Infância

Graciliano Ramos · Capítulo 2 de 2 · parte 2/4

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Infância

A letra D quer dizer — donzela amada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

A estranha inversão de papéis m e surpreendia e revoltava, m as a surpresa e a revolta nunca se m anifestaram . Longe da escola, em arrancos de coragem , afrontei as m egeras.

— Ah! negras!

Ali no corredor, o livro esquecido nos j oelhos, vendo o quintal, o m orro, ouvindo as lições cantadas e a arrelia da m estra, anulava-m e, colava-m e à parede, pusilânim e e esquivo. Não ousaria revelar afeto a m inha prim a, não m e arriscaria sequer a observar o m artírio dela. Nas horas de aflição, m ultiplicadas, baixava a cabeça, fingia não perceber os braços finos, o rosto m urcho e pálido, a boca torcida, os grandes olhos assustados, sem lágrim as. Receava, m ostrando qualquer sinal de interesse, m agoar a pobre, hum ilhá-la ainda m ais. Talvez isso fosse hipocrisia: o que eu receava intim am ente era com prom eter-m e associando-m e àquela fraqueza, receber cachações destinados a ela. Não m e parecia que Adelaide pudesse reabilitar-se, recuperar a alm a de proprietária, dom inar os cam bem bes esvaídos no eito. O engenho perdera a grandeza, [pág. 178] era um a som bra de engenho, e a sinhá-m oça arrastaria anos de vexam e, até o fim da vida.

Tinha-m e chegado vagas notícias da escravidão, sem relho e sem tronco, aceitável, quase desej ável. Maria Moleca e Vitória, livres, viviam sossegadas em casa de m eu avô. Não m e vinha a idéia de que se conservassem ali por hábito ou por não terem para onde ir. Estavam bem , sem pre tinham estado bem . As tias da professora haviam sido m ucam as de luxo, sem dúvida, antes da m aluqueira de um a princesa odiosa. Ingratas. Não m e ocorria que alguém m anej ara a enxada, suara no cultivo do algodão e da cana: as plantas nasciam espontaneam ente. E

não pensava no sacrifício necessário às três m ulheres para levantar a sobrinha fusca, desbastá-la, vesti-la, escová-la, im pingi-la na sociedade. Essa m etam orfose era casual. E arrepiava-m e.

Coitada de m inha prim a, tão boa, tão débil, suportando as enxaquecas das m iseráveis. Lugar de negro era a cozinha. Por que haviam saído de lá, vindo para a sala, puxar as orelhas de Adelaide? Não m e conform ava. Que m al lhes tinha feito Adelaide? Por que procediam daquele m odo1? Por quê? [pág. 179]

Um enterro

AQUELE dia feriam os. Encontrei à porta da escola os m eninos em alvoroço, e alguém nos guiou a um a casa distante, onde m ulheres N chorosas punham estrelinhas no m anto que adornava um cadáver pequeno, transform ado em anj o. Findo esses retoques, o choro aum entou e quatro alunos seguraram as alças do caixão azul. Saím os, andam os cam inhos esburacados, lam acentos, subim os um a ladeira íngrem e e, escorregando no barro verm elho, alcançam os paredes brancas, sim ples m anchas vistas lá debaixo, agora altas e largas, zebradas de verde. Atravessei o portão.

Nunca havia entrado em cem itérios e habituara-m e a receá-los, por causa dos espectros que m e descreviam na cozinha. À noite essas narrações davam -m e trem uras, arrepiavam -m e os cabelos. A treva se enchia de m istérios, as labaredas fum acentas do fogão viviam , acom panhavam a dança das bruxas. Ali, porém , na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam . O bando de crianças ria, [pág.

180] espalhava-se" nas ruas estreitas, galgava m ontículos fofos, alinhados.

Largou-se à beira de um a cova o caixão azul, o velho Sim eão escondeu-o, tom ou a pá e cobriu-o de terra, fabricou um a espécie de canteiro. Ouvi as pancadas ocas, indiferente à cerim ônia.

Lem brava-m e do que se dizia do coveiro, lento, de m ãos trêm ulas.

Perdera a fam ília, despoj ara-se de todos os interesses que o prendiam à vida e, quase na decrepitude, só estim ava a com panhia dos m ortos. Calej ara no ofício.

Com o as pernas trôpegas exigiam repouso, descia raro à cidade. Consum ia o resto das forças à som bra dos túm ulos, arrancando ervas nocivas, podando roseiras. E concluída a tarefa, sossegava em cim a de um a catacum ba e dorm ia.

Quando o achassem teso, não seria preciso transportá-lo em viagem difícil: deixá-lo-iam entre as suas plantas. Essa figura engelhada m e tranqüilizava.

Sim eão vivia com defuntos — e nunca um deles o incom odara. Hom em poderoso. Ou então os defuntos eram bem fracos.

Distanciei-m e, fui exam inar flores roxas de louça, cabeças de lagartixas nas rachaduras dos sepulcros. As narrativas noturnas — diabos com olhos de brasas, cachorros m astigando pedaços de carne podre — sum iam -se. E o m edo tam bém cessava, no trabalho de adivinhar nom es e datas que desbotavam nas lousas. O que eu sentia era noj o. Noj o das pedras, dos tij olos, dos garranchos, certam ente im pregnados de óleo. Receava tocar em obj etos suj os de gordura fúnebre, indelével. Farrapos sem cor, folhas secas, pétalas m urchas, fragm entos vagos, j untos em lixo, nauseavam -m e: apesar de lavados pelo inverno, queim ados pelo verão, deviam conter pus ou tutano. [pág. 181]

Arredei-m e para um canto, onde o m uro se abria. Era um ossuário. Vi esqueletos em desordem , arcarias de costelas em aranhando-se um as às outras, rosários de vértebras. No m onte lúgubre, um a caveira m e espiava e parecia zom bar de m im . Nunca m e viera à idéia sem elhante horror. Um acervo de porcarias. Difícil im aginá-las frações de pessoas, m isturadas, decom pondo-se num m onturo. O crânio avultava, para bem dizer adquiria feições, tinha vontade de falar. As m inhas m ãos se um edeceram , a vista se turvou. Zangava-m e por não conseguir afastar-m e, correr na relva com os garotos, ver, de espírito leve, os pássaros, as roseiras do velho Sim eão. Preso ao depósito sinistro, um nó a apertar-m e as goelas, senti desej o de chorar. Sentim ento diverso do que m e assaltava quando ouvia histórias de casas m al-assom bradas. O desespero m e paralisava. Asco, a sensação de m e achar caído num a estrum eira, sem poder lim par-m e, e a certeza de haver em qualquer parte irrem ediável estrago. Aquilo era feio e triste. E a feiúra e a tristeza se anim avam , arreganhavam dentes fortes e queriam m order-m e. Engano: indiferença, im obilidade. A im obilidade e a indiferença m e atraíam . Tentei invocar as alm as penadas, os diabos que se agitam nas cham as eternas. Essas criaturas m e inspiravam piedade ou terror.

Diante das carcaças nuas, era im possível com over-m e. Loucura supor que m angassem de m im .

Longam ente estive a contem plar as ruínas, ignoro com o e quando m e retirei. Decerto os colegas foram buscar-m e. Não m e recordo.

Entrei em casa m ergulhado num a som bra espessa. À m esa, repeli a com ida. Meus parentes não perceberam o fastio, deixaram -m e só, os cotovelos

[pág. 182]

[pág. 183] im agem

[pág. 184] página em branco sobre a tábua, reparando nas laranj eiras da vizinhança. Anoiteceu, um negrum e tingiu a folhagem , não trouxeram luz, os pequenos se recolheram . Deitei-m e num banco, as j untas estalaram . A escuridão cresceu. Fechei os olhos. Mexi os dedos, procurei as falanges, apalpei os braços, o tronco, o pescoço. Tateei o couro cabeludo, forcej ando por descobrir lá em baixo as suturas e as saliências.

Toquei as m axilas e os zigom as. Contornei as órbitas, esfreguei as pálpebras: o globo se deslocava devagar. Im undície. As pálpebras e o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. Só o esqueleto resistiria. Ossos. Aquela m iséria segurava-se a m im , e não havia j eito de elim iná-la. Um a caveira m e acom panharia por toda a parte, estaria com igo na cam a, nas horas de brinquedo, nos desalentos, curvar-se-ia sobre páginas enfadonhas e agüentaria cocorotes. Ia encher-se de noções e de sonhos, esvaziar-se, descansar num ossuário, ao sol, à chuva, m ostrar os dentes às crianças. Acabar-m e-ia assim . Não interrom pia o exam e das órbitas, e as cavidades horríveis se alargavam e aprofundavam , sem elhantes aos dois buracos que m e haviam observado no cem itério. Os m oleques pairavam na cozinha, certam ente sentados no- pilão, aquecendo-se ao fogo, em bebendo-se em m aravilhas extraterrenas. Em m om entos ordinários teria ido entender-m e com eles, afrontar duendes e gigantes ferozes. Ali deitado no banco, não m e vinha a necessidade de com unicar-m e, fortalecer-m e na com panhia dos negrinhos. Os duendes e os gigantes eram só palavras, os inim igos indeterm inados que vivem na treva se dispersaram . Intentei recordar-m e deles, assustar-m e. Debalde. Lá fora cantavam grilos, o vento zum bia nos ram os das laranj eiras e na cerca de pau-a-pique, [pág. 185] vaga-lum es e baratas com eçavam a m anifestar-se, os m oleques cochichavam . Apenas. E cá dentro —

um feixe de ossos. Apenas. A carne se eriçava, o sangue badalava na artéria.

Isso tudo seria gasto pelos verm es. A im agem horrorosa se obstinava. As im agens tam bém seriam gastas pelos verm es. Então para que m e fatigar, rezar, ir à loj a e à escola, receber castigos da m estra, escaldar os m iolos na som a e na dim inuição? Para que, se os m iolos iam derreter-se, abandonar a caixa inútil1? O

que m ais m e im pressionava eram as órbitas: a pesquisa m inuciosa prosseguia e achava-as desertas. Ocas e som brias, com o as outras. E o resto1? Não havia resto. Ali não havia nada. Aqui não haveria nada. O velho Sim eão habituara-se a dorm ir à luz dos fogos-fátuos, que j á não eram am antes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se, entre as sepulturas. Libertara-se de crenças, fugira ao sobrenatural. E resignava-se. Eu não podia resignar-m e. As alm as do outro m undo e os lobisom ens adquiriam m uito valor, faziam -m e falta.

Estas letras m e pareceriam naquele tem po confusas e pedantes. Mas o artifício da com posição não exclui a substância do fato. Esforcei-m e por destrinçar as coisas inom ináveis existentes no m eu espírito infantil, num a balbúrdia. É por terem sido inom ináveis que agora se apresentam duvidosas.

Afinal não m e surgiam dificuldades. Haviam -m e exposto várias lendas. Vencida a resistência inicial, pusera-m e a confirm á-las. Negava-as de repente em globo, sem análises. Não m e em baraçava em dúvidas. Tinha dito sim; entrava a dizer não: um a caveira m otivava o desm oronam ento.

Não pretendo insinuar, porém , que m e haj a encerrado no ateísm o, diferençando-m e dos m eninos [pág. 186] vulgares. Nem sequer pensei em Deus.

O que m e inquietava eram as alm as. E a m inha não m orreu de todo. Aquele enorm e desengano passou. Os fantasm as voltaram , abrandaram -m e a solidão.

Sum iram -se pouco a pouco e foram substituídos por outros fantasm as. [pág.

187]

Um novo professor

IRARAM-ME da escola da m estiça, puseram -m e na de um m estiço, não porque esta se avantaj asse àquela, m as porque m inha fam ília se m udou T para a Rua da Matriz, e D. Maria do O, no Juazeiro, ficava longe, graças a Deus. O novo m estre funcionava no Largo do Com ércio, num a casa de j ardim com duas ou três palm eiras.

Um irm ão dele, claro e sim pático, certo dia m e apareceu zangado no arm azém de Seu Costa, sentou-se num fardo de algodão, abriu um j ornal, fechou-o, encarou-m e e rugiu:

— Tenho o m eu lugar definido na sociedade.

Não o contrariei. Adm irava-lhe a caligrafia, os discursos na Loj a Maçônica e a linguagem nas conversas. Desej aria falar tão facilm ente, rir com o ele. Mas naquela hora o hom em não queria falar nem rir. Bêbedo, espum ava, recordando algum a ofensa:

— Tenho o m eu lugar definido. [pág. 188]

Provavelm ente alguém o m olestara, alguém que não recebera a resposta adequada e ali, na perturbação da em briaguez, se confundia com igo.

— Sem dúvida.

O suj eito desdenhou a confirm ação: bateu na coxa e m artelou, reim oso, disposto a luta, babando-se:

— Tenho o m eu lugar definido.

Mas isso foi m uito depois de eu entrar na escola do irm ão. Este não tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, não tinha lugar definido na espécie hum ana: era um tipo m esquinho, de voz fina, m odos am bíguos, e passava os dias alisando o pixaim com um a escova de cabelos duros. Azeite e banha não dom avam a carapinha — e o dono teim ava, esfregava-a constantem ente, m irando-se num espelho, nam orando-se, m ordendo a ponta da língua. Era feio, quase negro — e a feiúra e o pretum e o afligiam . Porque tinha senso de beleza, m as procurava-a loucam ente no seu corpo m ofino. Friccionava-se, em poava-se, arrebicava-se, exam inava-se no vidro, entortando os bugalhos estriados de verm elho.

Eu perm anecia nas histórias enigm áticas do Barão de Macaúbas.

Soletrava m entalm ente, sabendo que não conseguiria dizer alto as frases arranj adas no interior. E cabeceava na ardósia, sobre os algarism os de som as e dim inuições lentas. Mas a atenção se desviava dali, buscava a j anela, que m e exibia cabeças de transeuntes, m uros, telhados, as palm eiras grávidas abanando-se. Inquietava-m e o espelho, onde se refletia a pacholice do m ulato. Bom que o pó-de-arroz se fixasse na pele azinhavrada, o óleo assentasse no crânio m iúdo os pêlos rebeldes. [pág. 189]

Quando isso acontecia, o professor deixava a sala, ia apresentar-se às irm ãs, saracoteando-se, lançando guinchinhos de quem sente cócegas. Voltava ilum inado, um sorriso infantil boiando-lhe nos beiços grossos. Abancava, observava os dedos, as unhas enfeitadas de m anchas brancas, m etia-se num sonho dengoso. Estrem ecia, despertava, olhava as quatro paredes, soltava um largo suspiro. Em seguida, ronceiro, com o se levantasse grande peso, tom ava as nossas escritas, corria por elas a vista baça e distante, j ulgava-as atirando-lhes núm eros convencionais. Com um gesto lânguido, cham ava-nos à lição, que decorria sonolenta e m orna.

Aproveitava-m e desses instantes para saltar linhas, engolir períodos, subtrair páginas inteiras. No com eço aventurava-m e receoso a tais contravenções, j ogando ao pardavasco olhadelas tím idas e culposas. Vendo-o tranqüilo, escorregava de novo na prosa desenxabida, anim ava-m e a outro pulo, fantasiava em sossego um livro diferente, sem explicações confusas, sem lengalengas cheias de m oral. Um a interj eição m e puxava à realidade, esfriava-m e o sangue; a falta se revelava, erguia-m e o rosto alarm ado. Nenhum castigo.

O professor andava no m undo da lua, as pálpebras m eio cerradas, m exendo-se devagar na cadeira, com o sonâm bulo. Não se espantara, não se indignara: a exclam ação traduzia algum sentim ento nebuloso, estranho à leitura. Findo o susto, considerava-m e isolado, continuava nas infrações sem nenhum a vergonha.

Às vezes, porém , o espelho nos anunciava borrasca. O desgraçado não se achava liso e alvacento, azedava-se, repentina aspereza substituía a doçura com um . Arriava na cadeira, agitava-se, parecia m ordido de pulgas. Tudo lhe cheirava m al. Segurava [pág. 190] a palm atória com o se quisesse derrubar com ela o m undo. E nós, m eia dúzia de alunos, trem íam os da cólera m aciça, tentávam os esconder-nos uns por detrás dos outros. Daríam os os nossos cabelos, trocaríam os as nossas figuras por aquela m iséria que se acabrunhava j unto à m esa. Por que se aperreava tanto? Insignificâncias. Eu dizia com igo que o professor, com o o irm ão, poderia recitar discursos brilhantes e crescer. Tornar-se um hom em .

O infeliz não pretendia ser hom em . E ali estava, sucum bido, enxofrado, ressum ando peçonha. Os olhos ensangüentavam -se, os dentes rangiam . E

consertava-nos furiosam ente a pronúncia, obediente a vírgulas e pontos, forçava-nos a repetir um a frase dez vezes, punha notas baixas nas escritas, rasgando o papel, farej ava as contas até que o erro surgia e se publicava com estridência arrepiada. Nesse policiam ento súbito acuávam os — e as folhas virgens endureciam .

Desalentava-m e no banco, os m iolos a arder, zonzo. Quando se acabaria aquele horrível estrupício? Evidentem ente não se acabaria: precisava habituar-m e a ele, gostar da insipidez. Voltava à obrigação, reduzida por bocej os e cochilos.

Felizm ente a exigência durava pouco. O suj eito m elindroso enxergava no vidro um a cara atraente, alvoroçava-se, deixava-m e em paz. As com plicações do livro adelgaçavam , perdiam -se, enquanto o m eu espírito vagaroso andava longe, pezunhando nos atoleiros que se espalhavam na cidade. Ia à estação da estrada de ferro, apreciava locom otivas, fum aça, apitos, vagões, passageiros e carregadores, trilhos, dorm entes, rapaduras de carvão; detinha-se no m ercado, que aos sábados se povoava de m atutos ruidosos; visitava loj as, arm azéns, a

[pág. 191] agência do correio; subia e descia ladeiras, passeava nos m ontes verdes, nas m argens do rio largo e pedregoso. Assim divagando, sapequei o resto das histórias espessas, surdo aos conselhos que havia nelas. Nem m e inteirava da existência dos conselhos.

Despedi-m e enfim do Barão de Macaúbas, larguei a cartonagem , respirei.

Mas a satisfação foi rápida: m eteram -m e noutra escola ruim e adquiri um a seleta clássica. [pág. 192]

Um intervalo

EU Nuno quis transform ar-m e em aj udante de m issa, e isto m e atraiu, deixei-m e sugestionar, em bora ignorando que esforços a novidade S exigiria de m im . De fato o catecism o não m e inspirava sim patia, m as a aritm ética e a seleta clássica eram piores — e im aginei, com a preferência, libertar-m e delas. É possível que m uitas vocações com ecem desse j eito.

Meu pai confiou-m e a Seu Nuno, proprietário, dono de loj a de fazendas e padaria, senhor de longas barbas respeitáveis, devoto, de um a devoção alegre e ruidosa, que m anifestava tocando violino em festas. Possuía tam bém a prenda de cortar vidro com diam ante e alicate, econom izando os retalhos, que utilizava cobrindo santinhos espichados em m olduras de espelhos. Ofereceu-m e várias dessas preciosidades; m andei-as benzer e com elas enfeitei um a parede do m eu quarto.

Assim m e edifiquei, a princípio m oderadam ente, depois excessivo e entusiasm ado. Afeiçoei-m e [pág. 193] aos toques de sino, ao cheiro de incenso, decorei as frases do ritual, e, de casa para a loj a, da loj a para casa, ao passar diante da igrej a, tirava o chapéu, rezava um padre-nosso e um a ave-m aria.

Nesse tem po a m inha grande am bição foi dedicar-m e inteiram ente ao serviço de Deus e entrar no sem inário. Não entrei, m as andei perto. Guardadas na m em ória as palavras exóticas, recebi o favor que, em orações, à noite, aj oelhado no tij olo, pedi ao céu: um a batina de casim ira e um roquete de linho com renda larga. Enverguei esses traj es, orgulhoso, e, branco da barriga para cim a, o resto negro, com pareci um dom ingo na sacristia, disposto a colaborar no santo sacrifício. Im itei os gestos do m eu com panheiro, um form igão abalizado, m as desem penhei-m e de m aneira triste. Certam ente era com oção da estréia, afirm ou Seu Nuno. E encheu-m e de recom endações, ensinou-m e com pachorra os m ovim entos necessários ao ato.

Não era com oção, era incapacidade. A segunda experiência foi igual à prim eira: arriei num degrau do altar, engrolei desatento a m inha parte, baralhando as respostas, calando-m e. E assim continuei. Adiantava-m e, atrasava-m e, escorregava no tapete, confundia a epístola com o evangelho, não segurava direito o m issal, nos m om entos m ais sérios distraía-m e olhando os vitrais. No m anej o das galhetas fui tão inábil que retrogradei. Cassaram -m e funções, nem o turíbulo m e deixaram , porque não consegui alongar ou encurtar as correntes, e nas m inhas m ãos o obj eto, em vez de lançar fum aça, lançava cinza. Afinal tudo se transferiu para o outro acólito, e resignei-m e a calej ar os j oelhos, equilibrando-m e ora na rótula direita, ora na esquerda, indiferente à cerim ônia, resm ungando sílabas [pág. 194] insensatas, esquecendo-m e de esm urrar o peito e concentrar-m e na elevação.

No com eço Padre Loureiro tentou corrigir-m e. Desanim ou e im pacientou-se: eu queria auxiliá-lo quando se desparam entava — e ele franzia o nariz, fungava, espiava-m e por cim a dos óculos, balançava a cabeça, dispensava-m e, reclam ava a perícia do Moreira sacristão. E a m inha fé pouco a pouco arrefeceu: a liturgia encrencada afastou da igrej a um m inistro.

Findara o tem po dos eclesiásticos soltos, num erosos no século passado.

Entravam no rigor. Padre João Inácio e Padre Loureiro viviam com feias e honestas parentas idosas. Em conseqüência, esm orecim ento, deserções.

Fazendeiros, senhores de engenho e negociantes m etiam os filhos em colégios leigos, form avam -nos em academ ias liberais. Ou largavam -nos na bagaceira, se a rudeza era grande, prendiam -nos ao balcão.

Pois, com tanta falta de pessoal, os m eus bons desej os foram desprezados.

Espacei e abreviei as penitências; as flores que m e ornavam as im agens pequenas desbotaram , m urcharam e caíram . Um dia, no quintal, descobri um a de m inhas irm ãs vestida na batina, m ascarada, fazendo carnaval. Indignei-m e, depois encolhi os om bros, insensível à profanação. A batina envelhecia, desfiava-se nos bolsos e nas extrem idades, cobria-se de nódoas. Esfarrapou-se nos brinquedos — e esquecia-a.

Im pressionaram -m e nessa época, além de m issas, confissões, batizados e casórios, as visitas a Seu Nuno, durante a aprendizagem . Fam iliarizei-m e: findo o acanham ento, entrava sem pedir licença, com o se a casa fosse m inha. Gente agradável: a velha m iúda, as m oças risonhas e tranqüilas, que [pág. 195] se m oviam com o peças de m áquina vagarosa, o rapaz ordenado de fresco.

Padre Pim ental era um a santa criatura e insinuou-m e alguns conhecim entos, os prim eiros que aceitei com prazer. Narrou-m e a viagem de Abraão, a vida nas tendas, a chegada à Palestina. Usava linguagem sim ples, com parações que atualizavam os acontecim entos. Não hesitei, ouvindo a m udança de hom ens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldéia no interior de Pernam buco. E Canaã, terra de leite e m el, aproxim ava-se dos engenhos e da cana-de-açúcar. Mantive essa localização arbitrária, útil à verossim ilhança do enredo, espalhei seixos, m andacarus e xiquexiques no deserto sírio, e isto não desapareceu inteiram ente quando os m apas vieram .

Padre Pim entel adm itia dúvidas e aclarava os pontos obscuros. Realm ente não explicou direito o holocausto goro de Isaac e disfarçou, para evitar-m e transtorno, o procedim ento das filhas de Lot, m as os outros casos se desenrolaram fáceis e naturais. Jacob brigou com Esaú por causa de herança, coisa vulgar entre pessoas ricas, fugiu, foi protegido e enganado por um tio, tom ou-lhe um rebanho e casou com duas m ulheres. Um a delas tinha olhos de sapiranga. A poligam ia, o furto e as safadezas não m e espantavam . Onze m alvados se desem baraçaram de um irm ão.

Até aí, tudo razoável. Em seguida enxerguei na história certo exagero.

Moisés era um grande chefe, m as teria vencido os egípcios, atravessado o m ar a pé enxuto, recebido alim ento do céu, tirado água das pedras, visto Deus? Pedi confirm ação. Havia prova de que o Judeu realizara tantos m ilagres? [pág. 196]

Padre Pim entel não se enfadava. Claro que tinha realizado.

Ia refugiar-m e, zonzo, na com panhia das m oças. Conversavam dem ais.

Discutiam , graves, um corte de vestido, parando em cada prega, analisando fitas e botões, discordavam , criticavam -se, enfim se com binavam . O que m e surpreendia nelas era a ausência de pressa. Um a estava noiva, quase noiva.

Adiava-se a resolução — e na sala de j antar havia sobre o assunto vivas cavaqueiras, em que todas pareciam ter igual interesse. Som avam as conveniências, as inconveniências, e isto às vezes favorecia o pretendente, outras vezes o desfavorecia. Enquanto buscavam decisão, iam preparando o enxoval. Fora dada um a anuência tácita, m as os debates prosseguiam , com o arranj o das fronhas e dos lençóis. Mediam tudo, pesavam tudo, para não surgirem decepções.

Essas m oças tinham o vezo de afirm ar o contrário do que desej avam . Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o m eu paletó cor de m acaco.

Exam inavam -no sérias, achavam o pano e os aviam entos de qualidade superior, o feitio adm irável. Envaideci-m e: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram , trouxeram -m e desconfiança. Percebi afinal que elas zom bavam , e não m e susceptibilizei. Longe disso: j ulguei curiosa aquela m aneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que m e habituara. Em geral m e diziam com franqueza que a roupa não m e assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidentes, e eu considerava estupidez virem indicá-los. Dissim ulavam -se agora num j ogo de palavras que encerrava m alícia e bondade. Essa m istura de sentim entos incom patíveis assom brava-m e [pág. 197] — e pela prim eira vez ri de m im m esm o. A doçura picante não m e reform ava, é claro, m as exibia-m e com o eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate m e houvessem dado os recursos indispensáveis. Satisfazia-m e a idéia de que a m inha figura não provocava inevitavelm ente irritação ou desdém , e as novas am igas surgiram -m e com preensivas e caridosas.

Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conform ado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das m inhas ações cor de m acaco. Paciência, tinham de ser assim . Ainda hoj e, se fingem tolerar-m e um rom ance, observo-lhe cuidadoso as m angas, as costuras, e vej o-o com o ele é realm ente: chinfrim e cor de m acaco. [pág.

198]

Os astrônom os

os nove anos, eu era quase analfabeto. E achava-m e inferior aos Mota Lim a, nossos vizinhos, m uito inferior, construído de m aneira diversa.

A Esses garotos, felizes, para m im eram perfeitos: andavam lim pos, riam alto, freqüentavam escola decente e possuíam m áquinas que rodavam na calçada com o trens. Eu vestia roupas ordinárias, usava tam ancos, enlam eava-m e no quintal, engenhando bonecos de barro, falava pouco.

Na m inha escola de ponta de rua, alguns desgraçadinhos cochilavam em bancos estreitos e sem encosto, que às vezes se raspavam e lavavam . Nesses dias nós nos sentávam os na m adeira m olhada. A professora tinha m ãe e filha. A m ãe, caduca, fazia renda, batendo os bilros, com a alm ofada entre as pernas. A filha, m ulata sarará enj oada e enxerida, nos ensinava as lições, m as ensinava de tal form a que percebem os nela tanta ignorância com o em nós. Perto da m esa havia um a esteira, [pág. 199] onde as m ulheres se agachavam , cortavam panos e cosiam .

D. Agnelina rezingava com a filha por questões de nam oro e, em caso de necessidade, adm inistrava-lhe corretivos. Um a vez discutiram a respeito da palavra auréola, que surgiu na m inha seleta. A m oça acertou, m as D. Agnelina, debruando um vestido, j ulgou auréola equivalente a debrum , estirou o beiço e, depois de hesitar, m isturando baixinho auréola com ourela recom endou-m e que, para evitar dúvidas, dissesse aureóla.

O lugar de estudo era isso. Os alunos se im obilizavam nos bancos: cinco horas de suplício, um a crucificação. Certo dia vi m oscas na cara de um , roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se m exer, com o se o m enino estivesse m orto. Não há prisão pior que um a escola prim ária do interior. A im obilidade e a insensibilidade m e aterraram . Abandonei os cadernos e as auréolas, não deixei que as m oscas m e com essem . Assim , aos nove anos ainda não sabia ler.

Ora, um a noite, depois do café, m eu pai m e m andou buscar um livro que deixara na cabeceira da cam a. Novidade: m eu velho nunca se dirigia a m im . E

eu, engolido o café, beij ava-lhe a m ão, porque isto era praxe, m ergulhava na rede e adorm ecia. Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnância o antipático obj eto e voltei à sala de j antar. Aí recebi ordem para m e sentar e abrir o volum e. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de que um a visita m e interrom pesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.

Meu pai determ inou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguej ando, gem endo um a cantilena m edonha, indiferente [pág.

200] à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-m e na gem edeira, com o um carro em estrada cheia de buracos.

Com certeza o negociante recebera algum a dívida perdida: no m eio do capítulo pôs-se a conversar com igo, perguntou-m e se eu estava com preendendo o que lia. Explicou-m e que se tratava de um a história, um rom ance, exigiu atenção e resum iu a parte j á lida. Um casal com filhos andava num a floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de m uito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era?

Traduziu-m e em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Anim ei-m e a parolar. Sim , realm ente havia algum a coisa no livro, m as era difícil conhecer tudo.

Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-m e às vezes a inquirir. E um a luzinha quase im perceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do m eu espírito.

Recolhi-m e preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram -m e o sono. Dorm i com eles, acordei com eles. As horas voaram . Alheio à escola, aos brinquedos de m inhas irm ãs, à tagarelice dos m oleques, vivi com essas criaturas de sonho, incom pletas e m isteriosas.

À noite m eu pai m e pediu novam ente o volum e, e a cena da véspera se reproduziu: leitura em perrada, m al-entendidos, explicações.

Na terceira noite fui buscar o livro espontaneam ente, m as o velho estava som brio e silencioso. [pág. 201]

E no dia seguinte, quando m e preparei para m oer a narrativa, afastou-m e com um gesto, carrancudo. Nunca experim entei decepção tão grande. Era com o se tivesse descoberto um a coisa m uito preciosa e de repente a m aravilha se quebrasse. E o hom em que a reduziu a cacos, depois de m e haver aj udado a encontrá-la, não im aginou a m inha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida um a longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas dem ais para m im e não podiam durar.

Findas, porém , as m anifestações secretas de m ágoa, refleti, achei que o m al tinha rem édio e expliquei o negócio a Em ília, m inha excelente prim a. O

rosto sereno, largos olhos pretos, um ar de seriedade — linda m oça. A irm ã, brincalhona e rabugenta, ora pelos pés, ora pela cabeça, ria com o doida e logo explodia em acessos de cólera. Mas Em ília não era deste m undo. Só se zangou com igo um a vez, no dia em que, tuberculosa, m e viu beber água no copo dela.

Um anj o.

Confessei, pois, a Em ília o m eu desgosto e propus-lhe que m e dirigisse a leitura. Esforcei-m e por interessá-la contando-lhe a escuridão na m ata, os lobos, os m eninos apavorados, a conversa em casa do lenhador, o aparecim ento de um a suj eita que se cham ava Águeda.

Passado algum tem po, essa Águeda m e serviu m uito. Eusébio doido pegou o volum e na loj a, entrou a declam á-lo e, topando o nom e da personagem , pronunciou Aguéda. Isto m e deu satisfação: apesar de m aduro, Eusébio doido era m ais atrasado que eu.

Quando falei a Em ília, porém , ignorava que houvesse pessoas tão rudes quanto Eusébio e adm itia [pág. 202] facilm ente as aureólas da professora. Em conform idade com a opinião de m inha m ãe, considerava-m e um a besta. Assim , era necessário que a prim inha lesse com igo o rom ance e m e auxiliasse na decifração dele.

Em ília respondeu com um a pergunta que m e espantou. Por que não m e arriscava a tentar a leitura sozinho?

Longam ente lhe expus a m inha fraqueza m ental, a im possibilidade de com preender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se j untavam . Se eu fosse com o os outros, bem ; m as era bruto em dem asia, todos m e achavam bruto em dem asia.

Em ília com bateu a m inha convicção, falou-m e dos astrônom os, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde m oram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônom os conheciam perfeitam ente. Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, porque não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos m eus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e form ar palavras?

Matutei na lem brança de Em ília. Eu, os astrônom os, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia de supor?

E tom ei coragem , fui esconder-m e no quintal, com os lobos, o hom em , a m ulher, os pequenos, a tem pestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas j á percorridas. E as partes que se esclareciam derram avam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens dim inutas cresciam , vagarosam ente

[pág. 203] m e penetravam a inteligência espessa. Vagarosam ente.

Os astrônom os eram form idáveis. Eu, pobre de m im , não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-m e-ia com histórias tristes, em que há hom ens perseguidos, m ulheres e crianças abandonadas, escuridão e anim ais ferozes. [pág. 204]

Sam uel Sm iles

U tinha visto esse nom e várias vezes na seleta, m as, com o não sabia pronunciá-lo, acostum ei-m e a tossir no fim das lições em que ele E aparecia subscrevendo m edonhas trapalhadas. Deviam ser regras im portantes, im aginei, regras úteis se m e entrassem na cabeça; m as naquele tem po não adivinhei o que Sam uel Sm iles exigia de m im . Aborrecendo-o, respeitei-o dem ais, por não perceber o que ele dizia e até por ignorar com o se cham ava.

Esse caso rendeu-m e decepções e algum proveito. Cantarolei bocej ando os nebulosos conselhos. A professora m e corrigia. Quando, porém , eu engrolava, tossindo, o nom e do autor, faltava a em enda — e em conseqüência presum i que, pelo m enos nesse ponto, a rudeza da m ulher coincidia com a m inha. Certifiquei-m e disso deixando de tossir e pronunciando Sm iles de várias m aneiras, sem que D. Agnelina m e repreendesse. [pág. 205]

Afinal percebi nela um procedim ento esquisito: antes que eu largasse barbaram ente a extraordinária palavra, fechava o livro e desconversava. Nasceu daí um a espécie de cum plicidade, que a tornou razoável durante m eses. Em aritm ética eu era um selvagem , pouco m ais ou m enos um selvagem , m as fui tolerado, e creio que devo isto a Sam uel Sm iles.

Essa professora atrasada possuía raro talento para narrar histórias de Trancoso. Visitava-nos, prendia-nos até m eia-noite com lendas e rom ances, que estirava e coloria adm iravelm ente. Nada m e ensinou, m as transm itiu-m e afeição às m entiras im pressas.

Talvez a prenda notável de D. Agnelina tenha induzido m eu pai a afastar-m e do m au cam inho, confiar-m e ao Professor Rij o, aposentado, rábula distinto.

Éram os apenas dois alunos, eu e m eu prim o José, um pouco m ais bruto que eu.

Na ausência do m estre, bocej ávam os, olhávam os as andorinhas no céu, as lagartixas brancas na parede e os lom bos tem erosos dos livros nas estantes. O

hom em aparecia de salto, tom ava as nossas lições rapidam ente, encoivarava algum as perguntas e dava logo as respostas, sem esperar que acertássem os ou errássem os.

Aí m e caiu a leitura de um a das m açadas de Sam uel Sm ailes. Tossi e resm unguei a segunda palavra enchendo a boca de língua. O professor interrom peu-m e, separando as sílabas com bastante clareza: Sam uel Sm ailes.

Arregalei o olho, o suj eito repetiu: Sm ailes. Balbuciei o nom e encrencado sem nenhum a segurança. Im aginei um engano: tinha por erro o que divergia da m inha m aneira habitual de falar. Realm ente pronunciara Sm iles [pág. 206] de vários m odos, m as supunha que alguns deles estivesse direito. Julguei o professor um a besta — e m eu prim o José concordou.

Finda, porém , essa m anifestação de rebeldia, chegaram -m e dúvidas, grande espanto em seguida, por fim m istura vaga de resistência e adm iração àquele hom em que alterava as letras. A firm eza séria m e deu a suspeita de que m e achava na presença de um a autoridade. E com o não m e seria possível discernir razões profundas, contentei-m e com as aparências — e a suspeita se transform ou em convicção.

Eu afirm ava com facilidade. Lera um rom ance e conseguira entendê-lo.

Entendera pedaços, que o m eu vocabulário era insignificante. Pois j ulguei-o, seguro, o m aior rom ance do m undo. Depois a certeza se abalou, assaltaram -m e vacilações dolorosas.

O professor não podia com parar-se aos viventes com uns. Grave, o dedo na página, articulara: Sm ailes. Nas lições seguintes percebi que ele não se contradizia. Com ecei então a adm irá-lo. Procurei outras palavras em que o i se pronunciasse daquele j eito. Inutilm ente. Apesar de tudo Sm iles era Sm ailes, e ninguém m e tirava daí.

Ora, um dia, na loj a, achava-m e rem oendo um j ornal em voz alta, só para m e fam iliarizar com a literatura, sem notar que m e escutavam . De repente o m eu conhecido avultou no papel. Tem perei a goela e exclam ei: Sam uel Sm ailes. Um dos caixeiros censurou-m e a ignorância e corrigiu: Sam uel Sím iles. Outro caixeiro hesitou entre Sím iles e Sim íles. Repeti que era Sm ailes, e isto produziu hilaridade.

O m oço que dizia Sim íles costum ava zom bar de m im com barulho.

Qualquer dito m eu o excitava: [pág. 207] m ordia os beiços, averm elhava-se com o um peru, lacrim ej ava, enfim não se continha, caía num riso convulso, rolava sobre o balcão, m eio sufocado. Certam ente eu era ridículo: algum a tolice provocara a m anifestação ruidosa. Que tolice? Não a enxergava. Inteligência curta.

O em pregado que dizia Sim íles, m ulato vaidoso e seco, nunca m e olhava de frente. Quando eu lhe falava, virava-se para outro lado e rosnava ofensas em linguagem escolhida.

Entre os indivíduos que freqüentavam a loj a, havia um particularm ente desagradável: Fernando. Esse m onstro sentia prazer em m artirizar-m e. Grosseiro dem ais, insultava-m e sem precisão.

Eu tinha o j uízo fraco e em vão tentava em endar-m e: provocava risos, m uxoxos, palavrões. Encolhia-m e, esfriava, a vista escurecia. Calava-m e na presença desses entes ruins, escapulia-m e com o um rato, m as não conseguia livrar-m e. Sentava-m e num canto, em silêncio, folheando o dicionário para interpretar o rom ance de capa e espada, e eles se chegavam , pouco a pouco tom avam conta de m im , quase sem pre referindo-se a vagos disparates m eus.

Algum as vezes busquei desem baraçar-m e reproduzindo m olem ente, com as orelhas pegando fogo, os insultos de Fernando. Sem pre m e dei m al: as risadas cresciam , os m uxoxos engrossavam , Fernando se tornava m ais feroz. Inútil reagir.

Naquele dia, porém , quando o m ulato m e replicou duram ente, j urei que ele estava errado. O tipo branco foi-se averm elhando, acabou explodindo na risada ordinária. Asseverei de novo que Sam uel era Sm ailes, perfeitam ente Sm ailes, m as falei bam bo, m uito infeliz e com vontade de chorar. O [pág. 208]

rapaz continuava a rir, o m ulato resm ungava e franzia as ventas, Fernando m e inj uriava.

Diante disso, invoquei a autoridade do professor, que devia conhecer bem Sam uel Sm iles. O professor dizia Sm ailes. Mentira, gritou Fernando —

inj ustiça, pois eu não sabia m entir.

Cobriram -m e de m otej os e resolveram adotar a opinião do m ulato: Sam uel Sím iles. Arriei, vencido.

Mas sosseguei. Aquela vaia não m e alcançava: feria um a pessoa sabida.

Achei apoio, indaguei se as bobagens que a trinca m aliciosa m e atribuía eram bobagens. Cresci um pouco, esteado no hom em que só m e ensinou o nom e de Sam uel Sm iles, e ensinou m uito. Sentado num caixão, o dicionário nas pernas, ri-m e dos três. Idiotas.

Eu era m eio parvo, todos se im pacientavam com a m inha falta de espírito.

Rude, sem dúvida. Vocabulário m esquinho, entendim ento escasso.

Mas Sam uel Sm iles im punha-se facilm ente. Era Sm ailes porque a voz do professor m e chegava clara, porque a unha am arela do professor riscava a página com energia. Sam uel Sm ailes, pois não.

E as pilhérias dos suj eitos resvalaram por m im sem fazer m ossa. O

coração aliviou. Isolei-m e, o rosto m etido no dicionário. Im becis. Tinham decidido por m aioria que Sam uel era Sím iles.

Pus-m e a ler baixo, inteiram ente desanuviado. Im becis. Sam uel Sm ailes, com certeza. E enrosquei-m e, em brenhei-m e no dicionário, exim i-m e da influência dos três m alvados.

Sam uel Sm iles, escritor cacete, prestou-m e serviço im enso. [pág. 209]

O m enino da m ata e o seu cão Piloto

ESCOBRI um folheto de capa am arela e papel ordinário, cheio de letras m iúdas, as linhas j untas, tão j untas que para um olho inexperiente os D saltos e as repetições eram inevitáveis. Creio que isso m e apareceu depois do m eu acesso de religião. Deve ter sido por aí. Os santos que se penduravam nas paredes do m eu quarto cresciam dem ais. Dim inuíram e foram substituídos pelos seres que povoavam as histórias volum osas.

Hoj e tudo se em baralha, um a confusão. Talvez a necessidade de m istério e grandeza m e tenha levado a acreditar nos santos e nos heróis, que se desenvolveram sim ultaneam ente. Houve, porém , um desequilíbrio: os prim eiros subiram m uito, enquanto os segundos desciam ; em seguida os que estavam em baixo com eçaram a levantar-se, alcançaram os outros e ganharam a dianteira.

Essas coisas, lentas, quase insensíveis, passaram -se num espírito nebuloso. Para bem dizer, não havia tem po. Na som bra avultavam figuras lum inosas. Mas entre

[pág. 210] elas ficavam espaços vazios, que novas im agens vieram preencher.

Por que brigaram no m eu interior esses entes de sonho não sei. Julgo que foi por causa de um a proibição, terrível proibição, relativa à brochura de capa am arela. Alguém a deixou na loj a. Folheei-a devagar, soletrando, consultando o dicionário, sentado num caixão de velas. Os livros do estabelecim ento eram o razão, o diário, o caixa, outros que José Batista m anej ava. Entre as m ercadorias, porém , existia m eia dúzia de dicionários. Exam inei com algum proveito esses gêneros, que não achavam com prador. Tinham as bandeiras de todos os países (aí com ecei a m inha geografia) e retratos de figurões (origem da pouca história que sei). Meu pai m e perm itiu as consultas, pois a encadernação verm elha, as bandeiras e os retratos não representavam nenhum valor: era até bom que se estragassem , poupassem ao com erciante a lem brança de um m au negócio.

Mercadorias. A m im revelaram pedaços do folheto am arelo, que se cham ava O

Menino da Mata e o seu Cão Piloto.

Arranj ava-m e lentam ente, procurando as definições de quase todas as palavras, com o quem decifra um a língua desconhecida. O trabalho era penoso, m as a história m e prendia, talvez por tratar de um a criança abandonada. Sem pre tive inclinação para as crianças abandonadas. No princípio do rom ance longo achei garotos perdidos num a floresta, ouvindo gritos de lobos. As narrativas de D. Agnelina referiam -se a pequenos m altratados que se livravam de em baraços, às vezes venciam gigantes e bruxas.

Em casa m ostrei o achado a Em ília, descrevi o m enino, a m ata e o cachorro. Nenhum sinal de [pág. 211] aprovação. Em ília arregalou os olhos, atentou horrorizada no folheto, pegou-o com as pontas dos dedos, soltou-o, com o se ele estivesse suj o, aconselhou-m e a não o ler. Aquilo era pecado.

Aventurei-m e a discutir. Minha prim a se enganava: no conto havia um m enino e um cachorro excelentes. Recuou, m uito pálida, receosa de se contam inar, e virou o rosto. Pecado.

— Pecado por que, Em ília?

Porque o livro era excom ungado, escrito por um suj eito ruim , protestante, para enganar os tolos. Obj etei que o m enino e o cachorro procediam com o cristãos. Respondeu que o perigo estava aí: quando o diabo queria tentar as pessoas, sim ulava boa aparência, escondia os pés de pato e dava conselhos razoáveis. Depois m ostrava as unhas e o rabo, cheirava a enxofre, levava a gente para o inferno. Ignorante e novo, eu não sabia o que era certo ou errado, m as se o livro tinha procedência m á, boa coisa não podia ser. Afirm ei que ele não tinha m á procedência; Em ília espiou de longe as letras da capa, discordou, afastou-se cheia de repugnância.

Continuar: parte 3 de 4