Helena
Capitulo VIII
D. Ursula tinha ja confiado ao velho capellão a proposta de Camargo. Consultado por Estacio, respondeu este que sua opinião era absolutamente inutil.
—Consulte suas fôrças e a responsabilidade do cargo, e escolha, concluiu o padre.
—Ja escolhi, disse Estacio; pedia seu conselho para apoiar melhor a minha propria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não acceito a candidatura. A vida política é turbulenta de mais para o meu espirito. Estou prompto para a acção, mas não hade ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar á camara, além de algumas prerogativas e um papel accessorio? Eu só me meteria na política, se pudesse officiar; mas ser apenas sachristão...
—Entre o officiante e o sachristão, observou Melchior, está o prégador, que é cargo nobre e influente.
—Mas o thema do sermão, padre-mestre?—retorquiu Estacio rindo; falta-me o thema.
D. Ursula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do sobrinho, viu naquellas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que reflectisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estacio prometteu como promettêra ao médico, por simples condescendencia; mas sobretudo para pôr termo ao assumpto e ir saber a causa do sorriso quasi imperceptivel que viu roçar os labios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janellas; Estacio foi até alli.
—Adivinhei pelo seu sorriso,—disse elle, que tudo isto lhe pareço pueril, e que eu faço bem em não acceitar o que se me offerece.
Helena olhou um pouco espantada para elle; mas respondeu com tranquillidade:
—Pelo contrário, penso que deve acceitar. Além de haver consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugenia.
Era a primeira vez que Helena alludia ao amor de Estacio, e fazia-o por modo encoberto e obliquo. Estacio escapou dessa vez á regra de todos os corações amantes: resvalou pela allusão e discutiu gravemente o assumpto da candidatura. Era pesado de mais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dous passarinhos que bailavam no ar, e Estacio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.
Durante dous dias, não sahiu elle de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou uma parte do tempo em os folhear, ler alguma página, collocal-os nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliophilo. Helena ajudava-o nesse trabalho,—um pouco parecido com o de Penelope,—por que a ordem estabelecida ao meio dia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estacio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ella o auxiliava. Helena parecia não andar; seu vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo a uma indicação do irmão, ou pondo em experiencia uma ideia sua. Estacio parava às vezes fatigado; ella continuava imperturbavelmente o serviço. Se elle lhe fazia alguma observação, a moça respondia com um movimento de hombros ou um sorriso, e proseguia. Então Estacio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
—Socega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a reciproca affeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.
No terceiro dia D. Thomasia e Eugenia foram jantar a Andarahy. Eugenia estava nesse dia mais sisuda e docil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que elle. Estacio sentiu-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Poderam falar sosinhos mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ella quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Thomasia. O desejo de Eugenia era pela affirmativa; e Estacio, receioso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assumpto.
—Deputado! exclamava Eugenia com os olhos no ceu.
Estacio acompanhou Eugenia e D. Thomasia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fôra mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavallos mostravam-se tão lepidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgôsto de Eugenia.
Voltando a Andarahy, Estacio trazia a alma pura de todas as más impressões, que lhe deixavam usualmente as visitas á casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquelle dia. Eugenia parecia modificada. Em casa esperava-o porém uma desagradavel noticia: a tia sentira-se incommodada pouco depois que elle sahíra e recolhera-se ao quarto. O caso affligiu-o; mas não tardou a apparecer Helena, que o tranquilisou, dizendo-lhe que D. Ursula tinha apenas uma forte dor de cabeça, ja diminuida com o emprêgo de um remedio cazeiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia socegadamente, Estacio abriu uma das janellas do quarto e relanceou os olhos pela chacara. A alguns passos de distância, entre duas larangeiras, viu Helena a ler attentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escriptas. Seria alguma mensagem amorosa?
Ésta ideia molestou-o singularmente. Affastou-se da janella, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pe, no mesmo logar, e percorria rapidamente as linhas, até o final da ultima página. Alli chegando, deu dous passos, tornou a parar volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não ja depressa, mas repousadamente. Estacio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, á qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciume. A ideia de que Helena podia repartir seu coração com outra pessoa desconsolava-o ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou elle, nem tentou investigal-a; sentiu-lhe somente os effeitos, e ficou alli sem saber que faria. Duas vezes sahiu da janella para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas as vezes, reflectindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez, tyrania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, sahiu do quarto e dirigiu-se á chacara.
Quando alli chegou, Helena passeava lentamente com os olhos no chão. Estacio parou deante della.
—Ja fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instinctivamente a amarrotou como para escondel-a melhor. Estacio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.
—Nota verdadeira, disse ella alisando tranquillamente o papel, e dobrando-o conforme recebêra; é uma carta.
—Segredos de moça?
—Quer lel-a? perguntou Helena apresentando-lh'a.
Estacio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A innocencia não teria mais puro rosto; a hypocrisia não encontraria mais impassivel máscara. Estacio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cocegas; seu olhar ambicionava ser como o da Providencia que penetra nos mais intimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Ursula lhe pedia fôsse ter com ella. Estacio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquerito mental sôbre a procedencia da mysteriosa missiva. Um indicio havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ella a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do collegio, que lhe confiava segredos seus? Estacio abraçou com alvorôço ésta hypothese. Depois, occorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idyllio de collegio, em que Helena fosse protagonista, idyllio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha elle com isso?
Fazendo ésta ultima reflexão, Estacio sacudiu do espirito o assumpto e seguiu a examinar as novas obras da chacara, entre as quaes figurava um vasto tanque. Ja alli estavam os operarios; ia começar o trabalho do dia. Estacio viu a obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação, Estacio rectificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que alias dous dias antes mandara remover; emfim recommendou a rega de uma planta, ainda humida da agua que o feitor lhe deitára nessa manhã.
D. Ursula não estava de todo boa, mas pôde almoçar á mesa commum. O sobrinho appareceu aborrecido; a sobrinha triste; o dialogo foi mastigado como o almôço. No fim deste, recebeu Estacio uma carta de Eugenia. Era uma tagarelice meia frivola, meia sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objecto definido, a não ser pedir-lhe que escrevesse, se não pudesse ir vel-a.
Acabava elle de ler a carta, quando Helena lhe appareceu á porta do gabinete. Não a escondeu; teve um pensamento singular: mostral-a à irmã, na esperança de que ésta, pagando-lhe com egual confiança, lhe mostrasse a sua,—ideia que revellava o seu nenhum conhecimento do espirito das mulheres, porquanto só a indiscrição masculina era capaz de cahir em semelhante laço. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugenia e esteve algum tempo silenciosa.
—Permitte-me um conselho? perguntou ella.
E como Estacio respondesse com um gesto de assentimento:
—Va ter com Eugenia, solicite licença para ir pedil-a a seu pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que se amam? della creio poder affirmar que sim; de voce...
—De mim?
—Penso que é mais duvidoso; ou voce é mais habil. Hade ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar,—isto é, a cousa mais natural do mundo,—a mais bella,—não direi a mais sublime. Os homens serios tem preconceitos extravagantes. Confesse que ama,—que não é indifferente a esse sentimento inexprimivel que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas creaturas humanas.
—Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estacio.
E éstas quatro palavras tão naturaes e tão communs tinham ares de uma revellação nova no estado de espirito em que elle se achava. Se Helena tivesse proposito de lhe lançar a perplexidade na alma não empregaria mais efficaz conceito. Sería na verdade aquelle amor tão travado de desanimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu proprio coração, seria uma affeição destinada a perecer no occaso da primeira lua matrimonial?
—Pois bem, concordou elle, ao cabo de alguns instantes; é verdade. Eugenia não me é indifferente; mas poderei estar certo dos sentimentos della? Ella mesma poderá affirmar alguma cousa a tal respeito? Ha alli muita frivolidade que me assusta; illude-a talvez uma impressão passageira.
—Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fara a mulher. Convenho que Eugenia não tem todas as qualidades que voce desejaria; mas não se póde exigir tudo; alguma cousa é preciso sacrificar, e do sacrificio recíproco é que nasce a felicidade doméstica.
As reflexões eram exactos: por isso mesmo Estacio as interrompeu. O filho do conselheiro achava-se n'uma posição difficil. Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao abril-os viu-se á beira de uma cousa que lhe pareceu abysmo, e era simplesmente um fôsso estreito. De um pulo poderia transpol-o; mas, se não era irresoluto nem debil, tinha elle acaso vontade de dar esse salto?
Insistindo Helena, prometteu elle que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A fôrça do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cahir com a mesma violencia; era impossivel ir ao Rio Comprido. Estacio estimou aquelle obstaculo; era melhor adorar de longe a imagem da moça do que ir colhêr algum desgôsto juncto della.
De pe, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via elle cahir os grossas toalhas de agua. A seu lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancholica.
—É tão bom ver chover quando estamos abrigados, exclamou elle. Tenho la na estante um poeta latino que diz alguma cousa neste sentido... Que tem voce?
—Estou pensando nos que não tem abrigo, ou o tem mau; nos que não tem neste momento nem tectos solidos nem corações amigos ao pe de si.
A voz da moça era trémula; uma lagryma lhe brotou dos olhos, tão rapida que ella não teve tempo de a dissimular. Sorprehendida nessa manifestação de sensibilidade, inexplicavel talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma cristalisação da lagryma; e o gracejo tinha ares do responso. Estacio não se illudiu; nada daquillo era claro,—ou era tão claro como a carta. Seu olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que tivera tempo de tranquillisar-se, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na vidraça.