Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa · Capítulo 8 de 8 · parte 1/3

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Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas diga: o senhor desconfiou de alguma arte, concebeu alguma coisa?

Sumimos de lá. Em cinco léguas, vi o barro se secar. O

campo reviçava. Mas concedi que a viagem viesse à branda, serenada. Queria, quis. O burrinho de Nosso Senhor Jesus Cristo também não levava freio de metal... Isso, na ocasião, emendo que não refleti. Razão minha era assim de ter prazos, para que meu projeto formasse em todos pormenores. Mas – isto afianço ao senhor – também eu não sentia açoite de malefício herege nenhum, nem tinha asco de ver cruz ou ouvir reza e religião.

Mesmo, me sobrasse tempo algum de interesse, para reparar nesses assuntos? Eu vinha entretido em mim, constante para uma coisa: que ia ser. Queria ver ema correndo num pé só... Acabar com o Hermógenes! Assim eu figurava o Hermógenes: feito um boi que bate. Mas, por estúrdio que resuma, eu, a bem dizer, dele não poitava raiva. Mire veja: ele fosse que nem uma parte de tarefa, para minhas proezas, um destaque entre minha boa frente e o Chapadão. Assim neblim-neblim, mal vislumbrado, que que um fantasma? E ele, ele mesmo, não era que era o realce meu –

?-eu carecendo de derrubar a dobradura dele, para remediar minha grandeza façanha! E perigo não vi, como não estava cismando incerteza. Tempo do verde! Êpa, eu ia erguer mão e

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas gritar um grito mandante – e o Hermógenes retombava. Onde era que estava ele? Sabia não, sem nenhuma razoável notícia; mas, notícia que se vai ter amanhã, hoje mesmo ela já se serve...

Sabia; sei. Como cachorro sabe.

Assim, o que nada não me dizia – isto é, me dizia meu coração: que, o Hermógenes e eu, sem dilato, a gente ia se frentear, em algum trecho, nos Gerais de Minas Gerais. Eu conhecia. A pressa para quê? Ao ir, ao que ir – aí contra a Serra das Divisões ou sobre o Rio São Marcos. Estrada-real, estrada do mal. Como de fato, aquilo estava impossível, breado de barro alto, num reafundo, num desmancho, que comia com engolo as ferraduras mesmo cravadas novas, e assujeitava a gente a escorregão e tombos, teve animal que rachou canela, quebrou pescoço. – “Este caminho tem tripas...” – se dizia bem. Às loucuras. E a jorna não rendia, não se podia deszelar o pisar.

Retardamos. Retardar, mesmo se me dava de agradável. Eu ia numa caçada, com o grande gosto, ah. Pois não era? Mais tempo se gastou, esbarrados em casas-de-fazendas ou em povoados. Melhor – por lá, também, haviam de aprender a referir meu nome. De em desde, bem que já cumpriam de me recompensar e me favorecer, pela vantagem: porque eu ia livrar o mundo do Hermógenes. O Hermógenes – pelejei para relembrar as feições

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas dele. Achei não. Antes devia de ser como o pior: odiado com mira na gente. – “Diadorim...” – pensei – “... assopra na mão a tua boa vingança...” O Hermógenes: mal sem razão... Para poder matar o Hermógenes era que eu tinha conhecido Diadorim, e gostado dele, e seguido essas malaventuranças, por toda a parte?

Retardamos. Até que, tomando sazão boa no veranico, seguimos em fim, estrotejando. Parávamos léguas perto das divisas, mandei ir vigias e dianteiros. Conferi meu povo nas armas. Tudo prazia. O barranco mineiro ou o barranco goiano.

Da beira de Minas Gerais, vinha um mato vagaroso.

E piorou um tico o tempo, em Minas entramos, serra-acima, com os cavalos esticados. Aí o truvisco; e buzegava. O

ladeirão, ruim rampa, mas pegamos a ponta da chapada. Foi ver, que com o vento nas orelhas, o vento que não vareia de músicas. Tudo consabia bem; isto sim, digo; no remedido do trivial, espaço de chuva, a gente em avanço por esses tabuleiros: fazia rio, por debaixo, entre as pernas de meu cavalo. Sertão velho de idades. Porque – serra pede serra – e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta. Sertão sendo do sol

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, por sobre... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele...

Com trovôo. Trovoadão nos Gerais, a ror, a rodo... Dali de lá, eu podia voltar, não podia? Ou será que não podia, não?

Bambas asas, me não sei. Bambas asas... Sei ou o senhor sabe?

Lei é asada é para as estrelas. Quem sabe, tudo o que já está escrito tem constante reforma – mas que a gente não sabe em que rumo está – em bem ou mal, todo-o-tempo reformando?

Meus homens adianteiros retornaram, que vindos com uma notícia: os Hermógenes, bando enorme, tocavam meio para cá – decerto também já cientes de meu caminhar! Era o devido.

Se estremeceu, de pressas. Vim. Viemos. Trastopamos com uns campeiros e outros, que vaquejavam, ou que levando gado de volta para o caatingal, por não morrerem suas reses todas, de pastar o capim novo dos Gerais, que cresce cheio de areia. Mas esses não sabiam de nada coisíssima. A gente contornou, por se chegar primeiro no Nestor, na Vereda-Meã, e no Coliorano, depois do Mujo. Vãozinho-do-Mujo, esse acho que era certo

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas também, o nome. Mas o Coliorano morava num buritizal de lagoa, e fazia chapéus-de-palha fabricados; dos melhores. Nele e no Nestor, carecia de se chegar, em antes do Hermógenes – que lá se tinha coito de munição. Contornamos. Muito brejo e sapal já estavam de volta. Os rios andando sujos, e umbuzeiros dando flor. Mas a cheia de todo rio carregava muito cuspe de espuma por cima – sinal de que ela ia aumentando, com maiores chuvas nas nascentes. Assim mesmo assim, não perdemos de breve chegar e de arrecadar munição que se queria, total toda.

Arredondamos. Agora, em hora. Que era que faltava? Comigo –

redor de mim! – quem quisesse guerra...

Todos. E, todos, tinha vez eu achava que queria-bem o meu pessoal, feito fossem irmãos meus, da semente dum pai e na madre de uma mãe gerados num tempo. Meus filhos. Para que relembrar, divulgar dum e dum, dar resenhas? Do Dimas Doido – que xingava nomes até a galho de árvore que em cara dele espanejasse, ou até algum mosquitinho chupador. Do Diodolfo – mexendo os beiços num bis-bis: que era que sem preguiça nenhuma rezava baixo, ou repetia coisas de mal, da vida alheia, conversando com si-mesmo. Do Suzarte – tomando olhos de tudo, chão, árvores, poeiras e estilos de vento, para guardar em sua memória aqueles lugares em léu. Do Salústio

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas João, em ancas de seu burro; e do Araruta – de toda confiança: esse homem já tinha para mais de umas cem mortes. Do Jiribibe, que a recorrer, da guia à culatra, por necessidade de cada coisa ouvir, recontar e saber. Ou do Feliciano – que abria muito o olho são, para melhor entender o que a gente dizia?

Tuscaninho Caramé, que cantava, bonita voz, algúa cantiga sentimental. João Concliz, dobrando um assovio comprido sem fim, como esses que são dos tropeiros dos campos goianos? Ou o José do Ponto com o jacaré – tocando os cargueiros, com sua tralha de cozinhar...

Mas refiro miúdos passos. Coisinhas que a gente vislumbra em ocasião de momento, e que quase não esquecem, com pena.

Pois eu pensasse a breve na responsabilidade que a minha era, quando via um homem idosamente respeitável, como Marcelino Pampa – e que já tinha sido chefe – seguindo por seu próprio gosto, no meio do andamento dos outros, ou esbarrar o cavalo nos freios, e, esbarrado assim, mesmo sem virar a cara para mim, mas abaixar um pouco a cabeça, e ficar escutando e meditando o meu conselho. Ou quando um daqueles jagunços mais velhos recomendava a qualquer rapaz como era que deviam de ter cautela, no lidar com as armas de conjunto, e com a munição nas canastras: pois de tudo calados cuidavam; porque

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas então, em sentir, era como se fosse coisa de paz, arranjos miúdos em casa da gente. Ou mesmo quando eu avistava um daqueles catrumanos, gente toda trazida, deportados por mim da terra deles. Esses me davam estima? Ah, acho que me achavam. Antes teriam um admirado receio, o medo maior. E

tinha uns – como digo ao senhor que relembro tudo – esse, Assunciano: quando se falava em fogo, ele já ficava com o corpo para diante, meio entortado; e que ele era magro, mas ovante, barrigudo mediamente; e, de um qualquer um chapéu simples, mas um pouco mais enfeitado ou novo, ele já demonstrava mirar de boba inveja... Meus filhos.

Mas, não durava dai, menosmente, eu esquentava outra vez meus altos planos, mais forte; eu refervesse. Eu era assim.

Sou? Não creia o senhor. Fui o chefe Urutu-Branco – depois de ser Tatarana e de ter sido o jagunço Riobaldo. Essas coisas larguei, largaram de mim, na remotidão. Hoje eu quero é a fé, mais a bondade. Só que não entendo quem se praz com nada ou pouco; eu, não me serve cheirar a poeira do cogulo – mais quero mexer com minhas mãos e ir ver recrescer a massa... Outra sazão, outros tempos. Eu ia para sofrer, sem saber. E, veja, se vinha, eu comandei: – “É guerra, mudar guerra, até quando onça

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas e couro... É guerra!...” Todos me aprovavam. Ainda mesmo que com o cantar:

“Olererê Baiana... Eu ia

e não vou mais... Eu faço

que vou

lá dentro, ó Baiana: e volto

do meio p’ra trás!”

Assim, aquela outra – que o senhor disse: canção de Siruiz

– só eu mesmo, meu silêncio, cantava.

Sofreado de minha soberba, e o amor afirmante, eu senti o que queria, conforme declarado: que, no fim, eu casava desposado com Otacília – sol dos rios... Casava, mas que nem um rei. Queria, quis. – E Diadorim? – o senhor cuida.

Ingratidão é o defeito que a gente menos reconhece em si?

Diadorim – ele ia para uma banda, eu para outra, diferente; que nem, dos brejos dos Gerais, sai uma vereda para o nascente e outra para o poente, riachinhos que se apartam de vez, mas correndo, claramente, na sombra de seus buritizais... Outras horas, eu renovava a idéia: que essa lembrança de Otacília era muito legal e intrujã; e que de Diadorim eu gostava com amor, que era impossível. É. Mire e veja: o senhor se entende? Deixe

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas avante; conto. Mesmo, nos dias, o que era, era ir – vir, corrijo.

Até sem ter aviso nenhum, eu me havia do Hermógenes. Pressentidos, todos os ventos eu farejava. O Hermógenes, com seu pessoal dele – que nem em curvas colombinhando, rastejassem, comprido grosso, mas sem bulha, por debaixo das folhas secas... Mas eu estava fora de minha bainha. Às vezes, eu acordava na metade certa da noite, e estava descansado, como se fosse alto dia. Vão da noite, quando o mato pega a adquirir rumores de sossegação. Ou quando luava, como nos Gerais dá, com estrelas. Luava: para sobressair em azul de luz assim, só mesmo estrela muito forte.

E chegamos! Aonde? A gente chega, é onde o inimigo também quer. O diabo vige, diabo quer é ver... A pois! Sincero, senhor: os campos do Tamanduá-tão; o inimigo vinha, num trote de todos, muito sacudido. Se espandongaram... Campos do Tamanduá-tão – o senhor aí escreva: vinte páginas... Nos campos do Tamanduá-tão. Foi grande batalha.

Não se instruiu que. Nem não houve aviso. Dei guerra.

Como se quis: lei a lei, e fogo a fogo. Era na força da lua.

Tamanduá-tão é o varjaz – que dum topo de ladeira se avistava; e para lá descemos por encanado de cava, quase grota,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas que a vertente entalha. Mas mais de mil bois, ou cavalos e éguas uns oitocentos, se carecesse, cabiam de bom pastar ali naquele baixadão, de raso em raso. Ao muito escuro, duma banda, existia um travessão de mato. Outro braço de mata, da outra banda. Com que, contornada essa mata, a gente estava sempre naquilo que Tamanduá-tão é: a enorme vargem. Porque, para tudo quanto havia, o nome era aquele só – que Mata-Grande do Tamanduá-tão, e Mata-Pequena do Tamanduá-tão, e tudo. Por mesmo, do Tamanduá-tão era a casa-de-fazenda – de muitos antigos tempos, quando tinha tido senzalas e um engenho-de-pau-em-pé. Mas já estava esquecida, arruinada em esteios, e com restos de parede fechando matagalzinho em cima de montes de terra e pedras, em fim de taperada. Bem sim, que, por perto, assistia alguma pobre gente vinda, cultivando: o quanto se via roça, milharais, feijoal faceiro. Gente, mal se viu. E do Tamanduá-tão era a Vereda, com seus buritis altos e a água ida lambida, donzela de branca, sem um celamim de barro. Diz-se que lá se pesca, e gordas piabas. Por cima dela sei é de muito tiro. Tinha um cocho no chão, no campo; o gado ouvia e se fugia, bravo. Às beiras daquela, minha gente galopou – a vereda toda, susã-jusã – feito estivessem sendo surucuiú sem fêmea,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas percorrente doidada... E o inimigo dava para trás! Não achavam esconso... Assim é que se principiou.

A bem, como é que vou dar, letral, os lados do lugar, definir para o senhor? Só se a uso de papel, com grande debuxo.

O senhor forme uma cruz, traceje. Que tenha os quatro braços, e a ponta de cada braço: cada uma é uma... Pois, na de cima, era donde a gente vinha, e a cava. A da banda da mão-direita nossa, isto é, do poente, era a Mata-Grande do Tamanduá-tão. Rumo a rumo, a da banda da mão-esquerda, a Mata-Pequena do Tamanduá-tão. A de baixo, o fim do varjaz – que era, em bruto, de repente, a parede da Serra do Tamanduá-tão, feia, com barrancos escalavrados. Os barrancos cinzentos, divulgando uns rebolos e relombos, barrancos muito esquisitos – como as costas de fila de muitos animais... Mas, agora, o senhor assinale, aqui por entremeio, de onde é a Serra do Tamanduá-tão e a Mata-Grande do Tamanduá-tão, mais ou menos, os troços velhos da casa-de-fazenda, que tanto se desmantelou toda; e, rumo-a-rumo, no caminho da Serra para a Mata-Pequena, essas rocinhas de pobres sitiantes. Aí o senhor tem, temos. A Vereda recruza, reparte .o plaino, de esguelha, da cabeceira-do-mato da Mata-Pequena para a casa-de-fazenda, e é alegrante verde, mas em curtas curvas, como no sucinto caminhar qualquer cobra faz.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E tudo. O resto, céu e campo. Tão grandes, como quando vi, quando no fim: que ouvi só, no estradalhal, gritos e os relinchos: a muita poeira, de fugida, e os cavalos se azulando...

Mas, primeiro, antes, teve o começo. E aí teve o antes-do-começo; que o que era – a gente vindo, vindo. E vindo bem. Mal ao justo, que, para tão cedo, assim, aquilo não se esperava. A gente vinha acabando a serra. Serra da Chapada. Somente para dali descer, e traduzir essas campinas, a grandeza de vargem.

Deles, inimigos, não se tinha aviso nenhum, nem espiação. Eu podia saber? Eu era uma terrível inocência. E de tudo miúdo eu dava de comer à minha alegria. Assim, o por exemplo, quando eu quis experimentar a valia de meus catrumanos. Um, o Dos-Anjos. Esse degozava de mostrar que tinha tomado entendimentos: presto manejava. Achei graça no tirintim ligeiro, como ele recarregou a comblém. Mas era uma arma sem trocha, e muito envelhecida, abaixo de todas as menos, até com cano já gasto. – “X’eu cá ver o arcabuz, mano-velho...” – eu arrecadei.

Ele nem queria entregar; conforme que disse, triste: – “É a méa combléia...” – e excogitava na arma. Esse, merecia. Que fossem arranjar para ele uma outra, consentã – rifle chapeado ou winchester mão 27, ou carabina qualquer, bala de chumbo. E aí o Dos-Anjos me desofereceu o trabuco dele velho; mais que

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas avexado, e menino-manso me olhava... Mas Marcelino Pampa –

acho que foi, – quando a gente acabou de rir, pagou boa lembrança: disse que, num brugo, a meio indo para o pique do morro, Medeiro Vaz tinha deixado guardado, uma vez, um feixe de armamento de soldados. Que eram cinco fuzis máuser, oleados bem, num caixote, escondidos no fundo dum grande solapo, no paredão. Se dizia. Tanto que lá nem bicho mateiro não ia, tirante macaco; e que por tudo, por certo, deviam de estar de uso. – “Por que é que Medeiro Vaz escondeu?” – “Por, no tempo, não ter servível munição...” – “E agora se tem, que dê?” –

“A pois.”

Eu disse ao senhor: eu não sabia do inimigo, nem o inimigo de mim, e nós vínhamos para se-encontrar. Então? Ah, mas eu parei mais alto – estive muito mais alto, mesmo; e foi assim a sol.

Pois logo a gente quebrou caminho, trepando encosta, lá para aquelas burguéias. Os nenhuns fuzis não achamos, adentro do cavernal, que era muito espaçoso, só com uns morcegos, que habitavam. E eu, por um querer, disse que ia subir mais, até no cume. Poucos foram os que comigo vieram. As alturas.

Poucos; me lembro do Alaripe. Posto, pois foi porque foi.

Que estávamos já voltando descendo do ponto do alto, o vento

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas bobeando na cara da gente e bela-vista adiante, muito descrita.

Caminhando, mesmo, a gente tinha enrolado cigarros, que não estava sendo azado de acender, por via do encano do ar, que ventainhava. Esbarramos. Àlaripe bateu binga. Mas, repronto, ele mesmo encolheu o corpo, e apontou, exclamando surdo: – “Há, lá: no quembembe...” – o que, quembembe, na linguagem da terra dele, vinha a ser: na virada, na tombada... Como com efeito, acolá, na Serra do Tamanduá-tão, vertente abaixo, vinha um cavaleiro. E eram muitos outros.

Esses, eles! Mas nós já tínhamos tomado recato. –

“Maximé...” – eu disse. E o que eu senti, ah, não foi receio, nem estupor, nem arrocho. O que eu senti foi nada, coisa nenhuma: coisa-nenhuma em branco, ao redor da minha movimentação...

Quantos com que, assim viessem, se guerreava; mas sempre um chefe é uma decisão. Falei. E, quando mesmo dei tento, já tinha determinado as ordens justas carecidas; tudo atinado, o senhor veja, e tal. Primeiro, que uns três homens fossem levar para aquela dita solapa do morro os que não eram mãos-d’armas: que o menino Guirigó, o cego Borromeu e a mulher do Hermógenes, que lá esperassem o final de tudo. E para isso escolhi também o catrumano Dos-Anjos, que logo vi que bem

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas escolhi, por tanto que ele, na primeira coisa que pensou, foi na quantia de comida que para eles se deixasse. Daí, o da guerra, exato, muito singelo: repartir a gente em três drongos, que íamos descer a serra em diversas bocainas diferentes. Eu, com o meu, normal rente. João Goanhá, da banda da mão direita; Marcelino Pampa da banda da mão esquerda: eles fossem para ladear, e revir e cometer, dando todas retaguardas!

Num átimo. Discutido assim, o pessoal se arrumou para ir, já indo; jagunço nunca dilata. Mas os de João Goanhá e os de Marcelino Pampa, primeiramente, que deviam de longe. Eu, com os meus, tinha mais tempo, convinha mesmo retardar. Estive contando os cavalos. – “Te arma bem, Diadorim!” – eu disse. –

“Te arma bem, mano meu mano!” Por que foi que eu disse?

Então, o senhor me confere: que eu ingrato não era, e que nos cuidados de meu amor Diadorim sempre estava. E amor é isso: o que bemquer e mal faz? Apalpei meu selim, que minhas pernas esquentavam. Empunhei o parabelo. Alguns dos homens ainda aproveitavam a espera para comer o que tivessem, e um quis me obsequiar com a metade duma broa de brote, de se roer, e outro que trazia um embornal-de-couro cheio com cajus vermelhos e amarelos. Rejeitei. Por mesmo que naquele dia eu estava de jejum quebrado só com uma jacuba. Nem quis pitar. Não por nervoso.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Mas eu sabia que era o minuto e não era a hora. E o do embornal com os cajus, sendo um João Nonato, diamantinense, decidido agradável me disse: – “Hoje, Chefe, depois que se ganhar, com o bom gol se festeja?” Oi, sim. E de repente eu disse dizer: – “Tu, menino, meu filho, tu vem adiante, mano-velho: emparelhado comigo... Tu me dá sorte!” Deixamos de esporas.

Descendo na cava, por feliz a gente vinha em oculto. E, justo, já embaixo, no principiar da várzea, era um capim com mais viço, capinzal do fresco de pé-de-serra. Capim mais alto do que eu – nele à gente se tapava. Coincidido que, permeio o verde dos talos, a gente via algumas borboletas, presas num lavarinto, batendo suas asas, como por ser. Caiu o açúcar no mel! Porque, igual também convim que podíamos ladear um tanto; e, daí, separei, de cabeça, um grupo de homens, que iam ir com o Fafafa: esses avançarem primeiramente – como a certa isca –

perturbando o cálculo do inimigo, ao dar o dar. Respiramos tempo, naqueles transitórios. De rechego, coçando as caras no capim em pontas, que dava vontade de se espirrar. Só o rumor que se ouvia era o dos cavalos abocanhando. Eu tinha pressa de um final, mas o que ia mor em mim era um lavorar de paciência: talento com que eu podia ficar retardando lá, a toda a vida. Safas

– que eu podia dar também um pulo, enorme, sustirado,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas repentemente. Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem. O capinzal repartia tudo diverso: o abafo do ar e o fresco de lugar de grota – frio e calor, lado dum doutro, nas finas folhas mesmo da folhagem. Mas o calor vinha subindo era pernas acima, no meu corpo: o que os meus pés, de tão quentes, suavam. E eu não enxergava o chão; mas o cheiro do lugar ali era de barro amarelo massal. Suspensos no parar, mesmo, a gente se embalançava na sela, banda para banda, na suavidade essa –

conforme temperação, de que o espírito necessitava. Sendo o mundo quieto, para não assustar os pássaros que comem sementes no capim, porque o revôo deles havia de dar ao inimigo alto aviso no ar.

Sobre isto, eu tirei um pé do estribo e ajoelhei no coxim da sela. Porque era a hora de olhar; mirei e vi. Como o inimigo vinha: as listras de homens, récua deles: passante de uns cem.

Tive mão em tudo, eles ainda estando longe. Fafafa encostou dois dedos no meu joelho, como se até às mudas quisesse poder receber a ordem. Ele esperava um instante certo de meu respirar. Eu brinquei com a mão no arção. Vez de um, vez: todos e todos. Falo o dito de jagunço: que eles mesmos não conseguiam saber se tinham algum medo; mas, em morte,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas nenhum deles pensava. O senhor xinga e jura, é por sangue alheio.

Daí, reolhei. Avistei que vinham – e tinham destacado em galope, festinho adiante, uns tais, que se enviassem de vigiar a cava e a passagem de sobe-serra, como cautela. Fechei os olhos, e contei. Até dez, agüentei não, que me deu um deciso já em sete. – “Tu é tu, Fafafa!” – eu disse. E ele gritou: – “Xé, do campo!” –; e correu as esporas. E eu vi o virar dos cavalos –

partindo rompendo, amassando cama no capinzal. Seja que, os homens para acompanharem o Fafafa, eu medi em número e soltei, feito em porteira de gado: e pouco passaram de vinte. E

eu retinha a duro os outros, que queriam também ir. E

Diadorim, desses. – “Eu!” – que Diadorim disse. Eu disse: –

“Não!” – como agarrei embaixo a rédea do cavalo dele. Por que foi que fiz? Bastava o meu mando. Aquilo não tinha significado.

Só fiz querer Diadorim comigo; e a gente se cabia entre riscos do verde capim, assim eu Diadorim enxergava, feito ele estivesse enfeitado. Se escutando os grandes gritos e tiros: que eram os de Fafafa destruindo a anteguarda dos contrários. Amontado no instante, mas eu mesmo assim tive prazo para

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas me envergonhar de mim, e para sentir que Diadorim não era mortal. E que a presença dele não me obedecia. Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade...

Aí, me alteei, e tive: que era o começo da grande batalha.

Sobre o soprar, o Fafafa indo em frente, mais os dele, gritando alardes!

No que, os outros, os Hermógenes, também, que primeiro formavam mó, depressa alargaram espaço, se abrindo uns dos outros – mato de gente. Eles tresfuriavam assim, aos urros zurros, quantidade que eram; eh, sabiam vir, à cossa. E tiros mesmo pouco ouvi; mas, no liso seco estradai, do meio do campo, deu um pano de poeira, empenachada. Eu bebi gotas: digo, isto é, que ainda esperei mais. Como o Fafafa, de proposital – porque aqueles outros podiam recachar – retardava a ida avante, num meio-galope somente, muito enganador. A avistar melhor, quase trepei de todo na sela, meu animal cumprindo de não bulir, porque era cavalo consciencioso. Mas, enquanto isso, saiba o senhor o que foi que fiz! Que fiz o sinal-da-cruz, em respeito. E isso era de pactário? Era de filho do demo? Tanto que não; renego! E mesmo me alembro do que se

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas deu, por mim: que eu estava crente, forte, que, do demo, do Cão sem açamo, quem era era ele – o Hermógenes! Mas com o arrojo de Deus eu queria estar; eu não estava?!

Foi o instante de tempo que era o momento. Só chamei João Concliz: – “Agora é agora...” E joguei a rumo. – “Lá vai obra!” Meu cavalo saiu às cabeçadas. Todos atrás de mim, no arranque; e era o mundo mesmo. Gritei de sussus: – “Vale seis!

– e toma nove!...” – nas grimpas da voz... E eles meus, gritando tão feroz, que semelhavam sobrevindos sobre o ar. Menos vi.

Mas todo o todo do Tamanduá-tão se alastrou em fogo de guerra.

Suspenso – ouviu? – escapei, à de banda, com meu bom cavalo, repuxei as rédeas. Só assim permaneci, eu estava debaixo duma árvore muito galhosa; canjoão? Que pensei. E rompeu tiro, romperam, na polvorada. Até o capim dava assovio. E, por tudo se desejar de ver, tantamente demorava e ficava custoso, para em alguma justa coisa se afirmar os olhos. O que era feito grande mesa posta, cujos luxos motivos, por dizer, alguém puxa a toalha e, vai, derruba... Quem era que ia poder botar naquilo uma ordem, para um fim com vitória? E estralou bala... Repisei em minhas estribeiras, apertei as pernas nas espendas. Eu tinha

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de comandar. Eu estava sozinho! Eu mesmo, mim, não guerreei.

Sou Zé Bebelo?! Permaneci. Eu podia tudo ver, com friezas, escorrido de todo medo. Nem ira eu tinha. A minha raiva já estava abalada. E mesmo, ver, tão em embaralhado, de que é que me servia? Conservei em punho meu revólver, mas cruzei os braços. Fechei os olhos. Só com o constante poder de minhas pernas, eu ensinava a quietidão a Siruiz meu cavalo. E

tudo perpassante perpassou. O que eu tinha, que era a minha parte, era isso: eu comandar. Talmente eu podia lá ir, com todos me misturar, enviar por? Não! Só comandei. Comandei o mundo, que desmanchando todo estavam. Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.

Mais coragem que todos. Alguém foi que me ensinou aquilo, nessa minha hora? Me vissem! Caso que, coragem, um sempre tem poder de mais sorver e arcar um excesso – igual ao jeito do ar: que dele se pode puxar sempre mais, para dentro do peito, por cheio que cheio, emendando respiração... À fé, que fiz.

Se não vivei Deus, ah, também com o demo não me peguei –

refiro ; mas um nome só eu falava, fortemente falado baixo, e que pensado com mais força ainda. E que era: – Urutu Branco!...

Urutu Branco!... Urutu Branco!... Cujo era eu mesmo. Eu sabia, eu queria.

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas E quando a guerra para o meu lado relambeu, feito repentina labareda dum fogo. Uns vieram. E os tiros – deles, –

bala batia e rebatia. Cortavam capim do chão, que riscavam com punhado de terra. Tch’avam partes de ramos da árvore por cima de mim, e vagens do angico, que então reconheci por isso. Como quieto fiquei. Eu não era o chefe? Mesmo que uma carga de rifle se passou em meu chapéu-de-couro-de-vaca, e que outra, zoante, em meu jaleco raspou. A mil, que não movi mão, mas dei desprezo.

Mas, eu tivesse alargado braço e movido mão, para com tiros de meu revólver ripostar, e eu mal morto estava –

ponto que enquadrado de passantes balas, que rentes, até quentes. – Urutu Branco... – eu só relembrei, sussurrado ditoso, como quando com mocinha meiga se namora. Cachaças que em minha alegria. Em vento. E balas, mais, só; num enorme num minuto. Mas, bem: que, aluir dali, eu não aluía. Morresse – tive preguiça de pensar – mas, morresse, então morria três-em-pé, de valente: como o homem maior valente no mundo todo, e na hora mais alta de sua maior valentia! À fé, que foi. Dei em lagoa, de tão filho tranqüilo...

E, de arrepelo, tudo demudou. Aqueles torceram os cavalos, revertendo para se espraiarem por longe. Que era porque os de João Goanhá tinham se avindo de contornar, no cabo do

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mato, e cometiam urrando o grosso do inimigo, por detrás. –

“Fu!.Fiau!” – que se diz. Que tínhamos de percalçar e de vencer.

E aqueles dianteiros Hermógenes, que tinham vindo, campavam fuga, de batida. E um, do cavalo preto, que bobeou, o Paspe, o Sesfredo e o Suzarte foram nele, galopando num embolo! –

reformaram feia nuvem. E o corpo dele, no retém, foi jogado morto, se tangeu duro no ar, ressaltou: feito uma tábua... Assim um outro, se desatinando – João Vaqueiro, apeado, acertou nele diversas vezes. Esse recurvou – tatu e tal. Ele veio cair, perto exato de mim, ferido muito grave, conforme gemia. – “Desarma, mas não acaba de matar, mano-velho...” – a João Vaqueiro eu disse. Aquele homem inimigo derrubado jeremiava, cris, querendo enterrar as unhas na casca dum pau. O queixume que ele exprimia: que tinham mesmo de perder, por terem vindo com os cavalos deles tão sovados, e avante em surpresa tão contrária...

De tudo se espiolhava, suave praguejante, aí com três costelas derrotadas. Mas, água, ele pedia, cristão. Sede é a situação que é uma só, mesmo, humana de todos. Rebaixei o corpo e dei nas mãos dele a minha cabaça, quase cheia, e que era boa como um cantil. Rústico, fechei os olhos, para não me abrandar com pena das desgraças. Nem não escutei; que ouvido também se fecha.

No cavalo, eu estava levantado. Campo que me competia

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas comandar, dito. Tudo em mim, minha coragem: minha pessoa, a sombra de meu corpo no chão, meu vulto. O que eu pensei forte, as mil vezes: que eu queria que se vencesse; e queria quieto: feito uma árvore de toda altura!

Tiroteio fechava.

E o pessoal de Marcelino Pampa apareceu também, surgindo, para maior mal dos Hermógenes. Matamos neles.

Pegamos pelos lados. Confiro o que foi. O senhor – só se ouvia era carabina, repetindo. Fogo do Tamanduá-tão: o senhor saiba.

E, pá!, ainda no pior do meio, eu adivinhei sabendo: que meu comando tinha dado certo, e que dali a vau tudo estava já ganho, desfecho do fim desse final. Somente para colher o maduro, eu podia sobreviver. Sei que risquei – joguei de galope, em cima. Ao que vim, aonde que tudo se estardalhava. Dei gritos. Arte que abria no rifle; e matava. Donde era que estava o Hermógenes? A uivos, atrás duns, rompemos em linha na vereda. Todo buriti levou bala.

A mais, o inimigo não tinha o recurso de se apostar – por tanto que perdiam os cavalos. Advindo que o baixadão dali não dava esconderijos de mato para tocaia à jagunça. E os poucos foram os que pegar as distantes brenhas conseguiam, ou o cheio – 798 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas do capinzal, aonde não íamos desentocar ninguém. Aqueles deviam de estar de faca em fúria na mão, cobrejando; somente por meio de cachorros-mestres, afirmados em caça de gente, era que podiam ser pegos, o que não se tinha. Os mais, em desrédea, meteram doida fuga, enquanto mal pudessem, de debaixo de balaços. Menos de poucos passaram. Ao rascampo em viemos, soprando a perseguição. Tinha um valo, varamos um mato de lobeiras. Aí era para a banda das roças novas. Uns morrinhos; demos fogo. Uma tapera, outra tapera. Demos fogo. Poucos dos poucos deles escaparam. Os que desladeavam, caíam, por nossos esteiras. Era um relanço bem fatal...

Mas, um homem grande – que como pulou abaixo do cavalo grande, que baleado fora – alcançou jeito de correr, e encontrou uma cafua, em frente. Entrou. De lá, decerto, ia mandar bala. E então nós, a gente, todos, desistindo de mais longe perseguir os sobrantes, cercamos por completo aquela choupana, de regular distância, caçando jeito de entrincheiramen-to. Ia ser o terrível. Que quem era, aquele homem? – “Ah, o Ricardão!” – se gritava. E eu mesmo sabia. Determinei uma descarga. Cafua de buriti, que estremeceu, como que se entortando de lugar, arreganhada em partes. A gente atirando, atirando, com pouco ela ia desaparecer, desmanchada. Mas eu dei

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas ordem de paz. – “E adonde estará o Hermógenes, próprio?” – eu indaguei. Alguém soubesse. De se ter ouvido algum deles, ferido ou agarrado preso: que o Hermógenes não fazia parte atual daquele bando – mais acontecia de andar, com outros, muito adiantado dali, vinte léguas, avanço no poente. Mas, então? E

quase nossa gente toda já estava vinda, para apreciarem o derradeiro aprumo do Ricardão. Eu dei comando.- “Seô Ricardão, o senhor saia para fora!” – eu gritei, do protegido donde estava.

Ele não deu resposta. Daí: – “Pau de fogo, minha gente!”

– eu procedi. Pipocaram. Durante o que, a cafua começava nas últimas. Mas de dentro ninguém não ripostou; nem um tiro, nem. Ele estivesse morto? Não tinha munição? Esperei o engolir em seco três vezes. Daí, regritei: – “Seô Ricardão, o senhor se saia!...” E ele, no esquisito, respondeu: – “Vou sair!” –

com um grito natural. Enérgico, para o meu povo, eu ordenei muita paz. E o todo silêncio. Espiei.

Lá acolá, o homem abriu devagar os cacos de porta. Saiu, deu uns passos. Como vinha, alto, chapéu na cabeça, até meio sorridente. Não se esbugalhava. Assim estivesse pensando que ia ter julgamento? Achei que. E ele não estava ferido. Caminhou

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas mais. Sendo que – e, aí, foi minha idéia? – ah, não; mas vi que Diadorim, de ódio, ia pular nele, puxar faca. Só fiz fim: num tirte-guarte: atirei, só um tiro. O Ricardão arriou os braços, deu o meio do corpo, em bala varado. Como no cair, jogou uma sua perna para lá e para lá. Como caiu, se deitou. Se deitou, conforme quase não estivesse sabendo que morria; mas nós estávamos vendo que ele já morto já estava.

Acho deveras que todo o mundo respirou com suspiro.

Digo que esta minha mão direita, quase por si, era que tinha atirado. Segundo sei, ele devolveu Adão à lama. Só estas minhas artes de dizer – as fantasias...

– “Não enterrem este homem!” – eu disse.

A justiça. Mas, mesmo, como é que se ia poder enterrar a quantidade deles, mortos naquele dia?

Ao quando retornávamos para a Serra, eu ia olhava o céu, vez em quando. Primeiro urubu que passou – foi vindo dos lados do Sungado-do-A – esse se serenou bem, que me parecia uma amizade de aceno. Avoeje... Mas – o que ia suceder por diante!

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Somenos sei, e conto mal certo, o que os três dias foram, no seguinte. Se soalerte o senhor, que estamos descambando: o senhor mesmo se prepare; que para fim terrível, terrivelmente.

Eu podia? Como é que vou saber se é com alegria ou lágrimas que eu lá estou encaixado morando, no futuro?

Homem anda como anta: viver vida. Anta é o bicho mais boçal... E eu, soberbo exato, de minha vitória! Conforme prazia o dito do cego Borromeu, que não se entristecia: – “Ah, eu nunca botei em antes o nariz nestes campos...” Soscrevo. Mas, ele, o que carecia de querer saber, às vezes perguntava. Desses lugares, o divulgado natural, pedia pergunta. Aí, glosava: Macambira das estrelas,

quem te deu tantos espinhos?

Tibes! Eu, não. Ia demandar de outros o que eu mesmo não soubesse, a ser: nestes meus Gerais, onde eu era o sumo tenente? Não me respondiam. Ninguém mesmo ninguém. A gente vive não é caminhando de costas? Rezo. O que é, o que é: existível como fundo d’água. Agora eu cismo que o cego Borromeu também só do que já sabia era que indagava. Se não, se não, o senhor verse, como bula santa; a cita não é revelável:?

Macambira das estrelas,

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas xiquexique resolveu:

– Quixabeira, bem me queira,

quem te ama, Bem, sou eu...

Soletrei tudo. Assim ele cantava. Atrás, o menino Guirigó, se envelhecendo, sobre outro cavalo. E a mulher do Hermógenes, montada também, magra malvaz, como podia estar indo em cima duma nuvem. Ela desenrolava a cara, daquele xale verde, sem vexame nenhum, e o que espiava da gente era por riba do queixo. Quem sabe do orgulho, quem sabe da loucura alheia? Ela comia, ela bebia; em um tempo, prazida e moça, tinha se casado. Só com desgosto dos prazos da vida foi que enxerguei aquela mulher... Coisa dita não disse. A pois. O

dia estava por dado. Sol rachava os barros. A mulher, o menino e o cego – aqueles saíram, tocaram. Estavam por ordem minha trazidos do brugo do morro, mas sendo levados, sempre de guarda, para o arraial do Paredão: estipados com conduta de dez homens.

Esta é que era a razão: que o Hermógenes, da banda do poente, podia vir. Viesse feito! Como que estavam engrossados com quantidade de bandidos jagunços – se soube – e alguns daqueles, escapes com vida do Tamanduá-tão, já devia de ter ido

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas a ele, levasse aviso. Soltei a faro meus vigiadores – para ter as distâncias vindo medidas. Ah, mas, demeio a parte-do-poente e o Paredão, a passagem certa era um lugar muito plausível, no morro, e que se chamava o Cererê-Velho. Aonde fomos.

Estugados, em boa marcha. Até que o mormaço bateu as asas. Deu trovão, com ventos trapes. Dizendo todos, disso, que ia breve chover – para minha desvantagem. Em beira do mato, no Cererê-Velho, se trabalhou com facão em ramagem e cipó, armando tipóias e latadas. Como que melhorou a experiência do tempo, adiando; esbarrou o vento rufado. Mas aquele trabalho nosso era carecido, folgar não se pôde; nem para palavra minha com Diadorim, que era de todo dia; conforme bem alembro.

Noitou. Conforme fui dormir, recansado de falfa. Dormir por pouco. Conforme foi, e que o meu espírito não queria. Que, de repente, acordei.

Madrugada de meia-noite. A lua já estava muito deduzida, o morro e o mato misturados. Relanceei em volta. Todo o mundo dormindo. Só o chochorro mateiro, que sai de debaixo dos silêncios, e um ô-ô-ô de urutau, muito triste e muito alto. Depois, ouvi o uivado inteiro dum cão. Os companheiros todos dormindo, acordado só eu, alevantado de noite. Pesou por diante

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas de meu coração. Devi àquele cão mal-uivante? Idéia tristezinha, que me veio. Por que era que só eu tinha acordado, desoras, tão antes de todos?

Mas eu mesmo queria prosperar de olhos abertos, carecia.

O que produzia, era eu agüentar até passar o arrocho no coração.

Deus que me punia – que hora tem – ou o demo pegou a regatear? E entendi que podia escolher de largar ido meu sentimento: no rumo da tristeza ou da alegria – longe, longe, até ao fim, como o sertão é grande...

Arte que espiei arriba, levei os olhos. Aquelas estrelas sem cair. As TrêsMarias, o Carretão, o Cruzeiro, o Rabo-de-Tatu, o Carreiro-de-São-Tiago. Aquilo me criou desejos. Eu tinha de ficar acordado firme. Depois, daí, vi o escuro tapar, de nuvens.

Eu ia esperar, fazendo uma coisa ou outra, até o definitivo do amanhecer, para o sol de todos. Ao menos achei de tirar, do tôo da noite, esse de-fim, canto de cantiga: Remanso de rio largo...

Deus ou o demo, no sertão...

Amanheceu com chuva. Mundo branco, rajava. Deu raio, deu trovão, escorremos água; e tudo que se pensou ou se fez foi em montes de lama. Diz o senhor, sim: assim é dia-de-véspera?

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas Receio meu era só pela fuga de cavalos. Escapulissem – eles sabem como o Gerais é espaçoso; como no Gerais tem disso: que, passando noite tão serena, desse de manhã o desabe de repente daquela chuva... E igual, de feito, que antes do meio-dia estiou, calibre que ventava. Sol saído; e é ligeiro, a gente vendo, que essa areia seca seus estados... Medi horas. Só o cruzo de meus cavaleiros, amontados todos, enchendo e povoando o saco-de-campo, como abelhas na umburana... Surjo que sabiam o que não sabiam: eles estavam desinquietos em modos.

E os vigieiros chegando, conforme voltavam da espiação, mesmo molhados ensopados. Um disse: – “Por longe, não estando viajando para cá... Só se com retardo...” Adonde estava o Hermógenes? O céu botava mais nuvens. Daí, outro: – “Deles, nada...” E eu expedi ainda outros: que saíssem e fossem e vissem, mais mestres, batessem aquelas beiradas de maior mundo. Que modo que senseei, do vazio do tempo em redor – e que eu entredisse: – “O Sertão vem?” Vinha. Trinquei os dentes. Mordi mão de sina. Porque era dia de antevéspera: mire e veja. Mas isso, tão em-pé, tão perto, ainda nuveava, nos ocultos do futuro.

Quem sabe o que essas pedras em redor estão aquecendo, e que em uma hora vão transformar, de dentro da dureza delas, como pássaro nascido? Só vejo segredos. Mas que o inimigo já estava – 806 –

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas aproximado, eu pressenti: se sabe, pela aperreação do corpo, como que se querendo ter mais olhos; e até no que-é do arraigado do peito, nas cavas, nas tripas. O Hermógenes estava para arremeter, de rancor, se mexendo nos escuros. A guerra estava aprazada em batalha, ali no CererêVelho? Mas meus homens, os troados brabos jagunços, por uma palavra minha desatribulados, agora ao ar que esperavam por mim.

E aí foi quando veio o Suzarte, que desde depois do Tamanduá-tão tinha saído enviado até mais longe, para espreitar e espiar, como cachorro correndo os ventos. Chegou, parecia galopando num cavalo já morto. Esbarrou. O cavalo baio, como desmanchado – que arqueava triste as pernas dianteiras –

descansou tudo no chão, que da boca e das ventas ajorrava sangue: rebentado dos estômagos e dos peitos. Mas o Suzarte, que antes do ranger-sela já tinha escapado os pés das estribeiras e pulado solerte no chão, tomou um átimo, e relatou: – “Eles estão.” E – para o resto – ele apontou com o dedo.

O Hermógenes, mor maldito! Ele vinha errado de mim, os Hermógenes, eles. Davam arte de contornar da banda do norte, às tantas. O Suzarte tinha avistado, no dia antes, o movimento dos vigias costaneiros, e definido, de remoto, o corpo do bando:

Continuar: parte 2 de 3