Manhãs de Cascais
Capítulo IX
O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.
Não ha philosophia que resista aos factos.
De varias pessoas sei eu que tiveram mascotte, e que criam n'ella como em Deus.
Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu conde de Torres Novas.
A sua mascotte era uma escova de fato, que o não abandonava jamais.
Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.
Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe tel-o-ia{79} prostrado, se entre a barretina e a cabeça não estivesse a escova,—a que ficou devendo a vida.
Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.
Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.{80}