Infância

Graciliano Ramos · Capítulo 2 de 2 · parte 1/4

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Infância

A letra D quer dizer — donzela amada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A letra E quer dizer — és uma imagem;

A letra F quer dizer — formosa deusa.

Em vez de efe, m inha m ãe pronunciava fê, o que decerto convinha ao últim o verso, e rem atava-o com formosa deus, pois não adm itia divindade fêm ea além da Virgem Maria. Insinuei-lhe m ais tarde que tam bém se podia usar efe. E

a donzela am ada era um a deusa, na opinião do poeta. Enj oou-se, considerou as novidades im pertinências. A lengalenga se arrastava por todo o alfabeto. Quase todo o alfabeto: im possível encaixar a bela adorada no K e no Y.

A segunda com posição referia-se a episódios da chegança, briga de m ouros e crentes verdadeiros, m as tinha o nom e de m aruj ada e encerrava diversas interpolações. Acom odara-se a epopéia à cantiga.

Mestre piloto,

Onde está o seu juízo?

Por causa de sua cachaça

Todos nós estamos perdidos.

A cantora se interrom pia, descrevia a cena: oficiais indignados, m estre piloto aos bordos, levando à boca o gargalo de um a garrafa. A agitação dim inuía. Agora os m arinheiros se esgoelavam :

O capitão cheira a cravo;

O mar-e-guerra, a canela;

O pobre do cozinheiro

Fede a tisna de panela,

Aí havia um a deturpação: m ar-de-guerra. Eu tinha idéia de m ar, açude infinito, e im aginava [pág. 143] guerra, barulho m ultiplicado, m as não chegava a perceber um a guerra dona do m ar. Esquisito. Na com prida noite esforçava-m e por decifrar esse desconchavo. O pensam ento divagava, escorregava de um assunto a outro, buscava segurar-se a paredes negras.

Na Rua da Palha, m eninos cantavam a tabuada, adquiriam as virtudes teologais, fugiam dos inim igos da alm a, detinham -se em bonitas estam pas coloridas, recitavam o caso de um a ferradura achada, vendida, substituída por um cacho de cerej as. Quando a réstia chegasse ao risco do lápis que m arcava duas horas, todos se levantariam , sairiam pelas ruas em algazarra. Nunca m e agitaria assim .

Um dia as trevas se adelgaçavam , pedaços do m undo apareciam -m e confusos na m adrugada nebulosa. Queria fixar-m e neles, cheio de alegria louca, a pestanej ar furiosam ente. Voltava às ocupações m iúdas, às brincadeiras m ornas e tranqüilas. Já não era cabra-cega. Mas perm anecia bezerro-encourado. Em silêncio, resvalava na tristeza e no desânim o. Osório e Cecília falavam com segurança e clareza, liam depressa, distanciavam -se. Os m eus desgraçados olhos vagueavam na página am arelada, m olhavam os contos execráveis do Barão de Macaúbas. Os dedos em perrados m anchavam -se de tinta, suj avam o papel, traçavam garranchos ilegíveis fora das linhas. Não havia m eio de ir para diante.

E m eses depois, nova pausa, novo m ergulho na som bra. Movia-m e penosam ente pelos cantos, infeliz e cabra-cega, contentando-m e com m igalhas de sons, farrapos de im agens, dolorosos. [pág. 144]

Chico Brabo

que m ais m e desagradava naqueles dias de cegueira periódica era a fala de Seu Chico Brabo, o vizinho da direita. A m inha cam a de lona, O encostada à parede que nos separava do beco, estava perto da fam ília Sabiá. A casa de Seu Chico Brabo distanciava-se: havia de perm eio a sala de j antar e a despensa. Mas quando ele falava, o bendito de D. Conceição esm orecia, findavam as conversas, os cochichos dos m oleques na cozinha, o rum or do abano, o crepitar das labaredas que lam biam o angico no fogão. Era com o se o hom em tivesse atravessado m uros e portas, estivesse ali j unto de m im . Surpreendia-m e o vozeirão trem endo, quase irreconhecível despido das gentilezas m acias que o abrandavam na calçada e na rua.

Seu Chico Brabo era solteiro, de m eia-idade, grosso, baixo, na cara balofa e am arelenta um a barba ruiva, olhos m iúdos e de porco. Não m e lem bro de tê-lo visto nas cavaqueiras de proprietários e negociantes, que, depois do Vigário e do Juiz, form avam [pág. 145] a aristocracia do lugar e m arcavam a distinção usando capotes e cache-nez de lã no inverno. Vivia m odestam ente, aparecia em m angas de cam isa, no peito descoberto um a grenha verm elhaça. Ignoro que ofício tinha. Arredio, isentava-se dos deveres sociais com sorrisos tím idos, cum prim entos, algum a frase obsequiosa.

Manipulava, drogas, possuía um a farm ácia caseira, chegava se aos doentes e m edicava-os de graça. Fazia festas às crianças, acariciava-as passando-lhes nos cabelos os dedos curtos e gordos.

Interessou-se vivam ente pela asm a de Leonor. Debruçado à j anela, conversou com m inha m ãe, pedindo notícias e dando conselhos. No dia seguinte ofereceu-lhe uns pacotinhos de pó branco. Seguindo as prescrições dele, m inha irm ã curou-se.

Na casa de Seu Chico Brabo não havia saias: todo o serviço estava a cargo de João, um garoto de dez anos, estabanado, alegre, a alm a se espelhando em duas filas de dentes largos, sem pre expostos. João preparava a com ida, trazia da feira os m antim entos, ia buscar água na cacim ba da Intendência. Da m inha cam a de inválido, eu notava pedaços do trabalho dele: m óveis deslocados, o chiar da vassoura no tij olo. De repente tudo se sum ia, dom inado pelo grito rouco e poderoso de Seu Chico Brabo:

— João! Ô João!

O rapaz se esquivava, o cham ado persistia, enérgico:

— João! Ô João!

Eu desej ava que o m enino acorresse, findasse o brado longo, a repreensão, o castigo. Se ele tardasse, o am o se zangaria, agravaria a punição. Engano. Seu Chico Brabo não se zangava: prosseguia do m esm o j eito, até que o pequeno se desentocasse [pág. 146] e fosse receber as pancadas. Essa falta de pressa nas duas partes m e alarm ava, dava-m e suores frios. Com o podia alguém conservar tranqüilidade em sem elhante situação? Quando m e acontecia, um a desgraça com o aquela, m exia-m e, na trem ura e no m edo, a tentar um a defesa im provável, a condenar-m e.

Realm ente eu não sabia se Seu Chico Brabo estava tranqüilo. Talvez houvesse nele um a cólera m aciça, inalterável. O obj eto dela ficaria escondido m uitas horas, sem aum entá-la, sem dim inuí-la. A ausência de gradação enchia-m e de pasm o, de m al-estar novo. As cinco sílabas caíam pesadas, as duas prim eiras j untas, as últim as depois de um a pausa. Arrepiava-m e, cobria as orelhas com as palm as das m ãos úm idas, torcia-m e Com desespero, m entalm ente m e dirigia a um esconderij o:

— Sai, João. Vai logo.

Certam ente aquilo era pior que todas as chicotadas. Um instante de silêncio, resfôlego encatarroado, tosse, gorgolej o de bicho frio. Na m inha im aginação um corpo lento se desenroscava, o toicinho da papada tom ava consistência, a brancura e a m oleza se coloriam . Dedos curtos se alongavam , transform avam -se em garras.

E o apelo tornava, rouco, form idável grunhido paciente de anim al forte que nunca deixa o sossego.

Bem . Agora João tinha resolvido largar o refúgio, confiar-se ao destino, m as isto não abreviava a representação. Antes de lhe tom bar no cachaço, com força de m alho, o punho cabeludo, havia um a extensa argüição, um m inucioso rol de culpas, dividido em capítulos espaçados, findos na voz im utável: [pág.

147]

— João! Ô João!

Com o se gritava daquele m odo a um a pessoa que estava ali perto, Deus do céu? Um grito longo, interrom pido, recom eçado. Na cara biliosa haveria, sem dúvida um as gotas de sangue. Isto não precipitava o desenlace: a tortura se aprofundava e alargava, m etódica. Duas m ãos inchadas seguravam braços finos, sacudiam -nos reforçando as obj urgatórias. Suponho que Seu Chico Brabo não sentia prazer em m agoar fisicam ente a criança: gostava de aperreá-la devagar, feri-la com palavras. É possível que as palavras não ferissem , resvalassem na alm a habituada às am eaças. Afinal dois ou três golpes fofos. Guinehos de um ; sopros, respiração ofegante do outro. Depois tudo se acalm ava e os rum ores com uns voltavam a em balar-m e.

No dia seguinte João estaria assobiando, cantando, arrastando as cadeiras, varrendo o tij olo. O hom em lívido espalharia as banhas de capado no peitoril da j anela, rosnaria grave e tím ido à saudação dos transeuntes, falaria às m ulheres da vizinhança, ensinando-lhes m ezinhas, prestim oso, solícito.

Duas figuras m e perseguiam na doença prolongada: o suj eito am ável, visto na rua, e a criatura feroz da sala de j antar. As discrepâncias avultavam , acum ulavam -se - e era difícil adm itir que alguém fosse tão generoso e tão cruel.

A recordação daquela doçura m ole, dos papelinhos de pó branco, dos sorrisos, trazia-m e ao espírito bondade com pleta; os urros furiosos e os sopapos descarregados em João exibiam -m e com pleta m aldade. Onde estava Chico Brabo? Qual dos dois era o verdadeiro Chico Brabo? Estarrecia-m e esse desdobram ento. Decerto havia nos filhos de Deus m uito desconchavo [pág. 148]

[pág. 149] im agem

[pág. 150] página em branco

e m uita rabugem . Poucos chegavam , com o D. Maria, a apresentar serenidade invariável, resistente a dores de barriga e enxaquecas. Mas, D. Maria, a velha professora quase analfabeta, aproxim ava-se da santidade. Os outros viventes possuíam virtudes e defeitos, com desvios e oscilações. Chico Brabo parecia-m e dois seres incom patíveis. Em vão tentei harm onizá-los. As lem branças m ultiplicavam -se, exageravam -se. Arriado na cam a de lona, as pálpebras coladas, via distintam ente um deles. Os ouvidos excitados na cegueira fixavam -m e na im aginação o segundo.

Quando a visão tornava, os dois tipos faziam as pazes, reciprocavam concessões. Os m eus olhos enchiam -se de im agens. Os m eninos de Teotoninho Sabiá esvoaçavam . José da Luz vinha contar-m e histórias. Um a porta se abria na Rua da Palha, expunha à vila a festa perm anente do j ardim florido. Nos sábados o largo se povoava de barracas; m atutos, de gibão e guarda-peito, andavam na feira, aos tropicões, as rosetas das esporas tilintando. Dom ingo, na m issa das dez, nuvens de incenso escureciam os altares, ram agens de chita e véus de noivas; repiques de sinos abafavam o burburinho da m ultidão, gritos de alm as novas a esgoelar-se na pia, batizando-se. A vila se agitava. E nessa agitação Chico Brabo se diluía, pedaços de Chico Brabo se confundiam com pedaços de outros viventes. Os m eus olhos piscos divagavam , buscando andorinhas no céu ou tropeçando na leitura.

Mas tornavam a inutilizar-se, a esconder-se, lacrim osos e supurantes, sob o pano escuro. E Chico Brabo novam ente se desagregava. A parte boa ficava lá fora, gastando-se em gentilezas, em obséquios às donas de casas, aos m eninos asm áticos. [pág. 151]

A parte ruim se concentrava na sala de j antar e dem olia João.

Se Chico Brabo tivesse criados, vaqueiros, m ulher, filhos, m oleques na cozinha, dividiria, subdividiria a zanga, distribuí-la-ia eqüitativam ente, e as parcelas nem seriam percebidas. Chico Brabo só dispunha daquela pequena subserviência. Depositava nela o veneno que produzia, purificava-se, voltava à sala, ia alagar as crianças, oferecer rem édio às vizinhas. [pág. 152]

José Leonardo

PARECIA aos sábados na feira, sob um vasto chapéu, aprum ado na carona boj uda, num a com plicação de alforj es, látegos e bagagens. Foi o A suj eito m ais digno que j á vi. Sério, de um a seriedade im óvel e de estátua, os grandes olhos claros cheios de franqueza.

Conservo a im pressão de que José Leonardo, sem se apressar, fazia tudo direito: funcionava com o um relógio, as rodas m ovendo-se regulares, os ponteiros indicando certo núm ero de deveres.

Os negociantes festej avam -no e disputavam -no. O irm ão, Antônio Freire, não ligava im portância a obrigações: vivia na rua, pedindo aqui e ali o que precisava. Toda a gente o atendia. José Leonardo pagava sem regatear, fingia não perceber aquelas descaídas, e os bodegueiros inventavam contas, sangravam -no.

Não sei com o esse hom em se aproxim ou de m im . A seriedade e o silêncio deviam afastar-nos. Trouxe-m e presentes, ficam os am igos, levou-m e ao Pico,

[pág. 153] a fazenda que possuía a duas léguas da vila. De inverno a verão, a cam pina alongava um a faixa de verdura na catinga. Longe, um serrote se erguia a prum o, esquisito m uro de pedra rem atado por unia ponta com aparência de árvore m orta. Daí, o nom e da propriedade. Corria de lá um fio de água, que não engrossava nem se reduzia. Canalizado na valeta, dom esticado na bica de m adeira, despej ava no cocho que apodrecia debaixo de um pé de j itó, excelente banheiro. Lem bro-m e do m eu prim eiro banho. No calor, o j acto frio nos acariciava. Seu Filipe Fenício esfregava-se com sabão e estava cor de alfenim .

Sacudia um a parte do corpo, com o se quisesse despregá-la. Mergulhando no tanque raso, resfolegava com o um bicho. Erguia-se, livre da espum a, lim po e fresco. Os bigodes longos derram avam -se, brancos, os pelos da barriga em aranhavam -se, brancos tam bém , e surpreendiam -m e. Eu não supunha que existissem pessoas tão cabeludas.

Do cocho a água se derram ava, corria solta na várzea, regava o canavial, de canas enorm es, único por aqueles sítios. Finda a um idade, o sertão ia surgindo, a princípio vacilante e m orno, povoado de ouricuris e caj ueiros chinfrins, depois seco e am arelo, coberto de cactos, ossadas e seixos. Aí se arrastavam as criaturas fam intas e suj as que vendiam na feira cestos de im bu e caça m iúda. Em tem po de escassez viviam disso, e com o a escassez era freqüente, em igravam , finavam -se na m iséria. Um a ou outra cabana, chiqueiros de cabras m orrinhentas, badalar triste de chocalho.

Nas m inhas viagens ao Pico, arrum ado à garupa do cavalo de José Leonardo, eu bocej ava no m orm aço, olhando a planície crestada, buscando um a folhagem de j uazeiro. De repente, fartura e [pág. 154] som bra, inalteráveis, que tinham dado ao pequeno proprietário aquela serenidade. Realm ente José Leonardo não dependia. Os fazendeiros da região subm etiam -se a alternativas: anos de abundância e anos de penúria. Às vezes a terra produzia em excesso, outras vezes não produzia nada. Dissipação, m esquinharia. E contra isso qualquer esforço era inútil.

José Leonardo não conhecia lucros desm edidos nem prej uízos. Dedicava-se a um a indústria segura, diferente da dos vizinhos, Não criava gado — e o Pico estava isento da lam a e das m oscas dos currais. Vestia pano em casa e no trabalho, coisa espantosa. Em geral só os habitantes da rua usavam tecido. Os m atutos se encouravam , m exiam -se com o tatus. Pelas redondezas para bem dizer não havia lavoura além da sovina plantação feita nas vazantes dos açudes e nas m argens gretadas dos rios periódicos. Os surrões de m ilho e feij ão, em casa de m eu avô, procediam da m ata, distante. Os hom ens ferravam , capavam , ordenhavam , retalhavam m antas de carne, curtiam , fabricavam látegos e cordas; as m ulheres enchiam potes de leite, m udavam -no em coalhada e em queij o.

No Pico não se percebia o cheiro do sangue nem a podridão das bicheiras.

E ocupações desconhecidas logo m e im pressionaram . Fiquei tem po esquecido na engenhoca, adm irando bois encangados, a m over-se em redor de um eixo, a cana a triturar-se em m oendas de pau, o caldo a esguichar num a calha que despej ava na prim eira tacha do assentam ento. Daí se baldeava a outras, em cuias presas em varas. E da terceira um m elado verm elho passava às form as, que deixavam no chão coberto de bagaço um a chusm a de rapaduras. [pág. 155]

Nunca m e havia ocorrido que as rapaduras fossem conseqüência de trabalho hum ano. Encaixadas, nas bodegas, não pareciam exigir tantos preparos.

Aquilo era um a diversão curiosa. Bonitas, cor de ouro, em pilhavam -se ainda quentes. E desej ei perm anecer ali, ao calor da fornalha, vendo a cana esm agar-se, o líquido borbulhar nas talhas, engrossar, solidificar-se.

À noite, na casa-grande, dançavam e cantavam . O luar feria pedrinhas alvas nos cam inhos. Achei que um a delas brilhava m ais que as outras — e José Leonardo obrigou-m e a aceitá-la. Conservei alguns anos a preciosidade que faiscava na treva. Num canto de parede, com o brasa perdida no borralho, avivava, em horas de aborrecim ento e dor, aquelas recordações — a faixa do canavial, água em papando a várzea, bois m ansos pezunhando na engenhoca, o m el a ferver nas tachas, danças, cantigas, a plum agem viva das araras. E

ilum inava a figura que se ia distanciando no passado, fria, digna, tranqüila.

Bondade diferente das bondades com uns. Não nos atraía, m as inspirava confiança, vencia o desgraçado acanham ento que m e em brulhava a língua, escurecia a vista, gelava as m ãos.

Fiz num erosas perguntas a José Leonardo, e ele nunca se espantou. Às vezes hesitava, procurava-m e na cara o sentido da frase obscura. E a inform ação vinha, natural e paciente. Sem m e haver im pressionado em dem asia, esse hom em deixou-m e lem brança que se estirou e m e dispôs a sentim entos benévolos.

Mudei-m e, fui viver na cidade. A pedra faiscante sum iu-se — e o m eu quarto, rezadas as orações, apagado o candeeiro de querosene, escureceu. [pág.

156] Mas a im agem serena m e acom panhou. Fixou-se na parede, à noite, perto das litografias de santos, com preensiva e generosa, sem tentar corrigir-m e, sem dar-m e os conselhos que sem pre m e aperrearam e não serviram para nada. [pág.

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Minha irm ã natural

ÍNHAMOS feito diversas viagens à fazenda de m eu avô. Naquela, a m ais im portante, dem oram os três m eses — e a fam ília ganhou um m em bro, T perdeu outro.

O ganho foi representado por um m enino chorão, que m orreu cedo. Minha m ãe deitou-se na cam a de lastro de couro cru, exilaram -m e algum as horas no bosque de catingueiras, à beira da lagoa. Quando voltei, o pequeno estava nos cueiros, de figa no braço, defum ado a alfazem a, e subm etia-se às predições de Maria Melo. Tudo se norm alizou: m inha m ãe convalesceu, os capões que engordavam no cercadinho do oitão, pegado ao j ardim , m orreram . A pessoa que desapareceu da fam ília foi Mocinha. Não sei bem se desapareceu da fam ília, m as é certo que nos deixou. Talvez não a j ulgassem parenta: as relações dela conosco eram im precisas. Antes de m eu pai casar, Mocinha lhe fora enviada por portas travessas, passara às m ãos de tia Dona, viúva pobre que vivia com êle e tinha duas filhas [pág. 158] novas. Viera o casam ento, viera a m udança, tia e prim as se haviam distanciado e Mocinha nos acom panhara ao sertão.

Era branca e forte, de olhos grandes, cabelos negros, tão bonita que duvidei ser do m eu sangue. Parece que não queriam tom ar conhecim ento dela.

Aferrolhavam -na em cam arinha tenebrosa. Natural: sem pre tivem os cam arinhas úm idas, tristes, seguras, fechadas, para as m ulheres. Sentava-se a um a canto da m esa, rezava, com ia de cabeça baixa. O constrangim ento devia torturá-la, pois no quintal, na cozinha, no alpendre, ria, cantava, entendia-se com Rosenda lavadeira. Do corredor para a sala de visitas encolhia-se, reprim ia expansões, anulava-se.

Minha m ãe tratava-a quase cerim oniosam ente. Às vezes em birrava com ela, resm ungava, largava m uxoxos — e nós, viventes fracos, m eninos e m oleques, observávam os apreensivos essas m anifestações, de agouro ruim . A Mocinha não-chegavam dissabores. Era com o estranha, hóspeda perm anente, em bora se entretivesse em serviços leves: bordava palm as e florinhas lentas em pedaços de m orim estendidos em grades, rem endava cam isas, endurecia saias brancas na gom a anilada, alisava-as a ferro num a tábua vestida em lençol, suspensa nos encostos de duas cadeiras.

Isso lhe bastava à necessidade de m ovim ento. E as exigências do espírito satisfaziam -se com m issas, novenas, terços de m aio, conversas na prensa do copiar, leitura do rom ance longo, a história de Adélia e D. Rufo. Na verdade Mocinha era m eio analfabeta, m as a narrativa, pisada e repisada, j á não apresentava obstáculo; Adélia e D. Rufo m ostravam -se. [pág. 159]

As excelências de D. Bosco, expostas nos folhetos am arelos dos Salesianos, é que se traduziam com esforço e incerteza.

Ao levantar-se e antes de encafuar-se no quarto som brio, que tinha apenas um a abertura, Mocinha se aproxim ava de m eu pai, cochichava rapidam ente. Ele

rosnava um a benção, afastava se carrancudo.

Aquilo era uni dever, dever tradicional que o lisonj eava e dim inuía.

Provavelm ente a situação do negócio (gado a m orrer, pano barato na prateleira) não lhe perm itia engendrar filhos em m uitas barrigas, fortalecer-se com o trabalho deles. Reprodutor m esquinho, suj eitava-se à m oral com um — e naquela bênção engrolada ao am anhecer e ao cair da noite havia a confissão de que lhe faltava o direito de cobrir m uitas m ulheres, gerar descendência num erosa.

Cobria e gerava, m as devagar e com m étodo. Era um patriarca refletido e oblíquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentim entais. Mocinha não representava utilidade. Valor estim ativo, de origem pecam inosa. E m eu pai tentava convencer os outros de que ela não existia.

Difícil. A intrusa se encorpava e em belezava, alargava a roupa, nam orava-se ao espelho da sala. E do espelho saltou à j anela, onde Miguel lhe foi segredar ternuras ao lusco-fusco.

Miguel, indivíduo im portante, dos m ais im portantes do lugar, não podia ligar-se decentem ente a um a filha das ervas. A gente dele, proprietária da casa de azulej os, m otivo do m eu assom bro ao apear-m e na vila, estrilou. E m eu pai estrilou tam bém , considerável e cheio de prosápias, orgulhando-se daquela preferência, m as rigoroso, intransigente. Fecharam -se e fiscalizaram -se as venezianas; estorvaram -se as relações com o exterior; a m enina, elevada [pág.

160] à categoria de pessoa, ouviu grilos, censuras ásperas, e as duas bênçãos diárias nunca m ais lhe foram concedidas.

Pensei m ais tarde nas razões que levaram m eu pai a repelir um suj eito de boa raça, influente na política local. Talvez desej asse evitar falatórios, que lhe causavam m edo. Talvez receasse assum ir responsabilidade, ir até o fim do cam inho. Nunca se com portava assim . Ordinariam ente parava, ocupado com m inúcias, e no j ogo do solo, o seu divertim ento no inverno, passava dem ais, enchia o pires de tentos, só se arriscava quando os trunfos lhe choviam nas m ãos. Tem ia vantagens, desconfiava dos lucros rápidos e fáceis, que exigem capital e coragem — e após o desastre na fazenda, bichos fam intos, m orrinha, destruição, tornara-se precavido em excesso. Realm ente era am bicioso, m as a sua am bição voava curto. Leve am or às aventuras e riscos, aventuras e riscos m edianos, o induzia a vender fiado. Tom ava todas as precauções, estudava o freguês pelo direito e pelo avesso, duplicava o preço da m ercadoria, e se a fatura se elevava um pouco, suava num a angústia verdadeira. Findos os noventa dias do prazo, esfolava o devedor com j uro de dois por cento ao m ês. É possível que, nesse caso afetivo, ele haj a, adotando os seus hábitos com erciais, procedido econom icam ente. Se acolhesse as boas intenções de Miguel, precisaria m andar fazer enxoval, com prar m alas, realizar um a festa com anúncio em banhos, cerim ônia de igrej a, m úsica, j antar para dezenas de convidados. Viriam Padre João Inácio, o Com endador Badega, Seu Félix Cursino, Teotoninho Sabiá, Filipe Benício. Teríam os discursos, teríam os dança. Esses desarranj os, além de caros, não estavam na índole de m eu pai. Desorganizar-lhe-iam [pág. 161] a vida. A nossa m esa era exígua, ladeada de bancou duros. Com os anos, aum entou, recebeu hóspedes num erosos, m as naquele tem po em geral se acom odavam em redor dela seis ou oito pessoas. E na sala de visitas, retirados o m arquesão e as cadeiras, poucos pares conseguiriam m exer-se. Meu pai detestava a dança, form alidade necessária em bodas. Certam ente se lem brava de culpas nascidas na valsa e na quadrilha — e daí o horror. Havia na existência dele, no escuro do passado, um a Deolinda, a que m inha m ãe se referia com invej a. Deolinda surgira escandalosam ente na quadrilha e na valsa, traíra o m arido — e, em conseqüência, m eu pai reprovava com energia o exercício abom inável. Minha m ãe esqueceu a reprovação e com eteu um a falta: dançou com um prim o barbado, em casa de m eu avô. Arrependeu-se, achegou-m e ao peito m agro, pediu-m e que não revelasse a ninguém o desgraçado sucesso. Com prom eti-m e.

Quando nos desaviem os, am eacei-a. Não ligou im portância às am eaças: puxou-m e as orelhas. Senti a perfídia, m as fui generoso, guardei o segredo. E a paz do casal não se alterou.

Deolinda se esfum ara. E, na frieza, Mocinha bordava palm as e flores, engom ava saias, ouvia m issas. No rom ance extenso e am arfanhado travara conhecim ento com D. Rufo e Adélia. E transform ava Miguel num virtuoso galã.

O nosso governo totalitário adm itia Adélia e D. Rufo, m as não adm itia Miguel.

Não tentava suprim ir a ficção contida nos volum es suj os. Consentia a leitura, reconhecendo a inutilidade dela fora do artigo político e dos lançam entos do borrador. Mas, deixando à m enina o direito de pensar em tipos de histórias, decidiu conservá-la na virgindade. Obrigava-se a [pág. 162] alim entá-la por largos anos, vesti-la, calçá-la. Isto representava um a despesa pingada, quase insensível. Gastos extraordinários — lençóis, fronhas, cam isas, o vestido branco, véu, grinalda, fita, renda, m uita com ida, m uita bebida, m úsica etc. — perturbar-lhe-iam as finanças. Tia Dona arranj ara um casam ento infeliz, enviuvara, tuberculosa, com duas filhas. Tia Josefa envelhecia longe, solteira. Tia Jovina envelhecia tam bém , e ainda envelhece, coxa e triste, em com panhia da últim a de m inhas irm ãs naturais. Meu pai distribuía m igalhas a essas pobres. Continuaria a sustentar Mocinha, contanto que ela procedesse direito, vivesse calm a, na gaiola e na m oral.

Fervia nela, porém , o sangue m aterno, a solidão afligia-a. E Miguel não queria ser figura de rom ance. Entenderam -se, apesar da proibição, inflam aram -se, cam biaram acenos e bilhetes. E tudo se resolveu.

A gente de m eu avô se reunia na sala, em torno da m esa que tinha nas gavetas bolas de cera e m acetes de capar boi, e em cim a, na glória, litografias e esculturas, Jesus e a Virgem , santos e santas. Minha m ãe em balava o filho novo na rede, j unto à cam a de lastro de couro cru, à luz da lam parina que esm orecia no copo. Maria Melo puxava a ladainha. O patrão, o velho cabreiro Ciríaco, diversos apaniguados, abatiam -se rezando, os j oelhos sobre chapéus de couro. A patroa, caboclas da vizinhança, as negras da cozinha, sucum bidas na esteira, esm urravam o peito e cantavam . Os m eus olhos doídos e purulentos escondiam -se num pano preto, lacrim ej avam , enxergavam a custo vultos indecisos, as labaredas trêm ulas das velas. Fragm entos do exterior confuso entravam -m e nos ouvidos. Os arm adores da rede calaram -se, as vozes enfraqueceram , a ladainha

[pág. 163] findou, as m ulheres ergueram -se num frufru am arrotado, alpercatas e chinelos arrastaram -se, o clarão do oratório m orreu, as paredes sem reboco enegreceram m ais.

Súbito, um rebuliço: Mocinha estava sum ida. Procuraram -na por Iodos os cantos; as tochas dos candeeiros do querosene ilum inaram os quartos, o depósito do algodão, o quintal, o bosque de catinguoiras, o pátio; os gritos de m eu avô ecoaram nas ribanceiras do Ipanem a. Não se descobriu Mocinha. lia piada por vários cavaleiros, num sim ulacro de força e conquista, foi, em conform idade com a praxe, acolhida e vigiada por senhoras idosas. Nesse asilo nenhum m al lhe chegaria, m as estabeleceu-se que m oça fugida é m oça avariada.

Para sanar a avaria absurda, m edianeiros verbosos diligenciaram um conchavo entre as duas fam ílias. Houve as conversações usuais e o acordo não se realizou. Meu pai conservou-se intransigente e digno. Ao regressar à vila, achei-o com a barba crescida, afirm ando que a ingrata significava para ele m ão cortada. Frase esquisita. Efetivam ente nunca a pequena lhe servira de m ão. Meu pai era assim : gostava de expressões enfáticas e não reparava no sentido das palavras. Mão cortada. Essa am putação o exim ia de banhos, véu, grinalda, renda, fita, lençóis, fronhas, j antar. Mocinha casou silenciosam ente, sem m úsica e sem dança, na m issa das sete. E teve alguns anos de equilíbrio e felicidade.

Tentou reconciliar-se conosco. Enquanto m eu pai j ogava solo na loj a, entrava pelo portão do quintal, ficava um a hora falando baixo com m inha m ãe, na prensa de farinha do alpendre. [pág. 164]

Depois veio a m udança e nos distanciam os. Miguel abandonou-a, ligou-se a outra, no civil. Se não m e engano, ligou-se tam bém a um a índia, na lei dos índios, para as bandas do Am azonas. Mocinha desapareceu e não deixou vestígio. [pág. 165]

Antônio Vale

ÍNHAMOS feito um a estação na vila, para bem dizer estávam os ali hospedados, com grande econom ia e sem nenhum conforto. Vivíam os T com o retirantes que se fixam algum tem po e ganham forças para seguir cam inho. Meu pai, educado no balcão, aceitara os conselhos da sogra, m etera-se em pecuária nos cafundós de Pernam buco. Arruinando-se na seca usara os restos do capital e o crédito, m ercadej ava com o fim de obter m eios para regressar às Alagoas e à m ata.

A situação transitória lhe fornecia desculpa ao recusar negócios inconvenientes. Era passageiro, não queria im óveis nem vendia fiado. Mas adquiriu e lavrou o cercadinho próxim o ao cem itério. E acontecia deixar-se vencer pelo m edo. Assustava-se diante de um ferrabrás, largava-lhe a m ercadoria exposta. Diligenciava escondê-la, exibia-lhe os defeitos, am unhecava faturando-a, em brulhando-a — [pág. 166] e no borrador ficava o sinal do prej uízo, a am argurá-lo. Quantias m ódicas am pliavam -se, apavoravam -no.

De tem pos a tem pos esses fregueses indesej áveis lhe causavam surpresas boas, com o Seu Antônio Vale, fazendeiro, de fam ília considerada e reim oso.

Seu Antônio Vale com prava regularm ente, a dinheiro, sem regatear. Um dia, ao ver a conta, esvaziou os bolsos e concluiu que as notas, os níqueis e as pratas escasseavam . O j eito que tinha era deixar alguns artigos. Chegara o m om ento infeliz, esperado com ânsia. Meu pai se preparara e utilizou a franqueza e a ingenuidade precisas: conhecia a m á reputação do hom em , os outros negociantes diziam dele cobras e lagartos e não lhe fiavam duas patacas. Maledicência, calúnias. Podia levar os panos. Via-se bem que era pessoa direita. A loj a ia acabar, m as, enquanto estivesse com as portas abertas, ele m andava. Sem dúvida. Seu Antônio Vale engrossou o papo, averm elhou-se, bateu o pé na calçada e gritou para o largo que os bodegueiros todos eram um as pestes, m agote de safados. Mostraria que não passavam de uns m entirosos.

Mostrou. Em num erosas transações foi pontual dem ais: com certeza m aquinava um calote rij o. Sobre a derradeira m eu pai se m anifestou na sala de j antar, à ceia, com aquele m odo vago de falar com o se não se dirigisse a ninguém . De fato não se dirigia. Minha m ãe espalhava o pensam ento curto em assuntos m ais fáceis, e o m onólogo servia para ele arrum ar as idéias.

— Afinal podia ser pior. Engana, e claro, desta vez engana. Sabe que estou de m uda e escapole-se. Natural. Não m e queixo: procedeu com [pág. 167]

decência três anos e deu lucro. Felizm ente deve pouco.

Algum tem po depois Seu Antônio Vale veio inform ar se da viagem e prom eteu voltar. Na véspera ainda não tinha aparecido.

— Eu sabia, gem eu o credor. Não esperava outra coisa.

Mas de m adrugada, quando os alm ocreves inqueriam as últim as cargas e m inha m ãe fiscalizava a cana deserta, em baraçando-se na enorm e saia de m ontar, Seu Antônio Vale surgiu num cavalo esquipador, a carona pej ada, os alforj es cheios, resolvido a acom panhar-nos. Trazia um rolo de cédulas e pagou a dívida. [pág. 168]

Mudança

MA cam inhada extensa, dezenas de léguas. Eu ia de garupa, escanchado num travesseiro, agarrando-m e ao paletó de José Leonardo para U equilibrar-m e, em posição m uito incôm oda. A princípio a novidade m e tornou loquaz e curioso, perguntei os nom es de aves e plantas, m as veio o sol, veio o m orm aço, e caí num a sonolência estúpida. As virilhas suadas ardiam -m e, o chouto do anim al sacolej ava-m e, revolvia-m e as tripas, deslocava-m e os ossos.

Am olecido, bam bo, adm irava-m e de ver em redor cavaleiros palradores, satisfeitos com o duro com o um papagaio, trôpego, as j untas doídas.

Descansam os "um a tarde em casa do poeta po-exercício. Nos pousos, arrastava-m e, cam baleava, pular Cordeiro Manso. Pernoitam os depois j unto a um açude lam acento, onde patos nadavam . Construiu-se com fardos, caixas e encerados um a tenda, e aí m e estirei sobre peças de estopa, friorento, ilum inado a cera de carnaúba. As estacas de um a [pág. 169] cerca roçavam nu- MM

costelas; interrom piam -m e o sono o choro do vento, a conversa dos arrieiros aboletados na vizinhança e os gem idos quase hum anos de um a ovelha doente.

Outras estações fugiram -m e da m em ória. José Leonardo e Antônio Vale despediram -se — e com eles o sertão desapareceu. Xiquexiques e m andacarus foram substituídos por um a vegetação densa e m uito verde; nos cam inhos escuros os chocalhos calaram -se; surgiram regatos, cresceram , transform aram -se em rios e atrasaram a m archa.

Figuras desconhecidas vieram encontrar-nos, am áveis, risonhas, prim os em vários graus, fam iliares com o se tivéssem os vivido sem pre j untos.

Evidentem ente a situação econôm ica de m eu pai era razoável. Em igrara, encalacrara-se, m as recom pusera-se, e, graças às cargas de fazenda, tranqüilizava os parentes. Os m ais graúdos perceberiam de longe a existência dele; os pequenos se chegariam , flexíveis, exaltando-o. E assim , tolerado por uns, adulado por outros, fixaria de novo na terra antiga as raízes cortadas.

José da Luz, Padre João Inácio, a velha professora de cabelos brancos, Filipe Benício, Chico Brabo e os m eninos de Teotoninho Sabiá diluíam -se a distância. E as caras estranhas m e inspiravam receio.

Fiz o resto da viagem com um m oço alegre, que tentou explicar-m e as cham inés dos bangüês, os cam pos de lavoura, árvores robustas, associadas, atravancando a paisagem . Tinham -se sum ido os grandes espaços alvacentos, de areia e cascalho, despovoados, o m ato franzino, bancos de m acam bira, cercas de pedra, chiqueiros e currais, dias lum inosos riscados pelo vôo das arribações.

Veredas [pág. 170] subiam , desciam , torciam -se, e à beira delas arrum avam -se casas, j ardins, hortas. Os transeuntes não se vestiam de couro. Em qualquer ponto, achava-m e num buraco, entre m orros. Água abundante e ruidosa, capinzais im ensos, m anhãs nevoentas.

Chegam os ao m unicípio de Viçosa, em Alagoas. Antes de estabelecer-se na cidade, m eu pai se hospedou num engenho de fogo m orto. E durante m eses, em longas ausências, trabalhou com Seu Manuel Costa, assentando as bases de um a sociedade com ercial, gora em pouco tem po.

Constrangi-m e no am biente novo, perdi hábitos e adquiri hábitos.

Num erosos acidentes perturbavam -m e: atoleiros, cancelas, aram e farpado, canaviais de folhas cortantes, valas. Im possível correr por causa das ladeiras.

Obj etos e palavras inexistentes no sertão originavam incerteza, e a m aneira de falar m e chocava os ouvidos. As pessoas e as relações m e desnorteavam : não podia saber se m e com portava direito com a parentela confusa e respeitável.

Os irm ãos de m inha m ãe eram pequenos, alguns m enores que eu, e brincávam os j untos no bosque de catingueiras que rodeava a lagoa. Jacinta m e dissera um a vez, zangada e verm elha, encom pridando o vestido de chita:

— Me respeite. Eu sou sua tia.

E eu respondera, naturalm ente:

— Você é besta.

Agora m e apresentavam m ulheres ásperas e de cachim bo, hom ens im portantes e enrugados: tia Jovina e tia Josefa, tio Pedro e tio Inácio.

Conselhos, dureza, carranca. Obtive um a irm ã natural, m orena, grossa, feia. E

duas prim as bonitas, que findaram tuberculosas. [pág. 171]

No fim do pátio a bagaceira ferm entava Roseiras floresciam no j ardim , cipós em aranhavam -se na latada. Um riacho se escondia entre verduras com ia a terra negra e pedras lim osas. Vivíam os ali em prom iscuidade, bichos e cristãos m iúdos [pág. 172]

Adelaide

sociedade com ercial Ram os & Costa, explorando o negócio de fazenda, m iudeza, ferragem e perfum aria estabeleceu-se num a esquina A do largo principal da cidade: prédio vistoso, com diversas portas, um letreiro verm elho e negro feito por Joaquim Correntão, que pintava índios em penachados e falava m uito em chim panzés e orango-tangos. Na loj a havia dois caixeiros e um guarda-livros.

A fam ília se instalou na Rua do Juazeiro, num a casa próxim a à cadeia, e dissabores aí nos surgiram . Certam ente m eu pai se esforçava dem ais por agüentar-se e trepar. Com eçou a ter vertigens e síncopes, desacordava m inutos com pridos, e nós nos alarm ávam os, órfãos, chorávam os olhando o corpo m orto.

Levantava-se e revivia, continuava na faina de subir, nivelar-se aos parentes enraizados na lavoura. Alguns iam visitar-nos, duros, tesos. Findas essas cerim ônias, m eu pai caía num abatim ento profundo. Ás vezes se deitava, enrolava-se nos cobertores, [pág. 173] desalentava-se, em trem uras, anunciava aos gritos que ia m orrer. Vinha o Dr. Mota Lim a, dava-lhe um vom itório de substância, encoraj ava-o pregando lhe os óculos grossos de m íope. O doente se envergonhava daquele barulho — e horas depois lisonj eava os proprietários, colaborava na política.

A terra era um lam açal cheio de ladeiras. Em tem po de inverno a gente andava com dificuldade no calçam ento de pedras soltas, entrem eadas de barrocas.

Matricularam -m e na escola pública da professora Maria do O, m ulata fosca, robusta em dem asia, um a das criaturas m ais vigorosas que j á vi. Esse vigor se m anifestava em repelões, em berros, aos setenta ou oitenta alunos arrum ados por todos os cantos.

Localizaram -m e no corredor — e, pouco fiscalizado, quase despercebido, reabri desgostoso o terceiro livro do Barão de Macaúbas, tornei a encalhar nas regras de pontuação. As m inhas deficiências ocultaram -se alguns dias: Dondom , m ocinha pálida e m isericordiosa, tom ou-m e as lições, protegeu-m e, corrigiu-m e a pronúncia, inutilm ente, e fez por m im na ardósia as contas enigm áticas.

Mandavam -m e rabiscar algum as linhas pela m anhã. Logo no início desse terrível dever, o pior de todos, surgiu um a novidade que m e levou a desconfiar da instrução de Alagoas: no interior de Pernam buco havia 1899 depois dos nom es da terra e do m ês; escrevíam os agora 1900, e isto m e em brulhou o espírito. Faltou-m e a explicação necessária. Com o a doce m estra sertanej a, clara, de belos caracóis im aculados, superava a outra, escura, agreste, de m úsculos rij os, nos olhos raivosos estrias am arelas, considerei a nova data um erro. Com

[pág. 174] certeza não foi esta reflexão que m o endureceu a m unheca e povoou de borrões o traslado, m as pode ter tido influência: realm ente não caprichei na fatura de sinais duvidosos.

Um a vez, notando-m e o desânim o diante da folha m achucada, Dondom tom ou a pena, traçou vários caracteres em caligrafia direita, em agrecendo-os, engordando-os convenientem ente, e induziu-m e a prosseguir daquela m aneira.

Conselho perdido: as garatuj as de 1900 eram iguais às de 1899. E quando a professora foi j ulgar as escritas e viu o dolo, cham ou-m e, exigiu esclarecim ento.

Desej ei m entir, responsabilizar-m e. Im possível. Olhei desesperado a m inha cúm plice. D. Maria do O envolveu a m ão nos cabelos da m enina, deixando livres o indicador e o polegar, com que m e agarrou um a orelha. E, tendo-nos seguros, agitou o braço violentam ente: rodopiam os com o dois bonecos e aluím os sobre os bancos.

Voltei ao anonim ato e à som bra, contundido. Mas a benévola im prudência da m oça e a raiva da enorm e bruta falharam : perm aneci obtuso, odiando as vírgulas e o catecism o, só abrindo os volum es suj os à hora da lição. Felizm ente escapava entre dezenas de garotos rudes. Se não fosse a recordação de uns dedos que m e apertavam a orelha, conseguiria achar paz e segurança. Na sala, vendo a m ulata ou cafuza brandir a palm atória, precisaria com portar-m e bem , sim ular atenção, m olhar de saliva as páginas detestáveis. Ali, no encolhim ento e na insignificância, os livros fechados, em brutecia-m e em leves cochilos, quase só.

Desperto, bocej ava, exam inava o quintal estreito, que subia o m orro do cem itério, argiloso e resvaladiço. [pág. 175]

Perto, na cozinha, três velhas, tias da professora, m iúdas e cor de piche, torravam m ilho no caco, pisavam m ilho no pilão, enchiam de fubá caixinhas coloridas e franj adas. Os alunos astutos com pravam aquilo, m assa pegaj osa, am arga, nauseabunda — e os ganhos da indústria caseira excediam talvez o vencim ento que o Tesouro pingava. Constrangida no espartilho, branqueada a pó-de-arroz, D. Maria do O fingia hum anizar-se lá fora: a voz am ansava, a carne se reprim ia, dom éstica, os bugalhos am arelentos se ocultavam sob as pálpebras roxas — e a fera m etia as garras nos cabelos das crianças, adulando.

Entre as vítim as desse diabo, a m ais infeliz era m inha prim a Adelaide. Os pais não queriam separar-se dela. E, ricos, podendo confiá-la a estabelecim ento que ensinasse línguas difíceis, tinham resolvido instruí-la sem perdê-la de vista.

Os colégios m ais ou m enos europeus ficavam longe. Iriam soltá-la por este m undo, suj eita a inconveniências? Não. A pequena conservaria, perto de casa, todas as virtudes: bordaria fronhas; ligar-se-ia no altar, sem nam oro, a um rapaz de j uízo e fortuna, bem apessoado. E diferençar-se-ia das m ulheres que fum avam cachim bo de barro. Um a Adelaide letrada, não m uito letrada, com as inovações e as letras necessárias. Um a Adelaide que se banhasse no riacho e falasse francês.

Ora, João Leite, dono do Cavalo-Escuro, não conhecia os degraus da ciência. Acreditara num diplom a da escola norm al, entregara a filha a D. Maria do O. E, em conseqüência, um a vez por sem ana, carros de bois e cargueiros derram avam na escola form as de açúcar, m elado, sacos de grão, farinha. A princípio esse exagero fora recebido com [pág. 176] alvoroço, m as habituaram -se a ele, esqueceram agradecim entos, enfim aboliram as gatim ônias dispensadas ao portador risonho, o crioulo José Luís. Adelaide se rebaixara. Estava ali quase órfã — e a horrenda m ulata inchava e se envaidecia, publicando por m eios indiretos que fazia caridade a um a intrusa. Insensível ao pagam ento largo, torturava-a.

Certam ente não com eçara im pondo-lhe m aus tratos: afeita à liberdade, ao m ando, às correrias, às inj úrias a caboclos na bagaceira, Adelaide se rebelaria contra a nova autoridade, aparentem ente igual às figuras que serviam na casa-grande. Indispensáveis m eses e anos para dom inar a criaturinha, degradá-la, enquanto o algoz se acom odava tam bém à situação, experim entava as forças, apurava a m aldade. No com eço o j eito servil, o sorriso convencional; em seguida um olhar frio, gesto de enfado, palavra dura; a lisonj a recom posta; novam ente acrim ônia e aspereza. Idas e vindas, interm itências. Um castigo — e logo o afã de obliterá-lo, explicá-lo com o trabalho de educação. A covardia m anhosa adoçava um as tréguas curtas. Não fosse a garota badalar, pedir aos pais que a retirassem daquele inferno. Não pedia. Talvez até ignorasse que estava nele. Tinham -na vencido, tinham -lhe gasto o fio em pedra de am olar. Afinal desapareceram as precauções. El a m enina, triste, olhava a rua, os m ontes verdes. Silenciosa, descia, cada vez m ais descia, esgueirava-se, tentava ocultar a m agreza, na aula m uito povoada. Tentativa inútil. D. Maria do O atravessava as pessoas com os olhos, achava num canto da sala o corpinho fugidio, im putava-lhe qualquer falta. Às vezes a casa não estava bem varrida. Marcas de poeira, visíveis entre os [pág. 177] bancos, avultavam apontadas pelo grosso dedo severo, com entadas pela voz estridente. E a infeliz, vergando sob a cólera despropositada, ia buscar a vassoura, lim par o tij olo, havia-se reduzido à condição de criada. Na labuta dom éstica, sofria a birra das três velhas m iúdas e cor de piche. Essas fúrias boçais vinham de classe m uito baixa, tinham decerto adquirido em senzalas o veneno que destilavam . Da subserviência, antiga, passavam às ordens brutais, vingavam -se num a possível descendente de senhores rem otos. Adelaide curvava o espinhaço, calej ava na obediência, esm orecia nos trabalhos m ais hum ildes.

Continuar: parte 2 de 4