Infância

Graciliano Ramos · Capítulo 1 de 2 · parte 3/4

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Infância

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Súbito ouvi um a palavra dom éstica e veio-m e a idéia de procurar a significação exata dela. Tratava-se do inferno. Minha m ãe estranhou a curiosidade: im possível um m enino de seis anos, em idade de entrar na escola, ignorar aquilo. Realm ente [pág. 077] eu possuía noções. O inferno era um nom e feio, que não devíam os pronunciar. Mas não era apenas isso. Exprim ia um lugar ruim , para onde as pessoas m al-educadas m andavam outras, em discussões. E

num lugar existem casas, árvores, açudes, igrej as, tanta coisa, tanta coisa que exigi um a descrição. Minha m ãe condenou a exigência e quis perm anecer nas generalidades. Não m e conform ei. Pedi esclarecim entos, apelei para a ciência dela. Por que não contava o negócio direitinho? Instada, condescendeu. Afirm ou que aquela terra era diferente das outras. Não havia lá plantas, nem currais, nem loj as, e os m oradores, péssim os, torturados por dem ônios de rabo e chifres, viviam depois de m ortos em fogueiras m aiores que as de S. João e em tachas de breu derretido. Falou um pouco a respeito dessas criaturas.

Fogueiras de S. João eu conhecia. Tinha-se feito um a diante da casa. Eu andara à tardinha em redor do m onte de lenha que o m oleque José arrum ava.

Adm irando os aprestos, espantava-m e de haver nascido ali de supetão um m am oeiro carregado de frutos verdes. À noite deitara-se na pilha um a garrafa de querosene, viera um tição. E eu ficara na calçada até dez horas, olhando as labaredas, que m eu pai alim entava com aduelas e sarrafos. A gente da vila m exia-se, ria e cantava, ilum inada por outros fogos. No dia seguinte as folhas do m am oeiro se torravam , pulverizavam . E na rua, desentulhada, apareciam grandes m anchas negras.

Tam bém conhecia o breu derretido. No arm azém , barricas finas continham substância escura que, pisada, tom ava a cor das m oedas de vintém

[pág. 078] livres do azinhavre raspadas no tij olo, m olhadas e enxutas. Eu havia esfarelado um pedaço dessa m aravilha, com um peso de m eio quilo, j unto à balança rom ana da loj a. Tinha posto a m assa dourada num cartucho de j ornal, riscado um fósforo em cim a e esperado o fenôm eno. Um a lágrim a correra no papel, alcançara-m e o dedo anular, descera da unha à prim eira falange.

Largando a experiência, eu m e desesperara, abafando os gritos, fora m eter a m ão num pote de água. Tinha sofrido em silêncio, receando que percebessem a traquinada e a queim adura.

Quando m inha m ãe falou em breu derretido, exam inei a cicatriz do dedo e balancei a cabeça, em dúvida. Se o pequeno torrão, esm agado com o peso de m eio quilo, originara aquele desastre, com o adm itir que pessoas resistissem m uitos ano3 a barricas cheias derram adas em tachas fundas, sobre fogueiras de S. João?

— A senhora esteve lá?

Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia.

— Eu queria saber se a senhora tinha estado lá. Tão tinha estado, m as as coisas se passavam daquela form a e não podiam passar-se de form a diversa. Os padres ensinavam que era assim .

— Os padres estiveram lá?

A pergunta não significava desconfiança na autoridade. Eu nem pensava nisso. Desej ava que m e explicassem a região de hábitos curiosos. Não m e satisfaziam as fogueiras, as tachas de breu, vítim as e dem ônios. Necessitava porm enores.

Minha m ãe estragada a narração com um a incongruência. Assegurara que os diabos se davam [pág. 079] bem na cham a e na brasa. Desconhecia, porém , a resistência das alm as supliciadas. Dissera que elas suportariam padecim entos eternos. Logo insinuara que, depois de estágio m ais ou m enos longo, se transform ariam em diabos. Indispensável esclarecer esse ponto. Não busquei razões, bastavam -m e afirm ações. Achava-m e disposto a crer, aceitaria os casos extraordinários sem esforço, contanto que não houvesse neles m uitas incom patibilidades. Reclam ava unia testem unha, alguém que tivesse visto diabos chifrudos, alm as nadando em breu. Ainda não m e havia capacitado de que se descrevem perfeitam ente coisas nunca vistas.

— Os padres estiveram lá"? tornei a perguntar.

Minha m ãe irritou-se, achou-m e leviano e estúpido. Não tinham estado, claro que não tinham estado, m as eram pessoas instruídas, aprendiam tudo no sem inário, nos livros. Senti forte decepção: as cham as eternas e as caldeiras m edonhas esfriaram . Com eçava a j ulgar a história razoável, adivinhava por que m otivo Padre João Inácio, poderoso e m eio cego, furava os braços da gente, na vacina. Com certeza Padre João Inácio havia perdido um olho no inferno e de lá trouxera aquele m au costum e. A resposta de m inha m ãe desiludiu-m e, em baralhou-m e as idéias. E pratiquei um ato de rebeldia:

— Não há nada disso.

Minha m ãe esteve algum tem po analisando-m e, de boca aberta, assom brada. E eu, num a indignação por se haverem dissipado as tachas de breu, os dem ônios, o prestígio de Padre João Inácio, repeti:

— Não há não. É conversa. [pág. 080]

Minha m ãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-m e várias chineladas. Não m e convenci. Conservei-m e dócil, tentando acom odar-m e às esquisitices alheias.

Mas algum as vezes fui sincero, idiotam ente. E vieram -m e chineladas e outros castigos oportunos. [pág. 081]

O m oleque José

preta Quitéria engendrou vários filhos. Os m achos fugiram , foram presos, tornaram a fugir — e antes da abolição j á estavam m eio livres.

A Sum iram -se. As fêm eas, Luísa e Maria, agregavam -se à gente de m eu avô. Maria, a m ais nova nascida forra, nunca deixou de ser escrava. E Joaquina, produto dela, substituiu-a na cozinha até que, m ortos os velhos, a fam ília não teve recurso para sustentá-la. Aí Joaquina se libertou. E casou, diferençando-se das ascendentes. Luísa era intratável e vagabunda. Em tem po de seca e fom e chegava-se aos antigos senhores, instalava-se na fazenda, resm ungona, m alcriada, a discutir alto, a fom entar a desordem . Ao cabo de sem anas arrum ava os picuás e entrava na pândega, ia gerar negrinhos, que desapareciam com idos pela verm inose ou oferecidos, com o crias de gato. Parece que só escaparam os dois recolhidos por m eu pai.

A m oleca Maria tinha a natureza da m ãe. E não podendo revelar-se, lavava pratos e varria a [pág. 082] casa em silêncio, m orna, fechada, isenta de cam aradagens, esperando ganhar asas e voar. Realizou esse proj eto.

O m oleque José, tortuoso, sutil, falava dem ais, ria constantem ente, suave e persuasivo, tentando harm onizar-se com todas as criaturas. Repelido, baixava a cabeça. Voltava, expunha as suas pequenas habilidades sem se ofender, j eitoso, hum ilde, os dentes à m ostra. Não era alegre. Os olhos brancos ocultavam -se, frios e assustados, os beiços trem iam às vezes, m as isto se disfarçava num a careta engraçada que am olecia a cólera das pessoas grandes. E

José se escapulia, escorregava, brando e gelatinoso, das m ãos que o queriam agarrar. Apanhado na m alandragem , m entia, inocente e sem -vergonha. Juntava os indicadores em cruz, beij ava-os: "Por Deus do céu, pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, por esta luz que nos alum ia." Franzino, m agrinho, achatava-se. Um a insignificante m ancha trêm ula.

Nunca o vi chorar. Gem ia, guinchava, pedia, soluçava infinitas prom essas, e os olhos perm aneciam enxutos e duros. Enchia-m e de invej a, desej ava conter as m inhas lágrim as fáceis. Tom ava-o por m odelo. E, sendo-m e difícil copiar-lhe as ações, im itava-lhe a pronúncia, o que m e rendia desgosto. Esfriavam -m e a am bição de m elhorar e instruir-m e, forçavam -m e a recuperar a fala natural.

Haviam obrigado o m oleque a tratar-m e por senhor, não adm itiam que m e reconhecesse indigno, m e privasse voluntariam ente daquele respeito m iúdo.

José, insensível às m inhas desvantagens, perseverava na obediência, m odesto, a proteger-m e.

Íam os com freqüência ao sítio que m eu pai cultivava perto da rua, para lá do cem itério novo. [pág. 083]

Debaixo das árvores do aceiro, descansando sobre folhas secas, conservava-m e horas entorpecido, a olhar as fileiras de m andioca, as cercas, periquitos que nam oravam espigas am arelas. José vadiava nos ranchos vizinhos.

Logo ao sair de casa, dobrando a esquina do Cavalo Morto, reunia-se a um lote de garotos. E o bando aum entava, era diante do m uro de Seu Paulo Honório um pelotão ruidoso, que enfeitava a areia, com flores de m ulungu. As m ulheres da lavoura percebiam nas corolas encarnadas form as indecentes, pisavam -nas furiosas, dirigiam insultos às m oitas. Os pirralhos ocultos gritavam , corriam pelo m ato, espalhavam no chão outras flores, verm elhas e peludas, ficavam de tocaia, aperreando as m ulheres. Montado no m eu carneiro branco, espantava-m e da indignação delas, queria saber por que esm agavam com os pés coisas tão bonitas. Achava tola a brincadeira e enj oava-m e dos m eninos barulhentos. Certo dia um se aproxim ou de m im , puxou conversa usando palavras m isteriosas. José interveio:

— Cala a boca. Ele não entende isso.

Entristeci, hum ilhado por anunciarem a m inha ignorância. Quis reclam ar, fingir-m e esperto, m as desanim ei, confessei interiorm ente que eles procediam de m odo singular. Afastei-m e sério, livre de curiosidade.

O m eu carneiro branco m orreu, os passeios ao sítio findaram .

José conhecia luares, pessoas, bichos e plantas. Um a vez enganou-se.

Presum iu enxergar m eu bisavô num cavaleiro encourado visto de longe:

— Seu Ferreira de gibão, no cavalo de Seu Afro. [pág. 084]

Discordei. Meu bisavô só vestia couro no trabalho do cam po. Na rua apresentava-se de colarinho e gravata, à feira, à m issa, às eleições, ao j úri. E não viaj ava em anim al em prestado. Quando o hom em se avizinhou, notam os o equívoco — e isto m e deu satisfação. Senti o m oleque próxim o e falível. Eu j ulgava a ciência dele instintiva e segura. Modifiquei o j uízo e alim entei a esperança de, com esforço, decorar nom es tam bém , orientar-m e em cam inhos e veredas.

Apesar do erro, o prestígio de José não dim inuiu. Convenci-m e de que ele se havia expressado bem e repeti com entusiasm o:

— Seu Ferreira de gibão, no cavalo de Seu Afro.

Acabei por dividir a frase em dois versos, que a princípio declam ei e depois cantei:

Seu Ferreira de gibão,

No cavalo de Seu Afro.

Minha m ãe se aborreceu, atirou-m e os qualificativos ordinários. Estúpido, idiota. Mordi os beiços, fui esconder-m e no arm azém , olhar o beco. Mas, trepado na j anela, as pernas caídas para fora, não esquecia o disparate e m onologava, batendo com os calcanhares no tij olo:

Seu Ferreira de gibão,

No cavalo de Seu Afro.

José deu-m e várias lições. E a m ais valiosa m arcou-m e a carne e o espírito. Lem bro-m e perfeitam ente da cena. Era de noite, chovia, as goteiras pingavam . Na sala de j antar m eu pai argüia [pág. 085] o pretinho, que se j ustificava m al. Nenhum indício de tem pestade e violência, pois a culpa era leve e m eu pai não estava zangado: contentar-se-ia com algum as inj úrias. Achando-se disposto a absolver, aceitava facilm ente as explicações. A um desconchavo do acusado, a voz áspera se am aciava, um riso grosso estalava — e a calm a se restabelecia. Atravessávam os, porém , m om entos difíceis: não podíam os saber se ele ia abrandar ou enfurecer-se. E o nosso procedim ento o levava para um lado, para outro. Acertávam os ou falhávam os com o se j ogássem os o cara-ou-cunho.

Se os fregueses andavam direito na loj a, obtínham os generosidades im previstas; se não andavam , suportávam os rigor. Provavelm ente é assim em toda a parte, m as ali essas viravoltas se expunham com m uita clareza.

Naquela noite José, com o de costum e, negou um a traquinada insignificante. Apertado na inquirição, continuou a negar. Vieram provas, surgiu a evidencia. O negro estava obtuso, não percebeu que devia soltar ao m enos uns pedaços de confissão e defender-se depois, j urar por "esta luz, pelas chagas de Cristo, não reincidir. Perdeu o ensej o — e a autoridade se arrenegou, não por causa da falta, venial, m as pela teim osia, agravada talvez com a recordação de fatos estranhos. Agora o infeliz precisava resignar-se ao castigo. E resistia, procurava atenuar a raiva esm agadora. A infração inchava, confundia-se com outras m ais velhas, j á perdoadas, e estas cresciam tam bém , tornavam -se crim es horríveis.

Quando m eu pai se tinha irado bastante, segurou o m oleque, arrastou-o à cozinha. Segui-os, curioso, excitado por um a viva sede de j ustiça. Nenhum a sim patia ao com panheiro desgraçado, [pág. 086] que se agoniava no pelourinho, aguardando a tortura. Nem com preendia que um a intervenção m oderada m e seria proveitosa, originaria o reconhecim ento de um indivíduo superior a m im .

Conservei-m e perto da lei, desej ando a execução da sentença rigorosa. Não m e afligiam receios, porque ninguém m e acusava, ninguém m e bulia a consciência.

Não distinguindo perigos, supunha que eles se haviam dissipado inteiram ente.

As brasas no fogão cobriam -se de cinza, m orriam sob chuviscos; a água da bica salpicava o ladrilho escorregadio; a labareda fum acenta do candeeiro oscilava. Num m urm úrio, a criança beij ava os dedos finos. De repente o chicote lam beu-lhe as costas e um a grande atividade anim ou-a. Pôs-se a girar, desviando-se dos golpes. E as palavras afluíam num j orro:

— Por esta luz, m eu padrinho. Pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A súplica lam urienta corria inútil, doloroso ganido de cachorro novo.

Muitas vergastadas se perdiam , fustigavam as canelas do j uiz transform ado em carrasco. Este largou o instrum ento de suplício, agarrou a vítim a pelas orelhas, suspendeu-a e entrou a sacudi-la. Os gem idos cessaram . O corpo m ofino se desengonçava, a som bra dele ia e vinha na parede tisnada, alcançava a telha, e os pés se agitavam no ar.

Aí m e veio a tentação de auxiliar m eu pai. Não conseguiria prestar serviço apreciável, m as estava certo de que José havia com etido grave delito e resolvi colaborar na pena. Retirei um a acha curta do feixe m olhado, encostei-a de m anso a um a das solas que se m oviam por cim a da m inha cabeça. Na verdade apenas toquei a pele do negrinho. Não m e [pág. 087] arriscaria a m agoá-lo: queria som ente convencer-m e de que poderia fazer alguém padecer. O m eu ato era a sim ples exteriorização de um sentim ento perverso, que a fraqueza lim itava.

Se a experiência não tivesse gorado, é possível que o instinto ruim m e tornasse um hom em forte. Malogrou-se — e tom ei rum o diferente.

Com certeza José nada sentiu. Cobrei ânim o, cheguei-lhe novam ente ao pé o inofensivo pau de lenha. Nesse ponto ele berrou com desespero, a dizer que eu o tinha ferido. Meu pai abandonou-o. E , vendo-m e arm ado, nem olhou o ferim ento: levantou-m e pelas orelhas e concluiu a punição transferindo para m im todas as culpas do m oleque. Fui obrigado a participar do sofrim ento alheio.

[pág. 088]

Um incêndio

UMA das viagens ao sítio, José convidou-m e para visitar os restos do incêndio que devorara um a das cabanas arrum adas além do aceiro. Fui, N receoso. Nunca m e havia aproxim ado daqueles ranchos, onde fervilhavam os diabinhos m aliciosos que afligiam as m ulheres da lavoura.

Venceu-m e a curiosidade: um fogo capaz de suprim ir casas era realm ente adm irável. Eu não supunha o fogo com tantos poderes. Via-o dom éstico, lam bendo a trem pe da cozinha, elevando-se um pouco no largo, em noites de S.

João, e às vezes causando m alefícios dim inutos, com o no dia em que um a brasa caíra do cachim bo de Maria Melo no om bro de m inha irm ã. Responsabilizavam -no agora por um a devastação volum osa — e isto m e surpreendia. Zangara-se, procedera com o os cavalos m ansos que tom am o freio nos dentes.

Deixei o m eu carneiro branco am arrado à som bra e saí com o m oleque em direção às cabanas. Um a havia desaparecido. Os destroços dela espalhavam -se,

[pág. 089] ainda fum egantes, cinza, um lixo negro e quente que não nos consentia aproxim ação. De longe, senti-m e logrado: esperava descobrir labaredas subindo ao céu, m adeira estalando, nuvens rubras — e ali se achatavam porcarias. Desgostei-m e e não pude atentar nelas.

No terreiro, diante do rescaldo, hom ens e m ulheres choravam , lam entavam -se, gesticulavam . E alguns, sentados em baús, pareciam idiotas, silenciosos e inertes. Desviei-m e de um obj eto escuro, sem elhante a um toco cham uscado. Os olhos em redor estavam fixos naquilo, e pouco a pouco distingui palavras no alarido, o esboço do caso m edonho.

Enquanto os hom ens trabalhavam na roça e os m eninos vadiavam pela vizinhança, duas pretinhas faziam a com ida, soprando a lenha, agitando o abano.

Um a faísca chegara à parede e em m inutos a palha ardia. As criaturas haviam tentado reparar o desastre. Nada conseguindo, a m ais nova fugira. A outra resolvera esvaziar a casa: salvara as panelas, o ralo, as esteiras, a cam a de varas, a trouxa de roupa, as arcas. Surda aos cham ados da irm ã, arrecadara todos os trastes, m enos a litografia de Nossa Senhora, provavelm ente sapecada na cam arinha. As paredes sum iam -se, o teto se desm oronava, a porta única era um a goela verm elha, donde saíam línguas tem erosas. Apesar disso, m ergulhara na fornalha, em busca da im agem benta. De volta, achara a passagem obstruída e m orrera. Estava ali. Um a rapariga gem ia entre soluços que procurara dissuadir a infeliz: Nossa Senhora não precisava de ninguém , escaparia, se quisesse. A teim osa recusara os conselhos — e estava ali. Os olhos se pregavam na coisa estendida j unto ao borralho. [pág. 090]

A narração m e em brulhava o estôm ago, a fum aça m e arrancava lágrim as, dava-m e dores de cabeça. Eu nunca tinha visto um cadáver. Receava e desej ava exam inar aquele, m as certam ente se desm anchara na catástrofe. Arrependia-m e de haver atendido ao convite de José. Bom voltar ao sítio, deitar-m e num colchão de folhas, adm irar os periquitos, as flores de m ulungu, as espigas am arelas. Não conseguiria, porém , tranqüilidade. Excitava-m e, preso ao cisco ardente e fuliginoso, ao choro, às lam úrias, propenso, num gosto m órbido, a torturar-m e.

Seguindo o gesto do grupo inconsolável, cheguei-m e ao tronco escuro, exposto no chão, um a preciosidade. Por quê? Não m e capacitava do valor, estranhava que se referissem a ele com respeito, lhe dessem nom e de cristão.

Pedaços da realidade m e entravam no entendim ento, eram repelidos, tornavam , confusos. Afirm ações e negações quase sim ultâneas m e assaltavam . Jazia ali um ser hum ano. Logo recusava a proposição insensata. Nada de hum ano: tinha a aparência vaga de um rolo de fum o. Isto, rolo de fum o, sem elhante aos que m eu pai guardava no arm azém , um edecidos em líquido viscoso, em pacavirados em bananeira. Apenas aquele não estava úm ido nem coberto: estava nu e torrado.

Um rolo de fum o ordinário, dos que se vendem nas barracas de feira, pelando-se, esfarelando-se ao sol. Difícil atribuir-lhe nom e de m ulher, existência de m ulher. Contudo as exclam ações reiteradas, fragm entos de asserções contínuas, desbarataram a evidência, deram -m e afinal a certeza de que se achavam no terreiro porções da negra m orta. Forçava-m e a não perceber nexo entre aquela espécie de barrote queim ado e a suj eita valente que se m exera, [pág. 091]

defendendo os trens dom ésticos, a ausência de braços e de pernas. A energia m encionada e a inércia visível debatiam -se dentro de m im . A indecisão transform ou-se em grande m edo, não da coisa parada, m as da que se m overa e continuava a m over-se nas queixas próxim as. Esta iria surgir talvez, anim ar a outra e punir-m e. Não havendo obtido licença para ver o desastre, sentia-m e culpado, m as era im possível determ inar o grau da culpa. Considerava-m e profanador. Não m e perm itiriam ver defuntos, sobretudo aquele, privado das form as com uns, conseqüência de tragédia. Curvei-m e num arrem esso de coragem . Faltava-lhe o cabelo, faltava a pele — e não havendo seios nem sexo, perdiam -se os restos de anim alidade. A superfície vestia-se de crostas, com o a dos m etais inúteis, carcom idos no abandono e na ferrugem . Em alguns pontos sem elhava carne assada, e havia realm ente um cheiro forte de carne assada; fora daí ressecava-se dem ais. Nesse torrão cascalhoso sobressaía a cabeça, o que fora cabeça, com as órbitas vazias, duas fileiras de dentes alvej ando na devastação, o buraco do nariz, a expelir m atéria verde, am arelenta. Distingui um a cara, sobra de cara, m áscara pavorosa, m ais feia que as dos papangus do carnaval. Não enxerguei porm enores: vi apenas, de relance, a dentadura, as órbitas vazias, o fluxo purulento.

Mudei a vista, arredei-m e engulhando, am aldiçoando José, que m e expusera a enorm e desgraça e analisava tudo com interesse. Afastei-o, regressam os ao sítio, m as as som bras das árvores, as flores de m ulungu e as aves não m e deram sossego. Condenava-m e e condenava o m oleque. Se não m e houvesse rendido à tentação, aquela im undície não existiria, pelo m enos não existiria no m eu espírito. [pág. 092]

Cheguei a casa precisando confessar-m e, livrar-m e da recordação m edonha. Narrei o que vira e o que ouvira: fagulhas alcançando a palha, roendo a palha, sem eando estragos; a m ulher conduzindo m óveis, defendendo a Virgem Maria, sucum bindo enrolada em cham as, depois estirada no chão, sem braços e sem pernas, os dentes arreganhados num a careta. Dois buracos tenebrosos, gelatina esverdeada a correr das ventas.

Arrepiava-m e, repetia a descrição, excitava-m e tanto que m eus pais tentaram acalm ar-m e, reduzir o sinistro. Não havia m otivo para a gente se aperrear. Fora um a infelicidade, sem dúvida. Mas era a vontade de Deus, estava escrito. E podia ser pior, m uito pior. Se se tivesse queim ado a igrej a, ou a loj a de Seu Quinca Epifânio, a m ais im portante da vila, o dano seria trem endo. Deus era m isericordioso: contentava-se com um a habitação m iserável, situada longe da rua, e com o sacrifício de um a preta anônim a. Não m e convenci. A loj a de Seu Quinca Epifânio e a igrej a não tinham nada com o negócio. Eu não vira incêndio na igrej a nem na loj a de Seu Quinca Epifânio: vira um a choupana destruída, e a choupana crescia, igualava-se às construções de tij olo. Seu Quinca Epifânio e Padre João Inácio estavam vivos. Se tivessem m orrido no fogaréu, não seriam m ais noj entos que a negra.

Deviam repreender-m e, dizer que m e com portara m al abandonando o aceiro, as árvores, os periquitos, as flores. A lem brança infeliz m e atorm entava: necessário que os outros soubessem isto e m e censurassem . Tinham sido sem pre rigorosos em dem asia, e agora m e deixavam com aquele peso no interior. A argüição e o castigo m e dariam talvez um pouco de calm a: eu esqueceria, nos lam entos [pág. 093] e na zanga, a visagem terrível. Não m e puniram , quiseram transform ar aquele horror num fato ordinário.

À noite o sono fugiu, não houve m eio de agarrá-lo. A negra estava ali perto da m inha cam a, na m esa da sala de j antar, sem braços, sem pernas, e tinha dois palm os, três palm os de m enino. De repente se desenvolvia em excesso, m onstruosa. Sob a testa im ensa rasgavam -se precipícios im ensos. O nariz era tini açude im enso, de pus. E os dentes se alargavam , num a gargalhada im ensa.

Em noites com uns, para escapar aos habitantes da treva, eu envolvia a cabeça.

Isto m e resguardava: nenhum fantasm a viria perseguir-m e debaixo do lençol.

Agora não conseguia preservar-m e. O tição apagado avizinhava-se, puxava a coberta, ligava-se ao m eu corpo, suj ava-m e com a salm oura que vertia de gretas profundas. As órbitas vazias espiavam -m e, a lam a do nariz borbulhava num estertor, os dentes se acavalavam e queriam m order-m e. Encolhia-m e, escondia o rosto no travesseiro, e a visão continuava a atenazar-m e. Os arrepios que m e agitavam m udaram -se em trem or violento. Não resisti ao suplício, gritei com o um doido, alarm ei a fam ília. Vieram buscar-m e, tentaram varrer-m e o espectro da im aginação, acom odaram -m e aos pés da cam a do casal. Aí m e abati, no círculo de luz da lam parina, ouvindo o canto dos galos, até que a m adrugada m e trouxe um a ligeira m odorra cheia de sonhos ruins. Adorm eci com a figura asquerosa, despertei com ela.

Durante o dia voltei a m encioná-la, a descrevê-la, nauseado. Procurei o autor daquela sórdida agonia e responsabilizei Nossa Senhora. Se a criatura não tivesse tido a idéia de salvar a im agem , [pág. 094] estaria cortando palm as de ouricuri para fabricar nova cabana. Tinha devoção, e isto a perdera, evidentem ente a m ãe de Deus era ingrata e feroz. Em paga de tão puro desvelo — cólera, destruição.

As pessoas grandes, porém , refutaram o m eu j uízo de m odo singular. A Virgem Maria tinha sido generosa. Escolhera a negra porque a j ulgava digna de salvação. Im pusera-lhe algum as dores e em troca lhe oferecia o paraíso, sem o estágio do purgatório. O fogo do purgatório, horroroso, não se com parava aos lum es terrestres, e todos nós, cedo ou tarde, nos frigiríam os nele. A negra tivera sorte. Provavelm ente j á estava no céu, diante de Jesus, m isturada aos serafins.

Essa esquisita benevolência deixou-m e perplexo. Calei-m e, prudente, m as achei o com entário duvidoso e em brulhado. Não m e parecia que o purgatório fosse indispensável. E a negra, incom pleta e im unda, não estava no céu. Que ia fazer lá? Estragaria as delícias eternas, m ancharia as asas dos anj os. [pág. 095]

José da Luz

ARA reduzir-m e as travessuras, encerrar-m e na ordem , utilizaram diversos elem entos: a princípio os lobisom ens, que, por serem invisíveis, nenhum P efeito produziram ; em seguida a religião e a polícia, reveladas nas figuras de Padre João Inácio e José da Luz. Resum iram -m e o valor dessas autoridades, que adm irei e tem i de longe, m as quando elas se aproxim aram , só o Vigário m anteve a reputação. José da Luz desprestigiou-se logo. Não havia m eio de apresentá-lo sério e firm e, capaz de inspirar m edo. Um papão ineficaz. Rosto cor de azeitona, a grenha dom ada a banha de porco, nos olhos espertos a alegria fervilhando, nariz chato, boca larga, provida de arm as fortes, ruidosa. Na pele baça nenhum a ruga, nenhum a ruga na blusa, nas calças alisadas a capricho pela Rosenda lavadeira. Lim po, de colarinho lustroso, botinas ringidoras e brilhantes, José da Luz diferia m uito dos polícias com uns, desleixados, am arrotados, provocadores [pág. 096] de barulho nas feiras e em pontas de ruas, entre caboclos e m eretrizes.

Provavelm ente esses hom ens se com portavam assim por vingança.

Tinham , nos duros tem pos do paisanos, sofrido repelões e desaforos, dorm ido na cadeia sem m otivo, agüentado nos calos saltos de reiúnas, zinco no lom bo.

Vestindo o uniform e, eram insolentes e agressivos, apagavam as hum ilhações antigas afligindo outros infelizes. Bebiam cachaça, m alandravam , torvos, im portantes, vagarosos, e o desm azelo - cinto frouxo, quepe de banda, topete am eaçador — dava-lhes consideração. Arredios, oblíquos, prom oviam sam bas e furdunços em casas de palha, onde as violências passavam despercebidas e ninguém se queixava.

José da Luz chegava-se aos tipos que j ogavam gam ão e discutiam política.

Um caboré enxerido, bem falante, escorregando na com panhia dos proprietários.

Am ável, j eitoso, com certeza escapava às m archas rigorosas da força volante, às diligências cruas. Não guardava ressentim ento, não precisava desforra. Aceitava de coração leve a tarim ba. E cantava, fanhoso e m ole:

Assentei praça. Na polícia eu vivo

Por ser amigo da distinta farda.

Agora é tarde. Me recordo e penso.

Trabalho imenso, não se lucra nada.

Um a das estrofes term inava com estes versos:

Eu largo a farda, pego no capote,

Vou remar no bote: tudo é serviço.

José da Luz abria m uito o e de serviço, prosódia que depois ouvi confirm ada em várias terras. Em [pág. 097] geral os m ilitares inferiores arrastam a voz na prim eira sílaba de serviço quando se referem às ocupações da caserna, que deste m odo se distinguem das civis e ordinárias, sem vogal m odificada.

Foi nessa cantiga m ofina que José da Luz se m anifestou, achando excessivas as exigências do ofício. Parecia um desgraçado, na longa choradeira.

Afirm aram -m e depois que ele era péssim o, e isto m e perturbou. Surgiu-m e um terceiro indivíduo, nem triste nem m au. Realm ente j ovial e bom , m eio tonto, ingênuo. Os botões am arelos, a farda verm elha e azul, a distinta farda m encionada no lam ento, eram brinquedos.

Nesse tem po, em razão de culpas indecisas, costum avam prender-m e algum as horas na loj a. Sentenciavam -m e sem form alidades, m as o castigo im plicava falta. E ali, no silêncio e no isolam ento, adivinhando o m istério dos códigos, fiz com pridos exam es de consciência, tentei catalogar as ações prej udiciais e as inofensivas, desenvolvi à toa o m eu dim inuto senso m oral.

Atrapalhava-m e perceber que um ato às vezes determ inava punição, outras vezes não determ inava. Im possível orientar-m e, estabelecer norm a razoável de procedim ento. Mais tarde fam iliarizei-m e com essas incongruências, m as no com eço da vida elas m e apareciam sem disfarces e m e atenazavam . Mexia-m e "com o se andasse entre cacos de vidro. Julgando inúteis as cautelas, curvei-m e à fatalidade. Corroboravam esta disposição certas frases ouvidas na sala de j antar e na cozinha: "Que se há de fazer? Foi vontade de Deus. Estava escrito." Ainda hoj e suponho que os m eus poucos acertos e num erosos escorregos são obras de um destino irônico e safado, fértil em astúcias desconcertantes. Resignava-m e, encolhido [pág. 098] j unto ao balcão, provisoriam ente em segurança. Estava escrito, era vontade de Deus. E esgueirava-m e com o um rato, desfazia m ontes de papel, capim e m aravalhas da em balagem , sondava as prateleiras e os caixões.

O castigo m oderado, além de inculcar-m e as regras de bem viver, tinha o fim de obrigar-m e a vigiar o estabelecim ento. Enquanto m e achava ali, m eu pai se distraía na vizinhança, parolando, aos gritos. Alarm ava-m e com freqüência, convencia-m e de que ele estava brigando. O riso grosso de Filipe Benício e o cacarej o de Teotoninho Sabiá tranqüilizavam -m e. Livre do susto, recolhia-m e ao passatem po ordinário e arrancava dele algum a satisfação. De fato as horas pingavam m onótonas no espaço que m e concediam , m as em qualquer parte a insipidez era a m esm a. Proibiam -m e sair, e os outros m eninos, distantes, causavam -m e invej a e receio. Certam ente eram perigosos. Afastado, não possuindo bolas de borracha, papagaios, carrinhos de lata, divertia-m e com m inhas irm ãs, a construir casas de encerado e arreios de anim ais, no alpendre, e a revolver o m ilho no depósito. Durante a prisão, lem brava-m e desses exercícios com pesar. Entretinha-m e rem exendo as m aravalhas, explorando os recantos escuros, observando o trabalho das aranhas e a fuga das baratas. Divagava im aginando o m undo coberto de hom ens e m ulheres da altura de um polegar de criança. Não m e havendo chegado notícia das viagens de Gulliver, penso que a m inha gente liliputiana teve origem nas baratas e nas aranhas. Esse povo m irim falava baixinho, zum bindo com o as abelhas. Nem palavras ásperas nem arranhões, cocorotes e puxões de orelhas. Esforcei-m e por dirim ir as desavenças. Quando os m eus [pág. 099] insetos saíam dos eixos, revelavam instintos rudes, eram separados, im possibilitados de m olestar-se. E recebiam conselhos, diferentes dos conselhos vulgares. Podiam saltar, correr, m olhar-se, derrubar cadeiras, esfolar as m ãos, deitar barquinhos no enxurro. Nada de zangas. Im pedidos os gestos capazes de m otivar lágrim as.

Largando esses devaneios, entregava-m e à inspecção das m ercadorias.

Trepava-m e na escada, abria caixas, desm anchava pacotes de dobradiças, adm irava o m ecanism o das fechaduras. Experim entava as chaves, ouvia o tilintar seco, via as lingüetas entrando e saindo. Receava que m e surpreendessem , reprovassem a curiosidade. Talvez um a peça lá dentro se rebentasse. Forças ali contidas iriam soltar-se, explodir, j ogar-m e da escada abaixo. Recordava-m e do caso da pistola. Tinha sido anos atrás, na fazenda.

Meu tio, hóspede, guardara a arm a num a gaveta, recom endando-m e que não tocasse naquilo. Eu havia assegurado não tocar. Sozinho, desej ara conhecer de perto a m áquina horrível, que detonava, m atava bichos. Rondara a m esa, reagindo à tentação, sabendo que não resistiria m uito tem po. Descerrara a gaveta, j urando não pegar na pistola. Era o que havia prom etido. Queria apenas vê-la. Bem , estava ali. Um a garrucha com um , preta, carregada com chum bo e pólvora. Apoiando nela um dedo e não acontecendo nenhum desastre, retirara-a, desvanecendo as precauções. Levantara o gatilho e não conseguira fazê-lo voltar ao descanso. Em seguida m e viera a idéia de exam inar o conteúdo de um pequeno estoj o em butido na coronha. Erguera a tam pa — e um a chuva de espoletas verm elhas se espalhara no chão. Soltando a pistola, escapulira-m e, deixando a gaveta aberta. [pág. 100]

Em horas de angústia, sem m e anim ar a entrar na sala, esperara que m e cham assem , m e responsabilizassem pelo desarranj o. Não cham aram . Num degrau alto da escada, m ovendo a chave, eu tem ia que se derram assem espoletas da fechadura. Não exatam ente espoletas. Mas os ferrinhos tilintantes podiam querer desencaixar-se com espalhafato.

Repunha tudo nos seus lugares, descia, abandonava as m iudezas e as ferragens, ia em beber-m e nas estam pas que ornavam as peças de chita. O m ais vistoso desses pedaços de papel m ostrava um a árvore encalom bada de frutos em form a de cabaças. Um m achado encostava-se ao tronco. E, am eaçando inim igos ausentes, um tigre arreganhava a dentuça, equilibrava-se em dois pés.

Apresentavam -se assim os panos de Machado, Pereira & Cia., grandes fornecedores do Recife. A com panhia era o tigre, Delfino Tigre. Eduquei-m e no respeito a entidades sem elhantes.

Um a tarde em que espiava na litografia o cabo de Machado, os ram os de Pereira e as garras de Tigre, vi José da Luz entrar na loj a e esfriei. Quis fugir, esconder-m e debaixo do balcão: as j untas endureceram , os m úsculos relaxaram -se. Tentei vencer o m edo, endireitar o espinhaço, articular um a frase, sorrir. Em vão. José da Luz era terrível. Metia gente na cadeia, dava surras e m uxicões nos feirantes. Superior a Machado, Pereira & Cia., credores de m eu pai. O verm elho e o azul da firm a notável, expostos na chita, exibiam -se no vestuário de José da Luz — e isto m e isolava. Ainda que eu ignorasse a enorm e im portância do cafuzo, não m e seria possível tom ar intim idades com as cores das litografias.

[pág. 101]

Deu-se então o caso extraordinário. O soldado pregou os cotovelos no balcão e pôs-se a conversar com igo, natural, com o os viventes m esquinhos, Am aro, José Baía, os m oradores da fazenda. O terror sum iu-se, a espinha gelada aqueceu-se, os m ovim entos surgiram . Na presença de m eu pai, a fala da personagem seria gentileza indireta. Julgava-m e indigno de atenção. Contudo, se m e viam acom panhado, suj eitos m aneirosos falavam -m e, careteando, lisonj eando. As caretas e as lisonj as deixavam -m e desconfiança. Quando m e achava só, tudo isso desaparecia. José da Luz não esperava de m im nenhum favor: a conversa dele era gratuita.

Vieram outras conversas — e tornam o-nos am igos. Por fim não m e lim itava, na prisão, a inventar fantasm agorias, reparar nas fechaduras e nos papéis coloridos. Tinha um com panheiro excelente, que dim inuía j unto do balcão e era quase do m eu tam anho. Não conservo nenhum a das histórias que ele contava, curtas e variadas, sem dúvida pouco significativas. Ouvia-as pensando em coisas diferentes, interrom pia-as m uitas vezes:

— Cante um bocado, Zé da Luz.

José da Luz tem perava a goela e dizia as tristezas m entirosas da caserna:

Agora é tarde. Me recordo e penso.

Trabalho imenso...

Versátil, eu atentava nos botões am arelos da blusa prestigiosa, no quepe m iúdo. Por que era que ele usava chapéu sem aba? As perguntas saíam espontâneas, e José da Luz m e explicava que chapéu de soldado era assim m esm o. Contentava-m e com isso, a m inha curiosidade não tinha exigências.

[pág. 102] A farda verm elha e azul de José da Luz desbotava, não diferia m uito da m inha roupa. E as botinas de José da Luz, brilhantes e ringidoras, aproxim avam -se dos m eus borzeguins duros, cada vez m ais estreitos. Éram os duas insignificâncias, um a loquaz, buliçosa, outra cheia de sonhos, em perrada.

Os m eus bonecos da altura de um polegar esm oreceram .

Esse m estiço pachola teve influência grande e benéfica na m inha vida.

Desanuviou-m e, atenuou aquela pusilanim idade, avizinhou-m e da espécie hum ana. Ótim o professor. Acho, porém , que era um m au funcionário. O Estado não lhe pagava etapa e soldo para desviar-se dos colegas, suj os e ferozes, encher com lorotas as cabeças das crianças. Um anarquista. [pág. 103]

Leitura

CHAVA-ME em poleirado no balcão, abrindo caixas e pacotes, exam inando as m iudezas da prateleira. Meu pai, de bom hum or, A apontava-m e obj etos singulares e explicava o préstim o deles.

Dem orei a atenção nuns cadernos de capa enfeitada por três faixas verticais, borrões, nódoas cobertas de riscos sem elhantes aos dos j ornais e dos livros. Tive a idéia infeliz de abrir um desses folhetos, percorri as páginas am arelas, de papel ordinário. Meu pai tentou avivar-m e a curiosidade valorizando com energia as linhas m al im pressas, falhadas, antipáticas. Afirm ou que as pessoas fam iliarizadas com elas dispunham de arm as terríveis. Isto m e pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de arm as.

Ouvi os louvores, incrédulo.

Aí m eu pai m e perguntou se eu não desej ava inteirar-m e daquelas m aravilhas, tornar-m e um suj eito sabido com o Padre João Inácio e o advogado

[pág. 104] Bento Am érico. Respondi que não. Padre João Inácio m e fazia m edo, e o advogado Bento Am érico, notável na opinião do j úri, residia longe da vila e não m e interessava. Meu pai insistiu em considerar esses dois hom ens com o padrões e relacionou-os com as cartilhas da prateleira. Largou pela segunda vez a interrogação pérfida. Não m e sentia propenso a adivinhar os sinais pretos do papel am arelo?

Foi assim que se exprim iu o Tentador, hum anizado, naquela m anhã funesta. A consulta m e surpreendeu. Em geral não indagavam se qualquer coisa era do m eu agrado: havia obrigações, e tinha de subm eter-m e. A liberdade que m e ofereciam de repente, o direito de optar, insinuou-m e vaga desconfiança.

Que estaria para acontecer? Mas a pergunta risonha levou-m e a adotar procedim ento oposto à m inha tendência. Receei m ostrar-m e descortês e obtuso, recair na suj eição habitual. Deixei-m e persuadir, sem nenhum entusiasm o, esperando que os garranchos do papel m e dessem as qualidades necessárias para livrar-m e de pequenos deveres e pequenos castigos. Decidi-m e.

E a aprendizagem com eçou ali m esm o, com a indicação de cinco letras j á conhecidas de nom e, as que a m oça, anos antes, na escola rural, balbuciava j unto ao m estre barbado. Adm irei-m e. Esquisito aparecerem , logo no princípio do caderno, sílabas pronunciadas em lugar distante, por pessoa estranha. Não haveria engano? Meu pai asseverou que as letras eram realm ente batizadas daquele j eito.

No dia seguinte surgiram outras, depois outras — e iniciou-se a escravidão im posta ardilosam ente. Condenaram -m e à tarefa odiosa, e com o não m e era possível realizá-la convenientem ente, as horas [pág. 105] se dobravam , todo o tem po se consum ia nela. Agora eu não tocava nos pacotes de ferragens e m iudezas, não m e absorvia nas estam pas das peças de chita: ficava sentado num caixão, sem pensam ento, a carta sobre os j oelhos.

Meu pai não tinha vocação para o ensino, m as quis m eter-m e o alfabeto na cabeça. Resisti, ele teim ou — e o resultado foi um desastre. Cedo revelou im paciência e assustou-m e. Atirava rápido m eia dúzia de letras, ia j ogar solo. À

tarde pegava um côvado, levava-m e para a sala de visitas

— e a lição era tem pestuosa. Se não visse o côvado, eu ainda poderia dizer qualquer coisa. Vendo-o, calava-m e. Um pedaço de m adeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos.

Minha m ãe e m inha irm ã natural m e protegeram : arredaram -m e da loj a e, na prensa do copiar, forneceram -m e as noções indispensáveis. Arrastava-m e, desanim ado. O folheto se puía e esfarelava, em bebia-se de suor, e eu o esfregava para abreviar o exterm ínio.

Isso de nada servia. Chegava outro folheto

— e as linhas gordas e safadas, os três borrões verticais, davam -m e engulhos. Que fazer? A lem brança do côvado m e arregalava os olhos. Mas ia-m e pouco a pouco entorpecendo, a cabeça inclinava-se, os braços esm oreciam

— e, entre bocej os e cochilos, gem ia a cantiga fastidiosa que Mocinha sussurrava j unto a m im . Queria agitar-m e e despertar. O sono era forte, enj ôo enorm e tapava-m e os ouvidos, prendia-m e a fala. E as coisas em redor m ergulhavam na escuridão, as idéias se im obilizavam . De fato eu com preendia, ronceiro, as histórias de Trancoso. Eram fáceis. O que m e obrigavam a decorar parecia-m e insensato. [pág. 106]

Enfim consegui fam iliarizar-m e com as letras quase todas. Aí m e exibiram outras vinte e cinco, diferentes das prim eiras e com os m esm os nom es delas. Atordoam ento, preguiça, desespero, vontade de acabar-m e. Veio terceiro alfabeto, veio quarto, e a confusão se estabeleceu, um horror de qüiproquós.

Quatro sinais com um a só denom inação. Se m e habituassem às m aiúsculas, deixando as m inúsculas para m ais tarde, talvez não m e em brutecesse. Jogaram -m e sim ultaneam ente m aldades grandes e pequenas, im pressas e m anuscritas.

Um inferno. Resignei-m e — e venci as m alvadas. Duas porém , se defenderam : as m iseráveis dentais que ainda hoj e m e causam dissabores quando escrevo.

Sozinho não m e em baraçava, m as na presença de m eu pai em udecia. Ele endureceu algum as sem anas, antes de concluir que não valia a pena tentar esclarecer-m e. Um a vez por dia o grito severo m e cham ava à lição. Levantava-m e, com um baque por dentro, dirigia-m e à sala, gelado. E em burrava: a língua fugia dos dentes, engrolava ruídos confusos. Livrara-m e do aperto crism ando as consoantes difíceis: o T era um boi, o D um a peruinha. Meu pai rira da inovação, m as retom ara depressa a exigência e a gravidade. Im possível contentá-lo. E o côvado m e batia nas m ãos. Ao avizinhar-m e dos pontos perigosos, tinha o coração desarranj ado num desm aio, a garganta seca, a vista escura, e no burburinho que m e enchia os ouvidos a reclam ação áspera avultava.

Se as duas letras estivessem j untas, o m artírio se reduziria, pois, libertando-m e da prim eira, a segunda acudia facilm ente. Distanciavam -se, com certeza havia na colocação um desígnio perverso — e os m eus torm entos se duplicavam . [pág.

107]

AS pobres m ãos inchavam , as palm as verm elhas, arroxeadas, os dedos grossos m al se m ovendo. Latej avam , com o se funcionassem relógios dentro delas. Era preciso erguê-las. Finda a tortura, sentava-m e num banco da sala de j antar, estirava os braços em cim a da m esa, procurando esquecer as palpitações dolorosas. Os sapos cantavam no açude da Penha; o descaroçador rangia no Cavalo-Morto; D. Conceição, além do beco, se esganiçava cham ando as filhas.

Estavam ali perto, no alpendre e no corredor, brincando com m inhas irm ãs, e eu não as enxergava. Os m eus olhos m olhados percebiam a custo o portão do quintal. As m ãos descansavam na tábua, im óveis. Julgo que estive m eio louco. E

am parei-m e ansioso às figurinhas de sonho que m e atenuavam a solidão. O

m undo feito caixa de brinquedos, os hom ens reduzidos ao tam anho de um polegar de criança.

Muitas infelicidades m e haviam perseguido. Mas vinham de chofre, dissipavam -se. Às vezes se m ultiplicavam . Depois, longos períodos de repouso.

Em m om entos de otim ism o supus que estivessem definitivam ente acabadas.

Agora não alcançava esse engano. As três m anchas verticais, úm idas de lágrim as, estiravam -se j unto à m ão doída, as letras renitentes iriam afligir-m e dia e noite, sem pre. As réstias que passeavam no tij olo e subiam a parede m arcavam a aproxim ação do suplício. Dentro de algum as horas, de alguns m inutos, a cena terrível se reproduziria: berros, cólera im ensa a envolver-m e, aniquilar-m e, destruir os últim os vestígios de consciência, e o pedaço de m adeira a m artelar a carne m achucada.

Afinal m eu pai desesperou de instruir-m e, revelou tristeza por haver gerado um m aluco e deixou-m e. [pág. 108] Respirei, m eti-m e na soletração, guiado por Mocinha. E as duas letras am ansaram . Gaguej ei sílabas um m ês. No fim da carta elas se reuniam , form avam sentenças graves, arrevesadas, que m e atordoavam . Certam ente m eu pai usara um horrível em buste naquela m aldita m anhã, inculcando-m e a excelência do papel im presso. Eu não lia direito, m as, arfando penosam ente, conseguia m astigar os conceitos sisudos: "A preguiça é a chave da pobreza — Quem não ouve conselhos raras vezes acerta — Fala pouco e bem : ter-te-ão por alguém ."

Esse Terteão para m im era um hom em , e não pude saber que fazia ele na página final da carta. As outras folhas se desprendiam , restavam -m e as linhas em negrita, resum o da ciência anunciada por m eu pai.

— Mocinha, quem é o Terteão?

Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que Terteão fosse hom em . Talvez fosse. "Fala pouco e bem : ter-te-ão por alguém ."

— Mocinha, que quer dizer isso?

Mocinha confessou honestam ente que não conhecia Terteão. E eu fiquei triste, rem oendo a prom essa de m eu pai, aguardando novas decepções. [pág.

109]

Escola

preguiça, chave da pobreza, e outros conceitos poderosos lançados na últim a folha da carta em paparam -se de suor, decom puseram -se, A m anchando-m e os dedos de tinta — e durante alguns dias pude m exer-m e no quintal, ver a rua, pisar na calçada, associar-m e aos filhos de Teotoninho Sabiá. Inquietava-m e na verdade. Não recebi novo folheto, daqueles que se vendiam a cem réis e tinham na capa três faixas e letras quase im perceptíveis.

Continuar: parte 4 de 4