Inteiramente Sobre a Vida
As Clareiras de Luz
Os pés caminhavam sobre as folhas secas do outono dourado. A pequena estrada se iniciava timidamente e avançava, decidida, mata adentro. As mãos descansadas e seguras atrás do corpo era uma forma singela de reverência à sublime natureza.
Desde pequeno, Nicolau caminhava assim. Hoje já era um ancião, no entanto, suas características atravessaram bem mais de meio século e mais reforçadas se mantinham.
Como feixes da mesma cor do outono, os raios de sol cortavam árvores tão altas e centenárias, pois a luz sempre transpassa e ilumina. E assim, com raios dourados na imensidão da mata, transformando em cenário completo e incomparável, o senhor, em mais uma manhã, se regozijava com o passeio desde sua simples casa ao clarão do meio do arvoredo circundado por flores amarelas.
Essa clareira despertava curiosidade, mas o respeito do senhor pela natureza era ainda maior e ele seguia os dias com mais admiração que questionamentos. Por um tempo teve a companheira ao lado, no entanto, sua jornada terrena fora programada para um período mais curto que do esposo, e Nicolau continuou a vida no lugar onde crescera e tanto amava. E sempre apreciava a grandeza natural com mãos estendidas e seguras na parte de trás, na parte baixa, nas costas.
Havia também o Tenório, companheiro de tantos anos, um labrador inteiro preto, um cão amoroso e protetor. Ele seguia a calma dos passos de seu amigo Nicolau.
O homem não compreendia nitidamente, mas era atraído a essa clareira como se existisse um ímã: duas vezes por dia ele se encaminhava, bem de manhãzinha e ao final da tarde. E sentia, naquele espaço, uma felicidade completa, uma restauração em sua alma, no entanto, não sabia como esclarecer o sentimento que o tomava nesses minutos, mas permanecia, quieto e recebedor da luz contínua que jorrava do alto; nem todas as pessoas eram capazes de observar e entender o que sucedia.
E assim, nessas décadas, esse era o ritual diário mas sem esforço, pois lhe era muito reconfortante e com tanta plenitude.
Quando Nicolau completara oitenta anos, bem numa terça-feira ainda do mês de outono, encaminhou-se à clareira, circundada de flores amarelas, na companhia ainda de seu Tenório já envelhecido, mas ainda, sim, tão próximo companheiro… seu amigo, e os dois se sentaram, na clareira, canto direito, como de costume. Nicolau, devagar, sentou-se numa pedra e o cão deitou-se ao seu lado.
Era manhã e as flores amarelas estavam tão vivas e brilhosas com o orvalho que a noite deixara.
Os dois, tão em paz com a vida pelo compromisso de viver, realizado, começaram a sentir o desligamento da energia terrena; seus corpos começaram a desfalecer e, lentamente, Nicolau foi pendendo para o mesmo lado onde seu companheiro estava. E de uma forma singela, o homem se deitou bem ao lado do amigo. O cão ainda observou Nicolau se ajeitar ao seu lado, inconsciente, e ali ficou. Sem compreender, mas aceitando o calor restante do corpo do amigo, o animalzinho se aconchegou e também seus olhos vagarosamente se fecharam e estavam, em seu último brilho, calmos e felizes. Os dois seguiram a natural viagem. Homem e animal, seres distintos, porém com o sentimento fraterno e leal do companheirismo.
Talvez, desde o início, buscassem a ampla clareira como lugar de bem-estar, supostamente, estruturada pela natureza, só isso. No entanto, a energia era intensa, acima da média que se encontra em matas primitivas. E havia naquele momento a luz em forma de cone abrangendo um pouco mais da extensão do espaço delimitado pelas flores amarelas.
E essa luz é desde o início da criação dessa natureza, mas sua intensidade realmente, incomparável.
Os olhos espirituais podiam ver a rápida rotação de sua energia e ainda podiam conferir que era um dos canais mais intensos ligando o plano terreno ao campo etéreo. Esses campos existem em todos os espaços do universo, são ligações constituídas por pensamentos e sentimentos elevados que se amparam no amor comum e no bem coletivo.
E Nicolau, em toda a sua existência contemporânea, mesmo mais isolado no espaço da natureza amiga, se completava mais e mais quando ao amanhecer e ao final da tarde, buscava a clareira escolhida por ele, lugar simples que, no entanto, transformara-se em pura referência da benéfica radiação. E o ímã da luz benfazeja tanto se fortalecia durante os anos… a mesma energia é atraída e muito se fortalece.
Sem a consciência exata de seu ato, mas o coração radiante de amor, junto com tantos outros bons espíritos arraigados para a ajuda da regeneração do Planeta, Nicolau contribuiu para o surgimento dos chamados cordões de equilíbrio, onde surgem as clareiras tão maravilhosas e restauradoras de fé e amor; em todos os lugares esse brilho intenso pode se apresentar, onde houver um coração amoroso, humilde e bondoso, de fato haverá a luz que liga aos céus.
O homem e seu amigo cumpriram o tempo programado, mas ainda melhor, foram trabalhadores incansáveis com o propósito no bem, luz que dissipa a escuridão da dor e das limitações. Continuarão o trabalho e exemplo.
A responsabilidade dos atos tem, no mínimo, três ramificações: o resultado direto, o aprendizado para o observador e a relação para o todo comum.
E por meio desse cordão iluminado, os dois amigos seguiram passagem para o lar de verdade, a morada do espírito, e a fé, o amor, a bondade partiram junto com os donos dessa energia, comprovando, assim, mais uma vez, que somos o reflexo de todos os nossos atos e sentimentos.
Que as clareiras da luz amorosa sejam um número sempre à frente das devastadoras energias contrárias.
REFLEXÃO SOBRE AS AÇÕES
CONTEMPORÂNEAS FRENTE AO
PROGRESSO
Há sempre grandes batalhas para um coração travar, para o nosso e para o do próximo. Quando a bondade com esses dois corações é maior que a intolerância, sem dúvida, o coração que observa e o observado são agraciados com o sentimento calmo e feliz de conquista.
Todos os que, por um tempo maior ou menor, participam de nossa vida encontram-se em estágios distintos, posteriores ou anteriores, a cada um de nós. Somos caminhantes da vida, ninguém deve ser julgado, estamos em momentos diferentes, simplesmente isso. Há os que permanecem mais tempo na penúria dos dias, talvez pelo orgulho prevalecente ou por não quererem encontrar ou por somente ainda não terem encontrado melhores meios de discernimento.
E se é possível compreender um pouquinho que seja essa diferença, então, por que não agir com mais bondade? Mas imediatamente ratifico que, na vivência, não é fácil, mas, de fato, é o encontro com a luz, com a paz, com a evolução, é o encontro com o próprio coração mais satisfeito e alegre.
No atual tempo, parece que o comportamento egoísta tanto se fortalece; em grupos menores, maiores; em grupos dos quais participamos, dos mais distantes também. É uma impressão muito triste, pois sabe-se que o grupo em convívio mais próximo ou não e no tempo atuante possui uma razão certa para esse acontecimento.
Algumas questões, cada vez mais, me acompanham. Qual será a constatação acerca dos nossos atos, omissões, palavras, atitudes tão pequenas e desnecessárias perante a maravilha que é a vida e, o maior, perante a oportunidade a nós concedida por Deus? Como nos sentiremos no plano verdadeiro? A vergonha será maior que a alegria? Verificaremos mais conquistas ou reincidências em sofríveis erros? Diante dos nossos amigos espirituais, serão as lágrimas brilhantes ou cinzas a nos visitarem a face?
Essas questões precisam nos acompanhar e nos trazer à reflexão; logo é hora de regresso e qual a bagagem que levaremos?
E como ainda estamos aqui, então, que possamos, com imensa simplicidade e amor no coração, verificar e pôr em prática as novas melhores ações e sempre com a memória ativada de que não existem acasos nem em tempo, lugar, companhia e ocorrência.
Que o novo tempo presente seja semeado com frutíferos atos resultando em grandes realizações. Que os olhos reais possam enxergar as nobres e verdadeiras imagens e que o equívoco e as impróprias ações transformem-se em pó a se dissipar pelo vento da renovação e da absoluta grandeza que é a vida.
Fim
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