Helena

Machado de Assis · Capítulo 15 de 29

Páginas do PDF

Helena

Capitulo XV


Estacio levantou-se ao amanhecer. Uma vez prompto, quiz sorprehender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu n'uma folha de papel éstas simples palavras: «Até á volta; 6 horas da manha.» Dobrou-a e foi pol-a sôbre a mesa de costura de D. Ursula. Dalli passou á sala de jantar, depois á varanda. Aqui chegando deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pe da escada.

—Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos que póde accordar titia. Vim saber se voce precisa de alguma cousa.

—De nada, respondeu Estacio commovido. Mas que imprudencia foi essa de se levantar tão cedo?

—Cedo! O sol não tarda comprimentar-nos. Adeus! muitas recommendações a Eugenia. Não lhe falta nada, não é?

—Nada.

Estacio recebeu a mão que Helena lhe estendêra e ficou a olhar para ella.

—Olhe que é tarde!

Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estacio reteve-a.

—Se soubesses como me custa ir!

—São apenas alguns dias...

—Valem por mezes, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudencias; não saias a passeio em quanto eu estiver ausente.

—Adeus!

—Adeus!

Estacio quiz dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fel-o recuar.

—Não, disse ella affastando-se; as despedidas mais longas são as mais difficeis de supportar.

Recuou até á porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estacio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sahir; depois subiu cautellosamente ao seu aposento. Alli sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; collocou o chapellinho preto sôbre os cabellos penteados á ligeira, e desceu. Na chacara esperava-a Vicente, com a egua ajaezada e prompta. Helena montou sem demora; o pagem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavallariça e os dous sahiram a trote na direcção da casa do alpendre e da bandeira azul.

A casa estava ainda silenciosa; porta e janellas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguem lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas parece que achou egualmente fechadas as portas do fundo, por que volveu logo. Collou o ouvido á porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esfôrço, tirou da algibeira um lapis e um pedacinho de papel; collocou o pe no degrau de tijolo e sôbre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a egua, montou e regressou a casa.

Vinha triste e pensativa. A egua, a passo vagaroso, não sentia o esfôrço da cavalleira, que a deixava ir, frouxa a redea, inutil o chicote. O pagem levava os olhos na moça com um ar de adoração visivel; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a complicidade, fumava um grosso charuto havanez, tirado ás caixas do senhor.

D. Ursula não estava ainda levantada; mas Helena não lhe occultou o passeio. O dia correu triste e solitario, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer ás duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estacio as recommendára, era alli pontual; seu espirito conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O padre Melchior prolongava suas visitas quotidianas; um mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.

O mesmo era, e não unico, por que outro e mais egoista e pessoal veiu alli viçar tambem. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relogio em que elle viu bater essa hora fatidica foram os olhos, de Helena. Mendonça começava a amar, Estouvado, e não corrupto, atravessára o delirio dos primeiros annos sem perder a flor dos castos affectos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo nem o repelliu; redobrou de confiança,—dessa confiança, que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanças. Ao parecer de extranhos, a situação affigurava-se de perfeita concordia. O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Mattos; o Dr. Mattos proferiu um—latet anguis in herba—e ambos foram repartir o pão das conjecturas com a espôsa do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos tres é que o casamento era cousa provavel e talvez certa. Um só obstaculo podia haver; eram os escrupulos do pae de Mendonça. Esse mesmo obstaculo não existia, por quanto, além das qualidades estimaveis da moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; accrescendo (observação do Dr. Mattos) que duzentas e tantas apolices mereciam um comprimento de chapeu e não davam logar a cinco minutos de reflexão.

As primeiras cartas de Estacio chegaram uma tarde, em que as duas senhoras e Mendonça se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as últimas gotas de cafe. D. Ursula, depois de pôr em actividade tres mucamas para lhe irem procurar os oculos, levantou-se e foi ella propria á cata delles, coma sua carta na mão. Helena ficou com a que lhe era dirigida estava sentada juncto a uma das janellas; abriu-a e leu-a para si:


ESTACIO A HELENA.

«Quando ésta carta te chegar ás mãos estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meus livros, os meus habitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora, que estou longe do que ha mais caro neste mundo. Poucos dias la vão, e ja me parecem mezes. Que seria se a separação não fosse tão limitada?

«Na carta que escrevo a ti tia dou conta de nossa viagem e da saúde de todos. D. Clara está, na verdade, á beira da morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os ultimos adeuses. A recepção que nos fez a familia foi cordialissima. Ha aqui uma cunhada da enfêrma, um primo, tres sobrinhos, outros parentes e varios afilhados. O primo é commendador e tenente-coronel; elle e os outros são a gente mais affavel do mundo. Os homens da familia são influências eleitoraes; quando souberam da minha candidatura, offereceram-me logo os seus serviços, com a clausula unica de que haja prévia recommendação do Rio do Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundancia d'alma porque a tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não ha remedio se não cuidar della, de modo que o meu nome não padeça, a injúria da derrota. Que te parece ésta pontasinha de vaidade?

«Mudemos de assumpto, que este me afflige, e não quero philosofar sem ti, que es a minha companheira nestas vadiações de espirito. Ahi não te lembrarás, talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o meu passeio equestre, como la; mas que differença! Quem vae a meu lado é o tenente-coronel, excellente homem, coração de pomba, com o defeito unico e enorme de se não chamar D. Helena do Valle, a minha boa Helena, que la está na Côrte a divertir-se sem seu irmão. Elle fala de tudo e muito: do cafe, do governo, das eleições, dos escravos, dos impostos. Eu ouço-o, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupção. Ás vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da conversa e elle encarrega-se de desenrolar o novello. Tão pouca cousa o faz feliz! Já cacei uma vez; confesso-te que é o que me pode distrahir um pouco. Pensava ter perdido o costume; mas não perdi. A modestia impede-me dizer mais.

«A fazenda é vasta e a casa excellente. Não te direi que gósto da vida agricola; não gósto, não me dou com ella. Mas viver num recanto como este, a dous passos do mato, a tantas legoas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a minha indole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que tambem para despota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferencias. Sou um Cromwell com tendencias de frade; ou, por dizer tudo n'uma só palavra: sou um Lutero... muito inferior.

«Pobre Helena! Ja la vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos ó que tens feito. Andas muito triste? passeas? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais miudamente que puderes; conta-me a vida de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que ha uma puerilidade séria, e que os extremos tocam-se. Quando assim não seja, a culpa é do ceu, que me não deu uma irmã creança; agora é preciso que comecemos pela primeira phase da vida.

«Deixei muito recommendado ao Mendonça que fôsse a nossa casa com frequencia. Não sei se elle se terá lembrado e cumprido a promessa que me fez. Se não tiver cumprido, has de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino, que elle é o maior traidor que o ceu cobre; que tudo fica acabado entre mim e elle; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.

«Lembro-me de ti a proposito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro offerecia ura aspecto bonito e caracteristico. Se ella estivesse aqui, disse commigo, faria um magnifico desenho. Peguei de um lapis que trouxe, meia folha de papel, e quiz reproduzir o panorama. Escrevi um problema algebrico! Foi um conselho que me deu o lapis: ninguem se metta a fazer aquillo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da familia; por que motivo me determinei a tental-o?

«Interrompi ésta carta para receber o Dr. Froes, que é o médico de D. Clara; veiu ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido; que a morte é certa; mas que a vida póde prolongar-se ainda por muitos dias. Ve que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses ultimos dias da enfêrma pesam sôbre mim como se fôra o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciencia do que se perde nem do que se vae ganhar?

«Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mez. Sera o que Deus quizer. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um Manual de medicina prática. Manda-me alguma cousa que me faça lembrar Andarahy. Tira da estante oito ou dez volumes, á tua escolha. Manda tambem algum trabalho de agulha teu; quero mostral-o á cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma cousa, á pressa, o tanque, a varanda, ou qualquer outro logar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são immensas, immensas como este amor que tenho a minha familia toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bella e doce de todas as irmãs!

«P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.»