Grande Sertão: Veredas
Essa tropa, que passara por nós, dias…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Essa tropa, que passara por nós, dias antes, rumava para o Abaeté, com carga de fumo, mantas de borracha, couros de onça e de lontra e cera de palmeiral, pouca coisa. Fossem atravessar o rio, num porto; iam passar por terras minhas conhecidas, nos sertões menores... Agora, eu queria saber.
- “Aquele levou um recado meu. Instruí o homem que levasse um recado...”
- “Um recado, de mim? Aí hei, que?! Malfiz?!...”
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- “Um recado. Mais tu não pergunte, Riobaldo: que, o que fiz, foi.” Dizendo, Diadorim se arredou de mim, com uma decisão de silêncio. Não vê, que nem precisava. Eu tinha guardado meus ouvidos. Eu não queria escutar o reto, naquela ocasião, por desânimo de ser. Diadorim tinha citado alma. O que ele soubesse, não soubesse, não tinha ciência de coisa nenhuma, da arte em que eu tinha ido estipular o Oculto, nas Veredas Mortas, no ermo da encruzilhada... Aquilo não formava meu segredo? E, mesmo, na dita madrugada de noite, não tinha sucedido, tão pois. O pacto nenhum – negócio não feito. A prova minha, era que o Demônio mesmo sabe que ele não há, só por só, que carece de existência. E eu estava livre limpo de contrato de culpa, podia carregar nômina; rezo o bendito!
Trastempo, mais outras coisas sobrevinham, mas por roda normal do mundo, ninguém podia afiançar o contrário. Apus pedra por sobre pedra, não guardo lembrança. Eu era o chefe.
Vez minha de dar comando e estar por mais alto. Zé Bebelo tinha de todo desaparecido. Agora, o que se carecia, era de se pegar mais munição. Todos deviam de me obedecer completamente. Só eu não queria abusar. Por que não queria?
Ah, então, eu estava em dúvidas. Até por isso era que eu estremecia, fino, no ouvir certas menções. A haver a coisa que de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas longe me ameaçasse, feito o vem-vem das nuvens de chuva. O
demo, mesmo assim, podia me marcar? Se não fosse, como era que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não era capaz de ser uma coisa só o tempo todo.
Do que Diadorim se estranhava, era do seguinte: tinha sido o que aconteci com um sujeito senhor, um que disse se chamar nhô Constâncio Alves, que topamos no Chapéu-do-Boi. E
também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro dele, que vieram vindo, três léguas depois daquele. As coisas vãs, esparramáveis.
De que tivesse neste mundo um tal nhô Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo ali loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres, e sendo da minha primeira terra, também. Foi bem tratado. Mas disse que podia ser de ter me conhecido, quando eu menino. Isso me disse aquele nhô Constâncio Alves. Queria recompensas? Aos princípios, não desgostei de prosear com um antigo assim, compatrício, asseado em suas roupas e bem-vindo. Aí ele tomou café, com a gente. A dar, que o homem foi se avontadeando, encompridando as respostas; eu mesmo dava jeito para que ele tomasse coragem.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Até que, um certo momento, o pretinho Guirigó se chegou sorrateiro, e emitiu em minha orelha. - “Iô chefe...” – arenga do menino Guirigó, que às vezes bem não regulava. O capeta – ele falou no capeta? Ou então, só de olhar para ele, e escutar, eu pensei no capeta; mas, que era do capeta, eu entendi. Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos.
Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim e dinheiro em caixa... – assim eu defini. Aquele homem merecia punições de morte, eu vislumbrei, adivinhado. Com o poder de quê: luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se esquentou em mim o doido afã de matar aquele homem, tresmatado. O desejo em si, que nem era por conta do tal dinheiro: que bastava eu exigir e ele civilmente me entregava.
Mas matar, matar assassinado, por má lei. Pois não era? Aí, esfreguei bem minhas mãos, ia apalpar as armas. Aí tive até um pronto de rir: nhô Constâncio Alves não sabia que a vida era do tamanhinho só menos de que um minuto...
Ah, mas, então, do sobredentro de minhas idéias – do que nem certo sei se seja meu – uma minha-voz, vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto tem, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente, é o que estou figurando. Meu sertão, meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia: - “Tento, cautela, toma tento, Riobaldo: que o diabo fincou pé de governar tua decisão!...” A anteguarda que ouvi, e ouvi seteado; e estribei minhas forças energias. Que como? Tem então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente. Só orçava. O instante que é, é – o senhor nele se segure. Só eu sei.
Mas, aquilo de ruim-querer carecia de dividimento – e não tinha; o demo então era eu mesmo? Desordenei quase, de minhas idéias. Eu matava um tiquinho, só? Em nome de mim, eu não matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando daquela vozinha. Ru, eh, masquei meus beiços, eu arrebentasse.
Vi que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria.
Como que tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros cabíveis do Chapadão, os diabinhos, mil e mil, tocando lindas violas – para acabar com o que eu mesmo me falasse, e de mim quisesse por valia me entender, contra o que o demônio-mestre tinha determinado... Sendo que mal resisti, nas últimas, saiba o senhor. Ah, mas. E é preciso, por aí, o senhor ver: quem é que era e que foi aquele jagunço Riobaldo! Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus: eu clamei pela Virgem... Agarrei tudo em
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas escuros – mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida inteira...
Súbito sendo – pois, pois – que um recurso eu tive, e por uma greta me saí, levando a salvo comigo o desgraçado nhô Constâncio Alves. O conforme foi: que isto eu espiritei: que fazia a ele uma pergunta. Respondesse a mal, morresse; mas, de outro jeito, recebia perdão. Aí a pergunta seguinte: - “Se sendo que o senhor é de minha terra, a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacedo? Será, o senhor é parente dele?”
Só esperei. Ele dissesse que tinha conhecido o outro, e, aí, morria, por eu não poder não-matar; por quanto a salvação dele mermava, que nem morrão de candeia. E assim, com obrigação minha mesma, eu tinha para sempre combinado.
Mas nhô Constâncio Alves era para ganhar, no azo daquilo, pelo que deu, de resposta: - “Gramacedo? Sinto dizer, mas esse eu nunca vi, nem dele ouvi falar. Tenho parentescos com ninguém de tal nome...”
A minha mão já tinha estado para o revólver, brandamente.
Nhô Constâncio Alves percebeu o mal-amém. Confuso como se – 674 –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar abrindo os joelhos, por tremor de medo nas pernas. Aí ele mesmo então achasse que carecia de muito morrer? – num pingo eu pensei, traiçoeiro. O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso é que serve. Ah, mas – ah, não! –; eu tinha decidido. Tinha ou não tinha. Eu? Assim, noutro repingo: arejei que toda criatura merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver – por causa de uma grande beleza no mundo, à repentina. Um anjo voou dali? Eu tinha resistido a terceira vez. Agora, nhô Constâncio Alves estava delivrado de perigo. Só que eu gritei: -
“O senhor tem seu dinheiro?”
Ligeiro, novo, o homem caçou com suas mãos o surrãozinho, que abriu: estava cheio de notas, bem enroladas e embrulhadas num pano; e assim me dava, me presenteava. Mirei aquele triste pescoço. O que em seco ele foi engolindo: que podiam ser as contas todas dum terço.
Aproximei o cobre. O ele, nhô Constâncio Alves, deixei que fosse embora. Nem espiei – para dele não ver as costas. Mas, aí, então, para me pacificar e enterter o Outro, eu tive de falar alto: - “Perdoei este; mas, o primeiro que se surgir, destas estradas, paga!” Eu disse. Eu ia cumprir?
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas De seguida, o primeiro veio, logo mais adiante; quase no se inteirarem três léguas. Conforme houve fatos, coisa que se passou. E foi numa várzea, com uns boizinhos ali bem pastando.
Demos com um sujeito, aparecido viajor. Ele vinha numa égua.
Essa égua era acastanhada, com alguma altura. Aqueles arreios, de velhos, era que desfaziam. Um cabo da rédea estava sendo de couro, mas o outro de sedenho. A égua também cambaiava. O
homem tinha cara de focinho, avançando o formato dos ossos da boca: não tinha queixo. Desgraçado desse homem, pelo que em sua vida ia ser, pelo que seus aspectos indicavam. Nem merecia dó, assim achei. Mas, na companhia dele, atrás, vinha também um cachorrinho.
Eles esbarraram. O cachorrinho pegou a latir, nesse ofício que quase todo cão tem, de ser presumido valente. O homem bambeou de si, em cima da égua, ele estava pecando de pavor.
Como que, num só relance ele transformou três caras. E para o pretinho Guirigó me virei, por perguntar: - “Aqui, este, deveras eu mato?”
- “Senhor mata? Senhor vai matar?” – o pretinho só se saiu pelos olhos.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ao que escutei queixos e dentes do homem bater. Súdito indivíduo assim não tinha ação de voz nem tirava um suplicar.
Tudo o que não sabia, ele adivinhava. Previsse que ia morrer só para indenizar do perdão dum outro, só por preencher o lugar que devia de ser o do nhô Constâncio Alves?
Ah, não. Agora, a vontade de matar tinha se acabado! Sei e soube: por certo que o demo, agora, escondia sua intenção, por desconfiar de que eu não fosse querer cumprir. Com ele, meu senhor, assim é: sempre escolhe seus estilos. Ao mais, dessa vez, ele sabia que não carecesse de me azuretar. Sabia que eu estava até com enjôo da situação daquele homem da égua, meu gosto era permitir que ele fosse s’embora, forro de qualquer castigo.
Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar –
porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra declarada, que os meus cabras tinham escutado e glosado. Ah, o demo bem me conhecia!
Devia de estar no astuto, ali por perto, feitor, se pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução, do meu dever de crime. E o homem da égua o nada de tudo espiava, por mais inteiriço não se ser se forcejava, e um espírito de silêncio ele gemia. Aí onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas morrer. Carecia de morrer, porque o diabo, por novas voltas, no nó de compromisso tinha me pegado; e porque outro ao-menos-remédio não havia. O cachorrinho por sua vez entendia isso, e latiu, cainhava, ganiz; mais conseguido do que o dono ele sabia dar de gemer. Mas eu estava pensando redobrado.
Como era que eu ia matar aquele sujeito, anunciado de pobre, e matar em vez de um outro, sadio em bojo, e rico?
Aquilo era justiça? Vai ver, ele nem conhecesse o nhô Constâncio Alves, nem soubesse quem fosse. Era justiça? Era possível? Eu pensei. O que era que Zé Bebelo, numa urgência assim, no arco, inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.
Os outros, parados em volta, esperavam, por apreciar.
Ninguém não tinha pena do homem da égua, mirei e vi.
Consideravam de espreitar meu procedimento. A afleima de assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar, me agravou. E foi então, para retardar os momentos, que ao cego Borromeu eu indaguei: - “Seja o que, companheiro velho? E eh lá isso?...” Atabafado. Até porque, de pedir avisos a um cego, assim, em públicas varas, eu tivesse de me vexar.
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- “Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o que mecê sumeteu, enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?” – sem-termo do cego me respondeu, sem-razão. Ao que eu tinha trazido aquele comigo, para a nenhuma utilidade. - “Senhor mesmo é que vai matar?” – o menino Guirigó suputou, o diabo falou como uma flauta. - “Te acanha, dioguim, não-sei-que-diga! Vai sebo...” – eu ralhei. Onde os outros riram rabo.
Mas, entre isso, o homem condenável, em cima da égua, amontado sempre, chorava por si mesmo, sensato sério; chorava, decerto, o ter crescido de sua longe meninice. Nem perguntei o nome dele, nem donde era que era. Um naqueles casos, de nada carecia nem necessitava. A cara dele, pelo malaventurar, se quebrava das formas e cor, e perpassava – ele era um ser com a cara desmanchada. Aí o Acauã, por um gesto de aviso meu, assestava nele, sobrestante; porque, mesmo no magoar do terror, por vez um se assopra de adoido, dá bote, dá nas armas.
Agarrado todo na égua, só encolhido, encarapitado – o pobre.
- “Vai sebo!” – eu tornei a xingar o menino-de-infância.
Adforma que eu tinha de resolver. Antes ligeiro, para os meus homens não me acharem aparvo. Ou o demo. O demo?
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ainda que muito eu sei. Agora esse se prespiritava por lá, sabível mas invisível; e ele estava se rindo de mim, meu próximo.
Ah, não! Somei que tive pena do homem? A cachorrinha se latia. Mas, como era que eu podia atirar numa triste pessoa daquelas, que semelhava com os ombros debaixo de todas ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Aperto do dever que eu tinha de cumprir, de editada palavra. Ou eu temi também o Tranjão, o Tibes, o Cujo, que eu mesmo ajustara por meu vigiador? Seja o que; hoje mais rezo. O homem nas costas da égua, desinquieta, que agora dava debate. Decerto porque, animal de montada, no que percebe aquele humano pavor alheio, o todo desprezo ao cavaleiro está obrigado a demonstrar. Conseguinte que, sobre assim, todos riram mais: - “Oé, eh, ele já está se deixando!” – algum reparou. Se via? Se o homem dera de obrar, mesmo permeando para a sela, que se sujava? Às caçoadas, constavam de querer ver aquilo. Daí, o cachorro, por resguardo de seu dono, agrediu os cavaleiros – com qual a latição dele, e os arreganhos, os cavalos de uns desgostavam e se empinavam, por reboliz. O homem, mesmo, era que se franzia, no não dizer, não desbobeava. Ah, e Zé Bebelo! – repentino relembrei, as remotas vezes. Os cavalos saltando assim, os cavaleiros bramando: recordação de Zé Bebelo. Só Zé Bebelo servia para apurar um
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas impedimento desses, no deslindar. Onde ele? Ah! Ah e foi aí –
então – que estouradamente achei: fortes idéias! Rapatrás, fazendo meu cavalo também se arquear e empinar, às patas – eu disse. Disse, que bradei – num entusiasmamento daqueles mesmos de Zé Bebelo – a fala igual à de Zé Bebelo, na baralhada em pompa dos animais, arre crinas, na arroubagem de arruaça.
Eu pronunciei: - “Rai’-a-puta-pô! Não tenho que matar este desgraçado, porque minha palavra prenhada não foi com ele: quem eu vi, primeiro, e avistei, foi esse cachorrinho!...”
Só um assarapanto de silêncio. Daí, me vivavam. Todos entenderam, me admiraram. A tanto que sei. Agora, eu, digo ao senhor: dele, do Demo – naquele instante – agora era eu quem ria!
- “Ei-ei, gente, segura o cão!” – dei ordem. Num três-tempo a cachorrinha estava pega, se esbrabejava. No que uma peia, um laço ou um cabresto, eram desconformes para isso, então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de fina corda, com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão.
- “Não deixem ela uivar... Não deixem ela uivar...” – foi o que o cego Borromeu disse, pelo modo ele tinha medo de uivado de cachorro. -“A bom, cachorro a gente enforca...” – o menino
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Guirigó deu atrevimento de ensinar. Mandei que esse menino fosse para mais longe, perder as influências. Deram uma palmada na anca do cavalo dele, que o João Vaqueiro puxou, para ir exilar os dois em boa conveniente distância.
- “Um cachorro, quando se enforca, chora lágrimas – os olhos dele regulam com os de gente...” – foi o que o Alaripe disse, com simples voz. A tudo, pensei. Agora, matar aquela cachorrinha? O que menos eu pudesse, só mesmo por pragas.
Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta, latindo tão relatado. Ah, não! Ah, não, não matava. Mais, por aí, eu também já tinha aprendido – das sutilezas. Tornei a transdizer: -
“Adoude!... E nem não foi essa cadela. A égua, essa é que foi – a que primeiro deu nas minhas vistas!”
Real, mudando o propósito – e para que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos; quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui: eu falando, ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com outra pressa. -“Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá!” – em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das coisas, sem ação. Transes que em instante temi: aquele homem morresse, roqueado no medo, rebaixado
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dessa forma – então, ah, aí, então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo: só sendo nas extremas do fim do Inferno...
Com jeito, com asco, uns dos meus cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se impunha de ficar em pé. - “Tu foge fora daqui, tu te vai embora!” – eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saiu. Por um momento, pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam. Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia arfagem de chorar também – eu nas margens do mar.
Não quis e nem pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças d’arte – sabe o senhor : na escuridão, não se chora, por não se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah, no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele homem. Antes tivesse logo matado.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade. Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava; assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha, essa, eu pensei: eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação, mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a desastrada estória, que um final razoável carecia de ter. Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Ao que o Fafafa, que não teve poder em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse: - “Nosso Chefe, com vênia eu peço: o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o preço deste inocente animal, que seja poupado... A egüinha não é de todo ruim...”
Aonde que ele disse, outros secundaram: eu deixasse.
Repente meu foi meio irado; porque até o Fafafa me atravessava.
Os demais, a ver que reprovavam minha decisão, de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que, assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver.
Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei: -
“Delibero o certo: o primeiro que eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem!
Não executo. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou –
pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao terminado.”
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Verdadeiramente, com alegria, foi que todos me aprovaram.
Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o seco de minhas mãos.
- “Aí, correr alguém, em tempo de campear outra vez esse homem...” – eu disse. - “Trazer, a modo de se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a entregar a ele o que é dele...”
Eu falava era por devolver a égua. E o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo homem. A égua, que se soltou, caçava moitas de capim, para pastar. Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa aguada na vereda perto, o jacaré armou a trempe e coou café. Sentei, na sombra dum pau-doce, fiquei ouvindo os gabos que os em redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
- “Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio...” – um disse.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas
- “À fé, que determina com a mesma justiça que-Medeiro Vaz...” – outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem, que falassem.
Mas, para afirmar idéia e respeito de que eu estava em minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia aproveitar para uma sesta de soneques. Aprazia escutar o ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranqüilidade. O melhor – ah, pensei, o melhor de tudo! – era que o Anhangão não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d’ele, demo, não competir, por não ter nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte, Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o resultado algum. - “... Sujeito se sumiu nesse mundo, carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada dele...” –
assim rendiam explicação. Que é que se podia remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a égua ali,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? - “Reinaldo, essa tu quer?” – perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor respondeu: - “Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai se encontrar com onde estiver o dono...” E ele mesmo desatou.
Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha: que latiu suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore, até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante.
Eu ia, à meia~ rédea, não me instava, não pensava. Será – mal pergunto eu ao senhor – que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso é que tinha sido a nossa conversação – por causa do de que agora lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me envergonhava.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Como ser? Eu queria e não queria ouvir – não queria e queria.
Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação. E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido, perguntei: - “O recado mandado, Diadorim, tu diz. Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras exijo – o que me reverte!...”
- “Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...”
- “Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha noiva; será?”
- “Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?”
Ao que, por praga, eu relutei no freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja, então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava.
Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais de ciúme nem de medo. Disse assim: - “Pedi a ela que rezasse por você,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...”
No argame, no esquisito desgosto de meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que aquilo era – o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda reperguntei, mesmo assim: -
“Ah, não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?”
- “Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...” Mor, mor, aí, recebi surto de meu sangue, forte, no corpo da cara e na beira das orelhas, e logo doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa.
Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
- “Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades...” –
ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem pensei: – Hás-de!
Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com chumbo fino... – e ri mamente. O que era que me transtornava, do meio para o fim, por essa fraseação?
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do Chapadão, longe no poente, segundo se ia indo, por meu comando. As muitas sérias coisas referi comigo quando eu estava provando a fresca da tarde.
Por curto: minto, se não conto que estava duvidoso. E o senhor sabe no que era que eu estava imaginando, em quem. Ele é? Ele pode? Ainda hoje eu conheço tormentos por saber isso; trastempo que agora, quando as idades me sossegam. E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio –
feito remanchas n’água. A saúde da gente entra no perigo daquilo, feito num calor, num frio. Eu, então? Ao que fui, na encruzilhada, à meia-noite, nas Veredas Mortas. Atravessei meus fantasmas? Assim mais eu pensei, esse sistema, assim eu menos penso. O que era para haver, se houvesse, mas que não houve: esse negócio. Se pois o Cujo nem não me apareceu, quando esperei, chamei por ele? Vendi minha alma algum? Vendi minha alma a quem não existe? Não será o pior?... Ah, não: não declaro.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Desgarrei da estrada, mas retomei meus passos. O senhor segurado não acha? Ao que tropecei, e o chão não quis minha queda. De hoje em dia, eu penso, eu purgo. Eu tive pena de minhas velhas roupas. E rezo. Para a minha reza, Deus dá as costas, mas abaixa meio ouvido. Rezo. Queria ver ainda uma igreja grande, brancas torres, reinando de alto sino, no estado do Chapadão. Como que algum santo ainda não há de vir, das beiras deste meu Urucuia? E o diabo não há! Nenhum. É o que tanto digo. Eu não vendi minha alma. Não assinei finco. Diadorim não sabia de nada. Diadorim só desconfiava de meus mesmos ares.
Escuto o claro riso dele, que era raramente; quer dizer: me alembro. Compadre meu Quelemém me dá conselhos, de tranqüilidade. O que ele renova é: - “... Em presente e futuros...”
Eu sei.
Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivivel mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel...
Ora, veja. Remedeio peco com pecado? Me torço! Com essa sonhação minha, compadre meu Quelemém concorda, eu acho. E procurar encontrar aquele caminho certo, eu quis, forcejei; só que fui demais, ou que cacei errado. Miséria em minha mão. Mas minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha? O senhor reza comigo. A qualquer oração. Olhe: tudo o que não é oração, é maluqueira... Então, não sei se vendi? Digo ao senhor: meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Divulgo o meu. Essas coisas que pensei assim; mas pensei abreviado. O que era como eu tivesse de furtar uma folga nos centros de minha confusão, por amor de ter algum claro juizo –
espaço de três credos. E o resto já vinha. O senhor verá, pois.
Porém mais além.
Na Serra do Tatu, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na Serra dos Confins, meados de julho, lá já está sovertendo o laçaço dos ventos, desencontrados, de agosto; como que venta: árvores caídas.
Aonde eu ia, todos achavam natural. Chefe é chefe. Será que eles não sabiam que eu não sabia aonde ia? Isto é – digo – isto é. Não soubessem os começos e os finais. Dalgum modo, eu estava indo e sabendo. Sobre como é que a coruja conseguiu modo de poder voar sem se escutar o rumor do vôo? Ao que eu estava sofismado. Menos que não guardei raiva de Diadorim, nem sentimentos. O desar que ele tinha falado e feito, aquela ruim conversa nossa, não deixou nem nublo: melhor fugiu, de todo, de minha lembrança.
O palpite meu, primeiro, era de chegar até na Serra do Meio
– cruzar na Cachoeira-do-Urucuia. Daí, desisti. De repente, torci direto para o norte; foi no Lagamar, a travessia. Mas, fujo de
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dizer: que, antes, no Lugar-doTouro, se arrecadou a exata munição. Ainda antes se dando, dias, que a gente tinha recebido uma boa surpresa. O Quipes!
Assim o Quipes, que retornava, depois de tantos meses. De desde que tinha cumprido a ordem de sair por travesso socorro, de lá ondonde estávamos cercados em combates, na Fazenda dos Tucanos – o senhor se alembrará. Ele vinha certo e alegre. E, de ver um companheiro assim se aparecer, de ausências, a gente ganhava mais mocidade.
Lampeiro, o Quipes entrado em boas roupas, montado num bom cavalo amarelo, pitando maço de cigarros de fábrica; rico feito um Mascarenhas. Arte que puxava um burro e uma burra, adestros, e tinha comprado coisas: até trempe e caçarolas, e açúcar real e chocolate em pó. Ao fagueiro, pujante, mesmo.
- “Ara, veja, como passou? E dond’ é que soube de nós?” –
eu em atiço perguntei.
- “Ao que pois, Tatarana: em faltas de notícia, formei meu pião por aí... Já estive em Ingazeiras, na Barra-da-Vaca, no Oi-Mãe, em Morrinhos... O Urucuia não é o meio do mundo?” –
assim ele se temperou.
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas O que não era toda a verdade. O que ele estava era recém-chegando. E me tratou de Tatarana... O seja que tivesse vivido esses tempos tangendo urubu, adformas que vinha agora na ignorância de que eu é que era o Chefe. Indagou por Zé Bebelo; e pois de Zé Bebelo mesmo ele tudo não sabia. Nem o parar do Hermógenes. Nem não tinha nenhum sinal do Joaquim Beiju, assim como aviso de outras novidades do mundo não deu. Só, por terminar, se gabou de ter tido duas ofertas: para servir de jagunço de Dona Adelaide, no Capão Redondo, e do Coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte.
- “Ah, entrei, gozando de minha pessoa de paz, até nas cidades de Januária e São-Francisco...” – ainda proseou. Devia de.ser verdade. Assim como verdade completa que, a burra e o burro, e a tralha, ou o dinheiro para tudo adquirir, ele devia de ter roubado tomado em terra de riquezas.
Tal que disse: - “Isto eu bem comprei, na venda do José Vassalo...” Desajuizado gastador, esse o Quipes.
Tanto ouvi, muito macambúzio. Onde que então, eu varava mundo, em comando, e ainda não prezava o meu nome. Eu – o Urutu-Branco! Ser Chefe de jagunço era isso. Ser o que não dava realce – qualquer um podia, fazendeiro com posses, mão em
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas políticas. O sertão tudo não aceita? A minha pessoa era nada, glória de Zé Bebelo era nada. O que dá fama, dá desdém. O
menos de me importar. O que eu carecia era de dar primeiras batalhas. Suspender a alta coragem, adiante de meus cabras. Ou será que já estavam mas era se aplicando no vagavagar? – Cigano sou? – eu pensei, enraivecido. Tinha o norte, para a gente. Dei ordem. Aí torcemos caminho, numa poeira danã. A reto, viemos beirando o Ribeirão da Areia, de rota abatida. O que era que eu tencionava fazer? O senhor espere.
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo
– o recado enviado. Mas, à vez, balancei uma inquietação, daquilo, que era para eu bem estranhar, a decisão dele de tanto absurdo. Essas desordenadas da vida da gente: tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compassava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, da Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando.
Tudo, nesta vida, é muito cantável.
Até, a seguir, por um afino de momento eu me arrepiei por trás da testa. Ato do que meio confuso imaginei, por um vão imaginar: que, me querendo-bem – a mais de meu merecimento
– e crendo que eu enfrentava os duros riscos, ela Otacília pudesse praticar o estouvamento gentil de se fugir de casa e vir aventurada em minha cata, por todos os pousos deste sertão...
Ah, ela vinha, montada num bom cavalo corcel, aparecia de repente, por meu nome perguntando. E eu declarava a grandeza real dela, definida bem do meu lado, na frente do grande bando de meus homens... Assim, de jeito tão desigual do comum, minha vida granjeava outros fortes significados. E isso variou em meu pensamento, inesperado de ligeiro supor, que, a bem notado, nem foi um pensar. Arremedo de sonho, também, não seria de ser. Então, emendando de novo o vero juízo, tive um receio: por causa que aquilo podia ser aviso do que estivesse por vir, rumo de profecias.
Otacília – me alembrei da luzinha de meio mel, no demorar dos olhares dela. Aquelas mãos, que ninguém tinha me contado – 698 –
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que assim eram assim, para gozo e sentimento. O corpo – em lei dos seios e da cintura todo formoso, que era de se ver e logo decorar exato. E a doidice da voz: que a gente depois viajasse, viajasse, e não faltava frescura d’água em nenhumas todas as léguas e chapadas... Isso tudo então não era amor? Por força que era. E pelo sim receei: será tivesse Diadorim falseado fala, e o recado na verdade fosse outro – o para ela vir, afoitamente, que eu dela muito carecia? Divulgo o desuso disso, que era extravagâncias. Mas o senhor acreditando que alguma coisa humana é de todo impossível, então é que o senhor não pode mesmo ser chefe de jagunço, nem na menor metade só de um diazinho, nem somente nos vastos imaginados. Ora essas! – digo.
Se Otacília viesse, aparecesse lá em no meio de nós – que seguimento de coisas havia de suceder?
A bobéia, toleima. Otacília estava guardada protegida, na casa alta da Fazenda Santa Catarina, junto com o pai e a mãe, com a família, lá naquele lugar para mim melhor, mais longe neste mundo. E eu, sem ser por motivo ou razão, cada dia tocava com a minha gente por contrárias bandas, para mais apartado de donde ela assistia. Ao cada dia mais distante, eu mais Diadorim, mire veja. O senhor saiba – Diadorim: que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.
Máximo me lembro é de que, na minguante, se estava no veredal das cabeceiras de um córrego, lugar de desmedidas pastagens, adonde os cavalos usufruírem descanso. A lá esbarramos e paramos, por uns dias. Me lembro, eu quis escrever uma carta.
Essa minha carta, eu podia destacar um homem, dos ligeiros, ele ia levava em mão, à Otacília, minha noiva, trazia a resposta. O que eu cogitei de escrever era muito singelo: as notícias de minha saúde, pergunta de como era que ela e os parentes iam passando, saudações de lembranças. Admiro que achei natural de não falar coisa de minha glória de chefia, por oras. Por quê? Pois. E tive vontade de traçar uns versos também: mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.
Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê?
Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo.
Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite-esse é o motivo dos passarinhos...
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez.
Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho – falar no assunto que o senhor está de mim esperando.
E escute.
Tinha o Maligno?
Às vezes, penso. Um boneco de capim, vestido com um paletó velho e um chapéu roto, e com os braços de pau abertos em cruz, no arrozal, não é mamolengo? O passopreto vê e não vem, os passarinhos se piam de distância. Homem, é. O senhor nunca pense em cheio no demo. O mato é dos porcos-do-mato...
O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. Quem entende a espécie do demo? Ele não fura: rascrava. Demorar comigo ele podia. E, o que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões. A ele vazio assim, como é que eu ia dizer: - “Te arreda desta minha
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas conversa!”?... Ao que, pois, o que eu ia pondo, na carta, era quase que uma ordenada lembrança, a igualzinha repetição daquilo de Diadorim: – que ela rezasse por mim, Otacília, orações rezasse...
Ia. Ah, mas, aí, houve. Amoleci mão antes de coração: não pude.
Não pude, diabralmente, desarrazoado – por outras fortes ordens... –; e então de repente tive vergonha, desgostei de estar querendo escrever aquela carta. Desisti, guardei na mochila aquela metade. Um homem é um homem, no que não vê e no que consome. Ah, não. Otacília, eu não merecia. Diadorim era um impossível. Demiti de tudo.
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu remorso.
Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos: eram só os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado.
Assim: – Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela...-isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto: como havia de escapulir dele, do Temba, que eu tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? Mas, então, governar pudesse, eu não era o Urutu-Branco, não vinha a ser chefe de nada, coisa
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nenhuma! Ah, eu carecia dum jeito, dum esperto socorro, para tentear com o Sujo em suas próprias portas, e mediante me pôr livre de fim fatal. De que modo?
Mas acontece que o instante entre o sono e o acordado era assaz curto, só perpassava, não dava pé. Eu não podia me firmar em coisa nenhuma, a clareza logo cessava. Daqueles avisos e propósitos, o montante movimento do mundo me delia, igual a um secar. E eu mesmo estava contra mim, o resto do tempo.
Não estava? Todo o mundo, cada dia, me obedecia mais, e mais me exaltavam. Com o que peguei, aos poucos, o costume de pular, num átimo, da rede, feito fosse para evitar aquela inteligencinha benfazeja, que parecia se me dizer era mesmo do meio do meu coração. Num arranco, desfazia aquilo – faísca de folga, presença de beija-flor, que vai começa e já se apaga – e daí já estava inteirado no comum, nas meias-alegrias: a meia-bondade misturada com maldade a meio. Agora levantava, puxava e arreava meu Siruiz, cavalo para alvoradas. Saía sozinho.
Sair na escuridão, o senhor sabe: aqueles galhos de árvores batendo na cabeça da gente. Sempre eu ia até longe; quando voltava, encontrava o pessoal se aprontando, café já coado,
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas cavalaria em fila para a viagem. Uma vez, inda mais longe fui, do que nas outras. E dei com o lázaro.
Ele se achava como que tocaiando, no alto duma árvore, por se esconder, feito uma cobra ararambóia. Quase levei o susto. E era um homem em chagas nojentas, leproso mesmo, um terminado. Para não ver coisas assim, jogo meus olhos fora!
Promovi meu revólver. Aquele de repente se encolheu, tremido; e tremeu tanto depressa, que as ramagens da árvore enroscaram um rumor de vento forte. Não gritou, não disse nada. Será que possuía sobra dalguma voz? Eu tinha de esmagalhar aquela coisa desumana.