Helena

Machado de Assis · Capítulo 20 de 29

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Helena

Capitulo XX


A visita de Estacio não causou nenhum espanto a Mendonça; elle a esperava com a confiança das indoles ingenuas e avessas ao odio. Não era crivel que um amigo de longos annos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estacio procurou o pretendente de Helena.

Entrou elle naturalmente em casa de Mendonça; sem expansão nem secura. A entrevista foi breve, mas cordial; houveram-se os dous com affectuosa dignidade. Estacio explicou seus escrupulos; declarou-se contente com a alliança. O contentamento podia existir; todavia a manifestação foi parca e sêcca. Houve mais calor e expansão quando elle lhe pediu que désse vida feliz á irmã.

—Sera para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse elle. Não tivemos o mesmo berço; vivemos nossa infancia debaixo de tecto differente; não aprendemos a falar pelos labios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pae recommendou-a a nossa familia e ella correspondeu ao sentimento que dictou essa ultima e solemne vontade.

Mendonça nas respondeu nada; elle reflectira durante a noite nas palavras que ouvira a Estacio no dia anterior;—palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem de seu casamento. Helena viria a amal-o, talvez; mas desde logo lhe levava para casa a chave da independencia. Mendonça recuou. Quando o padre Melchior o soube, não pode conter um gesto de admiração; mas se louvou o escrupulo, não approvou a resolução, que vinha derrubar tudo.

—Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; elles acharão meio de envenenar sua propria generosidade.

—Paciencia! tornou o moço; é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço uma operação vantajosa; talvez sua familia o supponha; talvez ella propria o pense.

Helena teve noticia dos receios de seu pretendente e da resolução a que parecia inclinar o coração. Foi a elle; perguntou-lhe se era verdade. Mendonça affirmou que sim. Ella contemplou-o longamente sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com effusão; elle persistiu.

No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice,—dessa que rara vez deixa de enfeitar os mais puros e nobres sentimentos. A moça o percebeu, mas nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Creu; tentou dissuadil-o; e posto nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que triumpharia afinal do derradeiro obstaculo. Seus olhos seriam mais habeis e felizes que os labios do padre. Foi o que ella disse ao capellão.

—Tomo á minha conta effectuar este casamento, continuou Helena.

—Resolvida a tudo?

—A tudo.

—Mas se elle insistir...

—Se elle insistir, vencel-o-hei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser noiva vale por um exercito; eu sou um exercito.

—Muito bem! Contudo, sua dignidade.

—Oh! em último caso abro mão da herança.

—Era capaz disso? perguntou Melchior.

—Se era capaz? Desejo-o até,—disse a moça com vehemencia.

E accrescentou em tom mais brando:

—Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a minima desconfiança.

Tal era a situação, dous dias depois da volta de Estacio. O casamento podia contar-se feito. Mendonça não resistiu ao nobre desinteresse de Helena. D. Ursula approvou tudo com effusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos ultimos dias.

Na noite desse dia, Estacio escreveu para Cantagallo dando notícias suas. Do casamento de Helena falou pouco; quasi nada. Tudo o descontentava: tanto o que elle fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera oppor-se com efficacia nem applaudir opportunamente.

Posto fôsse tarde o somno teimava em fugir-lhe dos olhos e elle velou até muito além de meia noite. Occupado, sem dúvida em adormecer organisações menos sensiveis e existencias menos complicadas, o somno fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas de manhã, Estacio accordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quasi toda a familia dormia. Estacio desceu; o unico escravo que achou levantado preparou-lhe uma chicara de cafe. Não tendo ainda chegado os jornaes, bebeu-a sem a leitura do costume.

Quem sabe o que é fortuito ou providencial, e por que fios tenues se prendem muitas vezes os acontecimentos humanos? Estacio ouviu o som longinquo de um tiro; era algum caçador, talvez; a supposição deu-lhe ideia de ir caçar. Elle não era um Nemrod na habilidade, mas era-o na vocação. Foi buscar a espingarda, proveu-se de polvora e chumbo, e sahiu.

Se a habilidade não era muita, parecia ter ainda diminuido naquella manhã, ou por que a mão estivesse menos firme, ou por que a vista andasse menos segura. Estacio caminhára longo tempo sem pensar no fim que o levava; ia absorto,—alheio ao logar e ás cousas. Fez algumas tentativas de caça; mas deixou de mão o recreio. Quando cançou de errar, consultou o relogio e viu que não era cedo. Tinha o braço cançado de suster a espingarda; só então reparou que uso trouxera cm pagem consigo. Dispoz-se a voltar. Vendo uma parasita, colheu-a com a intenção de a dar a Helena, como seu primeiro presente de nupcias. Depois desceu, em caminho para casa.

Vinha descendo, com a espingarda debaixo do braço, e os olhos no chão, a passo lento, apezar de serem oito horas dadas. De uma vez que ergueu os olhos viu um caso extranho que lhe fez deter o passo. Um pouco abaixo, sahia de traz de uma casa velha, o pagem de Helena, conduzindo a mola e a egua. Estacio não soube que pensar daquillo; mas, cedendo a um impulso que não pôde dominar, deu um salto por cima de uma cêrca do espinhos, agachou-se e esperou o resto.

O resto não se demorou muito. Assomou á porta da frente a figura de Helena. Depois de olhar cautellosamente para um e outro lado, sahiu e montou na egua; o pagem cavalgou a mula e os dous desceram a trote.

Estacio sentiu uma nuvem cobrir-lhe os olhos; ao mesmo tempo apertava o primeiro objecto que achou debaixo das mãos; era a cêrca de espinhos. A dor fel-o voltar a si; tinha a mão ensanguentada. Ao longe cavalgavam Helena e o pagem. Logo que os viu desaparecer, Estacio saltou de novo á estrada. Sem resolução nem plano, caminhou em direcção á casa d'onde vira sahir a irmã. Era a mesma da bandeirinha azul, que Helena comprimentá-la de longe, alguns mezes antes, e não esquecera de reproduzir na paisagem que dera ao irmão, no dia dos annos delle. Estas circumstâncias, antes indifferentes, appareciam-lhe agora como outros tantos artigos de um libello.

O prédio parecia ainda mais velho do que a primeira vez que o vira; a caliça das paredes e das columnas ia cahindo, e o esqueleto de tijolo estava a nu em mais de um logar. Alguma herva mofina brotava a custo juncto ás paredes, cobrindo com suas folhas descoloridas o chão desegual e humido. Por baixo de uma das janellas havia um banco de pau, gretado pelo tempo, com as bordas roliças do longo uso. Tudo alli respirava penuria e senilidade.

—Não, dizia Estacio consigo, não é este o asylo de um Romeo de contrabando. Mora aqui alguma familia pobre, que a caridade engenhosa de Helena vem afagar de longe em longe.

A solução do enigma pareceu-lhe tão natural, que o moço resolveu parar a meio da aventura, e chegou a dar alguns passos para traz. Mas a suspeita é a tenia do espirito; não perece em quanto lhe resta a cabeça. Estacio sentiu o desejo imperioso de indagar o que aquillo era, e voltou sôbre seus passos. Para entrar alli era necessario um motivo ou ura pretexto. Procurou algum; a aventura dera-lhe o melhor de todos. Olhou para a mão ferida e ensanguentada, e foi bater á porta.