Infância
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Achava-m e aparentem ente em liberdade. Mas, arengando com Joaquim , na areia do beco, ou adm irando o rostinho de anj o de Teresa, assaltava-m e às vezes um desassossego, aterrorizava-m e a lem brança do exercício penoso. Vozes im pacientes subiam , transform avam -se em gritos, furavam -m e os ouvidos; as m inhas m ãos suadas se encolhiam , experim entando nas palm as o rigor das pancadas; um a corda m e apertava a garganta, suprim ia a fala; e as duas consoantes inim igas dançavam : [pág. 110] d. t. Esforçava-m e por esquecê-las revolvendo a terra, construindo m ontes, aluindo rios e açudes.
As am olações da carta não m e saíam do pensa m ento. "Fala pouco e bem : ter-te-ão por alguém ." Não m e explicaram isto — e veio-m e grande enj ôo às adivinhações e aos aforism os.
Afligia-m e recordando a prom essa feita no balcão, m eses antes. De nada m e serviam os conselhos em negrita da últim a página da carta. Nenhum ganho, talvez por m e faltar ainda aprender m uito. Conseguia gaguej ar sílabas, reuni-las em palavras e, gem endo, engolindo sinais, articular um período vazio. Com certeza m inha fam ília não ia conform ar-se com resultado tão m edíocre: as lições continuariam na sala de visitas, na prensa do copiar, fiscalizadas por Mocinha.
Reproduzir-se-iam as durezas da iniciação.
Tentei im aginar livros. Queria vê-los, term inar as férias insossas que m e concediam . Sem dúvida estavam próxim os: conversas tem erosas afastavam -m e as ilusões, azedavam -m e os brinquedos. Bom virem logo. Piores que o folheto não deviam ser — e esta consideração m e incutia algum a confiança no futuro.
Mas as duas infam es dentais m e im portunavam , resum iam tem ores indecisos.
Foi por esse tem po que o negro velho apareceu, lim po, de colarinho, gravata, botinas, roupa de cassineta, óculos. Estranhei, pois não adm itia tal decência em negros, e m anifestei a surpresa em linguagem de cozinha. Meu pai achou a observação original, enxergou nela intenções inexistentes em m im , referiu-a na loj a aos fregueses, aos parceiros do gam ão e do solo. Ouvia-a recom posta por Seu Afro, com pletam ente desfigurada, com palavras [pág. 111]
que não m e aventuraria a pronunciar. Responsabilizei-m e pelas interpolações e adquiri um a notoriedade m om entânea, em baraçosa. Repugnava-m e sair do m eu canto e representar, parecia-m e que m angavam de m im . O culpado era m eu pai.
Muitas vezes m e havia insultado, excedera-se em punições por causa de duas letras, que intentava elim inar de chofre. Mas isto era indelével. Provavelm ente ele desej ava enganar-se e enganar os outros. "Estão vendo esta m aravilha'? Produto m eu." Desdenhava a m aravilha, decerto, apresentava obj eto falsificado, m as negociante não tem os escrúpulos com uns das pessoas com uns. Tanto elogiara as m ercadorias chinfrins expostas na prateleira que sem dificuldade esquecia as m inhas falhas evidentes e m e transform ava num a espécie de fechadura garantida, com boas m olas. O fabricante era ele. À força de repetições, chegaria a supor que fechaduras de boas m olas m e abriam o entendim ento. E recolheria disso- algum a vaidade. Tornei-m e, de qualquer form a, autor de um a frase aparatosa e am aldiçoei o negro velho, origem dela.
Incapaz de forj ar sem elhante coisa, reconhecia-m e instrum ento de um em buste e desagradava-m e ouvir m eu pai alinhavar opiniões contraditórias. Essa incoerência reduzia-o, desvalorizava-lhe o j ulgam ento. Agora eu não sabia se efetivam ente era um idiota, com o ele havia afirm ado, inclinava-m e a ver na sentença arrasadora precipitação e exagero, às vezes m e capacitava de que em itira um a idéia razoável, am pliada por Seu Afro. Im possível dizer onde ela estava, com o tinha surgido, m as teim avam em aceitá-la, em declará-la m inha, e isto m e deixava perplexo.
A reviravolta de m eu pai alvoroçava-m e. O j uízo favorável e im previsto levá-lo-ia talvez a [pág. 112] j ogar-m e segunda isca louvando o papel escrito, engabelar-m e, obrigar-m e a iniciar a leitura do volum e tem eroso que m e andava na im aginação « estragava os divertim entos na areia do beco. Desgraças iriam surgir. O riso grosso am orteceria, a voz atroaria, rouca, um pedaço de pau m e bateria nas palm as das m ãos úm idas.
Mas os sustos esm oreceram , vieram receios diversos. Houve um transtorno, e isto se operou sem que eu revelasse que algum a coisa se havia alterado cá dentro. Pouco a pouco m udei. Arroj aram -m e num a aventura, o com eço de um a série de aventuras funestas. Quando iam cicatrizando as lesões causadas pelo alfabeto, anunciaram -m e o desígnio perverso — e as m inhas dores voltaram . De fato estavam apenas adorm ecidas, a cicatrização fora na superfície, e às vezes a carne se contraía e rasgava, o interior se revolvia, abalavam -m e torm entos indeterm inados, sem elhantes aos que m e produziam as histórias de alm as do outro m undo. Desânim o, covardia.
A notícia veio de supetão: iam m eter-m e na escola. Já m e haviam falado nisso, em horas de zanga, m as nunca m e convencera de que realizassem a am eaça. A escola, segundo inform ações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes. Eu m e com portava direito: encolhido e m orno, deslizava com o som bra. As m inhas brincadeiras eram silenciosas. E nem m e afoitava a incom odar as pessoas grandes com perguntas. Em conseqüência, possuía idéias absurdas, apanhadas em ditos ouvidos na cozinha, na loj a, perto dos tabuleiros de gam ão. A escola era horrível — e eu não podia negá-la, com o negara o inferno. Considerei a resolução de m eus pais um a [pág. 113] inj ustiça.
Procurei na consciência, desesperado, ato que determ inasse a prisão, o exílio entre paredes escuras. Certam ente haveria unia tábua para desconj untar-m e os dedos, um hom em furioso a bradar-m e noções esquivas. Lem brei-m e do professor público, austero e cabeludo, arrepiei-m e calculando o vigor daqueles braços. Não m e defendi, não m ostrei as razões que m e fervilhavam na cabeça, a m ágoa que m e inchava o coração. Inútil qualquer resistência.
Trouxeram -m e a roupa nova de fustão branco. Tentaram calçar-m e os borzeguins am arelos: os pés tinham crescido e não houve m eio de reduzi-los.
Machucaram -m e, com prim iram -m e os ossos. As m eias rasgavam -se, os borzeguins estavam secos,, m inguados. Não senti esfoladuras e advertências. As barbas do professor eram im ponentes, os m úsculos do professor deviam ser trem endos. A roupa de fustão branco, engom ada pela Rosenda, j untava-se a um gorro de palha. Os fragm entos da carta de ABC, pulverizados, atirados ao quintal, dançavam -m e diante dos olhos. "A preguiça é a chave da pobreza. Pala pouco e bem : ter-te-ão por alguém . D, t, d, t." Quem era Terteão? Um hom em desconhecido. Iria o professor m andar-m e explicar Terteão e a chave? Enorm e tristeza por não perceber nenhum a sim patia em redor. Arranj avam im piedosos o sacrifício — e eu m e deixava arrastar, m ole e resignado, res infeliz antevendo o m atadouro.
Suspenderam o suplício, experim entaram -m e uns sapatos roxos de m arroquim , folgados. Tive um largo suspiro de consolo passageiro. Pelo m enos estava livre dos calos. Para que pensar no resto? Males inevitáveis iam chover em cim a de m im . Joaquim Sabiá era feliz. D. Conceição, ocupada no oratório, dirigindo-se aos santos, largava-o na areia do beco. [pág. 114]
[pág. 115] im agem
[pág. 116] página em branco
Lavaram -m e, esfregaram -m e, pentearam -m e, portaram -m e as unhas suj as de terra. E, com a roupa nova de fustão branco, os sapatos roxos de m arroquim , o gorro de palha, folhas de alm aço num a caixa, penas, lápis, um a brochura de capa am arela, saí de casa, tão perturbado que não vi para onde m e levavam .
Nem tinha tido a curiosidade de inform ar-m e: estava certo de que seria entregue ao suj eito barbado e severo, residente no largo, perto da igrej a.
Conduziram -m e à Rua da Palha, m as só m ais tarde notei que m e achava lá, num a sala pequena. Avizinharam -m e de um a senhora baixinha, gordinha, de cabelos brancos. Fileiras de alunos perdiam -se num aglom erado confuso. As m inhas m ãos frias não acertavam com os obj etos guardados na caixa; os olhos vagueavam turvos, buscando um a saliência na m assa indistinta; a voz da m ulher gorda sussurrava docem ente.
Dias depois, vi chegar um rapazinho seguro por dois hom ens. Resistia, debatia-se, m ordia, agarrava-se à porta e urrava, feroz. Entrou aos arrancos, e se conseguia soltar-se, tentava ganhar a calçada. Foi difícil subj ugar o bicho brabo, sentá-lo, im obilizá-lo. O garoto caiu num choro largo. Exam inei-o com espanto, desprezo e invej a. Não m e seria possível espernear, berrar daquele j eito, exibir força, escoicear, utilizar os dentes, cuspir nas pessoas, espum ante e selvagem .
Tinham -m e dom ado. Na civilização e na fraqueza, ia para onde m e im peliam , m uito dócil, m uito leve, com o os pedaços da carta de A B C, triturados, soltos no ar. [pág. 117]
D. Maria
m ulher gorda cham ou-m e, deu-m e um a cadeira, exam inou-m e a roupa, o couro cabeludo, as unhas e os dentes. Em seguida abriu a caixinha A branca, retirou o folheto:
— Leia.
— Não senhora, respondi confuso.
Ainda não havia estudado as letras finas, m enores que as da carta de A B
C. Necessário que m e esclarecessem as dificuldades.
D. Maria resolveu esclarecê-las, m as parou logo, deixou-m e andar só no cam inho desconhecido. Parei tam bém , ela m e incitou a continuar. Percebi que os sinais m iúdos se assem elhavam aos borrões da carta, aventurei-m e a designá-los, agrupá-los, num a cantiga lenta que a professora corrigia. O exercício prolongou-se e arrisquei a perguntar até onde era a lição.
— Está cansado? sussurrou a m ulher.
— Não senhora.
— Então vam os para diante. [pág. 118]
Isto m e pareceu desarrazoado: exigiam de m im trabalho inútil. Mas obedeci. Obedeci realm ente com satisfação. Aquela brandura, a voz m ansa, a consertar-m e as barbaridades, a m ão curta, a virar a folha, apontar a linha, o vestido claro e lim po, tudo m e seduzia. Além disso a extraordinária criatura tinha um cheiro agradável. As pessoas com uns exalavam odores fortes e excitantes, de fum o, suor, banha de porco, m ofo, sangue. E bafos nauseabundos.
Os dentes de Rosenda eram pretos de sarro de cachim bo; André Laerte usava um avental im undo; por detrás dos baús de couro, brilhantes de tachas am arelas, escondiam -se cam isas ensangüentadas.
Agora, livre das em anações ásperas, eu m e tranqüilizava. Mas não estava bem tranqüilo: tinha a calm a precisa para arrum ar, sem m uitos despropósitos, as sílabas que se com binavam em períodos concisos. Dom inava os receios e a trem ura, desej ava findar a obrigação antes que estalasse a cólera da professora.
Com certeza ia estalar: im possível m anter-se um vivente naquela serenidade, falando baixo.
A cólera não se m anifestou — e explorei diversas páginas. Então D.
Maria m e interrom peu, fez-m e alguns elogios m oderados. Pedi-lhe que m arcasse a lição. Indicou vagam ente o m eio do livro.
— E o princípio?
Declarou que não valia a pena repisar as folhas j á lidas e conservou-m e perto dela. Provavelm ente era recom endação de m eu pai. Ao apresentar-m e, exagerara-m e a rudeza e a teim osia. Um pretexto: isolava-m e, tem endo que m e corrom pesse, perm itia-m e raros com panheiros inocentes. Às vezes [pág. 119]
esquecia a vigilância, autorizava os passeios ao cercado, onde o m oleque José e os garotos vadiavam .
Findo o em baraço, fechei o volum e e observei os colegas. A caixa de pinho, a roupa de fustão branco e os sapatos roxos incutiam -m e algum a segurança. No íntim o j ulgava-m e fraco. Tinham -m e dado esta convicção e era difícil vencer o acanham ento.
Com eçou vida nova. Sem anas e sem anas tentei am bientar-m e. Não m e exibia natural e chinfrim , diligenciava por qualquer m odo com pensar as m inhas deficiências. Exprim ia-m e deploravelm ente. E pouco tem po nos deixavam para com unicações. Na ausência da professora, abandonávam os os nossos lugares, cochichávam os. Vários tipos m ostraram -m e indiferença ou antipatia, e Cecília, cheia de arestas e orgulhosa, arrepiou-se, em pinou-se, a boca torcida, um desdém tão grande nos olhinhos acesos que m e desviei vexado, com receio de m olestá-la.
Isso m e privou de excelentes m estres. Na verdade os m elhores que tive foram indivíduos ignorantes. Graças a eles, com plicações eruditas enfraqueceram , traduziram -se em calão.
Felizm ente D. Maria encerrava um a alm a infantil. O m undo dela era o nosso m undo, aí vivia farej ando pequenos m istérios nas cartilhas. Tinha dúvidas num erosas, adm itia a cooperação dos alunos, e cavaqueiras dem ocráticas anim avam a sala. Certo dia apareceu na gaveta da m esa um obj eto com feitio de lápis. Lápis graúdo, alvacento num a extrem idade, escuro na outra. Que seria?
Toda a aula foi interrogada, exam inou o pedaço de m adeira, apalpou-o, m ordeu-o, balançou a cabeça e estirou o beiço indecisa. D. Maria recolheu-se, ponderou,
[pág. 120] afinal sugeriu que talvez aquilo fosse m edida para Seu Antônio Justino cortar fum o. Seu Antônio Justino cortava sem m edida o fum o de corda.
E a raspadeira de borracha, im prestável e sem ponta, ficou sobre a m esa, a desafiar-nos a argúcia, a inspirar-nos hum ildade, j unto à palm atória. A escola exigia palm atória, m as não consta que o m odesto em blem a de autoridade e saber haj a trazido lágrim as a alguém . D. Maria nunca o m anej ou. Nem sequer recorria às am eaças. Quando se aperreava, erguia o dedinho, um a nota desafinava na voz carinhosa — e nós nos alarm ávam os. As m anifestações de desagrado eram raras e breves. A excelente criatura logo se fatigava da severidade, restabelecia a cam aradagem , rascunhava palavras e algarism os, que reproduzíam os.
Não m e aj eitava a esse trabalho: a m ão segurava m al a caneta, ia e vinha em sacudidelas, a pena caprichosa fugia da linha, evitava as curvas, rasgava o papel, andava à toa com o um a barata doida, sem eando borrões. De nada servia pegarem -m e os dedos, tentarem dom iná-los: resistiam , divagavam , pesados, úm idos, e a tinta se m isturava ao suor, deixava na folha grandes m anchas. D.
Maria olhava os estragos com desânim o, procurava atenuá-los debalde. As consolações atorm entavam -m e, e eu tinha a certeza de que não m e corrigiria.
Um a vez em que m e extenuava na desgraçada tarefa percebi um m urm úrio:
— Lavou as orelhas hoj e?
— Lavei o rosto, gaguej ei atarantado.
— Perguntei se lavou as orelhas.
— Então? Se lavei o rosto, devo ter lavado as orelhas. [pág. 121]
D. Maria, num discurso, afastou-m e as orelhas do rosto, aconselhou-m e a tratar delas cuidadosam ente. Isto m e encheu de perturbação e vergonha. Se a m ulher m e desse cocorotes ou bolos, eu m e zangaria, m as aquela advertência num rum or leve deixou-m e confuso, de olhos baixos, com desej o de m eter-m e na água, tirar do corpo as im purezas que ofendiam vistas exigentes. Nunca m inha fam ília se ocupava com sem elhantes ninharias, e a higiene era considerada luxo. Lem bro-m e de ter ouvido alguém condenar certa hóspeda que, antes de ir para a cam a, pretendia banhar-se:
— Moça porca.
A observação da m estra pareceu-m e descabida, m as afligi-m e, esquivei-m e a exam es desagradáveis, e à noite dorm i pouco. Na m anhã seguinte levantei-m e cedo, abri a j anela da sala de j antar, cheguei-m e ao lavatório de ferro, enchi a bacia, vagarosam ente, para não acordar as pessoas e o papagaio. Ainda havia um pretum e no quintal e silêncio nos quartos. Fiquei talvez um a hora a friccionar-m e, a ensaboar-m e, até que o sol nasceu e as dobradiças das portas rangeram .
Fui olhar-m e ao espelho da sala: as orelhas se arroxeavam , com o se tivessem recebido puxavantes. Estariam bem lim pas? As m ãos se engelhavam , insensíveis, m as isto não tinha im portância. O que m e preocupava eram as orelhas. Continuei a asseá-las rigoroso, e ao cabo de um a sem ana surgiram nelas esfoladuras e gretas que dificultaram as esfregações.
A professora notou o exagero, segredou-m e que deixasse as orelhas em paz. Desobedeci: havia contraído um hábito e receava outra adm oestação, pior que insultos e gritos. [pág. 122]
Minha m ãe tinha engordado m uito em alguns m eses. As bochechas estavam m urchas o os braços finos, m as a barriga crescia, os pés inchavam .
Nervosa, m ovia-se a custo, arriava no m arquesão, cuspindo nas gravuras do rom ance, abanando-se no calor. Não nos víam os pela m anhã. Arranj ava-m e só.
E engolido o café, largava-m e para a escola deserta.
Sinhá e Seu Antônio Justino vinham ensinar-m e o catecism o. Depois a sala se povoava, D. Maria nos im punha o dever sonolento. Distraía-m e espiando o teto, o vôo das m oscas, um pedaço do corredor, as j anelas, a casa de azulej os, cabeças de transeuntes. Perto, no quartel da polícia, José da Luz cantava. Um a réstia descia a parede, avançava no tij olo, subia outra parede, alcançava o traço que indicava duas horas. Os garotos soltavam os livros, fechavam com rum or as caixinhas, ganhavam a rua num a algazarra, iam j ogar pião nas calçadas.
Adm irava-m e das expansões ruidosas, censurava-as e invej ava-as. Conservar-m e-ia na aula por gosto. Os m eus tem ores ali se dispersavam , entendia-m e bem com aquela gente: o hom em preguiçoso, de chinelos, fum ante, bocej ador; a solteirona que m e desbastava com paciência e m e orientava os dedos teim osos; a velha am orável, bondade verdadeira, sem elhante às figuras celestes do flós-santório.
D. Maria não era triste nem alegre, não lisonj eava nem m agoava o próxim o. Nunca se ria, m as da boca entreaberta, dos olhos doces, um sorriso perm anente se derram ava, rej uvenescia a cara redonda. Os acontecim entos surgiam -lhe num a claridade tênue, que alterava, purificava as desgraças. E se notícias de violência ou paixão toldavam essa [pág. 123] luz, assustava-se, apertava as m ãos, um a nuvem cobria-lhe o sorriso. Não com preendia as violências e as paixões. Se o m arido e a filha m orressem , sofreria — e resignar-se-ia, confiante nas prom essas de Cristo. De fato j á se haviam realizado essas prom essas. "Bem -aventurados os que têm sede de j ustiça", zum biam os m eninos cochilando no catecism o. D. Maria não tinha sede de j ustiça, não tinha nenhum a espécie de sede, m as era bem -aventurada: a sua alm a sim ples desej ava pouco e se avizinhava do reino de Deus. Não irradiava dem asiado calor. Tam bém não esfriava. Justificava a com paração de certo pregador desaj eitado: "Nossa Senhora é com o um a perua que abre as asas quando chove, acolhe os peruzinhos." De Nossa Senhora conhecíam os, em litografias, o vestido azul, o êxtase, a auréola. D. Maria representava para nós essa grande ave m aternal — e, ninhada heterogênea, perdíam os, na tepidez e no aconchego, os diferentes instintos de bichos nascidos de ovos diferentes.
Nessa paz m isericordiosa os m eus desgostos ordinários se entorpeceram , um a estranha confiança m e atirava à santa de cabelos brancos, aliviava-m e o coração. Narrei-lhe tolices. D. Maria escutou-m e. Assim am parado, elevei-m e um pouco. Os garranchos a tinta continuaram horrorosos, apesar dos esforços de Sinhá, m as o folheto de capa am arela foi vencido rapidam ente. Tudo ali era fácil e desenxabido: com binações j á vistas na carta de A B C, frases que se articulavam de um fôlego. E ausência de conselhos absurdos, as m onstruosidades que se arrum avam na página odiosa, triturada, rasgada com satisfação.
Lendo o bilhete em que se pedia um segundo livro, m eu pai m anifestou surpresa com espalhafato. [pág. 124] Houve um a aragem de otim ism o, chegaram -m e retalhos de felicidade. Ofereceram -m e um carretel de linha, m andaram -m e com prar um a folha de papel verm elho na loj a de Seu Filipe Benício, obtive um a tesoura, grude, pedaços de tábua, e fabriquei no alpendre um papagaio que não voou. No j antar deram -m e toicinho. E exibiram -m e a preciosidade que exteriorizava o m eu progresso: volum e feio, com um retrato barbudo e antipático. Ericei-m e, pressenti que não sairia boa coisa dali.
Realm ente, encrenquei, para bem dizer caí num longo sono, de que a perseverança da m estra não m e arrancou. Eu nunca revelara nenhum gênero de aptidão. Xingado, às vezes tolerado, em raros m om entos elogiado sem m otivo, propriam ente estúpido não era; m as tornei-m e estúpido, creio que m e tornei quase idiota. Os sentidos em botaram -se, o espírito opaco tom ou um a dureza de pedra. Com pletam ente inerte.
Depois, m uito depois, avancei uns passos na som bra. Recuei, desnorteei-m e. Andei sem pre em ziguezagues. Certam ente não foi o segundo livro a causa única do m eu infortúnio. Houve outras, sem dúvida. Julgo, porém , que o m aior culpado foi ele. [pág. 125]
O Barão de Macaúbas
M grosso volum e escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontáveis, as letras fervilhavam , m iúdas, e as ilustrações avultavam U num papel brilhante com o rasto de lesm a ou catarro seco.
Principiei a leitura de m á vontade. E logo em perrei na história de um m enino vadio que, dirigindo-se à escola, se retardava a conversar com os passarinhos e recebia deles opiniões sisudas e bons conselhos.
— Passarinho, queres tu brincar com igo?
Form a de perguntar esquisita, pensei. E o anim alej o, atarefado na construção de um ninho, exprim ia-se de m aneira ainda m ais confusa. Ave sabida e im odesta, que se confessava trabalhadora em excesso e orientava o pequeno vagabundo no cam inho do dever.
Em seguida vinham outros irracionais, igualm ente bem intencionados e bem falantes. Havia a m oscazinha, que m orava na parede de um a cham iné [pág.
126] e voava à toa, desobedecendo às ordens m aternas. Tanto voou que afinal caiu no fogo.
Esses dois contos m e intrigaram com o Barão de Macaúbas. Exam inei-lhe o retrato e assaltaram -m e presságios funestos. Um tipo de barbas espessas, com o as do m estre rural visto anos atrás. Carrancudo, cabeludo. E perverso. Perverso com a m osca inocente e perverso com os leitores. Que levava a personagem barbuda a ingerir-se em negócios de pássaros, de insetos e de crianças? Nada tinha com esses viventes. O que ele intentava era elevar as crianças, os insetos e os pássaros ao nível dos professores.
Não m e parecia desarrazoado os brutos se entenderem , brigarem , fazerem as pazes, narrarem as suas aventuras, sem dúvida curiosas. Tinha refletido nisso, adm itia que os sapos do açude da Penha m anifestassem , cantando, coisas ininteligíveis para nós Os fracos se queixavam , os fortes gritavam m andando.
Constituíam um a sociedade. Sapos negociantes, sapos vaqueiros, o Reverendo sapo João Inácio, o sapo José da Luz, am igo da distinta farda, sapos traquinas, filhos do cururu Teotoninho Sabiá, o sapo alfaiate m estre Firm o, a sapa Rosenda lavadeira a tagarelar os m exericos da beira da água. O nosso m undo exíguo podia alargar-se um pouco, enfeitar-se de sonhos e caram inholas.
Infelizm ente um doutor, utilizando bichinhos, im punha-nos a linguagem dos doutores.
— Queres tu brincar com igo?
O passarinho, no galho, respondia com preceito e m oral. E a m osca usava adj etivos colhidos no dicionário. A figura do barão m anchava o frontispício do livro — e a gente percebia que era dele [pág. 127] o pedantism o atribuído à m osca e ao passarinho. Ridículo um indivíduo hirsuto e grave, doutor e barão, pipilar conselhos, zum bir adm oestações.
E isso ainda era condescendência. Decifrados a custo os dois apólogos, encolhi-m e e desanim ei, incapaz de achar sentido nas páginas seguintes. Li-as soletrando e gaguej ando, nauseado. Lem bro-m e de um desses horrores, que bocej ei longam ente. Um suj eito, acossado, ocultava-se num a caverna. A aranha providencial veio estender fios à entrada do refúgio. E os perseguidores não incom odaram o fugitivo: se ele estivesse ali, teria desm anchado a teia.
D. Maria resum iu essa literatura, explicou-a. E o m eu desalento aum entou. Julguei que ela fantasiava; im possível enxergar a narrativa sim ples nas palavras desarrum adas e com pridas.
Tem i o Barão de Macaúbas, considerei-o um sábio enorm e, confundi a ciência dele com o enigm a apresentado no catecism o.
— Podem os entender bem isso?
— Não: é um m istério.
Os m eus infelizes m iolos ferviam , evaporavam -se, transform avam -se em nevoeiro, e nessa neblina flutuavam m oscas, aranhas e passarinhos, nom es difíceis, vastas barbas pedagógicas. Achava-m e obtuso. A cabeça pendia em largos cochilos, os dedos esm oreciam , deixavam cair o volum e pesado. Contudo cheguei ao fim dele. Acordei bam bo, certo de que nunca m e desem baraçaria dos cipoais escritos.
De quem seria o defeito, do Barão de Macaúbas ou m eu? Devia ser m eu.
Um hom em coberto de responsabilidades com certeza escrevia direito. Não havia desordem na com posição. Só eu m e atrapalhava nela, os m eninos com uns viam facilm ente [pág. 128] o fugitivo esconder-se na gruta, a aranha fabricar a teia. Hum ilhava-m e — e na horrível cartonagem só percebia um a confusão de veredas espinhosas. Não valia a pena esforçar-m e por andar nelas. Na verdade nem tentava qualquer esforço: o exercício m e produzia enj ôo.
Restava-m e, porém , um a débil esperança, pois naquela idade ninguém é inteiram ente pessim ista: segurava-m e à ilusão de que o terceiro livro não seria tão ruim com o o segundo. Procurava enganar-m e am parando-m e num a incongruência. De fato, reconhecendo-m e inepto, era absurdo pretender m elhoria. Não m e conform ava. E se o catecism o tivesse para m im algum significado, pegar-m e-ia a Deus, pedir-lhe-ia que m e livrasse do Barão de Macaúbas. Nenhum proveito a libertação m e daria: os outros organizadores de histórias infantis eram provavelm ente com o ele. Em todo o caso am bicionei afastar a m osca, a teia de aranha, o pássaro virtuoso.
Desej o perdido. Recebi um livro corpulento, origem de calafrios. Papel ordinário, letra safada. E, logo no intróito, o sinal do m alefício: as barbas consideráveis, a sisudez cabeluda. Desse obj eto sinistro guardo a lem brança m ortificadora de m uitas páginas relativas à boa pontuação. Avizinhava-m e dos sete anos, não conseguia ler e os m eus rascunhos eram pavorosos. Apesar disso em aranhei-m e em regras com plicadas, resm unguei expressões técnicas e encerrei-m e num em brutecim ento adm irável.
A tabuada e o catecism o eram penosos, m as aí apenas m e obrigavam a decorar certo núm ero de linhas.
— Sete vezes nove? [pág. 129]
Sessenta, pouco m ais ou m enos. A exigência de D. Maria não se inquietava com unidades.
— Quantos são os inim igos da alm a?
Em três palavras isentava-m e da im posição. Estranhava que se j untasse a carne ao diabo: naturalm ente havia equívoco na resposta. Quis insurgir-m e contra o disparate, m as os sortilégios da tipografia com eçavam a dom inar-m e.
Em falta de explicação, im aginei um diabo carnívoro. A redação desviava esta idéia. Paciência. Todas as frases artificiais m e deixavam perplexo. Enfim a m inha obrigação era papaguear algum as sílabas. D. Maria não entrava em m inúcias, talvez aceitasse o diabo carnívoro. Um m istério, curto, por felicidade.
O outro m istério, o que se referia a pontos, vírgulas, parênteses e aspas, estirava-se dem ais e produzia um sono terrível.
Foi por esse tem po que m e infligiram Cam ões, no m anuscrito. Sim senhor: Cam ões, em m edonhos caracteres borrados — e m anuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da m inha língua, fui com pelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas do Mondego, a linda Inês, as arm as e os barões assinalados. Um desses barões era provavelm ente o de Macaúbas, o dos passarinhos, da m osca, da teia de aranha, da pontuação. Deus m e perdoe.
Abom inei Cam ões. E ao Barão de Macaúbas associei Vasco da Gam a, Afonso de Alburquerque, o gigante Adam astor, barão tam bém , decerto. [pág. 130]
Meu avô
INHA m ãe adoeceu. Engordou m uito na barriga e nos pés, m as as outras partes do corpo ficaram m agras. No pescoço o gogó crescia, as M bossas da testa avultavam , o vestido subia na frente, cada vez m ais se levantava, exibindo as pernas finas com o cam bitos.
Foi passar m eses na fazenda do pai. Antes de curar-se, esteve uns dias de cam a, alim entado-se com pirão escaldado e capões que vinham do galinheiro construído a um canto do j ardim . E bebia cachim bo, m istura de aguardente e m el de abelha dos cortiços pendurados no beirai do alpendre. Em obediência à m edicina bruta do sertão, adicionavam cebola à beberagem , o que a tornava repugnante. Afinal m inha m ãe largou o choco. Estava pálida, sem ventre, a saia arrastando, fraca e bam ba. E am am entava um a criança chorona.
Tinham -m e levado ao cam po, na garupa do cavalo de m eu tio Serapião.
Os dentes de um cisca-dor m e haviam furado o pé na véspera. O chouto [pág.
131] do anim al m e sacudia, o rabicho e o arção da sela m e incom odavam , a ferida se inflam ava, doía. E Serapião m e assustava narrando histórias de alm as, de lugares m al-assom brados.
— Sarapo, não conte isso. Cale a boca.
Serapião insistira, eu saltara nos seixos m iúdos do cam inho, m agoara as estrepadas. Na fazenda, m al podia andar, capengava dos currais ao chiqueiro das cabras, aos j uazeiros do fim do pátio, firm ando-m e no calcanhar.
Meus tios pequenos se distanciavam , corriam na catinga, abandonavam -m e ao capricho de m eu avô, que m e j ungiu à prosa do Barão de Macaúbas e ao catecism o, trazidos na carona de Sarapo. Mas o velho dava às letras nom es desconhecidos, lia de form a esquisita — e eu lam entava a ausência de D. Maria, a excelente m estra que m e deixava errar, m urm urava conselhos com doçura, com o se pedisse desculpa. Meu avô era exigente. Detinha-se num a desgraçada sílaba, forçava-m e a repeti-la, e isto m e perturbava. As longas barbas brancas varriam -m e a cara assustada; os olhos azuis, repletos de am eaças, feriam -m e; a voz engrossava, rolava, entrava-m e nos ouvidos com o um trovão fanhoso e encatarroado. Os m eus conhecim entos debandavam ; as linhas m isturavam -se, fugiam ; no papel e dentro de m im grandes m anchas alargavam -se. Nessa deplorável situação, eu em brulhava estupidam ente a leitura, balbuciava respostas insensatas. O grito ribom bava, enchia-m e de pavor, transform ava-se pouco a pouco num a gargalhada im ensa que atraía gente e m e encabulava. A alegria ruidosa parecia-m e intem pestiva; as m inhas tolices não tinham graça.
[pág. 132]
De repente o m edo findava, um a bondade singular m e envolvia, áspera, adstringente, m anifesta na fala cavernosa e autoritária, no riso grosso e incôm odo. Bondade espessa, com cheiro de curtum e, de angico.
Perneiras, gibões, peitorais, enorm es chapéus de barbicachos, pendiam de tornos cravados na taipa negra. Rolos de sola arrum avam -se nos cantos, cordas flexíveis em sebo. Enfileiravam -se num cavalete selas de cam po de suadouros úm idos e escuros. Sapatões cabeludos em toda a parte, m antas de peles, correias, cabrestos, chicotes, látegos. Isso anim alizava um pouco as pessoas.
Em dias de m atança trepava-m e na porteira do curral, via m eu avô derrubar a m achado, sangrar e esfolar um a novilha, aprum ar-se no chão verm elho, as m ãos verm elhas. Com parei-o m ais tarde aos j udeus antigos, Abraão, Isaac, Esaú, religiosos e carnívoros.
A religião de m eu avô era segura e fam iliar. Revelava-se diante do oratório erguido na sala, sobre a m esa coberta de pano vistoso. Na gaveta desse altar guardavam -se m acetes, chifres de veado, sovelas, cera, pregos, torqueses, pedaços de couro em que se pulverizava fum o torrado. Em cim a, na luz, entre fitas e flores secas, litografias piedosas, figurinhas santas esculpidas por im aginários rudes. O velho se aj oelhava na esteira, persignava-se, batia no peito, ouvia a ladainha que Maria Melo, sacerdotisa e m ulher do vaqueiro, cantava num a espécie de latim . Ali agachado e contrito, perto da negra Vitória e de Maria Moleca, voluntariam ente escravas porque não tinham em que em pregar a liberdade, reduzia-se m uito, não se diferençava [pág. 133] quase de Ciríaco, pastor de cabras. Finda a cerim ônia, recuperava a grandeza e o com ando:
— Ó negra!
Maria Moleca trazia a gam ela de água, vinha lavar-lhe os pés, de cócoras, enxugá-los na toalha encardida. Essa posição era natural. De cócoras preparava a com ida, tem perava a panela, atiçava o fogo na trem pe de pedras. De cócoras varria a casa com um m olho de vassourinha cortado no fundo do terreiro, onde o m uçam bê e o velam e desbotavam . Dorm ia de cócoras, arrim ada à parede, sob as cortinas de pucum ã que desciam do teto.
Se a gam ela tardava,, m inha avó intervinha ranzinza:
— Vai lavar os pés de teu senhor, negra.
Dirigia-se a um a negra indeterm inada, pois tem ia o gênio de Vitória, que arrastava no serviço o quarto desm antelado, andava cam baleando, fazia trabalhos duros de hom em , zangava-se facilm ente e, endireitando o busto franzino de virgem m urcha, um a coragem feroz a sacudi-la, despia a subserviência hereditária, roncava:
— Cativeiro j á se acabou, dona. Se eu m orrer na cozinha de Seu Pedro Ferro, não m e salvo.
Mas envelhecia, encarquilhava-se na cozinha. Às vezes a coxa se desarticulava — e a infeliz se torcia gem endo, os bugalhos doloridos fixos nas crianças, que m angavam das caretas dela. Os am os se condoíam , levavam para a cam a de varas a pequena m áquina desarranj ada, tentavam desenferruj á-la e azeitá-la. Os ossos se j untavam , levantavam -se, iam coxeando consertar as cercas do j ardim , regar os craveiros e a losna, encher no rio o pote, que voltava penso na rodilha, am eaçando cair, um penacho de folhas verdes no gargalo.
[pág. 134]
Essa ruína vacilante e obstinada era um refúgio: defendia-nos dos perigos caseiros, enrolava-nos na saia de chita, protegia-nos as orelhas e os cabelos com ternura resm ungona, esquisita expressão de m aternidade gora. Estávam os em segurança perto dela.
— Se eu m orrer na cozinha de Seu Pedro Ferro, não m e salvo.
Morreu de supetão, vom itando sangue, debaixo do j irau onde se acum ulavam frigideiras, m ochilas de sal, réstias de alho. E com certeza se salvou, porque endureceu na virgindade e conservou o espírito lim po. Fez m uita falta, em bora, j á não podendo ser vendida e com um a banda desconchavada, representasse apenas valor estim ativo.
Antes da abolição alguns pretos haviam abandonado a casa, sido presos pelo capitão-de-m ato, fugido novam ente. Meu avô os deixara em paz, j ulgando-os m alucos e ingratos. Com o se arranj ariam ? Ali estavam quietos. O serviço exigia pouco esforço, as vaquej adas eram torneios, o proprietário passava dias no banco do copiar ou escanchado na rede, fungando tabaco, um lenço no om bro, de alpercatas e roupa de algodão cru, descaroçado na bolandeira próxim a, tecido no tear dom éstico.
A catinga im ensa não tinha dono, o gado pastava livrem ente nela, de ribeira a ribeira, aum entava, definhava, bichos de várias fazendas, reconhecíveis pelas m arcas a fogo. De m anhã as vacas leiteiras saíam , voltavam à tarde. O
resto dos anim ais ficava longe, sum ido na vegetação rala, de cardo e favela, que vestia a cam pina. A riqueza aparecia no inverno, sem vantagem sensível, desapareceria no verão, sem inconveniente. Na prosperidade, os hábitos da fam ília não se m odificavam , [pág. 135] porque a ausência de saber lim itava os desej os; se a penúria chegava, perm aneciam todos calm os, recolhendo-se à boca da noite, rezando o terço.
Meu avô possuía bois em abundância, espalhados na capoeira, difíceis de j untar. Não os levava ao m ercado. Esperava que o m archante viesse buscá-los.
Mandava então pegar alguns, m irava-os cuidadoso e determ inava o peso: tantas arrobas e tantas libras. Nunca se enganava. Debatido pachorrentam ente o negócio, afastados os com pradores, sum ia-se nas trevas do quarto, cochichava núm eros à m ulher, ia esconder um m aço de notas em arca de boas dobradiças e boa fechadura. No tem po da m onarquia o tesouro certam ente era invisível, constituído por m oedas am arelas. Depois, variável e de papel, foi necessário às vezes desentranhá-lo, exibi-lo na rua a pessoas idôneas, antes que ele se convertesse num m ontão de sím bolos desvalorizados.
Nos m eses de seca, os raros habitantes daqueles cafundós m exiam -se cavando bebedouros na areia, cortando em cestos m andacaru para o gado, que se finava no carrapato. Dobravam -se as redes. As m ãos sangravam no trabalho rij o, curavam -se as rachaduras dos pés com sebo derretido na brasa. Nenhum a nuvem toldava os dias com pridos; vôos sinistros de arribações riscavam o céu azul; os ram os das árvores eram gravetos escuros; as folhas tostavam -se; no chão branco e liso da vazante abriam -se largas fendas.
Inúteis os cuidados com os bichos m oribundos, porque Deus os condenava e contra as resoluções de Deus ninguém pode. Entretanto m eu avô andava para cim a e para baixo, furando-se nos espinhos, ordenando, fanhoso e lento, m edidas vãs. [pág. 136] Sossegaria quando os estragos, com pletos, abrandassem a cólera divina. Sentar-se-ia de novo na rede, sem credores, isento de culpa. Inquietações e fadigas eram penitência que ele m esm o se im punha. O
seu tribunal, antigo e particular, estava longe do de Padre João Inácio. Purgava no extenso verão pecados ligeiros, o inverno ia encontrá-lo forte e altivo. A certeza de proceder bem dava-lhe aquela serenidade perfeita. Cum pria deveres sim ples, não poderia viver de outra m aneira. Tratar do gado, vê-lo m ultiplicar-se ou dim inuir; gerar filhos, criá-los, proporcionar-lhes batism o e casam ento, não se afastar m uito deles, am pará-los na pobreza e na doença, pôr-lhes a vela na m ão, am ortalhá-los, conduzi-los ao cem itério e à eternidade. Nenhum pensam ento estranho o perturbava, nenhum escrito ia m odificar o velho Deus agreste e pastoril.
Os livros existentes na fazenda eram as m inhas cartonagens insossas, que o patriarca, nessas férias, tentou esclarecer-m e no vozeirão tem ível findo em riso grosso. Não conseguiu m elhorar-m e o intelecto. A repreensão fingida e a alegria rouca m e atordoavam . Desviei-m e das carícias rústicas, das barbas alvas que m e arranhavam a cara.
A ferida do pé cicatrizou. Fui ocultar-m e entre as catingueiras que ensom bravam as m argens da lagoa vazia. Meninos andavam por ali, brincando com ossos e seixos. Serapião m e ensinava com plicações da História do Brasil, errando bastante. E quando não havia testem unhas, um a rapariguinha silenciosa m e exam inava pacientem ente o corpo. Levantava-m e a cam isa de chita, a roupa que eu usava no cam po, utilizava os dedos e os olhos, num estudo profundo.
[pág. 137]
Cegueira
FASTOU-ME da escola, atrasou-m e, enquanto os filhos de Seu José Galvão se internavam em grandes volum es coloridos, a doença de olhos A que m e perseguiu na m eninice. Torturava-m e sem anas e sem anas, eu vivia na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeçando nos m óveis, guiando-m e às apalpadelas, ao longo das paredes. As pálpebras inflam adas colavam -se.
Para descerrá-las, eu ficava tem po sem fim m ergulhando a cara na bacia de água, lavando-m e vagarosam ente, pois o contacto dos dedos era doloroso em excesso. Finda a operação extensa, o espelho da sala de visitas m ostrava-m e dois bugalhos sangrentos, que se m olhavam depressa e queriam esconder-se. Os obj etos surgiam em pastados e brum osos. Voltava a abrigar-m e sob o pano escuro, m as isto não atenuava o padecim ento. Qualquer luz m e deslum brava, feria-m e com o pontas de agulhas. E as lágrim as corriam , engrossavam , solidificavam -se na [pág. 138] pele verm elha e crestada. Necessário m exer-m e à toa, em busca da bacia de água.
Sem dúvida o m eu aspecto era desagradável, inspirava repugnância. E a gente da casa se im pacientava. Minha m ãe tinha a franqueza de m anifestar-m e viva antipatia. Dava-m e dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega.
Bezerro-encourado é um intruso. Quando um a cria m orre, tiram -lhe o couro, vestem com ele um órfão, que, neste disfarce, é am am entado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o anim al. Devo o apodo ao m eu desarranj o, à feiúra, ao desengonço. Não havia roupa que m e assentasse no corpo: a cam isa tufava na barriga, as m angas se encurtavam ou alongavam , o paletó se alargava nas costas, enchia-se, com o um balão. Na verdade o traj e fora com posto pela costureira m ódica, atarefada, pouco atenta às m edidas. Todos os m eninos, porém , usavam na vila fatiotas iguais, e conseguiam m odificá-las, aj eitá-las. Eu aparentava pendurar nos om bros um casaco alheio. Bezerro-encourado. Mas não m e fazia tolerar. Essa inj úria revelou m uito cedo a m inha condição na fam ília: com parado ao bicho infeliz, considerei-m e um pupilo enfadonho, aceito a custo. Zanguei-m e, perm anecendo exteriorm ente calm o, depois serenei. Ninguém tinha culpa do m eu desalinho, daqueles m odos horríveis de cam bem be. Censurando-m e a inferioridade, talvez quisessem corrigir-m e.
A outra alcunha era m ais insultuosa que a prim eira. Lem brava-m e do j ogo infantil e arreliava-m e:
— Cabra-cega!
— Inhô. [pág. 139]
— Donde vem?
— Do mundéu.
— Traz ouro ou prata?
— Ouro.
Largavam em seguida um a porcaria que tinha besouro com o rim a; se a resposta fosse prata, a indecência term inava, em barata. Eu abom inava os nom es suj os, a brincadeira im unda enoj ava-m e. Não sabia por que m e balizavam daquela form a. Se se referissem a uni cavalo cego, não m e ofenderiam tanto.
Com certeza pensavam no diálogo, lançavam -m e indiretam ente as grosserias ligadas ao besouro e à barata. Aperreava-m e, não esquecia o folguedo m ortificante:
— Cabra-cegal
— Inhô.
— Donde vem?
— Do mundéu.
Ia até o fim , repisava m entalm ente a safadeza que não ousava dizer em voz alta. Aquilo não era com igo, convencia-m e de que m inha m ãe não tivera a idéia de j untar-m e ao besouro e à barata. Se a oftalm ia desaparecesse, a expressão vexatória desapareceria tam bém , eu regressaria ao catecism o, às histórias do Barão de Macaúbas.
A doença estirava-se — e eu sofria duplam ente os efeitos dela. Parece que se aborreciam por m eu organism o teim ar em conservar-se achacado e m ofino.
De fato não havia m edicação, m as punham -m e às vezes nos olhos um a cam ada pegaj osa de clara de ovo batida, im obilizavam -m e na cam a de lona. Isolavam o órgão deteriorado: a clara transform ava-se num a espécie de resina, grudava
[pág. 140] as pestanas. Não m e queixava nem gem ia. Debaixo daquela m áscara, as feridas resguardavam -se dos m osquitos, m as as dores eram atrozes, o calor im enso. Picadas m ultiplicavam -se: m ãos invisíveis m etiam -m e pregos finos na cabeça. Tentava distrair-m e ouvindo os sapos do açude da Penha. Os sapos só se explicavam de noite: durante o dia as vozes deles m isturavam -se a outros rum ores. Quando m e perm itiriam levantar-m e, chegar ao lavatório de ferro, diluir a pasta seca pregada na m inha cara? Lá iria capengando, tateando as paredes. Livre do terrível m edicam ento, voltaria à cam a, o choro cairia m anso.
Na escuridão percebi o valor enorm e das palavras. Em dias de claridade e m ovim ento entretinha-m e a observar a loj a e o arm azém , percorria alguns m etros do largo e alguns m etros da Rua da Palha, de casa para a escola, da escola para casa. Não conhecia a vila, m as certos pontos e certas figuras m e despertavam a atenção, ganhavam relevo: a torre da igrej a, residência de coruj as, o quartel da polícia, o j ardim e as m ulheres que podavam roseiras, a m aravilhosa frontaria de azulej os, Filipe Benício, Teotoninho Sabiá, José da Luz, D. Maria, Padre João Inácio. Nos aram es bam bos do telégrafo pousavam lavadeiras, enganchavam -se rabos de papagaios de papel. O portão, sem pre fechado, nos separava do beco. No m uro de tij olo verm elho passeavam lagartixas.
Agora a som bra espessa cobria tudo. O m uro se desm oronava, com o o outro se desm oronara anos atrás. De novo surgiam as plantas m eio esvaídas, o descaroçador do Cavalo-Morto, nuvens de algodão esvoaçando. A igrej a, os postes e os aram es do telégrafo, aves e flores, a fachada lum inosa, transeuntes,
[pág. 141] dissipavam -se, vagos e distantes: no rigor do verão envolviam -..e num a densa garoa de inverno.
Mas os ruídos avultavam , todos os sons adquiriam sentido. Os passos revelavam as criaturas, quase se confundiam com elas: para bem dizer tinham form a, feições, e era-m e possível saber de longe se estavam zangados ou satisfeitos. D. Conceição rezava o bendito na casa próxim a: certam ente calej ava o espírito e os j oelhos, adorando as litografias do oratório. Pedras de gam ão estalavam à distância, dados chocalhavam , os parceiros gritavam núm eros, excitados ou deprim idos. Ao ram errão externo associava-se o caseiro: pedaços de conversas, lam úrias de criança, o chiar da água a ferver na chaleira, o crepitar das labaredas, a vibração do abano, o cochicho dos m oleques. Os m eus ouvidos aguçavam -se, reconstituíam frases indistintas, supriam lacunas — e isto encurtava ou alongava o tem po. Aos dois epítetos inj uriosos uniam -se falas ásperas, que m e atorm entavam , agravavam as ferroadas dos m osquitos. Num sussurro, a voz de m inha irm ã feia e boa tinha ação entorpecente, deslizava branda pelas feridas, com o penugem . As dores esm oreciam , as horas passavam rápidas.
Em falta desse enlevo, procurava anestesiar-m e ouvindo as cantigas de m inha m ãe, duas cantigas desafinadas que a divertiam na fazenda.
Provavelm ente surgiram antes, m as foi lá que m e inteirei delas. Continuaram na vila, durante alguns anos. Depois, quando nos m udam os para a cidade e m elhoraram as condições econôm icas, sum iram -se, porque o sentim ento artístico de m inha m ãe se em botou ou porque se tornou m ais exigente. Um a das poesias com eçava assim : [pág. 142]
A letra A quer dizer — amaria minha;
A letra B quer dizer — bela adoraria,
A letra C quer dizer — casta mulher;