Manhãs de Cascais

Alberto Pimentel · Capítulo 21 de 44

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Manhãs de Cascais

Capítulo XIV

Peccadilhos metricos

Non bis in idem

Fazem ámanhã annos,

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Alberto Pimentel

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Novidades, de domingo 27 de novembro de 1887.

Ainda ante-hontem dizia

Certo jornal que eu fazia

Annos no dia seguinte.

Comquanto o jornal ref'rido

Pertença a outro partido,

Era favor; não acinte.

Mas, emfim, passa em julgado

Que eu seja tão desastrado

Que, já proximo dos enta,

Faça annos cada semestre?

Não: que o tempo é um grande mestre.

Tempo que passa, avelhenta.{116}

Fazer annos em novembro,

Logo em abril repetil-os!

De tal coisa não me lembro!

Tomára diminuil-os,

Quanto mais, por triste engano,

Duplical-os em cada anno!

Assim, se chego aos sessenta,

Contar-me-hão cento e vinte!

Pois cada semestre augmenta

Um anno, e outro o seguinte!

Faço annos no quente e frio

Como pago ao senhorio!!

Não! Não pode ser! Protesto!

Porque eu trabalho, e de resto,

Pago de seis em seis mezes

Duas rendas, uma em annos,

Outra em metal! São enganos?

Mas eu pago duas vezes!

Fique pois bem entendido,

Bem notorio, bem sabido,

Que só uns annos farei.

Quatorze de abril: é a data. Dispenso flôres, cantata...

Mas protesto. E protestei.

29 de novembro de 1887.{117}

 

DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET

(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas

sobreviventes d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no

theatro da Trindade.)

Venho d'entre as ruinas e das chammas,

Onde tudo perdi. Sabeis a historia,

Que o vosso coração ainda contrista.

Perdoai a vaidade ao pobre artista...

Eu sonhava essa noite com a gloria.

Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!

Tive por ovação prantos, clamores.

Ossadas por cortejo. O incendio e a fama

Disputaram ali. Venceu a chamma.

Eram chammas o palco e os bastidores...

E ali n'essa sinistra apotheóse

Ficaram sepultados meus thesoiros,

Amigos que eu perdi,—tão dedicados!

Minha pobre familia,—os meus cuidados,

Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...

Sou agora a mim proprio quasi extranho,

Um viajante perdido no deserto,

N'esse infindo deserto da saudade.

Sinto ainda a desgraça muito perto...

Mas sinto ainda mais perto a caridade!

Se vivo, é só por ella. Em seu regaço

Choro o meu abandono, as minhas dôres.

Refunde-se a minha alma em muitas almas,

Vale um consolo o que não valem palmas...

Vivo, meu Deus! graças a vós, senhores!...{118}

 

UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO

(Etelvina Julia d'Almeida.)

Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!

Da sua face bella as frescas rosas

Deviam ter suavissimos encantos

Se os beijos, namoradas mariposas,

Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!

Da sua face bella as frescas rosas.

Mas quem hontem logrou reconhecel-a

Entre as negras ruinas sepultada?...

Mas quem poude affirmar, dizer: É ella!

Ella que fôra outr'ora alva e rosada!

Já não poude ninguem reconhecel-a

Entre as negras ruinas sepultada.

 

1.º DE DEZEMBRO

Filippa de Vilhena!

João Pinto Ribeiro!

Palavra, que faz pena

Ver o despenhadeiro

Em que isto agora vae!

E como o paiz cae!

Agora é só dinheiro.

Está campando em scena

Sómente o deus Milhão!

Filippa de Vilhena!

João Pinto Ribeiro!

Palavra, que faz pena...

Agora é só dinheiro...

E os que lá vão lá vão!

1887.{119}

 

EMILIA

(Minha irmã.)

Nunca tu azas tiveras,

Que te elevassem ao ceu.

Nunca tu voar poderas

Co'as azas que Deus te deu.

Por mais que tu procuraste

Reprimir-lhe o ancioso vôo,

Eras tão debil! cansaste.

Deus quiz o anjo, e levou-o.

Tinha reflexos tão doces

O teu olhar doce e brando,

Que logo pensei que fosses

Lirio que veio voando

D'essa translucida esphera,

Tão cristalina e tão alta,

Onde a eterna primavera

Sentiria a tua falta.

Então as flôres celestes

Chorando saudosamente

Vestiram lutuosas vestes,

Feitas de seda somente.

E, debruçadas nas sépalas,

Choraram pranto divino

Sobre o justilho de pétalas,

Polvilhado de ouro fino.

Deus viu-as tristes, chorosas.

Nos seus ethéreos jardins,{120} E chorou co'as suas rosas,

Teve dó dos seus jasmins.

E como o pranto divino

Tambem, como pranto, queima,

Deus co'a sua voz, um hymno,

Dissera ás azas: «Trazei-m'a.»

E as azas, mal escutaram

A celeste melodia,

Obedeceram, voaram,

Qual d'ellas mais voaria.

Quando esse lirio nevado

Chegou de novo ao empireo,

Ia triste e maguado,

Deus estranhou o seu lirio!

E o que o lirio não dissera

Tudo Deus adivinhou.

Voando á celeste esphera,

Chorára emquanto voou.

As flôres do azul sorriam,

Os lirios do ceu cantavam,

Meus olhos já te não viam,

Meiga creança, e choravam.

Nunca tu azas tiveras,

Que te elevassem ao ceu

Nunca tu voar poderas

Co'as azas que Deus te deu.

24—2—87.{121}

 

JOÃO DE DEUS

João de Deus! De Deus... porque é divino.

João, ou seja o primo de Jesuz

Ou o outro que vela junto á Cruz,

É divino tambem.

E não atino

Senão co'esta rasão: foi prophecia

—Se já não foi destino—

De quem previu que João de Deus seria

Um poeta divino.

Ericeira, 21—10—90.

 

KERMESSE

O bem é como as auroras,

Que para tudo o que existe

Espalham luz e calor.

Seja alegre ou seja triste

A alma, o insecto, a ave, a flôr,

Tudo o que ri ou que chora

Sente nos raios da aurora

A esmola do eterno amor...

Os beijos do sol aquecem

Tudo o que é velho ou que é moço,

O ephémero e o colosso.

As rochas e os corações,

Os lagos e as ondas bravas,

Emporios e solidões,

As lagrimas das escravas

E os sorrisos das rainhas,

As cavernas dos leões

E os ninhos das andorinhas.{122}

E o bem é como as auroras.

Por isso ao bem não esquece

A creança, o ninho, a escola...

Tu és como o sol, esmola!

És como a aurora, kermesse!

OS TREZ VELHOS

I

Cahiu um nevão na serra.

Desde a cumiada ao val

Alveja rútila a terra.

Não houve nevão egual!

O ar gelado, cortante,

Passa sobre as povoações

Ceifando como um montante,

Rugindo como os leões.

Arvores sêcas, esguias

Olham para o ceu, talvez

A soluçar elegias,

Carpindo a sua nudez.

Cheias de fome, as manadas

Sobre as campinas despidas

Só róem urzes queimadas

E raizes ressequidas.

A fome, a doença, a morte

Assentaram arraiaes

Junto ao casal e á corte,

Levando gente e animaes.{123}

Famintas, as alcateas

Vem de noite ao povoado.

Tremem de medo as aldeas,

Ouvindo o lobo esfaimado...

E desde o alto da serra

Abre a neve o seu lençol.

O que seria da terra

Sem ter um raio de sol?!

II

Entre a egreja e o presbyterio

Corre, caiado de novo,

O muro do cemiterio.

Vem ali juntar-se o povo.

O sol, batendo no muro,

Aquece a pedra ao meio dia,

Torna o inverno menos duro,

Tempera a nortada fria.

Lá se juntaram trez velhos

Sêcos, rijos, vermelhaços,

Expondo ao sol os joelhos,

Estendendo ao sol os braços.

Emquanto o sol os aquece,

Riem-se elles da nortada.

Cada um seu mal esquece,

Vai tudo de patuscada.

—Tem morrido muita gente

Com esta grande invernia!...

—Pois nunca o inverno foi quente!

—Salvo... este sol do meio dia.{124}

—Este sol é a minha adéga:

Eu não quero outro calor.

—Você o vinho renega!...

—Lingua de mau pagador!

—O vinho é caro. A cacháça

Custa agora...

—Isso que monta!

—O sol dá-o Deus de graça!...

—Mas beba vinho com conta!

—Eu cá nunca fui borracho.

—Nanja eu. Mas acho-o bom.

—Diz um cacho a outro cacho:

Não bebas sem tom nem som!

E n'esta mansa folia

Vão-se aquecendo os trez velhos

Ao doce sol do meio dia,

Rijos, sêcos e vermelhos.

III

—Lá vem enterro... Isto agora...

Não tem descanso o coveiro!

—Vem d'acolá d'onde mora

A mulher do Zé Cabreiro.

—Foi o filho... É de creança

O caixão: eu inda vejo!

—O coveiro não descansa!...

—Inda hontem lhe dei um beijo!

—A quem? Ao coveiro?!

—Irra!

Ao filho do Zé Cabreiro.{125} —O frio as creanças mirra.

—Lá vem atraz o coveiro...

—A morte leva os fedelhos,

Mata n'um dia um rapaz,

Emquanto que nós, os velhos.

Vamos ficando p'ra traz!

—A morte é uma gulosa,

Gosta de bocados finos.

Carnes que cheirem a rosa,

Polpa de tenros meninos...

—Póde ser!...

—Pois certamente!

Nós cá, ossos esburgados,

Nem para a cova de um dente

Lhe chegavamos, coitados!

No alto mar me contava

Um velho de Guimarães

Que a terra se embebedava

Com as lagrimas das mães...

—Por isso lhes leva os filhos!...

A gulosa!... Quer banquete!

—Quem tem filhos tem cadilhos.

Morreram-me. Eu tive sete!...

—E eu nenhum.

—Nem eu.

—Agora,

Sem ter filhos nem mulher,

Visto que ninguem nos chora,

Nem mesmo a terra nos quer!...

Janeiro de 1891.{126}

 

AS POMBAS

(De Theophilo Gautier.)

Na collina dos mortos, entre os tumulos,

Ergue a bella palmeira a verde pluma,

E á tarde as mansas pombas de azas candidas

Vão aninhar ali, uma após uma.

De manhã, quando o sol desperta rutilo.

As brancas pombas vão, cortando o ar,

Como um solto collar no azul ethéreo,

Longe do ninho um tecto procurar.

Minha alma é como a solitaria arvore

Onde enxames de loucas illusões

Poisam á noite. Fugitivos hospedes,

Vão-se co'a luz as pombas e as visões.

8—2—87.

 

MULHER E GATA

(Paul Verlaine.)

O vel-a até dava gosto

Brincando co'a sua gata,

Branca mão contra alva pata,

Na penumbra do sol posto.

Mitene, que a mão recorta,

Por dissimular trabalha

Unha d'ágatha, que corta

E brilha como navalha.

Mas a gata, disfarçada

Tambem, com prazer ronrona{127} E ensaia a unha acerada...

Não é melhor do que a dona!

E os dois labios purpurinos

Enchiam de riso o ar,

Onde se viam, felinos,

Quatro phosphoros brilhar.

 

N'UMA SALA

A um canto, os politicos fallavam

Com um certo mysterio

Do modo como as coisas caminhavam,

Se estava forte ou fraco o ministerio.

Alguem que se mostrava resentido,

Abanava a cabeça—era um symptoma

De que a seu vêr o mundo está perdido

E tudo cae,—como caíra Roma!

Elle só, por sciencia e por estudo,

Era talvez capaz de salvar tudo...

N'outro canto da sala gorgeiava

A musica do riso e d'alegria

Um grupo que sorria e que fallava

De quanto ouvia e via.

Era o grupo formoso das solteiras,

O grupo dos vinte annos,

Que é capaz de passar noites inteiras,

Rindo de tudo,—até dos desenganos!

D'este grupo gentil como é que eu posso

Desenhar o esboço?

Precisaria ter as tintas finas,{128}

O magico pincel

De que dispunha o grande Raphael!

Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.

Quereriam talvez as bellas damas

Vêr no papel traçado o seu perfil?!

N'essa não caio eu...

Quem é capaz de retratar abril?

De transportar á tela o que é do ceu?

De copiar as flôres?

De imitar as estrellas?

De dizer á manhã: Roubei-te as côres?

Tende paciencia, ó minhas damas bellas,

Incumba cada uma o seu Romeu

D'esse arrojo inaudito.

Eu cá por mim, repito,

N'essa não caio eu...

E de mais eu bem sei, minhas senhoras,

Que me attendestes n'um serão inteiro

Por não haver na sala algum solteiro...

Sois boas, não sejaes enganadoras.

Eu já tenho trez filhos, eu sou velho,

Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,

E o maldito do espelho

Tem-me mostrado até... pés de gallinha!...

Vão muito longe as minhas primaveras.

De mais a mais, senhoras, a aza branca

Da musa ideal que eu tive n'outras eras

Desplumou-se a pensar em Salamanca,

No imposto sobre o sal,

A estudar as questões do parlamento,

O orçamento geral,{129}

—Diabo de orçamento!

Que é o livro maior que ha em S. Bento! Assim se foi rasgando, creio eu,

Essa aza branca que me erguia ao ceu!..

Vede, senhoras, se ha tormento igual!

O que me resta só,

Para de todo errar da sorte o alvo,