Infância

Graciliano Ramos · Capítulo 2 de 2 · parte 4/4

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Infância

A letra D quer dizer — donzela amada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

E só m e aliviei quando o m onstro se ausentou, deixando um a lem brança deplorável. Enquanto os Mensageiros da Fé engatinhavam , Seu Ram iro, grau trinta ou m ais, lhes ensinou as regras necessárias, as pancadas do m artelo, os deveres de cada um . Findas as lições, espaçou as visitas, sum iu-se afinal. Meu pai em prestou-lhe cem m il-réis e perdeu-o de vista. Desiludiu-se, conteve im enso rancor. Certam ente os irm ãos deviam auxiliar-se, m as aquela [pág. 245]

m aneira de arrancar auxílio era safadeza. Calou-se, roendo a indignação. Foi por isso, creio, que repugnou os três pontinhos, as brochuras m isteriosas, ou triângulos, os com passos e o Suprem o Arquiteto do Universo. [pág. 246]

A criança infeliz

o colégio havia um aluno particularm ente desgraçado. Diziam que não prestava, em bora se recusassem de ordinário a especificar as suas N faltas, cochichadas com gestos de repugnância. À tarde, na hora de recreio que enchia de algazarra a calçada e a rua, afastavam -se dele, ostensivos, e se alguém transgredia essa dura norm a, arriscava-se a nivelar-se ao réprobo.

Acatávam os um a possível opinião da m aioria, apesar de nunca haverm os discutido o assunto: cada um supunha a condenação firm ada e receava com prom eter-se.

O rapaz avizinhava-se dos grupos, esboçava um sorriso cínico, ingeria-se nas conversas, debalde. Os m ais taludos afrontavam -no, olhavam -no com desprezo, cuspiam , voltavam -lhe as costas. Esse procedim ento nos fornecia um princípio de convicção; e com o a vítim a se resignava e baixava a cabeça, adm itíam os sem esforço a culpabilidade.

Não era só isso: atiravam -lhe palavras ásperas, rosnavam insultos. Fingia não percebê-los, diligenciava [pág. 247] abrandar as alm as oferecendo-nos indicações úteis, em geral aceitas com indiferença ou repelidas.

No com eço apenas as classes adiantadas se com portavam assim ; as atrasadas seguiram -lhes o exem plo; afinal o garoto se achou entre inim igos.

O m aior deles foi o diretor: isolou-o num a ponta de banco, transform ou-o em bicho de circo, espécie de Joaquina ou Jacob, dois gorilas que nos tinham m aravilhado. Inj usto em dem asia, sem pre lhe considerou o trabalho m al feito, responsabilizou-o por erros alheios, em m om entos de zanga não disfarçou o ódio.

— Olhem aquele sem -vergonha.

Com o destam patório, avivava a separação, estim ulava-nos os instintos m aus. Julgava-o perdido, sem dúvida, e em penhava-se em distanciá-lo dos com panheiros. Lem brava-nos a cada instante que a aproxim ação era nociva.

Longo tem po ficava a observá-lo, com o se procurasse m anchas na roupa, ausência de botões, e tinha um a horrível brandura felina, o bigode eriçava-se, a patinha curta erguia-se de m anso, a voz era um suave ronrom . A distância, poderíam os supor algum discurso am ável. De repente a m aciez vagarosa m iava:

— Descarado.

O pobre rato fingia-se im passível, escondia-se por detrás de um livro; perturbava-se ao cabo de m inutos, esm orecia, punha-se a trem er. Se estivéssem os analisando Cam ões ou catalogando os m ares da Europa, qualquer om issão j ustificaria a ofensa. Mas provocar um a pessoa daquele j eito, sem esclarecim ento, alvoroçava-nos. O ultraj e não se relacionava com as tarefas escolares, devia ligar-se [pág. 248] a fatos exteriores. Essa im precisão tom ava grande im portância: tratava-se de coisa séria, feia.

O diretor se levantava, um om bro alto, outro baixo:

— Sem -vergonha.

Os pêlos am eaçadores encrespavam -se, as m aneiras brandas eram substituídas por sacudidelas, todo aquele veludo se esgarçava e as garras apareciam , desviavam a folha que ocultava um rosto cheio de pavor. Em seguida trom paços, baques fofos no tij olo, arrastar de m em bros contusos, queixas lam urientas, soluços.

Às vezes o hom em se excedia: am arrava os braços do garoto com um a corda, espancava-o rij o, abria a porta, e a desesperada hum ilhação exibia-se aos transeuntes, fungava, tentava enxugar as lágrim as e assoar-se. O choro j untava-se ao catarro, pingava no paletó e na cam isa — e o pano m olhado tinha um cheiro nauseabundo, m istura de form iga e m ofo.

A palm atória figurava em nosso código. Nas sabatinas, questões difíceis percorriam as filas — e o aluno que as adivinhava punia os ignorantes. Os am igos da j ustiça batiam com vigor, dispostos a quebrar m unhecas; outros, com o eu, surdos ao conselho do m estre, encostavam de leve o instrum ento às palm as. Isto não nos trazia vexam e: foi costum e até que se usaram cartões relativos às notas boas. Desde então pagam os os nossos enganos com essa m oeda, chegam os a em prestá-la a colegas necessitados.

Im possível dá-la em troca daquele sofrim ento diverso dos sofrim entos ordinários. Ninguém se arriscaria a oferecer resgate. Assistíam os a um a pena estranha, infligida sem processo. A acusação [pág. 249] se desenvolvera em segredo. No decurso da tortura, o diretor rosnava, e pelo m over dos beiços percebíam os a inj úria m urm urada no recreio. Não havia defesa. Nenhum a interferência.

Livre dos torm entos, o pequeno regressava à ponta do banco, anulava-se, enquanto não o exigiam para recados, viagens ao correio e à bodega. Afinal se despoj aram de escrúpulos, m andaram -no auxiliar a fam ília no serviço dom éstico. Insensível, nem com preendia o aviltam ento: bom que o privassem do estudo e lhe recebessem os préstim os na cozinha. Solícito, esperava talvez escapar ao trato ríspido. Nunca lhe m anifestaram gratidão: em purravam -no, com o se ele tivesse o dever de rachar lenha e ir buscar a correspondência.

Em casa, o pai m artelava-o sem cessar, inventava suplícios: am ordaçava-o, punha-lhe as costas das m ãos sobre a m esa da sala de j antar, m alhava nas palm as, quase lhe triturava as falanges; prendia-lhe os rej eitos, pendurava-o num caibro, deixava-o de cabeça para baixo, com o carneiro em m atadouro.

Fatigando-se das inovações, recorria às sevícias habituais: m urros e açoites. O

irm ão presenciava as cenas aterrado, expandia-se em descrições torvas. E

durante sem anas o pobre repuxava as m angas, abotoava-se, endireitava a gola, para encobrir equim oses, sinais verm elhos, cinzentos, negros.

Apesar de tudo, a escola era um refúgio. Canseiras, adulações à m ulher e aos filhos do diretor, rendiam pelo m enos algum a indiferença. E isto convinha.

Se o rapaz, findas as obrigações, se aquietasse, facilm ente escaparia, anônim o e incolor. Não podia esconder-se. Precisava convívio, estava [pág. 250] sem pre ensaiando cam aradagens que se m alogravam .

Tipos de calças longas e buço tinham com ele um procedim ento singular: enviavam -lhe bilhetes, acenavam -lhe, segredavam -lhe em gíria m isteriosa. Esses escorregos não exprim iam dedicação. Evitavam -no em público, zangavam -se de chofre, perseguiam -no com ditos m ordazes.

Ele suportava a ingratidão e os rem oques, desvanecia-os depressa, ria m ostrando os dentes am arelos, que m e faziam pensar no gigante Adam astor. À

m inha entrada na escola, o suj eitinho m e surgira, de cotovelos fincados nas pernas, gaguej ando áspero e rouco:

Os olhos encovados e a postura

Medonha e má e a cor terrena e pálida.

A lem brança m otivara a associação. Era realm ente pálido e m edonho. Os olhos tinham um brilho seco, fixavam -se na gente com im pudência. Caretas deslocavam -lhe o queixo enorm e, quadrado. A pele úm ida e gordurosa roçava-nos — e isto era desagradável: usávam os cautela para fugir à um idade e à gordura, ao cheiro de form iga e m ofo. Parecia não lavar-se, causava noj o.

Coitado. Que valiam , diante daquela desgraça, cocorotes e puxões de orelhas, logo esquecidos? A com paração revelou que m e tratavam com benevolência. Infeliz.

Deixei-o no colégio, perdi-o de vista. E reencontrei-o m odificado. Ao iniciar-se no crim e, andaria talvez pelos quinze anos. Atirou num hom em a traição, hom iziou-se em casa do chefe político e foi absolvido pelo j úri. Realizou depois num erosas [pág.

251] façanhas; respeitaram -lhe a violência e a crueldade. Sapecou os preparatórios num liceu vagabundo. Na academ ia obteve aprovação am eaçando os exam inadores.

Bacharelou-se, fundou um j ornal. Com o o velho diretor, seu carrasco, fechara o estabelecim ento e curtia privações, deu-lhe um em prego m esquinho e vingou-se.

Caprichou no vestuário: desapareceram as nódoas, a form iga, o m ofo. E teve m uitas m ulheres. Foi em casa de um a que o assassinaram . Deitou-se na espreguiçadeira, adorm eceu. Um inim igo, no escuro da noite, crivou-o de punhaladas.

L a u r a

os onze anos experim entei grave desarranj o. Atravessando um a porta, choquei no batente, senti dor aguda. Exam inei-m e, supus que tinha no A peito dois tum ores. Nasceram -m e pêlos, em agreci — e nos banhos coletivos do Paraíba envergonhei-m e da nudez. Era com o se o m eu corpo se tivesse tornado im puro e feio de repente. Percebi nele vagas exigências, alarm ei-m e, pela prim eira vez m e com parei aos hom ens que se lavavam no rio.

Desej ei avisar a fam ília, consultar o Dr. Mota, cair de cam a. Achava-m e.

porém , num a grande perplexidade. Nunca usara franqueza com m eus parentes: não m e consentiam expansões. Agora a tim idez se exagerava, o caso m e parecia inconfessável. E se m e atrevesse a falar ao Dr. Mota, ele iria dizer que o m al não tinha cura.

Refleti, afirm ei que não estava doente; nem precisava deitar-m e. Era ruim deitar-m e. Na loj a, no colégio, na agência do correio, distraía-m e; à noite [pág.

253] ficava horas pensando m aluqueiras, rolava no colchão, contava as pancadas do relógio da sala, buscava o sono debalde. Levantava-m e, acendia a lâm pada de querosene, pegava um rom ance, estirava-m e na rede, lia até cansar. O espírito fugia do livro: necessário reler páginas inteiras. Inquietação inexplicável, depois m eio explicável. O diagnóstico pouco a pouco se revelava, baseado em pedaços de conversas, lem branças de leituras, frases am bíguas que de chofre se esclareciam e m e davam trem uras.

Aquilo ia passar: os outros rapazes certam ente não viviam em tal desassossego. MAS a ansiedade aum entava, as horas de insônia dobravam -se, e de m anhã o espelho m e exibia olheiras fundas, um a cara m urcha e pálida.

Recom pus gradualm ente o vestuário. Dispensava luxos, m as não sairia calçado em tam ancos, m etido em roupas de algodão, sem colarinho. Obtive um terno de casim ira, chapéu de feltro, sapatos am ericanos, um a gravata verm elha.

Não m e anim ava a exigir m ais de um a gravata: m eu pai só m e perm itia, rigoroso, o suficiente. Isso bastava à m inha representação — no colégio, no quinzenário, nas seções da Instrutora Viçosense, da Am or e Caridade, que m e elegeu para segundo secretário.

Foi então que vi Laura, num exam e. Jovino Xavier fez-lhe perguntas com uns; notando-lhe a fortaleza, puxou por ela e declarou a análise sem j aca.

Ouviu os discursos, recebeu os agradecim entos da professora e elogiou em dem asia a inteligência e o progresso de Laura. Concordei. Invadiu-m e súbita adm iração, que em breve se m udou num a espécie de culto. [pág. 254]

Mal percebi o rostinho m oreno, as tranças negras, os olhos redondos e lum inosos. O m eu ideal de beleza estava nas donzelas finas, desbotadas, louras, que deslizavam à beira de lagos de folhetim , batidos pelos raios do luar, cruzados por cisnes vagarosos. Laura não possuía o azul e o ouro convencionais, m as dividia períodos, classificava orações com firm eza, trabalho em que as m eninas vulgares em geral se espichavam . Im aginei-a com pondo histórias curtas, a folhear o dicionário, entregue a ocupações sem elhantes às m inhas — e aproxim ei-a; encareci-lhe depois o m érito — e afastei-a. Se ela estivesse próxim a, não m e seria possível concluir a veneração que se ia m aquinando.

Situei-a além dos lagos azuis, considerei-a m ais perfeita que as m oças do folhetim .

Duas vezes por dia, no cam inho da escola, retardava o passo diante de um a casa baixa, envesgava o olhar para as j anelas, ordinariam ente desertas, seguia com alívio e desânim o. Se via a pequena, acovardava-m e, balbuciava um cum prim ento — e distanciava-m e, raspando as paredes, batendo nas om breiras das portas, sacudindo um a pilha de livros segura por dois cadarços. Andava m ergulhado num devaneio. Queria libertar-m e, exam inar a rua, desviar-m e dos transeuntes; a im agem repelida voltava, transform ava-se em idéia fixa, agradável e dolorosa.

As inquietações que m e enchiam as noites eram quase palpáveis, tinham feições — e cabelos negros m e acariciavam o rosto, um sopro m e inteiriçava.

Sensações desencontradas, assaltavam -m e: ardia-m e a cabeça, os dedos tiritavam , frios com o gelo. Im possível suportar o contato dos lençóis. Erguia-m e sufocado, ia balançar-m e devagar na rede. Já não [pág. 255] acendia o candeeiro. Tem ia privar-m e do fantasm a, recuperar a calm a. E a leitura m e enfastiava: um m ês a arrastar-m e no Sonho de Zola, sem nenhum desej o de chegar ao fim , interpretando a narrativa a m eu j eito. A bordadeira de param entos, que se confundia com as santas de Jacques de Voragine, convertia-se em Laura, e eu a contem plava, personagem de rom ance tam bém , num andaim e, j unto ao m uro de um a catedral. Descia daí, retom ava a individualidade, entretinha-m e com a garota em longas conversas.

Não conseguiria dizer alto a décim a parte daquilo: expressava-m e a custo, afligia-m e buscando as palavras, baralhava os assuntos e tinha um leve defeito de pronúncia: engolia dd e tt. A voz abafada, cortada de hiatos, inaudível. O

discurso que fiz na Am or e Caridade foi um desastre: na vizinhança da tribuna findava o burburinho. Quando Mário Venâncio teim ava em reputar-m e um em brião de novelista, retraía-m e duvidoso: não seria capaz de arranj ar um diálogo.

Ali, na escuridão, a língua perra se desligava, perguntas e respostas afluíam claras. Essas entrevistas eram curiosas. Havia em Laura a boca verm elha, o sorriso cândido. Longas pestanas lhe ensom bravam os olhos, as varandas da rede m udavam -se em cabeleira negra. Só. Laura não tinha corpo —

e aí se originou o m eu torm ento. Eu suprim ira as indecências. Em brulhara com ódio O Cortiço em m uitas dobras de papel grosso, am arrara-o em m uitas voltas de barbante forte, escondera-o por detrás dos outros volum es, na prateleira inferior da estante. Apontavam no rom ance passagens cruas — e a contam inação m e horrorizava. Do naturalism o apenas conservava O Sonho, e não queria [pág.

256] supor, com Mário Venâncio, que a bordadeira de param entos fosse degenerada.

Certo não existia alm a em Laura; indignava-m e, porém , reduzi-la a um organism o' suj eito as exigências com uns. Livrei-m e do apuro fluidificando-a.

Perispírito, o perispírito a que Dr. Mota se referia com segurança. Ninguém pode abraçar um perispírito. Enfim evitava pensam entos: recorria a um m eio de j ustificar a estranha glorificação.

Nesse estado, o sono m e apavorava. Tinha sido um refúgio. Inficionara-se. Quando vinham bocej os e as pálpebras esm oreciam , eu saltava da rede, passeava no escuro, arrim ava-m e à côm oda. As pernas arrastavam -se à cam a, vergavam . O torpor m e agarrava e estendia — e dava-se a abom inação. Laura surgia de novo, não a figurinha transparente: um ser m em brudo e espesso, todo carne e osso. Os braços rij os seguravam -m e, o peito largo caía sobre o m eu, achatava-m e, e era inútil qualquer esforço para desprender-m e. Eu desej ava acordar, fugir ao pesadelo, restituir à criança as qualidades anteriores: de algum m odo m e sentia responsável pela m edonha substituição. Angústia, arrepios. E

despertava arquej ando, m ordendo os beiços, em desespero. Bicho, bicho m onstruoso — e afundava na tristeza, pedia a m orte. As ilusões quebradas, em cacos. Tinha noj o de m im m esm o. Suj o, precisando água e sabão. Mas isto não m e lim paria, as m anchas eram indeléveis. Dorm ir, esquecer a visão poluída. A noite não acabava, e às vezes a m iséria se reproduzia. Terror, depois lassidão, repugnância.

Levantava-m e cedo, tom ava o café, dirigia-m e ao Paraíba. Talvez o café m e prej udicasse. Um a extensa lavagem , m ergulhos e braçadas. Com certeza

[pág. 257] a m inha gente perceberia o caso lastim oso. Devia ser efeito do café, um excitante. Abstive-m e dele e bebi chá de folhas de laranj a, sem proveito.

Durante o dia ocupava-m e em reconstituir penosam ente o ídolo partido.

Ao regressar do colégio, ia assistir aos ensaios na Escola Dram ática Pedro Silva.

Não assistia. Insensível à declam ação, esgueirava-m e para trás dos bastidores, em boscava-m e a um a j anela, observava a cozinha de um prédio baixo, o quintal, onde floresciam roseiras. Apitos de trens, barulho de m áquinas, carroças estrondeando no calçam ento, num erosos cargueiros, estalos de buranhém . Isso m isturava-se ao dram a sanguinoso, em cinco atos e um prólogo, que decorria ali perto, além da floresta de pano, obra de Joaquim Correntão. O que m e interessava era o j ardim . Um a palm eirinha acenava-m e de longe, sacudia-se, fazia-m e prom essas, que ordinariam ente falhavam . Não obstante o rum or da rua, a tagarelice casada à voz do ponto, idas e vindas nas tábuas, tudo em redor perm anecia deserto. Aferrava-m e à espera inútil. Escurecia; os am adores guardavam as partes, deixavam o palco; o Pereira da ilum inação, de escada ao om bro, subia a ladeira, ia acender os lam piões; as flores desbotavam ; os leques da palm eirinha despediam -se, quase negros. Espionagem perdida. Bem .

Necessário voltar. No dia seguinte o vulto de Laura surgiria entre as plantas, com o um clarão.

Afinal houve resm ungos: estranharam na Escola Pedro Silva a assiduidade, o esquisito am or ao teatro, que eu revelava dando as costas à cena, os cotovelos fincados no peitoril de um j anela. Assustei-m e. Iriam conhecer o m eu segredo? Se pudesse abrir-m e com alguém , narrar alegrias e decepções,m

[pág. 258] talvez conseguisse alívio. As confidencias eram im possíveis.

Constantino, caixeiro novo da loj a, autor de letras vulgarizadas no Dilúculo, reparou no abatim ento e aconselhou-m e, quis apresentar-m e a Otília da Conceição. Recusei a proposta, vexado. Propriam ente não a recusei: fugi do assunto ignóbil. Ao m esm o tem po achava-m e ridículo, gaguej ava, acanhado.

Mas os horrores noturnos cresciam , as olheiras se aprofundavam e alargavam na m agrém pálida. E o m oço renovou o conselho, citou o Dr. Garnier, am eaçou-m e com a loucura. Realm ente a obsessão j á m e havia endoidecido um pouco.

Tergiversei, relutei, sucum bi.

Um dia, ao lusco-fusco, dem os um passeio, enveredam os pela Rua da Palha, entram os num a sala escura. Constantino falou baixo a alguém e retirou-se. Ao cabo de instantes vi-m e num quarto, exam inando, sério e encabulado, fotografias e santos que ornavam a parede, caixas de pó-de-arroz e frascos expostos na m esa forrada de papel. Otília da Conceição, à beira da cam a, esperava em silêncio. Arriei sobre a m ala pequena e, em silêncio tam bém , com ecei a descalçar-m e. A vista se turvou, os dedos tím idos trem eram , o cordão do sapato deu um nó cego. Esforcei-m e por desatá-lo: m olhava-se de suor, cada vez m ais se com plicava. E o m eu desgosto era im enso.

Entrei em casa nauseado, engolindo soluços.

Correram sem anas. Adoeci. A artrite am arrou-m e à espreguiçadeira, o m eu desgraçado corpo se cobriu de m anchas. Capengando, abri a estante, exum ei O Cortiço, desem pacavirei-o, restituí-o à convivência dos outros rom ances. Não m e inspirava [pág. 259] curiosidade. E j á não era obj eto de aversão. História razoável, com algum a safadeza para atrair leitores.

Em brenhava-m e agora em novelas russas. Entrevado, subm erso na lona da cadeira, tentava erguer um braço doído, m exer os dedos, volver as páginas.

A figura que m e perseguia à noite serenou e fugiu. E a outra, nuvem colorida, evaporou-se. [pág. 260]

[pág. 261] Título

[pág. 262] página em branco

Graciliano Ram os e o

Sentido do Hum ano

Octavio De Faria

"Mas, isso provém do fato de eu não ter

estima por mim. Pode, porém, um

homem que se conhece a si mesmo,

estimar-se, mesmo um pouco que seja?"

D

1

OSTOIEVSKY

Se Infância me parece ser o livro mais importante de Graciliano Ramos

— não o melhor, que certamente é Angústia — é que só vejo um caminho seguro para a compreensão do fenômeno literário chamado Graciliano Ramos, acriação levando ao criador e o criador levando à criança, ao menino que existiu nele e nunca morreu inteiramente. Em Graciliano Ramos, o menino Graciliano é tudo. Seus heróis são o menino, sua timidez é a do menino, seu pessimismo é o do menino, sua revolta é a do menino. Em uma palavra: o sentido que tem do humano é o que o menino adquiriu no contato com os homens que o cercavam, com quem travou as primeiras relações, de quem recebeu as primeiras ordens, que conheceu nas suas inúmeras fraquezas. Os homens...

Os homens, variações do homem — desse homem no qual o menino se transformou, contra quem lutou a vida inteira, mas que jamais conseguiu dominar inteiramente. Os homens, reflexos do homem — desse homem no qual o menino jamais pôde acreditar e confiar, pois foi desde cedo que o [pág. 263]

conheceu em todas as suas características de intolerância e desamor, falsidade e hipocrisia — desse homem de quem suas Memórias (Infância) nos dão um tão pungente retrato (ou auto-retrato) quando nos contam certa passagem da convivência do menino Graciliano com as filhas de Seu Nuno: "Essas moças tinham o vezo de afirmar o contrário do que desejavam. Notei a singularidade quando principiaram a elogiar o meu paletó cor de macaco. Examinavam-no sérias, achavam o pano e os aviamentos de qualidade superior, o feitio admirável. Envaideci-me: nunca havia reparado em tais vantagens. Mas os gabos se prolongaram, trouxeram-me desconfiança. Percebi afinal que elaszombavam, e não me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara. Em geral me diziam com franqueza que a roupa não me assentava no corpo, sobrava nos sovacos. Os defeitos eram evidenciados, e eu considerava estupidez virem indicá-los. Dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerravamalícia e bondade. Essa mistura de sentimentos incompatíveis assombrava-me

— e pela primeira vez ti de mim mesmo. A doçura picante não me reformava, é claro, mas exibia-me como eu poderia ter sido se a natureza e o alfaiate me houvessem dado os recursos indispensáveis. Satisfazia-me a idéia de que a 1 F. Dostoievsky — "Zapiski iz podpolia" ("Mém oires Écrits Dans Un Souterrain" — trad.

francesa — Ed. Bossard, 1926 — pág. 32).

minha figura não provocava inevitavelmente irritação ou desdém, e as novas amigas surgiram-me compreensivas e caridosas. Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas ações cor de macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco"...2 Assim, nessa recordação aparentemente tão insignificante, vemos surgir, através do miúdo e desconfiado menino Graciliano, todo o futuro vulto literário do grande e modesto, precavido e lúcido, extraordinário Graciliano Ramos.

* * *

Impossível — desde logo se vê — falar de uma infância feliz. Ou amena.

Ou incolor. Pelo contrário, raramente elementos[pág. 264] adversos se conjuraram a tal ponto para criar, ao redor de uma criança, insegura e tímida, medrosa, confusa e pouco consciente de qualquer qualidade superior, tantas forças de nivelamento e asfixia, de renúncia aos pendores naturais. Se o menino pouco (ou quase nada) tinha consciência de sua singularidade, de um qualquer valor que o tornasse merecedor de um interesse, de um cuidado maior, menos ainda o tinham os que o cercavam, desde os mais próximos (pais e avós) até os mais distantes (orientadores e professores primários). Os que o viram nascer, tanto quanto os que o assistiram crescer e patentear as primeiras reações ante o mundo, não o diferenciaram de um outro qualquer, medíocre, quase nulo, ousemelhante a não importa que criatura desprovida de qualidades, grandes ou pequenas, físicas ou intelectuais. Olharam-no, viram-no, ouviram-no, e nele não perceberam senão o ser triste e pobre, feio e magro, insignificante e turvo, quase embotado, de que seu próprio testemunho nos dá conta em tantas e tantas ocasiões. Ouçamo-lo falar (— e em variadas vezes, por isso mesmo tão mais significativas): "Em conformidade com a opinião de minha mãe, considerava-me uma besta"3, ou "... mas era bruto em demasia" 4, ou "Eu tinha o juízo fraco e em vão tentava emendar-me: provocava risos, muxoxos, palavrões"5, ou "Eu era meio parvo, todos se impacientavam com a minha falta de espírito"6, ou

"Aos nove anos eu era quase analfabeto"7, ou ainda "Eu nunca revelara nenhum gênero de aptidão" ... 8

Em casa, nenhuma afetividade maior. Pelo contrário, o mais ferrenho 2 "Infância" (Livraria José Oly m pio Editora — 1955 - págs. 187-88).

3 "Infância" (pág. 192).

4 "Infância" (pág. 193).

5 "Infância" (pág. 198).

6 "Infância" (pág. 199).

7 "Infância" (pág. 189).

8 "Infância" (pág. 118).

regime de patriarcado, rigoroso e cego, fechado a qualquer compreensão e simpatia mais humana e generosa. A desconfiança era geral. Tanto assim que, tal como ele próprio testemunha, nessa época: "Bem e mal ainda não existiam, faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figuravam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuva e o sol vinham do céu. E o céu eraterrível, e os donos [pág. 265] da casa eram fortes. Ora, sucedia que minha mãe abrandava de repente e meu pai, silencioso, explosivo, resolvia contar-me histórias. Admirava-me, aceitava a lei nova, ingênuo, admitia que a natureza se houvesse modificado. Fechava-se o doce parêntese — e isto me desorientava".9

Nesse ambiente, os pais, quase tiranos, incompreensivos, freqüentemente singulares, instáveis, ele desde logo os caracteriza para a posteridade: "...um homem sério, de testa larga, uma das mais belas testas que já vi, dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura. Esses dois entes difíceis ajustavam-se. Na harmonia conjugai a voz dele perdia a violência, tomava inflexões estranhas, balbuciava caríciasdecentes. Ela se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que nosbatiam no cocuruto, dobrados, e tinham dureza de martelos".10 Ele,

"terrivelmente poderoso, e essencialmente poderoso"11, gritador, xingador, vaidoso, mesquinho, quase inconsciente de suas limitações, avaro... pois, "sónão economizava pancadas e repreensões. Éramos repreendidos e batidos".12

Nenhuma ternura, nenhuma generosidade no julgamento paterno: "Reprodutor mesquinho, sujeitava-se à moral comum — e naquela bênção engrolada ao amanhecer e ao cair da noite (que dava à filha natural, à extraordinária Mocinha) havia a confissão de que lhe faltava o direito de cobrir muitasmulheres, gerar descendência numerosa. Cobria e gerava, mas devagar e com método. Era um patriarca refletido e oblíquo, escriturava zeloso os seus escorregos sentimentais".13

Mas, pior ainda, é o amargurado retrato... ou julgamento materno: "O

que nessa figura me espantava era a falta de sorriso. Não ia além daquilo: duas pregas que se fixavam numa careta, os beiços quase inexistentes repuxando-se, semelhantes às bordas de um caneco amassado. Assim permanecia, contendo bocejos indiscretos. Miúda e feia, devia inquietar-se, [pág. 266] desconfiar das 9 "Infância" (pág. 19-20).

10 "Infância" (pág. 14-15).

11 "Infância" (pág. 28).

12 "Infância" (pág. 29);

13 "Infância" (pág. 152).

amabilidades, recear mistificações. Quando cresci e tentei agradá-la, recebeu-me suspeitosa e hostil: se me acontecia concordar com ela, mudava de opinião e largava muxoxos desesperadores.14 (Ah! aquele "paletó cor de macaco", a mãe também o trazia consigo!...)

Naturalmente, o ambiente doméstico era difícil. E os choques, inevitáveis,não cessavam de se produzir. A propósito de tudo e a todos os momentos — dos objetos que desaparecem (o cinturão...) e das dificuldades do estudo, das ocasiões em que o menino Graciliano se chocava com a intransigência e a incompreensão dos pais, como naquelas em que o revoltava a injustiça, privada ou social, com que deparava. O menino crescia, o menino enfrentava os primeiros problemas sérios da vida e eis que só encontrava, à sua volta,indiferença, a cegueira de uma disciplina que não conhecia contornos nem atenuações. Nenhuma compreensão, nenhuma simpatia ou mão estendida que o auxiliasse a fazer face ao mundo exterior. Mesmo no caso, no dolorosíssimo caso da doença de olhos que o perseguiu na meninice, torturando-o durante

"semanas e semanas", a ponto de ele ter de viver "na treva, o rosto oculto num pano escuro, tropeçando nos móveis, guiando-me às apalpadelas, ao longo das paredes. As pálpebras inflamadas colavam-se. Para descerrá-las, eu ficava tempo sem fim mergulhando a cara na bacia de água, lavando-me vagarosamente, pois o contato dos dedos era doloroso em excesso".15 A pardisso, os apelidos na intimidade, os tristes, os deprimentes apodos: "bezerro-encourado" e "cabra-cega" (dados, ambos, por sua mãe... E confessa: "Minha mãe tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia. Dava-me dois apelidos: bezerro-encourado e cabra-cega.")16...

Assim, à sua volta, tudo é julgamento e disciplina, regra cega e ininteligente que detesta e tem de detestar, que rejeita e rejeitará, desde então, até o final de sua obra e para todo o sempre.

Sem quase nenhum carinho, sem maior afeto, só identificando injustiças e incompreensões à sua volta, como naquele triste e equívoco caso do mendigo Venta-Romba, por acidente [pág. 267] tratado quase como um cangaceiro qualquer 17, cresce o menino Graciliano, inconformado e revoltado, tornando-se até mesmo "insolente e grosseiro", em casa, depois da prisão de Venta-Romba18

— tão indócil e anti-social que só encontra simpatia e afinidade entre desclassificados e "ignorantes" (seus melhores mestres, segundo confessa)19, verdadeiros "humilhados e ofendidos", espécie de escória social que "mitos 14 "Infância" (pág. 37).

15 "Infância" (pág. 131).

16 "Infância" (pág. 131).

17 "Infância" (pág. 217).

18 "Infância" (pág. 223).

19 "Infância" (pág. 113).

obsessores" do tipo Amaro vaqueiro, Padre João Inácio, Cirilo de Ingrácia, Seu Ivo etc. — e, principalmente, José Baía, personificarão, para ele, não só no maior momento de sua obra criadora (Angústia), como nos melhores instantes de sua plenitude literária. (Infância)

* * *

"Enorme tristeza por não perceber nenhuma simpatia ao redor"... 20 É

esse, sem dúvida, o impacto fundamental na experiência de Graciliano Ramosem relação ao mundo. Esse mundo desprovido de carinho e de amor, banhado por uma desconfiança total, é o mundo que, mais tarde, suas obras de criaçãoartística vão reproduzir.

Muito se falou do "pessimismo" de Graciliano Ramos. Falou-se, tornou-se a falar, insistiu-se na sua agressividade em relação ao mundo. Mas, quase nunca se salientou que, na verdade, não foi ele o agressor — o mundo é que o foi em relação a ele: o ambiente familiar, a escola, o meio físico, Buíque,Viçosa. O pessimismo decorreu: foi apenas um reflexo num espelho polifacetado...

Certo, em sua obra, não faltarão depoimentos de que não eram cor-derosa os óculos com que via os homens. Desde os mais negros pensamentos do Luís da Silva de Angústia, até o painel de Vidas Secas, desde a mesquinhez do ambiente da cidadezinha de Caetés ou da fazenda de Paulo Honório em S.

Bernardo, até a massa de recordações ainda úmidas de sofrimento de Infância, é sempre o mesmo quadro cinzento e triste, quase asfixiante, o que encontramos disseminado em toda a sua[pág. 268] obra. E até mesmo em depoimentos singelos como os das Histórias de Alexandre, vamos deparar com esse mesmo estado de espírito de desilusão e ceticismo que faz o bom e digno Alexandre dizer ao amigo Firmino, ora num tom ora noutro, a mesma conclusão única:

"Tudo neste mundo é canoa furada..." 21 ou então: "O que tem valia não dura, Seu Firmino."22

Pessimismo? Simples pessimismo? Não creio. Na verdade, paraGraciliano Ramos não se tratava senão de dar testemunho da verdade — da verdade humana — da realidade que estava gravada nele desde menino, de reproduzir o mundo que vira, que era ele próprio, corpo e alma de sua existência. (Eis por que me parece que fala bem o Álvaro Lins que se refere à

"libertação de um homem que se evade de um mundo que detesta"). 23 Sim, a 20 "Infância" (pág. 109).

21 "Alexandre e Outros Heróis" (Livraria Martins Editora S. A.", 1966 - (pág. 71). 22 "Alexandre - Outros Heróis" (pág. 91).

23 Álvaro Lins - "Jornal de Crítica" - 2.a Série - (pág. 82).

coincidência das imagens — as da infância e as do escritor já homem feito —

não é senão o sinal mais sensível da sua admirável fidelidade à verdade humana, à exatidão dos fatos, à implacável realidade exterior que não sabe e não quer disfarçar ou deturpar. Por demais escrupulosa? Às vezes quase fanática? Mas, como poderia deixar de ser assim, se o homem que escreve, que corrige, que "tortura", que se exacerba no aprimoramento do texto, não é senão o menino desconfiado, vigiado, espezinhado, em quem ninguém vê qualidade alguma e os mais próximos, por mais afeição que no íntimo lhe tenham, sósabem descobrir defeitos: preguiça, lentidão no aprendizado do alfabeto e dasprimeiras letras, parvalhice, juízo fraco etc, etc?

A reação desse menino, o lento tomar de consciência das dificuldades a superar, do melhoramento a conseguir, da perfeição a procurar (senão aatingir), do polimento final, — eis a obra de Graciliano Ramos. Um homem em busca do menino que ele foi, um escritor em luta para ter o direito de publicar o que lhe vem à mente dizer — eis também, e em síntese, o caminho literário do ficcionista cujas raízes brotaram da infância de Infância para atingir a esplêndida floração de S. Bernardo e Angústia, de Vidas Secas e Insônia. [pág.

269]

Não poderia deixar de ser um caminho áspero, bem árduo, dos mais penosos, durante o qual o gotejar de sangue do menino, que às próprias expensas aprende a lição da vida, e o do escritor, que tenta reproduzi-la com omáximo de honestidade e rigor literário, formam um tecido dos mais dolorososque conheço — e, também, dos mais complexos, intricados, cheios de idas e vindas, o passado invadindo constantemente o presente da criação artística, aficção dando cor e fazendo sangrar ainda mais as recordações da meninice, Angústia e Infância se confundindo, se interpenetrando, se completando, emergindo como um grito, desesperado e alucinante, de criança abandonada em plena hostilidade do mundo.

* * *

"Escreve com teu sangue e verás que sangue ê espírito"24, ensinavaNietzsche, na palavra de seu Zaratustra — e não foi senão com sangue que Graciliano Ramos escreveu, ao longo de sua vida, desde as primícias de Caetés e S. Bernardo, até as "despedidas de Infância e Mem órias do Cárcere, sem falar na obra de plena maturidade e de máxima realização: Angústia, acompanhada de alguns verdadeiros "capítulos extras" que são, na verdade, vários dos contos de Insônia (como "O Relógio do Hospital", "Insônia", ou "Paulo"). O sangue 24 F. Nietzsche — "Also Sprach Zarathustra" (A. Kroner Verlag, Leipzig, 1930 - pág. 41).

que vinha gotejando desde a primeira meninice ( e Olívio Montenegro confirma esplendidamente a tese, quando diz: "O menino Graciliano aprendeu a ver e conhecer as pessoas como ele aprendeu a ler — à própria custa e suando sangue" ) 25, esse sangue que a incompreensão e as injustiças sociais arrancaram, primeiro de seu espírito ( desde cedo predispondo-o contra a

"autoridade", como ele próprio confessa, ao comentar o episódio de Venta-Romba) 26, depois de seu próprio corpo ( e cada página de Infância — "Um Incêndio" como "Minha Irmã Natural" ( M,ocinha) , "Venta-Romba" como "A Criança Infeliz" — e cada linha de Mem órias do Cárcere, não testemunham senão nesse mesmo e idêntico sentido) , esse sangue, engrossado, [pág. 270]

tumultuado pelo sofrimento íntimo e pela compaixão humana provocada e exacerbada pela contemplação da miséria de sua 'terra de origem, vai constituiro magma em que sua obra se vai vazar e condensar, esplendendo na concretização máxima de sua força criadora que é Angústia.

Tudo aquilo que vinha sendo represado nele, a luta entre o menino e o homem, entre o pai e o filho; depois, entre o regional e o universal, o objetivo e o subjetivo, o particular e o humano, como que explode nessa verdadeiraorquestração de loucura e crime, de sofrimento e ódio: Angústia. Tudo o que de mais recôndito e maldito, recusado e complexado, havia no menino de Buíque e Viçosa, tudo o que "sobrava" das mágoas íntimas do episódio do paletó cor de macaco, invade, violento e como que a contragosto, o esquema inicial doromance. A curva que vinha de Caetés — máximo de objetividade do romancista, não obstante todas as "contribuições pessoais" canalizadas para o herói, João Valério —, passando por S. Bernardo com a sua frieza quase machadiana e o seu rigor estilístico de encomenda "graciliânica" — chegava a um extremo de subjetividade em Angústia, função da força quase dostoievskiana com que as "recordações" da infância invadiam a "intriga" inicialmente proposta pelo romancista e passavam a dominá-la, impondo-se ao tumultointerior do herói, Luís da Silva, o mais autêntico "caeté" do autor de Caetés.

São realmente essas recordações que, através das vozes da memória de uns e de outros, do cabe José da Luz, de Rosenda, de Padre João Inácio, de Teotoninho Sabiá, do velho Acrísio, de Sinha Terta, de Antônio Justino e, sobretudo, de José Baía, cangaceiro amigo, e de Amaro Vaqueiro (e são, não nos esqueçamos, "personagens" de Infância — das Memórias reais, portanto), levam para a frente, impelem mais e mais Luís da Silva a estrangular Julião Tavares — forçando-o mais, muito mais, do que os próprios personagens obsessores de Angústia (essas "Memórias irreais", se assim se pode dizer): 25 Olívio Montenegro — "O Rom ance Brasileiro" (Livraria José Oly m pio Editora, 1953 - pág 227).

26 "Infância" (pág. 223).

esses vultos chamados Seu Ivo, Seu Evaristo, Cirilo de Engrácia, Moisés, Pimentel etc.

Caso realmente impressionante, esse do romance Angústia em que os personagens obsessivos da memória real têm mais força e mais poder sugestivo(tanto sobre nós, leitores, quanto sobre as ações do herói) do que certos personagens criados pelo romancista — e isso explica bem o que poderemos chamar as duas velocidades de narração em Angústia ou o que Joel Pontes

[pág. 271] tão bem distinguiu em sua "ação", isto é: a "ação reflexa intensa" e a

"ação propriamente dita, lenta e cheia de meandros".27

É verdade que há inúmeros casos mistos, como o desse Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, o avô (no romance Angustia), mas que, evidentemente, é um personagem composto de "recordações" de Infância: quem sabe, do avô e do próprio pai do romancista. E há os outros "vultos" de Angústia: Seu Ivo, Seu Evaristo, Cirilo de Engrácia, confusos, às vezes disformes, e que é bem possível que pertençam cio mundo de uma "provável"

"Adolescência" que acaso, um dia, viesse continuar Infância e sobre a qual Graciliano Ramos silenciou... ou não teve tempo de falar. (Também, em Insônia vamos encontrar muitas, inúmeras referencias aos temas de Infância).28

Seja como for, o que importa salientar nesse tumulto de vozes em torno de Luís da Silva — vozes da memória "ressurgidora" ou da criação artística — é a influência decisiva que vão ter nos movimentos do herói, na sua precipitaçãopelo caminho do crime. Naturalmente, elas não só o acompanham como um coro ou uma espécie de espelho (que fosse espontaneamente deformante), como agem, participam de seu tormento interior, incitam-no a agir, instigam-no na direção que as suas mais jecretas resistências procuram evitar que tome.

Funcionar, até como certas "idéias" em relação aos heróis de Dostoievsky: tentam-nos, zumbem à volta deles, não esmorecem diante das primeiras recusas, insistem, tornam a tentá-los, até que, uma vez tendo conseguido ser recebidas, fixam-se, instalam-se, acabam por dominá-los inteiramente, levando-os aos últimos limites de suas possibilidades secretas. Assim, perfeitamente semelhantes, as vozes que Luís da Silva ouve — tremendas —, que refeita, que torna a ouvir — praticamente quase inaudíveis — e que, se nada de declarado lhe dizem em relação ao crime, são, no entanto, como que o único clima em que ele pode brotar e se desenvolver: os próprios dias precursores[pág. 272] do crime. Acompanham-no, persistentes e sorrateiras, e eis que, ao acaso de umaespreita, já penetraram nele, já o envolveram, já o lançaram nesse torvelinho de ódio e morte, impossível de dissipar ou deter. O crime surgirá quase forçado, 27 Joel Pontes - "O Aprendiz de Crítica - I" (Departam ento de Docum entação e Cultura da Prefeitura Municipal de Recife, 1955 — pág. 113).

28 "Insônia" (Livraria Martins Editora S. A., 1965 - págs. 40, 48, etc).

ordenado (mas, por que forças?...), como se as nulos do criminoso tivessem horror do ato em si, mas não pudessem deixar de executá-lo. Pois, até um desígnio frio, quase anônimo e multíplice, conduziu toda a ação. Inclusive, a arma do crime, foi involuntariamente que veio ter às mãos do criminoso

* * *

E é nesse ponto que o Luís da Silva de Angústia mais se opõe ao Paulo Honório de S. Bernardo. Aqui o cálculo frio, gelado, desde a conquista material da fazenda dos Padilha até o casamento com Madalena e a constituiçãoconvencional da família — ali o sentimento desvairado, o barco atirado em pleno oceano das paixões e dos imprevisíveis cálculos alheios. Paulo Honório,egoísta, ciumento, invejoso, cínico, vil por natureza, margeia o delito e sempre o evita — Luís da Silva (no fundo nem melhor nem pior do que ele) é a vítima do crime pela sua fraqueza, pela mesquinhez de seu temperamento, preguiçoso e abúlico. E, no entanto, dizem todos — e não há como recusar a evidência da constatação — são, am bos, possíveis imagens de Graciliano Ramos que neles se dá, corpo e alma — verdadeira "projeção dele próprio", como bem diz Adolfo Casais Monteiro 29 — como está, todo ele, no João Valério de Caetés e no Fabiano de Vidas Secas. Então, como explicar a aparente contradição, o choque de tanta atividade e tanta passividade anímica?

Não vejo maior dificuldade em eliminar a antinomia. Como a maioria dos autênticos romancistas, Graciliano Ramos é um autor, um criador que se dá, em cada obra, em todas as suas "possibilidades" para melhor procurartestemunhar sobre o homem, isto é: para melhor encontrar o hom em . Pois, esse é o objetivo supremo de sua busca, de sua "curva" sobre si mesmo, sobre o menino que ele foi, sobre o ser adulto em que as asperezas do mundo acabaram por transformá-lo. Assim, se assume [pág. 273] tipos variados de humanidade, desde o extremo egoísmo de Paulo Honório até o do mediano João Valério, ou mesmo, do ínfimo Luís da Silva — todos três, como vimos, não passando de

"projeções" dele próprio — todos três vivos, psicologicamente diversos, criações literárias válidas, autênticas — é sempre o hom em o fenômeno essencial, básico no seu testemunho. Ou, como melhor do que ninguém disse Antônio Cândido: "...no âmago de sua arte, há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, e tanto os personagens criados quanto, em seguida, ele próprio, são projeções deste impulso fundamental, que constitui aunidade profunda de seus livros".30

29 Adolfo Casais Monteiro — "O Rom ance" (Livraria José Oly m pio Editora, 1964 - pág. 166).

30 Antônio Cândido — "Graciliano Ram os" ("Nossos Clássicos" — v. 53 -Livraria Agir Editora, 1961 - pág. 8).

Através as variações dos diversos personagens — e até mesmo no Fabiano, de Vidas Secas, que lhe pede emprestado a voz para que, pela primeira vez, fale na 3.a pessoa do singular — o que encontramos é a busca rigorosa, impiedosa mesmo, do hum ano puro, do sentido essencial do depoimento humano. Nenhuma concessão, nenhuma trucada. O mesmo rigor que tem em relação aos outros, observa-o em relação a si mesmo, à pureza doseu testemunho, sempre integralmente honesto. Ê uma situação em que não conhece amigos, nem os distingue dos desafetos. Só aceita como válido um testemunho: o da realidade, o da verdade dos sentimentos, dos fatos, das coisasque seus olhos vêem. Esse é o seu verdadeiro, mais legítimo sentimento dohumano. Se é pessimista ou não (e importa determinar, já agora?...), não sabe.

Nem cuida do problema, não se detendo sequer em analisá-lo. Sabe que fala do homem, de suas misérias e fraquezas, de sua natureza, vária e problemática, de seus múltiplos sofrimentos, da calamidade que é a sua triste condição sobre a terra. E sabe que, assim falando, fala de tudo quanto o rodeia e aflige, do homem de sua terra natal e das terras que lhe são vizinhas — de terras sobre asquais, na hipótese de Olívio Montenegro, "a miséria pesasse como uma maldição" 31 —, tão bem quanto do homem do Sul ou do Centro, do Brasil total,ou de outros Brasis que pelo mundo acaso se estendam...

Porque é sobre a natureza humana, seu sentido mais profundo, que sua busca incide e se espraia, assumindo todos os admiráveis coloridos e matizes que sua obra proporciona e [pág. 274] define. E é por isso, sem dúvida, que, independente de suas qualidades propriamente literárias — que, aqui não nospreocupa marcar e que, até o fim da vida, manteve sob as mais fortes e injustificáveis suspeitas (e, nesse sentido, vejam-se, em Mem órias do Cárcere 32, as curiosas "dúvidas" com que, da prisão, acompanha a publicação de Angústia) — seu depoimento tem para nós a maior e a mais inestimável dasimportâncias. Pois se, por um lado, revela em Graciliano fiamos uma dasfiguras espirituais mais fortes e significativas que tivemos, capaz de sobrepujartodas as vicissitudes no seu puríssimo testemunho do espírito e de mereceraquela "admiração sem rebuços" à qual Joel Pontes se refere 33, por outro lado, traz, através a obra do ficcionista e, principalmente, do romancista, o maisimpressionante e indiscutível dos testemunhos sobre a condição humana, o sentido do humano nas diversas imagens do homem a que dá cor, dimensão e vida. [pág. 275]

Fim

31 Olívio Montenegro — ob. cit. — (pág. 229).

32 "Mem órias do Cárcere" (Livraria José Oly m pio Editora, 1956 - v. II, págs. 83-84 e 99; v.

IV, págs. 83-85).

33 Joel Pontes - ob. cit. (pág. 132).

Você terminou Infância

Graciliano Ramos

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