Historia de Portugal: Tomo I

J. P. Oliveira Martins · Capítulo 12 de 19

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Historia de Portugal: Tomo I

Livro Terceiro a Conquista do Mar Tenebroso

LIVRO TERCEIRO

A CONQUISTA DO MAR TENEBROSO

 

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)

 

... quantas vezes estive mettido de baxo das bravas ondas por saber o fundo das barras e para que parte endereçavam os canais, e entrada dos rios até então nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas, deferença das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas, rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e disposição natural.

DOM JOHAM DE CASTRO, Primeiro roteiro da costa da India.

 

I

O Infante D. Henrique

Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da existencia de um imperio christão no extremo Oriente. O nuncio da Egreja da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado João, cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o

Preste-Joham. [58] Esta lenda, espalhada na Europa,{pg. 164} excitava tanto mais a pia curiosidade dos christãos, quanto essas distantes regiões se pintavam como paraizos carregados de ouro e encantos.

Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas

ácerca do Atlantico. [59] As tradições obliteradas pela ignorancia davam caracteres phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas d'Africa, e ás ilhas do mar

atlantico. [60] Esse infinito de aguas, onde mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas costas da França, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra,

chegavam os berberes de Marrocos. [61]

As tradições dos geographos antigos, idealisadas pela imaginação bretan, tinham dado logar á formação de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, «ainda que os mareantes, diz Ibn-Khaldún, conheçam os rumos dos ventos, não havendo, para além, paiz algum habitado, perder-se-hão irremediavelmente,{pg. 165} porque o limite do oceano não é outro, senão o proprio oceano».

Além d'estas tentações maritimas, havia a ambição do Oriente e do seu commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupação arabe a puzera com os monopolisadores d'esse

commercio, durante a Edade-média. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do oceano indico. D'ahi as carregações se dirigiam para a Europa e para a Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas, caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.

Tinha, porém, no começo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de chegar por mar—como veiu a chegar-se—ao imperio do Preste-Joham das Indias? Parece-nos que não. Devassar o mar tenebroso em demanda das ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir occupando gradualmente a costa occidental da Africa—parecem ter sido emprezas ainda não ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, não occupava menos o espirito do principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por terra. A conquista de Ceuta prende-se{pg. 166} directa e principalmente a este pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e, porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em todo o caso a terra offerecia um campo de exploração mais definido do que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.

No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para

garantir o monopolio do commercio do Sudão; [63] e ao mesmo tempo conquistar ás trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem o dobram as lagrimas do irmão infeliz sacrificado em Tanger, nem as supplicas do outro irmão, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto em Alfarrobeira. Ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás navegações os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta amplidão dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro Affonso e de João II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe{pg. 167} pertinaz e duro, a cuja força Portugal deveu a honra de preceder as nações da Europa na obra do reconhecimento e vassallagem de todo o globo.

 

A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do grão-doctor João das Regras, a explosão da força nacional, tinham feito de D. João I quasi um heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes. Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa virtuosa e nobre na princeza, cuja lição e cujo exemplo põem a semente das suas grandes acções no coração dos infantes—D. Pedro, acaso o typo mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os destinos futuros de Portugal. É uma pleiade de homens celebres, presidindo a uma nação constituida e robusta. Com taes elementos consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes não se parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A côrte apresenta uma phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em cousas sábias, escreve o seu Leal conselheiro. D. Pedro, cujas dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lição, muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmão primogenito o seu tratado da Virtuosa benfeitoria. Á noute, nos serões, lêem-se, pouco, passo, e bem apontado, como D. Duarte manda na sua obra, as historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristão. Não é{pg. 168} uma côrte da Edade-média, é já uma côrte da Renascença, cheia de idéas novas e de uma cultura eminente. A educação transforma a politica, e as theorias monarchicas da Italia são applaudidas e adoptadas. Bole-se na legislação, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes, adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes, valentes e sabios, são estadistas, no moderno sentido da palavra; e o rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás lições de João das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar Ceuta—primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha, orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o marido a partir. D. João I, passivo agora e sempre, obedece; e, do principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha porém a habilidade propria dos homens de juizo—a de pesar, vêr, e julgar com rectidão.

Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvação do rei, que lhe dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa da Africa.

Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mãos á obra, e estabeleceu-se em Sagres.{pg. 169} Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda ignotos da nação. Os antigos tinham chamado sacrum, sagrado, a esse promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na linguagem, a passada denominação. Sagres ia ser no XV seculo, como fôra nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos

celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[64] que no templo circular do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas conversas com esse mar cheio de enganos e tentações, aberto ao capricho dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, não deuses, mas homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regiões desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religião era outra:—era a da Renascença—a sciencia, a tentação irresistivel que arrastava os homens para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: «quantas vezes estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e para que parte endereçavam os canaes!»

Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que então dispunham a cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens o manuscripto das peregrinações de Marco Paolo. Esses livros, os mappas de Valseca, as narrativas{pg. 170} e roteiros dos pilotos, as rudes cartas maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu cosmographo, Jayme de Mayorca, então celebre, rodeado de discipulos, passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.

Essa paixão naturalista da Renascença nos seus primeiros tempos, essa tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á imaginação: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos meios positivos. «Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes, que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que são as cousas de que os cosmographos hão de andar apercebidos. Levavam cartas mui particularmente rumadas, e não já as que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.» A bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedições maritimas enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Açores foram por esta fórma

arrancadas [65] {pg. 171} ás trevas do mar. Mas, apesar das successivas investidas, não se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador, limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a um muro de terrores phantasticos.

Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo não acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse finis-terrae da Africa? Gil Eannes voltou para responder affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de satisfação, os mareantes aprisionam os primeiros negros

—os azenegues do Senegal.[66]

Era um antegosto das horrorosas façanhas a que as tentações do mar os haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o enthusiasmo do principio. Não acabava, jámais, a costa da Africa! e o Preste-Joham e os encantos do

Oriente traduziam-se apenas pela [67] malagueta da Guiné.

O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das navegações. A empreza, primeiro esboçada, parecia colossal de mais para as forças da nação: não podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos, desanimava, e fazia sentir cansaço. {pg. 172}

 

Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de registrar brevemente a da formação das forças navaes portuguezas, indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das expedições militares á costa da Berberia.

Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, não ha marinha na Hespanha occidental. As luctas da reconquista, então feridas, eram-no por terra exclusivamente; e a impericia maritima dos christãos, junta aos relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a conservação das praças litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munições e gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de talar os campos dos christãos e captivar os tardivagos ou indefesos. Já, porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova pilotos, sob cuja inspecção construiu duas galés que foram ás costas do Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.

Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do reino. Á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vão já navios portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr que d'ahi deve datar-se a fundação da marinha militar{pg. 173} portugueza. Com effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III, como o provam as expedições maritimas que terminaram pela conquista definitiva do Algarve, e as façanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia então já um corpo de tropas especiaes de embarque.

Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construcção e os typos d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos

seus tripulantes: eis ahi uma esquadra do [68] XIII seculo. Vel-a-ha, real e verdadeiramente, se, com a imaginação, substituir por armas os utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida, descarregaram—hoje o peixe, então as presas, os mantimentos e a gente—homens e mulheres, fincadas as mãos sobre os joelhos, curvados, com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle, impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa scena repetia-se para pôr a enxuto, e para pôr a nado as embarcações; e Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas praias de pescadores: mandou construir debadoyras (cabrestantes) para encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios vão em soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do norte á Cruzada.

O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra{pg. 174} na historia da marinha nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar, os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna. Nacionalizada, a familia dos Peçanhas tem por largos tempos o condado do mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia então.

Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos, com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o amavioso e infeliz rei, merece n'esta historia uma menção condigna. Apesar das chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a sabedoria e o alcance economico da sua legislação dão-lhe o direito de preeminencia na historia da formação do poder naval dos portuguezes. Já então a alfandega de

Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil dobras:[69] o que demonstra{pg. 175} o progresso commercial do reino, e comprova a opinião expressa no livro anterior, da deslocação do centro de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia adquirida depois do antigo caso da separação do condado portuguez do corpo da monarchia leoneza.

O rei que pretendia, com justiça, impedir aos proprietarios a detenção improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já então uma cidade cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos, milanezes, corsos, biscainhos, gentes de tão variadas partes—de toda a Hespanha e das costas circum-mediterraneas—fixavam-se em Lisboa a commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de vinho, sem contar o dos navios da segunda carregação, em março. Os navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital «grande cidade de muitas e desvairadas gentes». Era uma Veneza que se formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do porto-franco de Lisboa.

O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de certos generos exclusivos.{pg. 176} Creou bolsas de seguros maritimos, mutuos, em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lançada sobre o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a metade os direitos de importação dos generos trazidos por navios nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses. Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construcção naval, e os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á exportação dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por sobre esta protecção efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.

N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fôra um cesarísmo, e com effeito o foi de todos os modos: na sábia protecção dada ao fomento material da nação, na violencia das medidas de salvação publica, na desordem dos costumes da côrte, e no caracter bondoso e ingenuamente devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á nação, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento individual dos governantes autocratas, mais do que á força espontanea de um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituições e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos os fundadores do Portugal maritimo D.{pg. 177} Fernando é o maior; e se as queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razão absoluta—a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Camões fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lançado os athenienses no caminho das emprezas maritimas.

Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. Não tivesse a Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. Não tivessemos alargado pelo mar um nome sem razão de ser na Europa, e, jungidos á Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos dôres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O proprio nome de Portugal não teria existido, senão como lembrança erudita de um certo condado, que, nas mãos de principes astutos e atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nação hespanhola.

Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? Não, decerto. Infeliz de quem não viveu; e viver, para os homens e para as nações, differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade, providencia, determinação, ou como se queira dizer— traduzido com as successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio eterno—elege ou condemna—escolham tambem os sectarios entre as duas expressões—os homens e as nações a uma determinada{pg. 178} obra. Nós fomos elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que o enchia de vagas ambições ou de funebres terrores.

Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca da empreza nacional, do seu destino, da sua missão, ou como aprouver melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar—descrevendo previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela consolidação do poder cesarêo dos reis— necessitava ser julgada: agora que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se não desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.

Essa esquadra, que fundeia no Tejo, era já poderosa ao tempo de D. Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abraçavam tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372) era, no dizer do chronista, formosa campanha de ver. Mice Lançarote Peçanha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da nova patria portugueza vê-se bem no nome dos capitães: um João Focin castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sairá, no momento culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito nacional-natural e a noção de uma patria moral ou ideal, como foi a patria de Virgilio.

A esquadra de Sevilha contava trinta e duas galés, trinta náus redondas, afóra as que vieram per ella da costa do mar. Vinte e tres mezes teve bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi tão poderosa como esta, foi ainda{pg. 179} ao Mediterraneo, na seguinte guerra de Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da temeridade do fanfarrão Affonso Tello.

Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir conquistar Ceuta, em Africa.{pg. 180}

[58] V. As raças humanas, I, pp. 96-9.

[59] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. VII-VIII e Elem. de Anthropol. (3.ª ed.) pp. 126-7 e 215-17.

[60] V. As raças humanas, liv. IV, 2.

[61] Ibid., pp. 111-18.

[62] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas, com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.

[63] V. As raças humanas, I, pp, 94-6 e O Brazil e as colon. port., (2.ª ed.), pp. 244-8.

[64] V. As raças humanas, I, p. 184.

[65] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no Brazil e as colonias portuguezas (2.ª ed.) pp. 2-3.

[66] V. As raças humanas, I, pp. 116-7.

[67] V. O Brazil e as colon. port., (2.ª ed.), pp. 14-5.

[68] V. no Regimen das riquezas, pp. 81-8, a evolução dos vehiculos maritimos.

[69] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o marco de ouro cojo valor moderno é de 120$000 rs; a dobra equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de 84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista, «400 a 500 navios de carregação» e em Sacavem e no Montijo, a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro viagens n'um anno, e sabendo nós que a sua lotação média regularia por 100 toneladas—vemos que o movimento do porto attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos. Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos idéa do grau de franquia do porto.