinco de tudo lhe referir, ditas conforme digo – não toco no nome de Otacília? Nela eu queria pensar, na ocasião; mas mal que, cada vez, achava mais custoso. A ser que se nublando a sustância da recordação, a esquecida formosura. Assim a nossa conversação de amor, lá na Santa Catarina, não consistisse mais do que em uma estória alheia, escutada de outra pessoa contar. Sei que eu queria uma saudade. Para isso rezei, a todas as minhas Nossas Senhoras Sertanejas. Mas rebotei de lado aquelas orações, na água fina e no ar dos ventos. Elas, era feito eu lavrasse falso, não me davam nenhuma cortesia. Só um vexame, de minha extração e da minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de conceder o casamento, nem tolerar meu remarcado de jagunço, entalado na perdição, sem honradez costumeira. As quantias por paga! O senhor entende, o que conto assim é resumo; pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.

Mas eu achei, aí, a possibilidade capaz, a razão. A razão maior, era uma. O senhor não quer, o senhor não está querendo saber?

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Aquilo, que eu ainda não tinha sido capaz de executar.

Aquilo, para satisfazer honra de minha opinião, somente que fosse. – “Ah, qualquer dia destes, qualquer hora...” – era como eu me aprazava. O dum dia, duma noite. Duma meia-noite. Só para confirmar constância da minha decisão, pois digo, acertar aquela fraqueza. Ao que, alguma espécie aquilo continha? Na verdade real do Arrenegado, a célebre aparição, eu não cria.

Nem. E, agora, com isto, que falei, já está ciente o senhor?

Aquilo, o resto... Aquilo – era eu ir à meia-noite, na encruzilhada, esperar o Maligno – fechar o trato, fazer o pacto!

Vejo que o senhor não riu, mesmo em tendo vontade.

Também tive. Ah, hoje, ah – tomara eu ter! Rir, antes da hora, engasga. E eu me enviava pelo sério. Uma precisão eu encarecia: aí, de sopesar minhas seguidas forças, como quem pula a largura dum barranco, como quem saca sua faca para relumiar.

E veio mesmo outra manhã, sem assunto, eu decidi comigo: – É hoje... Mas dessa vez eu ainda remudei. Sem motivo para sim, sem motivo para não. Delonguei, deveras. Não é que, não foi de medo. Nem eu cria que, no passo daquilo, pudesse se dar alguma visão. O que eu tinha, por mim – só a invenção de coragem. Alguma coisice por principiar. O que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas algum tivesse feito, por que era que eu não ia poder? E o mais –

é peta! – nonada. Do Tristonho vir negociar nas trevas de encruzilhadas, na morte das horas, soforma dalgum bicho de pêlo escuro, por entre chorinhos e estados austeros, e daí erguido sujeito diante de homem, e se representando, canhim, beiçudo, manquinho, por cima dos pés de bode, balançando chapéu vermelho emplumado, medonho como exigia documento com sangue vivo assinado, e como se despedia, depois, no estrondo e forte enxofre. Eu não acreditava, mesmo quando estremecia. T’arreneguei.

Com isso, o tempo mais parava. Também, fazia mais de mês que a gente estava naquela tapera de retiro, cujo a Coruja era que era o nome, por um desses impossíveis de Zé Bebelo.

Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem, passa um bando de papagaios, o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa alguma diversão. Mas os papagaios estão voando já longe, e o rumor deles, conforme o vento, faz que nem estivessem retornando. Diadorim, esse, nunca teve instante desiludido.

Sempre eu gostava muito dele. Só que não falasse; por aquele tempo eu quase não abria boca para conversação.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E se deu que chegaram lá dois homens, quando não se esperava, um deles se vendo que sendo patrão, e o outro algum vaqueiro de seu serviço. Aí logo se soube: era o dono daqueles lugares, do retiro do Valado, principalmente; e ele, conforme já disse, seô Habão se chamava. Ali, quando dei fé, ele já tinha se apeado; estava curvado para o chão, mas seguro com a mão esquerda na rédea de seu cavalo. Era um homem de boa idade, vestido com brim azul encorpado escuro, e calçando pretas botas joelhudas. Quando levantou o olhar, outra vez, notei que tinha boa catadura. Mas o cavalo – esse me entusiasmou: era um animal gateado, grande, com imponência e todo brio, de rabejo vasto; e mais tarde o senhor verá o que ele era; cavalo de cara alta, de beiço mole, cavalo que debruça bem e que em poço bebia remolhando a testa. Ele sabia olhar redor-mirado a gente, com simpatias ou com desprezos, e respirava para dentro dos peitos a maior quantidade de ar que desejava, por quantas ventas tão largas ele tinha. Bem, dele depois lhe conto.

Seô Habão estava conversando com Zé Bebelo. Admirei a noção dele: que era uma calma muito sensata e firmada, junto com um miúdo comportamento. E vigiava os traços simples do arredor, não perdendo azo de reparar em todas as coisas, como era que estavam em que pé. Olhares de dono – o senhor sabe. E

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que, na ocasião, estava desprevenido, não transportava consigo o dinheiro razoável.

Mas que, se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à verdadeira sua fazenda-grande que possuía, na vertente do Resplandor, dali a umas vinte léguas de lonjura, ele havia de fornecer ademais um auxílio, em espórtulas. E ele falou aquilo com tantas sinceras medidas – a gente se capacitando do profundo que o dinheiro para ele devia de ter valor. Por aí, vi que ele era adiantado e sagaz. Porque: ema, no chapadão, é a primeira que ouve e se sacode e corre – e mesmo em quando tenha razão.

Mas, com seus modos guerreiros, Zé Bebelo abriu um gesto, à fidalgamente, nem deixando o outro estipular:

– “Ah, isso não, patrício meu amigo, he, mas absolutamente! A gente não é gente da desordem... E favor, de sobra, nós já devemos ao senhorpela pousada em suas terras e pelas cabeças de gado de sua posse, que temos carneado, por precisão de sustento...”

O homem depressa pronunciou que tinha prazer naquilo, que sua boiada toda estava às ordens; mas, como por uma regra, perguntou assim mesmo quantas cabeças, mais ou menos, a

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas gente já tinha consumido. Assim ele dava balanço, inquiria, e espiava gerente para tudo, como se até do céu, e do vento suão, homem carecesse de cuidar comercial. Eu pensei: enquanto aquele homem vivesse, a gente sabia que o mundo não se acabava. E ele era sertanejo? Sobre minha surpresa, que era.

Serras que se vão saindo, para destapar outras serras. Tem de todas as coisas. Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.

Fiquei notando. Em como Zé Bebelo aos poucos mais proseava, com ensejos de ir mostrando a valia declarada que tinha, de jagunço chefe famoso; e daí, sutil, se reconhecia da parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o outro era diferido, composto em outra séria qualidade de preocupações. E seô Habão, que escutava com respeito, devagar-zinho pegava a fazer perguntas, com a idéia na lavoura, nos trabalhos perdidos daquele ano, por desando das chuvas temporãs e do sol grave, e das doenças sucedidas. O que me dava a qual inquietação, que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo, mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar demonstrado.

Porque seô Hahão, mansoso e manso, sem glória nenhuma, era um toco de pau, que não se destorce, fincado sempre para o seu arrumo. Ele só entendia de assuntos triviais, mas cuidava deles com uma força vagarosa, verdadeira, de boi-decoice. E, no mais, nem ouvia, apesar de toda a cortesia de respeito, quando se falava em loca Ramiro, no Hermógenes e no Ricardão, em tiroteios com os praças e na grande tomada, por quinhentos cavaleiros, da formosa cidade de São Francisco – que é a que o Rio olha com melhor amor. Daí, assim ia sendo que, mesmo sem sentir, o próprio Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em todas as pestes de gado, e nas boas leiras de vazante, no feijão-da-seca e nos arrozais cacheando, em que os passarinhos de Deus viram em a má praga. Com efeito, nos intervalos daquela dividida conversa, não sei o que Zé Bebelo sentia nem achava.

Eu, digo – me disse: que um homem assim, seô Habão, era para se querer longe da gente; ou, pois, então, que logo se exigisse e deportasse. Do contrário, não tinha sincero jeito possível: porque ele era de raça tão persistente, no diverso da nossa, que somente a estância dele, em frente, já media, conferia e reprovava.

Mas, sei lá, só por um doente desejo de necessidade de ver bem se aquilo era, o certo foi que não sosseguei até poder me

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas presenciar com ele, perto a perto, e inventar conversação. E nem custoso não me foi, porque ele passou ali com a gente muitas horas, quase que o dia todo. Dei um jeito, fazendo como se menos quisesse, e vim em fala. Seô Habão me olhou com tantã norma desusada, que eu senti minhas falsidades. E esqueci as palavras primeiras, que tinha aprontado para declarar.

– “Seô Capitão Habão...” – eu disse; e num relance eu conheci que estava também tendo de falar o p’r’ agradar.

Assim, o que dissertei foi que eu sabia do título de capitão que ele usufruía, por ter relido o diploma, na casa do Valado, que de roubos a furtos a gente do Sucruiú tinha devastado. E

contei a ele que a referida patente eu tinha por cautela apanhado do chão e guardado dentro do oratório, por detrás das imagens dos santos.

Ele nem deu ar de interesse no fato, não me agradeceu por isso; perguntou nada. Disse:

- “A bexiga do Sucruiú já terminou. Estou ciente dos que morreram: foram só dezoito pessoas...”

E o que indagou foi se eu soubesse se tinham feito muitos estragos nos canaviais. – “... O que eles deixaram em pé, e que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas lobo ou mão-pelada não roeram, sempre há-de dar uns carros, se move moagem...” Agora ele conservava os olhos sem olhar, num vagar vago, circunspecto, pensava aqueles capítulos. Disse que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de rapadura. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles do Sucruiú, mesmo, que depois pagavam com trabalhos redobrados. De ouvir ele acrescentar assim, com a mesma voz, sem calor nenhum, deu em mim, de repente, foram umas nervosias. Ao que, aqueles do Sucruiú, fossem juntas-de-bois em canga, criaturas de toda proteção apartadas. Mas eu não tinha raiva desse seô Habão, juro ao senhor, que ele não era antipático. Eu tinha era um começo de certo desgosto, que seria meditável. – “Para o ano, se Deus quiser, boto grandes roças no Valado e aqui... O feijão, milho, muito arroz...” Ele repisava, que o que se podia estender em lavoura, lá, era um desadoro. E

espiou para mim, com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Nem sei se ele sabia que queria. Acho que a idéia dele

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas não arrumava o assunto assim à certa. Mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos. Ainda confesso declarado ao senhor: eu não tivesse raiva daquele seô Habão.

Porque ele era um homem que estava de mim em tão grandes distâncias. A raiva não se tem duma jibóia, porque jibóia constraga mas não tem veneno. E ele cumpria sua sina, de reduzir tudo a conteúdo. Pudesse, economizava até com o sol, com a chuva. Estava picando fumo no covo da mão, garanto ao senhor que não esperdiçava nem o átomo dumas felpas. A alegria dele era uma recontada repetição, um condescendido: vinte, trinta carros de milho, ah, os mil alqueires de arroz... Zé Bebelo, que esses projetos ouvisse, ligeiro logo era capaz de ficar cheio de influência: exclamar que assim era assim mesmo, para se transformar aquele sertão inteiro do interior, com benfeitorias, para um bom Governo, para esse ô-Brasil! Em peta, que, um seô Habão, esse não se entusiasmava. Era só os carros-de-bois carreando a cana. E ele dava ordens. Ordem que dava, havia de ser costumeira e surda, muito diferente da de jagunço. Cada pessoa, cada bicho, cada coisa obedecia. Nós íamos virando enxadeiros. Nós? Nunca! Mas, então, eu antes queria ver chegar duma vez os do Hermógenes, em galopadas e gritos, berrando rifles em todo fogo, e ai para se ouvir, e sangue

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas para quem ver pudesse. Aí era que iam saber o que sebaceiro é!

E, por um despique, foi que acertei meu correão com as armas; e pronunciei:

– “Duvidar, seô Habão, o senhor conhece meu pai, fazendeiro Senhor Coronel Selorico Mendes, do São Gregório?!”

Pensei que ele nem fosse acreditar. Mas, juro ao senhor: ele me olhou com muitos outros olhos. Aquele olhar eu agüentei, facilitado. Seô Habão sacudia em sim a cabeçona, surpreendido mas circunstante. – “Dou notícia... Dou notícia...” – ele quase que se lastimou. Nem sei se ele sabia que meu Padrinho Selorico Mendes fosse, como era, muito mais fornecido de renome e avultado em posses, conforme até por estes sertões do gerais se contava. Regozijei, devagar; mas não regozijei completo. Do que destapei: que um desses, com a estirpe daquele seô Habão, tirassem dele, tomassem, de repente, tudo aquilo de que era dono

– e ele havia de choramingar, que nem criancinha sem mãe, e tatear, toda a vida, feito ceguinho catando no chão o cajado, feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. A misericórdia, também, eu quase tive. Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. De ver o homem, em pé, diante de mim, recrescer e tornar a minguar – isto tudo no meu juízo – nem sei

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de que estimas me esquecia e de que outras me lembrava. E, com pouco, no rebaixar do sol, ele tornou a amontar no seu cavalo gateado, belo, e se foi, de rompido, no rumo torto do Valado.

Sobre assim, aí corria no meio dos nossos um conchavo de animação, fato que ao senhor retardei: devido que mesmo um contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de uma vez. Pois foi que o vaqueiro tal, que acompanhava o seô Habão, em conversa distraída com algum ou com outro, por acasos mencionou que um bando de uns dez homens, jagunços também, pelo dito e visto, andavam parapassando, como que à espera de destino, em entre o Fazendão Felício – que é na beira da estradamor para esse poente todo – e o Porto velho da Remeira, no rio Paracatu – aonde, menos dia, mais dia, todo o mundo acaba vindo chegando. Depressa então falaram o assunto ciente para Zé Bebelo, que reconheceu, pela descrição: – “Chagas de Cristo! É eles, ei, egüei... Só pode que pode ser é mesmo o João Goanhá, com uns outros...” E instantâneo expediu, para lá, dois próprios, que tocassem ligeiro como sem senões e voltassem trazendo os comparsas amigos. Isso com a certa alegria se ouviu, porque eram novidades acontecendo.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Afora eu. Achado eu estava. A resolução final, que tomei em consciência. O aquilo. Ah, que – agora eu ia! Um tinha de estar por mim: o Pai do Mal, o Tendeiro, o Manfarro. Quem que não existe, o Solto-Eu, o Ele... Agora, por quê? Tem alguma ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: hora chegada. Eu ia. Porque eu estava sabendo – se não é que fosse naquela noite, nunca mais eu ia receber coragem de decisão.

Senti esse intimado. E tanto mesmo nas idéias pequenas que já me aborrecendo, e por causa de tantos fatos que estavam para suceder, dia contra dia. Eu pensava na vinda de João Goanhá, e que a gente carecia de sair de novamente por ali, por terras e guerras. Pensei naquele seô Habão, que nem num transtorno?

Mais não sei. E essas coisas desconvinham em mim, em espécie de necessidade. A não me apartar à-toa dali – das Veredas-Mortas!

Sombra de sombra, foi entardecendo; fuscava. Ao que eu estivesse destemido, soberbo? Da mão peluda, eu firme estava.

Fazia muito tempo que eu não descabia de tão em arrojo. Dou: que nunca, feito naquela hora, e em aquele dia. Somente com a alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações.

Retrocedi de todos. De Zé Bebelo, demais: que ele havia de

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas desconfiar, dizer o que era desordens que cabeça de homem não cogita. De Diadorim refugi. Ah, deixa a agüinha das grotas gruguejar sozinha. E, no singular de meu coração, dou dito: o que eu gostava tanto de Diadorim, tinha um escrúpulo – queria que ele permanecesse longe de toda confusão e perigos. Há-de, essa lembrança branda, de minha ação, minha Nossa Senhora ainda marque em meu favor. Deus me tenha!

Adjaz o campo, então eu subi de lá, noitinha – hora em que capivara acorda, sai de seu escondido e vem pastar. Deus é muito contrariado. Deus deixou que eu fosse, em pé, por meu querer, como fui.

Eu caminhei para as Veredas-Mortas. Varei a quissassa; depois, tinha um lance de capoeira. Um caminho cavado.

Depois, era o cerrado mato; fui surgindo. Ali esvoaçavam as estopas eram uns caborés. E eu ia estudando tudo. Lugar meu tinha de ser a concruz dos caminhos. A noite viesse rodeando.

Aí, friazinha. E escolher onde ficar. O que tinha de ser melhor debaixo dum pau-Cardoso – que na campina é verde e preto fortemente, e de ramos muito voantes, conforme o senhor sabe, como nenhuma outra árvore nomeada. Ainda melhor era a capa-rosa – porque no chão bem debaixo dela é que o Careca

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dança, e por isso ali fica um círculo de terra limpa, em que não cresce nem um fio de capim; e que por isso de caparosa-do-judeu nome toma. Não havia. A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão deu. Talentos de lua escondida. Medo? Bananeira treme de todo lado. Mas eu tirei de dentro de meu tremor as espantosas palavras. Eu fosse um homem novo em folha. Eu não queria escutar meus dentes.

Desengasguei outras perguntas. Minha opinião não era de ferro?

Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço, pendurado morrendo daqueles galhos: quem-é-que quem que me impedia?! Eu não ia temer. O que eu estava tendo era o medo que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo, o Sempre-Sério, o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida da terra, não possuía sangue derramável. Viesse, viesse, vinha para me obedecer. Trato? Mas trato de iguais com iguais. Primeiro, eu era que dava a ordem.

E ele vinha para supilar o ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu – mais mil vezes – que estava ali, querendo, próprio para afrontar relance tão desmarcado. Destes meus olhos esbarrarem num ror de nada.

Esperar, era o poder meu; do que eu vinha em cata. E eu não percebia nada. Isto é, que mesmo com o escuro e as coisas do escuro, tudo devia de parar por lá, com o estado e aspecto. O

Continuar: parte 2 de 3