Historia de Portugal: Tomo I
III D. João de Castro
III
D. João de Castro
Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e abandonada a politica imperial, torna-se á politica maritima; ou antes o dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylão e as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez á India, como vice-rei, para vêr se podia pôr cobro ás desordens e á corrupção interna das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successões, mandadas de Lisboa em cartas, que só se abririam por ordem numerica, na falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que dava lugar a transmissão do governo. O almirante morreu tres mezes depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, tão celebre pelas suas perfidias.
Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condições difficeis. As torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra nós os monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu, inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco, de mãos dadas com os mouros, nossos rivaes. O governador, em quem os dotes de guerreiro primavam,{pg. 276} decidiu reunir todas as suas forças para ir tomar Diu, na costa do Gujerât, castigando por um modo ruidoso a insubordinação do de Kambai.
Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a transformação que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria já pelos descendentes de Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam já mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, senão a maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e multidão de bergantins, galeaças, fustas e catures. Apoz ella vinham os juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capitães e soldados tinham-se preparado como para uma funcção, luxuosamente vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnição; e além das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que successivamente subissem ás muralhas. Era uma expedição mercenaria, e não uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformação que já se tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia contra ella.
Seguindo as boas tradições, a esquadra foi ao longo da costa deixando o seu rasto de carnificinas e investidas covardes, contra os pontos indefesos; e quando chegou em frente de Diu, rompeu{pg. 277} o bombardeio. Dentro da cidade era grande o susto. Os commerciantes mouros agitavam-se, escondendo os seus thesouros e preparando-se para a fuga. Os fakirs immundos, nús, e de rastos, estrebuxavam, e, erguendo-se como doidos, acutilavam os braços e as pernas, ou batiam com calhaus grossos na ossatura do peito, como a quererem matar-se n'um delirio de visões santas. E o brahmine, com os seus longos cabellos enlaçados em turbante no alto da cabeça coroada de flôres, perfumado de aloes e de agua de rosas, untado de sandalo branco e açafrão, lançava-lhes uma esmola e palavras de paz, para não juntar á desgraça da guerra novas desgraças de suicidios! Os senhores de Diu, ricos do Gujerât, principes de Kambai, attonitos, vagueavam nas ruas com as mulheres, a procurar refugio contra as bombardas que estalavam por toda a parte. Com as caras rapadas á navalha e os longos bigodes negros caídos, arrastavam pressurosos as compridas camisas de algodão e de seda, calçados nos seus sapatos bicudos de cordovão lavrado: e os longos brincos de ouro cravejados de pedras balouçavam e tilintavam nas orelhas, em quanto corriam desafivelando, cansados, os cintos de ouro rutilantes de esmeraldas. Atraz d'elles as mulheres, de uma raça delicada e formosa, com o rosto de um branco de leite, meio encoberto em mantos de seda com que vestiam o tronco nú, corriam descalças, mostrando nos dedos dos pés os ricos anneis, nas pernas as manilhas de ouro e prata, os braços nús carregados de pulseiras, as mãos rutilantes de pedras preciosas. Era um terror e uma agitação por toda a cidade, ao ouvirem o ribombar da artilheria, e ao verem no ar a trajectoria de fogo das bombardas, que vinham sem piedade rebentar em estilhas no meio da gente, crivando{pg. 278} de lascas o corpo côr de perola das mulheres, e as carnes côr de barro dos fakires tisnados pelo sol, cobertos de uma camada de lodo secco e de immundicies das estrebarias dos elephantes.
As tropas de Kambai, nos seus postos das muralhas, esperavam o assalto, para então se medirem com esses homens que, abrigados por detraz das suas peças, distribuiam assim impunemente a devastação e a morte. Tremiam comtudo; e os mouros, por entre os batalhões, lamentavam-se da falta dos artilheiros venezianos e das esquadras dos rumes. Esperavam, porém, muito da tropa de elephantes, que eram quinhentos com as prezas limadas e o pé triturador, com que haviam de fazer em
pastas humidas de sangue a phalange portugueza.[104] As balas dos mosquetes nada podiam contra a couraça da sua pelle, e esmagando com o peso, despedaçando com as prezas, acabariam a obra começada pelos besteiros e fundibularios de cima das torres. Mudos e immoveis, os quinhentos elephantes de Kambai estavam na planicie, como ancora da salvação de Diu; e os soldados olhavam para elles com amor. Além dos elephantes, tambem a cavallaria se achava formada, montando á bastarda os leves cavallos da Persia, embraçados os seus escudos pequenos e redondos forrados de seda, ao cinto duas espadas e uma adaga, ao hombro as settas e o arco. Uns vinham defendidos com armaduras e cotas de malha de aço, outros com laudeis, que eram mantos de algodão acolchoado, onde todos os golpes morriam perdidos. Os cavallos traziam testeiras de aço. Porém, apesar de toda a força reunida, a artilheria dos navios aterrorisava-os; e já por mais de uma vez alguma{pg. 279} bomba, caíndo no meio dos elephantes, dispersára as montanhas de carne, a correr em rugidos, com a tromba erguida, como um mastro, entre as prezas de marfim. Na cidade havia tambem artilheria e mosquetes, mas que nada podiam contra os navios distantes: os pelouros disparados recochetavam na agua.
Parou afinal o bombardeio, e todos olhavam com ancia, porque esperavam assistir ao desembarque e contavam com a peleja. Viram, porém, com surpreza que as náus emmastreavam e as galés mudavam a prôa ao mar, afastando-se ao impulso dos remos. Fôra medo? fôra fraqueza? Decerto; e a esquadra, atulhada de escravos e mulheres, não tinha forças para uma batalha: apenas se arriscava a um canhoneio sem perigos. Já era fóra de duvida que os deixava. As velas desfraldadas impelliam os navios na volta do mar. A alegria e a assuada substituiram então o pavor e o silencio. Todos pulavam contentes, desde o fakir immundo, até ao grave e perfumado brahmine; desde os velhos e as creanças, até ás mulheres, envolvidas nos seus mantos de seda, com os braços e as pernas núas, a correr, agitando os longos brincos, preciosos, tão pesados que lhes rasgavam as orelhas. Os commerciantes mouros abriam os bazares e desenterravam os cofres; e todos vinham á praia vêr a armada que se afastava, despedindo-se d'ella com vaias e gritos de zombaria, tangendo musicas, disparando tiros de espingardas para o ar, e mandando, por cortezia, pelouros, a arranhar a superficie azul das ondas. Diu estava salva das ameaças do portuguez.
Porém quatro annos depois, intervindo nas questões internas dos sultões e rajahs da peninsula, Nuno da Cunha obteve a permissão de construir a{pg. 280} fortaleza de Diu, celebre depois pelo heroismo dos seus cercos. A politica do governador não desdenhava, comtudo, o assassinato; e o pobre sultão de Kambai, convidado a uma entrevista, foi trucidado, á maneira do que já succedera antes em Hormuz. D'ahi proveiu a guerra e o primeiro cerco de Diu, sobre-humanamente defendido por Antonio da Silveira.
As chronicas chamam a Nuno da Cunha vencedor de Kambai, heroe de Bassaim, de Kalikodu, e fundador de Diu. Basta esta enumeração dos lugares para demonstrar que o dominio portuguez na India inclinava já, com trinta annos de vida apenas, á decadencia. Os erros politicos originavam guerras permanentes; e o poder dos invasores, que n'um relampago se alargára por todo o Oriente, não se consolidava: agitava-se desordenadamente, no meio de questões sempre renascentes, extenuando as forças defensivas, e corrompendo-se intimamente. Se Nuno da Cunha merece dos coevos o nome de heroe, não é pelo valor ou alcance dos meritos proprios, é pela absoluta incapacidade dos seus predecessores e dos que lhe succederam. D. Garcia de Noronha, que veio apoz elle, era um fidalgo pobre, sem merecimentos, além do da pobreza e das sympathias do rei, que o mandou á India enriquecer. «Honra, eu a tenho: não venho mais que a levar dinheiro», dizia mais de um governador. D. Estevam da Gama foi ninguem; e Martim Affonso de Souza prégou com o exemplo, francamente cynico, a abjecção em que a administração da India se tornára—agora que terminára o saque de todas as costas, e as náus de Meka, mais raras e já artilhadas e preparadas para rudos combates, não davam com que satisfazer a cubiça dos occupantes. {pg. 281}
A segunda epocha da historia da India, a da podridão, apparecia já desenvolvida e accentuada por tal fórma, que o governo de Lisboa reconheceu a necessidade de pôr cobro a tamanha desordem, e nomeou viso-rei D. João de Castro, leitor assiduo de Plutarcho e decidido, por opinião, a ser um modelo de virtude, e um typo de nobreza á antiga,—ou pelo menos á moda do que então se julgava terem sido certos dos antigos heroes.
Effectivamente o estado das cousas exigia remedios energicos. Martim Affonso de Souza deve abrir o rol, porque ninguem melhor e mais ingenuamente vivia no seio da podridão e o confessava, nas cartas que enviava para Lisboa, ao rei. A successão do governo de Vijajapur era debatida entre dois principes indigenas; e o governador «tardou em se determinar, porque estava esperando quem levava a melhor». Afinal decidiu-se pelo Hidalcão, que parecia ter mais justiça e era mais firme, «ainda que vos certifico que da outra (parte) havia tantas razões e contrarios que foi necessario soccorrer-me a missas e devoções». Além das devoções, o vencedor deu-lhe 70:000 pardaus para el-rey, 20:000 para elle proprio governador, e uma joia para sua esposa. Deus, porém, não se contentando com ajudar o modo por que o governador vendia o seu apoio, matou o rival vencido. Tudo corria para o melhor, quando, para coroar o caso, vem um privado de Assud-Khan propôr-lhe a divisão do thesouro do fallecido: 500:000 pardaus: «Mando 300 a el-rey, mas d'estes tomei 30:000 para mi, que é o dizimo que lá mando a minha mulher: que em razão está que tenha alguma{pg. 282} parte d'isso, pois o podera ter todo, que eu podera ter tomado este dinheiro sem o ninguem saber». Esta pratica de vender o auxilio nas contendas indigenas não era, todavia, privilegio de Martim Affonso. Em Hormuz, sob a tutela dos portuguezes, D. Duarte de Menezes substitue a um governo amigo dos nossos, um outro que preferia o mouro, porque este lhe deu «cem mil pardaus em xerafins novos, e em conta ricas perolas e joias e aljofar». Gaspar Correia diz do governador, que gostava de «boas peças e dadivas e alvitres de apanhar dinheiro, e banquetes e prazeres, e com mulheres solteiras com que ia folgar no tanque de Tinoja, e em tudo era mui devasso».
Os capitães seguiam os exemplos dos governadores. De um de Hormuz, Diogo de Mello, queixa-se o rei, porque o alguazil o ferira e quizera matar por lhe não dar dinheiro e joias que exigia; pedindo soccorro, pois se lhe não acudissem, despovoava-se a cidade. E nem só as fortalezas, ao lado dos soberanos indigenas, eram rendosos meios de rapina: o mar produzia tambem muito. Ruy Vaz vae por sua conta a Bengala ás prezas; e dois navios, mandados expressamente de Lisboa á India com instrucções e cartas, para decidir o pleito entre Pero de Mascarenhas e Lopo Vaz, fogem para Madagascar ás prezas, e ahi se perdem. A pirataria dos portuguezes era tão productiva que excitava os estranhos; e de parceria, piratas francezes, guiados pelos nossos, dão a volta d'Africa, e vão explorar a India. Não era tampouco raro vêr nos mares do Oriente navios de arabes guarnecidos por portuguezes mercenarios; os mouros pagavam melhor do que o rei. A guarnição da armada com que Lopo Vaz foi ás ilhas de Sunda incendeia os navios por falta de pagamento do soldo; e os naturaes{pg. 283} assaltam os portuguezes á pedrada, obrigando-os a pedir capitulação. Effectivamente a sorte dos soldados era tão dura, que se recusavam a embarcar em Goa, sem primeiro terem sido pagos. Os governadores eram obrigados a mandal-os caçar pelas ruas e casas, levando-os algemados ao tronco, e da prisão para a armada.
A vida do soldado da India e a organisação militar eram com effeito singulares. Desembarcando sem dinheiro em Goa, depois das doenças da viagem, os que não tinham parentes ou amigos na capital da India, espalhavam-se pedindo esmola em bandos pelas ruas, dormindo esfarrapados e semi-nús debaixo dos alpendres das egrejas, ou nas galés e lanchas varadas na praia. Empenhavam o que traziam: a capa, a espada; ou preferiam roubar para viver, esperando o arrolamento da armada, que todos os annos ia varrer as costas do Malabar, inçadas de piratas arabes cujo rei era o
Cutiale (Kuuat-Ali). [105] Chegada a epocha, lançado o bando, nomeiavam-se os capitães dos navios—logo veremos porque artes e maneiras o capitão tratava de angariar a sua gente. A chusma da marinhagem compunha-se de negros captivos, agarrados a laço pelas ruas. Os soldados recrutavam-se nos bandos já amestrados na rapina e que, de volta das expedições, se pavoneavam nas ruas de Goa: era uma tropa de salteadores e adulteros, malsins e alcoviteiros, que enchiam a cidade de roubos e assassinatos nocturnos, occupando-se a beber nos lupanares e a matar por officio e dinheiro. Os reinoes bisonhos entravam só nas faltas, até que tivessem por seu turno aprendido como se era soldado{pg. 284} da India. O capitão dava dez xerafins a cada um dos soldados para se prepararem e armarem. Cada qual escolhia as armas que bem lhe agradavam, e muitos preferiam gastar o dinheiro em orgias, indo para bordo esfarrapados e sem mosquete, nem lança, nem rodella, nem espada: com as mãos vazias.
A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e davam-lhes de Santiago, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o roubo, a matança—muitas vezes tambem a reacção dos inimigos. Dispersos, deixando as armas ás portas das casas para irem mais leves a roubar, os soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo, por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella tiravam o melhor dos seus proventos.
Os soldados roubavam, os capitães roubavam com elles, roubavam-nos a elles, cerceando-lhes as rações de arroz avariado e podre. E depois da façanha, em que muitos ficavam, depois de forçados a fugir em debandada, «os capitães-móres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa, é tanta a bombardada que não ha quem se ouça, e ao sahir em terra tanta pluma e bisarrice,
como se deixaram destruido o mundo.[106]—E{pg. 285} não é bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capitães da India entram em Gôa triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeçados nas praias de Calecut.»
Não é bem, decerto; mas não podia ser de outra fórma; e ainda assim a basofia, apesar de ser enorme, não era a peior das fraquezas dos capitães da India. Pedro não obedecia a Gonçalo por não ser tão fidalgo como elle: eram todos pontinhos e biquinhos de honra. Em tendo sido capitães de quatro fustas, não queriam mais saír fóra sem bandeira na quadra; «e alguns não teem mais noticia da guerra que passear ás damas.» O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupção apagava todos os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperança, perdiam de todo o temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.
Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um serviço de mãos e um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram as ordinarias, isto é, o preço usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capitães, que o tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os capitães de Malaka tinham náus para irem de sua conta, á China, de um lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam por mar{pg. 286} com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e com o Zamgebar. Como negociantes, á imagem do rei, exigiam tambem em favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias brutaes exercidas sobre os indigenas. «A guarda do cartaz (salvo-conducto que os navios mouros pagavam para navegar no mar da India) é o credito do nosso Estado», diziam os homens-bons do Oriente; mas por cima de tudo o mais, os capitães, para fazerem prezas, buscavam bicos no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os lucros do commercio não lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta especie. Arrolamentos de guarnições ficticias, matriculas de praças mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos ordinarios e communs a todas: só d'esta verba um capitão de Hormuz fazia 30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto: fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao thesouro da India o preço de guarnições que só existiam no papel. E estes roubos eram tão vulgares que não havia pejo em os confessar. Um capitão de Hormuz declarava alto e bom som, que não perdoaria um real da somma que se tinha decidido a ganhar—300:000 cruzados.
Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praça, accusado, responde que outro tanto fizera o seu antecessor, «que sendo apenas um Lima levára 140:000 pardaus: elle como Noronha, havia de levar mais». O brazão da sua casa ficaria manchado, seus avós corariam, se gente menos nobre lhe passasse adiante em qualquer cousa—até no roubo.
E os crimes dos capitães não podiam ser punidos,{pg. 287} porque os viso-reis faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz para fazer proveito, com doze navios, cujos capitães eram todos seus proximos e afilhados. Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os alcances por meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta agoa envôlta muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em falsar sinaes, deveu o governador o alvará com que espoliou o seu émulo.
As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de peculato: as peitas, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as heranças jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado pela Inquisição de Goa; os conluios com os contadores, para extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificação da moda; o roubo do cofre dos orfãos; o fornecimento de material de guerra; as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisação dos titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preço, e que nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.
A turbulencia e devassidão dos soldados provinham dos crimes dos commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores authorisavam os dos capitães: mas se o governador fosse punido, não poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os governadores{pg. 288} tinham a favor da sua corrupção argumentos muito valiosos, e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas excepções, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. «Cartas se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha os descreditos que n'ellas vinham.» Desde o rei até ao mais infimo dos moços da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira é o lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassidões. Contam que D. Manuel em pessoa achava graça ás manhas e expedientes vis, com que se explorava a India, quando os que de lá vinham justificavam as artes com a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da côrte. Bastante dinheiro e um pedaço de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem já falamos como heroe, foi condemnado á morte pela Relação de Lisboa; mas fiqou em morte civil para S. Thomé; depois para Africa; e, por fim, com dar 500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas riquezas dos roubos que n'este mundo não pagou.
Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia, desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além d'esta justificação de todos os expedientes, os padres{pg. 289} confessores da Companhia, defendendo os que recebiam luvas, diziam que o nome de peita se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou de concerto que se faça
para o negocio[107]. Mas se a parte fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e não uma peita.
Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador com dois debrums de latim. As testemunhas custavam em Goa a pardau por cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?» Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias, mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto, indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de Goa.
A misericordia de S. A. não consentia isso, mas o povo esteve por um nada a fazel-o. Quando o{pg. 290} conde da Vidigueira, ex-governador, partia para o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis avô (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma náo, e envenenaram ao neto o pasto
dos animaes que levava de vitualha para a viagem[108].
Mais graves e decisivos symptomas de desaggregação do ephemero imperio da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as deserções; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou nos navios arabes, por miseria, por cubiça, por homizio, arrastados pela fome ou pelas moraxas infieis, espalhando-se em Kambai, no Balutchistân, no Afghanistân e na Persia, de um lado; em Bengala, do opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Pegú, por Malaka, e Kamboja, até á China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes infieis eram tantos, «que sem muitas lagrimas não se poderá considerar, quanto mais escrever... e muitos se põem por soldados em navios de chatins, onde, posto que o soldo não seja tão honrado como o d'elrey, é mais proveitoso, por ser melhor pago». Em tempo d'elrey D. Sebastião havia na India 16:000 portuguezes, e não se poderam mandar 800 homens a soccorrer Malaka.
Já em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no começo da occupação da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o inimigo, conspiravam para se passar aos mouros, que pagavam melhor. Estes phenomenos, pois, não provinham directamente da decadencia, manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no começo da empreza.{pg. 291}
Além dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer feitorias, ninhos de piratas «buscando pão para comer, por não haver armadas ou fortalezas em que lh'o deem». Assim em Tchitâgan, assim em Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa
oriental da India, em Macau e em infinitos lugares.[109]
Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D.
João de Castro. O quarto viso-rei da India [110] era, havia muito, conhecido pela candida{pg. 292} nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de navegador e guerreiro, e pela vastidão do seu saber, pelo seu amor ás boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupação romana do XVI seculo em Portugal tinha em D. João de Castro um fervoroso sectario; e como o genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectação antiga tomava para elle as proporções de um culto. As suas phrases e gestos, copiados dos antigos heroes, não eram decerto uma mascara postiça, embora a nós se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porém, tinha no sangue a força de Alexandre; e a D. João de Castro só a imaginação fazia um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginação governava-o tanto, que lhe moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educação moral é capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construcção artificial do caracter produzia, comtudo, contradicções necessarias. O amor litterario da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, senão ridiculas, extravagantes. Não ter em casa uma gallinha para{pg. 293} comer, enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar á honradez natural uma ponta de affectação. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por penhor; mas, com o symbolo, era forçado a dar tambem uma provisão para o thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educação litteraria.
Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposição do imperio oriental? Não, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por ser affectada, embora não fosse fingida. Os homens positivos e corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam descansados em que não lhes viria d'ahi mal algum para os seus interesses. A propria affectação antiga do viso-rei demonstrava a fraqueza do estadista; porque só uma alma ingenua podia ligar tamanho amor ás fórmas, e a ingenuidade jámais venceu nos governos. Integro, forte, e piedoso no seu fôro intimo, D. João de Castro era um heroe e um santo; mas nem essa fórma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram nunca os meios de travar o movimento de decomposição de uma sociedade, ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um João II, ou de um Pombal.
D. João de Castro não tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu governo ficou inutil como uma bella pagina de moral: á maneira do livro em que lhe escreveram a vida, e que é uma boa
pagina [111] {pg. 294} de rhetorica. Ficou, porém, como um sincero protesto: esse é o seu valor social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada nos cercos de Diu— quando o sultão da Turquia (Soliman II) mandou de reforço quatro mil janisaros, ou rumes sob o commando do pacha do Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeçofar), o ministro do rei do Gujerât— mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo, ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas acções.
Se é que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo de D. João III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por distinctos que fossem os dotes de qualquer outro, é tambem facto que a empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as forças humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.
Ao terminar este rapido esboço da vida politica de Portugal no Oriente, convém mencionar a opinião do quarto viso-rei e as suas observações, transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. «Cá está tudo, escrevia, em estado que não ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro para o seu ouro, nem christão que o creio.» E passava a enumerar o estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com as mãos; e não escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto chegára o descredito. Fôra um milagre trazer do reino á India, a salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em{pg. 295} Goa lançadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar até a propria Italia. Não havia soldado que não tivesse uma ou mais mancebas. Todos desobedeciam aos capitães, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as náus. Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um certo rei, pozeram-no a ferros e «forçaram suas mulheres com tamanhas desonestidades, que se não póde dizer a V. A.—Todos são ladrões, todos, sem excepção, chatins. As cobiças e vicios teem cobrado tamanha posse e authoridade, que nenhuma cousa já se póde fazer por feia e torpe, que dos homens seja estranha. E são mais as almas perdidas dos portuguezes que veem á India, do que se salvam as dos gentios que os prégadores religiosos convertem á nossa santa fé.»{pg. 296}
[104] V. Hist. da republica romana, I, pp. 161-2 e 275-6.
[105] V. na Hist. da repub. romana, I, pp. 188-95, a descripção da pirataria mediterranea: causas identicas produzem resultados eguaes.
[106] V. Hist. da republica romana, I, p. 274.
[107] Hist. da rep. romana, II, p. 187.
[108] V. Hist. da rep. romana, I, p. 356
[109] V. nas Raças humanas, a p. LX-I do vol. I, o estado actual dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I, pp. 75 e segg.
[110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei
2 Affonso de Albuquerque 1509
3 Lopo Soares de Albergaria 1515
4 Diogo Lopes de Sequeira 1518
5 D. Duarte de Menezes 1521
6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei
7 D. Henrique de Menezes 1524
8 Lopo Vaz de Sampaio 1526
9 Nuno da Cunha 1529
10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei
11 D. Estevam da Gama 1540
12 Martim Affonso de Sousa 1542
13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei
14 Garcia de Sá 1548
15 Jorge Cabral 1549
16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei
17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei
18 Francisco Barreto 1555
19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei
20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei
21 João de Mendonça 1564
22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei
23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei
24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei
25 Antonio Moniz Barreto 1573
26 D. Diogo de Menezes 1576
27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei
28 Fernão Telles de Menezes 1581
29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei
30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei
31 Manuel de Sousa Coutinho 1588
32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei
33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei
Pela constituição do vice reino da India o mandato dos governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos, e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando occorria a morte do governador abria-se a primeira successão, na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram quem governou por successão. O titulo de vice-rei, excepcional a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador desde 1550.
[111] J. Freire de Andrade, Vida de João de Castro.