Infância
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Nuvens
prim eira coisa que guardei na m em ória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitom bas, escondido atrás de um a porta. Ignoro onde o vi, A quando o vi, e se um a parte do caso rem oto não desaguasse noutro posterior, j ulgá-lo-ia sonho. Talvez nem m e recorde bem do vaso: é possível que a im agem , brilhante e esguia, perm aneça por eu a ter com unicado a pessoas que a confirm aram . Assim , não conservo a lem brança de um a alfaia esquisita, m as a reprodução dela, corroborada por indivíduos que lhe fixaram o conteúdo e a form a. De qualquer m odo a aparição deve ter sido real. Inculcaram -m e nesse tem po a noção de pitom bas — e as pitom bas m e serviram para designar todos os obj etos esféricos. Depois m e explicaram que a generalização era um erro, e isto m e perturbou.
Houve um a segunda aberta entre as nuvens espessas que m e cobriam : percebi m uitas caras, palavras insensatas. Que idade teria eu? Pelas [pág. 009]
contas de m inha m ãe, andava em dois ou três anos. A recordação de um a hora ou de alguns m inutos longínquos não m e faz supor que a m inha cabeça fosse boa. Não. Era, tanto quanto posso im aginar, bastante ordinária. Creio que se tornou um a péssim a cabeça. Mas daquela hora antiga, daqueles m inutos, lem bro-m e perfeitam ente.
Achava-m e num a vasta sala, de paredes suj as. Com certeza não era vasta, com o presum i: visitei outras sem elhantes, bem m esquinhas. Contudo pareceu-m e enorm e. Defronte alargava-se um pátio, enorm e tam bém , e no fim do pátio cresciam árvores enorm es, carregadas de pitom bas. Alguém m udou as pitom bas em laranj as. Não gostei da correção: laranj as, provavelm ente j á vistas, nada significavam .
A sala estava cheia de gente. Um velho de barbas longas dom inava um a negra m esa, e diversos m eninos, em bancos sem encostos, seguravam folhas de papel e esgoelavam -se:
— Um b com um a — b, a: ba; um b com um e — b, e: be.
Assim por diante, até u. Em escolas prim árias da roça ouvi cantarem a soletração de várias m aneiras. Nenhum a com o aquela, e a toada única, as letras e as pitom bas convencem -m e de que a sala, as árvores, transform adas em laranj eiras, os bancos, a m esa, o professor e os alunos existiram . Tudo é bem nítido, m uito m ais nítido que o vaso. Em pé, j unto ao barbado, um a grande m oça, que para o futuro adquiriu os traços de m inha irm ã natural, tinha nas m ãos um folheto e gem ia:
— A, B, C, D, E.
De repente m e senti longe, num fundo de casa, m as ignoro de que j eito m e levaram para lá, [pág. 010] quem m e levou. Dois ou três vultos desceram ao quintal, de terra verm elha m olhada, alguém escorregou, abriu no chão um risco profundo. Mandaram -m e descer tam bém . Resisti: o degrau que m e separava do terreiro era alto dem ais para as m inhas pernas. Transportaram -m e — e adorm eci, não cheguei a pisar no barro verm elho. Acordei num a espécie de cozinha, sob um teto baixo, de palha, entre hom ens que vestiam cam isas brancas. Um deles perguntou com o se havia de assar o bacalhau e outro respondeu:
— Faz-se um graj au de m adeira.
Graj au? Que seria graj au? Tornei a m ergulhar no sono, um sono extenso.
Disseram -m e depois que a escola nos servira de pouso num a viagem .
Tínham os deixado a cidadezinha onde vivíam os, em Alagoas, e entrávam os no sertão de Pernam buco, eu, m eu pai, m inha m ãe, duas irm ãs. Mas pai e m ãe, entidades próxim as e dom inadoras, as duas irm ãs, um a natural, m ais velha que eu, a outra legítim a, direita, dois anos m ais nova, eram m anchas paradas.
Positivam ente havia pitom bas e um vaso de louça, esguio, oculto atrás de um m óvel a que a experiência deu o nom e de porta. Surgiram repentinam ente a sala espaçosa, o velho, as crianças, a m oça, bancos, m esa, árvores, suj eitos de cam isas brancas. E sons estranhos tam bém surgiram : letras, sílabas, palavras m isteriosas. Nada m ais.
E a hibernação continuou, inércia raram ente perturbada por estrem ecim entos que m e aparecem hoj e com o rasgões num tecido negro.
Passam através desses rasgões figuras indecisas: Am aro Vaqueiro, caboclo triste, encourado num gibão roto; [pág. 011] Sinha Leopoldina, com panheira dele, vistosa na chita cor de sangue; m ulheres que fum avam cachim bo. Mais vivo que todos, avulta um rapagão aprum ado e forte, de olhos claros, risonho.
Calçava alpercatas, vestia a cam isa branca de algodão que usa o sertanej o pobre do Nordeste, áspera, encardida, ordinariam ente desabotoada, as pontas das aberturas laterais presas em dois nós. Cham ava-se José Baía e tornou-se m eu am igo, com barulho, exclam ações, onom atopéias e gargalhadas sonoras.
Sentado, escanchava-m e nas pernas e sacudia-m e, sapateava, im itando o galope de um cavalo; em pé, segurava-m e os braços, punha-se a rodopiar, cantando:
Eu nasci de sete meses,
Fui criado sem mamar.
Bebi leite de cem vacas
Na porteira do curral
Quando m e soltava, eu cam baleava, zonzo. Um dia, livre dos giros vertiginosos, saí aos tom bos, esbarrei com um esteio e ganhei um calom bo grosso na testa.
Datam desse tem po as m inhas m ais antigas recordações do am biente onde m e desenvolvi com o um pequeno anim al. Até então algum as pessoas, ou fragm entos de pessoas, tinham -se m anifestado, m as para bem dizer viviam fora do espaço. Com eçaram pouco a pouco a localizar-se, o que m e transtornou.
Apareceram lugares im precisos, e entre eles não havia continuidade. Pontos nebulosos, ilhas esboçando-se no universo vazio.
A cabeçada valente que dei, solto das garras de José Baía, firm ou o copiar, sustentado por colunas [pág. 012] robustas, de aroeira ou sucupira. Ali perto era a sala, de j anelas sem pre fechadas, arm as de fogo e instrum entos agrícolas pelos cantos, arreios suspensos em ganchos, teias de aranha, a rede segura em arm adores de pau, grosseiros caixões verdes, depósitos de cereais, se não m e engano. No corredor desem bocavam cam arinhas cheias de treva e a sala de j antar. A cozinha desapareceu, m as o quintal subsiste, duro e nu, sem flores, sem verdura, tendo por único adorno, ao fundo, j unto a m ontes de lixo, um pé-
de-turco, ótim o para a gente se esconder nas perseguições. Desse lado o pé-de-turco m arcava o lim ite do m undo. Do outro lado a terra se estendia por longas distâncias. A casa, de m aterial rij o, estava com pleta por dentro. Mas exteriorm ente havia nela singularidades. O oitão esquerdo era de altura incrível; à direita faltava oitão, não sei com o o telhado podia equilibrar-se. Talvez currais e chiqueiros, construídos na vizinhança, ocultassem um dos m uros. Chiqueiros e currais esvaíram -se.
Durante um redem oinho brabo notei esquisitices. Nuvens de poeira enrolaram -se em briga feia, escureceu, um rum or diferente dos outros rum ores cresceu, espalhou-se, e no m eio da terrível desordem um couro de boi espichado quebrou o relho que o am arrava a um galho e voou no turbilhão. Um a senhora m agra, m inha indistinta m ãe, tentou com desespero fechar um a porta balançada pela ventania. Folhas e garranchos entraram na sala, um bicho zangado soprou ou assobiou, a m ulher agitou-se pendurada na chave. Findo o despropósito, vi a pessoinha com a m ão envolta em panos. Um dedo inchou dem ais, e foi necessário que lhe [pág. 013] cortassem o anel com lim a. Em seguida perdi a m oça de vista. E a letargia continuou.
O pátio, que se desdobrava diante do copiar, era im enso, j ulgo que não m e atreveria a percorrê-lo. O fim dele tocava o céu. Um dia, entretanto, achei-m e além do pátio, além do céu. Com o cheguei ali não sei. Hom ens cavavam o chão, um buraco se abria, m edonho, precipício que m e encolhia apavorado entre m ontanhas erguidas nas bordas. Para que estariam fazendo aquela toca profunda? Para que estariam construindo aqueles m ontes que um pó envolvia com o fum aça? Retraí-m e na adm iração que m e causava o extraordinário form igueiro. As form igas suavam , as cam isas brancas tingiam -se, enegreciam , ferram entas cravavam -se na terra, outras j ogavam para cim a o nevoeiro que form ava os m orros.
Nova solução de continuidade. As som bras m e envolveram , quase im penetráveis, cortadas por vagos clarões: os brincos e a cara m orena de Sinha Leopoldina, o gibão de Am aro Vaqueiro, os dentes alvos de José Baía, um vulto de m enina bonita, m inha irm ã natural, vozes ásperas, berros de anim ais ligando-se à fala hum ana. O m oleque José ainda não se tinha revelado. Meu pai e m inha m ãe conservavam -se grandes, tem erosos, incógnitos. Revej o pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, m ãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, batecum de sapatões no tij olo gasto. Retalhos e sons dispersavam -se. Medo. Foi o m edo que m e orientou nos prim eiros anos, pavor. Depois as m ãos finas se afastaram das grossas, lentam ente se delinearam dois seres que m e im puseram obediência e respeito. Habituei-m e a essas m ãos, cheguei [pág. 014] a gostar delas. Nunca as finas m e trataram bem , m as às vezes m olhavam -se de lágrim as — e os m eus receios esm oreciam . As grossas, m uito rudes, abrandavam em certos m om entos.
O vozeirão que as com andava perdia a aspereza, um riso cavernoso estrondava
— e os perigos ocultos em todos os recantos fugiam , deixavam em sossego os viventes m iúdos: alguns cachorros, um casal de m oleques, duas m eninas e eu.
De repente surgiu a terceira irm ã, insignificância, nos braços de Sinha Leopoldina. Não fiz caso disso.
O que então m e pasm ou foi o açude, m aravilha, água infinita onde patos e m arrecos nadavam . Surpreenderam -m e essas criaturas capazes de viver no líquido. O m undo era com plicado. O m aior volum e de água conhecido antes continha-se no boj o de um pote — e aquele enorm e vaso m etido no chão, coberto de folhas verdes, flores, aves que m ergulhavam de cabeça para baixo, desarranj ava-m e a ciência. Com dificuldade, estabeleci relação entre o fenôm eno singular e a cova fum acenta. Esta, porém , fora aberta num a região distante, e o açude se estirava defronte da casa. Estava ali, m as tinha caprichos, m udava de lugar, não se aquietava, era um a coisa vagabunda.
A vazante das abóboras, por exem plo, ficava longe. Sozinho, não m e seria possível atingi-la. Dez ou vinte aboboreiras na terra de aluvião. Am aro havia dito que um a bastava. Se o inverno viesse, aquele despotism o seria estrago; chegando a seca, não se colheria um fruto, ainda que enterrassem na lam a todas as sem entes. Meu pai desprezou o conselho do caboclo — e o resultado foi um a praga de abóboras. A princípio uns cordõezinhos se torceram na vaza, enfeitaram -se de botões [pág. 015] am arelos, de pequenas cabaças. Um hom em carrancudo exam inava-as, m archando vagaroso. Era um m eu tio, hóspede, convidado para ser padrinho da insignificância que berrava nos cueiros.
Ofereceu-m e um a caixa de fogos de artifícios, desapareceu — e no ponto onde o conheci as vergônteas floridas engrossaram , tornaram -se cordas robustas, peludas. E as abóboras cresceram , tantas que a gente andava na roça pisando em cim a delas. Juntavam -se, enganchavam -se duas, três, num bloco, figuravam bela calçada m ovediça. Os caçuás enchiam -se. Acom odava-m e num a carga e lá nos íam os sacolej ando, eu e o anim al, em cam inhos esburacados. Abarrotaram -se os caixões da sala, fizeram -se tulhas no alpendre, nos quartos. E a produção levantava-se, espalhava-se, desvalorizada. Escancararam -se afinal as porteiras, houve licença para que toda a gente se abastecesse. Franqueza vã: saciada a população escassa, em panzinada a m eia dúzia de porcos da fazenda, a safra inútil apodreceu no cam po.
Nesse tem po m eu pai e m inha m ãe estavam caracterizados: um hom em sério, de testa larga, um a das m ais belas testas que j á vi, dentes fortes, queixo rij o, fala trem enda; um a senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sem pre a m exer-se, bossas na cabeça m al protegida por um cabelinho ralo, boca m á, olhos m aus que em m om entos de cólera se inflam avam com um brilho de loucura. Esses dois entes difíceis aj ustavam -se. Na harm onia conj ugai a voz dele perdia a violência, tom ava inflexões estranhas, balbuciava carícias decentes. Ela se am aciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que nos batiam no cocuruto, dobrados, e tinham dureza de m artelos. Qualquer futilidade, porém , ranger de [pág. 016] dobradiça ou choro de criança, lhe restituía o azedum e e a inquietação.
Zangava-se ouvindo alguém afastar-se da sua prosódia curiosa. Suponho que nunca houve outra igual. A sintaxe e o vocabulário tam bém diferiam bastante do que usam os com um ente. Nessa linguagem capenga, D. Maria m atracava um longo rom ance de quatro volum es, lido com apuro, relido, pulverizado, e contos que m e pareciam absurdos. De um deles ressurgem vagas expressões: tributo, papa-rato, m aluquices que vêm , fogem , tornam a voltar.
Tento arredá-las, pensar no açude, nos m ergulhões, nas cantigas de José Baía, m as os disparates m e perseguem . Lentam ente adquirem sentido e um a historieta se esboça:
Acorde, seu papa. ..
Papa quê? Julgo a princípio que se trata de papa-figo, vej o que m e engano, lem bro-m e de papa-rato e finalm ente de papa-hóstia. É papa-hóstia, sem dúvida:
Acorde, seu Papa-hóstia,
Nos braços de...
Nova pausa. Três ou quatro sílabas m anhosas dissim ulam -se obstinadas.
Despontam algum as, que experim ento e abandono, im prestáveis. Enquanto procuro desviar as idéias, a im pertinência se insinua no m eu espírito, arrasta-m e para a sala escura, cheia de abóboras. Subitam ente as fugitivas aparecem e com elas o início da narrativa:
Acorde, seu Papa-hóstia,
Nos braços de Folgazona. [pág. 017]
Aí tem os um a alteração:
Levante, seu Papa-hóstia,
Dos braços de Folgazona.
Outra em enda. O hábito de corrigir a língua falada instiga-m e a consertar o prim eiro verso:
Levante-se, Papa-hóstia.
Vacilo um m inuto, buscando cá por dentro a form a exata da com posição.
Persuado-m e enfim de que m inha m ãe dizia:
Levante, seu Papa-hóstia.
E repete-se a aventura seguinte, que D. Maria recitava em balando-se na rede, perto dos caixões verdes. Um m enino pobre foi recebido caridosam ente em casa de certo Vigário am ancebado. Tem endo ver na rua os seus podres, o Reverendo ensinou ao pequeno um a gíria extravagante que baldaria qualquer indiscrição possível. Afirm ou que se cham ava Papa-hóstia e à am ante deu o nom e de Folgazona; gato era papa-rato, fogo era tributo. Esqueci o resto, e não consigo adivinhar por que razão tributo serviu para designar fogo. Seguros de que o rapaz não os denunciaria, o padre e a rapariga com eçaram a m altratá-lo.
Não se m encionou o gênero dos m aus tratos, m as calculei que deviam assem elhar-se aos que m eus pais m e infligiam : bolos, chicotadas, cocorotes, puxões de orelhas. Acostum aram -m e a isto m uito cedo — e em conseqüência adm irei o m enino pobre, que, depois de num erosos padecim entos, realizou feito notável: prendeu no rabo de um gato um pano em bebido em querosene, acendeu-o, escapuliu-se gritando: [pág. 018]
Levante, seu Papa-hóstia,
Dos braços de Folgazona.
Venha ver o papa-rato
Com um tributo no rabo.
Falta m eia dúzia de linhas, não chego a reconstituí-las. Sei que, tendo-se queim ado roupas e m óveis, a história finda assim , furiosam ente:
Acuda com todos os diabos.
Esta obra de arte popular até hoj e se conservou inédita, creio eu. Foi um a dificuldade lem brar-m e dela, porque a façanha do garoto m e envergonhava talvez e precisei extingui-la. Ouvindo a m odesta epopéia, com certeza desej ei exibir energia e ferocidade. Infelizm ente não tenho j eito para violência.
Encolhido e silencioso, agüentando cascudos, lim itei-m e a aprovar a coragem do m enino vingativo. Mais tarde, entrando na vida, continuei a venerar a decisão e o heroísm o, quando isto se grava no papel e os gatos se transform am em papa-ratos. De perto, os indivíduos capazes de am arrar fachos nos rabos dos gatos nunca m e causaram adm iração. Realm ente são espantosos, m as é necessário vê-
los a distância, m odificados. [pág.019]
Manhã
ERGULHEI num a com prida m anhã de inverno. O açude apoj ado, a roça verde, am arela e verm elha, os cam inhos estreitos m udados em M riachos, ficaram -m e na alm a. Depois veio a seca. Árvores pelaram -se, bichos m orreram , o sol cresceu, bebeu as águas, e ventos m ornos espalharam na terra queim ada um a poeira cinzenta. Olhando-m e por dentro, percebo com desgosto a segunda paisagem . Devastação, calcinação. Nesta vida lenta sinto-m e coagido entre duas situações contraditórias — um a longa noite, um dia im enso e enervante, favorável à m odorra. Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes.
Naquele tem po a escuridão se ia dissipando, vagarosa. Acordei, reuni pedaços de pessoas e de coisas, pedaços de m im m esm o que boiavam no passado confuso, articulei tudo, criei o m eu pequeno m undo incongruente. Às vezes as peças se descolocavam — e surgiam estranhas m udanças. Os obj etos se tornavam irreconhecíveis, e a hum anidade, [pág. 020] feita de indivíduos que m e atorm entavam e indivíduos que não m e atorm entavam , perdia os característicos.
Bem e m al ainda não existiam , faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecim entos, partiam sem pre de seres determ inados, com o a chuva e o sol vinham do céu. E o céu era terrível, e os donos da casa eram fortes. Ora, sucedia que m inha m ãe abrandava de repente e m eu pai, silencioso, explosivo, resolvia contar-m e histórias. Adm irava-m e, aceitava a lei nova, ingênuo, adm itia que a natureza se houvesse m odificado. Fechava-se o doce parêntese — e isto m e desorientava.
Na m anhã de inverno as cercas e as plantas quase se dissolviam , a neblina vestia o cam po, dos m ontes de lixo do quintal subia fum aça, pingos espaçados caíam das goteiras, a cruviana m ordia a gente. Sapatões de vaqueiros depositavam grossas cam adas de barro no tij olo. Roupas m olhadas deixavam m anchas largas nos bancos do copiar. As paredes úm idas enegreciam . Deitava-m e na rede, encolhia-m e, enrolava-m e nas varandas. Um candeeiro de querosene lam bia a névoa com labaredas trêm ulas.
Alguns viventes idosos chegavam , sum iam -se, tornavam a m anifestar-se depois de longas ausências. De um deles, m eu avô paterno, ficaram notícias vagas e um retrato desbotado no álbum que se guardava no baú. Legou-m e talvez a vocação absurda para as coisas inúteis. Era um velho tím ido, que não gozava, suponho, m uito prestígio na fam ília. Possuíra engenhos na m ata; enganado [pág. 021] por am igos e parentes sagazes, arruinara e dependia dos filhos. Às vezes endireitava o espinhaço, o antigo proprietário ressurgia, m as isto, rabugice da enferm idade, findava logo e o pobre hom em resvalava na insignificância e na rede. Bom m úsico, especializara-se no canto. Em recordação im precisa, revej o m ulheres aj oelhadas em redor de um oratório. Meu avô, em pé, cantava — e havia-se tornado enorm e. Com o podia um a pessoa gritar de sem elhante m aneira? A grandeza e a harm onia singular hoj e desdobram a figura gem ente e m esquinha, de ordinário ocupada, apesar da m oléstia, em fabricar m iudezas. Tinha habilidade notável e m uita paciência. Paciência? Acho agora que não é paciência. É um a obstinação concentrada, um longo sossego que os fatos exteriores não perturbam . Os sentidos esm orecem , o corpo se im obiliza e curva, toda a vida se fixa em alguns pontos — no olho que brilha e se apaga, na m ão que solta o cigarro e continua a tarefa, nos beiços que m urm uram palavras im perceptíveis e descontentes. Sentim os desânim o ou irritação, m as isto apenas se revela pela trem ura dos dedos, pelas rugas que se cavam . Na aparência estam os tranqüilos. Se nos falarem , nada ouvirem os ou ignorarem os o sentido do que nos dizem . E com o há freqüentes suspensões no trabalho, com certeza im aginarão que tem os preguiça. Desej am os realm ente abandoná-lo. Contudo gastam os um a eternidade no arranj o de ninharias, que se com binam , resultam na obra torm entosa e falha. Meu avô nunca aprendera nenhum ofício. Conhecia, porém , diversos, e a carência de m estre não lhe trouxe desvantagem . Suou na com posição das urupem as. Se resolvesse desm anchar um a, estudaria facilm ente a fibra, o aro, o tecido. [pág. 022]
Julgava isto um plágio. Trabalhador caprichoso e honesto, procurou os seus cam inhos e executou urupem as fortes, seguras. Provavelm ente não gostavam delas: prefeririam vê-las tradicionais e corriqueiras, enfeitadas e frágeis. O autor, insensível à crítica, perseverou nas urupem as rij as e sóbrias, não porque as estim asse, m as porque eram o m eio de expressão que lhe parecia m ais razoável. Meu avô m aterno, alto, m agro, de cabelos e barba com o pasta de algodão, m uito se diferençava dessa criatura achacada: não desperdiçava tem po em cantiga nem se fatigava em m iuçalhas. De perneiras, gibão e peitoral, as abas do chapéu de couro, repuxado para a nuca, a em oldurar-lhe o rosto verm elho, im punha-se. A voz lenta, nasal, pigarreada pelo excesso de tabaco, rolava com um ronrom descontente que nos arranhava os ouvidos, depois se insinuava, se adocicava, tom ava a consistência de gom a. Tínham os a im pressão de que a fala ranzinza nos acariciava e repreendia. Os gestos eram vagarosos. Hom em de im enso vigor, resistente à seca, ora na prosperidade, ora no desm antelo, reconstruindo coraj oso a fortuna, em geral não se expandia. Escutava sereno as conversas, o lenço encarnado no om bro ou nos j oelhos, o olho azul perdido na capoeira fam iliar, percebendo sinais invisíveis ao observador com um . Possuía conhecim entos infusos a respeito de tudo quanto se refere a bichos: indicava com segurança as crias das vacas paridas no m ato, adivinhava o peso exato dos bois de era. Para vender o seu gado nunca precisou de balança. Esse avô bárbaro dispensava ao civilizado, artífice e cantor, exageros de atenção, em que havia talvez surpresa, desdém , o receio de m agoá-lo, estragá-lo com as m ãos duras.
[pág. 023]
Minha avó, grave, ossuda, tinha protuberâncias na testa e bugalhos severos. Anos depois contou-m e desgostos íntim os: o m arido, cium ento, afligira-a dem ais. Só aí m e inteirei de que ela havia sofrido e era boa, m as na época do ciúm e e da tortura não lhe notei a bondade.
Existia tam bém um casal de bisavós: um a santa m orena e encarquilhada, um velhinho autoritário que em birrava com m eu pai.
Além dessas pessoas e dos m oradores da fazenda, surgiam no pátio ciganos em m agotes, vaqueiros encourados, aboiando, algum raro viaj ante. Dois passageiros conservaram -se nos relatos da fam ília. O prim eiro, um cabra m acam búzio e suspeito, foi m al recebido. Minha m ãe espiou a vizinhança, buscando Am aro ou José Baía, e sentou-se num canto da sala, perto das arm as de fogo. O tipo acocorou-se à porta. E assim perm aneceram , ele ferindo a pederneira com o fuzil, chupando o cigarro, ela observando-lhe os m ovim entos, defendida pelos bacam artes, confiante na firm eza da m ão e na pontaria. À tarde o cabra m acam búzio declarou a m eu pai que a dona era reim osa.
O outro visitante apareceu duas ou três vezes, cochichou dem orado no copiar e sum iu-se levando algum as dezenas de m il-réis. Esse dinheiro significava o im posto dos proprietários rurais aos num erosos grupos de cangaceiros que percorriam o sertão, pouco exigentes com parados aos posteriores. Mediante algum as cédulas, um a novilha ou m arra, obtinham -se dedicações, am izades proveitosas. Quando nos m udam os para a vila, cinco ou seis bandoleiros que transitavam pelos arredores saíram do cam inho, em brenharam -se na catinga, para não assustar a m ulher e as crianças. [pág. 024]
Ausentes os hóspedes e os passageiros, caíam os no ram errão fastidioso.
Os m esm os trabalhos de pega, ferra, ordenha; ferrolhos rangendo pela m adrugada e ao escurecer; vozes ásperas, exigências curtas, ordens incom preensíveis. Por toda a parte despoj os de anim ais: ossos branquej ando nas veredas, caveiras de bois espetadas em estacas, couros espichados, m alas de couro, surrões de couro, roupas de couro suspensas em tornos, chocalhos com badalos de chifre, m ontes de látegos, relhos, arreios, cabrestos de cabelo.
Agora o m undo se retirava além do m onturo do quintal, m as não nos aventurávam os a penetrar nessa região desconhecida. O pé-de-turco era o m eu refúgio. As m eninas arrastavam -se no alpendre e na cozinha. O m oleque José com eçava a revelar-se. Minha irm ã natural se desenvolvia, recebendo com freqüência arranhões nos m elindres. A aversão que inspirava traduzia-se em rem oques e m uxoxos; quando tom ava feição agressiva, fazia ricochete e vinha atingir-nos. Se não existisse aquele pecado, estou certo de que m inha m ãe teria sido m ais hum ana. De fato m eu pai m ostrava com portar-se bem . Mas havia aquela evidência de faltas antigas, um a evidência forte, de cabeleira negra, beiços verm elhos, olhos provocadores. Minha m ãe não dispunha dessas vantagens. E com certeza se am ofinava, coitada, revendo-se em nós, percebendo cá fora, soltos dela, pedaços da sua carne propícia aos furúnculos. Maltratava-se m altratando-nos. Julgo que agüentam os cascudos por não term os a beleza de Mocinha. [pág. 025]
Verão
ESSE antigo verão que m e alterou a vida restam ligeiros traços apenas.
E nem deles posso afirm ar que efetivam ente m e recorde. O hábito m e D leva a criar um am biente, im aginar fatos a que atribuo realidade. Sem dúvida as árvores se despoj aram e enegreceram , o açude estancou, as porteiras dos currais se abriram , inúteis. É sem pre assim . Contudo ignoro se as plantas m urchas e negras foram vistas nessa época ou em secas posteriores, e guardo na m em ória um açude cheio, coberto de aves brancas e de flores. A respeito de currais há um a estranha om issão. Estavam na vizinhança, provavelm ente, m as isto é conj ectura. Talvez até o m ínim o necessário para caracterizar a fazenda m eio destruída não tenha sido observado depois. Certas coisas existem por derivação e associação; repetem -se, im põem -se — e, em letra de form a, tom am consistência, ganham raízes. Dificilm ente pintaríam os um verão nordestino em que os ram os não estivessem pretos e as cacim bas vazias. [pág. 026]
Reunim os elem entos considerados indispensáveis, j ogam os com eles, e se desprezam os alguns, o quadro parece incom pleto.
O m eu verão é incom pleto. O que m e deixou foi a lem brança de im portantes m odificações nas pessoas. De ordinário pachorrentas, azucrinaram -se com o tanaj uras, zonzas. Findaram as longas conversas no alpendre, as visitas, os risos sonoros, os negócios lentos; surgiram rostos som brios e rum ores abafados. Enorm e calor, nuvens de poeira. E no calor e na poeira hom ens indo e vindo sem descanso, m olhados de suor, aboiando m onotonam ente.
Pela prim eira vez falaram -m e no diabo. É possível que tenham falado antes, m as foi aí que fixei o nom e deste espírito: sem conhecê-lo direito, soube que ele andava solto nos redem oinhos que varriam o pátio, m isturado a folhas e garranchos.
Um dia faltou água em casa. Tive sede e recom endaram -m e paciência. A carga de ancoretas chegaria logo. Tardou, a fonte era distante — e fiquei horas num a agonia, rondando o pote, com brasas na língua. Essa dor esquisita perturbou-m e em excesso. Nos sofrim entos habituais eu percebia gestos desarrazoados, palavras coléricas. A m inha vida era um extenso enleio que sobressaltos agitavam . Para bem dizer, eu flutuava, pequeno e leve. De repente, um choque, novos choques, estrem ecim entos dolorosos. Im possível queixar-m e agora. Não m e dirigiam am eaças, abrandavam , e as recusas apareciam quase doces. Na verdade não recusavam . Num m inuto haveria m uitos canecos de água.
Chorei, em balei-m e nas consolações, e os m inutos foram pingando, vagarosos.
A boca enxuta, os beiços gretados, os olhos turvos, queim aduras interiores.
Sono, preguiça — e estirei-m e [pág. 027] num colchão ardente. As pálpebras se alongavam , coriáceas, o líquido obsessor corria nas vozes que m e acalentavam , um edecia-m e a pele, esvaía-se de súbito. E em redor os obj etos se deform avam , trêm ulos. Veio a im obilidade, veio o esquecim ento. Não sei quanto durou o suplício.
Vivia a surpreender-m e. E as surpresas se m ultiplicavam . Am aro e José Baía, arm ados de facões, estariam enchendo cestos com pedaços de m andacaru?
Os sentidos m e diziam que sim , m as isto discordava dos serviços com uns.
Tentava esclarecer-m e, largava um a interrogação m aluca. Não indagava o m otivo de se encherem os cestos, perguntava se eles realm ente se enchiam . Caso m e confirm assem a observação, eu continuaria a im portunar os em pregados, inteirar-m e-ia de que aquilo era alim ento para os anim ais. Não m e ligavam im portância. Am aro fungava, resm ungava, franzia a cara cabeluda; José Baía pilheriava. Por quê? Não era tão fácil asseverarem que estavam cortando m andacaru nos cestos? Eu necessitava um a autoridade, um apoio. Desconfiava da coisa próxim a, vista, ouvida, pegada, m as em geral adm itia sem esforço o que m e contavam .
Aceitei, pois, o cavalo-do-cão, o bicho que o diabo m onta quando faz estrepolias pelo m undo. Há outra espécie de cavalo-do-cão, um inseto negro, de asas grandes, barulhento. O que o diabo utilizava nas viagens devia ser com o este, negro, barulhento e m uito m aior. Acreditei nele, dócil, porque o hom ônim o concreto lhe forneceu alguns caracteres, porque a voz da experiência o revelou, enfim porque nos redem oinhos que açoitavam a catinga pelada havia provavelm ente um ser furioso, soprando, assobiando, torcendo paus e rebentando galhos. [pág. 028]
Essa criatura de sonho e bagunça, um cavalo de asas, não m e causou espanto.
Espanto, e enorm e, senti ao enxergar m eu pai abatido na sala, o gesto lento. Habituara-m e a vê-lo grave, silencioso, acum ulando energia para gritos m edonhos. Os gritos vulgares perdiam -se; os dele ocasionavam m ovim entos singulares: as pessoas atingidas baixavam a cabeça, hum ildes, ou corriam a executar ordens. Eu era ainda m uito novo para com preender que a fazenda lhe pertencia. Notava diferenças entre os indivíduos que se sentavam nas redes e os que se acocoravam no alpendre. O gibão de m eu pai tinha diversos enfeites; no de Am aro havia num erosos buracos e rem endos. As nossas roupas grosseiras pareciam -m e luxuosas com paradas à chita de Sinha Leopoldina, à cam isa de José Baía, sura, de algodão cru. Os caboclos se estazavam , suavam , prendiam aram e farpado nas estacas. Meu pai vigiava-os, exigia que se m exessem desta ou daquela form a, e nunca estava satisfeito, reprovava tudo, com insultos e desconchavos. Perm anente, essa birra tornava-se razoável e vantaj osa: curvara espinhaços, retesara m úsculos, cavara na piçarra e na argila o açude que se cobrira de patos, m ergulhões e flores de baronesa. Meu pai era terrivelm ente poderoso, e essencialm ente poderoso. Não m e ocorria que o poder estivesse, fora dele, de repente o abandonasse, deixando-o fraco e norm al, um gibão roto sobre a cam isa curta.
Sentado j unto às arm as de fogo e aos instrum entos agrícolas, em desânim o profundo, as m ãos inertes, pálido, o hom em agreste m urm urava um a confissão lam entosa à com panheira. As nascentes secavam , o gado se finava no carrapato e na m orrinha. Estranhei a m orrinha e estranhei o carrapato, [pág. 029]
forças evidentem ente m aiores que as de m eu pai. Não entendi o sussurro lastim oso, m as adivinhei que ia surgir transform ação. A vila, um a loj a e dinheiro entraram -m e nos ouvidos. O desalento e a tristeza abalaram -m e. Explicavam a sisudez, o desgosto habitual, as rugas, as explosões de pragas e de inj úrias. Mas a explicação m e apareceu anos depois. Na rua exam inei o ente sólido, áspero com os trabalhadores, garboso nas cavalhadas. Vi-o arrogante, subm isso, agitado, apreensivo — um despotism o que às vezes se encolhia, im potente e lacrim oso. A im potência e as lágrim as não nos com oviam . Hoj e acho naturais as violências que o cegavam . Se ele estivesse em baixo, livre de am bições, ou em cim a, na prosperidade, eu e o m oleque José teríam os vivido em sossego. Mas no m eio, receando cair, avançando a custo, perseguido pelo verão, arruinado pela epizootia, indeciso, obediente ao chefe político, à j ustiça e ao fisco, precisava desabafar, soltar a zanga concentrada. Aperreava o devedor e afligia-se tem endo calotes. Venerava o credor e, pontual no pagam ento, econom izava com avareza.
Só não econom izava pancadas e repreensões. Éram os repreendidos e batidos.
[pág. 030]
Um cinturão
s m inhas prim eiras relações com a j ustiça foram dolorosas e deixaram -m e funda im pressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei A na qualidade de réu. Certam ente j á m e haviam feito representar esse papel, m as ninguém m e dera a entender que se tratava de j ulgam ento. Batiam -m e porque podiam bater-m e, e isto era natural.
Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puram ente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez m inha m ãe surrou-m e com um a corda nodosa que m e pintou as costas de m anchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos verm elhos.
Deitaram -m e, enrolaram -m e em panos m olhados com água de sal — e houve um a discussão na fam ília. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedim ento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-m e à toa, sem querer. Não guardei ódio a m inha m ãe: o culpado era o nó. Se não [pág. 031] fosse ele, a flagelação m e haveria causado m enor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
Meu pai dorm ia na rede arm ada na sala enorm e. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariam ente afastadas, rede infinita, os arm adores longe, e m eu pai acordando, levantando-se de m au hum or, batendo com os chinelos no chão, a cara enferruj ada. Naturalm ente não m e lem bro da ferrugem , das rugas, da voz áspera, do tem po que ele consum iu rosnando um a exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto m e trouxe a covardia habitual. Desej ei vê-lo dirigir-se a m inha m ãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosam ente fixar-m e nessa esperança frágil. A força de m eu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.
Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-m e num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não m e segurasse, tentaria escapulir-m e: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé-de-turco. Devo ter pensado nisso, im óvel, atrás dos caixões. Só queria que m inha m ãe, Sinhá Leopoldina, Am aro e José Baía surgissem de repente, m e livrassem daquele perigo.
Ninguém veio, m eu pai m e descobriu do e sem fôlego, colado ao m uro, e arrancou-m e dali violentam ente, reclam ando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, m as era difícil explicar-m e: atrapalhava-m e, gaguej ava, em brutecido, sem atinar com o m otivo da raiva. Os m odos brutais, coléricos, atavam -m e; os sons duros m orriam , desprovidos de significação. [pág. 032]
Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lem branças dela a fatos que se deram depois, im agino os berros de m eu pai, a zanga terrível, a m inha trem ura infeliz. Provavelm ente fui sacudido. O assom bro gelava-m e o sangue, escancarava-m e os olhos.
Onde estava o cinturão? Im possível responder. Ainda que tivesse escondido o infam e obj eto, em udeceria, tão apavorado m e achava. Situações deste gênero constituíram as m aiores torturas da m inha infância, e as conseqüências delas m e acom panharam .
O hom em não m e perguntava se eu tinha guardado a m iserável correia: ordenava que a entregasse im ediatam ente. Os seus gritos m e entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de sem elhante m aneira.
Onde estava o cinturão ? Hoj e não posso ouvir um a pessoa falar alto. O
coração bate-m e forte, desanim a, com o se fosse parar, a voz em perra, a vista escurece, um a cólera doida agita coisas adorm ecidas cá dentro. A horrível sensação de que m e furam os tím panos com pontas de ferro.
Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-m e na lem brança: parece que foi pregada a m artelo.
A fúria louca ia aum entar, causar-m e sério desgosto. Conservar-m e-ia ali desm aiado, encolhido, m ovendo os dedos frios, os beiços trêm ulos e silenciosos.
Se o m oleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem . O m oleque e os cachorros eram inocentes, m as não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, m eu pai m e esqueceria, deixar-m e-ia fugir, esconder-m e na beira do açude ou no quintal. [pág. 033]
Minha m ãe, José Baía, Am aro, Sinha Leopoldina, o m oleque e os cachorros da fazenda abandonaram -m e. Aperto na garganta, a casa a girar, o m eu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-m e os ouvidos — e, nesse zunzum , a pergunta m edonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão?
Dorm i m uito, atrás dos caixões, livre do m artírio.
Havia um a neblina, e não percebi direito os m ovim entos de m eu pai. Não o vi aproxim ar-se do torno e pegar o chicote. A m ão cabeluda prendeu-m e, arrastou-m e para o m eio da sala, a folha de couro fustigou-m e as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, m eu am igo, era um pobre-diabo.
Achava-m e num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse erm o, recordo-m e de cem itérios e de ruínas m al-assom bradas.
Cerravam -se as portas e as j anelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres m inha irm ãzinha engatinhava, com eçava a aprendizagem dolorosa.
Junto de m im , um hom em furioso, segurando-m e um braço, açoitando-m e. Talvez as vergastadas não fossem m uito fortes: com paradas ao que senti depois, quando m e ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certam ente o m eu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala com o carrapeta, eram m enos um sinal de dor que a explosão do m edo reprim ido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulm ões, m ovia-m e, num desespero.
[pág. 034]
O suplício durou bastante, m as, por m uito prolongado que tenha sido, não igualava a m ortificação da fase preparatória: o olho duro a m agnetizar-m e, os gestos am eaçadores, a voz rouca a m astigar um a interrogação incom preensível.
Solto, fui enroscar-m e perto dos caixões, cocar as pisaduras, engolir soluços, gem er baixinho e em balar-m e com os gem idos. Antes de adorm ecer, cansado, vi m eu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando um a tira de sola, o m aldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resm ungou e entrou a passear agitado. Tive a im pressão de que ia falar-m e: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esm oreceram , procuraram o refúgio onde m e abatia, aniquilado.
Pareceu-m e que a figura im ponente m inguava — e a m inha desgraça dim inuiu. Se m eu pai se tivesse chegado a m im , eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sem pre m e deu. Não se aproxim ou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espum ando. E ali perm aneci, m iúdo, insignificante, tão insignificante e m iúdo com o as aranhas que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o prim eiro contacto que tive com a j ustiça. [pág. 035]
Um a bebedeira
NDAMOS cerca de duas léguas a cavalo: m inha m ãe posta de m eia esguelha, envolta na saia com prida e larga, um a perna presa no gancho A do silhão; m eu pai todo pachola, boa lança nas cavalhadas, viaj ando no preceito, com o quem executa um dever; eu seguro por ele, na m açaneta da sela, porque era pequeno dem ais e não m e agüentava na garupa do anim al.
Íam os visitar um fazendeiro vizinho, hom em considerável, de hábitos que m ereciam a reprovação da gente cautelosa. Nesse dia não o percebi direito.
Avistei-o alguns anos depois, na vila próxim a, de calça branca, paletó de casim ira, chapéu do Chile, botinas lustrosas, guarda-chuva caro, um a libra esterlina pendurada no correntão de ouro, escandalosam ente próspero. E, ao cabo de longo intervalo, encontrei-o de novo, m uito por baixo, carregando na aguardente, j ogando baralho com polícias em balcões de bodegas e em calçadas.
Meus parentes, econôm icos em excesso, atribuíam esse [pág. 036] desm antelo ao guarda-chuva e à libra esterlina. E tam bém às superfluidades que nos exibiu naquela m anhã de verão: m óveis esquisitos; redes alvas, de varanda, grossas e m acias, trabalhadas com o rendas; panos lim pos, cheirosos; a garrafinha verm elha, na salva, rodeada de cálices, obj etos que m e provocaram adm iração.
No m eio estranho encabulei — e isto m e atenazava. Ainda isento de com prom issos, m urchava diante de pessoas desconhecidas. Com certeza j á m e haviam habituado a j ulgar-m e um ente m esquinho. A m inha roupa curta era chinfrim . Tentei esconder-m e, arrastei-m e sob os punhos das redes, coxeando, tropeçando, que os sapatos m e aperreavam . Em casa eu usava alpercatas — dois pedaços de sola e correias. Quando m e im punham sapatos, era um a dificuldade: os pés form avam bolos, recalcitravam , não queriam m eter-se nas prisões duras e estreitas. Arrum avam -se à força, e durante a resistência eu ouvia berros, suportava tabefes e chorava. Um par de borzeguins am arelos, um par de infernos, m arcou-m e para toda a vida.
Ignoro com o chegam os à fazenda: as m inhas recordações datam da hora em que entram os na sala. Meu pai e o proprietário sum iram -se, foram cuidar de negócios, num a daquelas conversas cheias de gritos. Minha m ãe e eu ficam os cercados de saias.
As paredes eram brancas e talvez tenham concorrido para m e agravar o em baraço. Defronte da casa um carro de bois descansava sob a ram agem quase sem folhas de um a árvore alta. Desinteressei-m e do carro de bois, igual a outros j á vistos, m as desej ei que m e explicassem a árvore pelada, m uito diferente do pé-de-turco do m eu quintal. Guardei [pág. 037] silêncio, tem eroso, aluí num canto da parede, longe das saias. Minha m ãe, entre elas, estava im portante. Não reparei na im portância: os sapatos faziam -m e esquecer o carro de bois, as redes, as m ulheres que adulavam m inha m ãe, desprezando-a. Julgo que ela se chateava com as gentilezas. Não as entendia e bocej ava de leve, sisuda, ausente dos que se esforçavam por obsequiá-la. Havia, um a senhora idosa e várias m oças: um a grande, m orena, bulhenta, outras que se escondiam por detrás dela, secundárias, hoj e obliteradas. Riam , m exiam , anim avam -se.
Não sei com o de repente m e vi no m eio do bando rum oroso: sei que m e afastaram da parede e os sapatos deixaram de m agoar-m e os dedos e os calcanhares. Escancharam -m e num a das redes, perto da senhora velha, e penso que m e consideraram digno de interesse. Aí trouxeram a bandej a, a garrafinha de licor e os cálices. Minha m ãe tocou a linha esquiva dos beiços naquela surpresa que tingia a substância rara, cruzou as m ãos, franziu a boca num a tentativa de agradecim ento. Com rigor, não m e seria possível afirm ar que tais gestos se realizaram . Surpreendi-os, contudo, em visitas posteriores e arrisco-m e a referi-los. Os dedos finos e nodosos j untavam -se, inofensivos; os lábios duros contraíam -se, m udos; os olhos se esbugalhavam , parados, frios, indecisos.
O que nessa figura m e espantava era a falta de sorriso. Não ia além daquilo: duas pregas que se fixavam num a careta, os beiços quase inexistentes repuxando-se, sem elhantes às bordas de um caneco am assado. Assim perm anecia, contendo bocej os indiscretos. Miúda e feia, devia inquietar-se, desconfiar das am abilidades, recear m istificações. Quando cresci e tentei agradá-
la, recebeu-m e suspeitosa e hostil; se m e acontecia concordar com ela, m udava de opinião e largava m uxoxos desesperadores. [pág. 038]
[pág. 039] im agem
[pág. 040] em branco
Quem m e deu o prim eiro cálice de licor foi a m orena vistosa, m as não sei quem deu o segundo. Bebi vários, bebi o resto da garrafa. Com portei-m e indecentem ente, perdi a vergonha, achei-m e à vontade, falando m uito, desvariando e exigindo licor. Um a das m oças trouxe-m e um copo de vinho com m el. Minha m ãe enferruj ou a cara, estirou o braço enérgico, m as naquele m om ento eu desafiava as oposições. Através de um a neblina, distinguia form as vagas e inconsistentes. Repeli a m ão que avançava para m im , tom ei o copo. Daí em diante, até que adorm eci, o tem po desapareceu. Certos porm enores avultaram , com certeza se dissiparam casos apreciáveis. Ganhei coragem de supetão, os perigos se esvaíram . Fortaleci-m e, percebi aliados nas criaturas que m e rodeavam .
Um a se distinguia, m orena, grande, verm elha, risonha, barulhenta.
Senhorinha. Vinte anos depois, ao saber que ela havia dado com os burros na água, afligi-m e. Arruinou, provavelm ente acabou depressa. A honra sertanej a encolheu-se, um a tradição reduziu-se a cacos. Todavia continuarão a espalhar m entiras na cidade. A literatura popular e os cancioneiros m atutos gastar-se-ão repisando cam poneses brabos e vingativos, donzelas ingênuas, puras dem ais.
Engano. Senhorinha, educada perto do curral, conhecia os m istérios da procriação e era sim ples. Filha de proprietário, subm eteu-se à honestidade e aguardou casam ento. Mas as dívidas se avolum aram , a fazenda se despovoou, tom baram as cercas, o coronel, sem correntão nem guarda-chuva, aderiu à canalha — e Senhorinha renunciou [pág. 041] à virtude, infringiu a m oral, curvou-se à lei do instinto.
Bonitona. Avizinhei-m e dela com im pudência cam arada, esfreguei-m e.
Essa precisão de receber carícias de um a pessoa do outro sexo surgiu-m e de golpe, estim ulada pelo álcool.