Infância
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Suponho que não foi a prim eira vez que m e em briagaram . As sertanej as do Nordeste entorpecem os filhos à noite com um a garrafa de vinho forte. Meus irm ãos ingeriram isso e procederam bem : não choraram , não gritaram , não m anifestaram nenhum a exigência. Acordavam quietinhos, m oles, bestas, bons com o uns santos. Um edeciam as cobertas, m ais isto não os incom odava: dorm iam no líquido. E, longe deles, D. Maria sossegava. Quando apurei o olfato e a vista, percebi que os lençóis de m eus irm ãos eram fétidos, horríveis. Os m eus deviam ter sido assim .
Vendo-m e o desem baraço, m inha m ãe tentou agarrar-m e. Não m e considerando bastante seguro na rede, ergui-m e trôpego, arrastei a senhora velha, desej ei exprim ir-lhe sim patia. Chegam os a um m arquesão, sentam o-nos, deitei fam iliarm ente a cabeça nas pernas da m ulher. Os obj etos esfum avam -se, entre eles, rem ota, quase im perceptível, a árvore que se despoj ava no pátio, j unto ao carro de bois. Voltou-m e a curiosidade, apontei com desânim o a planta calva, gaguej ei:
— Minha filha, que pau é aquele?
Obtive a inform ação e ao cabo de m inutos tornei a perguntar:
— Minha filha, que pau é aquele?
Veio novam ente a resposta, m as a necessidade de instruir-m e acendia-se e apagava-se, faiscava-m e no interior com o um vaga-lum e. Estranha [pág. 042]
loquacidade inutilizava o silêncio obtuso que m e haviam im posto. O
anim alzinho bisonho papagueava, e gargalhadas estrugiam na sala, abafando a quizilia de m inha m ãe. Essa potência baqueava. Não m e ocorria que ela se restabelecesse, voltasse com igo à casa triste, m e fustigasse e puxasse as orelhas.
Parecia-m e que as m oças ruidosas e a senhora encanecida iriam , no futuro, trazer-m e a garrafinha, os cálices e a bandej a, escutar-m e os devaneios.
Quando m eu pai regressou, eu m e achava num m om ento de evasão, indiferente às censuras, nos j oelhos de um a desconhecida, tagarelando com outras desconhecidas encantadoras, m eio invisíveis no espesso nevoeiro que m e envolvia. [pág. 043]
Chegada à vila
RA um a noite fria. Vozes m isturavam -se na calçada, andava gente em redor de um a fogueira grande, no pátio. Estalavam brasas, labaredas E cresciam , ilum inavam pedaços de figuras, esm oreciam , e da som bra fum acenta vinham risadas longas. Meu pai, invisível, com entava:
— Parece um papa-lagartas.
Que seria papa-lagartas? Se m eu pai não m e esfriasse a curiosidade repetindo um a frase suj a a respeito dos perguntadores, resolver-m e-ia a interrogá-lo. A frase m e espantava sem pre. Não queria convencer-m e de que ouvia nom es tão feios, e quando m e inteirava bem do sentido deles, afastava-m e triste e hum ilhado, achando m eu pai grosseiro e j urando em endar-m e.
Pensei em dirigir-m e a um a das pessoas ocultas na escuridão. Havia rebuliço: rinchos, passos, pancadas de tam pas de baús. E as gargalhadas j unto ao fogo. Que seria papa-lagartas ? Sem os m alditos sapatos duros com o pau, decidir-m e-ia a entrar, [pág. 044] sair, inform ar-m e. Certam ente não m e ligariam im portância. E os sapatos m e incom odavam os dedos, esfolavam os calcanhares. Onde estariam as m inhas alpercatas? Na roupa estreita, m ovia-m e com dificuldade. Em geral eu usava cam isa, saltava e corria com o um bichinho, trepava nas pernas de José Baía, que nascera de sete m eses e fora criado sem m am ar. José Baía era ótim o, talvez por não ter m am ado e haver nascido de sete m eses, o que devia ser um a exceção. Se José Baía aparecesse ali, explicar-m e-ia o papa-lagartas. A calça, o paletó e os sapatos pressagiavam acontecim entos volum osos. E palavras enigm áticas haviam -m e despertado suspeitas vagas, m edíocre entusiasm o por aventuras im precisas e m edo. Que iria suceder? Bom que José Baía estivesse com igo, papagueando na sua língua fácil e capenga, livrando-m e de sustos.
A recordação dessa antiga cena m ostra-m e a casa virada, extravagância que m ais tarde se reproduziu. Muitas vezes as ruas e os prédios se deslocaram , deixando-m e perplexo, desnorteado. A porta da frente e o copiar não davam para o açude, com o de ordinário, m as para os m ontes de lixo e o pé-de-turco. Houve um a pausa. As vozes, o rum or de m alas arrastadas, as cham as da fogueira, os rinchos, as gargalhadas do papa-lagartas, sum iram se.
Achei-m e, horas depois, dia claro, escanchado na m açaneta de um a sela, horrivelm ente sacolej ado pelo trote de um cavalo, grossas m ãos am parando-m e.
Atravessávam os um a povoação — duas filas de casebres desertos e entre elas cabanas de barro negro e palha seca. Para que serviria aquilo? Alguém falou em botequins e em festa. Não com preendi os botequins nem a festa, m as as construções [pág. 045] de terra e palha queim ada im pressionaram -m e. Perdi-as de vista, esqueci-as logo, sacudido pela andadura que m e desarrum ava as entranhas, aum entava e dim inuía a vegetação espinhosa e fam iliar de xiquexiques e m andacarus.
De repente m e vi apeado, em abandono com pleto, num m undo estranho, cheio de casas, brancas ou pintada sem alpendres, notáveis. Havia duas m aravilhosas: um a de quadrados faiscantes, um a que se m ontava noutra.
Avizinhei-m e do sobradinho, fugi m edroso e confuso: nunca teria podido im aginar um a casa trepada. Na debaixo percebi criaturas verm elhas e azuis, todas iguais; na de cim a dois suj eitos se debruçavam , conversando, a um a j anela, e, nem sei porque, talvez por estarem de poleiro, j ulguei-os enorm es. Um deles vestia farda verm elha e azul, com o os do andar térreo, m as com listas de galões am arelos nos punhos. Eu ignorava as fardas e os galões, obj etos preciosos, evidentem ente. Procurei Am aro e José Baía, debalde. Longe da fazenda, considerei-m e fora da realidade e só. De fato não estava só: várias pessoas transitavam por ali, ruídos vagos quebravam o silêncio. Adm irável a casa suspensa, com o um garoto erguido em percas de pau. Cheguei-m e a ela novam ente, arredei-m e Para a que brilhava, faiscava. O paletó feria-m e os
sovacos, os sapatos m ordiam -m e os pés e tropicavam no tij olo. Senti falta da cam isa e das alpercatas. No outro lado da rua um longo corredor expunha um quintal cheio de roseiras. Deixei a farda, os galões, as paredes lum inosas, fiquei m uito tem po olhado as flores. Tencionei exam iná-las de perto. Ressurgiu o isolam ento, pus-m e a cam inhar ansioso na calçada. O m eu desej o era gritar, pedir inform ações. Necessário voltar, distrair-m e com as [pág. 046] baronesas do açude, os m arrecos e a vazante. Absurdo alguém viver num lugar onde se apertavam tantas casas. Até então houvera quatro ou cinco. O copiar da nossa, era escorado por esteios robustos de aroeira. José Baía segurava-m e os braços e rodava. Ao largar-m e, eu saía tonto, cam baleando. As cercas e as árvores giravam , os esteios giravam e batiam -m e na cabeça. Minha m ãe descom punha José Baía, m as ele não lhe dava atenção: rodopiava, contava histórias de onças, dizia que tinha nascido de sete m eses, fora criado sem m am ar, bebera leite de cem vacas na porteira do curral. A porteira do curral estava longe. O açude, a vazante, os m arrecos e as baronesas desm aiavam . Cham as lam biam vultos, um arrieiro soltava gargalhadas. Papa-lagartas. Depois vinham botequins de barro e palha, o trote de um anim al a sacudir-m e pelas estradas, xiquexiques e m andacarus subindo e descendo. Os botequins e os papa-lagartas envelheciam .
Sensações violentas obliteravam xiquexiques e m andacarus: essas plantas não se acom odariam j unto à grande arapuca levantada em pernas de pau. Senti vontade de chorar. Tam bém não m e acom odaria. Vi um a porta aberta, entrei, fui à sala de j antar, farej ando o m eu povo. D. Clara, a m ulher que ia cham ar-se D. Clara, sentada num a esteira, dava papa a um m enino. Em brulhei-m e. E, descobrindo um gato, perguntei de quem era o gato. D. Clara respondeu que era dela. Retirei-m e, andei à toa na calçada, procurando José Baía, m uitas queixas fervilhando-m e no interior. Não m e recordava da chegada, não sabia com o tinha ido parar ali. Se m e esquecessem no m eio de surpresas ? Precisei recolher-m e. Enxerguei outra porta, enveredei por ela, detive-m e na sala de j antar, percebi [pág. 047] o gato, a esteira, o m enino e D . Clara. Tornei a perguntar de quem era o gato e obtive a m esm a resposta. Esperei m ais algum as palavras. Não vieram — e saí desapontado. Pretendera, referindo-m e ao gato, não que D. Clara se contentasse com ele, m as puxasse conversa, falasse nos hom ens de roupa verm elha e azul, na casa faiscante, nas roseiras. D. Clara não decifrou o m eu intuito. E achei-m e na rua, encolhido, m urcho. A j anela do sobradinho fechou-se. No andar térreo, porem , os suj eitos coloridos m exiam -se com anim ação, e um deles cantava um a cantiga m ole, bam ba, m uito diferente da de José Baía. Duas ou três velhas surgiram na casa das roseiras. Elas e alguns transeuntes constituíram de chôfre m ultidão — e a m ultidão m e fascinava e am edrontava. Acercava-m e tim idam ente do sobradinho. Queria ouvir histórias, risadas, cantigas. E queria ausentar-m e dali, descalçar-m e, ver m inhas irm ãs, entreter-m e com o m oleque José. Vaguei na calçada, coxeando, os olhos turvos, as virilhas úm idas. Sentei-m e no chão, cansado e infeliz. Encostei-m e depois a um a parede e adorm eci.
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A vila
UÍQUE tinha a aparência de um corpo aleij ado: o Largo da Feira form ava o tronco; a Rua da Pedra e a Rua da Palha serviam de pernas, um a quase B estirada, a outra curva, dando um passo, galgando um m onte; a Rua da Cruz, onde ficava o cem itério velho, constituía o braço único, levantado; e a cabeça era a igrej a, de torre fina, povoada de coruj as. Nas virilhas, a casa de Seu José Galvão resplandecia, com três fachadas cobertas de azulej os, origem do im enso prestígio de m eninos esquivos: Osório, taciturno, Cecília, enfezada, e D.
Maria, que pronunciava garafa. Na coxa esquerda, isto é, no com eço da Rua da Pedra, o açude da Penha, cheio da m úsica dos sapos, tingia-se de m anchas verdes, e no pé, em cim a do m orro, abria-se a cacim ba da Intendência. Alguns becos rasgavam -se no tronco: um ia ter à lagoa; outro fazia um cotovelo, dobrava para o Cavalo-Morto, areal m al afam ado que findava no sítio de Seu Paulo Honório; no terceiro as j anelas do Vigário espiavam as [pág. 049] da escola pública, alva, de platibanda, regida por um suj eito de poucas falas e barba longa, sem elhante ao m estre rural visto anos atrás. Essa parecença m e deu a convicção de que todos os professores m achos eram cabeludos e silenciosos.
D. Maria, particular e casada com Seu Antônio Justino, funcionava na Rua da Palha — e, por ser particular, excedia o colega, oficial e, conseqüentem ente, desleixado, na opinião dos pais de fam ília. Seu Antônio Justino, hom em sem profissão, era quinca, m arido de professora, m as não com pletam ente quinca, apesar de viver desocupado. Se a m ulher possuísse carta, Seu Antônio Justino perderia nom e e sobrenom e. D. Maria não tinha carta nem recebia dinheiro do governo — e Seu Antônio Justino ainda não se havia inteiram ente despersonalizado.
Perto dessa escola instalavam -se o quartel da polícia e a cadeia. No corpo da guarda o destacam ento local bocej ava, preguiçava nas tarim bas, e José da Luz, cafuzo pachola e risonho, cantava.
A vida social se concentrava no largo, ponto de com ércio, fuxicos, leitura de j ornais quando chegava o correio. Nos sábados arm avam -se barracas, fervilhavam m atutos. Nos dom ingos eram os exercícios espirituais: m issa extensa, confissões, casam entos, batizados, inj úrias abundantes de Padre João Inácio. Tinham andado pelo sertão dois m issionários m uito diferentes na catequese: Frei Caetano, pessoa de infinita doçura, quase santo, e Frei Clem ente, um bárbaro que fustigava as m ulheres e infundia enorm e respeito. Padre João Inácio tinha m uito de Frei Clem ente: não chegava a açoitar os paroquianos, m as, se se aperreava, distribuía insultos aos pequenos, raça de cachorro com [pág.
050] porco. Este desacato era proferido com energia e gritos, fora do púlpito, pois não consta que Padre João Inácio haj a pregado.
Os m aiorais do m unicípio, governo e oposição, vinham de um grupo de fam ílias m ais ou m enos entrelaçadas, poderosas no Nordeste: Cavalcantis, Albuquerques, Siqueiras, Tenórios, Aquinos. Padre João Inácio era Albuquerque. O Com endador Badega, parente de todos os graúdos, autor de vários filhos naturais, esfarinhado em César Cantu, vestia cassineta esfiapada e ruça, usava chapéu de abas roídas e botas pretas com rem endos am arelos.
Assim , de rebenque e esporas, entrou um a noite no paço m unicipal com um lote de caboclas novas e, ao som da harm ônica, dançou valsas e quadrilhas até o nascer do sol. Apesar da com enda, os roceiros davam -lhe o título de capitão.
De ordinário a gente da rua, excetuados os três m eses de safra, descansava seis dias na sem ana. Em negócios raros buscava-se lucro exorbitante.
Pelos agudos frios da serra, andavam figuras solitárias, de m ãos atrás das costas, em capotes escuros, com o urubus arrepiados na garoa.
E findo o inverno, indivíduos loquazes reuniam -se em torno dos balcões, discutiam política, tesouravam o próxim o. À tarde estabeleciam -se nas calçadas, à som bra. Os dados chocalhavam , as pedras estalavam nos tabuleiros de gam ão.
E as discussões não tinham fim . Com entava-se a coragem do advogado Bento Am érico, um que chegou a professor de direito e conseguiu fam a por traj ar m al e escrever sem verbos. Num discurso no j úri, Bento Am érico arrem edara o Coronel Antônio de Aquino, chefe político: acendera um cigarro barato e pusera
[pág. 051] o pé em cim a de um a cadeira. Esse discurso provocava adm iração desm edida.
Fatos antigos se renovavam , confundiam -se com outros recentes, e as notícias dos j ornais determ inavam perturbações nos espíritos. Debatiam -se Canudos, a Revolta da Arm ada, a Abolição e a Guerra do Paraguai com o acontecim entos sim ultâneos. A república, no fim do segundo quadriênio, ainda não parecia definitivam ente proclam ada. Realm ente não houvera m udança na vila. Os m esm os j ogos de gam ão e solo transm itiam -se de geração a geração; as m esm as pilhérias provocavam as m esm as risadas. Certas frases decoravam -se, achavam m eio de arranj ar-se com outras de sentido contrário — e essas incom patibilidades firm avam -se nas m entes com o artigos de fé.
Sem dúvida Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca eram grandes, tão grandes que, deixando a política, recebiam consagração popular e entravam nas em boladas:
Pedro Paulino, Leodoro, Loriano.
Foi a lei republicana
Que inventou guarda local.
Os freqüentadores das calçadas conheciam dos generais fam osos algum a coisa m ais que os nom es truncados. Não percebiam neles virtudes públicas (isto ninguém estava em condições de notar), m as descobriam qualidades preciosas a um sertanej o: vigor e dissim ulação. Aquela resposta de Floriano aos estrangeiros causava entusiasm o. Bichão, sim senhor: prendia deportava, não receava caretas.
Deodoro é que havia procedido m al. No com eço da vida era um pobrezinho, e D. Pedro o recolhera, [pág. 052] educara, dera-lhe posição e dragonas. Em paga de lautos favores, um a rasteira no protetor bam bo. Ingrato. Devia ter esperado que o velhinho desse o couro às varas.
Meu pai, negociante, concordava com todos. Tinha às vezes, porém , idéias próprias, que não chocavam as outras. No 15 de Novem bro enxergava um herói, o Barão de Ladário, desconhecido antes da revolta, nascido para resistir à prisão, receber tiros, não perm itir que se derrubasse a m onarquia suavem ente.
Esse pouco sangue bastava. E m eu pai, livre de leituras, livre de sentim entos belicosos, viu no m inistro um a glória incom parável. Esqueceu-o depois com pletam ente, deixou de aludir a qualquer espécie de bravura. Tinha im aginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, m as só acreditava no contas-correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel agüenta m uita lorota, e negou obstinadam ente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos. Talvez até adm itisse o Barão de Ladário com o personagem de ficção. A política nacional era um rom ance que os m eninos barbados folheavam , largavam , retom avam , deturpavam . Versáteis, não perm aneciam nessas alturas, caíam nos sucessos vulgares, que eram tam bém contos de fadas.
O Doutor Juiz de Direito m encionava a com arca onde servira, no Am azonas. Jacarés m onstruosos, onças inofensivas, cobras que engoliam bois.
Seu André Cursino, gordinho, baixinho, barrigudo, saía à rua vestido em robe-de-chambre.
Seu Batista, em butido na cam isa dura, enforcado na gravata preta, a barba em bico alongando-lhe [pág. 053] a cara m agra, falava devagar. Quando se calava, as cabeças em redor balançavam -se aprovando-o, e os olhos m aliciosos troçavam dele.
Seu Filipe Benício, encorpado, tinha rugas é bigode grisalho. Sério, causava m edo. Na conversa a gravidade esm orecia.
Tipo m ofino era o velho Quinca Epifânio, ossudo, inquieto, cara de fom e, sovina até nas palavras. Guardava a despensa na loj a: barricas bem cobertas, defendidas contra os ratos. De m anhã um m oleque se chegava ao balcão, a cesta pendurada no braço. O avarento destapava os esconderij os, pesava e m edia longam ente a ração m iserável: duzentas gram as de charque, dois dedos de toicinho, um pires de feij ão. Privava-se disso e despedia o portador, gaguej ando.
Para lá da lagoa, no alto de um m onte, Seu Félix Cursino recebia visitas no alpendre de um a casa rodeada de caj ueiros.
Abaixo dessa classe andavam - criaturas que não liam j ornais, ignoravam D. Pedro II e o Barão de Ladário.
André Laerte, barbeiro m uito suj o, usava um avental ensangüentado, pisava m acio, com m odos de gato.
As gargalhadas do pedreiro Carcará feriam todos os ouvidos.
Seu Acrísio, j ogador e quase cego, ziguezagueava, batia nas paredes, tenteava degraus e portas com o caj ado. No j ogo, unia as cartas aos óculos, apalpava-as lentam ente, com o se as visse com os dedos.
Mestre Firm o alfaiate, a agulha m etida na gola, pedia um cigarro. Se não o obtinha, entrava na bodega e com prava um m aço. Tirava o cigarro [pág. 054] necessário e, distribuía dezenove, porque lhe faltava o instinto de proprietário, m oderava-se no vício e devia a toda a gente.
Alguns indivíduos, quando não se apresentavam nas calçadas, incorriam em censuras rigorosas. Seu Antônio Justino e Seu Afro estavam entre eles, o prim eiro por ser indolente, o segundo por acom odar-se a um a vida irregular.
Dificilm ente se provaria que Seu Antônio Justino fosse m ais preguiçoso que os outros habitantes da vila, m as todos o condenavam : não tinha fazenda nem ofício, não j ogava e nas reuniões das esquinas opinava m edianam ente.
Seu Afro, vítim a de um a infelicidade que só m uito m ais tarde com preendi, não se j ulgava infeliz, aparentava não j ulgar-se infeliz: era um rapagão corado, forte, risonho. Vendo-o pelas costas, as pessoas que discutiam Canudos e o Barão de Ladário faziam caretas de repugnância, largavam frases contundentes ou gestos obscenos. Porque Seu Afro, casado no religioso, m orava no Cavalo-Morto, zona im própria, com a m ulher, grande loura sardenta, e um com padre.
Esse am igo tinha residência nom inal na fazenda, m as de fato vivia na rua e no pecado, entregue de corpo e alm a à fam ília adotiva — um a dedicação que o tem po e os rem oques não esfriavam nem corrom piam . Os três achavam no seu pequenino m undo substância para m anter a sociabilidade que havia neles.
Dispensavam festas, visitas, palestras. E D. Maroca, vistosa, branca de carnes e de roupa, bem lavada e bem esfregada, cam inhava firm e nos passeios, sem se voltar para as j anelas, isenta de cortesias. As m ulheres honestas se desviavam dela, rancorosas. E as desonestas, caiadas, pintadas, enxeriam -se: [pág. 055]
— Hum ! hum ! Maroca passa, nem olha.
Diziam na verdade nem uia. Creio que diziam nenhuia, coisa estranha. D.
Maroca não olhava. Seguia o seu cam inho, aprum ada — e só.
Espantaram -m e a desconsideração e a frieza que envolviam essas criaturas. Não m e capacitava de que a m oça bonita, cheirosa, engom ada, fosse de qualquer m aneira inferior a D. Águeda de Seu Acrísio, m agra e pontuda.
Tam bém m e parecia inj usto dar ao velho Quinca Epifânio, engelhado e fam into, m ais valor que a Seu Afro, robusto e alegre. O j uízo dos hom ens era esquisito.
Bem esquisito.
Contudo esse j ulgam ento absurdo acom panhou-m e. Fixou-se, ganhou raízes. Indigno-m e, quero extirpá-lo, reabilitar Seu Afro e D. Maroca. Duas pessoas norm ais. Penso assim . E desprezo-as, sinto-as decaídas. Im possível deixar de senti-las decaídas. Repito m entalm ente os desconchavos de Padre João Inácio. [pág. 056]
Vida nova
nossa casa era na Rua da Palha, j unto à de D. Clara, pessoa grave que tinha diversos filhos, um gato, m arido invisível. Um a parenta dela, A irm ão ou sobrinha, dessas criaturas que não pedem , não falam , não desej am , aparecem quando são úteis e logo se som em , fogem aos agradecim entos, fam iliarizou-se conosco, tom ou conta dos arranj os da instalação. Espanou, esfregou, arrum ou as cadeiras pretas, os arm ários, os baús cobertos de sola, enfeitados de brochas. Findos os trabalhos, ausentou-se. Até o nom e dela se perdeu. Meu pai, transform ado em com erciante, estabeleceu-se no Largo da Feira. Aí, num socavão triste, de que m ais tarde m e lem brei ao ver subterrâneos em folhetins, passou dias abrindo caixas e fardos, em pilhando m ercadorias, exam inando faturas, calculando, a lápis, em pedaços de papel de em brulho. Esperei debalde vê-lo concluir esse exercício, voltar ao banco do alpendre e à vazante. Aproxim ava-m e dele m uitas vezes, com recados. E [pág.
057] no cam inho largo a princípio m e retardava, contem plando as roseiras do j ardim , as paredes brilhantes de azulej os, o sobradinho onde havia hom ens fardados.
Isso durou pouco. Minha m ãe descobriu nódoas no chão, raspou o tij olo, apavorou-se ao ter notícia do que elas eram sangue de tuberculoso. Lavou m uito as m ãos, chorou, desesperou-se, convenceu-se de que as hem optises velhas iam penetrá-la e m atá-la. Fechou o quarto contam inado e resolveu m udar-se.
Algum tem po depois estávam os localizados, negócio e fam ília, num a esquina, perto do Cavalo-Morto. Atrás da loj a, de quatro portas, duas em cada frente, havia o arm azém de ferragens e o depósito de m ilho, onde eu e m inhas irm ãs brincávam os. A um lado, a sala de visitas, as cavernas do casal e das m eninas, a despensa e a cozinha. Um corredor separava a habitação do estabelecim ento, desem bocava na sala de j antar, larga e baixa. Aí bancos ladeavam a m esa grosseira, e um a cam a de lona escondia-se num canto, a cam a que m e ofereceram quando larguei a rede, por causa das alm as do outro m undo.
As alm as vieram um a noite, quatro ou cinco, estirando-se e acocorando-se à entrada do corredor. Assustei-m e, gritei, acordei toda a gente, descrevi as figuras lum inosas que se m oviam na escuridão, subindo, baixando. Quando subiam , as cabeças delas alcançavam o teto. Fui deitar-m e noutro lugar e no dia seguinte obtive um a notoriedade que m e envergonhou. Repetiram o fato, acreditaram nele, responsabilizaram -m e por m inudências de que não m e recordava. Podia um ser tão m iúdo inventar [pág. 058] aquilo? Atordoava-m e, queria evitar os exageros, dizer que a m inha história não m erecia im portância, e receava desprestigiar-m e. Eu tinha j ulgado perceber um as luzes — e as luzes tom avam corpo de repente, entravam nas conversas. Senti rem orso, desej ei reduzir as m inhas alm as. Assom brara-m e à toa. Vinham -m e, porém , dúvidas.
Afirm aram , desenvolveram o caso estranho — e por fim adm iti a visão. Talvez não m e houvesse enganado com pletam ente. Não enxergara as claridades que se alongavam e encurtavam , m as devia ter visto qualquer coisa.
Esqueci pouco a pouco a aventura e apaguei-m e, reassum i as proporções ordinárias. Ficou-m e, entretanto, um resto de pavor, que se confundiu com os receios dom ésticos. Arrepios súbitos, cabelos eriçados, tonturas, se alguém m e falava. Nas trevas das noites com pridas consegui afugentar perigos enrolando-m e, deixando apenas o rosto descoberto. Um a ponta de lençol envolvia a testa, rodeava a cara. Sentia-m e assim protegido: nenhum fantasm a viria am eaçar-m e a boca, o nariz e os olhos expostos. Se o pano se soltava, enchia-m e de terrores.
Era preciso que as orelhas e o couro cabeludo se escondessem , provavelm ente por serem as partes m ais suj eitas a acidentes. 'Talvez os duendes viessem m agoá-las.
Vivíam os num a prisão, m al adivinhando o que havia na rua, enevoada longos m eses. Conhecíam os o beco: da j anela do arm azém , trepando em rolos de aram e, víam os, em dias de sol, m atutos de saco no om bro, cavalos am arrados num poste grosso, transeuntes que se chegavam cautelosos ao m uro, espiavam os arredores e se afastavam depois de m olhar o tij olo verm elho. [pág. 059]
A alguns passos, na outra esquina, um a casa sem elhante à nossa. Três m eninos, um a senhora m agra, nervosa, um hom em de pernas finas m etidas em calças estreitas dem ais, pernas que lhe tinham rendido a alcunha. Desaj eitado em cim a delas, Teotoninho Sabiá piscava os olhos am arelos de ave, sacudia as grandes asas depenadas e bocej ava um cacarej o inexpressivo. Observávam os pedaços de vida, nam orávam os o oitão da outra gaiola, aberta, e tínham os invej a im ensa dos Sabiás pequenos, desej ávam os correr e voar com eles.
Nos dias de inverno o beco se transform ava num rego de água suj a, onde se desfaziam com plicados edifícios e navegavam barquinhos de papel, sob o com ando de um garoto enlam eado. A garoa crescia. A chuva oblíqua enregelava-nos. Um a cortina oscilante ocultava os m óveis, as prateleiras da loj a.
Os tecidos criariam m ofo, os m etais se oxidariam . Fechavam -se as portas e as j anelas. As figuras m oviam -se na som bra, indeterm inadas.
Ia recolher-m e à cam a da sala de j antar, envolvia-m e nas cobertas úm idas.
Enxergava a custo as poças do quintal, as m anchas que se alargavam nas paredes, a telha escura, um a quina da prensa de farinha, velha e carunchosa, caída no alpendre. Havia um cheiro acre de lenha verde queim ada; a fum aça da cozinha unia-se à poeira de água, engrossava a fuligem que tingia as teias de aranha. Enorm e bica de m adeira, um rio suspenso, transbordava nas trovoadas, com surdo rum or. Depois am ansava, ficava dias e dias atirando pingos no chão, derram ando além do copiar um esguicho leve e silencioso, que o vento agitava.
Não se distinguia nenhum ruído fora a cantiga dos sapos do açude da Penha, vozes agudas, [pág. 060] graves, lentas, apressadas, e no m eio delas o berro do sapo-boi, bicho terrível que m orde com o cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem m e explicou isto. Adm irável o sino. Com o seria o sapo-boi? Pelas inform ações, possuía natureza igual à natureza hum ana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, m olhar-m e, enlam ear-m e, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifícios de areia, com o Sabiá novo, certam ente não pensaria nessas coisas. Seria um a criatura viva, alegre. Só, encolhido, o j eito que tinha era ocupar-m e com o sapo-boi, quase gente, sensível aos sinos. Nunca os sinos m e haviam im pressionado.
Sapo cururu
Da beira do rio.
Não me bote na água,
Maninha:
Cururu tem frio.
Cantiga para em balar crianças. Os cururus do açude choravam com frio, de m uitos m odos, gritando, soluçando, exigentes ou resignados. Eu tam bém tinha frio e gostava de ouvir os sapos. [pág. 061]
Padre João Inácio
PONTO de reunião e fuxicos era a sala de j antar, que, por duas portas, olhava o alpendre e a cozinha. Com o falavam m uito alto, as pessoas se O entendiam facilm ente de um a peça para outra. Nos feixes de lenha arrum ados j unto ao fogão, na prensa de farinha, nos bancos duros que ladeavam a m esa, a gente se sentava e ouvia as em boanças do criado, um caboclo besta e palrador. Rosenda lavadeira cachim bava e engom ava roupa num a tábua. O
m oleque José e a m oleca Maria esgueiravam -se da som bra, perdiam a condição e a cor, não se distinguiam quase dos m eninos de Teotoninho Sabiá.
Vivíam os todos em grande m istura — e a sala de visitas era inútil, com as cadeiras pretas desocupadas, um a litografia de S. João Batista e um a do inferno, o pequeno espelho de cristal que Am ando, afilhado de m eu pai, trouxera do Rio ao deixar o exército no posto de sargento. Esse espelho caía da parede e nunca se partiu, rivalizava com o copo [pág. 062] azul, lem brança do casam ento de m eu avô, e o paliteiro que representava dois galos e um a raposa. Há m eia dúzia de anos o paliteiro ainda existia, m au um dos galos se tinha ausentado.
As cadeiras pretas não se espanavam . Certo dia o tenente de polícia desconfiou delas, tirou o lenço e esfregou um a. Horrível. Minha m ãe se enfureceu, tencionou besuntar os m óveis com azeite de peixe, arrum ar a farda não-m e-toque daquele safadinho. Desistiu da vingança — e a sala se conservou deserta, abrindo-se raram ente para receber D. Conceição, D. Clara, D. Águeda, outras senhoras que se enfastiavam no silêncio, espiando o santo, os dem ônios chifrudos, o espelho, a sola do m arque-são em poeirado.
Afinal aquilo se transform ou em paiol. Retirou-se a m obília, transportou-se para ali o m ilho que no depósito era um viveiro de borboletas. Ficara o grão exposto, aguardando a carestia por causa da seca, e a lagarta dera nele.
Desvalorizava-se agora. Indispensável tratá-lo com veneno, m atar os bichos.
Um a festa para as crianças. Eu e m inhas irm ãs revolvem os a tulha cor de ouro, espalhando o arsênico. Dispensou-se o trabalhador — e nós nos encarregam os gostosam ente da tarefa. Abandonam os a prensa de farinha, o arm azém atravancado de ferragens, o quintal nu, donde se ouvia o descaroçador barulhento do Cavalo-Morto.
Na sala, m udada em celeiro, o nosso am biente se alargava de chofre, adquiríam os liberdade. As sem entes se derram avam no corredor, iam -se acum ulando, form avam um a ladeira, que subíam os até alcançar as j anelas. Daí dom inávam os a rua, víam os os transeuntes m ais baixos que nós. Seu Acrísio errava o cam inho, tropeçava, batia nas paredes e [pág. 063] rosnava: "Diabo! diabo! diabo!" Alguns passos à direita, Seu Chico Brabo m altratava João. No solo m ovediço achávam os firm eza. A nossa brincadeira representava utilidade
— e não viriam desm ancha-prazeres aquietar-nos, im por-nos disciplina.
Contudo um a som bra às vezes nos toldava a alegria: a recordarão do Vigário. Na cozinha e na sala de j antar pintavam -no terrível, um a espécie de lobisom em criado para forçar-nos à obediência. Citavam -se os despropósitos dele na igrej a.
Isto não nos interessava. Tínham os, porém , razão para tem er aquele hom em tenebroso por fora e por dentro. Não ria. O olho postiço, im óvel num círculo negro, dava-lhe aspecto sinistro.
Além disso Padre João Inácio habituara-se a cuidar de variolosos, viventes que infundiam pavor a toda a vila. Se aparecia notícia deles, as portas se fechavam , o com ércio enfraquecia, nas pontas das ruas queim avam excrem ento de boi e creolina em cacos de telha. Um a noite levavam os infelizes, enrolados, paia os barracões de palha feitos nas brenhas, onde a carne doente apodrecia quase ao abandono, sobre folhas de bananeiras. Alguns enferm eiros im unizados furavam -lhes as pústulas com espinhos de m andacaru, lavavam -nas com aguardente e cânfora. Havia grande m ortandade, e as m arcas dos sobreviventes eram horrorosas. Os curandeiros dessa praga inspiravam tanto receio com o as vítim as dela. Cercava-os um a faixa de isolam ento. Adm iração e repugnância.
Pois num a epidem ia das m ais violentas Padre João Inácio e Capitão Badega isentos de preservativos, se haviam estabelecido nos barracões. Gente m edrosa sucum bira. Os dois tinham saído ilesos e, em conseqüência, virado com endadores. Distinção [pág. 064] balda. O Vigário nunca chegou a Cônego.
E Capitão Badega perm aneceu capitão, sum ido na fazenda, insensível a honrarias, lendo César Cantu, governando vários filhos naturais e um lote de cabrochas.
Depois da façanha, Padre João Inácio arranj ara tubos de linfa e com eçara a furar os braços da hum anidade na vila e circunvizinhança. Os sertanej os não queriam m eter a desgraça no corpo, adoecer por gosto; Se um m édico tentasse a inoculação, haveria distúrbios. Mas aquela autoridade franzina usava despotism o, não descia a explicações. Insultava a canalha, raça de cachorro com porco. Mandava porque tinha poderes: era Albuquerque e sacerdote. E os paroquianos se deixavam contam inar, covardes, lam entando que S. Rev.m a não se dedicasse inteiram ente às cerim ônias do culto. Não se dedicava. Dirigia um partido político — e o culto lhe m erecia fraca atenção.
Fora condiscípulo do Padre Cícero. Falava no taum aturgo, que principiava a notabilizar-se: apagado, sofrível, por não ser Albuquerque.
Padre João Inácio era pobre e tinha credores, que dom inava. Conseguia, cheio de necessidades, exibir independência, inj uriar, gritar.
Fom os vacinados na loj a, graúdos e m iúdos. Na surpresa, ignorando a tendência m á do hom em , não senti dor nem m edo. Mas as feridas que vieram , resguardos, febre, quarenta dias sem toicinho, m e pareceram obra do reverendo.
Com entei o desastre com m inhas irm ãs. A pequena, um anim alzinho, não atribuía às picadas o longo padecim ento e a dieta rigorosa. A m ais velha, porém , que j á discernia m otivos e m e auxiliava no furto de doces, concordou com igo: realm ente a criatura m alvada [pág. 065] nos dava achaques e nos proibia o toicinho. Suspeitam os que a infelicidade se renovaria, e a suspeita, confirm ada no alpendre e na cozinha, se com etíam os algum a falta, m udou-se em convicção.
"Um a tarde preguiçávam os no m ilho. Fazíam os buracos, e quando estavam
bastante
fundos,
m ergulhávam os
neles,
provocávam os
o
desm oronam ento, das ram pas e desaparecíam os sob ruínas am arelas. Isto m e dava im enso prazer.
Muito m e haviam im pressionado, em narrativas de José Baía, as referências a orações fortes, especialm ente à da cabra preta, de enorm e virtude.
Quem possui essa m andinga escapa às m ais graves situações, desdenha em boscadas, suprim e inim igos, anda afoito pelos cam inhos, em udece as arm as de fogo. No perigo, transform a-se num toco. Ou som e-se, evapora-se — e diante do bacam arte fixo na forquilha da tocaia apresenta-se a im agem de Nosso Senhor crucificado.
Eu desej ava conhecer a reza valorosa. Ser-m e-ia agradável passar um a hora em sossego, olhando o m uro do quintal, ouvindo os sapos do açude da Penha, o descaroçador do Cavalo-Morto. Não m e repreenderiam . Caso m e cham assem , conservar-m e-ia sentado na prensa de farinha, silencioso. Podiam gritar. Avizinhar-se-iam de m im — eu m e afastaria alguns centím etros, calm o, em segurança. E pregaria um susto à m oleca Maria, puxando-lhe de leve o pixaim . Depois, defendido pelo feitiço enérgico, lançar-m e-ia em contravenções im portantes: vagaria nas ruas, invisível, j ogando piões invisíveis, em pinando papagaios invisíveis. Dem orar-m e-ia nas esquinas, escutando histórias curiosas, deitar-m e-ia nas calçadas, j untar-m e-ia aos garotos suj os e turbulentos.
Perm anecendo isolado, [pág. 066] incorporar-m e-ia a todos os grupos. E se avistasse Padre João Inácio, correria para ele, exam inar-lhe-ia a m agrém disfarçada na batina ruça, o olho duro im óvel na órbita negra. Passearíam os com o dois am igos.
Ali, oculto no m ilho, apenas com o rosto descoberto, enchia-m e dessas idéias, im aginava-m e um ser encantado. Punha-m e a tagarelar. Minha irm ã divagava tam bém , sem corpo, escondida no m istério. As nossas conversas, às vezes tem pestuosas, eram agora um sussurro, com o as que tínham os à noite, na sala de j antar.
No m om ento em que o padre chegou, duas covas estavam prontas. Surgiu perto de nós, tão perto que poderia, estirando o braço, alcançar-nos com o guarda-chuva.
— Leonor! cochichei num a agonia. Leonor voltou-se e desfaleceu.
Caím os em desânim o esquisito, com o dois bichinhos m agnetizados. Faltava-m e a força necessária para m over-m e, ganhar a porta, fugir pelo corredor. A figura m edonha prendia-m e — e o bugalho parecia querer sair da m ancha que se alargava na cara m agra, saltar em cim a de m im . O queixo roçava quase o peitoril da j anela. A boca franzida com ia os beiços. Foi o que vi. Isso e o cabo curvo do guarda-chuva cavalgando um om bro. Em seguida veio um a turvação, nevoeiro.
E, no burburinho que houve, duas ou três palavras secas, autoritárias, incom preensíveis, feriram -m e os ouvidos. Com certeza o Vigário m andou algum recado aos donos da casa, m as isto ia além de m eu entendim ento. Um arrepio, súbito golpe de ar invadindo-m e os pulm ões e ficando lá dentro, aperto na garganta, o coração desm aiado, a carne bam ba, a vontade suspensa. O [pág.
067] instinto m e atraía para a cova, ali a um palm o de distância, m as achava-m e incapaz de sepultar-m e nela. Sob os m em bros paralisados, as sem entes se deslocavam , chiavam , e não se decidiam a resvalar depressa, arrastar nos, cobrir-nos. O fantasm a esteve um longo m inuto esperando que nos levantássem os e obedecêssem os. Com o não nos m exem os, desviou-se resm ungando fanhoso — o seu m odo ordinário de m anifestar desaprovação. Estúpidos. Livres das bexigas e ingratos. Deve ter pensado assim .
— Estúpidos.
Padre João Inácio não sabia falar conosco, sorrir, brincar — e as nossas alm as se fecharam para ele. Em Padre João Inácio, hom em de ações adm iráveis, só percebíam os dureza. [pág. 068]
O fim do m undo
INHA m ãe lia devagar, num a toada inexpressiva, fazendo pausas absurdas, engolindo vírgulas e pontos, abolindo esdrúxulas, M alongando ou encurtando as palavras. Não com preendia bem o sentido delas. E, com tal prosódia e tal pontuação, os textos m ais sim ples se obscureciam . Essas deturpações m e afastaram do exercício penoso, verdadeiro enigm a. Isso e o aspecto desagradável do rom ance de quatro volum es, enxovalhado e roto, que as vizinhas soletravam , achando intenções picarescas nas gravuras soltas, onde a tinta esm orecia, sob nódoas. "Um grupo estranho e por igual..." Falta o adj etivo que rem atava a legenda de um a das ilustrações.
Julgo que era vistoso. Várias pessoas num a caixa com rodas, puxada por dois cavalos, diferente dos carros de bois que chiavam nos cam inhos sertanej os. Em cim a da caixa em proava-se um tipo de chicote e bigode, um cocheiro, segundo m e disseram , nom e inadequado, na m inha opinião. Cocheiro devia tratar de
[pág. 069] cochos, obj etos que não se viam no livro. Tudo ali discordava da nossa linguagem fam iliar. "Um grupo estranho e por igual vistoso." Parecia cantiga.
Minha m ãe repetiu isso até decorar a história de Adélia e D. Rufo.
Cansou-se, transferiu-se para uns folhetos de capa am arela, publicação dos salesianos. Passava horas no m arquesão preto da sala de visitas, os olhos esbugalhados, atenta, a boca franzida, volvendo de longe em longe, com saliva, a página piedosa. Enchia-se de m ilagres ingênuos, parábolas, biografias de santos, lendas, conselhos exigentes, ofertas indefinidas e am eaças. Extasiava-se com as ações de D. Bosco, ótim o velhinho, sem elhante a Frei Caetano, o m issionário que andou pelo Nordeste, elevando as alm as caboclas.
Abandonava essas alturas, tom ava-se de pavores, m etia-se na cam arinha, a esconder-se dos castigos eternos. Excitava-se, desanim ava, encontrando talvez na consciência qualquer m iudeza censurada na brochura de capa am arela. Fugia da Terra espiava o além . Em seguida se ausentava da prova severa, caía no vulgar, com entava os m exericos da vila, repreendia os m oleques, resm ungando, largando m uxoxos. Não adm itia que falássem os em m uxoxo. Era um a birra esquisita. Se um de nós soltava a expressão condenada, ela se zangava e corrigia: tunco. Não gostávam os da onom atopéia: insistíam os no vocábulo perseguido, sabendo que isto nos rendia desgosto.
A existência ordinária, entregue a negócios terrestres e caseiros, durava duas, três sem anas, até o correio trazer o fornecim ento m ensal de literatura religiosa. Surgiam as beatas estigm atizadas, D. Bosco, [pág. 070] diálogos singelos, casos edificantes, delícias vagas do céu e torturas m inuciosas do inferno.
Purificando-se nessa boa fonte, m inha m ãe às vezes necessitava expansão: transm itia-m e arroubos e sustos. Um a tarde, reunindo sílabas penosam ente, na gem edeira habitual, teve um sobressalto, chegou o rosto ao papel. Releu a passagem — e os beiços finos contraíram -se, os olhos abotoados cravaram -se no espelho de cristal. Certam ente se inteirava de um sucesso m au e recusava aceitá-
lo. Antes de m ergulhar no pesadelo, segurava-se aos trastes m esquinhos — o espelho, o relógio, as cadeiras — e buscava am parar-se em alguém .
Atraiu-m e, segredou queixas sum idas e insensatas. Perplexa, ora se voltava para as j anelas, ora exam inava o livrinho aberto na sola do m arquesão, negra e côncava. Não se conservou m uito tem po indecisa. Na doentia curiosidade, arroj ou-se à leitura, desperdiçou um a hora afligindo-se em dem asia.
Levantou-se, atravessou o corredor, a sala de j antar, arriou na prensa de farinha do alpendre. Seguia-a, sentei-m e perto, calado, esperei que ela m e cham asse. As nossas desavenças m orreram . Julguei-a fraca e boa, desej ei poder aliviá-la, dizer qualquer coisa oportuna. Sentia o coração pesado, um bolo na garganta, e propendia a alarm ar-m e tam bém . Odiei a brochura, veio-m e a idéia de furtá-la, escondê-la ou rasgá-la.
A pobre m ulher desesperava em silêncio. Apertava as m ãos ossudas, inofensivas; o peito m agro subia e descia; lim itando a m ancha verm elha da testa, um a veia engrossava. Diversas pessoas da fam ília tinham a m ancha curiosa. Em m om entos de excitação ela se avivava, quase roxa, da sobrancelha [pág. 071] à raiz do cabelo — e essas criaturas se enfureciam , avizinhavam -se da loucura. Afinal m inha m ãe rebentou em soluços altos, num choro desabalado.
Agarrou-m e, abraçou-m e violentam ente, m olhou-m e de lágrim as. Tentei livrar-m e DAS carícias ásperas. Por que não se aquietava, não m e deixava em paz?
A exaltação dim inuiu, o pranto correu m anso, estancou, e um a vozinha triste confessou-m e, entre longos suspiros, que o m undo ia acabar. Estrem eci e pedi explicações. Ia acabar. Estava escrito nos desígnios da Providência, trazidos regularm ente pelo correio. Na passagem do século um com eta brabo percorreria o céu e extinguiria a criação: hom ens, bichos, plantas. Riachos e açudes se converteriam em fum aça, as pedras se derreteriam . Antigam ente a cólera de Deus exterm inara a vida com água; determ inava agora suprim i-la a fogo.
Eu ignorava o século, os com etas, a tradição. E estendia fraternalm ente a m inha ignorância a todos os indivíduos. Não percebendo o m istério das letras, achava difícil que elas se com binassem para narrar a infeliz notícia.
Provavelm ente m inha m ãe se tinha equivocado, supondo ver na folha desastres im aginários. Expus esta conj ectura, que foi repelida. A desgraça estava anunciada com m uita clareza. Olhei o m uro de tij olo, considerei-o indestrutível.
Algum tem po depois eu e m inha irm ã brincávam os j unto dele. Corríam os daí para o copiar, voltávam os, descansávam os um instante na som bra, corríam os de novo. Num a dessas viagens, alcançando a prensa de farinha, ouvim os grande barulho. Viram o-nos. O m uro tinha desaparecido. Vim os entulho, barro, um a nuvem de poeira, árvores no [pág. 072]
[pág. 073] im agem
[pág. 074] página em branco
quintal subitam ente crescido, fundos de casas, o descaroçador do Cavalo-Morto.
Enquanto não se fez outra parede, habituam o-nos a saltar os escom bros, adm irar ferrinhos caprichosos, a m áquina a devorar capulhos, pasta de algodão a esvoaçar, lentas, form ando um a saraiva grossa e fofa. A diligência do m otor, os giros das rodas, da polia, da correia, das serras, substituíam os rum ores que nos em balavam durante a safra. Ganham os experiência, discutim os. E a m inha confiança nas construções m inguou.
Naquela tarde, porém , inform ando-m e da profecia, eu ainda não acreditava nos desm oronam entos. O m uro estava inabalável. Convenci-m e de que um fenôm eno duvidoso e afastado, quase sem nom e, não teria força para derrubá-lo. Tam bém achei que Deus não elim inaria por atacado, sem m otivo, Seu Afro, Carcará, José da Luz, André Laerte, m estre Firm o, Seu Acrísio, Rosenda, os m eninos de Teotoninho Sabiá. E Padre João Inácio. Quem tinha contado ao suj eito do livro que Deus resolvera m atar Padre João Inácio1? Padre João Inácio era poderoso. Recusei o vaticínio, firm e. Conversa: o m undo não ia acabar. Um m undo tão vasto, onde se arrum avam desafogadam ente a vila e a fazenda, resistiria.
Minha m ãe estranhou a m anifestação rebelde, tentou provar-m e que os doutores conheciam as trapalhadas do céu e adivinhavam as conseqüências delas. Mas queria certificar-se de que se enganava, pelo m enos na parte relativa ao enorm e incêndio. Refutou a m inha afirm ação com descom posturas enérgicas lançadas em tom am ável. Foi serenando, term inou o debate com o se nos referíssem os a visões de sonho. Teim ava em declarar-m e um anim al. Não [pág.
075] conseguiu intim idar-m e . E era essa ausência de m edo, indiferença aos perigos distantes, ao fogo, ao exterm ínio, que a tranqüilizava.
Esteve alguns dias apreensiva, folheando a brochura, os olhos arregalados, séria. Enfim abandonou o cataclism o, em brenhou-se em novos tem ores.
O com eta veio ao cabo de, uns dois anos e com portou-se bem . Minha m ãe foi observá-lo da porta da igrej a, sem nenhum receio, esquecida inteiram ente da
predição. Nesse tem po nós nos tínham os m udado, vivíam os longe da vila. O
m undo estava im enso, com m uitas léguas de com prim ento — e desafiava, seguro, profecias e com etas. [pág. 076]
O inferno
s vezes m inha m ãe perdia as arestas e a dureza, anim ava-se, quase se em belezava. Catorze ou quinze anos m ais m oço que ela, habituei-m e, A nessas tréguas curtas e valiosas, a j ulgá-la criança, um a com panheira de gênio variável, que era necessário tratar cautelosam ente. Sucedia desprecatar-m e e enfadá-la. Os catorze ou quinze anos surgiam entre nós, alargavam -se de chofre — e causavam -m e desgosto.
Um dia, em m aré de conversa, na prensa de farinha do copiar, m inha m ãe tentava com por frases no vocabulário obscuro dos folhetos. Eu m e deixava em balar pela m úsica. E de quando em quando aventurava perguntas que ficavam sem respostas e perturbavam a narradora.