Inteiramente Sobre a Vida

Cínthia Cortegoso · Capítulo 43 de 49

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Inteiramente Sobre a Vida

Uma Carta Enviada Pelo

SENTIMENTO

Já se contavam muitas folhas amassadas e jogadas no lixo. E a impaciência de ainda não conseguir escrever uma carta para o seu grande amor começava a ser bastante evidente no olhar de Gabrielle.

Fazia um tempo considerado que não conviviam de corpo e alma, no entanto, as inúmeras lembranças eram vivas, retomadas, reais, até o toque das mãos, Gabrielle podia sentir, o cheiro do nobre ausente, o sorriso, o olhar, as palavras ditas com calma, característica nata de Leone, a calma.

Finalmente a mão ainda delicada da mulher segurando a caneta começou a formar as letras… palavras… frases… orações… períodos… sempre com a essência do mais profundo sentimento: o amor. E quanto se amaram e se amavam.

E a página começou a ser preenchida por uma felicidade plena direcionando-se à eternidade.

Assim, esta carta começou a ser formada:

“Amor dos meus dias.

Quanta emoção poder escrever-te estas palavras, embora tão selecionadas, ainda muito incapazes de iniciar sequer a abordagem do tão eterno e imensurável amor por ti.

Todo este tempo, distantes, só serviu para emancipar meu sentimento e te amar com o mais pleno amor que meu coração já pôde vivenciar.

Lembro-me da doçura do pôr do sol a teu lado; da brisa suave refrescando nosso olhar… olhar do amor pleno e restaurado a cada amanhecer pela convivência, dias tão intensos de felicidade.

Como te amo, amor meu.

Como te aguardo no nosso tempo.

Sei que por ti, descobri amor intenso e verdadeiro.

Ah… dias inconsoláveis… derradeiros dias.

Mas o amparo me chega e peço por ti também, que me é parte minha por tanto amor por ti sentir.

Face com olhos tão familiarizados e bons, olha-me nestes meus olhos que tanta saudade têm de te olhar.

Meu amor, dá-me tuas mãos para que eu possa me segurar e tê-las entre as minhas carinhosamente.

Ah, quanta saudade… quanta saudade!

Quero mais uma vez repousar em teu peito e tão segura e amada me sentir.

Oh… amor dos meus dias!”

Com as lágrimas escorrendo no rosto já vivido por uns aproximados setenta anos, a senhora Gabrielle adormeceu em sua cadeira de leitura de tantos anos atrás. Como se estivesse junto de seu Leone, deixou a mão estendida querendo sentir a mão dada de seu amor.

Recebeu as energias benfazejas de amigos sutis e, adormecida, continuou. Quanta emoção sentira.

E Leone, ainda mais emocionado, aproximou-se. Tocou o cabelo gris da companheira de tantas jornadas e o amor o tomou por inteiro.

Tanto a acariciou na face, nas mãos… sentiu o calor de seu corpo que há muito não sentia.

E bem baixinho, falou à companheira:

– “Oh, minha vida! Quanta saudade de ti. Quantas estações vividas com essa ausência, no entanto, agora estamos aqui de mãos entrelaçadas. Oh, amor dos meus dias.”

Assim ficaram, Leone, desperto, consciente, e Gabrielle, em sono profundo, corpo descansado na poltrona, na qual tantos livros, ela já havia lido.

Tudo a seu tempo.

Embora estivessem em mundos distintos, o sentimento amoroso os unia. O pensamento, energia instantânea, alcança o destino imediatamente. E o amor os ligava como um feixe luminoso.

Leone já tinha completado, há alguns anos, mais um cumprimento de seu dever no campo terreno e estava agora na eternidade dos dias. Entretanto, Gabrielle havia de continuar no plano ainda onde se encontrava até o momento necessário do acordo firmado na última estada na erraticidade.

Reencontrar-se-iam, o que é tão natural, mas enquanto isso, mesmo com a separação efêmera, continuariam ligados pelo mais nobre sentimento: o amor de puro coração; amor que alcança o mais recôndito ser em tempo e espaço, liberta as algemas da consciência e traz o renascimento para os campos floridos de luz, paz e felicidade.