Infância
A letra D quer dizer — donzela amada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Lem brei-m e das pitom bas que vi na Sexta-Feira da Paixão, em cim a do guarda-com idas. Alguém m e convencera de que eu devia j ej uar. Sacrifício pequeno, pois ao m eio-dia e à noite com íam os em excesso. Nos intervalos, porém , abstinência rigorosa — e aí m e apareceram as pitom bas e a tentação.
Rondei o guarda-com idas, retirei-m e, voltei, hesitei, a m inha crença m oderada sucum biu.
Agora estava m ais forte, m as a necessidade de conhecer o m enino da m ata e o seu cão Piloto não se com parava ao desej o m ediano que m e haviam inspirado as pitom bas na Sexta-Feira da Paixão. Veio-m e [pág. 212] a idéia de m e rebelar contra Em ília. O folheto não era obra de protestantes nem sugestão do diabo.
Entristeci, esm agado por aquele dever. E arrependi-m e de ter falado a m inha prim a. Se não tivesse batido com a língua nos dentes, leria sem culpa O Menino da Mata e o seu Cão Piloto.
Encontrei depois m uitas intolerâncias, m as essa foi para m im extrem am ente dolorosa.
Regressei à loj a, sem m e resolver a j ogar fora o folheto condenado. Ao passar diante da igrej a, tirei o chapéu, rezei um padre-nosso e um a ave-m aria.
Tinha-m e habituado a esse exercício, m as agora rezava desesperadam ente, com rem orso por trazer debaixo do paletó, colado ao corpo, um obj eto im puro. Não m e resignava a perdê-lo, discutia sozinho, diligenciando convencer-m e de que Em ília divagara à toa.
Na loj a, fui sentar-m e no caixão de velas. As idéias de revolta sum iram -se com pletam ente. Se o m eu inim igo Fernando chegasse naquele m om ento, eu nem daria pela presença dele, tão enleado m e achava.
Era com o se m e fechassem um a porta, porta única, e m e deixassem na rua, à chuva, desgraçado, sem rum o. Proibiam -m e rir, falar alto, brincar com os vizinhos, ter opiniões. Eu vivia num a grande cadeia. Não, vivia num a cadeia pequena, com o papagaio am arrado na gaiola.
Enxergara a libertação adivinhando a prosa difícil do rom ance. O
pensam ento se enganchava trôpego no enredo: as personagens se m oviam lentas e vagas, pouco a pouco se destacavam , não se distinguiam dos seres reais. E
faziam -m e esquecer o código m edonho que m e atenazava. De repente [pág. 213]
as interdições alcançavam o m undo m isterioso onde m e havia escondido.
Im possível m exer-m e, papagaio triste e m udo, na gaiola. Quando principiava a im aginar espaços estirados, a lei vedava-m e o sonho.
Chorei, o folheto caído, inútil. O m enino da m ata e o cão Piloto m orriam .
E nada para substituí-los. Im enso desgosto, solidão im ensa. Infeliz o m enino da m ata, eu infeliz, infelizes todos os m eninos perseguidos, suj eitos aos cocorotes, aos bichos que ladram à noite.
Os caixeiros, ouvindo-m e, resm ungariam ou soltariam gargalhadas; Fernando m e insultaria; m inha m ãe m e trataria com indiferença ou aspe-reza. E eu ficaria só no m undo. Um pecado a apertar-m e com o prensa. Eu era um pouco de algodão com prim ido na prensa.
Antes disso estava quase em sossego, livre dos caixeiros e de Fernando, livre de m inha m ãe, pensando nas crianças que vencem gigantes e bruxas, vencem o m edo na floresta. Mas a clareira se fechara, a som bra m e envolvera, um a tam pa descera do céu — e achava-m e de novo sem defesa. O volum e de capa am arela caído no chão. Desej ei apanhá-lo. Havia os protestantes, havia o diabo — e esses entes rem otos e confusos encheram -m e de pavor. Perigos trem endos, horríveis perigos indecisos rolaram por cim a da m inha cabeça.
Ai de m im , ai das crianças abandonadas na escuridão. Chorei m uito. E
não m e atrevi a ler O Menino da Mata e o seu Cão Piloto. [pág. 214]
Fernando
um a das recordações m ais desagradáveis que m e ficaram : suj eito m agro, de olho duro, aspecto tenebroso. Não m e lem bro de o ter visto sorrir. A É voz áspera, m odos sacudidos, ranzinza, im pertinente, Fernando era assim . E j unto a isso qualquer coisa de frio, úm ido, viscoso, que m e dava a absurda im pressão de um a lesm a vertebrada e m uito rápida.
Se se dirigia a m im , largava algum a frase contundente. Às vezes, atentando na significação dela, eu não achava m otivo para m e ofender, m as o j eito com o ele se expressava, a sobrancelha carregada, o ar de suficiência e im postura, o riso brusco, um erguer de om bros, um balançar de cabeça, tudo m e produzia m al-estar. Era com o se ele m e quisesse cortar com lâm inas de gelatina.
Cresci ouvindo as piores referências a Fernando. Se fosse tão m au com o afirm avam , não existia patife igual. Era parente do chefe político, e um chefe político da roça naquele tem po m andava m ais [pág. 215] que um soba, dispunha das pessoas e m anipulava as autoridades, bonecos m iseráveis. Vivíam os num grande cercado de engenho, e só tinha sossego quem adulava o senhor. Os j ornais da capital noticiavam horrores, m as ninguém se atrevia a assinar um a denúncia. Qualquer indiscrição podia originar incêndios, bordoadas, prisões ou m ortes.
Presum o que, enquanto m orei ali, o j úri não funcionou. Contudo chegavam defuntos à cidade quase diariam ente. Em geral vinham em redes cobertas de pano verm elho. Mas quando eram m uitos, arrum avam -se em costas de anim ais, em biravam -se em cabeçotes de cangalhas. E os cavalos ensangüentados percorriam cam inhos, topavam nas pedras das ruas, paravam à porta da cadeia, onde se aquartelava o destacam ento da polícia.
O velho Frade, influente num m unicípio vizinho, dizia que nunca m atara um hom em . Matava cabra ruim , m uito cabra ruim . No m eu m unicípio tam bém se assassinavam hom ens, em bora se preferissem os cabras ruins. Quando um proprietário governista queria m olestar um adversário, m andava suprim ir-lhe alguns m oradores — e a pessoa am eaçada vendia-lhe a terra por m enos do valor.
Se não vendia logo, novos m oradores iam desaparecendo, até que a transação se efetuava. Só raram ente, em casos de ofensas pessoais, questões de fam ília, se elim inavam m em bros da classe elevada. A esses tom avam -se os bens, por m eios m ais ou m enos legais. Mas a canalha era dizim ada, os cabras ruins do velho Frade m orriam em abundância, e a gente se habituava aos cadáveres que m anchavam a cidade.
Regim e forte. O chefe conversava direito, falava na Coréia, torcia pelo Japão contra a Rússia [pág. 216] em 1905, discutia gram ática às vezes. De bom hum or, ninguém o j ulgaria capaz de sangrar um pinto, m as encolerizava-se facilm ente e berrava nas esquinas inj úrias a am igos e inim igos. Perdia os estribos, rugia, lastim ava-se, dizia-se rodeado por m alandros que lhe enodoavam a reputação. Os m alandros, assim atacados, encolhiam -se em ordem j unto aos balcões das loj as onde preguiçavam , escondiam -se por detrás das folhas da capital, cheias de correspondências ferozes e anônim as, que m e pareciam exageradas. As surras em tipos indesej áveis e o aparecim ento de caboclos m ortos eram fatos vulgares, m al j ustificavam a indignação im pressa. O Coronel se defendia aos gritos, espum ava; os aderentes, m edrosos, balbuciavam , tentavam descobrir os autores das infam es acusações. Fervilhavam suspeitas. E
dias depois era certo alguém ser agredido em público, a chicote ou cacete.
Nunca vi regim e tão forte.
Am igo pequeno, Fernando recebia as iras destinadas a outros e não reagia.
Num a reviravolta política, expôs claram ente a sua natureza de tabela de bilhar: agüentou sova. Mas naquele tem po só o patrão, dono dos corpos e das alm as, tinha o poder de hum ilhá-lo. Ouvidos os insultos, Fernando se recom punha, tornava-se insolente, apavorava os infelizes das pontas de ruas. Especializara-se em desgraçar m eninas pobres, que se rendiam por m edo ou eram violentadas.
Algum as vezes as próprias m ães iam levá-las ao sacrifício.
Lem bro-m e da Ratinha, linda criatura. Em noites de festa vestia roupas verm elhas, m ostrava duas rosas verm elhas nas bochechas, sorria com um sorriso verm elho, era toda um a verm elhidão triunfante — e isto a perdeu. A Rata velha tinha olhos [pág. 217] de rato, dedos finos de rato, focinho de rato, m odos de rato. O Rato irm ão era um rapaz m iúdo, narigudo, inquieto. A Ratinha se diferençava da fam ília, não se distinguia das m oças de consideração. Engelhou e envelheceu num beco escuro.
Na cidade havia num erosas m eretrizes, um horror de m eretrizes, até crianças de doze anos, im posto arrancado aos que não possuíam fazenda.
Os hom ens rem ediados, que o Coronel afligia em horas de rabugice, não pagavam im posto ou pagavam m uito pouco. E Fernando, parente próxim o do governo e fiscal da Intendência, atenazava a oposição, esfolava m atutos nas feiras, colhia virgindades.
Essas noções m e chegavam lentas e incom pletas. Novo ainda, eu não entendia certas coisas. Entretanto aquele indivíduo m e causava arrepios. Sem pre foi dem asiado grosseiro com igo, e isto m e levou a aceitar sem exam e os boatos que circulavam a respeito dele. Acostum ei-m e a j ulgá-lo um bicho perigoso. E
lendo no dicionário encarnado, onde existiam bandeiras de todos os países e retratos de personagens vultosas, que Nero tinha sido o m aior dos m onstros, duvidei. Maior que Fernando? A afirm ação do livro m e em baraçava. Com o seria possível m edir por dentro as pessoas? E senti pena de Nero, que nunca m e havia feito m al. Fernando m e atorm entava e era péssim o. Talvez não fosse o pior m onstro da Terra, m as era safadíssim o. O rosto de caneco am assado, a fala dura e im pertinente, os resm ungos, o olho oblíquo e cheio de fel, um j eito im pudente e desgostoso, um ronco asm ático findo em sopro, tudo m e dava a certeza de que Fernando encerrava m uito veneno. Se aquele sopro, rum or de caldeira, se transform ava em palavras, saíam dali [pág. 218] brutalidades. O suj eito se tornou para m im um sím bolo — e pendurei nele todas as m isérias.
Pois um dia a m inha convicção se abalou profundam ente. Os dois em pregados abriam caixões na loj a. Fernando cochilava no banco, j unto ao arm ário das perfum arias. Aos golpes dos m artelos, as talhadeiras cortavam arcos de ferro, a m adeira se despregava, rangia. Concluído o trabalho, recolheram -se os papéis e o capim da em balagem , distribuiu-se a m ercadoria em lotes, José Batista, da carteira, leu as faturas para a conferência.
Foi aí que veio o grande sucesso. Um a das tábuas ficara no chão, crivada de pregos. Fernando levantou-se, apanhou-a, agarrou um m artelo, pôs-se a entortar os bicos agudos, a rosnar. Desleixo. Se um a criança descalça pisasse naquilo?
Eu não acreditava nos m eus olhos nem acreditava nos m eus ouvidos.
Então Fernando não era m au? Pensei num m ilagre. Julguei ter sido inj usto.
Fernando, o m onstro, sem elhante a Nero, receava que as crianças ferissem os pés. Esqueci as torpezas cochichadas, condenei o dicionário verm elho que tinha bandeiras e retratos. Talvez Nero, o pior dos seres, envergasse os pregos que poderiam furar os pés das crianças. [pág. 219]
Jerônim o Barreto
PARECEU um a dificuldade, insolúvel durante m eses. Com o adquirir livros? No fim da história do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia A um pequeno catálogo. Cinco, seis tostões o volum e. Tencionei com prar alguns, m as José Batista m e afirm ou que aquilo era preço de Lisboa, em m oeda forte. E Lisboa ficava longe.
Invoquei, num desespero, o socorro de Em ília. Eu precisava ler, não os com pêndios escolares, insossos, m as aventuras, j ustiça, am or, vinganças, coisas até então desconhecidas. Em falta disso, agarrava-m e a j ornais e alm anaques, decifrava as efem érides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos m e excitavam o desej o, que se ia transform ando em idéia fixa. Queria isolar-m e, com o fiz quando nos m udam os em razão de consertos na casa. Para bem dizer, os outros é que se m udaram . A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-m e com o rom ance debaixo do paletó, voltava, desviava-m e dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-m e [pág. 220] na sala. Mergulhava num a espreguiçadeira e, em poeirado, suj o de cal, sentindo o cheiro das tintas, passava horas adivinhando a narrativa, à luz que se coava pelos vidros baços. Privara-m e desse refúgio. E
onde conseguir livros?
Em ília tentou auxiliar-m e, contou pelos dedos os possuidores prováveis de bibliotecas, sisudos, inacessíveis: Dr. Mota Lim a, Professor Rij o, Padre Loureiro. Não m e arriscaria a chateá-los. Mais próxim o, havia o tabelião Jerônim o Barreto. Diariam ente, percorrendo a Ladeira da Matriz, dem orava-m e em frente do cartório dele, enfiava os olhos fam intos pela j anela, via num a estante, em fileiras densas, bonitas encadernações de cores vivas. À m esa larga, em m angas de cam isa, o funcionário m anej ava instrum entos j urídicos. E um respeito cheio de invej a m e detinha na calçada. Atribuí àquele rapaz m oreno ciência poderosa, estranhei vê-lo, sim ples e calm o, j untar-se aos freqüentadores da loj a, onde m etia na conversa Robespierre e Marat, dois tipos que venerei antes de m e chegar qualquer notícia de revolução e da França.
Esperei que Em ília falasse a Jerônim o. Recusou-se. Expus a situação a José Batista, o único em pregado que não m e inspirava rancor. José Batista fechou o diário, escutou-m e, j ulgou dispensáveis os m edianeiros, pois a m inha pretensão era m odesta. Eu a considerava exorbitante.
Saí do escritório num desânim o. Im possível entender-m e com o hom em sabido, conhecedor de Marat, Robespierre, outros que m e fugiam da m em ória e da língua. Essas personagens m e acovardavam . E o proprietário delas guardava-as com certeza cium ento, não deixaria m ãos bisonhas m anchá-las [pág. 221] de suor. Afirm ei, repeti m entalm ente que não m e avizinharia de Jerônim o Barreto.
Dirigi-m e a casa, subi a calçada, retardei o passo, com o de costum e, diante das procurações e públicas-form as. E bati à porta. Um m inuto depois estava na sala, explicando m eu infortúnio, solicitando o em préstim o de um a daquelas m aravilhas. Mais tarde m e assom brou o arranco de energia, que em horas de torm ento se reproduziu. Com o veio sem elhante desígnio? De fato não houve desígnio. Foi um a inexplicável desaparição da tim idez, quase a desaparição de m im m esm o. Expressei-m e claro, exibi os gadanhos lim pos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônim o abriu a estante, entregou-m e sorrindo O Guarani, convidou-m e a voltar, franqueou-m e as coleções todas.
Retirei-m e enlevado, vesti em papel de em brulho a percalina verm elha, entretive-m e com D. Antônio de Mariz, Cecília, Peri, fidalgos, aventureiros, o Paquequer. Certas expressões m e recordaram a seleta e a linguagem de m eu pai em lances de entusiasm o. Vi o retrato de José de Alencar, barbado, sem elhante ao Barão de Macaúbas, e achei notável usarem os dois um a prosa fofa. Vencidos o incêndio e a cheia, dois elem entos de resistência na literatura nacional, exam inei os volum es, desencapei-os, restituí-os ao dono.
Jerônim o Barreto m e desviou para as obras de carregação. Viaj ei bastante, abeirei-m e de condessas. Mas perm aneci no desalinho, esgueirando-m e pelos cantos, e o j uízo severo da fam ília se agravava. Apenas m eu prim o José, ouvindo-m e descrever um a casa queim ada, resm ungou:
— Falante com o o diabo. [pág. 222]
Talvez m e houvessem ficado alguns adj etivos do Guarani. Isto não representou vantagem , pelo m enos no princípio.
Surgiu na cidade um a espécie de colégio e introduziram -m e nele. Quando cheguei, o diretor, insinuante, m acio, ditou m eia dúzia de linhas a diversos novatos. Em endou e classificou os ditados; pegou o m eu, horrorizou-se, escreveu na m argem larga do alm aço: incorrigível. Esta dura sentença não m e abalou. Até que m e envaideci um pouco vendo a m inha escrita diferente das outras.
Dias depois o suj eito m e pediu a constituição do Brasil e um a gram ática.
Levei a gram ática, m as em birrei com a constituição, m udei-a num a história do Brasil de perguntas e respostas. Assim , não analisei o estatuto do m eu país e dei a Jovino Xavier um a im pressão m iserável. Recebendo as cartonagens, Jovino travou com igo um diálogo: espantou-se, franziu os beiços, m achucou o bigode, cocou a cabeça, entalado. E deixou-m e em paz, esteve sem anas sem m e dirigir palavra, certam ente j ulgando-m e im becil, o que m uito m e serviu.
Nesse tem po eu andava nos fuzuês de Rocam bole. Jerônim o Barreto m e fazia percorrer diversos cam inhos: revelara-m e Joaquim Manuel de Macedo, Júlio Verne, afinal Ponson du Terrail, em folhetos devorados na escola, debaixo das laranj eiras do quintal, nas pedras do Paraíba, em cim a do caixão de velas, j unto ao dicionário que tinha bandeiras e figuras.
Os m eus colegas se afastavam de m im , declam avam as capitais, os rios da Europa. E eu m ascava os prolegôm enos: vinte e quatro horas, trezentos e sessenta e cinco dias, raça branca, raça negra. Quando tom ei pé na Europa, eles exploravam [pág. 223] outras partes do m undo. Surdo às explicações do m estre, alheio aos rem oques dos garotos, em brenhava-m e na leitura do precioso fascículo, escondido entre as folhas de um atlas. Às vezes procurava na carta os lugares que o ladrão terrível percorrera. E o m apa crescia, povoava-se, riscava-se de estradas por onde rodavam caleças e diligências.
Conheci desse j eito várias cidades, vivi nelas, enquanto os pequenos em redor se esgoelavam , num barulho de feira. O rum or não m e atingia. Em vão m e falavam . Sacudido, sobressaltava-m e, as idéias ausentes, com o se m e arrancassem do sono. Olhavam -m e estupefatos, devagar m e inteirava da realidade.
Governadores-gerais, holandeses e franceses com eçavam a im portunar-m e. Esquartej avam -se períodos, subdividiam -se e rotulavam -se as peças em m edonha algazarra. Os m eus novos am igos guardavam m aquinalm ente façanhas portuguesas, francesas e holandesas, regras de sintaxe — e brilhavam nas sabatinas. Segunda-feira estavam esquecidos, e no fim da sem ana precisavam repetir o exercício, decorar provisoriam ente toda a m atéria. À m edida que avançavam , a tarefa se ia tornando m ais penosa: ficavam apenas, algum tem po, as últim as lições.
Eu achava estupidez pretenderem obrigar-m e a papaguear de oitiva.
Desonestidade falar de sem elhante m aneira, fingindo sabedoria. Ainda que tivesse de cor um texto incom preensível, calava-m e diante do professor — e a m inha reputação era lastim osa.
Um dia, porém , houve exam e im previsto e os alunos encrencaram nos rios e nas capitais. Haviam -m e [pág. 224] chegado pedaços disso. Geografia velha, anterior à locom otiva, cheia de soluções de continuidade, m as foi exposta e produziu eleito regular. Mencionei o bosque de Bolonha, Versalhes, o Sena, a torre de Londres, as pontes de Veneza, o Reno e o Tibre, o porto de Marselha.
Não era exatam ente o que desej avam . Em todo o caso fui ouvido. Certas interrupções m e avivavam a eloqüência. O Mediterrâneo? Perfeitam ente, a Córsega, terra de Napoleão. Da poeira de Aj ácio ao trono de S. Luís. Jerônim o Barreto m e falara na poeira e no trono — e isto não apresentava dificuldade: Aj ácio estava ali no m apa, S. Luís tinha sido rei da França, Napoleão se estrepara na cam panha da Rússia, logo nas prim eiras páginas do Rocam bole.
Num desconchavo, referi-m e à catedral de Notre-Dam e e ao Vesúvio fam iliarm ente, com o se os tivesse visto. Além disso, arrolei plantas e anim ais exóticos: carvalhos e pinheiros, vinhedos e trigais, lobos e j avalis, m elros e rouxinóis.
Finda a novidade, os m eus conhecim entos originaram desconfiança e algum desdém : Versalhes, Notre-Dam e e os rouxinóis tinham aparência de contrabando. E eram inúteis, com certeza. Mas serviam para a com posição de narrativas — e fora daí não m e inspiravam interesse.
A existência com um se distanciava e deform ava; conhecidos e transeuntes ganhavam caracteres das personagens do folhetim . Descurei as obrigações da escola e os deveres que m e im punham na loj a. Algum as disciplinas, porém , m e aj udavam a com preensão do rom ance e tolerei-as — bocej ei e cochilei buscando penetrá-las.
Em poucos m eses li a biblioteca de Jerônim o Barreto. Mudei hábitos e linguagem . Minha m ãe [pág. 225] notou as m odificações com im paciência. E
Jovino Xavier tam bém se im pacientou, porque às vezes eu revelava progresso considerável, outras vezes m anifestava ignorância de selvagem . Os caixeiros do estabelecim ento deixaram de afligir-m e e, pelos m odos, entraram a considerar-m e um indivíduo esquisito.
Minha m ãe, Jovino Xavier e os caixeiros evaporavam -se. A única pessoa real e próxim a era Jerônim o Barreto, que m e fornecia a provisão de sonhos, m e falava na poeira de Aj ácio, no trono de S. Luís, em Robespierre, em Marat.
[pág. 226]
Venta-Rom ba
FERECERAM a m eu pai o em prego de j uiz substituto e ele o aceitou sem nenhum escrúpulo. Nada percebia de lei, possuía conhecim entos gerais O m uito precários. Mas estava aparentado com senhores de engenho, votava na chapa do governo, m erecia a confiança do chefe político — e achou-se capaz de j ulgar.
Naquele tem po, e depois, os cargos se davam a sequazes dóceis, perfeitam ente cegos. Isto convinha à j ustiça. Necessário absolver am igos, condenar inim igos, sem o que a m áquina eleitoral em perraria.
Os m agistrados de anel e carta diligenciavam acom odar-se, encolher-se, faziam vista grossa a m uita bandalheira. De repente acuavam , tinham m elindres que o m andão local não entendia e lançava à conta de m á vontade. E lá vinham rixas, viagens rápidas, afrontas, um libelo contestado a punhal ou cacete. Enfim os bacharéis se agüentavam m al. Dispensavam -lhes obséquios, salam aleques —
[pág. 227] — e desviavam -nos. Subsistia o Juiz de Direito, que ordinariam ente se ausentava da com arca.
Os funcionários m atutos não vacilavam : ignorando a razão de intransigências, am oleciam im perturbáveis, assinavam despachos redigidos pelo escrivão.
Foi assim que m eu pai recebeu um título e suportou a alegria ruidosa do preto José Luís, que, aos sábados, da sala à cozinha, ria, gritava, dançava, entusiasm ado:
— Cadê o nosso j uiz substituto?
Não havia m otivo para j úbilo. Conservo dessa autoridade um a recordação lastim osa.
Venta-Rom ba pedia esm ola, gem endo um a cantilena, indiferente às recusas:
— Com o vai, seu Maj or? E a m ulher de seu Maj or? Os filhinhos de seu Maj or?
A voz corria m ansa; as rugas da cara m orena se aprofundavam num sorriso constante; o nevoeiro dos olhos se ilum inava com estranha doçura.
Nunca vi m endigo tão brando. A fom e, a seca, noites frias passadas ao relento, a vagabundagem , a solidão, todas as m isérias acum uladas num horrível fim de existência haviam produzido aquela paz. Não era resignação. Nem parecia ter consciência dos padecim entos: as dores escorregavam nele sem deixar m ossa.
— Com o vai, seu Maj or? Os filhinhos de seu Maj or?
Hum ildade serena, insignificância, as m ãos trêm ulas e engelhadas, os pés disform es arrastando as alpercatas, procurando orientar-se nas esquinas, estacionando j unto dos balcões. Restos de felicidade esvaíam -se nas feições tranqüilas. O aió suj o pesava-lhe no om bro; o chapéu de palha esburacado [pág.
228] não lhe protegia a cabeça curva; o ceroulão de pano cru, a cam isa aberta, de fralda exposta, eram andraj os e rem endos.
Aparecia um a vez por sem ana, às sextas-feiras, quando se realizava a caridade: um pires de farinha nas casas particulares, um vintém nas loj as e nas bodegas. Mas as fam ílias de loj istas e bodegueiros não exerciam a caridade, porque isto seria redundância.
— Peça na venda.
Tínham os ordem para afastar os peditórios.
Um a sexta-feira Venta-Rom ba nos bateu à porta. Deve ter batido: não ouvim os as pancadas. Achou o ferrolho e entrou, surgiu de supetão na sala de j antar, os dedos bam beando no caj ado. As m oças assustaram -se, os m eninos caíram em grande latom ia.
— Vá-se em bora, m eu senhor, disse a patroa.
A distância, esse tratam ento de meu senhor a um a criatura em farrapos soa m al. Era assim que m inha m ãe se expressava dirigindo-se a qualquer desconhecido. Trouxera o hábito da fazenda, e isto às vezes não revelava polidez. Em tons vários, meu senhor traduzia respeito, desdém ou enfado.
Agora, com estridência e aspereza, indicava zanga, e a frase significava, pouco m ais ou m enos:
— Vá-se em bora, vagabundo.
Venta-Rom ba perturbou-se, engasgou-se, apagou o sorriso; o vexam e e a perplexidade escureceram -lhe o rosto; os beiços contraíram -se, exibindo as gengivas nuas.
— Sinha dona... m urm urou.
Com certeza buscava explicar-se. Interj eições roucas e abafadas escapavam -lhe; os olhos baços [pág. 229] percebiam o terror das crianças e arregalavam -se aflitos.
Minha m ãe era anim osa. Atirava, m ontava, calej ara na vida agreste. Certo dia um Coronel lhe entrou subitam ente na cozinha, lívido, rogando-lhe que o escondesse da polícia: trancou-o num quarto, guardou a chave, tom ou as prim eiras m edidas necessárias à fuga. Não precisava que o m arido, pessoa, débil, viesse enxotar Venta-Rom ba. Mas expediu o m oleque José com um recado e plantou-se j unto ã m esa, áspera, silenciosa, os cantos da boca repuxados, a m ancha verm elha da testa m uito larga.
Diante dela, o pobre intentava aliviar a im pressão m á, e cada vez m ais se confundia; deixou passar o m om ento de retirar-se. Cocava a cabeça, gem ia desculpas asm áticas, e ninguém o escutava. Num arranco de im paciência, bateu com o pau no tij olo, agravou a balbúrdia. A severidade vincou o rosto da m ulher; as m oças cochicharam rezando e fixaram a atenção na entrada do corredor.
Nesse ponto chegou m eu pai. Chegou alvoroçado, branco, e logo se fortaleceu, pôs-se a interrogar Venta-Rom ba, que desabafou, estranhou a desordem : im plicância dos m eninos, gritos, choro, a dona sisuda, as doninhas arrepiadas. Fuzuê brabo à toa, falta de j uízo. Graças a Deus, tudo se alum iava.
Descobriu-se, despediu-se, cam inhou de costas:
— Adeus, seu Maj or.
Meu pai atalhou-o. Antes de qualquer sindicância, tinha-se resolvido.
Enganara-se com os exageros do m oleque, enviara um bilhete ao com andante do destacam ento. A fraqueza o im pelia a decisões extrem as. Im aginara-se em perigo. Reconhecia o erro, m as obstinava-se. [pág. 230]
[pág. 231] im agem
[pág. 232] página em branco Misturava o sobressalto originado pela notícia ao enj ôo que lhe causava a figura m ofina — e desatinava. Propendia a elevar o intruso, im putar-lhe culpa e castigá-lo. De outro m odo, o caso findaria no ridículo.
— Está preso, gaguej ou, nervoso, porque nunca se exercitara naquela espécie de violência.
Alguém tossiu na sala, um boné verm elho apareceu no fim do corredor.
Insensível, Venta-Rom ba tropicava com o um papagaio, arrim ava-se penosam ente à om breira da porta. Deteve-se, largou um a exclam ação de surpresa e dúvida. E quando a frase se repetiu, balbuciou descorado:
— Brincadeira de seu Maj or.
Espalhou a vista em roda: o barulho das crianças fora substituído por um a curiosidade perversa; as m oças trem elicavam na costura; a face de m inha m ãe expunha indiferença im óvel; um suj eito passeava na sala de visitas, exibindo pedaços da farda vistosa. Claro que não era brincadeira, m as o velho, estonteado, não alcançava o desastre. Arredou-se da porta, encostou-se à parede, esboçou um m ovim ento de defesa. Se não fosse banguelo, rangeria os dentes; se os m úsculos não estivessem lassos, endureceria as m unhecas, levantaria o caj ado. Im possível m order ou em pinar-se; o gesto m aquinai de bicho acuado esm oreceu; devagar, a significação da palavra rij a furou, com o pua, o espírito em botado. E em ergia da trouxa de m olam bos um a pergunta flácida:
— Por que, seu Maj or?
Era o que eu tam bém desej ava saber. À j anela, distraindo-m e com o vôo das abelhas e o zunzum do cortiço pendente no beirai, vira o espalhafato nascer e engrossar em m inutos. Não haviam colaborado [pág. 233] nele — e a interrogação lam entosa m e abalava. Por quê? Com o se prendia um vivente incapaz de ação? Venta-Rom ba m ovia-se de leve. Não podendo fazer m al, tinha de ser bom . Difícil conduzir aquela bondade trôpega ao cárcere, onde curtiam pena os m alfeitores.
— Por que, seu Maj or?
O cochicho renovado ficou sem resposta. Seu Maj or não saberia m anifestar-se. Assom brara-se, recorrera à força pública e receava contradizer-se.
Talvez sentisse com paixão e se reconhecesse inj usto. Enraivecia, acusava-se, e despej ava a cólera sobre o infeliz, causa do desarranj o. Em desespero, roncou inj úrias. O polícia que pigarreava na sala se avizinhou, a blusa desabotoada, faca de ponta à cintura, as reiúnas de vaqueta ringindo.
Vinte e quatro horas de cadeia, um a noite na esteira de pipiri, rem oques dos com panheiros de prisão, gente desunida. Perdia-se a sexta-feira, esfum ava-se a beneficência m esquinha. Com o havia de ser? Com o havia de ser o pagam ento da carceragem ?
Venta-Rom ba sucum biu, m olhou de lágrim as a barba sórdida, extinguiu num m urm úrio a pergunta lastim osa. O soldado ergueu-lhe a cam isa, segurou o cós do ceroulão, em punhou aquela ruína que tropeçava, queira aluir, atravessou o corredor, ganhou a rua.
Fui postar-m e na calçada, som brio, um aperto no coração. Venta-Rom ba descia a ladeira aos solavancos, trocando as pernas, desconchavando-se com o um j udas de sábado da Aleluia. Se não o agarrassem , cairia. O aió balançava; na cabeça desgovernada os vestígios de chapéu iam adiante e vinham atrás; as alpercatas escorregavam na gram a. [pág. 234]
Eu experim entava desgosto, repugnância, um vago rem orso. Não arriscara um a palavra de m isericórdia. Nada obteria com a intervenção certam ente prej udicial, m as devia ter afrontado as conseqüências dela. Testem unhara um a iniqüidade e achava-m e cúm plice. Covardia.
Mais tarde, quando os castigos cessaram , tornei-m e em casa insolente e grosseiro — e j ulgo que a prisão de Venta-Rom ba influiu nisto. Deve ter contribuído tam bém para a desconfiança que a autoridade m e inspira. [pág. 235]
Mário Venâncio
RGANIZOU-SE um a sociedade teatral e quiseram colocá-la sob o patrocínio de João Caetano; m as o Maj or Pedro Silva, senhor de O engenho, ofereceu aos am adores um a casa que se arruinava no Juazeiro, defronte da cadeia, e a instituição recebeu em conseqüência o nom e de Escola Dram ática Pedro Silva. Ladrilharam , rebocaram e caiaram o prédio; ergueram o palco, os cenários da floresta, do palácio e da choupana; Joaquim Correntão esm erou-se no pano de boca, vistoso, com três deusas peitudas. E, depois de num erosos ensaios, levaram à cena O Plebeu, que arrancou lágrim as da platéia.
Entre os diletantes, um m oço desconhecido, novo agente do correio, logo se notabilizou pela feiúra e pelos m odos esquisitos. Mário Venâncio era pobre dem ais: vestia brim flum inense, roupa grosseira de m atuto, preparava ele m esm o a com ida e vivia num a espécie de gaiola pendurada no m orro [pág. 236] do Pão-sem -Miolo. A peça da frente servia de repartição, gabinete e sala de visitas.
Logo correu que havia chegado à terra um literato. Vi-o de longe, rápido e m iúdo, o rosto fino com o focinho de rato, m odos de rato — um guabiru ligeiro e cabisbaixo, a dar topadas no calçam ento. E alguém afirm ou na loj a que estava ali um suj eito profundo, colaborador de j ornais, autor de livros, o diabo. As m aneiras esquivas e torcidas exprim iam vida interior, desprezo ao senso com um , inspiração de poeta. Em geral os poetas tinham aparência m aluca e usavam cabelos assim com pridos, escondendo as orelhas.
Aproxim ei-m e desse curioso indivíduo no colégio, onde nos apareceu lecionando geografia. Não era a especialidade dele: aj ustou-se à m atéria com o se aj ustaria a qualquer outra, apenas para aliviar o trabalho de Jovino Xavier.
Pouco a pouco abandonou os m apas, as listas de m ares e de rios. Insinuou-nos a fundação de um periódico.
A idéia, aceita com entusiasm o, ao cabo de um a sem ana esfriou, teria m orrido se eu e m eu prim o Cícero não a resguardássem os. Aferram o-nos a ela e, vencendo em baraços e canseiras, tornam o-nos diretores do Dilúculo, folha im pressa em Maceió, com duzentos exem plares de tiragem quinzenal, trazidos pelo estafeta Buriti, que vendia revista e declam ava pedaços do Moço Louro. O
desgraçado título foi escolha do nosso m entor, fecundo em palavras raras.
Estabeleceu-se a redação na agência do correio, logo convertida em asilo de doidos. À tarde reuniam -se lá os m em bros da Escola Dram ática Pedro Silva, os da Instrutora Viçosense, sociedade que dorm ia o ano inteiro, acordava na posse da diretoria e, [pág. 237] concluídos os discursos, tornava ao sono. Essa gente fazia um barulho que assustava os transeuntes, afligia os vizinhos, atraía caixeiros tím idos, em aranhados nos cipoais da concordância e da m étrica. Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-m e de alguns vocábulos, estudava-os no dicionário, em pregava-os com energia.
Representado O Plebeu, Mário Venâncio colhera no guarda-roupa do teatro um a farpeia que utilizava em noites de inverno e por fim m isturava ao fato ordinário. De tam ancos, calça de algodão esfiapada nas bainhas, cam isa de m eia, fraque e chapéu duro, atravessava a rua, dirigia-se à bodega; as m ãos carregadas de em brulhos, lenha debaixo do braço, voltava, corcunda, tropeçando, ia à cozinha, atiçava o fogo, tem perava a panela. Em seguida entrava na sala, enxugando os dedos longos, sentava-se à m esa coberta de j ornais, cartas, alm ofadas e carim bos, perto da estante:
— O naturalism o ...
Perplexo, eu exam inava as pessoas em redor, procurava distinguir nelas o efeito da arenga difícil. Estariam com preendendo? Às vezes m e assustavam discussões em brulhadas: rapazes silenciosos anim avam -se, discorriam com exagero e ódio, religiosam ente. Isso m e dava tontura e enj ôo. Um a idéia clara m e surgia: os rom ances agradáveis eram bugigangas. Em troca, exibiam -m e insipidez e obscuridade. Ali é que estava a beleza, especialm ente na prosa de Coelho Neto.
Não m e im portava a beleza: queria distrair-m e com aventuras, duelos, viagens, questões em que os bons triunfavam e os m alvados acabavam presos ou m ortos. Incapaz de revelar a preferência, resignei-m e e agüentei as Baladilhas, o Romanceiro, outros [pág. 238] aparatos elogiados, que m e revolveram o estôm ago. Cochilei em cim a deles, devolvi-os receando que m e forçassem a com entá-los. Para m im eram chinfrins, m as esta opinião contrariava a experiência alheia. Julguei-m e insuficiente, calei-m e, engoli bocej os. Enquanto o dono da casa explanava a literatura encrencada, esforcei-m e por entendê-la.
Senti m edo e preguiça. Não m e arriscaria a controvérsia: acovardava-m e a presença de um a autoridade.
O Pequeno Mendigo e várias artes m inhas lançadas no Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações que do original pouco se salvou.
Envergonhava-m e lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente com preenderia o em buste.
Mário Venâncio fabricava artigos e notícias, reduzia os diretores a sim ples testas-de-ferro. Ornou de contos sérios as páginas m esquinhas. Assim principiava um deles, adm irado na Instrutora Viçosense e na Escola Pedro Silva:
"Jerusalém , a deicida, dorm ia sossegadam ente à luz pálida das estrelas. Sobre as colinas pairava um a tênue neblina, o hálito da grande cidade adorm ecida. Nos casais dos cabreiros, cães de vigília ululavam lugubrem ente." Os nossos ouvidos eram insensíveis a colisões. E a brisa do m onte das Oliveiras, a torrente do Cédron, lugares bíblicos, valorizavam o trabalho.
Mas não ficávam os na torrente e na brisa. Descíam os o m onte das Oliveiras, caíam os na planície nacional, visitávam os a Casa de Pensão e O Coruja. Da cópia saltávam os ao m odelo, invadíam os torpe-z.as dos Bougon-Macquart, publicadas em Lisboa.
Feria-m e às vezes, porém , um a saudade viva das personagens de folhetins: abandonava a agência, chegava-m e a biblioteca de Jerônim o Barreto,
[pág. 239] regressava às leituras fáceis, reviu condes e condessas, salteadores e m osqueteiros brigões, viaj ava com eles em diligência pelos cam inhos da França.
Esquecia Zola e Victor Hugo, desanuviava-m e. Havia sido ingrato com os m eus pobres heróis de capa e espada. Não m e atrevia a exibi-los agora. Disfarçava-os cuidadoso e, fortalecido por eles, subm etia-m e de novo ao pesadum e, ia buscar o artifício v. a substância, em geral m uito artifício e pouca substância.
O funcionário postal facilitou-m e a correspondência com livrarias: obtive catálogos da Garnier e da Francisco Alves, escrevi cartas, recebi faturas e pacotes. Não possuindo recursos, habituei-m e a furtar m oedas na loj a, guardá-
las num frasco boj udo oculto sob fronhas e toalhas no com partim ento superior da côm oda. Entre níqueis e pratas surgiram cédulas — e enchi as prateleiras da estante larga, presente de aniversário. Esses delitos não m e causavam rem orso.
Cheguei a convencer-m e de que m eu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitam ente. Desculpava-m e censurando-lhe a sovinice, tentando agarrar esperanças absurdas.
Mário Venâncio m e pressagiava bom futuro, via em m im sinais de Coelho Neto, de Aluísio Azevedo — e isto m e ensoberbecia e alarm ava. Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os m eus exercícios eram com posições tolas, não prestavam . Sem dúvida, afirm ava o adivinho. Ainda não prestavam . Mas eu faria rom ances. Gastei m eses para certificar-m e de que o palpite não encerrava zom baria. Depois a vaidade esm oreceu, foi substituída por um a vaga aflição.
Que teria o hom em percebido nos m eus escritos? Se m e decidisse [pág. 240] a confiar nele, am argaria a vida inteira o provável engano. Exam inei-m e por dentro e j ulguei-m e vazio. Não m e achava capaz de conceber um daqueles enredos ensangüentados, férteis em nobres valorosos e donzelas puras. E, desatento, andava na rua aos encontrões, m eio cego, m eio surdo. Nunca descreveria um candeeiro com o o de m etal am arelo que ilum inava, com azeite e difíceis pavios, duas páginas das Cenas da Vida Amazônica. Os candeeiros m e passavam despercebidos. E seriam necessários? Os debates na agência não tinham fim . Lem brava-m e dos governistas e oposicionistas espalhados, rancorosos, nas esquinas da cidadezinha e nos j ornais da capital. Assom brava-m e o partidarism o exaltado, a m inha colaboração no Dilúculo era terrivelm ente eclética. Mário Venâncio continuava a anim ar-m e, eu desviava pretensões arriscadas.
Esse am ável profeta bebeu ácido fênico. Levantei-m e da espreguiçadeira, onde m e seguravam as novidades e os sofrim entos da artrite e de um a novela russa, fui encontrar o infeliz am igo estirado no sofá, j unto à m esa coberta de papéis, brochuras, pedaços de lacre, alm ofadas e carim bos. Um em issário da adm inistração, feita a sindicância, redigiu necrológio pom poso, enterrou o cadáver sob a folhagem de salgueiros, entre raízes de ciprestes, vegetais desconhecidos no lugar.
O Dilúculo tam bém m orreu logo. Distanciei-m e da crítica. E não m e entendi com o público, m uito incerto. No colégio, na Escola Pedro Silva, na Instrutora Viçosence, toleravam -m e. Em casa, sem exam e, detestavam as m inhas novas ocupações. [pág. 241]
Seu Ram iro
AQUELE tem po os hóspedes fervilhavam em nossa casa. Na cidade ainda não havia hotéis, e à tardinha, ao chegar o trem , quase N diariam ente nos apareciam carregadores que transportavam bagagens.
Suj eitos desconhecidos entravam , incerim oniosos, com o se tivéssem os obrigação de recebê-los, ficavam dois, três dias, em barcavam de m adrugada, sem agradecim entos, à socapa.
Minha m ãe se arreliava, prom etia um a desfeita àquela súcia de parasitas.
Mas baixava a pancada, engolia a indignação, ia lacrim ej ar na fum aça da cozinha, à beira do fogo, rosnar o desgosto à criada e aos m oleques.
Meu pai afetava paciência m agnânim a, não isenta de interesse. Calculista, é possível que enxergasse na hospitalidade m atuta um em prego de capital.
Alargara as transações, devia m uito, e no inverno o dinheiro m inguava. Sendo os intrusos em geral caixeiros-viaj antes, fiscais dos estabelecim entos fornecedores, convinha suportá-los. Davam , [pág. 242] em paga, bons inform es do pequeno retalhista do interior. E indicavam -lhe negócios vantaj osos, a com pra de m assas falidas, baratas. Nessas liquidações abundavam pregos de tam anho exorbitante, agulhas enferruj adas, chita de padrões horríveis. Ao cabo de anos os fregueses desconfiaram que todas as m ercadorias tinham defeito, e os balanços apresentavam rum as de inutilidades.
Os com etas atraíram indivíduos alheios ao com ércio e transform aram a casa em pensão. Entre estes, Seu Ram iro se notabilizou. Trazia o encargo de fundar um a Loj a Maçônica, em presa odiosa e cheia de riscos.
Minha fam ília não era rigorosam ente cristã: fugia do confessionário, rezava pouco, ia à igrej a com tem perança, nas festas. Mas adm irava as procissões, j ej uava na sem ana santa e sabia perfeitam ente que os pedreiros-livres dão sangue ao diabo, obtêm fortuna e condenam -se. O velho Pedro Rico, nosso parente afastado, procedera desse j eito e estava no inferno. Sem dúvida.
Percorria a vizinhança dos lugares m al-assom brados, vagava pelos cam inhos, galopando num cavalo negro, pedindo m issas e gem endo:
— Sou a alm a do finado Pedro Rico.
Seu Ram iro percebia as dificuldades e foi cauteloso, não revelou de supetão os seus desígnios sinistros. Fez diversas viagens e, com persistência e m anha, declarando-se religioso em dem asia, iniciou um a propaganda tím ida, fortaleceu-se, conseguiu prosélitos e inaugurou a loj a Mensageiros da Pé, que teve com o venerável o chefe político. Na estréia, pom posa, tipos sérios, de Maceió, declam aram longos discursos. [pág. 243]
Meu pai esteve alguns m eses cabeceando sobre cartonagens e folhetos m arcados com triângulos e com passos. Guardou a princípio esses utensílios na gaveta, a chave; largou-os depois à toa, deixou-nos ver as abreviaturas enigm áticas, findas em três pontinhos. Enj oou as sessões secretas, e j ulgo que perm aneceu em grau m uito baixo, não passou de aprendiz.
Enquanto se aliciavam adeptos e se reconstruía um casarão triste no Gurganem a, Seu Ram iro nos visitou com freqüência. Era um suj eito espesso e m oreno, de cabeleira grisalha, rugas, e ponderoso, tão ponderoso que dificilm ente o im aginaríam os sem colarinho e gravata. A voz pausada gotej ava, para não perderm os um a sílaba. Sobrancelhas hirsutas, olhar sereno e olím pico.
Tinha essa figura uns m odos de estátua, a convicção talvez de que era estátua e devíam os adm irá-la. Antes de quebrar o silêncio, fungava, contraía os cantos da boca, achatava m ais a, nariz, tufava o bigode vasto. Ensinava-nos que o filipino é terrivelm ente forte, conduz sem se cansar dois filipinos. Com o as form igas. E
descrevia a organização do form igueiro. Ninguém aludira a filipinos nem a form igas, m as o hom em achava m eio de lançar m ão desses viventes e dissertava.
De ordinário isso acontecia depois do j antar. Mastigada a refeição abundante e m á, retirados os pratos, Seu Ram iro pregava os cotovelos na toalha, exam inava as caras em redor e esperava deixa conveniente a um a exposição volum osa. Aprofundava as rugas, eriçava os pelos, engrossava o papo, inchava todo, discorria um a hora, e não havia brecha para nenhum aparte. Os dois caixeiros fixavam [pág. 244] nele os bugalhos atentos; o patrão balançava a cabeça, em apoiados reverenciosos; m inha m ãe, a um canto da m esa, reprim ia bocej os, m ordia os beiços.
Foi nessas arengas que, entre avanços e recuos, surgiu o Suprem o Arquiteto do Universo e produziu considerável efeito. Seu Ram iro falava no Suprem o Arquiteto do Universo com devoção, erguendo-se um pouco.
Aborreci aquela sabedoria, a linguagem m agnífica: habituei-m e a fugir depois do café, espantando os ouvintes, fuzilado pelos óculos do orador, que, cham ando-m e à ordem , tentou punir-m e o desrespeito. Leu no prim eiro núm ero do Dilúculo a m inha história Pequeno Mendigo e censurou-m e vários erros. Essa literatura, recom posta por Mário Venâncio, m e parecia certa, m as Seu Ram iro discordou e corrigiu tudo de novo. Alterou a disposição das palavras, arranj ou sinônim os vistosos, arrepiou-se vendo a m inha personagem estender a m ão à caridade pública: fê-la estender as m ãos, pois não estava explicado que ela fosse m aneta. Enfim um a crítica m edonha, a pior que j á recebi. Grande raiva m e encheu o coração, m entalm ente desenvolvi com pridas inj úrias, odiei os filipinos e as form igas.