Historia de Portugal: Tomo I
IV Em demanda do Preste-Joham das Indias
Este incidente imprevisto da morte do principe é um dos que obrigam a meditar sobre o valor do acaso na historia. Tivesse-se consummado a união dynastica de Portugal ao resto da Hespanha já unificado, e a historia da Peninsula, a historia da Europa, seriam
diversas. [74] Que papel teria tido no mundo um imperio exclusivamente senhor de todas as regiões descobertas? Que teria succedido, se Carlos V e a dynastia austriaca não viessem reinar em Hespanha, pondo nas mãos de um homem o imperio da Allemanha, da Italia e da Peninsula iberica? Acaso a união, realisada no periodo ascencional da Hespanha, se tivesse consolidado abafando o cristallisar da alma portugueza na éra classica e abastardando a semente que nos deu Camões. Unido então, Portugal ficaria como se{pg. 206} nunca tivesse existido, por isso que não chegára ainda a formular o seu pensamento historico, nem a consummar a sua empreza...
D. João II, humilhado, abatido, e rapado por dó, voltou a envergar o habito da coruja, para morrer (1495). Agonisante, mal podendo articular já as palavras, com uma voz arrastada e fanhosa que a proximidade da morte fazia satanica, dizia, encostando a cabeça felina sobre a mão descamada: «Persigam-me sem dó os filhos do Bragança!»{pg. 207}
[71] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) p. 137-49.
[72] V. Systema dos mythos relig., p. 291.
[73] V. As raças humanas, liv. IV, 3.
[74] V. Theoria da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. XXXII-III.
IV
Em demanda do Preste-Joham das Indias
No verão de 1486 tinha Bartholomeu Dias partido de Lisboa, para dobrar o Cabo da Boa Esperança; o que de facto conseguiu, não podendo porém ir mais ávante, porque lh'o não consentiram as tripulações assustadas. No mesmo anno mandára o rei, por terra, para o Oriente, Antonio de Lisboa e Pero Montaroyo, que não passaram de Jerusalem, por só ahi reconhecerem que, não sabendo falar o arabe, não podiam intentar a viagem.
No anno seguinte, portanto, escolhem-se dois homens que sabem arabe, para ir por terra descobrir o Preste-Joham. A viagem por mar, ou se abandonava por parecer impossivel, ou aprazava-se para mais tarde: quando houvesse informações mais cabaes, colhidas nas expedições por terra. Affonso de Payva e Pero da Covilhan partiram de Lisboa, via Napoles, com cartas de credito sobre o principe banqueiro, Cosme de Medicis. D'ahi os viajantes embarcam para Rhodes, depois para Alexandria, d'onde seguiram pelo Cairo para Tur, (Tor) na praia do mar Vermelho ao sopé do Sinai, como mercadores, acompanhando as caravanas. De Tur foram a Aden, onde se separaram: Covilhan para a India, Payva para Suâkin (Suaquem) na costa da Abyssinia; aprazando o encontro, á volta, no Cairo.{pg. 208}
Covilhan, em Aden, embarcou para Kananor, no Malabar, e d'ahi foi a Kalikodu (Calecut) e a Gôa. Atravessou, depois, o oceano indico, indo parar a Sofala, onde colheu noticias sobre a costa oriental da Africa, e sobre a ilha da Lua (Madagascar). Voltou logo ao Cairo, pressuroso de enviar a Lisboa as importantes informações obtidas, e ahi soube da prematura morte de Payva. Recebidas em Lisboa as cartas do viajante, D. João II recambiou logo os arabes seus emissarios, com ordem de visitarem Hormuz e a costa da Persia. Executada essa missão, Covilhan, cujo primeiro dever era obter noticias do Preste-Joham, partiu para a Abyssinia. Já por esta epocha o encantado principe que, segundo Marco Paolo, habitava a Asia central, fôra transferido para a Nubia: e a lenda personalisava no obscuro Negus o extravagante monarcha, tão falado e admirado em tempos anteriores. Covilhan, de quem não houve outras cartas, por largos annos aprendêra no Oriente a verdade; mas não podia transmittil-a para Portugal. Preso, sem ser maltratado, favorecido e
rico pelo contrario, viveu por trinta e tres annos na Ethiopia,[75] onde acabou.
Se a sua viagem não saciava a curiosidade principal do monarcha portuguez, se o Preste-Joham continuava a ser um mytho, o facto é que mais valiosos resultados se tinham obtido. A Covilhan cabe a honra de ter marcado o itinerario da navegação da India, affirmando que pelo sul da Africa se chegaria ao Oriente. Nas cartas que enviou do Cairo, dizia que os navios que navegassem ao longo da costa da Guiné, chegariam, proseguindo, ao extremo{pg. 209} sul do continente africano: e que, aproando ahi para leste, em direcção da ilha da Lua, por Sofala, se encontrariam no caminho da India.
D'estas e das mais informações recebidas se compoz o programma da atrevida expedição do anno de 1497, cujo destino marcado era desde logo Kalikodu, ou Calecut, como cá lhe chamavam, e onde Covilhan estivera. Vasco da Gama foi escolhido por D. Manuel (já a esse tempo D. João II tinha tres annos de fallecido) para commandar a expedição. Era um homem ousado mas prudente, e reunia ás qualidades militares as de marinheiro, cousa então commum, e depois ainda. Succedeu o mesmo a Affonso D'Albuquerque, a D. João de Castro, e a muitos outros; e a esta circumstancia deve dar-se um merecido alcance. A separação das aptidões não vinha embaraçar os planos; e havia uma unidade no mando, porque o capitão era tambem o piloto.
O maior juizo e prudencia dirigiam os preparos da expedição. Pesavam-se e debatiam-se todas as noticias do Covilhan, commentando-as com os conhecimentos anteriores. Examinavam-se os roteiros e cartas; e Bartholomeu Dias de viva voz contava tudo o que lhe succedera, os embaraços com que havia a luctar, as difficuldades a vencer. Com a sua larga experiencia dirigia a construcção dos navios, banindo os exageros nas dimensões, recommendando a solidez dos cavernames. O descobridor do Cabo devia acompanhar a expedição até S. Jorge da Mina, e ficar ahi no resgate do ouro. Eram quatro náus pequenas, para poderem entrar em todos os portos, visitar todas as angras, passar os baixios, ao longo das costas. A sua construcção ia aprimorada e forte, como jámais se vira: madeiras escolhidas, sans, e de exagerada grossura, pregadura{pg. 210} bem atacada, demorado e cuidadoso calafeto. As attenções não eram menores com o equipamento: levavam tres esquipações de velas armadas e mais apparelhos, cordoalha tres vezes dobrada, e mantimentos, armaria e bombardas em abastança. Levavam seis padrões de pedra lioz com o brazão portuguez e a esphera armillar, que o rei adoptara por emblema, esculpidos. Um havia de ser collocado na bahia de S. Braz, outro na foz do Zambeze, outro em Moçambique, outro em Melinde, outro em Calecut, outro na ilha de Santa Maria. Iam dois capellães a bordo de cada navio; iam linguas ou interpretes negros, cafres e arabes; iam dez condemnados para qualquer sacrificio necessario, e finalmente iam cento e quarenta e oito soldados. Tinham-se escolhido os melhores pilotos, e o rei não consentia que se poupasse em cousa alguma. Vinha em pessoa examinar o estaleiro, e demorava-se a conversar com os mestres, ouvindo as observações de Bartholomeu, de Pedro Dias, e Vasco da Gama, que lhe mostrava o novo astrolabio de Behaim, tosco triangulo de madeira, mas muito efficaz. Pelo modelo tinham-se mandado fazer outros, mais pequenos, de latão.
Tres dos navios levavam os nomes dos tres archanjos: S. Gabriel, capitanea, de 120 toneis, S. Miguel (antigamente Berrio) e S. Raphael de 100 toneis. O nome do quarto, de 200 toneis, desconhece-se.
No fim de junho estavam todos concluidos, promptos e fundeados no mar, em frente da egreja de Restello, onde os capitães velaram a noute de 7 de julho. No dia seguinte, depois da missa, acompanhados pelo rei e por todo o povo da cidade, seguiram em procissão para a praia, cantando, com tochas nas mãos, e embarcaram.{pg. 211}
Diz Camões que, n'este momento,
... hum velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias entre a gente,
.....................................
C'hum saber só d'experiencias feito,
Taes palavras tirou do experto peito:
......................................
Oh maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz em sêcco lenho!
No peito de muitos havia, com effeito, uma condemnação formal por essa teima persistente dos monarchas em sacrificar dinheiro e
gente á chimera das navegações. [76] A prudencia de experiencias feita, ronceira e fria, não acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas. O resultado havia de votar contra ella; mas as palavras do poeta prophetisavam as consequencias funebres d'um imperio, que todos porém, os audazes e os prudentes, acclamaram quando Vasco da Gama voltou. Camões, assistindo já ao declinar do sol, pôde contar as fomes soffridas no mar, os temporaes e os naufragios, as peregrinações nos reinos adustos do terrivel Adamastor, e o collar de esqueletos brancos estendidos ao longo dos areaes das duas Africas—um rosario de tragedias funebres! Pôde tambem contar as ondas de protervia e crimes, d'esse mar da India, que se estirou até á Europa para afogar Portugal em vasa.
Com sete dias de viagem, a 15 (julho), chegam ás Canarias, onde um nevoeiro dispersa a pequena frota, que, entre 23 e 27, se reunia outra vez em{pg. 212} Cabo-Verde, para d'ahi partir em 3 de agosto. Tres mezes gastaram para descer até Santa Helena (nov. 7), onde refrescaram, porque tinham seguido ao largo, sem se internarem no golpho da Guiné. Desembarcaram tambem para reconhecer a altura, com o astrolabio, porque a bordo não lh'o consentiam os balanços dos navios; tiveram algumas escaramuças com os indigenas, e partiram afinal no dia 16 de novembro. A 19 estavam á vista do cabo Tormentoso ou da Boa-esperança, dois nomes que egualmente justificou d'esta vez. Tres dias alli andaram, batidos pelos temporaes. O vento e o mar eram tantos, que os navios mettiam as postiças debaixo de agua, e difficilmente se diria se andavam sobre as ondas, ou de envolta com ellas. No alto dos castellos, á pôpa, levavam as náus retabulos pintados, com a imagem dos santos do seu nome; e quando o mar lançava com estrepito os paineis, sobre o tendal, toda a tripulação das náus empallidecia de susto. Era um triste prognostico, e parecia que o favor divino os queria desamparar. Mares crueis e espantosos vinham pela pôpa arrebatando os bateis, arremeçando-os contra os costados das náus, avariando os lemes. Amainavam as velas, cortavam os tendaes, começavam a alijar carga ao mar... Por fim o tempo abonançou: «Nosso Senhor seja louvado, que nas maiores fortunas soccorre com a sua infinita misericordia!»
Dobrado o cabo a 22, no dia 25 fundeavam na bahia de S. Braz, onde as calmarias os forçaram a demorar-se até 7 do mez seguinte. Navegando uma semana ao longo da costa austral d'Africa chegam a 15 aos ilheus-Chãos, derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dias. Começavam agora a seguir as instrucções do Covilhan, o piloto ausente pelas terras do Preste-Joham, a quem demandavam. {pg. 213} Queriam seguir ao longo da costa, mas as correntes, a que haviam grande medo, lançavam-nos para o pélago do sul, vasto e perdido. Os marinheiros revoltam-se inutilmente: Vasco da Gama, como um destino, inexoravel e prudente na sua audacia, venceu as revoltas e as correntes.
Saíam por fim do Mar Tenebroso, e só agora se podia considerar vencido o temivel cabo. As tempestades e as correntes amansaram. De dia a calma e o céu de azul puro: á noute, por duas ou tres vezes, no topo dos mastros, brilhava a luz de S. Fr. Pedro Gonçalves, o Sant'Elmo de Lisboa. Tudo eram promessas de bonança. Subiam aos mastros a vêr os signaes do milagre, e traziam, com devoção, os pingos de cera verde que o santo lá deixára. Ás vezes chegavam a brigar contra algum incredulo, e mais de um d'esses pagou por ello. Os marinheiros recordavam-se piamente do seu santo, que ficára em Lisboa, e de Xabregas, onde cada anno o levavam em procissão, vestindo o melhor que tinham, pondo os seus ouros, coroados de coentros e flores, com bailes, musicas, folias e merendas, pelas hortas do arrabalde. O bom santo protegia-os: já se não rebellavam, e alegres proseguiam, confiados tambem na pericia e valor do capitão, que os domava com intrepidez.
A 10 de janeiro tomavam terra em Inhambane, communicando com os cafres: a 22 tinham subido até Quilimane, onde veem visital-os a bordo fidalgos, com toucas de seda lavradas na cabeça. Pela primeira vez chegavam á India. Viam gentes diversas, e signaes d'essa civilização distante, demandada com tanto ardor. Emergiam do mar d'Africa e da obscura sombra do continente negro. Esses fidalgos, para quem olhavam, porém, quasi com amor, como irmãos, seriam os seus mais crueis inimigos.{pg. 214}
Ficam um mez em Quilimane, para reparar os navios e restaurar a saude, porque o escrobuto começára a lavrar com força nas tripulações; e, partidos, chegam em 2 de março a Moçambique. Os symptomas anteriores augmentam: veem mais, muitos fidalgos: estão, decididamente, ás portas da India! vão afinal chegar ao imperio do Preste!
O que observavam augmentava-lhes o desejo, avivando-lhes a curiosidade. Tudo era novo para elles, mas tudo avigorava as esperanças de virem a encher-se com o saque dessas cousas brilhantes, marfins e sedas, ouros e pedras, que luziam nos toucados e vestidos dos fidalgos de Moçambique. Em volta da esquadrilha fundeada vogavam os navios da terra, sem coberta nem pregaria: as taboas cosidas a couro, e velas de esteiras de palma.
[77] Os mouros vinham mercadejar com elles. O proprio sultão em pessoa quiz cumprimentar Vasco da Gama, que o recebeu a bordo. Pediu-lhe pilotos que o guiassem á India, á terra do Preste-Joham; pediu-lhe informações ácerca do famigerado imperador. O mouro disse-lhe que o Preste era um poderoso principe, com muitas cidades n'aquella costa, grandes navios e muita copia de mercadores: foi, pelo menos, isso o que Vasco da Gama percebeu, e taes novas encheram-no de alegria.
Mostrou-se depois o sultão perfido, e a esquadrilha, sem os pilotos, foi seguindo, costeiramente até Mombas (8 de abril), onde um acaso a salvou da traição que os mouros lhe preparavam. Elles tinham descortinado já perigosos concorrentes n'esses homens vindos por mar ás regiões que, desde a Arabia, o Egypto e a Nubia, eram até ahi imperio seu e indisputado. Salvo por um milagre, Vasco da{pg. 215} Gama seguiu a Malinda (15), onde o sultão o acolheu bem; mas não confiando mais n'esses fidalgos do Zamgebar, aproveitou de um mouro que se deixára ficar a bordo em Moçambique, e que succedeu conhecer a rota para Kalikodu. Fizeram-se ao mar, e em vinte e seis dias (24 de abril a 19 de maio) estavam na India. Durára a viagem dez mezes e onze dias.
Foi então que o seu espanto chegou ao auge. Tudo o que já tinham visto não dava uma idéa, nem distante, do que viam agora, desembarcados. O esplendor e o fausto natural do Oriente enchiam-nos de admiração e cubiça; e na sua ignorancia religiosa viam por toda a parte os christãos do Preste. Os indigenas adoravam a Virgem Maria; e os nossos prostravam-se tambem deante de Nossa Senhora na pessoa de Gauri, a deusa branca, Sakti de Shiva, o destruidor. Esta confusão, augmentada ainda por não se entenderem no que diziam, dava logar a scenas ingenuamente comicas. Alguns, duvidosos, observavam que, se os idolos eram diabos, a sua reza era só para Deus; e com esta reserva mental ficavam quietos na consciencia. Para augmentar o espanto, veiu ter com elles um mouro a falar portuguez: «Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
E nada d'isto era um sonho, eram «sem mentir, puras verdades.» Os indigenas abraçavam-nos, e os broncos alemtejanos, os beirões, os marinheiros do Tejo, ingenuos e ignorantes, abraçavam-nos tambem, na effusão de um instincto humano, como patricios. Dir-se-ia que se conheciam de muito, e que pouco ou nada os distinguia: de Lisboa á India era uma curta distancia, porque o sentimento não tem bitolas. Eram todos christãos, tambem tinham reis! o mundo era um só, e o homem o{pg. 216} mesmo em toda a parte! A naturalidade ingenua com que se praticavam as maiores cousas, é a grande prova da força heroica dos homens da Renascença.
Por esse tempo, na India—e com este nome designamos todas as costas e ilhas incluidas entre os meridianos de Suês e de Tidor, e entre 20° de latitude S. e 30° N., theatro das campanhas portuguezas—na India, dizemos, raças estranhas impunham uma especie de dominio em tudo similhante ao que foi depois o dos portuguezes: um monopolio commercial-maritimo, e como consequencia d'elle, feitorias, colonias e Estados. Os povos que nós iamos despojar d'esse dominio eram os arabes e os ethiopes, os persas, os turkomanos e os afghans, que, descendo do mar Vermelho e do mar da Arabia, confundidos na onda religiosa do islamismo, tinham avassalado a peninsula do Indo ao Ganges, e a Africa oriental desde Adal até Monomotapa. Estendendo-se para o extremo Oriente iam, como nós fomos, até Kambodja e Tidor nas Molucas, atravez do Arakan e do Pegu, da peninsula de Malaka e de Birma e Shan (Sião) no continente, atravez de Sumatra e Borneo e pelo meio do archipelago de Sunda. A todas essas gentes
chamaram os portuguezes [78] mouros , expressão generica já usada na Europa para designar os sectarios do Islam, e por isso tambem adoptada agora que, tão longe e atravez de tantos mares, iamos encontrar-nos de novo, frente a frente, com o turco, antagonista do christão em todo o mundo.
«Al diablo que te doy! Quien te trouxe acá?» assim um mouro de Tunis, em Kalikodu, cumprimentava{pg. 217} o portuguez; e como em Moçambique e em Mombas, os mouros (usaremos d'ora ávante d'esta expressão generica, já explicada) induzem ou obrigam o Samudri-rajah (Çamorim), rei ou conde—a India vivia n'um regime simili-feodal—de Kalikodu, a exterminar os portuguezes. Kalikodu era o emporio commercial da costa do Malabar, e os dominios do seu rajah formavam o chamado reino de Kanará.
Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que só veiu a differençar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma estação, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98. Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira, sepultar ahi o irmão que morrera no mar.
O enthusiasmo foi grande em Lisboa, á chegada de Vasco da Gama: tambem D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira vencer o Cabo e achar a India, mas não conseguira decifrar o enigma, que a este tempo já contava tres seculos de successivas indagações.
Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a decifração do outro enigma, ainda maior—o do Mar Tenebroso. Pouco faltava já;{pg. 218} e em vinte annos mais, não haveria, na rotunda superficie do globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta amplidão dos mares. «Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da terra e os mysterios e enganos do oceano», os portuguezes, com uma curiosidade heroica, tomaram em suas mãos o futuro da Europa, e do mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral, que para lá fôra mandado com uma imponente esquadra, não resiste á tentação da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direcção de leste, uma pergunta incessante o persegue: que haverá para o poente? Para esse lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haverá mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a vêr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com effeito, descobriu o
Brazil;[79] a terra de oeste vinha, desde o extremo norte até ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios. Só então a America se pôde dizer inteiramente descoberta.
A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na côrte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e, contadas, enchiam de cubiça o espirito de toda a gente. Cabral fôra mandado a isso, e não a descobrir terras: já eram demais as Cruzes, e os nomes do repertorio escasseavam já para denominar ilhas e cabos, portos e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras esperanças:{pg. 219}
«Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Além da necessidade de mostrar ao Çamorim perfido o poder do rei de Portugal, era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. Não podia ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingança.
Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande armada á India; porque agora, sabido o caminho, não havia mais receios, nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotação dos navios. Pedro Alvares Cabral fôra nomeado almirante da frota, que contava treze náus, e levava mil e duzentos homens.
A construcção dos navios tinha progredido com a frequencia e extenção das viagens. Naus e galés, embarcações de vela e remo, tinham-se preparado melhor, augmentando em dimensões. No primeiro quartel do XVI seculo, porém, quando a avidez commercial não pervertia ainda a prudencia, a lotação ordinaria não excedia 400
toneladas.[80] A náu navegava á vela, jogando dos costados a artilheria, no convez ou sob a coberta. Á pôpa e prôa, nos castellos, luxuosamente ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhões; e nos cestos de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os mosqueteiros, e se passava á abordagem dos navios inimigos. Muitas{pg. 220} náus andavam munidas de rostos ou esporões de aço nas prôas, para a investida. As galés, navios de remo, dividiam-se em bastardas e subtis: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peças grossas; as segundas de 25 bancos e 5 peças apenas. A artilheria grossa jogava sómente á prôa, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porém, umas peças menores, a que se chamava berços. Havia, além d'isto, as fustas, galés pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas peças grossas. As galés, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um só. Havia, porém, galés que, por se approximarem mais da armação das náus, se diziam bastardas: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas redondas, e cestos de gavea, como as náus.
A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de março do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os viradores nos cabrestantes, melopêa triste e funebre como o mar; o surdo roçar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nação que tambem partia, no anno de 500, já confessada e bem disposta, para essa longa viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como é o mar, mudo como elle é nas calmas funebres dos tropicos.
Não havia protestos agora, senão esperanças, cubiças, ambições. Não partiam á aventura; partiam á conquista do que tinham descoberto, e queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o capitão levava cartas solemnes do{pg. 221} rei para o Çamorim. Em troca d'ellas, da sua alliança, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de Deus!
Já na praia começava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa religião do commercio, erguido a Jesus e á Pimenta —os dois deuses que viviam no céu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados, mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.
O almirante acaso pensava, já no Tejo, n'esse rumo de Oeste, o de Colombo, que o levaria á America; e porventura acreditava pouco na existencia do lendario Preste-Joham, por cuja causa tantas viagens se tinham feito. Não o mandavam descobrir, mandavam-no conquistar; mas elle queria tambem inscrever o seu nome na lista dos que, durante o seculo anterior, tinham pouco a pouco rasgado as trevas do mar mysterioso. A sua viagem, além de iniciar o dominio portuguez na India, teve, com effeito, as duas consequencias desejadas. Varreu as duas lendas, a do Preste e a do Mar Tenebroso: descobriu o Brazil, e veiu dizer a D. Manuel que o supposto imperador do Oriente era um miseravel rei preto, infiel, acantonado nas montanhas invias da Abyssinia.
Atraz de uma lenda, attrahido por uma voragem, Portugal descobrira os continentes e ilhas do Atlantico e chegára á India. Por uma illusão, consummára a realidade que espantava o mundo inteiro. O mundo é uma miragem, e os homens sombras levadas pelos sabios ventos do destino...
Reconhecidas as terras, sulcados os mares, por occidente e por oriente, faltava porém ainda reunir essas duas metades do mundo conhecido, e dar-lhe a volta, para se saber que cabia todo, inteiro, nas{pg. 222} mãos do homem: eis ahi o valor da viagem de Magalhães, vinte annos mais tarde.
Não ha mais trevas no mar; consummou-se a grande conquista. Mas uma nova empreza se desenha agora: devorar o descoberto, digerir o mundo.
Portugal inteiro embarca para a India na esquadra de Cabral[81]. {pg. 223}
[75] V. Regime das riquezas, p. 109.
[76] V. Hist. da repub. romana, p. I, XIX, intr.
[77] V. Regime das riquezas, pp. 85-6.
[78] V. nas Raças humanas, a ethnographia do Oriente a pp. 70-85, 90-105 e 122-41 do vol. I.
[79] V. no Brazil e as colon. port. p. 3 (2.ª ed.) a descoberta das costas brazileiras.
[80] V. no Brazil e as colonias port. (2.ª ed.) a composição typo de uma nau da India, a p. 34 nota.
[81] Hist. da republ. romana, I, pp. 217-8.