Helena

Machado de Assis · Capítulo 2 de 29

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Helena

Capitulo II


No dia seguinte foi aberto o testamento com todas as formalidades legaes. O conselheiro nomeava testamenteiros Estacio, o Dr. Camargo e o padre Melchior. As disposições geraes nada tinham que fôsse notavel: eram legados pios ou beneficentes, lembranças a amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela de seus parentes.

Uma disposição havia, porém, verdadeiramente importante. O conselheiro declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida em D. Angela da Soledade. Ésta menina estava sendo educada em um collegio de Botafogo. Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a familia, a quem o conselheiro instantemente pedia que a tratasse com desvello e carinho, como se de seu matrimonio fôsse.

A leitura desta disposição causou natural espanto á irmã e ao filho do finado. D. Ursula nunca soubéra de tal filha. Quanto a Estacio ignorava menos que a tia. Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pae; mas tão vagamente que não podia esperar aquella disposição testamentária.

Ao espanto succedeu em ambos outra e differente impressão. D. Ursula reprovou de todo o acto do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos naturaes o licenças juridicas, o reconhecimento de Helena era um acto de usurpação e um péssimo exemplo. A nova filha era, em seu entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinhão da herança e deixal-a á porta. Recebel-a, porém, no seio da familia e de seus castos affectos, legitimal-a aos olhos da sociedade, como ella estava aos da lei, não o entendia D. Ursula, nem lhe parecia que alguem podesse entendel-o. A aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe occorreu a origem possivel de Helena, Nada constava da mãe, além do nome; mas essa mulher quem era? em que atalho sombrio da vida a encontrára o conselheiro? Helena seria filha de um encontro fortuito entre duas voluptuosidades, ou nasceria de algum affecto, irregular embora, mas verdadeiro o unico? A éstas interrogações não podia responder D. Ursula; bastava porém, que lhe surgissem no espirito, para lançar nelle o tedio e a irritação.

D. Ursula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma página de catecismo; mas o acto final bem podia ser a reparação de leviandades amargas. Essa atenuante não a viu D. Ursula. Para ella, o principal era a entrada de uma pessoa extranha na familia.

A impressão de Estacio foi muito outra. Elle percebêra a ma vontade com que a tia recebêra a noticia do reconhecimento de Helena, e não podia negar a si mesmo que semelhante facto creava para a familia uma nova situação. Contudo, qualquer que ella fôsse, uma vez que seu pai assim o ordenava, levado por sentimentos de equidade ou impulsos da natureza, elle a acceitava tal qual, sem pezar nem reserva. A questão pecuniaria pezou menos que tudo no espirito do moço; não pezou nada. A occasião era dolorosa de mais para dar entrada a considerações de ordem inferior, e a elevação dos sentimentos de Estacio não lhe permittia inspirar-se dellas. Quanto á camada social a que pertencia a mãe de Helena, não se preocupou muito com isso, certo que elles saberiam levantar a filha até á classe a que ella ia subir.

No meio das reflexões produzidas pela disposição testamentária do conselheiro, occorreu a Estacio a conversa que tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era aquelle o ponto a que alludíra o médico. Interrogado acerca de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do conselheiro:

—Aconteceu o que eu previa, um êrro, disse elle. Não houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha é um excesso de ternura, muito bonito; mas pouco prático. Um legado era sufficiente; nada mais. A estricta justiça.

—A estricta justiça é a vontade de meu pae, redarguiu Estacio.

—Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia sel-o á custa de direitos alheios.

—Os meus? Não os allego.

—Se os allegasse seria pouco digno de memoria delle. O que está feito, está feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa familia e affectos de familia. Persuado-me que ella sabera corresponder-lhes com verdadeira dedicação...

—Conhece-a? inqueriu Estacio, cravando no médico uns olhos impacientes de curiosidade.

—Via-a tres ou quatro vezes disse este no fim de alguns segundos; mas era então muito creança. Seu pae fallava-me della como de pessoa extremamente affectuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.

Estacio desejára ainda saber alguma cousa ácerca da mãe de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas indagações. Como os filhos de Noé, lançou uma capa sobre a nudez de seu pae, e tentou encarreirar a conversa para outro assumpto. Camargo, entretanto, insistiu:

—O conselheiro falou-me algumas vezes no projecto de reconhecer Helena; procurei dissuadil-o, mas sabe como elle era obstinado ás vezes em suas resoluções, accrescendo neste caso o natural impulso de amor paterno. O nosso ponto de viste era differente. Não me tenho por homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade não póde usurpar o que pertence á razão.

Camargo proferiu éstas palavras no tom sêcco e sentencioso, que tão natural e sem exforço lhe sabia. A velha amizade delle e do finado era sabida de todos; a intenção com que fallava podia ser hostil á familia? Estacio reflectiu algum tempo no conceito que acabava de ouvir ao médico, curta reflexão, que por nenhum modo lhe abalou a opinião ja assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como o espirito que os animava, pousaram benevolamente no interlocutor.

—Não quero saber—disse elle,—se ha excesso na disposição testamentária de meu pae. Se o ha, é legitimo, justificavel pelo menos; elle sabia ser pai; seu amor dividia-se inteiro. Receberei essa irmã, como se fôra creada commigo. Minha mãe faria com certeza a mesma cousa.

Camargo não insistiu. Sôbre ser exforço baldado dissuadir o moço daquelles sentimentos, que aproveitava ja agora discutir e condemnar theoricamente a resolução do conselheiro? Melhor era executal-a lealmente, sem hesitação nem pezar. Isso mesmo declarou elle a Estacio, que o abraçou cordialmente. O médico recebeu o abraço sem constrangimento, mas sem fervor.

Estacio ficára satisfeito comsigo mesmo. Seu caracter vinha mais directamente da mãe que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a unica paixão forte que realmente teve, a das mulheres, não lhe acharemos, nenhuma outra saliente feição. A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume que da consistencia dos affectos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou occasião de experimentar a propria têmpera. Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.

A mãe de Estacio era differente; possuíra em alto grau a paixão, a ternura, a vontade, uma grande elevação de sentimentos, com seus toques de orgulho,—daquelle orgulho que é apenas irradiação da consciencia. Vinculada si um homem que, sem embargo do affecto que lhe tinha, despendia o coração em amores adventicios e passageiros, teve a fôrça de vontade necessaria para dominar a paixão e encerrar em si mesma todo o resentimento. As mulheres que são apenas mulheres choram, arrufam-se ou resignam-se; as que tem alguma cousa mais do que a debilidade feminina lutam ou recolhem-se á dignidade do silêncio. Aquella padecia, é certo, mas a elevação de sua alma não lhe permittia outra cousa mais do que um procedimento altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial da sua organisação, concentrou-a toda naquelle unico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro de suas robustas qualidades.

Estacio recebêra affectivamente de sua mãe uma boa parte destas. Não sendo grande talento, deveu á vontade e á paixão do saber a figura notavel que fez entre seus companheiros de estudos. Entregara-se á sciencia com ardor e afinco. Aborrecia a política; era indifferente ao ruido exterior. Educado á maneira antiga o com severidade o recato, passou da adolescencia á juventude sem conhecer as corrupções de espirito nem as influências delecterias da ociosidade; viveu a vida de familia, na edade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em cousas infimas a virgindade das primeiras sensações. Dahi veiu que aos dezoito annos conservava elle tal ou qual timidez infantil, que só tarde perdeu de todo. Mas se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade não incompativel com os verdes annos e muito propria de organisações como a delle. Na política seria talvez meio caminho andado para subir aos cargos publicos; na sociedade, fazia com que lhe catassem respeito, o que o levantava a seus proprios olhos. Convem dizer que não era essa gravidade aquella cousa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas asseveram ser quasi sempre um symptoma de espirito chocho; era uma gravidade jovial e familiar,—egualmente distante da frivolidade e do tedio, uma compostura do corpo e do espirito, temperada pelo viço dos sentimentos e pela graça das maneiras, como um tronco rijo e recto adornado de folhagens e flores. Junctava ás outras qualidades moraes uma sensibilidade, não feminil e doentia, mas sobria e forte; aspero comsigo, sabia ser terno e mavioso com os outros.

Tal era o filho do conselheiro; e se alguma cousa ha ainda que accrescentar é que elle não cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a edade e a classe em que nascêra. Elegante e polido, obedecia á lei do decoro pessoal, ainda nas menores partes della. Ninguem entrava mais correctamente n'uma sala; ninguem saia mais opportunamente. Ignorava a sciencia das nugas, mas conhecia o segrêdo de tecer um comprimento.

Na situação creada pela clausula testamentária do conselheiro, Estacio aceitou a causa da irmã, a quem ja via, sem a conhecer, com olhos differentes dos de Camargo e D. Ursula. Esta communicou ao sobrinho todas as impressões que lhe deixára o acto do irmão. Estacio procurou dissipar-lh'as; repetiu as reflexões oppostas ao médico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira vontade de um morto.

—Bem sei que não ha ja agora outro remedio mais que aceitar essa menina e obedecer ás determinações solemnes de meu irmão, disse D. Ursula quando Estacio acabou de falar. Mas só isso; dividir com ella os meus affectos não sei que possa nem deva fazer.

—Comtudo, ella é do nosso mesmo sangue.

D. Ursula ergueu os hombros como repellindo semelhante consanguinidade. Estacio insistiu em trazel-a a mais benevolos sentimentos. Invocou, além da vontade, a rectidão do espirito de seu pae, que não havia dispor uma cousa contrária á boa fama da familia.

—Além disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que meu pae a legitimou, convem que não se ache aqui como engeitada. Que aproveitariam os com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida interior. Vivamos na mesma communhão de affectos; e vejamos em Helena uma parte da alma de meu pae, que nos fica para não desfalcar de todo o patrimonio commum.

Nada respondeu a irmã do conselheiro. Estacio percebeu que não mudára os sentimentos da tia, nem era possivel consegui-lo por meio de palavras. Confiou do tempo essa tarefa. D. Ursula ficou triste e só. Apparecendo Camargo dahi a pouco, ella confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o médico interiormente approvava.

—Conheceu a mãe della? perguntou a irmã do conselheiro.

—Conheci.

—Que especie de mulher era?

—Fascinante.

—Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...

—Não sei; no tempo em que a vi não tinha classe e podia pertencer a todas; demais, não a tratei de perto.

—Doutor, disse D. Ursula, depois de hesitar algum tempo;—que me aconselha que faça?

—Que a ame, se ella o merecer, e se puder.

—Oh! confesso-lhe que me ha de custar muito! E merece-lo-ha? Alguma cousa me diz ao coração que essa menina vem complicar a nossa vida; além disso, não posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro...

—Seu sobrinho aceita as cousas philosophicamente e até com satisfação. Não comprehendo a satisfação, mas concordo que nada mais ha do que cumprir textualmente a vontade do conselheiro. Não se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer. O que lhe digo é que a trate com benevolencia; e caso sinta em si algum affecto, não o suffoque; deixe-se ir com elle. Ja agora não se póde voltar atraz. Infelizmente!

Helena estava a concluir seus estudos; semanas depois determinou a familia que ella viesse para casa. D. Ursula recusou a princípio ir buscal-a; convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbencia depois de alguma hesitação. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para ser a moça transladada a Andarahy. D. Ursula metteu-se na carruagem, logo depois de jantar. Estacio foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na chacara deu com os olhos nas janellas do quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia alguem dentro. Pela primeira vez sentiu Estacio a extranheza da situação creada pela presença daquella meia-irmã e perguntou a si proprio se não era a tia quem tinha razão. Expelliu pouco depois esse sentimento; a memoria do pae restituiu-lhe a benevolencia anterior. Ao mesmo tempo, a ideia de ter uma irmã sorria-lhe ao coração como promessa de venturas novas e desconhecidas. Entre sua mãe e as demais mulheres, faltava-lhe essa creatura intermediaria, que elle ja amava sem conhecer, e que que seria a natural confidente de seus desalentos e esperanças. Estacio contemplou longo tempo as janellas; nem o vulto de Helena appareceu alli, nem elle viu passar a sombra da habitante nova.