Me chame pelo seu nome
PARTE 2: O penhasco de Monet
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Baciami ancora, me beija de novo.
Beijei-a outra vez, mas minha mente voava para o penhasco. Será que eu devia propor? Teríamos que pedalar por cinco minutos, principalmente se pegássemos o atalho dela e fôssemos direto para as oliveiras. Eu sabia que encontraríamos outros casais lá. Ou então poderíamos ir à praia. Eu já tinha usado aquele lugar. Todos já tinham. Eu poderia propor meu quarto, ninguém em casa saberia, ou se importaria.
Uma imagem surgiu em minha cabeça: ela e eu sentados no jardim todas as manhãs depois do café, ela de biquíni, sempre me pedindo para descer e nadar com ela.
— Ma tu mi vuoi veramente bene, você gosta mesmo de mim? — perguntou ela.
A pergunta surgiu do nada… ou aquele era o mesmo olhar ferido e precisando de acalento que vinha acompanhando nossos passos desde que saímos da livraria?
Eu não conseguia entender como a ousadia e a tristeza, como você está tão duro e você gosta mesmo de mim podiam estar tão entrelaçados. Nem conseguia imaginar como alguém que parecia tão vulnerável, hesitante e ansiosa por compartilhar tantas incertezas sobre si mesma podia, com o mesmo gesto, colocar a mão dentro da minha calça com tamanha imprudência, segurar meu pau e não soltar.
Beijando-a com mais paixão, nossas mãos correndo o corpo um do outro, me peguei imaginando o bilhete que passaria por baixo da porta dele naquela noite: Não suporto o silêncio. Preciso falar com você.
* * *
Quando eu estava pronto para passar o bilhete por baixo da porta de Oliver, já estava amanhecendo. Marzia e eu transamos em um lugar deserto na praia, um lugar apelidado de Aquário, onde as camisinhas da noite inevitavelmente se reuniriam e seriam vistas flutuando entre as pedras como salmões boiando na água parada. Combinamos de nos encontrar mais tarde.
A caminho de casa, amei sentir seu cheiro em meu corpo, em minhas mãos. Não faria nada que pudesse apagá-lo. Ficaria com ele até nos encontrarmos à noite. Parte de mim ainda gostava de sentir aquela recém-encontrada e benéfica onda de indiferença em relação a Oliver, beirando o desgosto, mas que ao mesmo tempo que me agradava me dizia o quanto eu era inconstante. Talvez ele percebesse que tudo o que eu queria dele era sexo e tivesse decidido por instinto não se envolver comigo. E pensar que algumas noites antes eu tinha sentido um desejo tão forte de receber seu corpo no meu que quase pulei da cama para procurá-lo em seu quarto. Agora essa ideia jamais me excitaria. Talvez toda essa história com Oliver tenha sido uma rotina canicular da qual eu me livrara. Por outro lado, eu só precisava sentir o cheiro de Marzia em minha mão para amar toda mulher em cada mulher.
Eu sabia que aquilo não ia durar muito e que, como acontece com todos os viciados, era fácil para mim negar o vício imediatamente após uma pretensa solução.
Não levou nem uma hora para que Oliver surgisse em minha mente au galop. Imaginei que sentava na cama com ele e oferecia-lhe a palma da minha mão, então dizia Sinta esse cheiro e via-o cheirar a palma da minha mão, segurando-a com gentileza, depois colocando meu dedo médio em seus lábios e, de repente, dentro de sua boca.
Arranquei uma folha de um caderno.
Por favor, não me evite.
Então reescrevi:
Por favor, não me evite. Isso está me matando.
Que reescrevi:
Seu silêncio está me matando.
Muito exagerado. Seriam suas palavras exatas.
Não suporto pensar que você me odeia.
Muito choroso. Não, precisa ser menos lacrimoso, mas mantendo o discurso de morte.
Prefiro morrer a saber que você me odeia.
No último minuto, voltei ao original.
Não suporto o silêncio. Preciso falar com você.
Dobrei o pedaço de papel e passei por debaixo da porta dele com a apreensão resignada de César atravessando o Rubicão, sabendo que não tinha mais como voltar atrás. Alea iacta est, dissera ele, a sorte está lançada. Acho curioso o fato de que o verbo “lançar”, iacere em latim, tem a mesma raiz do verbo “ejacular”. Assim que pensei nisso entendi que queria levar a ele não apenas o cheiro dela nos meus dedos, mas, seca em minha mão, a marca do meu sêmen.
Quinze minutos depois fui tomado por duas emoções contrárias: arrependimento por ter enviado a mensagem e arrependimento por não haver nem uma gota de ironia nela.
No café da manhã, quando ele finalmente apareceu depois da corrida, tudo o que perguntou, sem levantar a cabeça, foi se eu tinha me divertido na noite anterior, sugerindo que eu tinha ido dormir muito tarde.
— Insomma, mais ou menos — respondi, tentando manter minha resposta o mais vaga possível, minha maneira de sugerir que estava minimizando um relato que, caso contrário, poderia se alongar demais.
— Deve estar cansado então. — Foi a contribuição irônica do meu pai à conversa. — Ou será que estava jogando pôquer?
— Não jogo pôquer.
Meu pai e Oliver trocaram olhares significativos. Então começaram a discutir o trabalho do dia. E eu o perdi. Mais um dia de tortura.
Quando voltei para o quarto para pegar meus livros, vi o mesmo pedaço de papel dobrado em cima da minha mesa. Ele deve ter entrado em meu quarto pela varanda e colocado o papel em um local onde eu pudesse ver. Se eu o lesse imediatamente, isso arruinaria meu dia. Mas se adiasse, o dia inteiro se tornaria insignificante, e eu não conseguiria pensar em mais nada. Muito provavelmente ele tinha devolvido sem acrescentar nada, como se dissesse Encontrei isso no chão. Deve ser seu. Até depois. Ou poderia ter um significado muito mais brusco: Sem resposta.
Vê se cresce. Vejo você à meia-noite.
Foi o que ele acrescentou embaixo das minhas palavras.
Tinha deixado antes do café da manhã.
Essa percepção me ocorreu com alguns minutos de atraso, mas me encheu de ansiedade e desânimo imediatos. Eu queria isso, agora que me ofereciam? E estava de fato sendo oferecido? E se eu quisesse ou não quisesse, como sobreviver até a meia-noite? Mal tinha passado das dez da manhã: ainda faltavam quatorze horas… A última vez que esperei tanto tempo por alguma coisa foi pelo meu boletim. Ou em um sábado dois anos antes quando uma garota prometeu que me encontraria no cinema, e eu não tinha certeza se ela tinha esquecido. Metade de um dia assistindo à minha vida inteira ser colocada em espera. Como eu odiava esperar e depender do capricho dos outros.
Será que eu devia responder ao bilhete?
Não dá para responder uma resposta!
Quanto ao bilhete: o tom era intencionalmente leve, ou o objetivo era parecer um pensamento rabiscado minutos depois da corrida e segundos antes do café da manhã? Eu percebi a cutucada em meu sentimentalismo operístico seguida pelo confiante e básico vejo você à meia-noite. Seria um bom presságio? E qual ganharia, o golpe de ironia ou o animado vamos nos encontrar mais tarde e ver no que dá? Íamos conversar… só isso? Seria uma ordem ou um consentimento me encontrar em uma hora descrita em todo romance e toda peça? E onde nos veríamos à meia-noite? Ele encontraria um momento ao longo do dia para me dizer o local? Ou, consciente de que eu havia passado a noite inteira inquieto e de que a armadilha que separava nossos lados da varanda era totalmente artificial, ele imaginava que um de nós cruzaria a Linha Maginot como se fosse a coisa mais fácil do mundo?
E o que seria do nosso quase ritualístico passeio de bicicleta pela manhã? “Meia-noite” substituiria o passeio matinal? Ou seguiríamos como antes, como se nada tivesse mudado, a não ser pelo fato de que tínhamos um “meia-noite” pelo qual esperar? Quando o encontrar a partir de agora, devo dar um sorriso significativo ou seguir como antes, oferecendo, em vez disso, um olhar frio, vítreo e discreto?
Ainda assim, a gratidão estava entre as muitas coisas que eu desejava mostrar a Oliver na próxima vez que nossos caminhos se cruzassem. É possível demonstrar gratidão e não ser considerado intrometido e incômodo. Ou será que a gratidão, por mais comedida que seja, sempre carrega aquela dose extra de mel que dá a qualquer paixão mediterrânea a inevitável característica sentimental e histriônica? Impossível deixar que as coisas sigam seu curso, minimizá-las, é preciso exclamar, proclamar, declamar.
Se não disser nada ele vai pensar que você se arrependeu de ter escrito.
Se disser qualquer coisa será exagerado.
O que fazer, então?
Esperar.
Eu sabia disso desde o início. Só esperar. Trabalharia a manhã inteira. Nadaria. Talvez jogasse tênis à tarde. Encontraria Marzia. Voltaria à meia-noite. Não, onze e meia. Tomaria banho? Não, sem banho. Ah, ir de uma cama para a outra.
Não era isso que ele também ia fazer? Ir de uma cama para a outra?
Então um pânico terrível tomou conta de mim: meia-noite seria uma conversa, um esclarecimento… como quem diz se segura, alivia, vê se cresce!
Mas por que esperar até a meia-noite, então? Quem escolhe a meia-noite para ter uma conversa dessa?
Ou meia-noite seria meia-noite?
Que roupa usar à meia-noite?
* * *
O dia passou como eu temia. Oliver encontrou uma maneira de sair sem falar comigo logo depois do café e não voltou até o almoço. Sentou no lugar de sempre ao meu lado. Tentei puxar papo algumas vezes, mas percebi que seria mais um daqueles dias em que não nos falávamos e os dois tentavam deixar bem claro que o silêncio não era mais só fingimento.
Depois do almoço, fui tirar um cochilo. Ouvi Oliver subir e fechar a porta.
Mais tarde, liguei para Marzia. Nos encontramos na quadra de tênis. Por sorte estava vazia e tranquila, então jogamos durante horas sob o sol escaldante, algo que nós dois amávamos. Às vezes, sentávamos no velho banco à sombra e ouvíamos os grilos. Mafalda nos trouxe refrescos e avisou que estava muito velha para aquilo, que na próxima vez teríamos que ir buscar o que quiséssemos.
— Mas não pedimos que você trouxesse nada — protestei.
— Então não deviam ter bebido — rebateu e saiu, depois de ter marcado seu ponto.
Vimini, que gostava de assistir às pessoas jogando, não apareceu naquele dia. Devia estar com Oliver no lugar preferido deles.
Eu amava o clima de agosto. A cidade ficava mais tranquila do que o normal nas últimas semanas do verão. Todos já tinham ido embora para le vacanze, e os turistas ocasionais costumavam sair de lá às sete da noite. O que eu mais amava eram as tardes: o cheiro de alecrim, o calor, os pássaros, as cigarras, o balanço das folhas das palmeiras, o silêncio que parecia um xale de linho leve sobre um dia absolutamente ensolarado, tudo isso realçado pela caminhada até a praia e a caminhada de volta para tomar uma ducha. Eu gostava de olhar para a nossa casa da quadra de tênis e ver as varandas vazias banhadas de sol, de saber que de qualquer uma delas dava para ver o oceano sem fim. Aquela era minha varanda, meu mundo. De onde eu estava sentado, podia olhar em volta e dizer Aqui é nossa quadra de tênis, lá nosso jardim, nosso pomar, nosso galpão, e lá nossa casa e embaixo nosso cais… todos e tudo que eu amo está aqui. Minha família, meus instrumentos, meus livros, Mafalda, Marzia, Oliver.
Naquela tarde, sentado com Marzia e com a mão pousada em sua coxa e seu joelho, me ocorreu que eu era, nas palavras de Oliver, uma das pessoas mais sortudas do mundo: não dava para saber o quanto aquilo tudo ia durar, assim como não havia sentido em tentar adivinhar como o dia acabaria, ou a noite. Cada minuto parecia se estender dolorosamente. Tudo podia acabar em um instante.
Mas, sentado ali, eu soube que estava experimentando a felicidade branda daqueles que são supersticiosos demais para declarar que talvez tenham tudo o que sempre sonharam, e gratos demais para não estarem cientes de que poderiam perder tudo em um piscar de olhos.
Depois do tênis e antes de ir à praia, levei Marzia até o meu quarto pela varanda. Ninguém passava por ali à tarde. Fechei a persiana, mas deixei as portas abertas, e a luz fraca da tarde desenhou padrões na cama, na parede, em Marzia. Fizemos amor no mais completo silêncio, nenhum dos dois fechou os olhos.
Parte de mim esperava que batêssemos na parede, ou que ela não conseguisse conter um grito, e que isso alertasse Oliver a respeito do que estava acontecendo do outro lado da parede de seu quarto. Imaginei-o dormindo e ouvindo o barulho da cama, e então ficando incomodado.
A caminho da enseada mais uma vez fiquei feliz ao sentir que não me importava se ele descobrisse sobre nós, assim como não me importava se ele não aparecesse à noite. Não me importava com ele nem com seus ombros nem com o branco de seus braços. A sola de seus pés, a palma de suas mãos, a parte inferior do seu corpo… eu não me importava. Preferia passar a noite com ela do que esperar acordado por ele e ouvi-lo declamar devoções insossas à meia-noite. O que eu estava pensando de manhã quando entreguei o bilhete?
Ainda assim, outra parte de mim sabia que se ele aparecesse à noite e eu não gostasse do início do que quer que estivesse guardado para mim, eu iria até o fim, porque é melhor descobrir de uma vez por todas do que passar o resto do verão, ou talvez da vida, brigando com meu próprio corpo.
Tomaria uma decisão a sangue-frio. E, se ele perguntasse, eu responderia. Não sei se quero ir em frente com isso, mas preciso saber, e melhor que seja com você do que com qualquer outro. Quero conhecer seu corpo, quero conhecer seus sentimentos, quero conhecer você e, através de você, conhecer a mim mesmo.
Marzia foi embora logo antes do jantar. Tinha prometido ir ao cinema. Com uns amigos, disse. Por que eu não ia também? Fiz uma careta ao ouvir os nomes dos amigos. Ficaria em casa para praticar, disse. Pensei que você praticasse de manhã. Hoje comecei tarde, lembra? Ela entendeu a mensagem nas entrelinhas e sorriu.
Faltavam três horas.
Um silêncio triste pairou entre nós por toda a tarde. Se ele não tivesse dado sua palavra de que conversaríamos, não sei como teria sobrevivido a mais um dia como aquele.
No jantar, os convidados eram um professor substituto de música e um casal gay de Chicago que insistia em falar um italiano terrível. Os dois homens sentaram lado a lado, de frente para minha mãe e para mim. Um deles decidiu recitar alguns versos de Pascoli, e Mafalda, ao ver minha cara, fez a smorfia de sempre para me fazer rir. Meu pai havia pedido que eu não me comportasse mal na presença dos acadêmicos de Chicago. Eu disse que usaria a camisa roxa que ganhei de um primo distante do Uruguai. Meu pai riu com certo deboche, dizendo que eu era muito velho para não aceitar as pessoas como elas eram. Mas vi um brilho em seus olhos quando os dois apareceram de camisa roxa. Os dois desceram do táxi ao mesmo tempo, cada um por um lado, e ambos seguravam ramalhetes de flores brancas. Pareciam, como meu pai deve ter percebido, uma versão florida e mais arrumadinha dos gêmeos Dupond e Dupont do Tintim.
Imaginei como seria a vida que levavam juntos.
Parecia estranho contar os minutos durante o jantar, encoberto pelo pensamento de que naquela noite eu tinha mais em comum com os Dupondt do que com meus pais ou qualquer outra pessoa do meu mundo.
Olhei para eles, me perguntando quem ficava por cima e quem ficava por baixo, Tweedledee ou Tweedledum.
Eram quase onze horas quando avisei que ia dormir e dei boa-noite aos meus pais e aos convidados.
— E a Marzia? — perguntou meu pai, com um brilho inconfundível nos olhos. Amanhã, respondi.
Eu queria ficar sozinho. Tomar banho. Ler um livro. Escrever no diário, talvez. Ficar concentrado na meia-noite e ao mesmo tempo me distrair de qualquer aspecto que a rondasse.
Enquanto subia as escadas, tentei me imaginar descendo aqueles mesmos degraus na manhã seguinte. Até lá eu podia ser outra pessoa. Eu gostava dessa outra pessoa que ainda não conhecia e que talvez não quisesse dizer bom-dia ou ter algo a ver comigo por eu ter causado tudo aquilo? Ou eu permaneceria exatamente a mesma pessoa que subia as escadas, sem nada de diferente, e nenhuma de minhas dúvidas solucionadas?
Ou talvez não acontecesse absolutamente nada. Ele poderia recusar e, ainda que ninguém descobrisse que eu tinha pedido, eu teria me humilhado a troco de nada. Ele saberia; eu saberia.
Mas eu já tinha passado do ponto da humilhação. Depois de semanas desejando e esperando e — vamos falar a verdade — implorando e sendo incentivado a esperar e lutar contra qualquer excesso de esperança, eu ficaria arrasado. Como dormir depois disso? Voltar para o quarto e fingir que abro um livro e leio até dormir?
Ou: como voltar a dormir não sendo mais virgem? Não tinha como voltar atrás! Aquilo que estava na minha cabeça havia tanto tempo agora estaria no mundo real, não flutuava mais em minhas ambiguidades sem fim. Eu me sentia como alguém entrando em um estúdio de tatuagem e dando uma última e longa olhada para o bíceps esquerdo em branco.
Será que eu devia ser pontual?
Seja pontual e diga: Uuuu, a hora da bruxa.
Logo ouvi a voz dos dois convidados na entrada. Estavam em pé lá fora, provavelmente esperando que o professor substituto os levasse de volta à pensão. O substituto estava demorando, e o casal ficou conversando, um deles ria.
À meia-noite não se ouvia nenhum barulho vindo do quarto dele. Será que eu havia levado mais um bolo? Isso seria demais. Não tinha escutado ele voltar, então era ele que deveria vir até o meu quarto. Ou eu devia ir até o dele mesmo assim? Esperar seria uma tortura.
Vou até ele.
Saí para a varanda por um segundo e olhei na direção do quarto dele. Nenhuma luz. Ia bater mesmo assim.
Ou eu podia esperar. Ou nem ir.
A ideia de não ir de repente era a coisa que eu mais queria na vida. Ficava me puxando, chamando minha atenção suavemente, como alguém que já tivesse sussurrado uma ou duas vezes enquanto eu dormia, mas, ao ver que eu não acordava, finalmente batesse no meu ombro, e no momento isso me incentivava a procurar por qualquer motivo para adiar a ida até o quarto de Oliver naquela noite. O pensamento me invadiu como a água na vitrine da floricultura, como uma loção calmante e refrescante que você passa depois do banho ao fim de um dia inteiro no sol, ainda amando o sol, mas amando mais o bálsamo. Como uma loção entorpecente, o pensamento passa primeiro pelas suas extremidades e depois penetra no restante do corpo. Dando todo tipo de argumento, a favor, contra, a começar pelos bobos — é muito tarde para fazer qualquer coisa — até chegar nos mais importantes — como você vai encarar os outros, como vai encarar a si mesmo?
Por que eu não tinha pensado nisso antes? Porque queria saborear e guardar para o final? Seria pela vontade de que os argumentos surgissem por conta própria, sem que eu tivesse que reuni-los e assim não fossem minha culpa? Não tente, não tente isso, Elio. Era a voz do meu avô. Eu recebera o nome dele, e meu avô estava falando comigo da mesma cama na qual tinha atravessado uma divisa muito mais ameaçadora do que a que existia entre meu quarto e o de Oliver. Volte. Quem sabe o que você vai encontrar naquele quarto? Não o tônico da descoberta, mas a mortalha do desespero quando o desencanto tiver tomado cada nervo de seu corpo. Os anos estão olhando para você agora, cada estrela que você vê hoje já conhece seu tormento, seus ancestrais estão reunidos aqui e não têm nada a oferecer ou dizer, Non c’andà, não vá até lá.
Mas eu amava o medo — se era realmente medo —, e isso meus ancestrais não sabiam. Era o lado subjacente do medo que eu amava, como a lã mais macia encontrada na barriga da ovelha mais áspera. Eu amava a ousadia que me impulsionava, me excitava, porque eu tinha nascido da excitação. “Você vai me matar se parar”… ou seria: “Vou morrer se você parar.” Cada vez que eu ouvia essas palavras, não conseguia resistir.
Bati no vidro, devagar. Meu coração batia enlouquecidamente. Não tenho medo de nada, então por que temer? Por quê? Porque tudo me assusta, porque tanto o medo quanto o desejo estão ocupados enganando um ao outro e a mim, não sei nem diferenciar o desejo de que ele abra a porta da esperança do desejo de que ele me dê um bolo.
Mas, imediatamente após bater no vidro, ouvi algo lá dentro, como alguém procurando os chinelos. Então percebi uma luz fraca se acender. Lembro de ter comprado o abajur em Oxford com meu pai certa noite no início da primavera anterior, porque o quarto do hotel era muito escuro. Meu pai tinha descido e voltado dizendo que havia uma loja vinte e quatro horas que vendia abajures virando a esquina. Espere aqui, eu já volto. Mas eu disse que ia com ele. Coloquei o casaco por cima do mesmo pijama que estava usando naquela noite.
— Que bom que você veio — disse ele. — Ouvi a movimentação no seu quarto e por um instante pensei que você estava se arrumando para dormir e tinha mudado de ideia.
— É claro que eu vinha.
Era estranho vê-lo agitado daquela maneira. Eu esperava uma chuva de pequenas ironias, por isso estava nervoso. Em vez disso, fui recebido com explicações, como alguém que se desculpa por não ter tido tempo de comprar biscoitos melhores para o chá da tarde.
Entrei no meu antigo quarto e fui imediatamente pego de surpresa por um cheiro que não conseguia identificar, porque podia ser a combinação de tantas coisas, até que percebi a toalha enrolada enfiada debaixo da porta. Ele estava sentado na cama, um cinzeiro meio vazio em cima do travesseiro direito.
— Entre — disse ele, e fechou a porta da varanda.
Eu devia estar parado ali, sem vida e congelado.
Nós dois sussurrávamos. Bom sinal.
— Não sabia que você fumava.
— Às vezes.
Ele voltou para a cama e sentou bem no meio.
— Estou nervoso — resmunguei. Não sabia o que fazer ou dizer.
— Eu também.
— Eu mais que você.
Ele tentou sorrir para disfarçar a estranheza entre nós e me passou o baseado.
Aquilo me deu algo para fazer.
Lembrei de como quase o abracei na varanda, mas me segurei a tempo pensando que um abraço depois de momentos tão frios entre nós o dia todo não era adequado. Só porque alguém diz que vai ver você à meia-noite não quer dizer que você deva automaticamente abraçá-lo, uma vez que se cumprimentaram dando as mãos a semana toda. Lembrei de ter pensado antes de bater: Abraçar. Não abraçar. Abraçar.
Agora eu estava dentro do quarto.
Ele estava sentado na cama, pernas cruzadas. Parecia menor, mais jovem, eu estava ao pé da cama, desajeitado, sem saber o que fazer com as mãos. Ele deve ter percebido minha dificuldade quando as coloquei no quadril, depois no bolso, e no quadril de novo.
Estou parecendo ridículo, pensei. Aquilo e o quase abraço que contive e que esperava que ele não tivesse percebido.
Eu me sentia uma criança que estava sozinha pela primeira vez com o professor na sala de aula.
— Venha, sente.
Ele estava se referindo à cadeira ou à cama?
Sem saber o que fazer, me abaixei e sentei de frente para ele, pernas cruzadas também, como se fosse o protocolo aceito entre homens que se encontravam à meia-noite. Eu me certifiquei de que nossos joelhos não se tocassem. Porque ele se incomodaria se isso acontecesse, e se incomodaria com o abraço, como se incomodou quando, em busca de uma maneira mais clara de demonstrar que eu queria ficar um pouco mais no penhasco, coloquei minha mão em sua genitália.
Mas, antes que eu tivesse a chance de exagerar a distância entre nós, me senti como se tivesse sido lavado pela água que desce a vitrine da floricultura, como se ela removesse toda a minha vergonha e todas as minhas inibições. Nervoso ou não, eu não queria mais examinar minuciosamente cada um de meus impulsos. Se eu for burro, que eu seja burro. Se tocar seu joelho, que toque seu joelho. Se quiser abraçar, vou abraçar. Eu precisava me apoiar em alguma coisa, então me arrastei até a cabeceira e me encostei ao lado dele.
Olhei para a cama. Eu via claramente agora. Era ali que passaria tantas noites sonhando com aquele momento. Aqui estava eu. Em algumas semanas, estaria de volta à mesma cama. Acenderia o abajur de Oxford e me lembraria de ter ficado na varanda ouvindo o barulho de seus pés procurando pelos chinelos. Fiquei me perguntando se a lembrança traria tristeza. Ou vergonha. Ou indiferença, era o que eu esperava.
— Tudo bem? — perguntou ele.
— Tudo bem.
Não havia absolutamente nada a dizer. Aproximei meus dedos dos pés dos dele e os toquei. Então, sem pensar, enfiei meu dedão entre o dedão e o segundo dedo dele. Ele não recuou, não reagiu. Eu queria tocar cada dedo dele com o meu. Como estava sentado à sua esquerda, aqueles provavelmente não eram os dedos que tinham me tocado no almoço naquele dia. Era o pé direito dele o culpado. Tentei alcançá-lo com meu pé direito, tentando não tocar seus joelhos, como se algo me dissesse que eles estavam fora dos limites.
— O que você está fazendo? — indagou ele.
— Nada.
Eu não sabia, mas seu corpo começou gradualmente a retribuir o movimento, um tanto distraído, sem convicção, não menos estranho que o meu, como se dissesse O que mais podemos fazer a não ser responder da mesma forma quando alguém toca nossos dedos dos pés com seus dedos dos pés? Depois disso, me aproximei e, em seguida, o abracei. Um abraço de criança que eu esperava que ele entendesse como uma aceitação. Ele não respondeu.
— É um começo — disse finalmente, talvez com um pouco mais de humor na voz do que desejava.
Em vez de falar, dei de ombros, esperando que ele entendesse o gesto e não fizesse mais perguntas. Eu não queria que falássemos. Quanto menos falássemos, mais livres nossos movimentos seriam. Gostei de abraçá-lo.
— Isso deixa você feliz? — perguntou ele.
Assenti, esperando, mais uma vez, que ele sentiria o gesto sem que eu precisasse responder com palavras.
Enfim, como se minha posição o persuadisse a imitá-la, ele me abraçou também. Não foi um abraço carinhoso nem forte. A última coisa que eu queria naquele momento era camaradagem. Por isso, sem interromper o abraço, soltei um pouco os braços, tempo suficiente para colocar as duas mãos embaixo da camisa dele e retomar a força. Eu queria sua pele.
— Você tem certeza de que é isso que você quer? — perguntou Oliver, como se essa dúvida tivesse sido o motivo de sua hesitação durante todo aquele tempo.
Assenti mais uma vez. Estava mentindo. Naquele momento, eu não tinha certeza de nada. Eu me perguntava quando aquele abraço chegaria ao fim, quem, eu ou ele, cansaria daquela posição. Em breve? Depois? Agora?
— Nós não conversamos — disse ele.
Dei de ombros, querendo dizer Não precisa.
Ele levantou meu rosto com as mãos e me encarou como naquele dia no penhasco, desta vez com ainda mais intensidade, porque nós dois sabíamos que já não havia mais volta.
— Posso beijar você?
Que pergunta, depois daquele beijo no penhasco! Ou já tínhamos virado a página e estávamos começando tudo de novo?
Não respondi. Sem assentir, eu já estava com os lábios nos dele, exatamente como tinha beijado Marzia na noite anterior. Algo inesperado pareceu acabar com a distância entre nós, e parecia não haver mais nenhuma diferença de idade, éramos apenas dois homens se beijando, e até isso pareceu se dissolver, me deixando com a sensação de que nem éramos dois homens, apenas dois seres. Amei o igualitarismo do momento. Amei me sentir jovem e velho, de humano a humano, de homem a homem, de judeu a judeu. Amei a luz do abajur. Dava uma sensação de conforto e segurança. Como naquela noite no quarto de hotel em Oxford. Amei até mesmo aquele quarto sem graça, cheio de coisas dele, e que de alguma forma parecia mais habitável sob sua administração do que tinha sido sob a minha: uma foto aqui, uma cadeira transformada em mesinha de canto, livros, cartões, música.
Decidi entrar embaixo das cobertas. Amei o cheiro. Quis amar o cheiro. Gostei até do fato de ter coisas que não haviam sido tiradas de cima da cama, e não me incomodou ficar batendo o joelho nelas e enfiando o pé embaixo delas, porque eram parte da sua cama, da sua vida, do seu mundo.
Ele também entrou embaixo das cobertas e, antes que eu pudesse me dar conta, começou a tirar minha roupa. Eu tinha ficado preocupado, pensando em como ia ficar nu, em como, caso ele não ajudasse, ia fazer o que tantas garotas fazem nos filmes, tirar a camiseta, abaixar a calça e ficar ali, pelado, os braços ao lado do corpo, como quem diz: Aqui estou eu, sou assim, venha, me tome, sou seu. Mas ele tinha resolvido o problema.
— Isso sai, e isso sai, e isso sai, e isso sai… — sussurrou ele.
Aquilo me fez rir e, de repente, eu estava totalmente nu, sentindo o peso do lençol no meu pau, e não havia mais nenhum segredo no mundo, porque o desejo de estar na cama com ele era meu único segredo, e agora estava compartilhando a cama com ele. Como era maravilhoso sentir suas mãos por todo o meu corpo embaixo dos lençóis, parecia que parte de nós, como um grupo adiantado de exploradores, já tinha chegado à intimidade, enquanto o restante, exposto do lado de fora dos lençóis, ainda estivesse lidando com minúcias, como os retardatários batendo os pés no frio enquanto todos já estão se aquecendo do lado de dentro da boate lotada. Ele ainda estava vestido, e eu, não mais. Amei ficar nu diante dele. Então ele me beijou, e me beijou de novo, mais profundamente na segunda vez, como se também estivesse por fim se libertando. Em algum momento percebi que ele já estava nu havia um tempo, embora não tenha percebido quando tirou a roupa, mas ali estava ele, nenhuma parte do seu corpo não me tocava. Onde eu havia estado? Tinha pensado em fazer a pergunta delicada, mas ela também já parecia ter sido respondida havia um tempo, porque quando finalmente tive coragem de perguntar, ele respondeu:
— Eu já disse, estou bem.
— Eu disse que também estava bem?
— Sim.
Ele sorriu. Desviei o olhar, porque ele estava me encarando, e eu sabia que estava vermelho, e sabia que faria uma careta, embora quisesse que ele continuasse me encarando mesmo que aquilo me deixasse envergonhado, e queria continuar a encará-lo quando assumimos a posição que simulava uma luta livre, seus ombros roçando meus joelhos. Como tínhamos avançado desde aquela tarde em que tirei minha cueca e coloquei seu calção de banho e pensei que aquilo seria o mais perto que seu corpo chegaria do meu. Agora isso. Eu estava na cúspide de algo, mas também queria que durasse para sempre, porque sabia que a partir dali não havia mais volta. Quando aconteceu, aconteceu não como eu sonhei, mas com um grau de desconforto que me obrigou a revelar mais de mim do que eu gostaria. Tive um impulso de interrompê-lo e, quando ele percebeu, perguntou, mas eu não respondi, ou não sabia o que responder, e uma eternidade pareceu passar entre minha relutância em relação a tomar aquela decisão e o impulso dele de decidir por mim. Deste momento em diante, pensei, deste momento em diante… tive, como nunca antes, a nítida sensação de ter chegado a um lugar muito estimado, de querer aquilo para sempre, de ser eu, eu, eu, eu e mais ninguém, só eu, de encontrar em cada arrepio que percorria meus braços algo completamente novo, mas nada estranho, como se aquilo fizesse parte de mim a vida inteira, algo que eu tivesse perdido e ele tivesse me ajudado a encontrar. O sonho estava certo… era como voltar para casa, como perguntar Onde eu estive todo esse tempo? Que era outro jeito de perguntar Onde você estava durante minha infância, Oliver? Que era ainda outro jeito de perguntar O que é a vida sem isso? Motivo pelo qual, no fim das contas, fui eu, e não ele, que deixou escapar, não uma, mas muitas, muitas vezes Você vai me matar se parar, você vai me matar se parar, porque também era meu jeito de unir o sonho e a fantasia, eu e ele, as palavras tão esperadas de sua boca para a minha boca e de volta para a dele, trocando palavras de boca em boca, que foi quando devo ter começado a proferir obscenidades que ele repetia depois de mim, baixinho no início, até que disse:
— Me chame pelo seu nome e eu vou chamar você pelo meu.
Era algo que eu nunca tinha feito na vida e, assim que disse meu próprio nome como se fosse dele, fui levado a um domínio que nunca tinha compartilhado com ninguém, e que não compartilhei desde então.
* * *
Será que fizemos barulho?
Ele sorriu. Nada com o que se preocupar.
Acho que devo até ter chorado, mas não tinha certeza. Ele pegou a camisa e me limpou. Mafalda sempre procurava os sinais. Não vai encontrar nenhum, disse ele. Chamei sua camisa de “esvoaçante”, você usou no primeiro dia, tem mais de você do que de mim. Duvido, disse ele. Oliver ainda não tinha me soltado, mas enquanto nossos corpos se separavam, acho que me lembrei, embora vagamente, de que minutos antes eu tinha empurrado um livro que foi parar nas minhas costas enquanto ele ainda estava dentro de mim. Agora estava no chão. Quando foi que percebi que era um exemplar de Se l’amore? Como tive tempo, no calor da paixão, de me perguntar se ele tinha ido à festa na mesma noite que estive na livraria com Marzia? Pensamentos estranhos que pareciam vir de um tempo distante, apesar de não ter passado mais de meia hora.
Devo ter lembrado um tempo depois, quando ainda estava em seus braços. A lembrança me acordou antes mesmo que eu percebesse que tinha cochilado, causando uma sensação de pavor e ansiedade que eu nem conseguia compreender completamente.
Eu me senti enjoado, como se precisasse não só de vários banhos para lavar tudo aquilo, mas mergulhar em enxaguante bucal. Eu precisava ir para longe — dele, daquele quarto, do que tínhamos feito juntos. Era como se eu estivesse despertando devagar de um pesadelo horrível, mas ainda não estivesse acordado e não tivesse certeza de que queria isso, porque o que me esperava não seria muito melhor, embora eu soubesse que não deveria me prender àquele pesadelo gigante e amorfo que parecia a maior nuvem de autoaversão e arrependimento que já tinha pairado sobre a minha vida. Eu nunca mais seria o mesmo. Como eu tinha permitido que ele fizesse aquelas coisas comigo, e eu tinha participado delas com tanta vontade, e as incentivado, esperado por ele, implorando, Por favor, não pare. Agora a gosma dele estava presa em meu peito como prova de que eu tinha cruzado um limite terrível, não em relação a tudo que me era mais caro, nem em relação a mim mesmo, ou a algo sagrado, ou à própria corrida que tinha nos aproximado tanto, nem mesmo em relação à Marzia, que agora parecia uma sirene distante em um recife afundando, distante e irrelevante, lavada por ondas frequentes, enquanto eu tentava nadar até ela, clamando em um redemoinho de ansiedade na esperança de que ela fosse parte de uma coleção de imagens que ajudaria a me reconstituir ao amanhecer. Não foram esses que eu ofendi, mas os que ainda não eram nascidos ou eu ainda não tinha conhecido e a quem eu nunca seria capaz de amar sem me lembrar da vergonha e da repulsa se amontoando na minha vida e na deles. Isso assombraria e macularia meu amor por eles, e entre nós haveria esse segredo capaz de manchar tudo o que há de bom em mim.
Ou será que eu teria ofendido algo ainda mais profundo? O quê?
Ou a aversão que eu sentia sempre esteve ali, embora camuflada, esperando apenas por algo assim para se libertar?
Algo que beirava a náusea, algo como o remorso — o que era, então? — começou a me agarrar e parecia ficar mais nítido quanto mais eu tomava consciência da luz do dia que começava a entrar pelas janelas.
Como a luz, no entanto, o remorso, se é que era remorso, pareceu desaparecer por um instante. Mas quando eu me deitava na cama e me sentia desconfortável, voltava em dobro, como se marcasse um ponto cada vez que eu achava que tinha sentido pela última vez. Eu sabia que ia doer. O que eu não esperava era que a dor se retorceria em golpes repentinos de remorso. Ninguém tinha me contado sobre isso.
Lá fora estava amanhecendo.
Ele estava olhando para mim? Teria adivinhado o que eu estava sentindo?
— Você não está feliz — disse ele.
Dei de ombros.
Não era ele que eu odiava — mas o que tínhamos feito. Não queria que ele olhasse dentro do meu coração ainda. Em vez disso, queria sair daquele pântano de autoaversão e não sabia como.
— Está se sentindo enjoado, não está?
Mais uma vez dei de ombros.
— Eu sabia que não devíamos fazer isso. Eu sabia — repetiu ele. Pela primeira vez na vida o vi balbuciar, ser tomado pela dúvida. — Devíamos ter conversado.
— Talvez — falei.
De todas as coisas que eu poderia ter dito naquela manhã o insignificante “talvez” era a mais cruel.
— Você odiou?
Não, eu não tinha odiado mesmo. Mas o que sentia era pior que ódio. Eu não queria lembrar, não queria pensar naquilo. Só queria deixar de lado. Nunca aconteceu. Tentei e não deu certo para mim, agora eu queria meu dinheiro de volta, rebobine o filme, me leve de volta ao momento em que estava quase saindo descalço para a varanda, não vou dar mais nem um passo, vou sentar, cismar e nunca vou saber… melhor discutir com meu corpo do que sentir o que estava sentindo agora. Elio, Elio, nós avisamos, não avisamos?
Aqui estava eu em sua cama, sem me mexer por conta de um senso exagerado de educação.
— Você pode ir dormir, se quiser — disse ele, talvez as palavras mais gentis que já me disse, com a mão no meu ombro, enquanto eu, como Judas, dizia a mim mesmo, Se ele soubesse. Se soubesse que eu queria estar a léguas e a uma vida de distância dele.
Dei-lhe um abraço. Fechei os olhos.
— Você está olhando para mim — falei, com os olhos ainda fechados.
Eu gostava que olhassem para mim enquanto eu estava de olhos fechados.
Precisava que ele ficasse o mais distante possível para ter chance de me sentir melhor e esquecer — mas precisava dele por perto caso as coisas ficassem ainda piores e eu não tivesse com quem contar.
Enquanto isso, outra parte de mim na verdade estava feliz por aquilo ter acabado. Estava superado. Eu pagaria o preço. As questões eram: Ele entenderia? Ele me perdoaria?
Ou seria mais um truque para impedir outro acesso de aversão e vergonha?
* * *
De manhã cedinho, fomos nadar juntos. Pareceu ser a última vez que estaríamos juntos dessa forma. Eu voltaria para o meu quarto, dormiria, acordaria, tomaria café, pegaria o caderno e passaria as horas maravilhosas da manhã imerso transcrevendo Haydn, sentindo de vez em quando uma pontada de ansiedade que antecipava o desprezo renovado a cada manhã, até lembrar que já tínhamos passado daquele estágio, que ele tinha estado dentro de mim algumas horas antes e que depois havia gozado em meu peito, porque disse que queria, e eu deixei, talvez porque eu ainda não tivesse gozado e me excitava a ideia de ver suas expressões e chegar ao auge bem diante dos meus olhos.
Ele estava andando no mar, com a água quase na altura do joelho, ainda de camisa. Eu sabia o que ele estava fazendo. Se Mafalda perguntasse, ele diria que tinha molhado por acidente.
Juntos, nadamos até a pedra grande. Conversamos. Eu queria que ele achasse que eu estava feliz por estar com ele. Queria que o mar lavasse a gosma do meu peito, mas ali estava seu sêmen, agarrado ao meu corpo. Em pouco tempo, com água e sabão, todas as minhas dúvidas sobre mim mesmo, que haviam começado três anos antes quando um jovem desconhecido parou a bicicleta, desceu, colocou a mão no meu ombro e, com aquele gesto agitou ou apressou algo que talvez levasse muito, muito mais tempo para chegar à consciência — tudo isso poderia finalmente ser lavado também, descartado como um boato maldoso sobre mim, ou uma falsa crença, liberto como um gênio que, após cumprir sua sentença, agora se lavava com o aroma suave e radiante do sabonete de camomila encontrado em um dos banheiros da nossa casa.
Sentamos em uma das pedras e conversamos. Por que não tínhamos conversado assim antes? Eu não teria me desesperado tanto por ele se tivéssemos esse tipo de amizade semanas antes. Talvez tivéssemos evitado dormir juntos. Eu queria contar a ele que tinha transado com Marzia a menos de duzentos metros de onde estávamos agora. Mas não contei. Em vez disso, falamos sobre “Está consumado”, de Haydn, que eu tinha acabado de transcrever. Eu podia falar sobre aquilo sem sentir que o fazia para impressioná-lo, chamar sua atenção ou estabelecer uma conexão frouxa entre nós. Eu podia falar sobre Haydn durante horas… que amizade encantadora poderia ter sido.
Enquanto lidava com a sensação inebriante de ter superado o que sentia por ele e até um pouco de decepção por ter me recuperado com tanta facilidade depois de um feitiço que durou semanas, nunca me ocorreu que aquele desejo de sentar e discutir Haydn de maneira tão estranhamente relaxada como estávamos fazendo era meu ponto mais vulnerável, que se o desejo tivesse que vir à tona, poderia muito bem ser por meio dessa abertura, que eu sempre considerei que fosse a mais segura, como a visão do seu corpo quase nu à beira da piscina.
Em algum momento ele me interrompeu.
— Tudo bem?
— Tudo bem. Tudo bem — respondi.
Então, com um sorriso sem jeito, como se estivesse corrigindo a pergunta inicial, disse:
— Tudo bem em todos os lugares?
Retribuí com um sorriso forçado, sabendo que já estava me fechando, fechando as portas e janelas entre nós, apagando as velas porque o sol tinha finalmente aparecido de novo e a vergonha lança sombras largas.
— Quero dizer…
— Eu sei o que você quer dizer. Dolorido.
— Mas você se incomodou quando eu …?
Virei para o outro lado, como se uma corrente de ar gelado tivesse tocado minha orelha e eu tentasse evitar que atingisse meu rosto.
— Precisamos falar sobre isso?
— Não, não se você não quiser.
Eu usei as mesmas palavras que Marzia proferiu quando eu quis saber se ela havia gostado do que eu tinha feito com ela.
Eu sabia exatamente sobre o que ele queria falar. Queria conversar sobre o momento em que eu quase pedi a ele que parasse.
Agora tudo o que eu pensava, enquanto conversávamos, era que mais tarde eu estaria caminhando com Marzia e sempre que tentássemos nos sentar em algum lugar ia doer. Quanta indignidade. Sentar na muralha da cidade — onde todos que tinham a nossa idade se juntavam à noite quando não estavam nos caffès — e ser obrigado a me contorcer e me lembrar a cada momento do que eu tinha feito naquela noite. A piada frequente entre os garotos. Encarar Oliver vendo eu me contorcer e pensar, É culpa minha, não é?
Desejei que não tivéssemos dormido juntos. Até seu corpo me deixava indiferente. Na pedra onde estávamos sentados, olhei para seu corpo como alguém que olha para camisas e calças velhas separadas para doação.
Ombro: Ok.
Área entre o cotovelo interno e o externo, que um dia venerei: Ok.
Genitália: Ok.
Pescoço: Ok.
Curvas do damasco: Ok.
Pé — ah, aquele pé: mas, sim, Ok.
Sorriso, quando ele perguntou Tudo bem em todos os lugares: sim, ok também. Melhor não arriscar.
Amei todas essas coisas. Toquei-as como um gambá que se esfrega nos objetos que cobiça. Todas foram minhas por uma noite. Não as queria agora. O que não conseguia lembrar, menos ainda entender, era o que tinha me levado a desejá-las, a fazer tudo o que tinha feito para estar perto delas, tocá-las, dormir com elas. Depois de nadarmos, tomaria o banho tão esperado. Esqueça, esqueça.
Enquanto voltávamos nadando, ele perguntou como se fosse um pensamento tardio:
— Você vai me culpar pela noite passada?
— Não — respondi.
Mas respondi muito rápido para alguém que estivesse falando a verdade. Para amenizar a ambiguidade do meu não, disse que provavelmente ia querer dormir o dia todo.
— Acho que não vou conseguir andar de bicicleta hoje.
— Porque… — ele não estava fazendo uma pergunta, estava oferecendo a resposta.
— Sim, porque.
Ocorreu-me que um dos motivos que me fez decidir não me distanciar dele muito rapidamente não era para não ferir seus sentimentos, deixá-lo preocupado ou causar uma situação estranha e incômoda em casa, mas porque eu não tinha certeza de que em algumas horas não o desejaria outra vez.
Quando chegamos à varanda, ele hesitou à porta e entrou no meu quarto. Aquilo me pegou de surpresa.