Grande Sertão: Veredas
bastantes morreram, no final. Esse sertão, esta terra.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A verdade que com Diadorim eu ia, ambos e todos. Além de que Zé Bebelo comandava. – “Ao que vamos, vamos, meu filho, Professor: arrumar esses bodes na barranca do rio, e impor ao Hermógenes o combate...” – Zé Bebelo preluzia, comedindo pompa com sua grande cabeça. Assim de loguinho não aprovei, então ele imaginou que eu estava descrendo. – “Agora coage tua cisma, que eu estou senhor dos meus projetos. Tudo já pensei e repensei, guardo dentro daqui o resumo bem traçado!” – e ele pontoava com dedo na testa. Acreditar eu acreditasse, não duvidei. O que eu podia não saber era se eu mesmo estava em ocasiões de boa-sorte.
A ser, porque, numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida, a gente tinha topado com turma de inimigos, retornados para lá por espiação. Aí foi curto fogo, mas eu levei uma bala, de raspaz, na carne do braço, perdi muito sangue. Raimundo Lê banhou com casca de angico, na hora melhorei; Diadorim amarrou bem, com pano duma camisa rasgada. Apreciei a delicadeza dele.
Atual, todos prestaram em mim amizade de atenção, aquilo vinha a ser até um consolo. Só que, depois de dois dias, o braço me
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas doía inteiro e inchava, sei que a inchação me cansasse muito, sempre eu queria esbarrar pra água beber. – “Se eu tiver de atirar, então como é que faço? Não posso...” – era outro meu receio.
Admirei, porque o José Félix também tinha tido ferimento, na coxa e na perna, mas a natureza dele era limpa, o ofendido secava por si, nem parecendo ser. Assim a primeira vez que me sucedia um a-mal, isso me perturbasse. O que me sofria até nas margens do peito, e nos dedos da mão, não me concedendo movimentos.
Muito temi por meu corpo. “Ah, minha Otacília” – eu gemi em mim. – “Pode que nunca mais você me veja, e então nem viúva minha você não vai ser...” Uns recomendavam arnica-do-campo, outros aconselhavam emplastro de bálsamo, com isso rente se sarava. Aí Raimundo Lê garantiu cura com erva-boa. Mas onde era que erva-boa se ia achar?
À Fazenda dos Tucanos chegamos, lá esbarramos – é na beira da Lagoa Raposa, passada a Vereda do Enxu. Visitamos o fazendão vazio, não tinha almaviva de se ver. E do Rio-do-Chico longe não se estava. Assim então por que era que não se avançar logo, às duras marchas, para atacar? – “Sei de mim, sei...” – Zé Bebelo menos disse, sem explicação. Desconheci. Cacei um catre, cama-de-vento, num quarto meio escuro; com coisa nenhuma não me importei. – “Retém as forças, Riobaldo. Vou campear o
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas remédio, nesses matos...” – Diadorim falou. A gente nos Tucanos ia falhar dois dias, ali ficamos comendo palmito e secando em sol a carne de dois bois.
No primeiro dia, de tardinha, apareceu um boiadeiro, que com seus camaradas viajando. Vinham de Campo-Capão-Redondo, em caminhada para Morrinhos. Por que tinham riscado aquela grande volta? – “O senhor dá paz à gente, Chefe?”
– o boiadeiro perguntou. – “Dou paz, damos, amigos...” – Zé Bebelo respondeu. A quieto, o boiadeiro então achou que devia de as novidades relatar. Que se estava em meio de perigos. Sim.
Os soldados! – “Os que soldados, esses, mano velho?”
Soldadesca pronta, do Governo, mais de uns cinqüenta. Assim onde era que estavam? – “Ao que estão em São Francisco e em Vila Risonha, e mais outros deles vão vindo chegando, Chefe; é o que eu ouvi dizer...” Zé Bebelo, escutando, redondamente. Só quis mais saber. Se isso, se aquilo. Se o boiadeiro sabia o nome do Promotor de Vila Risonha, e do juiz de Direito, do Delegado, do Coletor, do Vigário. O do Oficial comandante da tropa, o boiadeiro não acertava dizer. Aquele boiadeiro era homem sério, com palavra merecida e vontade de estar bem com todos. Tinha uma garrafa de vinho depurativo na bagagem, me presenteou
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas com um gole, me fez bem. Pousou lá, no outro dia se foram, muito cedo.
Nesse entremear, eu senti meu braço melhor, e estive mais disposto. Andei andando, vi aquela fazenda. Essa era enorme –
o corredor de muitos grandes passos. Tinha as senzalas, na raia do pátio de dentro, e, na do de fora, em redor, o engenho, a casa-dos-arreios, muitas moradas de agregados e os depósitos; esse pátio de fora sendo largo, lajeado, e com um cruzeiro bem no meio. Mas o capim crescia regular, enfeite de abandono. Não de todo. Pois tinham desamparado um gato, ali esquecido, o qual veio para perto do jacaré cozinheiro, suplicar comida. Até por dentro do eirado, mansejavam uns bois e vacas, gado reboleiro. Aí João Vaqueiro viu um berrante bom, pendurado na parede da sala-grande; pegou nele, chegou na varanda, e tocou: as reses entendiam, uma ou outra respondendo, e entraram no curral, para a beira dos cochos, na esperança de sal. – “Não faz mês que o povo daqui aqui ainda estava...” – João Vaqueiro declarou. E era verdade, com efeito, pois na despensa muita coisa se encontrando aproveitável. Nos Tucanos, valia a pena.
Os dois dias ficaram três, que tão depressa passaram.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Madrugada, no em que se ia partir dali, eu acordei ainda com o escuro, no amiudar. Só assim acordei, por um rumor, seria o Simião, que estava dormindo no mesmo cômodo e tacteando se levantava. Mas me chamou. – “A gente vai pegar a cavalhada.
Vamos?” – ele disse. Não gostei. – “Estou enfermo. Então vou?!
Quem é que rala a minha mandioca?” – repontei, áspero. Virei para o canto; assim eu estava apreciando aquele catre de couro.
O Simião decerto ia, mais o Fafafa e Doristino, estavam bons para o orvalho dos pastos. Diadorim, que dormia num colchão, encostado na outra banda, já tinha se levantado antes e desaparecido do quarto. Ainda persisti numa madorna. Aquela moradia hospedava tanto – assim sem donos – só para nós.
Aquele mundo de fazenda, sumido nos sussurros, os trastes grandes, o conforto das arcas de roupa, a cal nas paredes idosas, o bolor. Aí o que pasmava era a paz. Pensei por que seria tudo alheio demais: um sujo velho respeitável, e a picumã nos altos.
Pensei bobagens. Até que escutei assoviação e gritos, tropear de cavalaria. “Ah, os cavalos na madrugada, os cavalos!...” – de repente me lembrei, antiqüíssimo, aquilo eu carecia de rever.
Afoito, corri, compareci numa janela – era o dia clareando, as barras quebradas. O pessoal chegava com os cavalos. Os cavalos enchiam o curralão, prazentes. Respirar é que era bom, tomar
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas todos os cheiros. Respirar a alma daqueles campos e lugares. E
deram um tiro.
Deram um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube.
Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros vão ser. Deram muitos tiros. Apertei minha correia na cintura.
Apertei minha correia na cintura, o seguinte emendando: que nem sei como foi. Antes de saber o que foi, me fiz nas minhas armas. O que eu tinha era fome. O que eu tinha era fome, e já estava embalado, aprontado.
Às tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem confusão. Saí da janela, um homem esbarrou em mim, em carreira, outros bramaram. Outros? Só Zé Bebelo – as ordens, de sobrevoz. Aonde, o quê? Todos eram mais ligeiros do que eu?
Mas ouvi: – “... Mataram o Simião...” Simião? Perguntei: – “E o Doristino?” – “Ãã? Homem, não sei...” – alguém me respondendo. – “Mataram o Simião e o Aduvaldo...” E eu ralhei:
– “Basta!” Mas, sobre o instante, virei: – “Ah, e o Fafafa?” O que ouvi: – “Fafafa, não. Fafafa está é matando!...” Assim era, real, verdadeiramente de repente, caído como chuva: o rasgo de guerra, inimigos terríveis investindo. – “São eles, Riobaldo, os Hermógenes!” – Diadorim aparecido ali, em minha frente, isto
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas falou. Atiraram um horror, duma vez, tiros e tiros que estavam contra nós desfechando. Atiravam nas construções da casa. Diadorim sacripante se riu, encolheu um ombro só. Para ele olhei, o tanto, o tanto, até ele anoitecer em meus olhos. Eu não era eu.
Respirei os pesos. “Agora, agora, estamos perdidos sem socorro...” – inventei na mente.
E raciocinei a velocidade disto: “Ser pego, na tocaia, é diverso de tudo, e é tolo...” Assim enquanto, eu escutando, na folha da orelha, as minúcias recontadas: as passadas dos companheiros, no corredor; o assoviar e o dar das balas – que nem um saco de bagos de milho despejado. Feito cuspissem – o pôr e pôr! Senti como que em mim as balas que vinham estragar aquela morada alheia de fazenda. Medo nem tive, não deu para ter – foi outra noção, diferente. Me salvei por um espetar de pensamento: que Diadorim, cenho franzindo, fosse mandar eu ter coragem! Ele nem disse. Mas eu me inteirei, ligeiro demais, num só destorcer. – “Eh, pois vamos! É a hora!” – eu declarei, pus a mão no ombro dele. Respirei depressa demais. Aquele me apatetar – saiba o senhor – não deve de ter durado nem os menos minutos. No átimo, supri a claridade completa de idéia, o sanguefrio maior, essas comuns tranqüilidades. E, por aí, eu sabia mesmo exato: a gente já estava debaixo de cerco.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Achei especial o jeito de João Concliz vir, ansiado cauteloso. Ação em que qualquer um anda – nessas semelhantes ocasiões – só encostado nas paredes – “Você fica aqui, mais você, e você... Você dessa banda... Você ali, você-aí acolá...” –
arrumação ele ordenava. – “Riobaldo, Tatarana: tu toma conta desta janela... Daqui não sai, nem relaxa, por via nenhuma...”
Arredado, lá embaixo avistei Marcelino Pampa indo para as senzalas, com uns cinco ou seis companheiros. Com outros, Freitas Macho corria para a tulha; e para o engenho uns junto com Jõe Bexiguento, dito “Alparcatas”. Meus peitos batendo tresdobro forte, eu dividido naquela alarida. A grave escorei meu rifle, limpo, arma minha, amásia. Ainda reconheci o Dimas Doido e o Acauã, deitados atrás do cruzeiro do pátio. Um daqueles urucuianos apareceu, mais outro, traziam balaio grande, com algodão em rama. Mais homens, com sacos de sabugos; foram buscar outros sacos, carregavam um caixote também. Tudo eles estavam transportando, por entranqueirar o pátio de fora: tábuas, tamboretes, cangalhas e arreios, uma mesa de carapina retombada. Arranjos de guerra – esses são engenhados sempre com uma graça variada, diversa dos aspectos de trabalho de paz – isto vi; o senhor vê: homens e homens repulam no afã tão unidamente, sujeitos maneiros, feito
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas o meigo do demo assoprasse neles, ou até mesmo os espíritos!
Suspirei, de bestagem. Ao menos alguém fungou e me cutucou, era o Preto Mangaba, mandado guarnecer ali, comigo junto.
Preto Mangaba me oferecia dum pão de doce-de-buriti, repartia, amistoso. Eu então me alembrei de que estava com fome. Mas Quim Queiroz trazia mais munição, ele ajudado por alguns; arrastavam um couro, o couro esse cheio repleto de munição, arrastavam no assoalho do corredor. Da janela da outra banda, pus o olhar, espiei o desdém do mundo, distâncias. Abalavam fogo contra a gente, outra vez, contra o espaço da casa. Ixe de inimigo que não se avistava. Somente eu queria saber era se agüentava manejar, como era que estava sentindo meu braço. Aí ergui mão para coçar minha testa, aí me cismei: e fiz, com todo o respeito, o pelo-sinal. Sei que o cristão não se concerta pela má vida levável, mas sim porém sucinto pela boa morte – ao que a morte é o sobrevir de Deus, entornadamente.
Atirei. Atiravam.
Isso não é isto?
Nonada.
A aragem. Diadorim onde estivesse? Soube que ele parava em outro ponto, em seu posto em praça. Sustentava, picando
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas alvos a para a frente, junto com o Fafafa, o Marruaz, Guima e Cavalcânti, na barra da varanda. Todo lugar não era lugar? Não se podendo esbarrar, de jeito nenhum, no arrebentar, nas manivelas da guerra. Aprendi os momentos. Assim, assazmente, João Concliz tornava a vir, zelante, com Alaripe, José Quitério e Rasga-em-Baixo. – “Espera!” – ele mandou. Pelo que vinham também o Pitolô e o Moçambicão, puxando uns couros de boi.
Esses couros inteiros eram para a gente pregar lá em riba, nas padieiras, ficarem dependurados de cortinado bambo, nos vãos das janelas. Depois, o Pacamã-de-Presas mais o Conceiço, socavando com ferramenta, a fito de abrir torneiras nas paredes –
por onde buraco de se atirar. Aquela guerra ia durar a vida inteira? O que eu atirava, ouvia menos. Mas o dos outros: assovios bravos, o achispe, isto de ferro – as balas apedrejadas. Eu e eu.
Até meus estalos, que a cada, no próprio do coração. À mira de enviar um grão de morte acertado naquelas raras fumaças dançáveis. Assim é que é, assim.
Ah! E então, aí, no súbito aparecer, Zé Bebelo chegou, se encostou quase em mim. – “Riobaldo, Tatarana, vem cá...” – ele falou, mais baixo, meio grosso – com o que era uma voz de combinação, não era a voz de autoridade. A de ver, o que ele quisesse de mim? Para eu passar avante na posição, me transpor
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas para um lugar onde se matar e morrer sem beiras, de maior marca? Andei e segui, presente que, com Zé Bebelo, tudo carecia mais era de ser depressa. Mesmo me levou. Mas me levou foi para um outro cômodo. Ali era um quarto, pequeno, sem cama nenhuma, o que se via era uma mesa. Mesa de madeira vermelha, respeitável, cheirosa. Desentendi. Dentro daquele quarto, como que não entrava a guerra. Mas o pensar de Zé Bebelo – ansiado eu sabia – era coisa que estralejava, inventaste e forte.
– “Mais antes larga o rifle aí, deposita...” – ele falou. O
depor meu rifle? Pois botei, em cima da mesa, esquinado de través, botei com o todo cuidado. Ali se tinha lápis e papel. –
“Senta, mano...” – ele, pois ele. Ofereceu a cadeira, cadeira alta, de pau, com recosto. Se era para sentar, assentei, em beira de mesa. Zé Bebelo de revólver pronto na mão, mas que não contra mim – o revólver era o comando, o constante revirar e remexer da guerra. E ele nem me olhou, e me disse:
– “Escreve...”
Caí num pasmo. Escrever, numa hora daquelas? O que ele explicado mandou, eu fui e principiei; que obedecer é mais fácil do que entender. Era? Não sou cão, não sou coisa. Antes isto, que sei, para se ter ódio da vida: que força a gente a ser filho-
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas pequeno de estranhos... “Ah, o que eu não entendo, isso é que é capaz de me matar...” – me lembrei dessas palavras. Mas palavras que, em outra ocasião, quem tinha falado era Zé Bebelo, mesmo.
– “Escreve...”
O zunzum da guerra acontecendo era que me estorvava de direito pensar. E Zé Bebelo não estava ali não era para isso, para pensar por todos? Como que fosse, o papel, para o que carecia, era pouco. Tinham de caçar mais papel, qualquer, por ali devia de ter. Enquanto isso, eu cumprisse de escrever, na seca mão da necessidade.
E ouvimos praga de dor.
– “Ao que foi?” Uns gemidos, despautados, de sorrogo. –
“Companheiro ofendido. O Leocádio...” – ouvimos. Sem-modos se precipitado, Zé Bebelo avançou para ali, para ver. Sem determinação tomada de ir, eu também já estava lá, atrás dele. O
homem, o primeiro ferido, caído sentado, as pernas estendidas para diante, as costas amparadas na parede; com a mão esquerda era que ele suportava sua testa, mas com a direita ainda segurava o rifle, que o asno rifle ele não tinha largado. Conforme Raimundo Lê já tinha exigido, alguns vinham da cozinha,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas trazendo as latas d’água. Raimundo Lê lavava a cara do homem ensangüentada, do Leocádio. Esse estava atirado pelas queixadas, má bala que lhe partira o osso, o vermelho brabotava e pingava.
– “Meu filho, tu agüenta ainda brigar?” – Zé Bebelo quis saber.
O Leocádio, que fez careta, garantiu que podia: – “O que posso.
Em nome de Deus e de meu São Sebastião guerreiro, o que posso!” Sempre sendo a careta sem gracejo; pois falar era o que para ele custava e maltratava. – “E da Lei... E da lei, também...
Ah, então, vamos, faz vingança, menino, faz vingança!” – Zé Bebelo aforçurou. Semelhante só botasse apreço nos fatos por resultar. Zé Bebelo se endemoninhava.
Segurou meu braço, suscitado de se voltar para a mesa, para se escrever, amanuense. Pelo discorrer, revólver na mão, às vezes achei, em minha fantasia, que ele estava me ameaçando. –
“Ei, ai, vamos ver. Que tenho esquadrão reiúno: esses é que vão vir me dar retaguarda!” – ele falasse. Eu escrevesse, com mais urgência. Os bilhetes – missiva para o senhor oficial comandante das forças militares, outro para o excelentíssimo juiz da comarca de São Francisco, outro para o presidente-da-câmara de Vila Risonha, outro para o promotor. – “Apresta. A massa do volume deles também dá valor...” – ele regendo.
Acertei. Escrevi. O teor era aquilo mesmo, o simples: que, se os
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas soldados no soflagrante viessem, de rota abatida, sem esperdiçar minuto, então aqui na Fazenda dos Tucanos pegavam caça grossa, reunida – de lobo, jaguatirica e onça – de toda a jagunçada maior reinante no vezvez desses gerais sertões. A rasa, à justa, e cerrar com fecho formal: Ordem e Progresso, viva a Paz e a Constituição da Lei! Assinado: José Rebelo Adro Antunes, cidadão e candidato.
No pique dum momento, perdi e achei minha idéia, e esbarrei. A em pé, agora formada, eu conseguia a alumiação daquela desconfiança. Assim. Em que maldei, foi: aquilo não seria traição? Rasteiro, tive que olhei Zé Bebelo, no grude dos olhos. Daí, tão claro e aligeirado pensei – os prefácios. Aquele tinha sido homem pago estipendiado pelo Governo, agora os soldados do Governo com ele se encontravam. E nós, todos?
Diadorim e eu, os tristes e alegres sofrimentos da gente, a célebre morte de Medeiro Vaz, a vingança em nome de Joca Ramiro?
Nem eu sabia ao certo, depois, no correr de tantos meses, o extrato da vida de Zé Bebelo, o que ele tinha realmente feito, somenos se cumprida a viagem de ida até em Goiás. Soubesse, o pior, era que ele, por oficio e por espécie, não podia esbarrar de pensar, não podia esbarrar de pensar inventado para adiante, sem repouso, sempre mais. A gente estava por conta dele – e sem – 465 –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas repouso nenhum também, nenhum – o portanto. E ele tinha trazido o bando cá para perto do São Francisco, tinha querido falhar os três dias naquela fazenda atacável. Quem sabe, então, o recado para os soldados virem, ele mesmo já não teria enviado, desde tempos? Idéia, essa. Arre de espanto – ah, como quando onça de-lado pula, quando a canoa revira, quando cobra chicoteia. Desse de ser? Ao caminho dos infernos – para prazo!
Aí, careci de querer a calma. O tiroteio já redobrava. Ouvi a guerra.
Decerto eu estava exagerado. Antes Zé Bebelo havendo de ser mesmo o chefe para a hora, safado capaz. Nem se desprazia.
– “Oi, xô! P’ra esses, munição não falta?...” – ele escarnecendo disse, quando as descargas vieram em salva mais forte – o fiufiu e os papocos. Ah as balas que partiam telhas e que as paredes todas recebiam. Cacos caindo, do alto. – “Te apressa, Tatarana, que nós dois temos também de atirar!” Alegre dito. Na janela, ali, tinham pendurado igualmente um daqueles couros de boi: bala dava, zaque-zaque, empurrando o couro, daí perdia a força e baldava no chão. A cada bala, o couro se fastava, brando, no ter o choque, balangava e voltava no lugar, só com mossa feita, sem se rasgar. Assim ele amortecia as todas, para isso era que o couro servia. “Traição?” – eu não queria pensar. Eu já tinha preenchido
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas três cartas. Não é do tutuco nem do zumbiz das balas, o que daquele dia em minha cabeça não me esqueço; mas do bater do couro preto, adejante, que sempre duro e mole no ar se repetia.
Advindo que algum me trouxe mais papel, achado por ali, nos quartos, em remexidas gavetas. Só coisa escrita já, de tinta firme; mas a gente podendo aproveitar o espaço embaixo, ou a banda de trás, reverso dita. Que era que estava escrito nos papéis tão velhos? Um favor de carta, de tempos idos, num vigente fevereiro, 11, quando ainda se tinha Imperador, no no-me dele com respeito se falava. E noticiando chegada em poder, de remessa de ferramenta, remédios, algodão trançado tinto. A fatura de negócios com escravos, compra, os recibos, por Nicolau Serapião da Rocha. Outras cartas... – “Escreve, filho, escreve, ligeiro...” A traição, então? Altamente eu escutava os gritos dos companheiros, xingatório, no meio da desbraga do quanto combate, na torração. Aqui mesmo, esgueirados para a janela, o Duzentos e o Rasga-em-Baixo agora ombreavam armas, seu vez-em-quando a ponto atiravam. Assim como não pude, eu esbarrei, outra vez – e encarei Zé Bebelo sem final.
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– “Que é? Que é lá?!” – ele me perguntou. Devia ter me deduzido, dos meus olhos, mesmo melhor do que o que eu sabia de mim.
– “A pois... Por que é que o senhor não se assina, ao pé: Zé Bebelo Vaz Ramiro... como o senhor outrora mesmo declarou?...” – eu cacei contra, reperguntando.
Ato visível, que ele esteve pego, no usual de seu modo, assim, de se espantar no ar. Conheci. Às vezes, também, um atraiçoa, sem nem saber o que é que está produzindo-às falsas hajas! Mas ele não tinha surpreendido a verdade do meu indagar, a expedição de minha dúvida. Conforme, prazido consigo, recachou, e me disse, me engambelando:
– “Ah, hã-an... Também pensei. Tanto que pensei; mas, não se pode... Muito alta e sincera é a devoção, mas o exato das praxes impõe é outras coisas: impõe é o duro legal...”
Aí, fui escrevendo. Simples, fui, porque fui; ah, porque a vida é miserável. A letra saía tremida, no demoroso. Meu outro braço também recomeçava a doer, quase’que. “Traição”... – sem querer eu fui lançando no papel a palavra; mas risquei. Uma bala no couro assoviou soco, outra entrou atrás, entrou com o couro
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas levantado, deu na parede defronte, ricocheteou e veio cair, quente, perto da gente. Ali na parede, tinha um chifre de boi de se dependurar roupa; até armador de rede era de chifre de boi, naquela Casa. Sumamente, eu esperei o pispissiu de alguma outra bala, eu queria. Soubesse por quê? O pensar caladíssimo de Zé Bebelo me perturbava.
Mas ele disse: – “Que é que é?” – se debruçando. – “Que erro que foi?” Não viu, porque eu já tinha riscado. Mas, então, ele muito falou. Ia explicando. De noite, no escuro feito, ia mandar dois cabras, dos mais espertos viajeiros, para rastejarem por ali, furando o cerco, cada um levava ruma igual daquelas cartas. Assim, Deus azado ajudasse, e eles ou ao menos um deles conseguisse, então era resumo certo que a soldadesca se mo-vimentava de vir. Apareciam, os trapezavam, apropositavam, arrebentavam com os Hermógenes!
– “E a gente?” – eu perguntei.
– “Ãe? A gente? A ver, que você não me entendeu? A gente obra jeito de se escapar, no cererê da confusão...”
Antes, tanto, que era muito difícil – eu repostei.
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– “Ah, sim, dificultoso é, meu filho. Mas pego, é o nosso recurso. Se não, se outra, que saldo é que temos?” – e Zé Bebelo, do dito, sagaz se rigozijava.
Então, com respeito, eu disse que a gente podia experimentar de fazer isso mesmo agora: furar uma saída, por entre os Hermógenes, brigando e matando. Eu disse isso. Mas tinha esquecido que estava era encostado em Zé Bebelo, no questionar. Aí quem era que podia com a idéia daquele homem, quem era que se sustentava? A foro, pois, assim ele me respondeu:
– “Pois era, Tatarana? Olhe: escuta, pensa – esses Hermógenes não são mais valentes do que nós, nem estão em quantidade maior; mas fato é que eles chegaram a surdas, e nos cercaram, tomaram tudo quanto há de melhor, nessas posições.
Asseados, é que estão. Agora, nesta hora, a gente forçar um escape, pode ser que se tenha sorte – mas mesmo assim sofrendo muitas mortes, e sem meios para descontar essas, sem alcance nenhum para se matar um bom poucado desses inimigos. Tu entende? Mas, se os soldados chegarem, têm de dar o forte fogo primeiro contra os Hermógenes, fazendo neles muito estrago. Aí, se foge, com tenção só na escapula. Ao menos, algum lucro se
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas teve... Ah, tu vê o que se quer? Ah, o que tu também quer, pois não quer?!...”
Não nas artes que produzia, mas no armar de falar assim –
ele era razoável. Se riu, qual. Riu? Eu sendo água, me bebeu; eu sendo capim, me pisou; e me ressoprou, eu sendo cinza. Ah, não!
Então, eu estava ali, em chão, em a-cu atôo de acuado?! Um ror de meu sangue me esquentou as caras, o redor dos ouvidos, cachoeira, que cantava pancada. Eu apertei o pé na alpercata, espremi as tábuas do assoalho. Desconheci antes e depois – uma decisão firme me transtornava. E eu vi, fiquei sabendo: me queimassem em fogo, eu dava muitas labaredas muito altas! Ah, dava. O senhor acha que menos acho? Mais digo. Mais fiz. Antes veja, o que eu pensei – o que seguinte ia ser, e ficou formado um decreto de pedra pensada: que, na hora de os soldados sobrechegarem, eu parava perto de Zé Bebelo; e que, ele fizesse feição de trair, eu abocava nele o rifle, efetuava. Matava, só uma vez. E, daí... Daí eu tomava o comandamento, o competentemente – eu mesmo! – e represava a chefia, e forçando os companheiros para a impossível salvação. Aquilo por amor do rijo leal eu fazia, era capaz; pelo certo que a vida deve de ser.
Mesmo não gostando de ser chefe, descrendo do enfado de responsabilidades. Mas fazia. “Aí, pego a faca-punhal e o facão
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas grande...” – tornei a pensar. Até chegar a hora, eu não ia falar disso com pessoa nenhuma, nem com Diadorim. Mas fazia, procedia. E eu mesmo senti, a verdade duma coisa, forte, com a alegria que me supriu: – eu era Riobaldo, Riobaldo, Riobaldo! A quase que gritei aquele este nome, meu coração alto gritou. Arre então, quando eu experimentei os gumes dos meus dentes, e terminei de escrever o derradeiro bilhete, eu estive todo tranqüilizado e um só, e insensato resolvido tanto, que mesmo acho que aquele, na minha vida, foi o ponto e ponto e ponto. E
entreguei o escrito a Zé Bebelo – minha mão não espargiu nenhum tremor. O que regeu em mim foi uma coragem precisada, um desprezo de dizer; o que disse:
– “O senhor, chefe, o senhor é amigo dos soldados do Governo...”
E eu ri, ah, riso de escárnio, direitinho; ri, para me constar, assim, que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo. E
ele se sustou, fez espantos.
Ele disse: – “Tenho amigo nenhum, e soldado não tem amigo...” Eu disse: – “Estou ouvindo.”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ele disse: – “Eu tenho é a Lei. E soldado tem é a lei...” Eu disse: – “Então, estão juntos.”
Ele disse: – “Mas agora minha lei e a deles são às diversas: uma contra a outra...”
Eu disse: – “Pois nós, a gente, pobres jagunços, não temos nada disso, a coisa nenhuma...”
Ele disse: – “Minha lei, sabe qual é que é, Tatarana? É a sorte dos homens valentes que estou comandando...”
Eu disse: – “É. Mas se o senhor se reengraçar com os soldados, o Governo lhe repraz e lhe premeia. O senhor é da política. Pois não é? Õ gente – deputado...”
Ah, e feio ri; porque estava com vontade. Aí pensei que ele fosse logo querer o a gente se matar. A sorte do dia, eu cutucava.
Mas ruim não foi. Zé Bebelo só encurtou o cenho, no carregoso.
Fechou a boca, pensou bem.
Ele disse: – “Escuta, Riobaldo, Tatarana: você por amigo eu tenho, e te apreceio, porque vislumbrei tua boa marca. Agora, se eu achasse o presumido, com certeza, de que você está desconcordando de minha lealdade, por malícias, ou de que você quer me aconselhar canalhagem separada, velhaca, para vantagem
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas minha e sua... Se eu soubesse disso, certo, olhe...” Eu disse: –
“Chefe, morte de homem é uma só...”
Eu tossi. Ele tossiu.
Diodolfo, correndo vindo, disse: – “O Jósio está morrendo, com um tiro no pescoço, lá dele...”
Alaripe entrou, disse: – “Eles estão querendo pôr mãos e pés no chiqueiro e na tulha. Se assanham!”
Eu disse: – “Dê as ordens, Chefe!” Eu disse gerido; eu não disse copiável. Sei que Zé Bebelo sorriu, aliviado.
Zé Bebelo botou a mão no meu ombro; era o da banda do braço que doía. – “A vamos, a vamos, com macacos e bananas!
A cá, na sala-dejantar, meu filho...” – ele instou. À janela.
Agachei, e escorei meu rifle, arma capital. Agora, era obrar. E
aqueles sujeitos estavam loucos?
Cabeça de um se bolou, redondante, feito um coco, por cima da palha de buriti que cobria uma casa de vaqueiro.
Adesfechei: e vi arrebentar em pedaços o casco daquilo. Daí, a dor me doeu no ferimento do braço, mordi meus beiços por essa causa. Mas cacei. Outro afundei logo, cujo varei os peitos, com outra bala certeira, duas balas. Ave, que afoitos! Ao tanto eu
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas gemia, e apontava. Eles, em um e um, caíam, aceitavam o poder da morte que eu mandava. Fiz conta: uns seis, sei, até a hora do almoço – meiadúzia. Essas coisas, não gosto de relatar, não são para que eu alembre; não se deve, de. Ao senhor, só, agora, sim: é de declaração, é até ao desamargado dos sonhos... Que eu ali, jajão. Conheço quando homem só disfarça, quando se encolhe somente ferido, ou mas quando retomba mesmo por desmanchado. Mortes diferentes, mortes iguais. Pena, se tive? Vá se ter dó de canguçu, dever finezas a escorpião! Pena de errar algum, eu ter podia; ah, mas não errava. Deixa que deixavam só uns dois dedos de corpo em descoberto lateral – e minha bala se comportava. Como aquele meu braço me doendo, ai dor doía, de arrancado, parecendo que um fogo desenraizava tudo, dos ocos, respondia até na barriga. A cada que eu dava um tiro, forcejava minha careta, chorejava. Ria, despois. – “Aperta esta minha parte de natureza, com um cabresto, com um pano, companheiro!” –
eu supliquei. Alaripe, servente, rasgou uma colcha de cama, me passou dobras daquelas tiras, arrochadas. Também, doesse que doesse, que me importava? – arrasos em redor de mim.
Trastanto, derrubei mais um, mais vizinho. Os outros uns. Esse, urubu já bicou. Esse ia pulando em lanço, para um canto da cerca, esse repulou no ar, esse deu um grito soltado. Menos, veja
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas e mire, eu catasse de querer espécies de homens, para alvejar, feito se por cabeça ganhasse prêmio de conto-de-réis. Mas mais, de muitos, a vida salvei: pelo medo que de mim tomavam, para não avançar nos lugares – pelos tirázios. Ainda demos um tiroteio varredor, ainda batemos. Aí, eles desistiram para trás, desandavam. Assim pararam, o balançar da guerra parou, até para o almoço, em boa hora. E então conto o do que ri, que se riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o vôo de reverências, não achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor. – “Ara, viva, maria boa-sorte!” – o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.
A comida para mim, ali mesmo me trouxeram, todos em minha pontaria punham prezado valor. O imaginar o senhor não pode, como foi que eu achei gosto naquela comida, às ganas, que era: de feijão, carne-seca, arroz, maria-gomes e angu. Ao que bebi água, muita, bebi restilo. O café que chupo. E Zé Bebelo, revindo, me gabou: – “Tu é tudo, Riobaldo Tatarana! Cobra voadeira...” Antes Zé Bebelo me ofereceu mais restilo, o tanto também bebeu, às saúdes. Seria só por desconto de um começo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de remorso, por me temer em consciências? A gente sabe mais, de um homem, é o que
ele esconde. – “Ah: o Urutu Branco: assim é que você devia se chamar... E amigos somos. A ver, um dia, a gente vai entrar, juntos, no triunfal, na forte cidade de Januária...” – aprontado ele falou. Ao que resposta não dei. Amigo? Eu, ali, do lado de Zé Bebelo; mas Zé Bebelo não estava do lado de ninguém. Zé Bebelo – cortador de caminhos. Amigo? Eu era, sim senhor.
Aquele homem me sabia, entendia meu sentimento. A ser: que entendia meu sentimento, mas só até uma parte – não entendia o depoisdo-fim, o confrontante. Assemelhado a ele, pensei. Pensei: eu visse que traindo ele estivesse, ele morria. Morria da mão de um amigo. Jurei, calado. E, desde, naquela hora, a minha idéia se avançou por lá, na grande cidade de Januária, onde eu queria comparecer, mas sem glórias de guerra nenhuma, nem acompanhamentos. Alembrado de que no hotel e nas casas de família, na Januária, se usa toalha pequena de se enxugar os pés; e se conversa bem. Desejei foi conhecer o pessoal sensato, eu no meio, uns em seus pagáveis trabalhos, outros em descanso comedido, o povo morador. A passeata das bonitas moças morenas, tão socialmente, alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados, cheirando a óleo de umbuzeiro, uma flor
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. À Januária eu ia, mais Diadorim, ver o vapor chegar com apito, a gente esperando toda no porto. Ali, o tempo, a rapaziada suava, cuidando nos alambiques, como perfeito se faz. Assim essas cachaças – a vinte-e-seis cheirosa – tomando gosto e cor queimada, nas grandes dornas de umburana.
Ao menos, daí desajoelhei e vim para a alpendrada, avistar o que se passava com Diadorim; e eu estipulava meu direito de reverter por onde que eu quisesse, porque meu rifle certeiro era que tinha defendido de tomação o chiqueiro e a tulha, nos assaltos, e então até a Casa. Diadorim guerreava, a seu comprazer, sem deszelar, sem querer ser estorvado. Datado que Deus, que me livrou, livrava também meu amigo de todo comezinho perigo. As raivas, naquela varanda, vinham e caíam, demasiadas, vi. Tiros altos, revoantes: eram os bandos de balas.
Assunto de um homem que estava deitado mal, atravessado, pensei que assim em pouco descanso. – “Vamos levar para a capela...” – Zé Bebelo mandou. Assunto que era o Acrísio, morto no meio; torto. Devia de ter se passado sem tribulação. Agora não caçavam uma vela, para em provisão dele se acender? –
“Quem tem um rosário?” Mas, no sobrevento, o Cavalcânti se exclamou
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
– “A que estão matando os cavalos!...”
Arre e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada nossa, os pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos, a torto e direito, fazendo fogo! Ânsias, ver aquilo. Alt’-e-baixos – entendendo, sem saber, que era o destapar do demônio – os cavalos desesperaram em roda, sacolejados esgalopeando, uns saltavam erguidos em chaça, as mãos cascantes, se deitando uns nos outros, retombados no enrolar dum rolo, que reboldeou, batendo com uma porção de cabeças no ar, os pescoços, e as crinas sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho, de raiva
– rinchado; e o relincho de medo – curto também, o grave e rouco, como urro de onça, soprado das ventas todas abertas.
Curro que giraram, trompando nas cercas, escouceantes, no esparrame, no desembesto – naquilo tudo a gente viu um não haver de doidas asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo, achatavam no chão, abrindo as mãos, só os queixos ou os topetes para cima, numa tremura. Iam caindo, quase todos, e todos; agora, os de tardar no morrer, rinchavam de dor – o que
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas era um gemido alto, roncado, de uns como se estivessem quase falando, de outros zunido estrito nos dentes, ou saído com custo, aquele rincho não respirava, o bicho largando as forças, vinha de apertos, de sufocados.
– “Os mais malditos! Os desgraçados!”
O Fafafa chorava. João Vaqueiro chorava. Como a gente toda tirava lágrimas. Não se podia ter mão naquela malvadez, não havia remédio. À tala, eles, os Hermógenes, matavam conforme queriam, a matança, por arruinar. Atiravam até no gado, alheio, nos bois e vacas, tão mansos, que, desde o começo, tinham querido vir por se proteger mais perto da casa. Onde se via, os animais iam amontoando, mal morridos, os nossos cavalos!
Agora começávamos a tremer. Onde olhar e ouvir a coisa inventada mais triste, e terrível – por no escasso do tempo não caber. A cerca era alta, eles não tiveram fuga. Só um, um cavalão claro, que era o de Mão-de-Lixa e se chamava Safirento. Se aprumou, nas alças, ficou suspenso, cochilasse debruçado na régua – que nem que sendo pesado em balança, um ponto – as nádegas ancas mostrava para cá, grossas carnes; depois tombou para fora, se afundou para lá, nem a gente podia ver como terminava. A pura maldade! A gente jurava vinganças. E, aí, não
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas se divulgava mais cavalo correndo, todos tinham sido distribuídos derrubados!
Aquilo pedia que Deus mesmo viesse, carnal, em seus avessos, os olhos formados. Nós rogávamos as pragas. Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor. Acho que Deus não quer consertar nada a não ser pelo completo contrato: Deus é uma plantação. A gente – e as areias. Aturado o que se pegou a ouvir, eram aqueles assombrados rinchos, de corposo sofrimento, aquele rinchado medonho dos cavalos em meia-morte, que era a espada de aflição: e carecia de alguém ir, para, com pontaria caridosa, em um e um, com a dramada deles acabar, apagar o centro daquela dor. Mas não podíamos! O senhor escutar e saber
– os cavalos em sangue e espuma vermelha, esbarrando uns nos outros, para morrer e não morrer, e o rinchar era um choro alargado, despregado, uma voz deles, que levantava os couros, mesmo uma voz de coisas da gente: os cavalos estavam sofrendo com urgência, eles não entendiam a dor também. Antes estavam perguntando por piedade.
– “Arre, eu vou lá, eu vou lá, livrar da vida os pobrezinhos!...” – foi o que o Fafafa bramou. Mas não deixamos, porque isso consumava loucura. Não dava dois passos no eirado,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas e ele morria fuzilamento, em balas se varava, ah. Agarramos segurado o Fafafa. A gente tinha de parar presa dentro de casa, combatendo no possível, enquanto a ruindade enorme acontecia.
O senhor não sabe: rincho de cavalo padecente assim, de repente engrossa e acusa buracões profundos, e às vezes dão ronco quase de porco, ou que desafina, esfregante, traz a dana deles no senhor, as dores, e se pensa que eles viraram outra qualidade de bichos, excomungadamente. O senhor abre a boca, o pêlo da gente se arrupeia de total gastura, o sobregelo. E quando a gente ouve uma porção de animais, se ser, em grande martírio, a menção na idéia é a de que o mundo pode se acabar. Ah, que é que o bicho fez, que é que o bicho paga? Ficamos naquelas solidões. Alembrar que tão bonitos, tão bons, inda ora há pouco esses eram, cavalinhos nossos, sertanejos, e que agora estraçalhados daquela maneira não tinham nosso socorro. Não podíamos! E que era que queriam esses Hermógenes? De certo seria tenção deles deixar aqueles relinchos infelizes em roda da gente, dia-e-noite, noite-e-dia, dia-e-noite, para não se agüentar, no fim de alguma hora, e se entrar no inferno? Senhor então visse Zé Bebelo: ele terrivelmente todo pensava – feito o carro e os bois se desarrancando num atoleiro. Mesmo mestremente ele comandava: – “Apuremos fogo... Abaixado...” –; fogo, daqui,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dali, em ira de compaixão. Adiantava nada. Com pranchas de munição que a gente gastasse, não alcançávamos de valer aos animais, com o curral naquela distância. Atirar de salva, no inimigo amoitado, não rendia. No que se estava, se estava: o despoder da gente. O duro do dia. A pois, então, me subi para fora do real; rezei! Sabe o senhor como rezei? Assim foi: que Deus era fortíssimo exato – mas só na segunda parte; e que eu esperava, esperava, esperava, como até as pedras esperam. “A faz mal, não faz mal, não tem cavalo rinchando nenhum, não são os cavalos todos que estão rinchando – quem está rinchando desgraçado é o Hermógenes, nas peles de dentro, no sombrio do corpo, no arranhar dos órgãos, como um dia vai ser, por meu conforme... Assim, d’hoje-em-diante doravante, sempre temos de ser: ele o Hermógenes, meu de morte – eu militão, ele guerreiro...” Assim o relincho em restos, trescortado. Aqueles cavalos suavam de derradeira dor.
Agarrávamos o Fafafa, segurado, disse ao senhor. Mas, mais de repente, o Marruaz disse: – “A bom, vigia: olha lá...” O
que era. Que eles – quem havia de não crer? – que eles mesmos agora estavam atirando por misericórdia nos cavalos sobreferidos, para a eles dar paz. Ao que estavam. – “As graças a Deus!...” – exclamou Zé Bebelo, alumiado, com um alívio de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas homem bom. – “Ah, é marmo!” – o Alaripe exclamou também.
Mas o Fafafa nem nada não disse, não conseguia: o quanto pôde, se assentou no chão, com as duas mãos apertando os lados da cara, e cheio chorou, feito criança – com todo o nosso respeito, com a valentia ele agora se chorava. Aí, então, se esperou. Durado de um certo tempo, descansamos os rifles, nem um tirozinho não se deu. O intervalo para deixar a eles folga de matarem em definitivo nossos pobres cavalos. Mesmo quando o arraso do último rincho no ar se desfez de vez, a gente ainda se estarrecia quietos, um tempo grande, mais prazo – até que o som e o silêncio, e a lembrança daquele sofrer, pudessem se enralecer embora, para algum longe. Daí, depois, tudo recomeçou de novo, em mais bravo. E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe
– mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma.
Deus é um gatilho?
Mas conto menos do que foi: a meio, por em dobro não contar. Assim seja que o senhor uma idéia se faça. Altas misérias nossas. Mesmo eu – que, o senhor já viu, reviro retentiva com espelho cem-dobro de lumes, e tudo, graúdo e miúdo, guardo –
mesmo eu não acerto no descrever o que se passou assim,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas passamos, cercados guerreantes dentro da Casa dos Tucanos, pelas balas dos capangas do Hermógenes, por causa. Vá de retro!
– nanje os dias e as noites não recordo. Digo os seis, e acho que minto; se der por os cinco ou quatro, não minto mais? Só foi um tempo. Só que alargou demora de anos – às vezes achei; ou às vezes também, por diverso sentir, acho que se perpassou, no zuo de um minuto mito: briga de beija-flor. Agora, que mais idoso me vejo, e quanto mais remoto aquilo reside, a lembrança demuda de valor – se transforma, se compõe, em uma espécie de decorrido formoso. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo... Quem me entende? O que eu queira. Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isto, já aprendi.
A bobéia? Pois, de mim, isto o que é, o senhor saiba – é lavar ouro. Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?
A ser que aqueles dias e noites se entupiram emendados, num ataranto, servindo para a terrível coisa, só. Aí era um tempo no tempo. A gente povoava um alvo encoberto, confinado. O
senhor sabe o que é se caber estabelecido dessa constante maneira? Se deram não sei os quantos mil tiros: isso nas minhas
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas orelhas aumentou – o que azoava sempre e zinia, pipocava, proprial, estralejava. Assentes o reboco e os vedos, as linhas e telhas da antiga casarona alheia, era o que para a gente antepunha defesa. Um pudesse narrar – falo para o senhor crer – que a casa-grande toda ressentia, rangendo queixumes, e em seus escuros paços se esquentava. Ao por mim, hora em que pensei, eles iam acabar arriando tudo, aquela fazenda em quadradão. Não foi.
Não foi, como logo o senhor vai ver. Porque, o que o senhor vai é – ouvir toda a estória contada.
Morreu mais o Berósio. Morreu o Cajueiro. O Moçambicão e Quim Queiroz, para a gente se sortir, traziam as quantidades de balas. Rente Zé Bebelo andava em toda a parte, mandando se atirar economizado e certeiro. – “Ah, oé, meus filhos: não vão desperdiçar. Matem só gente viva!” – ele trestampava – “... É
coragem, e qué’pe-te! que o morto morrido e matado não agride mais...” Aí cada um gritava para os outros valentia de exclamação, para que o medo não houvesse. Aí os judas xingávamos. Para não se ter medo? Ah, para não se ter medo é que se vai à raiva. A sebo! De dor do calor de inchação, aquele meu braço sempre piorava. Alaripe me cedeu, de bondoso, uma vasilha com água fria, carreou para mim; em entremeio de atirar, eu molhava bem um pano, torcia por cima do braço, o gotejado
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas frescor de alívio. Um companheiro sempre me ajudando, conforme agradeci. Um urucuiano, daqueles cinco urucuianos de Zé Bebelo. Isso, no instante, estranhei. Notei, de repente: aquele homem, fazia tempo que não se arredava de mim, sempre me seguindo, por perto.
Solevei uma desconfiança. Sempre o vulto presente daquele homem; seria só por acasos? O urucuiano, deles, que o Salústio se chamava. O que tinha os olhos miudinhos em cara redonda, boca mole e sete fios de barba compridos no queixo. Arreliado falei: – “Que que é? Tu amigou comigo?! Tatu – tua casa...” –
para ele. Semi-sério ele se riu. Comparsa urucuiano dos olhos verdes, homem muito feioso. Ainda nada não disse, coçou a barriga com as costas dobradas da mão – gesto de urucuiano. Eu bati com a minha mão direita por cima da canhota, que pegava o rifle, e deixei deixada – gesto de jagunço. Apertei com ele: – “Ao que me quer?” Me deu resposta: – “Ao assistir o senhor, sua bizarrice... O senhor é atirador! É no junto do que sabe bem, que a gente aprende o melhor...” A verdade com que ele me louvava.
Se riu, muito sincero. Não desgostei da companhia dele, para os bastantes silêncios. Assim é o que digo: que, quando o tiroteio batia forte, de lá, e daí de repente estiava – aquilo servia um pesado, salteação. Surdo pensei: aqueles Hermógenes eram gente
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas em tal como nós, até pouquinho tempo reunidos companheiros, se diz – irmãos; e agora se atravavam, naquela vontade de desigualar. Mas, por quê? Então o mundo era muita doideira e pouca razão? De perto, a doideira não se figurava transcrita. Pois o urucuiano Salústio João mais olhei. Ali, ajoelhado, ele mirava e atirava. Atirava e fechava os olhos. Quando abria outra vez, queria ver alguém vivo?
Sosseguei. Aí eu não devia de pensar tantas idéias. O
pensar assim produzia mal – já era invocar o receio. Porque, então, eu sobrava fora da roda, havia de ir esfriar sozinho.
Agora, por me valer, eu tinha de me ser como os outros, a força unida da gente mamava era no suscenso da ira. O ódio quase sem rumo, sem porteira. Do Hermógenes e do Ricardão? Neles eu nem pensava. Antes pensei outra vez foi no embuste do urucuiano. Atual ele se ajoelhava dobroso, com a perna muito para trás, a outra muito para diante. Aquele homem – achei – estava mandado por Zé Bebelo, para espreitar meus atos.
A prova que era: de que Zé Bebelo despachava traição. As espumas dele me espirravam. Será que fosse para o urucuiano Salústio no primeiro descuido meu me amortizar? Tanto, não; apostei. Zé Bebelo me queria vigiado, para eu não contar aos
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas outros a verdade. Ora bem, que uns companheiros tinham avistado os bilhetes eu escrever – o fato esquisito, assim, em hora de começo de fogo; mas por certo pensavam que era para fazendeiros amigos nossos, chefes de homens, rogando que viessem, com retaguarda e reforço. Agora, Zé Bebelo temia que eu candongasse. Aí mandou o urucuiano fazer a minha sombra. Mas Zé Bebelo carecia de mim, enquanto o cerco de combate desse de durar. Traidor mesmo traidor, e eu também não precisava dele