Me chame pelo seu nome

André Aciman · Capítulo 2 de 4 · parte 2/4

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Me chame pelo seu nome

PARTE 2: O penhasco de Monet

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Tentei lembrar. Ele estava de calção de banho quando entrou no meu quarto naquela tarde e prometeu ficar por perto. Olhei da sacada na esperança de enxergar o barco, caso Oliver tivesse decidido sair com ele de novo. Estava atracado em nosso cais.

Quando desci, meu pai estava tomando um drinque com um jornalista francês. — Por que não toca alguma coisa? — pediu ele.

— Non mi va — respondi. — Não estou com vontade.

— E perché non ti va? — perguntou ele, como se não tivesse gostado do tom das minhas palavras.

— Perché non mi va! — rebati.

Depois de finalmente ter cruzado uma barreira e tanto naquela manhã, parecia que eu podia expressar abertamente qualquer mesquinharia que passasse pela minha cabeça.

Talvez eu também devesse tomar um gole de vinho, disse meu pai.

Mafalda anunciou o jantar.

— Não está muito cedo para jantar? — perguntei.

— Já passa das oito.

Minha mãe acompanhava uma das amigas que tinha vindo de carro e precisava ir embora.

Fiquei grato pelo francês ainda estar na beirada da poltrona, como se prestes a se levantar para ser levado até a sala de jantar, mas ainda sentado, sem sair do lugar. Ele segurava um copo vazio, o que obrigava meu pai, que acabara de perguntar o que ele esperava da temporada de ópera a começar em breve, a permanecer sentado enquanto ele terminava de responder.

O jantar foi adiado por mais cinco ou dez minutos. Se Oliver chegasse atrasado para o jantar, não comeria conosco. Mas se chegasse atrasado significava que tinha jantado em outro lugar. Eu não queria que ele jantasse em outro lugar, queria que estivesse ali conosco naquela noite.

— Noi ci mettiamo a tavola, vamos nos sentar à mesa — disse minha mãe.

E então pediu que eu me sentasse ao lado dela.

A cadeira de Oliver estava vazia. Minha mãe reclamou que ele podia pelo menos avisar quando não viesse jantar.

Meu pai disse que podia ser culpa do barco de novo. Aquele barco devia ser completamente destruído.

Mas o barco estava lá embaixo, eu disse.

— Então deve ser a tradutora. Quem foi mesmo que disse que ele precisava encontrar a tradutora hoje à noite? — perguntou minha mãe.

Não devia demonstrar ansiedade. Ou que me importava. Fiquei calmo. Eu não queria sangrar de novo. Mas aquele momento, que agora parecia ser de felicidade, no qual pedalamos pela piazzetta antes e depois da nossa conversa, pertencia a outro segmento de tempo, como se tivesse acontecido com outro eu em outra vida que não era muito diferente da minha, mas suficientemente distante para fazer com que os poucos segundos que nos mantinham afastados parecessem a anos-luz de distância. Se colocasse meu pé no chão e fingisse que o dele estava bem atrás do pé da mesa, aquele pé, como uma nave espacial que ativou o escudo de invisibilidade, como um fantasma convocado pelos vivos, de repente se materializaria por uma dobra espacial dizendo “Sei que você me chamou. Procure e me encontrará.”

Logo a amiga da minha mãe, que no último minuto resolveu ficar para jantar, foi convidada a sentar no lugar que eu tinha ocupado no almoço. O prato do Oliver foi retirado imediatamente.

A retirada foi sumária, sem nem sinal de arrependimento ou remorso, como quando removemos uma lâmpada queimada ou limpamos as entranhas de um carneiro que costumava ser um animal de estimação, ou tiramos os lençóis e cobertores da cama em que alguém morreu. Aqui, pegue, tire isso de vista. Fiquei olhando seus talheres, seu sousplat, seu guardanapo, sua própria existência desaparecer. Era um presságio exato do que aconteceria dali a menos de um mês. Não olhei para Mafalda. Ela odiava essas mudanças de última hora na organização da mesa do jantar. Balançava a cabeça em repreensão a Oliver, a minha mãe, a nosso mundo. A mim também, imagino. Sem olhar para ela, eu sabia que seu olhar percorria meu rosto até me encarar diretamente, procurando estabelecer contato visual. Foi por isso que evitei tirar os olhos do meu semifreddo, que eu amava, e que ela sabia que eu amava e tinha deixado ali para mim porque, apesar do olhar de censura que com afinco buscava o meu, ela sabia que eu sabia que ela sentia pena de mim.

Mais tarde naquela noite, enquanto tocava algo ao piano, meu coração acelerou quando pensei ter ouvido uma scooter parar diante do nosso portão. Alguém tinha lhe dado uma carona. Mas eu podia estar enganado. Tentei ouvir seus passos, o som do cascalho sob seus pés até o bater seco das alpargatas quando ele subisse a escada que levava à varanda. Mas nenhum desses sons entrou na casa.

Muito, muito depois, na cama, ouvi uma música que vinha de um carro parado na estrada principal, além da alameda de pinheiros. Porta se abre. Porta bate. Carro sai. Música começa a sumir. Só o som da rebentação e do cascalho suavemente rearranjado pelos passos preguiçosos de alguém que está perdido em pensamentos ou levemente bêbado.

E se a caminho do quarto ele parasse no meu, como se dissesse: Pensei em dar uma olhada aqui antes de deitar e ver como você está. Tudo bem?

Nenhuma resposta.

Puto?

Nenhuma resposta.

Você está puto?

Não. Nem um pouco. É que você disse que estaria por aqui.

Então você está puto.

Então por que você não ficou por aqui?

Ele me encara e, de um adulto para outro, Você sabe exatamente por quê.

Porque você não gosta de mim.

Não.

Porque você nunca gostou de mim.

Não. Porque não sou bom para você.

Silêncio.

Acredite em mim, apenas acredite.

Levanto a ponta do lençol.

Ele balança a cabeça.

Só um pouco?

Não de novo. Eu me conheço, diz ele.

Ouvi Oliver dizer essas mesmas palavras antes. Querem dizer estou morrendo de vontade, mas talvez não consiga me segurar, então prefiro nem começar. Que desenvoltura dizer que não pode tocar alguém porque conhece a si mesmo.

Bom, já que não vai fazer nada comigo… pode pelo menos me contar uma história?

Eu me contentaria com isso. Queria que ele me contasse uma história. De Tchekhov, Gogol ou Katherine Mansfield. Tire a roupa, Oliver, e deite em minha cama, eu quero sentir sua pele, seu cheiro, seu cabelo no meu corpo, seu pé no meu, mesmo que a gente não faça nada, vamos ficar abraçados, você e eu, quando a noite se esparramar no céu, e conte histórias de pessoas inquietas que sempre acabam sozinhas e odeiam estar sozinhas porque é a si mesmas que não suportam…

Traidor, pensei enquanto esperava ouvir a porta do seu quarto abrir e fechar. Traidor. A facilidade com que esquecemos. Vou ficar por aqui. Claro. Mentiroso.

Nunca passou pela minha cabeça que eu também era um traidor, que em algum lugar na praia perto de casa uma garota tinha esperado por mim naquela noite, como esperava todas as noites, e que eu, como Oliver, não tinha sequer parado para pensar nela.

Ouvi quando ele chegou ao corredor. Tinha deixado a porta do meu quarto entreaberta, esperando que a luz de fora entrasse o suficiente para revelar meu corpo. Meu rosto estava virado para a parede. A decisão era dele. Passou direto, não parou. Nem sequer hesitou. Nada.

Ouvi sua porta fechar.

Poucos minutos depois, abriu de novo. Meu coração acelerou. Eu já estava suando e sentia o travesseiro úmido. Ouvi mais alguns passos. Então ouvi a porta do banheiro se fechar. Se ele abrisse o chuveiro significava que tinha transado com alguém. Ouvi a banheira e depois o chuveiro. Traidor. Traidor.

Esperei que ele saísse do banho. Mas estava demorando uma eternidade.

Quando finalmente virei para espiar o corredor, percebi que meu quarto estava completamente escuro. A porta estava fechada… alguém tinha entrado? Senti o cheiro do xampu Roger & Gallet que ele usava, tão perto de mim que se eu levantasse o braço sabia que tocaria seu rosto. Ele estava no meu quarto, em pé no escuro, sem se mexer, como se tentasse decidir se me acordava ou tentava vir até a cama no escuro. Ah, que noite abençoada, pensei, abençoada. Sem dizer uma palavra, tentei enxergar o roupão que eu tinha usado tantas vezes depois dele, o longo cinto de algodão tão perto de mim agora, encostando levemente em meu rosto enquanto ele ficava ali, pronto para deixar o roupão cair. Ele veio descalço? Tinha trancado a porta ao entrar? Estava tão duro quanto eu, e seu pau já queria sair do roupão, por isso o cinto estava quase acariciando meu rosto, ele estava fazendo isso de propósito, eram cócegas em meu rosto, não pare, não pare, nunca pare. Sem aviso, a porta começou a abrir. Por que abrir a porta agora?, eu me perguntei.

Tinha sido só uma corrente de ar. Uma corrente de ar tinha fechado a porta. E uma corrente de ar tinha aberto a porta. O cinto que tinha feito cócegas em meu rosto não era nada mais que o mosquiteiro encostando em meu rosto quando eu respirava. Do lado de fora, eu ouvia a água escorrer no banheiro, horas e mais horas pareciam ter passado desde que ele tinha entrado no banho. Não, não era o chuveiro, mas a descarga. Nem sempre funcionava e às vezes esvaziava quando estava prestes a transbordar, para encher de novo e esvaziar de novo, e mais uma vez, a noite toda. Quando saí na varanda e percebi a delicada luz azulada contornando o mar, soube que já estava amanhecendo.

Acordei de novo uma hora depois.

No café da manhã, como de costume, fingi nem notar sua presença. Foi minha mãe quem falou primeiro, Ma guardi un po’ quant’ è pallido, olhe só como está abatido! Apesar das brincadeiras, ela continuava sendo formal quando falava com Oliver. Meu pai ergueu o olhar e continuou lendo o jornal.

— Espero que tenha ganhado muito dinheiro ontem à noite, ou vou ter que me explicar ao seu pai.

Oliver abriu o topo do ovo quente com a colher de chá. Ainda não tinha aprendido.

— Eu nunca perco, Pro.

Ele falou para o ovo do modo que meu pai tinha falado para o jornal.

— Ele aprova isso?

— Eu uso meu próprio dinheiro. Faço isso desde o curso preparatório. Ele não teria como não aprovar.

Tive inveja dele.

— Bebeu muito ontem à noite?

— Entre outras coisas...

Desta vez ele estava passando manteiga no pão.

— Acho que não quero saber — disse meu pai.

— Meu pai também não. E, para ser sincero, eu mesmo não faço questão de lembrar.

Isso tinha sido por minha causa? Olha, nunca vai acontecer nada entre nós e, quanto antes você entender isso, melhor para todos.

Ou seria só pose?

Como eu admirava pessoas que falavam de seus vícios como se fossem parentes distantes que aprenderam a suportar porque não queriam deserdá-los. Entre outras coisas. Não faço questão de lembrar — assim como Eu me conheço — apontava para um reino da experiência humana a que só os outros tinham acesso, não eu. Como eu desejava poder dizer algo assim um dia… que eu não fazia questão de lembrar o que tinha feito à noite na glória da manhã. Fiquei imaginando quais seriam as outras coisas que demandavam um banho. Você tomou banho porque, do contrário, seu corpo não aguentaria? Ou tomou banho para esquecer, para lavar qualquer vestígio de obscenidade e degradação da noite anterior? Ah, declarar seus vícios balançando a cabeça e engoli-los com suco de damasco preparado na hora pelos dedos artríticos de Mafalda e estalar os lábios depois!

— Você guarda o que ganha?

— Guardo e invisto, Pro.

— Quem dera eu tivesse a sua cabeça com a sua idade; teria me poupado muitos desvios errados — disse meu pai.

— Você, desvios errados, Pro? Sinceramente, não consigo imaginar você nem pensando em um desvio errado.

— É porque você me vê como uma referência, não um ser humano. Pior: como uma referência velha. Mas houve. Desvios errados, quero dizer. Todos passamos por um período de traviamento… quando tomamos, digamos, uma direção diferente na vida, outra via. O próprio Dante passou por isso. Alguns se recuperam, alguns fingem se recuperar, alguns nunca voltam, alguns se acovardam antes mesmo de começar e alguns, por medo de fazer qualquer desvio, acabam levando uma vida errada até morrer.

Minha mãe soltou um suspiro melódico, seu jeito de avisar à plateia que aquilo poderia facilmente virar uma aula improvisada do grande homem.

Oliver começou a abrir outro ovo.

A pele logo abaixo dos olhos estava inchada. Parecia exausto.

— Às vezes o traviamento acaba se revelando o caminho certo, Pro. Ou um caminho tão bom quanto qualquer outro.

Meu pai, que àquela altura já estava fumando, assentiu pensativo, seu jeito de dizer que não era especialista no assunto e que estava mais que disposto a ceder aos que eram.

— Com a sua idade, eu não sabia de nada. Mas hoje todos sabem, e todos falam, falam, falam.

— Talvez o Oliver precise dormir, dormir, dormir.

— Signora P., prometo que esta noite não haverá nada de pôquer, nada de bebida. Vou colocar uma roupa limpa, revisar meu manuscrito e, depois do jantar, todos vamos assistir à TV e jogar cartas, como idosos em Little Italy. Mas antes — acrescentou, com um sorriso afetado no rosto —, preciso encontrar Milani. Hoje à noite, prometo, serei o garoto mais comportado de toda Riviera.

E foi o que aconteceu. Depois de uma escapada breve a B., ele assumiu o papel de Oliver “verde” o dia todo, uma criança com a idade de Vimini, com toda sua candura e nenhuma das suas farpas. Também mandou entregarem uma enorme diversidade de flores da floricultura da cidade.

— Você enlouqueceu — disse minha mãe.

Depois do almoço, ele disse que ia tirar um cochilo… o primeiro e único durante toda sua estadia conosco. E, de fato, cochilou, porque quando acordou por volta das cinco, parecia tão revigorado quanto alguém que tivesse rejuvenescido dez anos: bochechas coradas, olhos bem descansados, nem sinal da exaustão. Passaria por alguém com a minha idade. Conforme prometido, naquela noite todos nos sentamos — não havia convidados — e assistimos a novelas românticas. A melhor parte era que todos, incluindo Vimini, que entrou em algum momento, e Mafalda, que estava perto da porta da sala, reagiam a cada cena, previam o fim, por vezes indignados e rindo da estupidez da história, dos atores, dos personagens. Por quê, o que você teria feito no lugar dela? Eu teria ido embora. E você, Mafalda? Bem, na minha opinião ela devia ter aceitado na primeira vez que ele pediu, e não enrolado por tanto tempo. É exatamente o que eu quero dizer! Ela colheu o que plantou. Isso sim.

Fomos interrompidos apenas uma vez. Era uma ligação dos Estados Unidos. Oliver gostava de que suas conversas ao telefone fossem extremamente breves, quase bruscas. Ouvimos quando soltou seu inevitável Até depois!, desligou e, de repente, voltou perguntando o que tinha perdido. Ele nunca comentava nada depois de desligar. Nunca perguntávamos. Todos se ofereceram para deixá-lo a par da história ao mesmo tempo, incluindo meu pai, cuja versão do que Oliver tinha perdido era menos precisa do que a de Mafalda. Houve muito barulho, o que fez com que perdêssemos mais da novela do que Oliver havia perdido com a breve ligação. Muita risada. Em determinado momento, quando estávamos muito concentrados no drama, Anchise entrou na sala e, desenrolando uma camiseta velha ensopada, apresentou a pesca da noite: um robalo gigante, imediatamente destinado para o almoço e o jantar do dia seguinte, o suficiente para quantas pessoas quisessem se juntar a nós. Meu pai decidiu servir um pouco de grapa para todos, incluindo algumas gotinhas para Vimini.

Naquela noite todos fomos dormir cedo. Exaustão era a ordem do dia. Eu devo ter dormido muito profundamente porque, quando acordei, já estavam tirando o café da mesa.

Encontrei Oliver deitado na grama com um dicionário à esquerda e um bloco de anotações sob o peito. Eu esperava que ele aparentasse cansaço ou estivesse no mesmo clima do dia anterior, mas ele já estava mergulhado no trabalho. Fiquei desconfortável ao quebrar o silêncio. Me senti tentado a voltar ao hábito de fingir não notar sua presença, mas parecia difícil agir assim agora, principalmente porque ele tinha dito dois dias antes que sempre soube que era encenação.

Saber que tínhamos encenado mudaria alguma coisa entre nós agora que não estávamos nos falando de novo?

Provavelmente não. Poderia até aprofundar ainda mais a situação, porque seria difícil algum de nós dois acreditar que seríamos burros o suficiente para fingir exatamente aquilo que já tínhamos confessado ser fingimento. Mas não consegui me segurar.

— Esperei por você naquela noite.

Eu parecia minha mãe censurando meu pai quando ele chegava tarde sem explicações. Eu nunca tinha percebido que podia ser tão rabugento.

— Por que não foi até a cidade? — Foi a resposta dele.

— Sei lá.

— Foi divertido. Você também teria se divertido. Pelo menos descansou?

— De certa forma. Estava inquieto. Mas bem.

Ele tinha voltado a olhar para a página e movia os lábios, talvez para mostrar que estava concentrado na leitura.

— Você vai à cidade hoje de manhã?

Eu sabia que estava interrompendo e me odiava por isso.

— Depois, talvez.

Eu devia ter entendido o recado, e entendi. Mas parte de mim se recusava a acreditar que alguém podia mudar tão rápido.

— Eu também estava pensando em ir.

— Sei.

— Um livro que encomendei finalmente chegou. Fiquei de buscar na livraria hoje de manhã.

— Que livro?

— Armance.

— Posso pegar se você quiser.

Olhei para ele. Eu me sentia uma criança que, apesar de toda sorte de pedidos e avisos indiretos, é incapaz de lembrar aos pais que eles prometeram levá-la à loja de brinquedos. Não havia motivo para rodeios.

— É que eu pensei que poderíamos ir juntos.

— Como naquele dia? — completou ele, como se me ajudasse a dizer o que eu não conseguia dizer sozinho, mas não facilitando as coisas ao fingir que tinha esquecido o dia exato.

— Não acho que vamos fazer algo como aquilo de novo. — Tentei soar nobre e solene em minha derrota. — Mas, sim, como naquele dia. — Eu também podia ser vago.

O fato de eu, um garoto extremamente tímido, ter reunido a coragem necessária para dizer tudo aquilo só podia ser consequência de uma coisa: um sonho que tive duas, talvez três noites seguidas. No sonho, ele me implorava, dizendo “Você vai me matar se parar”. Eu achava que lembrava o contexto, mas a vergonha era tanta que eu estava relutante em reconhecer, até para mim mesmo. Eu havia encoberto aquilo e só conseguia dar espiadas rápidas e furtivas.

— Aquele dia pertence a outro espaço-tempo. Devemos entender isso e aceitar…

Oliver ficou ouvindo.

— Essa voz da razão é sua melhor característica. — Ele ergueu o olhar do bloco de anotações e estava me encarando, me deixando muito desconfortável. — Você gosta tanto assim de mim, Elio?

— Se eu gosto de você?

Eu queria parecer incrédulo, como se não acreditasse que ele fosse capaz de duvidar de algo assim. Mas então pensei melhor e estava prestes a suavizar o tom da resposta com um Talvez significativamente evasivo que na verdade queria dizer Com certeza, quando soltei:

— Se eu gosto de você, Oliver? Eu idolatro você.

Pronto, estava às claras. Eu queria que a palavra o pegasse de sobressalto e que fosse como um tapa na cara para que em seguida pudessem vir os afagos mais doces. O que é gostar diante de idolatrar? Mas eu também queria que meu verbo carregasse o golpe persuasivo como nas situações em que não a pessoa interessada em nós, mas seu amigo mais próximo nos puxa de lado e diz Olha, eu acho que você precisa saber, fulano idolatra você. “Idolatrar” parecia dizer mais do que qualquer pessoa ousaria dizer sob quaisquer circunstâncias; mas era a coisa mais segura e, no fim das contas, obscura que eu poderia ter dito. Fiquei impressionado por ter dito a verdade e, ao mesmo tempo, encontrado um atalho para retirada imediata caso tivesse ido longe demais.

— Vou com você a B. — disse ele. — Mas… sem discursos.

— Sem discursos, nada, nem uma palavra.

— O que acha de pegarmos as bicicletas em meia hora?

Ah, Oliver!, exclamei para mim mesmo a caminho da cozinha para um lanche rápido. Eu faço qualquer coisa por você. Subo o penhasco com você, e aposto corrida com você na estrada que leva à cidade, e não aponto o mar quando chegarmos ao penhasco, e espero por você no bar na piazzetta enquanto fala com a tradutora, e toco o memorial aos soldados anônimos que morreram no Piave, e não digo uma palavra, mostro o caminho até a livraria, e paramos nossas bicicletas do lado de fora da loja e entramos juntos e saímos juntos, e prometo, prometo, prometo, não falarei em Shelley, ou Monet, nem me inclinarei para contar que há duas noites você colocou um anel de crescimento no tronco da minha alma.

Vou desfrutar o momento pelo que ele é, dizia a mim mesmo. Somos dois jovens andando de bicicleta, e vamos pedalar até a cidade e voltar, e vamos nadar, jogar tênis, comer, beber e, à noite, nos encontrar na mesma piazzetta onde havia duas manhãs dissemos tanto, mas na verdade nada. Ele vai estar com uma garota, eu vou estar com uma garota, e vamos até parecer felizes. Todos os dias, se eu não estragar as coisas, podemos pedalar até a cidade e voltar, e mesmo se isso for tudo que ele se dispuser a dar, vou aceitar; posso aceitar menos, até, nem que seja para viver de migalhas.

Pedalamos até a cidade aquela manhã e passamos rápido pela tradutora, mas, mesmo depois de um café às pressas no bar, a livraria ainda não estava aberta. Então ficamos na piazzetta, eu olhando para o memorial, ele para a vista da baía colorida, nenhum de nós dizendo uma palavra sobre o fantasma de Shelley, que acompanhava cada passo que dávamos na cidade e chamava mais alto que o pai de Hamlet. Sem pensar, ele perguntou como alguém podia se afogar naquele mar. Sorri no ato, porque percebi sua tentativa de voltar atrás, o que imediatamente trouxe sorrisos cúmplices aos nossos lábios, como um beijo molhado e apaixonado no meio de uma conversa entre dois indivíduos que, sem pensar, buscam os lábios um do outro, atravessando o deserto vermelho escaldante que tinham colocado intencionalmente no caminho para que não buscassem a nudez do outro.

— Achei que não íamos falar de… — comecei.

— Sem discursos. Eu sei.

Quando voltamos à livraria, deixamos as bicicletas do lado de fora e entramos.

Parecia especial. Como mostrar a alguém uma capela particular, um lugar secreto, onde, como o penhasco, vamos para ficar sozinhos, para sonhar com outras pessoas. Era aqui que eu sonhava com você antes de você entrar na minha vida.

Gostei do comportamento dele na livraria. Demonstrava curiosidade, mas não atenção, interesse, e sim uma leve indiferença, alternando entre Olhe o que eu achei e É claro, como uma livraria poderia não ter esse livro!

O vendedor tinha encomendado duas cópias de Armance, de Stendhal, uma brochura e outra mais cara, de capa dura. Um impulso me fez dizer que levaríamos as duas e que ele devia colocar na conta do meu pai. Então pedi uma caneta ao assistente, abri a edição de capa dura e escrevi “Zwischen Immer und Nie, para você em silêncio, em algum lugar na Itália em meados dos anos oitenta”.

Nos anos que viriam, caso ainda tivesse o livro, queria que ele sentisse saudade. Melhor ainda, queria que alguém que estivesse olhando seus livros um dia abrisse aquele pequeno volume de Armance e perguntasse: Quem estava em silêncio em algum lugar na Itália em meados dos anos oitenta? Então queria que ele sentisse algo tão agudo quanto o pesar e mais feroz que o arrependimento, talvez até pena de mim, porque na livraria naquela manhã eu também teria aceitado a pena, se fosse tudo que ele tivesse a oferecer, se a pena pudesse fazer com que ele me abraçasse e, sob essa onda de pena e arrependimento, suspensa como uma corrente vaga e erótica que levara anos para se formar, eu queria que ele se lembrasse daquela manhã no penhasco de Monet em que o beijei não pela primeira, mas pela segunda vez e coloquei minha saliva em sua boca porque queria desesperadamente a dele na minha.

Ele disse algo sobre ser o melhor presente que recebeu o ano inteiro. Dei de ombros diante daquela gratidão formal. Talvez eu só quisesse que ele repetisse.

— Fico feliz. Só queria agradecer por esta manhã. — E antes que ele pudesse pensar em interromper, acrescentei: — Eu sei. Sem discursos. Nunca.

Ao descer a colina, passamos pelo meu lugar, e desta vez fui eu quem desviou o olhar, como se tivesse esquecido o que aconteceu. Tenho certeza de que se olhasse para ele naquele momento, teríamos trocado o mesmo sorriso contagiante que sumira imediatamente de nosso rosto quando ele citou a morte de Shelley. Poderia ter nos aproximado, só para nos lembrar do quanto precisávamos nos afastar. Talvez, ao desviar o olhar e saber que tínhamos desviado para evitar “discursos”, tivéssemos encontrado um motivo para sorrir um para o outro, pois tenho certeza de que ele sabia que eu sabia que ele sabia que eu estava evitando qualquer menção ao penhasco de Monet, e que essa atitude, que deveria nos separar, era, na verdade, um momento perfeitamente sincronizado de intimidade que nenhum de nós desejava dissipar. Esse lugar também está naquele livro, eu poderia ter dito, mas me contive. Sem discursos.

No entanto, se durante o passeio das manhãs seguintes ele perguntasse, eu falaria tudo.

Contaria que embora pedalássemos todos os dias até nossa piazzetta preferida, onde eu decidia nunca falar fora de hora, todas as noites, quando eu sabia que ele estava na cama, ainda abria a persiana e ia até a varanda, torcendo para que ele ouvisse o som revelador das dobradiças antigas quando minha porta se abrisse. Esperava por ele lá, apenas com o short do pijama, pronto para declarar, se ele perguntasse o que eu estava fazendo ali, que a noite estava muito quente e o cheiro de citronela insuportável, e que eu preferia ficar acordado, sem dormir, sem ler, só olhando para o nada, porque não conseguia dormir, e se ele perguntasse por que eu não conseguia dormir, simplesmente responder Você não quer saber, ou, de maneira indireta, dizer que eu tinha prometido nunca passar para o lado dele da sacada, em parte porque morria de medo de ofendê-lo, mas também porque não queria testar a armadilha invisível entre nós — De que armadilha você está falando?; a armadilha que, uma noite dessas, se meu sonho fosse muito poderoso ou eu tivesse bebido mais vinho que o normal, poderia acionar facilmente, abrir sua porta e dizer Oliver, sou eu, não consigo dormir, posso ficar com você? Essa armadilha!

* * *

A armadilha se fazia notar a noite toda. Uma coruja, o som da persiana do quarto de Oliver rangendo com o vento, a música que varava a madrugada vinda da boate distante de uma cidade na colina, os gatos brigando tarde da noite, o estalar do lintel de madeira da porta do meu quarto, qualquer coisa me acordava. Mas eu conhecia esses barulhos desde a infância e, como um fauno sonolento abanando o rabo para espantar um inseto intruso, sabia afastá-los e pegar no sono novamente. Às vezes, no entanto, um quase nada, como a sensação de pavor ou vergonha, conseguia se libertar do meu sono e pairar indefinidamente sobre mim enquanto eu dormia e, curvando-se em direção ao meu ouvido, finalmente dizia Não estou tentando acordá-lo, não mesmo, volte a dormir, Elio, continue dormindo. E enquanto isso eu fazia de tudo para recuperar o sonho para o qual retornaria a qualquer momento, um que poderia quase reeditar se me esforçasse um pouco mais.

Mas o sono não vinha e, claro, não apenas um, mas dois pensamentos perturbadores, como fantasmas se materializando na névoa do sono, passavam a me vigiar: o desejo e a vergonha, a vontade de abrir minha janela e, sem pensar, correr nu até o quarto dele e, por outro lado, minha recorrente incapacidade de correr o menor risco ao fazer algo assim. Lá estavam eles, o legado da juventude, as duas mascotes da minha vida, a fome e o medo, me vigiando e dizendo Tantos antes de você arriscaram e foram recompensados, por que você não consegue? Nenhuma resposta. Tantos se recusaram, por que você se recusa? Nenhuma resposta. Então o escárnio vinha, como sempre: Se não depois, Elio, quando?

Naquela noite, mais uma vez, uma resposta veio, embora tenha vindo em um sonho que era um sonho dentro de um sonho. Acordei com uma imagem que me dizia mais do que eu queria saber, como se, apesar de todas as confissões sinceras que fazia a mim mesmo sobre o que queria dele, e como queria, ainda houvesse alguns detalhes que eu evitava. Nesse sonho, finalmente descobri o que meu corpo devia saber desde o primeiro dia. Estávamos no quarto dele e, ao contrário de todas as minhas fantasias, não era eu quem estava deitado na cama, mas Oliver; eu estava em cima dele, via em seu rosto uma expressão tão corada, tão submissa que, mesmo no sonho, arrancou qualquer emoção que eu poderia sentir e me disse a única coisa que eu jamais teria adivinhado até então: que não pagar o preço de dar a ele o que eu queria dar poderia ser o maior crime de toda a minha vida. Eu queria desesperadamente dar algo a ele. No entanto, pegar algo dele parecia tão insosso, tão superficial, tão mecânico. Foi quando ouvi, como já sabia que ouviria. “Você vai me matar se parar”, ele estava ofegante, consciente de que já tinha dito essas exatas palavras para mim algumas noites antes em outro sonho, mas de que, tendo-as proferido uma vez, também estava livre para repeti-las sempre que entrasse em meus sonhos, embora nenhum de nós parecesse saber se era a voz dele saindo de dentro de mim ou se minha memória daquelas palavras é que explodia nele. Seu rosto, que parecia ao mesmo tempo suportar minha paixão e, com isso, incentivá-la, passava uma imagem de gentileza e calor que eu nunca tinha visto e jamais teria imaginado no rosto de alguém. Essa mesma imagem dele viria a se tornar um farol em minha vida, fazendo a vigília nos dias em que eu estivesse prestes a desistir, reacendendo meu desejo sempre que eu quisesse sufocá-lo, alimentado as brasas da coragem sempre que eu temesse que seu desprezo desmantelasse qualquer orgulho que ainda me restasse. A expressão dele era como a foto de um ente querido que os soldados levam ao campo de batalha não apenas para lembrá-los de que há coisas boas na vida e que a felicidade espera por eles, mas também de que a vida pode nunca perdoá-los se voltarem em um saco preto.

Essas palavras me faziam desejar e experimentar coisas de que jamais pensei que fosse capaz.

Independentemente do quanto desejasse não se envolver comigo, independentemente das amizades que tivesse feito e de com quem dormisse todas as noites, qualquer um que me revelasse toda sua humanidade, deitado nu sob mim, mesmo que em sonho, não poderia ser diferente na vida real. Aquele era seu eu verdadeiro; o restante era simulação e erro.

Não; ele também era outro homem, o do calção de banho vermelho.

Eu é que não tinha mais esperança de que um dia o veria sem calção.

Se na segunda manhã depois da piazzetta eu reuni coragem de insistir em ir à cidade com ele, embora estivesse óbvio que ele não queria nem falar comigo, era só porque, quando olhei para Oliver e o vi mexendo os lábios ao ler as palavras que tinha escrito em seu bloco de anotações, eu me lembrava daquelas palavras de súplica: “Você vai me matar se parar.” Quando ofereci o livro na livraria, e depois até insisti em pagar o sorvete porque comprar sorvete também significava passar com as bicicletas pelas ruas estreitas e sombreadas de B. e, portanto, ficar mais um pouco juntos, também era para agradecer-lhe por ter me dado o “Você vai me matar se parar”. Mesmo quando o provoquei e prometi não fazer discursos, era porque secretamente ansiava pelo “Você vai me matar se parar”, muito mais precioso agora do que qualquer outra confissão que ele pudesse fazer. Naquela manhã, escrevi essas palavras em meu diário, mas omiti o fato de que tinham sido ditas em um sonho. Queria voltar anos depois e acreditar, mesmo que só por um instante, que ele tinha de fato proferido essas palavras suplicantes. O que eu queria preservar era o suspiro pesado em sua voz que ficou comigo por dias, e se pudesse tê-lo assim em meus sonhos toda noite, passaria o resto da vida nos sonhos e desistiria da realidade.

Enquanto descíamos, passando pelo meu lugar favorito e pelas oliveiras, pelos girassóis que viraram o rosto surpreso para nós quando deslizamos, pelos pinheiros, pelos dois vagões que tinham perdido as rodas havia gerações, mas ainda carregavam as insígnias reais da Casa Savoia, pelo grupo de vendedores ciganos que gritaram quando passamos quase atropelando suas filhas com as bicicletas, virei para ele e gritei:

— Me mate se eu parar.

Eu disse para colocar as palavras dele na minha boca, para saboreá-las por mais tempo antes de guardá-las de novo em meu esconderijo, como pastores que levam as ovelhas para as montanhas quando está calor, mas as trazem de volta para dentro assim que esfria. Ao gritar as palavras dele, elas se concretizavam e ganhavam mais tempo, como se tivessem vida própria agora, uma vida mais longa e clara que ninguém poderia controlar, como a vida dos ecos ao bater nos penhascos de B. e mergulhar nas águas distantes onde o barco de Shelley encontrou a tempestade. Eu restituía a Oliver o que era seu, devolvia suas palavras com um desejo implícito de que ele as repetisse de volta para mim, como no sonho, porque agora era sua vez de dizê-las.

* * *

Durante o almoço, nem uma palavra. Depois do almoço, ele sentou à sombra no jardim para fazer, como anunciou antes do café, o trabalho de dois dias. Não, ele não ia para a cidade à noite. Talvez no dia seguinte. Também não ia jogar pôquer. Então subiu.

Alguns dias antes, o pé dele era meu. Agora, nem mesmo um olhar.

Perto da hora do jantar, ele desceu para tomar um drinque.

— Vou sentir falta disso tudo, Sra. P. — disse, o cabelo brilhando após a ducha ao fim da tarde, a aparência de star presente em todas as suas características.

Minha mãe sorriu; il muvi star era bem-vindo ennni taime. Depois ele deu a caminhada de sempre com Vimini para ajudá-la a procurar pelo camaleão de estimação. Nunca entendi o que eles viam um no outro, mas parecia muito mais natural e espontâneo do que qualquer coisa que ele e eu compartilhávamos. Meia hora depois, voltaram. Vimini tinha subido em uma figueira, e sua mãe mandou que fosse tomar banho antes do jantar.

Durante a refeição, nenhuma palavra. Depois do jantar, ele desapareceu lá em cima.

Eu poderia jurar que por volta das dez ele tinha dado uma fugida para a cidade. Mas via a luz acesa no lado dele da varanda. Lançava um fraco raio alaranjado em direção à minha porta. De vez em quando, ouvia-o se mexer.

Decidi ligar para um amigo e perguntar se ele ia à cidade. A mãe respondeu que ele já havia saído e que, sim, provavelmente tinha ido ao mesmo lugar. Liguei para outro. Também já tinha saído. Meu pai disse:

— Por que você não liga para a Marzia? Está evitando a garota?

Evitando não, mas ela parecia complicada demais.

— Como se você não fosse! — acrescentou ele.

Quando liguei ela disse que não ia sair naquela noite. Havia frieza em sua voz. Eu estava ligando para pedir desculpas.

— Soube que você esteve doente.

Não era nada. Respondi. Eu podia ir buscá-la de bicicleta para irmos juntos a B. Ela disse que iria comigo.

Meus pais assistiam à TV quando eu saí. Ouvi meus passos no cascalho. Não me importei com o barulho, porque me fazia companhia. Ele também ouviu, pensei.

Marzia me encontrou em seu jardim. Estava sentada em uma cadeira velha de ferro fundido, com as pernas esticadas à frente, só os calcanhares tocando o chão. A bicicleta estava encostada em outra cadeira, o guidão também tocando o chão. Ela usava suéter. Você me fez esperar muito, disse ela. Saíamos por um atalho que era mais íngreme, mas que nos levou rapidamente à cidade. A luz e o som da agitada vida noturna que vinham da piazzetta invadiam os becos. Um dos restaurantes tinha o hábito de colocar mesinhas de madeira na calçada sempre que sua clientela lotava o espaço alocado na praça. Quando entramos na piazza, a agitação me causou a habitual sensação de ansiedade e inadequação. Marzia encontraria amigos, outros iam me provocar. O simples fato de estar com ela seria um desafio para mim de alguma forma. Eu não queria ser desafiado.

Em vez de nos juntarmos a algumas pessoas que conhecíamos em uma mesa nos caffès, entramos na fila para comprar dois sorvetes. Ela pediu que eu comprasse cigarros também.

Então, com os sorvetes, começamos a percorrer casualmente a piazzetta lotada, caminhando devagar por uma rua, depois por outra, e por outra. Eu gostava quando os paralelepípedos brilhavam no escuro, gostava de como ela e eu caminhávamos devagar com as bicicletas, ouvindo as conversas abafadas das TVs que vinham das janelas abertas. A livraria ainda estava aberta, e perguntei se ela se importava. Não, ela não se importava, podia entrar comigo. Encostamos as bicicletas no muro. O som da esvoaçante cortina de contas revelou uma loja esfumaçada repleta de cinzeiros cheios até a boca. O dono pensava em fechar logo, mas o quarteto de Schubert ainda estava tocando e um casal de vinte e poucos anos, turistas, olhava os romances na seção de língua inglesa, provavelmente procurando por algum que tivesse a atmosfera local. Como era diferente daquela manhã em que não havia uma alma por ali e a luz forte do sol e o cheiro de café fresco tomavam conta da loja. Marzia ficou olhando por cima do meu ombro quando peguei um livro de poesia da mesa e comecei a ler um dos poemas. Estava prestes a virar a página quando ela disse que não tinha terminado de ler. Gostei disso. Percebendo que o casal ao nosso lado ia comprar um romance italiano traduzido, interrompi a conversa e aconselhei que não o fizessem.

— Este é muito, muito melhor. É ambientado na Sicília, não aqui, mas deve ser o melhor romance italiano do século.

— Nós assistimos ao filme — disse a mulher. — É tão bom quanto Calvino, não é?

Dei de ombros. Marzia ainda estava interessada no mesmo poema, que agora relia.

— Calvino não é nada em comparação… Mas sou só um garoto, quem sou eu para dizer?

Dois outros jovens, usando paletós elegantes, sem gravata, discutiam sobre literatura com o dono, os três fumavam. Na mesa ao lado do caixa, havia várias taças de vinho quase vazias e, perto delas, uma grande garrafa de vinho do porto. Os turistas, percebi, seguravam taças vazias. Obviamente tinham oferecido vinho a eles durante a festa. O dono olhou para nós e, com um olhar que parecia pedir desculpas por interromper, perguntou se também queríamos um pouco de vinho do porto. Olhei para Marzia e dei de ombros, querendo dizer Acho que ela não quer. O dono, ainda em silêncio, apontou para a garrafa e balançou a cabeça em reprovação, sugerindo que seria uma pena desperdiçar um porto tão bom, então por que não ajudá-lo a terminar a garrafa antes de fechar a loja? Por fim aceitei, Marzia também. Por educação, perguntei qual era o livro que estavam celebrando. Outro homem, cuja presença eu não tinha notado porque estava lendo no canto, disse o nome do livro: Se l’amore. Se o amor.

— É bom? — perguntei.

— Uma porcaria — respondeu ele. — Eu deveria saber. Eu escrevi.

Senti inveja. Senti inveja da leitura, da festa, dos amigos e fãs que tinham vindo dos arredores para parabenizá-lo na pequena livraria da nossa pequena piazzetta na nossa pequena cidade. Tinham deixado mais de cinquenta taças vazias. Senti inveja do privilégio de se diminuir.

— Você assinaria um exemplar para mim?

— Con piacere — respondeu ele e, antes mesmo que o dono pudesse lhe entregar uma caneta, já tinha sacado sua Pelikan. — Não sei se este livro é para você, mas…

Ele deixou a fala pairar no silêncio em uma mistura da mais pura humildade manchada por uma leve sugestão de arrogância, que se traduzia em Você pediu que eu assinasse e fico feliz em desempenhar o papel de poeta famoso que nós dois sabemos que eu não sou.

Decidi comprar um exemplar para Marzia e implorei que ele o assinasse, pedido ao qual atendeu, trançando um rabisco sem fim ao lado do seu nome.

— Também não acho que seja para você, signorina, mas…

Então, mais uma vez, pedi ao vendedor que colocasse os livros na conta do meu pai.

Ao lado do caixa, esperando enquanto o vendedor levava uma eternidade para embalar cada exemplar em um papel amarelo brilhoso, colocar uma fita e, na fita, o adesivo prateado da loja, me aproximei e, talvez por ela simplesmente estar ali tão perto de mim, dei um beijo atrás de sua orelha.

Ela pareceu surpresa, mas não se mexeu. Beijei-a mais uma vez. Então, me contendo, sussurrei:

— Você se incomoda?

— É claro que não — sussurrou ela em resposta.

Do lado de fora, ela não conseguiu se segurar:

— Por que você me deu este livro?

Por um instante, achei que ela fosse perguntar por que eu a tinha beijado.

— Perché mi andava… porque me deu vontade.

— Sim, mas por que comprou para mim… por que comprou um livro para mim?

— Não sei por que você está perguntando isso.

— Um idiota entenderia por que estou perguntando. Mas você não. Imagine só!

— Ainda não entendi.

— Você não tem jeito.

Olhei para ela, parecendo completamente surpreso com o tom de raiva em sua voz.

— Se você não me disser, vou imaginar todo tipo de coisa… e vou me sentir horrível.

— Você é um cretino. Me dá um cigarro.

Não que eu não suspeitasse aonde ela queria chegar, eu só não conseguia acreditar que ela me entendia tão claramente. Talvez eu não quisesse acreditar no que ela sugeria porque tinha medo de ser obrigado a explicar meu comportamento. Será que eu era dissimulado de propósito? Eu seria capaz de seguir fingindo não entender o que ela estava dizendo sem me sentir totalmente desonesto?

Então tive uma ideia brilhante. Talvez eu tivesse ignorado todas suas insinuações de propósito: para obrigá-la a tomar a iniciativa. É a estratégia ineficaz da timidez.

Só então, por um mecanismo de ricochete que me pegou totalmente de surpresa, me ocorreu. Será que Oliver estava fazendo a mesma coisa comigo? Estava me ignorando de propósito só para me atrair? Não foi isso que ele sugeriu quando disse que minhas tentativas de ignorá-lo tinham sido óbvias?

Saímos da livraria e acendemos dois cigarros. Um minuto depois ouvimos um som metálico alto. O dono estava baixando as portas.

— Você gosta tanto assim de ler? — perguntou ela enquanto andávamos devagar no escuro em direção à piazzetta.

Olhei para ela como se tivesse me perguntado se eu amava música, ou pão com manteiga, ou pêssegos maduros no verão.

— Não me entenda mal — disse ela. — Eu também gosto de ler, mas não conto a ninguém.

Pelo menos, pensei, alguém que fala a verdade. Perguntei por que ela não contava a ninguém.

— Não sei… — Era o jeito dela de pedir um tempo para pensar antes de responder. — As pessoas que leem se escondem. Escondem quem são. Pessoas que se escondem nem sempre gostam de quem são.

— Você esconde quem você é?

— Às vezes. Você não?

— Eu? Acho que sim. — Então, contrário a todos os meus impulsos, tropecei em uma pergunta que talvez eu nunca ousasse perguntar. — Você esconde algo de mim?

— Não, de você não. Ou talvez, sim, um pouco.

— Tipo o quê?

— Você sabe exatamente o quê.

— Por que você acha isso?

— Por quê? Acho que você pode me machucar e não quero me machucar. — Então ela pensou por um instante. — Não que seja sua intenção machucar alguém, mas por estar sempre mudando de ideia, sempre pulando de uma coisa à outra, ninguém sabe onde encontrar você. Você me assusta.

Nós dois estávamos andando tão devagar que nem notamos ao parar. Cheguei mais perto dela e beijei seus lábios suavemente. Ela pegou a bicicleta, apoiou-a na porta de uma loja fechada e, se encostando na parede, disse:

— Me beija de novo?

Usando o pé de apoio, deixei a bicicleta no meio do beco e, quando estávamos próximos um do outro, segurei o rosto dela com as mãos. Então me inclinei e começamos a nos beijar, minhas mãos embaixo da sua camisa, as dela no meu cabelo. Eu amava sua simplicidade, sua doçura. Estavam em cada palavra que Marzia tinha dito naquela noite — livres, francas, humanas — e no modo como seus lábios respondiam aos meus, sem inibição, sem exagero, como se sua conexão entre lábios e quadris fosse fluida e instantânea. Um beijo na boca não era um prelúdio para um contato maior, já era o contato em sua totalidade. Não havia nada entre nossos corpos além de nossas roupas, por isso não fui pego de surpresa quando ela colocou a mão entre nós, baixando-a para dentro da minha calça, e disse:

— Sei duro, duro, você está tão duro.

E foi sua sinceridade, sem obstáculos ou restrições, que me deixou ainda mais duro.

Eu queria olhar para ela, olhar dentro de seus olhos enquanto estava em sua mão, dizer há quanto tempo eu queria beijá-la, dizer alguma coisa que mostrasse que a pessoa que havia ligado para ela naquela noite e a buscado em casa não era mais o garoto frio e sem vida, mas ela me atropelou:

Continuar: parte 3 de 4